A Espetacular Vida de Stan Lee
Prefácio
P ergunte a qualquer fã de cultura pop quais são seus três quadrinistas favoritos. É muito provável que respondam: Stan Lee. E então vão parar por aí. Stan Lee é o único quadrinista que a maioria conhece. Essas mesmas pessoas provavelmente conseguiriam nomear dez diretores ou escritores famosos. Talvez até dez pintores. Mas
quadrinistas? Só Stan Lee.
O que é estranho, por vários motivos.
Primeiro que Lee era escritor, editor, diretor de arte e editor-
executivo de quadrinhos — ou comics, como está na moda
chamar. E, mesmo com todo esse currículo e a natureza visual das
histórias que publicou, Lee não era desenhista profissional (ainda
que tivesse um talento acima da média na arte dos rascunhos). Ele
não era desenhista de quadrinhos.
Sem falar que, embora estivesse envolvido com alguns dos
personagens e marcas mais populares e lucrativos da indústria do
entretenimento — como o Homem-Aranha, os Vingadores e os X-
Men —, Lee não desenvolveu os personagens nem desenhou suas
aventuras. Ele precisava de artistas para isso, e trabalhou junto de
pessoas incrivelmente talentosas para criar os heróis mais
famosos da Marvel.
Seus parceiros mais notáveis foram Jack Kirby e Steve Ditko. E é
de se pensar que, tendo um papel tão relevante para dar vida aos
personagens e às suas aventuras, esses dois deveriam ser tão
famosos quanto Lee, não é mesmo? Pois não são.
Além da fama associada aos personagens, simplesmente seria
lógico pensar que, já que a imagem de Lee passou mais de 75 anos
associada à Marvel (que antes era conhecida como Timely, depois
como Atlas), ele devia ser um dos donos da empresa; que uma
fração de cada ingresso vendido para um dos filmes da Marvel ia
diretamente para o seu bolso.
Mas isso também não é verdade. Lee sempre foi funcionário da
empresa — e era muito bem pago, obviamente, só que não era
dono de nem 1% da propriedade intelectual dos personagens que
ajudou a criar.
Mesmo assim, querendo ou não, Lee virou o rosto e a voz não
apenas dos quadrinhos da Marvel, mas também de toda a
indústria de quadrinhos.
Essa fama teve início com o enorme sucesso das revistinhas da
Marvel entre os anos 1961 e 1970, quando foram criados os
personagens mais famosos da marca, parte de uma virada cultural
que incluía James Bond, Kurt Vonnegut, Betty Friedan, Mickey
Mantle, Muhammad Ali e os Beatles. Foram dez anos de sucesso
em uma vida que durou mais de 95, com quase oitenta de carreira.
Então, fica a questão: o que, no começo da vida e nos vinte
primeiros anos de carreira de Stan Lee, permitiu sua explosão sem
precedentes na cultura pop? E, depois de revolucionar
completamente essa cultura… o que restava para ele fazer?
* * *
Lee personificou a clássica história de sucesso norte-americano.
Fruto da Geração Grandiosa e filho de judeus imigrantes que
viviam na pobreza, Lee, nascido em 1922, sobreviveu à Grande
Depressão, serviu no Exército durante a Segunda Guerra Mundial
e enfim encontrou seu lugar nos quadrinhos, uma mídia que na
época era desprezada, palco da disputa entre golpistas e
gângsteres, que batalhavam por cada centavo.
Dotado de uma personalidade carismática e envolvente, além de
muita inteligência e criatividade, Lee ascendeu ao cargo de editor-
chefe da Timely/Atlas/Marvel, que, nos anos 1940 e 1950, era
uma das produtoras de quadrinhos mais prolíficas dos Estados
Unidos. Stan Lee tinha um salário respeitável de classe média e
morava com a esposa e a filha em uma casa no subúrbio.
Mas estar no topo da cadeia alimentar de uma indústria de
entretenimento que, na melhor das hipóteses, era ignorada por
qualquer pessoa acima de 14 anos — quando não odiada — era
uma faca de dois gumes.
Lee não recebia o respeito dedicado a profissionais como os
advogados, e sua carreira não tinha o glamour da de um
publicitário ou de um produtor de cinema. Apesar de ter alguma
vontade de escrever um romance ou de fazer algo digno de nota
— como seu primo, o diretor Mel Stuart (de Willy Wonka), ou
como o dramaturgo e roteirista Paddy Chayefsky (Marty), seu
colega de classe —, Lee estava preso à rotina confortável de um
trabalho bem remunerado e até interessante.
Então, em 1961, já perto dos quarenta anos, trabalhando havia
vinte na indústria dos comics, Stan Lee entrou na clássica crise da
meia-idade dos norte-americanos.
Entediado, porém levando uma vida confortável, e feliz por ter
sobrevivido a uma recente crise no mercado de quadrinhos, Lee
(com os cocriadores Kirby e Ditko) criou uma abordagem mais
atual e “realista” às histórias de super-heróis — e a ideia agradou
aos leitores. Esses novos heróis se comportavam mais como eu ou
você nos comportaríamos caso tivéssemos superpoderes. Podiam
até tentar fazer a coisa certa, mas suas falhas humanas volta e
meia frustravam seus planos.
Lee decidiu reunir essas histórias sob a marca Marvel. Claro que,
na época, ele não fazia ideia se a popularidade da marca
perduraria ou se seria apenas mais uma moda passageira da
cultura pop, como os bambolês.
E foi aí que eu entrei.
* * *
Eu fui um dos baby boomers seduzidos pela Marvel dos anos 1960.
Já tinha lido muitas histórias e ouvido falar de Quarteto Fantástico,
o primeiro quadrinho “moderno” da Marvel. Encontrei a
revistinha número 4, que anunciava o retorno de um tal de
Príncipe Submarino do qual eu nunca ouvira falar, mas que Lee, na
edição, conseguia convencer que era um evento urgente e
importantíssimo.
Fui fisgado logo de cara, e não só pelo comic e pelos
personagens, mas também pelas pessoas que escreviam e
desenhavam aquela história. Afinal, Stan Lee fez questão de
ressaltar como todos (inclusive ele) eram especiais — e como nós,
leitores, também éramos especiais só de ler os quadrinhos!
Mergulhei de cabeça nas notícias, fofocas e pérolas de sabedoria
nas páginas de cartas dos leitores e nos Bullpen Bulletins [Boletins
da Redação] que Lee escrevia.
E amei visitar — ou será que ele é quem me visitava? — o
criador literário daquelas páginas, mais conhecido como “Stan
Lee”. Claro que eu já adorava Jack Kirby e Steve Ditko, mas estava
evidente que Stan Lee era o supervisor responsável por unir tudo
em um só lugar. As palavras, as cores e os desenhos — até os
anúncios — supervisionados por Lee formavam um mundo
imaginário que eu amava.
Depois de um período ausente, retornei àquele mundo de ma-
ravilhas. Logo após a graduação, consegui um emprego de editor-
assistente em um departamento obscuro da Marvel. Achei que
ficaria no cargo por apenas alguns meses, mas me adaptei bem à
empresa, e os comics — um antigo hobby, que começou por volta
dos seis anos — se tornaram minha carreira. Escrevi muitas
histórias para a empresa e cheguei a editor-chefe da divisão do
Homem-Aranha. (A marca tinha crescido a ponto de virar uma
empresa dentro da empresa, lançando, por mês, quase vinte
títulos relacionados ao personagem.)
Passei 18 anos na Marvel, trabalhando como editor e escritor.
(Às vezes eu era até editor de Stan Lee, o que era bem estranho.)
Portanto, entendo um pouco como é estar no lugar de Lee. Além
disso, durante esses anos de trabalho e nas décadas que se
seguiram, nós dois tivemos muitas conversas formais e informais,
de entrevistas (inclusive as novas, para este livro) a almoços.
Enquanto escrevia este volume, tentei imprimir o máximo de
observações únicas a partir desse ponto de vista mais próximo.
* * *
Nem preciso dizer que, apesar dos inúmeros altos e baixos, os
quadrinhos da Marvel e suas adaptações para outras mídias se provaram muito mais do que uma modinha passageira e agora
dominam a cultura pop, tornando Lee mais famoso do que nunca.
Para a maioria, Stan Lee era aquele velhinho sábio e espirituoso
que sempre fazia uma aparição nos filmes e seriados da Marvel.
Ninguém sabe muito bem o que ele fazia, mas todos tinham noção
de que era uma pessoa presente na empresa desde os primeiros
dias e um senhorzinho adorável, como aquele parente brincalhão
e divertido que só encontramos em casamentos e funerais. Não
sabemos bem qual é o grau de parentesco, mas a conversa é
sempre divertida e vamos embora com um sorriso no rosto.
Aqueles que conhecem a história dos quadrinhos sabem que Lee
foi cocriador do Universo Marvel e principal — e por muito
tempo único — divulgador das histórias e das pessoas que as
compunham. Um sujeito cujo nome figurava sob a legenda de
“apresentado por” dos gibis e que passou as últimas décadas
envolvido no show business em Hollywood.
Muitos dos que trabalhavam com e para ele achavam Stan Lee
um chefe incrível, sempre cheio de atividades para delegar,
inspirando todos a darem o melhor de si, além de sempre se
preocupar com os funcionários e suas famílias. Outros o
consideravam um cara bacana, porém cheio de falhas, alguém que
gostariam, talvez, que tivesse sido melhor do que de fato foi.
Já um pequeno grupo de profissionais e fãs dos quadrinhos
acredita que Stan Lee foi o pior dos vilões, explorando pobres
artistas que na verdade faziam todo o trabalho criativo enquanto
se colocava à frente de tudo, mesmo não passando de um
manipulador sortudo e ardiloso que, por acaso, estava no lugar
certo e na hora certa. (Mas devo dizer que 75 anos é muito tempo
estando nos lugares certos e nas horas certas!)
Seja lá o que você pensa que sabe sobre Stan Lee — ou mesmo
se não o conhece muito bem —, espero que esta biografia dê um
pouco mais de dimensão e profundidade ao homem e às suas
conquistas e mostre que, não importa qual seja a sua opinião: há
mais nessa história do que você imagina.
O movimento iniciado por Lee, que cresceu além das
expectativas mais absurdas de todos, tem uma história fascinante,
tão estranha e improvável quanto qualquer aventura de mutantes
sobre-humanos e homens-aranhas que a Marvel tenha contado.
Se deseja entender a cultura pop dos Estados Unidos — ou seja,
compreender de onde vêm as histórias que contamos a nós
mesmos para tentar entender quem somos —, um bom ponto de
partida é compreender a vida de Stan Lee.
Danny Fingeroth
Maio de 2019