Vida e obra de Oswaldo Cruz

Clementino Fraga · Capítulo 33 de 36

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Vida e obra de Oswaldo Cruz

Capítulo XXIX – A obra e o homem

Capítulo XXIX – A obra e o

 

homem

 

UMA VIDA que realiza o milagre da afirmação total merece uma biografia. Foi um instante e busca a eternidade. Pode ser contada sem esfôrço, através de fatos e passagens, incidentes e contradições. referências e comemorativos, tais e tantos, que não pesam à análise nem atropelam a compreensão. Educa pelo exemplo, porque afirma a dignidade de viver na transparência de muitos predicados, dosados a valer, segundo a pauta dos valôres que fundamentam a riqueza de ânimo nos reflexos da sensibilidade e nos podêres da inteligência. Também da vontade orientada e firme, referta de inspiração humana e de intrepidez na ação. Em cêrca de vinte anos de atividade, com o aprumo de generosa formação espiritual, Osvaldo Cruz deixou de sua vida memória imperecível. E são beneméritos de estudo os traços de idealismo, a duras penas revelado no flagrante de uma obra de ciência, que teve seu dia de esplêndida realidade.

Vale a pena tentar um ensaio de interpretação de personalidade, dentro aliás do seu ponto de vista – "idealizar o indivíduo pelo estudo da obra".

O caráter na compleição espiritual

 

O êxito pessoal de Osvaldo Cruz veio da harmonia de seus dotes intelectuais e morais, admirávelmente conjugados no sentido da objetivação, rebelde a injunções momentâneas e a vantagens colaterais que refletem a dubiedade, a cortesia, o sentimento deformado pelo sentimentalismo. Concentrava a atenção em dado problema, gizava o seu programa e perseguia o rumo traçado. Sem quebrar nem torcer, sómente obedecia a seus impulsos, fortemente acionados.

Quando de sua primeira investidura no serviço público, em maio de 1900, tratando de prover o laboratório soroterápico de material

necessário à instalação, enviou ao chefe administrativo1 a lista do indispensável. Êste a devolveu, com a recomendação de reduzi-la, e, como não era possível trabalhar sem o material pedido, Osvaldo retirou-se sem dizer palavra e não voltou ao laboratório. O chefe mandou visitá-lo, julgando-o doente; o emissário encontrou-o em plena saúde. Foi então adquirido o material e o técnico voltou ao trabalho, como se nada tivesse havido.

Em 1902, já em franca atividade o Instituto Soroterápico, sobrevindo nova crise, abandonou Osvaldo Cruz suas funções por incompatibilidade com o chefe. Dessa vez foi êste que se exonerou, deixando a Osvaldo completa autonomia técnica e administrativa. Em 1903, convidado para dirigir a Saúde Pública, o govêrno, sem consultá-lo, inclui no mesmo ato a nomeação de Afrânio Peixoto para o cargo de secretário. Escreveu o nôvo diretor ao ministro, pedindo que tomasse sem efeito sua nomeação, sem ocultar o motivo porque o fazia. Nobremente, o govêrno tornou sem efeito a nomeação do secretário, aceitando o nome indicado pelo diretor. Assim procedia altivamente um profissional de trinta anos, ainda quase desconhecido, recusando o pôsto máximo dos serviços sanitários, que lhe vinha com restrições à sua autonomia.

Em Berlim, por ocasião de sua vitória na Exposição de Higiene, o parlamentar que mais combateu a administração sanitária desejou visitar o pavilhão brasileiro. Informado de véspera, Osvaldo não compareceu nesse dia para recebê-lo. E justificou, falando a um amigo: "não lhe podia ser agradável a presença do chefe dos 'cafajestes de esmeralda', e, tampouco a mim, a presença dêle." Expressão de sensibilidade, que não prescreve com o tempo.

Em comêço da campanha contra a febre amarela houve uma festa de caridade, à qual compareceu. No leilão de autógrafos, apareceu um cartão com esta frase estranha e quase escandalosa em tal ambiente: "o mosquito é o único transmissor provado da febre amarela. Gonçalves Cruz." Pleno domínio da obsessão, que, fiel a si mesma, não tem o sentido da oportunidade para manifestar-se.

Alguns aspectos de sua sensibilidade, aparentemente contraditórios, identificam o homem no apanágio de muitos predicados. Numa das cidades do Norte soube Osvaldo da existência de um homem, cuja habilidade chegara à fabricação do órgão para a igreja local, sem outros recursos que os da aldeia pobre em que vivia. Viu a obra e quis ver o artista desconhecido. Era chamado Zé Orgueiro. A expensas suas, encaminhou-o à direção do Instituto Nacional de Música.

Certa vez, conta Sales Guerra, "de partida para a Europa, depois das despedidas no cais Pharoux, dos numerosos abraços, encaminhava-se para a lancha, e já no 3.º ou 4.º degrau da escada de pedra, retrocedeu como se tivesse esquecido qualquer coisa; esgueirou-se por entre a multidão, em demanda do seu automóvel para dar um abraço de despedida ao chofer..."

Em viagem na Alemanha, aproveitou a parada do trem, em Danemberg, para mandar um cartão postal à governante de seus filhos, com palavras de reconhecimento aos serviços prestados. Era a terra natal da prestimosa auxiliar doméstica.

Ainda na mesma inspiração de bondade, a Pacheco Leão recomendando um velho servente da Faculdade de Medicina, o fêz nos seguintes têrmos: "Leão – Bem conheces o portador; ouve-o e atende-o se fôr possível. A caridade que pudermos fazer neste caso, será para mim um punhado de flôres que atiro sôbre o túmulo da minha mocidade."

É conhecido seu gesto, quando amigos se reuniram para oferecer-lhe uma lembrança, depois de sua vitória na Saúde Pública. Com muita delicadeza fêz chegar à família de um auxiliar, morto no comêço da campanha, o resultado da subscrição, em momento em que tal auxílio era oportuno.

Uma feita escreveu a Sales Guerra: "Podias indicar-me a residência e o nome daquele teu cliente que empalha animais para coleções zoológicas? Morreu hoje em Manguinhos um cavalo, ao qual estava ligado por laços, não só de muita amizade, como de gratidão: foi o primeiro cavalo que forneceu sôro antipestoso; desejava conservá-lo. Já retirei-lhe a pele e a cabeça; resta agora prepará-lo."

Um traço de afetividade, que foi de tôda sua vida, foi o culto pela memória paterna: iterativamente visitava o túmulo do pai sem esquecer datas afetivas. em momentos de alegria ou de pesar, perspectivas difíceis ou de grata compensação. Refere Sales Guerra: "Osvaldo Cruz venerava a memória de seu pai e na prática do respeitoso culto que lhe rendia, encontrava lenitivo e confôrto nas repetidas ocasiões de grandes contrariedades. Visitava-lhe o túmulo semanalmente, aos domingos; visitava-o nos nebulosos dias de pena moral; visitava-o ainda quando se ausentava, e quando chegava ao Rio de alguma excursão, era a sua primeira visita, precedia a qualquer outra, só depois dela recolhia-se ao lar.

À chegada de uma de suas viagens, convidou-me no cais para o seu carro; seguimos rumo do cemitério S. João Batista, passamos por sua casa. à Praia de Botafogo, sem parar. No cemitério adiantou-se para o jazigo da família, ajoelhou-se, beijou o granito do túmulo e após alguns instantes de recolhimento levantou-se e partimos, só então, para sua residência." Religioso, parecia ter "no mesmo culto o nome de Deus e a imagem paterna".

 

Orgulho ou modéstia?

 

Entre quantos o conheceram, entre reservado e sóbrio com os poderosos e indiferente à lisonja, alguns julgaram-no mais orgulhoso que modesto. Recusava sempre manifestações, quando os deveres de delicadeza não o obrigavam. Mas aceitou a láurea acadêmica – pobre honraria com que a vaidade das letras galvaniza o prestígio intelectual, não raro aprumando reputações frágeis ou ambições prematuras. Em regra um acadêmico pode ter outros méritos, não terá, entretanto, o da modéstia. Mas em verdade foi a "Academia" que requestou a Osvaldo Cruz, não diria que cobiçosa de sua glória, mas julgando de meritis que ali devia estar o sábio brasileiro de maior fama dentro e fora do país. Mais de uma vez a amigos acadêmicos que lhe propunham a candidatura, pediu que desistissem da idéia por se não sentir à vontade num grêmio, em sua maioria de homens de letras, "mas houve, diz E. Dias, quem afinal se mostrasse molestado, chegando a insinuar que o sábio colocava a sua glória muito acima da investidura acadêmica. Tanto bastou para que, embora constrangido, consentisse na apresentação de seu nome, conforme podem atestar diversos acadêmicos vivos". Apresentou-se candidato, concorrendo com Emílio de Meneses. Osvaldo desinteressou-se da eleição, principalmente dos incidentes que a cortejam; chegou a dizer, de referência a comentários da imprensa: "se há derrota que me não desagradaria é essa... a mim que nunca tentei perpetrar versos."

Recusou o sábio a eleição para presidente da Academia Nacional de Medicina. Jamais pensou em ser professor da Faculdade.

Quando de Berlim se dirigiu ao govêrno para comunicar o êxito da exposição brasileira, fê-lo, friamente, nos seguintes têrmos:

 

"BERLIM, 27 - TENHO A SATISFAÇÃO DE LEVAR AO CONHECIMENTO DE V. Ex.ª QUE O JÚRI DA EXPOSIÇÃO DE HIGIENE CONFERIU AO BRASIL O PRIMEIRO PRÊMIO CONSTANTE DA GRANDE MEDALHA DE OURO OFERECIDA PELA IMPERATRIZ. CONGRATULAÇÕES RESPEITOSAS – CRUZ."

 

No dia em que recebeu o prêmio, estranharam que não tivesse agradecido pela delegação brasileira. A Sales Guerra, que participou desta opinião, disse êle: "Em nosso caso seria manifestação de vaidade; o agradecimento pareceria pretexto para nos exibirmos como premiados!" A aparência modesta parecia nêle uma forma de orgulho, sempre revelado na coerência das atitudes e nas resoluções olímpicas, sem atender a cogitações laterais, quando não contra estas formuladas e despedidas. Não quis honras fúnebres, no entanto riscou em noite branca as linhas de seu mausoléu, num capricho da imaginação ardente, com duas datas que represam a brevidade da vida, talvez sonhando a vida além da morte...

 

Condutor de homens

 

Como chefe, Osvaldo Cruz aliava a justiça à bondade humana; jamais esqueceu os auxiliares e a êles transferia honras e louvores que de direito lhe cabiam. Esquecendo-se, encontrava-se a si mesmo. Dava o exemplo de pontualidade, excedia horários e dispensava regalias, fazendo êmulos e dedicados. Foi um criador de vontades, verdadeiro plasmador de almas.

Curioso em tudo isto é que êsse homem que falava pouco, e sempre sem ênfase, exercia sôbre seus auxiliares estranho poder de sugestão! É, sem dúvida, uma das afirmações de sua personalidade, que, talvez inspirado em Platão, só compreendia o sábio no homem de bem, em tudo capaz de ascendência no plano superior da magistratura moral. Para êle a primeira lei da ação era a disciplina – o respeito do chefe que dá exemplo de respeito às normas de severidade e cortesia. Como Rivière, personagem de Saint-Exupéry, amava a seus auxiliares com sombria ternura.

O homem de ação toma amigos seus companheiros; o mesmo ângulo de incidência e a miragem de tendências dispersas, aproxima vontades e define ambições. Desconhece o egoísmo e não mede sacrifícios. É como o condutor da altitude, "para o qual estações e climas não têm sentido".

De Dresde escrevia ao Dr. Pedroso, subchefe da Comissão de profilaxia antiamarílica, no Pará, dizendo, entre outras expansões: – "Ninguém tem mais saudades de vocês que eu. Estarei aí nos fins de maio ou primeiros dias de junho, dependendo do vapor a tomar. Levarei comigo a Lizeta, que é uma não imune e que, como testemunha, vai aí dormir sem cortinado. É a prova mais cabal que quero dar ao povo daí da ilimitada confiança que deposito nos meus inigualáveis companheiros de trabalho."

Em Manguinhos empreendia a obra paciente de disciplinar energias e frenar o temperamento vibrátil dos auxiliares, aos quais tratava sempre com a autoridade, não de chefe, mas de companheiro mais velho. De tal jeito teve discípulos e fêz escola.

Osvaldo Cruz era um crente: fé eterna na ciência. Como homem de ciência chegava a ser abnegado. Certa vez, seu filho, doutorando em medicina, escrevia tese sôbre purupuru, doença da Amazônia, que parecia devida a um cogumelo isolado por Chagas, quando estêve na região. Bento Cruz empenhava-se no estudo experimental da moléstia, inoculando-a em diversos animais no laboratório. Não tendo obtido resultado, Osvaldo aconselhou o filho a inocular-se com o cogumelo, suposto responsável. Hesitando o môço, o mestre, sem dizer palavra, inoculou no próprio braço, verificando então que o cogumelo não era patogênico.

***

Seu lema da vida era: poder – querer – saber – esperar. Estas palavras constelavam seu monograma, dispostos em forma circular. Jamais explicou sua preferência por estas palavras. Alvitra Sales Guerra a seguinte interpretação: "Poder – dispor de fôrça para o empreendimento. Querer: – Vontade firme de agir. Saber: – Ter conhecimento completo do que se pretende empreender. Esperar: – Aguardar oportunidade de desencadear a ação."

De minha vez, quando nos empenhávamos em dar realidade à Fundação Osvaldo Cruz, propus, entre as alíneas de um decálogo, esta interpretação: Trabalhar no elevado propósito de conhecer e adquirir "saber". – Confiar na valia e eficiência do próprio esfôrço "poder". – Atuar na constância e decisão dos melhores objetivos "querer". – Manter no trabalho a disciplina e a paciência – "esperar". Disse Austregésilo: "Todos os passos de sua carreira foram idênticos, edificados na modéstia e na ação, no dever e no trabalho,

no estudo e no amor do homem". 2

Dirigindo o Instituto, o mestre acompanhava tôdas as pesquisas, quase passo a passo, sempre estimulando a iniciativa pessoal; a cada dificuldade repontava seu parecer; na hesitação de uma encruzilhada surgia sua figura, caridosa e serena, a apontar o caminho; quando de si mesmo não podia decidir, indicava os livros, às vêzes o capítulo ou, pessoalmente, o procurava para socorrer o discípulo em transe de dúvida. Para tantas vozes, sua voz era oracular. De quando em quando uma cortesia espiritual, sutilmente irônica ou facêta, lhe escapava à gravidade amena de seu ritmo habitual. Contou-me um amigo e companheiro, também seu discípulo, o meu querido Thompson Mota, de saudosa memória, que, uma feita, trabalhando junto ao mestre, foi êste – interrompido por um dos seus melhores auxiliares, que lhe propunha uma questão matemática, exposta em linguagem obscura, empolada de têrmos dificeis, perspectivas vagas e sinuosas, sem nem um sentido prático. Ouviu-o com a paciência de sempre e, ao têrmo da longa e sibilina arenga teórica, despedido o consultante, disse apenas: "Mota, você entendeu o que F. disse?" "Não, senhor." "Nem eu"... E retomaram ambos o fio do trabalho interrompido.

Todos os dias, ao menos uma vez, em hora incerta, o chefe percorria tôdas as dependências do Instituto. Tinha uma chave que abria tôdas as portas, e em tôdas as dependências penetrava sem aviso e, às vêzes, saía sem ser visto.

Quem escreve estas linhas, mais de uma vez o acompanhou nessa visita, a pretexto de mostrar o Instituto. Certa vez, percorrendo os cômodos reservados aos assistentes, entreabrindo um sorriso, disse: "aqui uma curiosidade que os rapazes mostram secretamente aos visitantes": uma escôva de dentes quase consumida, um copo quebrado e um pincel de barba, com alguns fios heróicos, escapados à destruição total... Pertenciam a um chefe de serviço, sempre absorvido nas cogitações obsessivas de sua vida de ciência e que não era bem um sacerdote do Apolo. A propósito de reminiscências pessoais, conta-se que certa vez, percorrendo o serviço de polícia de focos, em plena campanha contra a febre amarela, Osvaldo deu com um grande depósito de água, coberto de papel, quando, mesmo provisóriamente, deveria ser de pano a cobertura. Estava só. Apanhou uma pedra e atirou-a sôbre o tanque, rompendo a defesa precária. Mais tarde, ao chefe disse apenas: "vi um depósito coberto de papel, no qual um garôto atirou uma pedra e inutilizou o trabalho..." Soube-se depois pelo motorista de seu carro que tinha sido o autor da façanha.

Seus auxiliares, em regra, desmediam-se em atividade para corresponder à sua confiança. Uma vez um delegado interino ouviu do diretor a denúncia de uma irregularidade em seu serviço. Eram seis horas da tarde. Acudiu à ordem de verificar, dizendo amanhã vou ver em pessoa. Respondeu o chefe: amanhã não, hoje mesmo. Para êle o dia só terminava às 24 horas...

Em Osvaldo Cruz uma das qualidades mestras era sumir-se, a si mesmo esquecer-se, projetando discípulos e auxiliares. Foi assim sempre, em coerente e idônea compostura. Todos os trabalhos de Manguinhos dev riam ter seu nome. A isto, terminantemente se recusou, argumentando que o fato de ser diretor não o excluía das responsabilidades, como das vantagens. Quando tomaram vulto as pesquisas de Carlos Chagas sôbre a nova moléstia, levando a comunicação à Academia de Medicina exaltou apenas o nome do auxiliar, como se nada tivesse com o achado científico. Por essa ocasião, Chagas, nobremente, ponderou que devia associar seu nome às publicações, como de justiça, uma vez que a orientação era tôda sua e parte do achado de laboratório. Arriscou então: "se o senhor não concorda, não continuarei as pesquisas." Respondeu o mestre: "você só não continuará, se deixar o Instituto, porque enquanto aqui estiver, receberá ordens." E de ambos, sôbre o assunto, nem mais uma palavra.

Depois de sua morte, comentando o desprendimento do mestre pela própria glória, disse Chagas: "Julgou, porém, melhor servir a altos desígnios, na ação impessoal de organizar esforços, criar iniciativas, orientar inteligências, designar métodos científicos, proporcionar, enfim, aos experimentadores da sua escola, todos os elementos seguros de êxito. E procurava ocultar-se na obra realizada aí, sempre exaltando a valia exclusiva do discípulo, de cujo sucesso aproveitava as mais puras e compensadoras alegrias."

Em verdade, Osvaldo Cruz foi, principalmente, um pesquisador, que aliava à visão de homem de ciência admirável capacidade de organizador, que nenhum outro, entre os sucessores e discípulos, conseguiu aprender e continuar no ritmo de sua obra ciclópica de construção científica.

 

O amor da arte

 

Dentre os aspectos de sua personalidade, muito pela flor fixados aqui, impressionava também a evasão para os domínios eternos da fantasia, até certo ponto estranhos, senão contraditórios num homem de ciência, feito e acabado no laboratório. A começar pelo Instituto, dentro de um estilo arquitetônico, que lhe parecia mais bonito, como confessou, talvez menos feliz na aplicação, traçou todo o plano da construção até as minúcias que serviam à utilidade, sem esquecer o aspecto agradável; pessoalmente, em sua casa, era de notar o complexo de confôrto elegante, numa biblioteca decorada a capricho, com símbolos e objetos de arte, entre êstes, duas lâmpadas de bronze com as formas aladas da coruja e do morcêgo, a tela do silêncio e o incensário. Os símbolos de Minerva e da Morte convidavam o sábio à meditação. Parece que, como a beleza, o silêncio o comovia.

Sôbre sua mesa de estudo um busto de Pasteur tendo ao lado uma jarra de flôres, sempre renovadas, e vasos de gôsto com bombons, que saboreava enquanto lia.

Quantos o conheceram nos últimos tempos, sempre o viram com uma pulseira de ouro, da qual pendia uma medalha, que, às vêzes, avançava o sinal da manga do casaco e êle, discretamente, a recolhia com a mão direita ou levantando o braço. Tais originalidades compunham a individualidade do homem sensual, de maneiras corretas e aparência austera, às vêzes sombrio, que sofria e dissimulava à vista dos que o cercavam. Dava-se então ao trabalho, talvez para repousar do tumulto interior, "coisas do fôro íntimo", como êle disse à filha. Talvez recalques sensuais, cedo travados socialmente, tivessem colaborado nas restrições que a si mesmo impunha, às vêzes com admirável afirmação do poder da vontade. Ouvi de um de seus íntimos que, nos últimos dias da moléstia de Osvaldo, uma voz feminina, preservada no recato da interlocução telefônica, indagava repetidamente de sua saúde, dizendo-se amiga de sua filha. Quem seria essa amiga misteriosa, que não se dirigia à família?...

Em 1908, escrevendo de Paris a Sales Guerra, teve esta expansão:

 

"Não te preocupes com as lamúrias de minhas cartas: não valem nada. Habituei-me a explorar isto a que por eufemismo chamo neurastenia, de modo que levo a aborrecer a todos os amigos com essas tiradas de... vadio. O que preciso é de trabalho."

De sua correspondência são repetidas as impressões de teatro, museus, música, jardins, paisagens e que constam das cartas a Sales Guerra, seu maior amigo.

Com a data de 13 de janeiro de 1908, escrevia de Paris:

 

"Êstes três últimos dias aqui têm estado magníficos. O domingo de ontem foi adorável: um belo sol, não muito frio, sem vento. Passei-o em parte no Cemitério Pere Lachaise e o resto no Parque Monceau, que, para mim, é o mimo dos jardins públicos de Paris. Recomendo-te muito especialmente, quando aqui vieres, a estátua de Guy de Maupassant, existente nesse jardim: é uma obra de arte adorável.

Numa destas últimas noites fui à Comédie assistir à representação do Médecin malgré lui, do imortal Molière, e a uma nova peça dos irmãos Marguerite, intitulada L'autre, que, como tôdas, ou quase tôdas as produções teatrais modernas. gira em tômo do adultério."

 

De Dresde, em 1911, dizia em carta:

 

"Não imaginas como é bela aqui a primavera! Nunca vi tantas e tão lindas flôres; as azáleas são resplandecentemente belas e aqui são célebres. Há um grande parque o Bois da terra – chamado o Grosser Garten, que está uma verdadeira maravilha. Nunca vi tantas.flôres lindas reunidas num tão harmônico conjunto. – Um paraíso."

 

De Florença, a 2 de abril de 1911, dava suas impressões:

 

"Temos visitado todos os museus, galerias de quadros e palácios, que os há aqui numerosos. Tenho revivido aquelas cenas sanguinárias entre os Guelfos e Gibelinos e depois entre os Pretos e Brancos, da qual resultou o exílio de Dante, que lá se foi morrer em Ravena. Hoje o divino poeta é o ídolo da terra; tudo fá-lo lembrado. Por tôda a cidade há dêle uma recordação: a casa em que nasceu, o banco em que se sentava nas tardes de verão, o ponto em que pela vez primeira viu a sua adorada Beatriz. Em cada esquina, uma lápide de mármore traz inscritos alguns versos da Divina Comédia relativos ao lugar. Em suma, um verdadeiro culto, uma nova religião. Como Dante – não tanto quanto êle – são veneradas as memórias dos outros florentinos ilustres e os há em quantidade: Miguel Ângelo, Galileu, Alfieri, Giotto, Donatello, Américo Vespúcio e tantos outros."

 

E de volta ao Brasil:

"Não imaginas como é fatigante a viagem pelo Sud-Express, de Paris a Lisboa! Vimo-nos obrigados afazê-la para apanharmos o Antony. Achei muito interessante a zona de Portugal percorrida: a Beira. Lá vi a célebre Celorico, pátria do Ega, dos Maias, onde êle se recolhia para descansar dos escândalos de Lisboa. Lembras-te?"

 

Osvaldo Cruz era pois um homem de fina sensibilidade, capaz de comover-se diante da natureza, das obras de arte, do culto da posteridade pelas grandes vidas humanas. "Com seu tanto ou quê de romântico, disse Aloísio de Castro, retratado nos rasgos das feições, êsse idealista que tão singularmente irradiava energia na fôrça criadora de suas obras, bem podia cingir à cabeça douta o louro sagrado e a coroa, prêmio dos poetas." Sim, o poeta no homem de ação - "celui qui fait, celui qui crée."

Osvaldo pensava na morte próxima e parece que a vislumbrava, num sonho angustioso de ternura e reparação. Em Berlim, em 1907, extenuado e insone, traçara, noite adentro, o destino de suas cinzas beneméritas. o desenho figura uma uma de vidro, que as receberiam, depois da cremação. Cercada de areia branca da Praia do Vidigal e de espêssa camada de asfalto, seria encerrada no maciço da rocha, rente com o mar, recebendo por fim uma chapa de bronze, com seu monograma, datas do nascimento e morte, ladeando a incrustação do seu lema de vida. Sobreviveu dez anos às angústias serenas daquela noite de insônia...

O esbôço foi apanhado por Sales Guerra, quando procurava na pasta sôbre a mesa do quarto do hotel, na ausência do hóspede, um retalho de papel para lhe deixar algumas palavras. Guardou-o tal qual era. Assim era o místico da ciência alertado pela previsão lúgubre, impenitente a sugerir a antecipação do fim: "meu pai morreu aos quarenta e oito anos, eu irei um pouco antes". Morreu aos quarenta e quatro. Quem sabe se os estímulos secretos do fim não incendiaram a ambição de adiantar sua obra? Não seria êsse receio o móvel subconsciente do trabalho a valer, sem hora nem dia, a duras penas aturado já em plena evolução da doença?

O desenho de Osvaldo inspirou a concepção artística de seu mausoléu no Cemitério S. João Batista, Botafogo, Rio de Janeiro. Vida breve, longa memória

 

De Osvaldo Cruz, a memória suave lhe recorda a vida breve, a intensidade da ação, a bravura com que resistiu às provações, à lisonja e até à consagração. Foi rápida sua formação, corajosa a diligência nos ofícios da vontade militante. A luta lhe condicionou a existência de crente e denodado trabalhador da ciência. Para interpolar as severidades de seu destino não faltaram as provações, os estímulos da hostilidade, da inveja e do ódio gratuito. Assim as honras dolorosas da maldade humana que soem cortejar as grandes vidas e as aumentam no prestígio do sofrimento. Em plena campanha sanitária, o saneador do Rio de Janeiro, enquanto lia ao ministro o regulamento da vacina obrigatória, mão misteriosa escrevia no fundo do seu chapéu, entre tecido e fôrro, uma sentença macabra, encimada por uma cruz: – morto a bem do povo. – 13 de novembro de 1904.

***

Em 1916, tendo realizado o seu sonho de homem de ciéncia, as crises de insuficiência renal se tornaram mais freqüentes. "Provocavam essas crises., diz Sales Guerra, às vêzes contrariedades, de que havia então no Instituto motivos constantes, e trabalhos fatigantes a que se dava, mesmo naquele, estado precário de saúde, e apesar das recomendações de repouso e rigoroso regime. Alarmados, os amigos cogitávamos de afastá-lo do Rio, do Instituto, onde se, consumia." O depoimento é doloroso. Dispensa comentários.

Surgiu o alvitre da Prefeitura de Petró polis, na qual foi empossado a 17 de agôsto de 1916. Meses depois licenciava-se, compulsoriamente, pela agravação crescent e de seus padecimentos. Perto da agonia uma manifestação hostil estrondeia à sua porca, aos gritos e ruídos de latas, contra o benfeitor da cidade serrana que tentou moralizar a administração municipal. Com a algazarra, o grande doente, em sopor, levanta a cabeça e indaga: "que barulho é êsse?" Dizem-lhe que é um cordão carnavalesco que passa. "O doente reprimiu a custo a dispnéia, e num olhar em que revive por instante a chama de outrora, diz aos circunstantes: - é

uma manifestação." 3

O homem que tanto dera de si à sua terra e à sua gente, a beira da morte, recebia mais uma consagração... A que realiza a grandeza na contradição: a do sofrimento físico e moral.

***

A vida curta, por menos que pareça, foi parte do seu heroísmo; ceifada na altura, talvez, lhe tenha poupado decepções e amarguras, já ensaiadas à sua volta; talvez o tormento maior do próprio declínio, coerentemente precoce, falhando ao intento, a anestesia da ação. Porque herói êle foi, em verdade, sem matar nem roncar bravura, senão concorrendo para aumentar a média da vida em seu país, criando uma escola de ciência, em tudo benfazendo à humanidade. E pois um herói, no conceito de Carlyle: "o que exprime. como da própria natureza, ao redor de si mesmo, uma alma inspirada – inspiração que é originalidade, sinceridade, gênio, sua qualidade heróica..."

Em Osvaldo Cruz a introversão era evidente; parece que seu mundo interior, povoado de contradições, exercia sôbre a aguda sensibilidade atroz influência. A morte do pai no ano de sua investidura profissional, embora tivesse a compensação afetiva do casamento precoce, certo contribuiu para o retraimento social, seu feitio pouco comunicativo, expresso na distância que sempre guardou da classe, dos interêses coletivos, das influências aglutinantes ou repulsivas de índole gregária. Teve em hora prima o sentido da vocação; fêz-se sem outra ajuda que a dos próprios e disciplinados estímulos; marchava para o fim com decisão fria e calculada, como se obedecesse a um impulso autoritário da ambição. Sentiu, como Shelley, a alegria da alma na ação, e, dessa ascendência, a poesia de uma vida, aberta ao trabalho, no encalço da verdade. Porque a verdade liberta o homem, qual na sentença do Evangelho: "Veritas liberavit vos."

A morte prematura, parecendo atalhar uma carreira gloriosa, não consentiu que a vida lhe desmaiasse a glória.