Vida e obra de Oswaldo Cruz
Capítulo XI – Combate à peste
EM 1903, além da febre amarela, a estatística demógrafo-sanitária referente ao Rio de Janeiro acusava a existência da peste e da varíola. Para combatê-las esbarrava a ação da autoridade sanitária com a falta de notificação compulsória e de medidas urgentes de polícia sanitária. A reforma de saúde Pública gastou cinco meses no trânsito legislativo.
Desde 1900 a cidade fôra invadida pela peste bubônica. Sua profilaxia limitava-se ao combate aos ratos Mus decumanus (rato de
esgôto) e 1 Mus rattus (rato doméstico). Êstes animais são muito sensíveis à peste, e a epizootia precede sempre o surto epidêmico humano. Em relação ao doente, deve ser imediato o isolamento, e, simultâneamente, a desinfecção, a imunização dos comunicantes e a vigilância sanitária.
São as pulgas que transmitem a peste do rato ao homem. Os ratos criados nos porões dos navios são os vectores do germe de pôrto infectado a pôrto indene. A desinfecção dos porões é indispensável nos navios contaminados.
Ouvido sôbre a desratização dos focos e suas cercanias, o diretor da Saúde Pública respondeu ao repórter:
"Essa matança de ratos vai começar com vigor. Adotei para isso o sistema empregado pelos americanos nas Filipinas com grande resultado. Organizei uma brigada de cinqüenta homens que já foram vacinados, de modo a torná-los imunes, e que serão providos de ratoeiras e de veneno. Êsses homens, que ganham por mês urna bagatela, têm a obrigação de trazer a esta repartição, todos os dias, cinco ratos cada um. Os que trouxerem a mais serão pagos a 300 réis por cabeça. Mandei também comprar cães rateiros. Espero que a medida dê resultado; mas o que é preciso, corno já lhe disse, é a notificação compulsória. É preciso obrigar o médico a notificar os casos de peste, que é moléstia que tem desaparecido de todos os países civilizados e deve desaparecer também do nosso. Até ontem, tinham sido mortos 18.705 ratos. Só um dos empregados encarregados dêsse serviço ganhou o mês passado mais de 600$000! A maior mortandade tem sido nos esgotos, onde também têm ficado asfixiados muitos mosquitos. Amanhã, domingo, à noite, procederemos à matança dos ratos nos canos da Rua do Ouvidor.
Note que não tenho a pretensão de matar todos os ratos do Rio de Janeiro; seria impossível. O rato é, aliás, um animal muito inteligente. Não volta aos lugares onde sabe que corre perigo. De sorte que nas galerias de esgotos até aqui atacadas, êles não reaparecerão tão cedo.
Fogem também dos focos onde há peste, e daí a disseminação da moléstia. É preciso, pois, fazê-los convergir para êsses focos e aí matá-los. No verão, que é a época em que a peste tende a desaparecer, far-se-á o contrário, isto é, afugentam-se os ratos dos focos, que são atacados com energia.
— E no próximo inverno a peste reaparecerá?
— É quase certo. Não creio que tão cedo esta cidade fique livre do flagelo. Espero, porém. que não irrompa para o ano com a mesma violência. A respeito de peste quem está prestando bons serviços ao Rio de Janeiro é o Dr. Pereira Passos, demolindo casebres imundos, alargando ruas. Com a transformação da cidade a peste desaparecerá."
A fraude entrou também na caça aos ratos, sendo que eram trazidos das cidades vizinhas e caçados nos porões dos navios indenes estacionados no pôrto. As galerias de esgôto eram regularmente insufladas de gás sulfuroso pelos aparelhos Clayton. Osvaldo Cruz foi chamado o "Torquemada" dos ratos. A classe médica não colaborava com a Saúde Pública: alguns clínicos não notificavam os casos, nem cuidavam de apurar o diagnóstico nos casos suspeitos. Não sendo obrigados por lei, não o faziam espontâneamente.
Um periódico comentou:
"Enquanto a brigada quebra-telhas vai destocando larvas de mosquitos na previsão do futuro ataque epidêmico da febre amarela, a peste bubônica continua a sua obra de devastação, aumentando dia a dia o número das vítimas, sem que a Diretoria de Saúde Pública pareça tomar muito a sério a gravidade da situação.
O Sr. Dr. Osvaldo Cruz comprometeu-se solenemente a debelar a febre amarela, promessa que pode muito bem deixar de ser cumprida, sem desaire algum para o seu nome nem para o poder público, visto ser objeto ainda de controvérsia a possibilidade de extinguir êsse morbo pelo sistema profilático da devastação do pernilongo; outro tanto não acontece com o mal indiano. Êsse é que todos sabem que pode ser combatido eficazmente e a permanência dos germes infecciosos desabona o critério e o saber das autoridades sanitárias, encarregadas de os destruir.
É, portanto, obrigação de S. Ex.ª libertar-nos dêsse flagelo e se, porventura, não se considera habilitado a garantir a sua supressão, o patriotismo impõe-lhe o dever de ceder o seu alto e melindroso lugar a quem se sinta com fôrças para tentar essa obra e responder pelo seu triunfo."
"Para os que nos dirigem, com efeito, a salubridade pública é a última das preocupações, desde que o expediente pôsto em prática para a melhorar não é uma encampação ou uma desapropriação. O Sr. Dr. Osvaldo Cruz convenceu o govêrno de que aqui só se morre de febre amarela e de que exterminando os mosquitos está saneada a capital. Entretanto, agora, como em igual período de todos os anos, a febre amarela não causa vítimas e o número de óbitos, que é de quarenta, com o de pestosos, passou a ser de mais do dôbro.
É tempo de acabar com esta vergonha. O público já se riu à larga com a parlapatice da extinção da febre amarela em três anos pelo massacre dosestegomias: agora começa a indignar-se com o abuso da preocupação sectária, que o leva a desinteressar-se da marcha assustadora da peste.
O Sr. Dr. Osvaldo encontrou a epidemia da peste quase extinta; em vez de a eliminar de todo, permitiu que ela se desenvolvesse e atingisse as temerosas proporções que a imprensa vai registrando. O povo tem direito de exigir que a sua vida seja respeitada e defendida pelas autoridades que êle paga para êsse fim. E essa autoridade está nos comprometendo e sacrificando. Não sabemos se viremos a dar os parabéns ao Sr. Dr. Rodrigues Alves pela famosa avenida e outros melhoramentos monumentais: pelo aumento da peste é que temos razão de sobra para lhe apresentar os nossos pêsames..."
"Num belo gesto de rematada inépcia, o arrogante diretor de saúde fêz saber ao Sr. Ministro do Interior que êle nada pode fazer para debelar a epidemia, porque os doentes evadem-se, assim que se sentem atacados e vão salpicando pela cidade o germe infeccioso e que por outro lado os médicos dissimulam a moléstia, impedindo destarte o expurgo dos focos, como se não fôsse exatamente para investigar as causas da epidemia e achar os meios de removê-la que êle está à testa da repartição de saúde! Sente-se a irritabilidade augusta que o domina e a seus amigos, quando a imprensa toma-lhe da cabeça e a esfrega sôbre os seus próprios algarismos oficiais que, deficientes e falhos embora, mostram que estamos a braços com uma epidemia que está fazendo mais de 50% de mortes entre os atacados e que de um mês para outro quintuplica o número de suas vítimas."
Um boletim oficial da Diretoria de Saúde informava:
"Com relação às duas epidemias reinantes, febre amarela e peste: da primeira o número de casos é inferior ao do mesmo mês do ano passado; e o número de casos de peste não é sensivelmente superior ao de outubro do ano transato, isto é, 7 contra 5.
A mortalidade por peste tem sido baixa... 13%."
Não obstante tôdas as dificuldades opostas à ação da autoridade sanitária, a peste foi declarada extinta em 4 de abril de 1904.