Vida e obra de Oswaldo Cruz

Clementino Fraga · Capítulo 26 de 36

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Vida e obra de Oswaldo Cruz

Capítulo XXII – A primeira homenagem

Capítulo XXII – A primeira

 

homenagem

 

EM DEZEMBRO de 1906, o Prof. Rubner, diretor de Higiene de Berlim, em nome do govêrno alemão, convidou o Brasil a participar da exposição de higiene, anexa ao 4.° Congresso Internacional de Higiene e Demografia, a realizar-se em setembro de 1907.

Decidiu Osvaldo Cruz comparecer, concorrendo ao certame com material especializado, referente às moléstias chamadas tropicais. Documentário das campanhas agressivas contra a febre amarela e a peste, bem como material patológico acumulado em Manguinhos, foi transportado em tempo, disposto na seção brasileira com a paciência e cuidado que Osvaldo sabia dar a seus empreendimentos.

A exposição de peças anatômicas em gelatina de Kaiserling, coleções entomológicas, modelos das instalações de Manguinhos, de câmaras de isolamento, preparados do Instituto (soros, vacinas, tuberculina, maleína etc.), gráficos magníficos do serviço de demografia e fotografias, peças e maquetas traziam legendas em francês, alemão, inglês e português, tudo disposto em belos armários de madeira brasileira, especialmente escolhida. Como é natural, a exposição do Brasil despertou logo grande curiosidade dos congressistas.

Na manhã de 27 de outubro, o Boletim do Congresso publicava que o 1.º prêmio – medalha de ouro – havia sido conferido ao Brasil.

A notícia repercutiu no Rio de Janeiro, deixando grande impressão, bem aquilatada sua verdadeira significação pela classe médica. A Academia Nacional de Medicina telegrafou a Osvaldo felicitando-o. A imprensa estampa noticiário congratulatório, exaltando a honra. Relatando as peripécias do êxito, escreveu Osvaldo de Paris, por onde gizar seu feitio moral:

 

"Obrigado pelas boas palavras de animação que me enviaste em relação ao resultado da Exposição.

 

Pedes que te diga (se estiver de bom humor)1 quais as peripécias da batalha(?) que nos trouxe como resultado o primeiro prêmio. Gostosamente vou te referir o que se passou, que aliás tudo muito simples: o Rocha Lima. com as excelentes relações que tem aqui, obteve-nos os melhores lugares e fez uma propaganda lenta pela palavra e, sobretudo, com o exemplo de trabalho a respeito de nosso Instituto. O terreno estava amanhado. Chegando o material foi êle instalado com gôsto e arte pelo Morais, que organizou paredes forradas de veludo etc. Nosso material era, graças ao trabalho do Vasconcelos, da melhor qualidade. A semente era boa e, lançada em terreno preparado com carinho e paciência, germinou fàcilmente. Colocamo-nos o Rocha Lima e eu ao lado da Exposição e como cicerones interessados informávamos os visitantes de tudo, fazendo uma propaganda forte. Fizemos imprimir uns folhetos (de que te envio alguns exemplares para distribuíres com os nossos companheiros de trabalho), que produziram um enorme efeito. O Instituto foi-se levantando a olhos vistos e no fim da exposição não se falava senão no Brasil e formava-se uma corrente contínua para nossas seções. Foi sob essa impressão que o Júri teve que julgar. O Rubner, presidente do Júri, tinha sido professor do Rocha Lima e sabia da seriedade e do modo por que se trabalha no Instituto, e, à vista do material apresentado, que êle estudou com tôda a minúcia, influiu com sua autoridade sôbre os demais juízes e... assim foi ganha a batalha, cujos louros competem ao Rocha Lima e Vasconcelos, sobretudo, em parte ao Morais. E eu, em tudo isso, representei o papel de "medalhão", colhendo os frutos sazonados e saborosos da sementeira feita por aquêles cujos nomes foram esquecidos. Não quero calar os últimos sucessos da Exposição. Encerrada esta, ofereci os dois armários: um ao Hoffmann, um

dos descobridores do micróbio da sífilis, e outro à Academia de Medicina Frederico Guilherme, que assumiu a direção da Exposição. o material de febre amarela ofereci ao Instituto de Higiene de Ficker e Rubner. Uma outra parte do material foi para a Escola de Méd. Tropical de Hamburgo e de Londres e outra para Heidelberg. Pois bem, o Hoffmann escreveu-me, dizendo que nosso armário ia servir para nêle serem guardados tôdas as peças que serviram ao Schaudinn para a descoberta que fêz. E o Ficker declarou-me que val organizar com o material que oferecemos e com outro que lhe prometemos uma "seção brasileira" de museu de higiene da Universidade. Vê que bonito! Tenho recebido várias cartas de sábios de notoriedade felicitando-nos pelo sucesso obtido e pedindo-nos material para seus Institutos."

 

Ao regressar ao Rio de Janeiro, depois de ter ido ao México, passando pelos Estados Unidos, onde afirmou ao Presidente Th. Roosevelt que a esquadra americana poderia desembarcar no Rio em pleno verão, Osvaldo foi recebido entusiàsticamente. Portou-se com simplicidade, quase com mal dissimulado constrangimento, ante as manifestações de milhares de pessoas, comprimidas no Cais Pharoux, à sua espera. Vi-o nesse momento, talvez dos mais angustiosos de sua vida. Pelo braço do chefe de Polícia de então, venceu a curiosidade da multidão, galgando o carro que o conduziu à residência, por entre vivas e aclamações. Recostado no fundo do veículo, uma ou outra vez levantou a cabeça descoberta, para agradecer, sem jeito e sem sinal de aprazimento.

No Rio teve notícia das homenagens estrangeiras: fôra eleito presidente honorário do Congresso de Otorrinolaringologia, naquela época reunido em Viena; a Escola de Doenças Tropicais de Hamburgo escolheu-o para membro da Comissão do "Prêmio Schaudinn". Apenas dez países foram contemplados: Alemanha, Áustria, Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Japão, Portugal, Rússia.

Não tardou, dessa vez, a justiça oficial. Por decreto de 20 de março de 1908, o Instituto de Manguinhos passou a chamar-se Instituto Osvaldo Cruz. Desnecessário seria acentuar a justiça da homenagem que ao Instituto deu a consagração de seu nome, afortunando a obra, tempos adiante, no prestígio perene do seu exemplo de saber e amor ao trabalho.

A propósito, refere Ezequiel Dias:2 alguém que o felicitava por ter o govêrno dado o nome de Osvaldo Cruz ao antigo Instituto de Manguinhos, respondeu o mestre, entre sério e risonho, que nada tinha a ver com essa homenagem.

— Como assim?

— Porque êsse não é o meu nome."

Realmente, quem rebuscar os arquivos à procura de papéis por êle assinados, dificilmente encontrará firmados por seu punho êsses dois nomes. Oficialmente, assinava-se – GONÇALVES CRUZ, ou então, abreviadamente, como rubrica – GLS. CRUZ. Nas cartas íntimas, o simples prenome: OSVALDO. Em escrituras, atos solenes: DR. OSVALDO GONÇALVES CRUZ.

No entanto, o Brasil inteiro o conhecia por "OSVALDO CRUZ".

Quando, em agôsto de 1909, estêve reunido, no Rio de Janeiro, o 4.° Congresso Latino-Americano, foi votada uma moção de reconhecimento ao "fundador da Escola de Medicina Experimental", e diretor-geral de Saúde Pública do Brasil. O Brasil-Médico havia tomado a iniciativa de materializar o reconhecimento da classe médica numa medalha de ouro, naquela data já cunhada. Tem a medalha, no anverso, a efígie do homenageado, e, no verso, a gravação, em relêvo, do Instituto Osvaldo Cruz. Duas frases latinas, uma de Celso e outra de Virgílio: "Causae aestimatio saepe morbum solvit" (o conhecimento da causa da moléstia basta muitas vêzes para extingui-la), Celso; a outra, celebra a memória dos grandes vultos humanos

— "Quique sui memores allos fecere merendo Omnibus his nives cinguntur tempora vitta", Virgílio.

Um álbum de finogôsto traz a seguinte dedicatória, subscrita por mil e quarenta e duas assinaturas de médicos brasileiros:

 

A classe médica do Brasil uniu-se no mesmo sentimento de estima e admiração para oferecer ao Dr. Osvaldo cruz a medalha comemorativa dos seus grandes serviços à pátria e à humanidade. Espera ser esta justa homenagem confirmada pela posteridade, quando pelo voto unânime da Nação se erguer em uma das praças desta capital a estátua do ilustre médico. Confiando nas revelações da ciência com a sincera convicção de um apóstolo, conseguiu êle tirar-lhe a lutuosa mortalha, que a envolvera durante tantos anos, fazendo aparecer diante de todos os habitantes do

mundo civilizado, em vez da sinistra visão que os apavorava, a mais bela, a mais sedutora, a mais atraente, a mais encantadora das cidades do universo. Espera também a classe médica que em uma das faces do pedestal désse egrégio monumento de gratidão pública hão de figurar, em alto-relêvo, as gravuras da sua medalha comemorativa, com as legendas e os emblemas destinados a transmitir às gerações futuras o testemunho solene dos contemporâneos que assistiram ao milagre operado pela ciência.

Assim, os amigos e colegas, cultores da mesma ciência, fraternizados no mesmo sentimento, se associarão à merecida glória, que deve premiar a dedicação e a virtude de um verdadeiro sábio na ciência que professam.

São muitas vêzes ingratos os homens nos seus entusiasmos. Jamais deixou de obter aclamações universais a fama conquistada com a incalculável mortandade dos sangrentos campos de batalha. Tem sido muitas vêzes desprezada e nem sempre prezada como merece afama dos magnânimos salvadores de vidas humanas, travando luta no campo estreito e obscuro do seu gabinete de estudo para preservá-las da fúria de agentes de extermínio, mais terríveis e mortíferos do que os poderosos exércitos. Spencer já fêz esta mesma observação, demonstrando-a com a evidência dos fatos. Dentre êstes, o que lhe pareceu mais notável foi o confronto dos grandiosos monumentos erigidos à glória de Napoleão, fundada no cruento sacrifício de milhões de vidas humanas, com a estatueta erigida na Escócia para celebrar a glória de Jenner, que descobrira o meio de livrar da destruição populações inteiras de cidades e estados flagelados pela varíola. Mas, também é verdade que em todos os corações generosos se conserva ereto e imperecível o monumento de gratidão aos benfeitores, verdade que nas inteligências cultas, que seguem com esclarecido entusiasmo o progresso da razão humana, se conserva igualmente inapagável o reflexo da luz sublime, revelada por aquêles que parecem destinados a caminhar à frente da humanidade, guiando-a na jornada gloriosa da civilização.

Não é só nos Campos Elísios que as almas dos que praticaram durante esta primeira vida ações dignas de memória, cingem a fronte com a auréola da imortalidade, como dizem os versos de Virgílio gravados na medalha comemorativa. A cidade do Rio de Janeiro jamais se esquecerá de quem a salvou da febre amarela. Os sábios não poderão jamais olvidar em seus estudos os trabalhos, as experiências e as indicações do criador e diretor do benemérito Instituto, tão sàbiamente fundado e dirigido, que, em pouco tempo, os seus preparados, as suas análises e as suas investigações cientificas o têm colocado ao nível dos primeiros institutos congêneres do mundo, merecendo que os pôderes públicos da Nação o

tomassem conhecido pelo nome ilustre do seu fundador e adquirindo universal nomeada com a recente descoberta do micróbio da varíola.

O Brasil inteiro sentiu-se comovido, como se cada um dos seus cidadãos recebesse a excelsa recompensa, quando os sábios reunidos em Congresso, em uma das mais cultas capitais do mundo civilizado, consagraram com o primeiro prêmio o grande Instituto Nacional, cuja merecida glória se confunde com a do seu criador.

Os serviços comemorados na áurea medalha já foram confirmados pela competência cientifica do 4.° Congresso Médico Latino-Americano, que a tomou também sua, contribuindo para ajusta homenagem da classe médica e destinando uma das suas sessões para a solenidade da oferta.

A glória de Osvaldo Cruz é a da sua classe; é a da sua pátria; é a dos intelectuais de todo o mundo – de todos os homens cultos ou ignorantes, que devem recompensar com a sua gratidão o insigne benfeitor da humanidade. Que esta glória puríssima seja aclamada hoje e em todos os tempos, por nacionais e estrangeiros, assim pelos brasileiros pobres protegidos pela ciência na sua humilde existência de trabalhos e privações e pelas famílias imigrantes que vêm procurar no Brasil o refúgio da miséria, como pelos afortunados que habitam com as suas riquezas nas cidades mais prósperas e felizes.

Vitrúvio disse que tomar uma cidade salubre é o mesmo que reconstruí-la. Osvaldo Cruz reergueu a cidade do Rio de Janeiro, livrando-a do tributo de vidas que pagava ao flagelo tirânico da febre amarela e do terror que a afastava do resto do mundo, porque êsse terrível inimigo parecia escolher as vítimas entre os seus mais ilustres hóspedes, distintos na cultura das letras, das artes, da indústria e do comércio.

Nos tempos heróicos eram celebrados com honras quase divinas os que libertavam os povos das ameaçadoras e assoladoras calamidades figuradas na mitologia antiga sob a forma de monstros medonhos e horrendas e esfinges. A febre amarela era uma esfinge pestilenta, cujo sinistro enigma debalde haviam procurado decifrar os eminentes professôres que procederam a Osvaldo Cruz na direção da higiene pública. São certamente dignos da gratidão nacional os esforços por êles empregados para resolver sàbiamente o difícil problema de que dependia a sorte de milhares de homens e o crédito do Brasil no estrangeiro. Mais feliz, Osvaldo Cruz alcançou a glória imortal de ter, com a decifração do enigma pela descoberta de Finlay, conseguido abater a temerosa esfinge no Rio de Janeiro, por sua fé inabalável na ciência e aplicação sistemática da profilaxia especifica.

Assim, é justa a legenda da medalha comemorativa, repetindo as palavras de Celso, no seu célebre livro clássico sôbre a Medicina: 'Causae aestimatio saepe morbum solvit.'

Rio de Janeiro, 5 de agôsto de 1909."

 

***

A 5 de agôsto, data do aniversário de Osvaldo Cruz, foi entregue a medalha do Instituto, pelos membros do Congresso, e, como não houvesse neste sala para conter o número dos manifestantes, em quente manhã de sol, ao ar livre, pela palavra do Prof. Azevedo Sodré, presidente do Congresso, teve início a gratíssima homenagem:

"Por iniciativa do Brasil-Médico, revista semanal de medicina e cirurgia, que se publica nesta cidade há vinte e dois anos e da qual me orgulho de ter sido o fundador, resolveu a classe médica brasileira render pública e solene homenagem de aprêço ao nosso eminente colega Dr. Osvaldo Cruz, pelo relevante e inolvidável serviço prestado à nossa Pátria, extinguindo a febre amarela no Rio de Janeiro.

A Comissão organizadora da 4.ª reunião de médicos da América Latina, convencida do alcance altamente humanitário, da obra grandiosa empreendida e levada a efeito pelo nosso ilustre patrício; certa de que, se ela trouxe inestimáveis benefícios para o Brasil, consultou igualmente os mais vitais interêsses do continente americano; persuadida de que, se ela nos libertou do cancro voraz que nos corroía as entranhas e nos insulava no convívio das nações, projetou também uma sombra benéfica e protetora sôbre os povos vizinhos, que viviam em contínua ameaça de importação do terrível flagelo; convencida de que suprimindo ela o pábulo da maledicência e do descrédito, anulando a causa de retraimentos e malquerenças, concorreu em larga escala para esta confraternidade que tanto almejamos; resolveu associar-se com inteira abundância de coração à generosa iniciativa da classe médica brasileira, incluindo no programa do 4.° Congresso esta tão justa quão merecida homenagem para convertê-la em uma verdadeira consagração latino-americana.

Não careço descrever-vos, senhores, os malefícios que a febre amarela nos trouxe, a ação daninha e perturbadora que sôbre a prosperidade e desenvolvimento do nosso país ela exerceu durante mais de meio século, dizimando a nossa população, ferindo-a de preferência nas suas obras vivas, no que possuía de mais seleto, robusto e vigoroso, pesando como um vilipêndio sôbre esta bela cidade, acoimada de foco da pestilência, de antecâmara da morte, apegando-se à nossa reputação como um labéu ignominioso que se refletia sôbre o Brasil inteiro, apontado ao mundo como um país inóspito, insalubre e refratário à imigração européia.

Não careço pintar-vos, senhores, a amargura, a humilhação que sentíamos, vendo feridos de anátema cruel os navios que demandavam o nosso pôrto; vendo os estrangeiros fugirem de nossas plagas verdejantes e quando em trânsito debruçarem-se sôbre as amuradas dos transatlânticos para de longe apreciarem a nossa natureza prodigiosa, o nosso torrão encantado, de belezas inigualáveis, que certo se lhes afiguraria a terra prometida, a Canaã dos seus sonhos, se não divisassem nos umbrais dêste paraíso terreno a sinistra legenda dantesca.

Não careço lembrar-vos a boa vontade, a dedicação e os esforços empregados durante mais de meio século por todos os nossos colegas de classe, quando investidos de uma parcela de autoridade, para nos libertarem do terrível flagelo. Tudo, porém, fôra em pura perda; a febre amarela, como um espectro sinistro, erguia-se sempre em nosso caminho funesta e escarninha, zombando da nossa competência científica, da nossa capacidade civilizadora.

Estávamos pagando o habitual tributo durante a estação calmosa de 1903, quando o benemérito e patriótico govêrno do Presidente Rodrigues Alves confiou a direção-geral dos serviços da Saúde Pública ao nosso eminente colega Dr. Osvaldo Cruz. Todos nós o conhecíamos como um môço inteligente e aplicado dedicando-se com decidido pendor aos estudos de laboratório, modesto, circunspecto e pelo menos aparentemente tímido. Ninguém o acreditaria com os predicados do comando, com as qualidades precisas para dirigir uma grande batalha. Entretanto, desde os primeiros atos revelou-se um estrategista consumado, um ótimo general.

Investido no alto pôsto de primeira autoridade sanitária, formulou desde logo o seu plano de combate e, exigindo dos podêres públicos inteira autonomia e os meios necessários para o desempenho da árdua tarefa, assumiu perante a nação o compromisso de extinguir a febre amarela em poucos anos.

Certo, não olvidastes, senhores, o clamor e a vozeria que ergueram em tôrno da nova orientação impressa aos serviços de Saúde Pública pelo nosso distinto colega. Certo não vos passou despercebido o riso de mofa e desdém com que foi acolhido o seu compromisso solene, que para uns não passava de leviana fanfarronada, para outros era apenas um surto de mocidade audaz e inexperiente, mas que para nós, que de perto o conhecíamos, significava uma convicção firme e inabalável, uma fé robusta e intemerata.

Eu me desvaneço, senhores, de ter pertencido desde a primeira hora à falange daqueles que cegamente confiavam no êxito da tarefa por êle empreendida. Desvaneço-me de haver pôsto em proveito dela a pequenina parcela de prestígio moral que me advém da qualidade de professor, de clínico e de jornalista. E quando um ano depois de iniciada a obra, o 2.° Congresso Médico de Buenos Aires, em sessão memorável, discutindo a profilaxia da febre amarela, ia votar uma moção convidando os povos vizinhos a manterem os serviços de desinfecção e isolamento, eu ousei enfrentar uma corrente que no momento se me afigurava vitoriosa, e, pondo em destaque a bancarrota completa dêstes velhos recursos profiláticos no Brasil, tive a fortuna, não de convencer a douta assembléia, que para tanto me faltavam competência e autoridade, mas de ser benevolamente ouvido e atendido na proposta que fiz para ser sobrestado aquêle voto e convertido em uma moção de aplausos e animação ao nosso ilustre patrício. Dois anos depois, apreciando e aplaudindo, do alto da cadeira de presidente da Academia de Medicina, os benéficos resultados por êle colhidos com o emprêgo da nova profilaxia, exortei-o a que prosseguisse sempre confiante e esperançoso, pois já nos soavam aos ouvidos os primeiros toques festivos dos clarins da vitória.

Pois bem, senhores, é para comemorar esta vítória brilhante e promissora que a classe médica brasileira resolveu fazer cunhar uma moeda com a efígie do nosso distinto colega e me incumbiu de lha oferecer hoje, dia do seu aniversário natalício. com os votos de grande estima e aprêço que lhe consagro.

É para festejá-la que nós, médicos latino-americanos, nos reunimos neste Instituto. planejado, criado, mantido e dirigido pelo Dr. Osvaldo Cruz, neste Instituto já famoso pelos seus trabalhos e ensino e que nós hoje convertemos em Capitólio para a sua glorificação: neste Instituto que, mais do que aquela medalha, mais do que um bronze erguido na praça pública, há de perpetuar a memória do grande cientista brasileiro, refletindo em todos os seus recantos a grandiosa obra de ciência e humanidade por êle realizada."

Falaram depois, pelas delegações dos respectivos países, os Drs. Nicolás Lozano, da República Argentina; Cienfuegos, do Chile; Juan Peon de Valle, do México; Fernando Gorriti, do Paraguai; Aguerere, da Venezuela.

Em oração de agradecimento, chega a vez de Osvaldo Cruz:

 

"Não transparecesse com tôda a nitidez o significado da alta distinção que acaba de ser feita ao nome de quem tem a honra de agora vos dirigir a palavra, que estaria êle acabrunhado sob o pêso de tão elevado preito a que, certamente, não poderia resistir a pouca monta de seus méritos pessoais.

Mas, esta brilhante homenagem não visa, está patente, a personalidade de quem, em virtude de nossas disposições legais, está obrigado a representar, para todos os seus efeitos, as corporações, que por títulos diversos se têm recomendado, de maneira imorredoura, à gratidão nacional.

Com efeito, na esfera administrativa, a Diretoria-Geral de Saúde Pública e, na cientifica, o Instituto de Manguinhos têm realizado obras de tal valor que é digno dêles o aplauso que hoje lhes traz a ilustrada classe médica do Brasil, à qual, como requinte de gentileza, se associaram os ilustrados representantes das delegações latino-americanas, que o.fizeram com as palavras cativantes que acabamos de ouvir e que tão alto repercutem em nossos corações de brasileiros.

Quem de perto conhece a dedicação daqueles que tomaram a si a grave responsabilidade de saneamento do Rio de Janeiro; quem os vê levar até ao extremo o cumprimento do dever, quando o exigem as necessidades de momento, quem presenciou o entusiasmo patriótico com que se

dedicaram à campanha de erradicação da febre amarela, ao mesmo tempo que mostravam a mais admirável resignação evangélica, diante das dificuldades e injustiças que no momento se lhes levantavam; quem tudo isto viu bem pode compreender o nobre impulso que vos ditou o procedimento que para com êles, hoje, tivestes.

Explica-se e altamente se justifica que tivésseis querido envolver na mesma atmosfera de louvores aquêles queridos companheiros que, nesta casa, modestos, afastados do bulício da cidade, tendo renegado a todos os prazeres da vida, consagram a existência tóda, tudo, até as próprias vigílias e os momentos sagrados do aconchêgo à família, ao levantamento e consolidação do nome científico de nossa Pátria, colaborando na medida de suas fôrças com aquêles que, entre nós, abraçaram o mesmo ideal.

Senhores! Se êsses devotados patriotas enfrentaram, por vêzes, mágoas e desgostos, acharam hoje certamente para êles o lenitivo necessário na tão carinhosa quão significativa manifestação de solidariedade que lhes fizestes na pessoa de quem, por lei, os representa.

Obrigado, pois, por êles e por mim."