Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo II – Antecedências
EM 1845, era negociante à Rua do Senado, no Rio de Janeiro, Bento Gonçalves Cruz. Casado com D. Guilhermina Pinto Gonçalves Cruz, dois filhos teve o casal: Bento e Emília. Falecidos prematura mente os pais, os dois menores foram criados pelo tio materno José Pinto de Magalhães, que em maus negócios perdeu quanto tinha, inclusive a pequena herança dos sobrinhos, avaliada em cêrca de 80 contos. Foi, pois, com dificuldades que estudou medicina o jovem Bento Gonçalves Cruz. Ainda estudante, serviu como aluno pensionista do Exército em operações na guerra com o Paraguai; pouco depois era nomeado 2.º cirurgião contratado da Armada Nacional, tendo sido condecorado neste pôsto. Em novembro de 1870 defendia tese e recebia o grau de doutor em medicina. Tão depressa diplomado, foi clinicar em São Luís de Paraitinga, no Estado de São Paulo, de onde regressou ao Rio, três meses depois, para casar-se com sua prima Amália Taborda de Bulhões, em 7 de outubro de 1871.
Em terras cansadas que limitam com os municípios de Taubaté, cunha e Lagoinha, São Luís de Paraitinga é uma velha cidade contemporânea dos bandeirantes, de casario colonial invariável e monótono, à margem do rio Paraitinga. Na parte alta da cidade, num prédio de construção antiga, ainda dos portuguêses, residiu o jovem clínico Dr. Bento Gonçalves Cruz e sua mulher, recém-vindos do Rio. A 5 de agôsto de 1872 nascia o primeiro filho, que tomou o nome de Osvaldo, e cinco anos depois, em 1877, o Dr. Bento Cruz transferia-se com sua família para o Rio, onde foi habitar e exercer a profissão no bairro do Jardim Botânico, tendo sido médico da Fábrica Corcovado. Em janeiro de 1886 foi nomeado membro da Junta Central de Higiene Pública; em novembro de 1890 foi provido no cargo de ajudante de inspetor-geral de Higiene; finalmente, em janeiro de 1892, foi nomeado inspetor-geral, cargo correspondente ao de diretor-geral de Saúde, que exerceu pontualmente e em que veio a falecer a 8 de novembro do mesmo ano.
Êstes dados históricos, ainda que breves, servem para configurar sua personalidade. Uma criança órfã de pai e mãe, educada por tios que empobreceram em maus negócios, apanhando na voragem os bens herdados; o adolescente que enfrenta a vida com destemor e logra matrícula na Faculdade de Medicina; o môço estudante que oferece seus serviços e marcha para a guerra; que de volta conclui o curso e vai tentar o exército da profissão numa cidade do interior; o médico de aldeia que constitui família, apenas os filhos atingem a idade escolar, procura outro meio para educá-los; a vida clínica num bairro da capital, depois o exercício de um cargo público, coroando essa vida, assim dinamizada em provas específicas de valor moral. Entre outros, um fato de alta expressão educativa, caracteriza uma individualidade: certa vez o Dr. Bento surpreendeu o filho fumando; advertiu-o dos inconvenientes do fumo, tanto maiores quanto mais precoce o seu uso. Não logrou convencer o filho adolescente, nova vez pilhado em falta. Mostrou-se zangado e triste, e apelou para a afeição que lhe devia merecer. Retorquiu-lhe o filho: "papai também não fuma?" Era um fumante escravizado ao hábito. E eclético, como todos os viciados honestos: fumava cigarros, charutos e cachimbo. Por vêzes tentara deixar o fumo. Dêsse dia em diante não mais fumou. A educação do filho valia tamanho sacrifício do gôzo pessoal. Mas, quantos seriam capazes de realizá-lo? Por essa época, viajando num bonde do bairro onde residia, o filho, munido de uma tesoura de unhas, cortou o vestido de uma velhota que viajava a seu lado. A vítima procurou o Dr. Bento, narrando-lhe a ocorrência com excesso verbal que lhe refletia a indignação. Momentos após seu regresso à casa, recebia o menino que vinha pedir o vestido, para que sua mãe o consertasse. Apenas reparado o estrago foi restituí-lo, pedindo muitas desculpas, dizendo que não dava outro inteiramente nôvo porque seu pai não tinha recursos no momento.
Nesse, como noutros fatos de igual significação, se revela, no chefe de fa mília, o perfeito educador. Falava à inteligência do filho, exortava-o com brandura, trocando protestos de confiança e de mútua compreensão. Jamais castigava, senão com a proibição de pequenos prazeres, sempre liberalizados como prêmio à disciplina filial.
Foi êsse homem o pai de Osvaldo Gonçalves Cruz. A sombra da morte jamais diminuiu no filho a adoração mística por sua memória, ainda recordada nas palavras serenas de um dos parágrafos de suas "Últimas Vontades": "A meus filhos peço que se não afastem do caminho da honra, do trabalho e do dever, e que empunhem como fanai e o elevem bem alto o nome puro e honrado e imaculado que herdei como o melhor patrimônio da Família, e que a êles lego
como o maior bem que possuo". 1
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A Senhora Bento Cruz, D. Amália de Bulhões Cruz, era prima do marido e ainda sobreviveu vinte e nove anos. Foi urna companheira dedicada, que soube compartir das dificuldades de vida do casal, em verdade pontual colaboradora na educação dos filhos.
Aos cinco anos de idade, o único filho varão do casal Bento Cruz já sabia ler e escrever, tendo sido sua mãe a primeira professôra, ainda em São Luís de Paraitinga. A educação doméstica era praticada no lar em todas as suas minúcias; ao menino cabia o cuidado de si mesmo, os hábitos higiênicos, a obrigação de arrumar o seu quarto, compor o leito e o guarda-roupa. Uma feita, ainda na escola primária, recebeu um recado que tomasse à casa sem demora. Havia deixado a carna desfeita... A disciplina era absolutamente rigorosa quanto às horas que devia dedicar ao preparo das lições. Nem um motivo de prazer ou de exceção afastava o menino de sua mesa de trabalho, sob o olhar paterno, nas horas consagradas ao dever.
No Rio, freqüentou os colégios Lauro e S. Pedro de Alcântara, fazendo os exames de humanidades no Externato Pedro II.
Chegado à Faculdade, comparecia assìduamente às aulas e exercícios práticos, sempre despercebido de mestres e colegas, pelo retraimento de sua índole. As provas orais não correspondiam a seu preparo na matéria em aprêço. No exame de química, tanto se perturbou, no momento, que chegou a dizer que o clorofórmio, como anestésico, era administrado pela bôca! Também Pasteur, no exame de bacharelado em ciências, teve a nota "medíocre", em química... Fêz o curso médico em quatro anos e aos vinte estava diplomado. Habituado a trabalhar, relativamente fácil lhe foi galgar do 1.º ao 4.º ano, chegando depressa ao almejado têrmo do curso. Madrugou no caminho, como quem pressente jornada longa e vida breve.
Durante o seu tirocínio na Faculdade, trabalhou no laboratório de Física do Prof. Martins Teixeira e depois na cadeira de Higiene, com o Prof. Rocha Faria.
Conta-se que Francisco de Castro, médico assistente de seu pai, vira-o abismado em vidros e aparelhos de laboratório, no porão da própria residência, e, pressentindo-lhe a capacidade para desenvolver tais estudos, aconselhou-o a fazer um estágio no Instituto Pasteur, de Paris.