A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 12 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

11. Boom Boom Boom

EXTRA! Ficou sabendo que STAN THE MAN

passou horas batendo papo com JOE

McDONALD, BARRY MELTON e o agente dos dois,

ED DENSON? Talvez você os conheça como

COUNTRY JOE AND THE FISH!

— Bullpen Bulletins da Marvel,

em revista de junho de 1970

 

J oe McDonald, nascido em 1º de janeiro de 1942, era pré-boomer, assim como muitos dos músicos de rock do fim dos anos 1960: tinham chegado ao mundo logo antes do boom de bebês em 1945. Ele e sua banda, Country Joe and the Fish, criavam letras sobre assuntos relevantes do fim dos anos 1960 — incluindo “Superbird”, uma música de 1967 que retratava os super-heróis da

Marvel (mais especificamente o Quarteto Fantásticoe o Doutor

Estranho) como representações do pensamento da nova era, que

derrubaria a filosofia antiquada do herói que dá nome à música, Superbird, uma suposta identidade alternativa para o então

presidente Lyndon Johnson.

Na música, Johnson é retratado como um Super-Homem

ensandecido — não um vilão, mas um herói caído. Pode-se

também ver a figura do Superbird como um herói desatualizado,

vindo de uma geração mais velha, enquanto os heróis dispostos a

ajudar o narrador da música — o próprio Fish, ou possivelmente a

geração inteira que o Fish representa — estão vivendo um “novo

dia”. Esses são os super-heróis mais modernos, saídos dos

quadrinhos da Marvel.

Em uma entrevista de 2018 ao site da Aquarian Drunkard,

McDonald, cinquenta anos depois, lembrou a relação entre os

quadrinhos e a música:

 

Era o começo da Marvel Comics, com aquele humor irônico dos

heróis de quadrinhos, então [a ideia] foi transformar o presidente

em um personagem dos quadrinhos. Assim, seguimos adiante, e

achamos bem engraçado. [ 267 ]

 

Embora os Fish nunca tenham sido tão populares quanto outros

grupos que surgiram na área da baía de São Francisco naquela

época — como Jefferson Airplane e Grateful Dead —, a banda era

bastante famosa em seu auge e, apesar de tocar canções de amor e

rocks animados, tinha letras com mais temas políticos do que

muitos de seus contemporâneos.

A música mais conhecida foi a sardônica “I-Feel-Like-I’m-Fixin’-

to-Die Rag”, contra a Guerra do Vietnã, escrita por McDonald e

lançada em novembro de 1967; uma música sombria sobre a

opinião dos soldados da época, que, no refrão, comemoravam: “Whoopee, we’re all gonna die” [Iupi!, vamos todos morrer]. A

música ganhou fama na apresentação solo de McDonald, no

Festival de Woodstock, em agosto de 1969, assim como no filme

do festival, de 1970.

As músicas da banda tinham um humor mais sombrio, cheias de

ironia e zombaria, e transmitiam uma urgência dramática.

Bem parecido com as histórias em quadrinhos da Marvel.

Embora muitas celebridades tenham visitado a Marvel Comics e

Stan Lee, os Fish talvez tenham sido a única banda de destaque

dos anos 1960 com as visitas registradas nos Bullpen Bulletins — e

foram pelo menos duas visitas, talvez até mais. Além disso, a

banda apareceu em uma edição de Nick Fury, Agent of S.H.I.E.L.D.

Embora Stan tenha descoberto do amor dos Beatles por outro

músico, Peter Asher, os Fish demonstraram diretamente o

carinho pela empresa, seus personagens e sua equipe, tanto na

música quanto em pessoa. O relacionamento da banda com Lee

abre uma janela interessante para sua fama crescente no final dos

anos 1960.

O relacionamento começou com uma carta da banda de 19 de

maio de 1967 — oito dias após o lançamento do primeiro álbum,

Electric Music for the Mind and Body. Uma das faixas era

“Superbird”. (Para contextualizar, o álbum clássico dos Beatles,

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, foi lançado nos Estados

Unidos em 26 de maio.) A carta era assinada por “Country Joe

and the Fish” e provavelmente fora escrita pelo agente da banda,

ED Denson, possivelmente junto com uma cópia do álbum. O

texto, dirigido a Stan, dizia o seguinte:

Você com certeza ficará satisfeito em saber que suas criações estão

tão arraigadas na consciência dessa geração que elas surgem —

sim, surgem — na música popular da época. Se você escutar este

disco com atenção (…) ouvirá e verá duas aparições [o Quarteto

Fantástico e o Doutor Estranho]. [ 268 ]

 

A resposta de Lee, em 26 de maio, foi:

 

Olá, amigos dos peixes! [Fish, no nome da banda, significa “peixe”]

(…) Ficamos deleitados ao descobrir que nossa fama ainda um

tanto questionável tenha chegado até os sagrados e harmoniosos

salões da Berkeley e que tenha entrado, ainda que insidiosamente,

nas letras de seu álbum eletrizante!

Galera, o que estou tentando dizer é que adoramos as músicas do

balacobaco, ficamos impressionados com a menção e ficamos mais

do que felizes em coroá-los Merry Marchers in Perpetuity [soldados

da alegre marcha pela perpetuação]! (…)

Fiquem frios, entrem nessa onda! Você são o nosso tipo de

heróis. [ 269 ]

 

Os Fish estavam com apresentação marcada para o dia 17 de

junho, no lendário Festival Pop de Monterey. Logo depois, em

algum momento do “verão de 1967”, de acordo com o escritor e

editor da equipe da Marvel, Gary Friedrich (falecido em 2018), os

Fish passaram por Nova York e se apresentaram em vários locais,

incluindo o Cafe Au Go Go. Nessa ocasião, o tecladista da banda,

David Bennett Cohen, marcou uma visita à Marvel.

Como Cohen lembrou, em 2010:

Eu que incentivei a visita. Liguei para a Marvel Comics e agradeci

pelos quadrinhos. Tinha algo especial nos quadrinhos da Marvel.

Eram histórias adultas. Não era coisa de adolescente nem de

criança. Claro que era fantasia e estava além da realidade, mas

eram cheias de maturidade. (…)

Então na ligação falei que queria conhecê-los. Disse que eu era do

Country Joe and the Fish (…) e acho que alguém acabou me

convidando para subir. [ 270 ]

 

Friedrich, fã dos Fish, foi ao saguão para cumprimentar a banda

quando visitaram o escritório, aparentemente sem nenhum

compromisso. Ele convenceu Stan — que, apesar da

correspondência recente, parecia nunca ter ouvido falar da banda

— a marcar um encontro. Em 2010, Friedrich lembrou:

 

Depois de muito jogo de cintura da minha parte, principalmente

apontando a publicidade que geraria se mencionássemos a reunião

nos Bullpen Bulletins, ele cedeu, e marcamos o encontro.

Alguns dias depois, David apareceu com Joe, Barry [Melton] e o

restante da banda. (…) Guiei o pessoal até o santuário interno, e

fomos recebidos pelo sorridente Stan. Ele foi muito cordial, como

sempre. (…) A reunião não durou muito. Joe fez algumas perguntas

(…) a banda estava um tanto impressionada. Acho que Stan, como

sempre, só queria voltar ao trabalho, embora nunca deixasse

transparecer aos convidados.

Depois de alguns minutos, Stan encerrou o encontro muito

graciosamente, apertou as mãos de todos, e acabou. (…) Stan

iluminava a sala com seu sorriso para os convidados, fazia com que

se sentissem em casa, como se pudessem passar o dia ali, se

quisessem. Então, de uma hora para a outra, encerrava o assunto,

apertava as mãos e dispensava o pessoal, para que pudesse voltar

ao trabalho. Mas, depois desses encontros, nunca conversei com

nenhum convidado que não tivesse se sentido tratado como rei, que

não dissesse que o momento fora um dos pontos altos de sua vida.

Foi igual com CJ and the Fish. [ 271 ]

 

E Cohen diria, sobre a reunião:

 

Stan Lee marcou minha vida. Conhecê-lo foi quase anticlimático,

porque esses quadrinhos nos sustentaram por muitas vezes,

entende? [ 272 ]

 

E o cofundador da banda, Barry Melton, disse, em 2010:

 

É claro que me lembro de conhecer Stan. Nunca poderia me

esquecer de quando conheci uma das maiores mentes criativas e

inspiradoras da minha geração. (…) Doutor Estranho e o Surfista

Prateado, e também até o Quarteto Fantástico, eram parte de nossa

subcultura em São Francisco — o que acabou se tornando a

subcultura dos jovens do país. (…)

Eu me lembro de Stan ser realmente encorajador. Achei que seria

um velho beatnik ou algo assim, porque ele usava óculos escuros.

(…) Sociologicamente, os quadrinhos da Marvel faziam parte do

movimento juvenil dos anos 1960. (…) Sou completamente

apaixonado por Stan Lee e pelo impacto que ele teve em nossa

cultura. Quer dizer, o cara era mesmo um gigante. [ 273 ]

Os integrantes dos Fish, ao que parecia, eram mesmo os “amigos

dos peixes” de Stan Lee. Cohen lembrava que os membros da

banda no encontro daquele dia eram apenas ele e Gary “Chicken”

Hirsh, ou Melton, o que contrasta com a lembrança de Friedrich,

da banda inteira retornando para pelo menos mais uma visita

posterior. O tempo obscureceu alguns dos detalhes das visitas da

banda à Marvel.

Mas o relato de Lee sobre esse encontro aparentemente só

apareceu nos Bullpen Bulletins dos quadrinhos de setembro de

1967, lançados em junho, então a entrada deve ter sido escrita em

abril, quando Lee assinou seu editorial, “Stan’s Soapbox” [Caixote

do Stan], com: “E agora temos que encerrar o assunto, pois

Country Joe and the Fish acabaram de chegar para nos visitar, e

não queremos que fiquem fora da água por muito tempo!”

Os Fish apareceram como parte da história em novembro de

1969, na edição n.º 15 de Nick Fury, Agent of S.H.I.E.L.D., escrita

por Friedrich, com arte de Herb Trimpe, Dick Ayers e Sam

Grainger. Na cena, a banda tocava “Not So Sweet Martha

Lorraine” e “Superbird”, com todas as suas referências de super-

heróis, ambas da Electric Music for the Mind and Body.

Sua próxima aparição nos quadrinhos foi nos Bulletins de junho

de 1970, à venda em março, provavelmente escritos em janeiro ou

fevereiro:

 

EXTRA! Ficou sabendo que STAN THE MAN passou horas

batendo papo com JOE McDONALD, BARRY MELTON e o agente

dos dois, ED DENSON? Talvez você os conheça como COUNTRY

JOE AND THE FISH!

Era uma época em que a visita de uma banda razoavelmente

radical no âmbito da política não era apenas permitida, mas

anunciada nos Bullpen Bulletins. Lee talvez não entendesse muito

bem o cenário geral do tempo em que vivia, mas, de alguma

forma, estava em sintonia com a cultura jovem da época — ou

pelo menos se esforçava para isso. Igualmente digno de nota era o

fascínio da contracultura pelos super-heróis de Lee, que, mesmo

nas versões redesenhadas da Marvel, continuavam sendo

essencialmente justiceiros fantasiados.

E, é claro, as visitas de celebridades aos escritórios não eram

mais que uma gota no oceano de fãs, muitas vezes crianças, que

apareciam para tentar vislumbrar os criadores de seus heróis

favoritos (sem se dar conta de que a maioria trabalhava em casa),

quase sempre impedidos pelo bloqueio — em geral verbal, mas às

vezes físico — da “Fabulosa” Flo Steinberg.

* * *

O verão de 1967 trouxe o Verão do Amor em São Francisco,

quando jovens de todo o país se reuniram nas periferias de

Haight-Ashbury querendo levar a vida hippie de seus sonhos. Foi

também o ano em que o movimento artístico “underground

comix” começou a tomar forma em tirinhas de jornais

alternativos, como The East Village Other e o Berkeley Barb. O

trabalho de cartunistas pioneiros do movimento, como Robert

Crumb e S. Clay Wilson, ainda não era tão conhecido, então a

enérgica e colorida Marvel Comics era um atrativo natural para as

pessoas que queriam consumir cultura “contra os costumes”,

muitas vezes aliada ao uso de substâncias que alteram a

percepção. (No início de 1968, porém, surgiram os primeiros

quadrinhos underground, como Zap Comix, de Crumb; em pouco tempo, o movimento surtiu um efeito curioso nas editoras de

quadrinhos infantis de aventura, como veremos em breve.)

Embora fossem muito queridas pelo público, as histórias em

quadrinhos ainda eram consideradas uma porcaria, e ainda levaria

pelo menos uma década para que atores culturalmente relevantes

e formadores de opinião se dispusessem a considerar que

poderiam ser uma expressão artística legítima. Assim, permanecia

o apelo “proibido” dos quadrinhos tradicionais, que só se

fortaleceu quando entraram em cena alguns inovadores

idiossincráticos das artes visuais, como Jim Steranko.

Steranko, nascido em 1938 (mesmo ano de estreia do Super-

Homem, na Action Comics n.º 1), trabalhava com a Marvel desde

1966, quando, logo após a renúncia de Ditko, abriu caminho,

passando por Steinberg, Brodsky e Thomas usando uma

combinação de personalidade cativante e talento surpreendente, e

conseguiu uma reunião com Lee. Steranko saiu do escritório com

trabalhos regulares de desenhista e, em cinco meses, virou

roteirista e criador de scripts da série “Nick Fury, Agent of

S.H.I.E.L.D”, publicada em Strange Tales.

Steranko, um dos poucos novos criadores a entrar no ofício

havia mais de uma década, dificilmente poderia ser considerado

um hippie, mas mesmo assim trouxe o frescor da cultura daquela

juventude ao universo dos quadrinhos, pois sabia muito bem o

que estava na moda em termos de design e ostentava um estilo

inspirado em grandes nomes da indústria — como Eisner, Kirby,

Infantino, Kane —, infundido com a própria paixão e experiência

de vida. Steranko seria uma das pessoas que ajudariam Lee e

Kirby a reduzirem sua carga de trabalho. Seu entusiasmo juvenil e

talento ilimitado iniciaram o processo que ganharia força e se concretizaria nos anos 1970, quando as habilidades dos veteranos

foram complementadas pela perícia de criadores mais jovens, que

tinham percebido que os quadrinhos não apenas se expandiam

em termos de oportunidades de emprego, mas também de

conteúdo, e que, apesar de não serem uma escolha de carreira

respeitável, pelo menos não eram uma fonte de vergonha tão

grande quanto antes.

Lee, talvez sofrendo com a perda de Wood e Ditko, estava

disposto a dar a Steranko o tipo de liberdade criativa e crédito

explícito que não concedia totalmente a Kirby. Ou talvez esse

crédito tenha acontecido porque Lee não se importava tanto com

a S.H.I.E.L.D. — Steranko alegou que pediu a Lee a série de menos

sucesso, e Stan provavelmente achou que não havia nada a perder

ao deixar Steranko assumir o crédito (no mínimo teria alguém a

quem culpar, se fosse necessário). Por outro lado, a história era

outra com seus favoritos, como Quarteto Fantástico. Desses, Lee

ainda se orgulhava demais da autoria para permitir que os créditos

fossem “por Stan Lee e Jack Kirby” — o que era uma concessão a

Kirby, já que a atribuição ambígua significava que Kirby não era

mais relegado “apenas” ao crédito de desenhista. Esse crédito

também evocava as colaborações anteriores da carreira de Kirby,

anunciadas como “por Joe Simon e Jack Kirby”.

Embora certamente não fosse um artista do movimento

underground, Steranko dava uma aparência moderna ao trabalho,

que, apesar de se encaixar muito bem ao que os leitores

associavam à Marvel, também representava um surto de cafeína e

energia — além de uma boa dose de psicodelia — que a equipe

criativa regular da empresa, pelo menos os artistas, não

conseguiam transmitir para o papel. Embora os escritores mais jovens, como Thomas, Friedrich e O’Neil, estivessem conectados

ao zeitgeist, cada um à sua maneira, suas histórias eram

desenhadas por profissionais já estabelecidos no mercado — todos

muito talentosos, só que mais velhos e já por fora da moda da

juventude. Era raro haver um artista de meia-idade que, como

Kirby, conseguia se conectar ao espírito da geração mais jovem

ou, se necessário, inventar um estilo próprio que atendesse a essa

demanda.

Steranko trabalhava como freelancer, inclusive para Joe Simon,

na Harvey, mas suas inovações sofreram resistência em outras

empresas. Seu trabalho tinha a energia bruta que Lee procurava,

um tipo de arte a que ele sempre estivera aberto. Mais uma vez, a

relativa liberdade de Lee, de poder seguir com seus instintos

editoriais, serviu muito bem. Como ele disse ao apresentador de

rádio Neal Conan (então com 18 anos, no início da ilustre

carreira), em uma entrevista de 1968:

 

Jim Steranko viola todas as regras, e isso sempre resulta em um belo

trabalho. Eu nem sequer edito o trabalho dele. (…) Quanto mais

doida a história, mais eu incentivo, dizendo: “Vá em frente, pode

fazer.” [ 274 ]

 

Se, como Spurgeon e Raphael dizem, Lee nessa época era “um

grande editor de quadrinhos, talvez o mais bem-sucedido na

história da indústria” [ 275 ], foi em parte por ter seguido seus

instintos, como o de dar a Steranko rédeas relativamente livres.

Lee tinha autonomia suficiente para poder encarar riscos

calculados que outros editores não poderiam ou não aceitariam

correr.

* * *

Nascido no mesmo ano que Jack Kerouac, Lee poderia muito bem

ser um “velho beatnik”, como Barry Melton pensava. (Lee tinha

44 anos na primeira reunião de 1967 com a banda.) É claro que

ele, Kirby e Ditko estavam o mais longe possível das

contraculturas boêmias.

Embora os escritores e artistas da Marvel trabalhassem em uma

indústria que exigisse sua criatividade, ainda que fosse

marginalizada, e estivessem sempre ocupados em contar histórias,

sua vida cotidiana longe das pranchetas e das máquinas de

escrever envolviam coisas que os hippies boomers e pré-boomers

dificilmente achariam interessantes. Lee e Kirby eram pais de

classe média, preocupados em sustentar as famílias e em evitar as

tradicionais armadilhas do sucesso. E o objetivismo filosófico que

guiava Ditko era um anátema para as tendências coletivistas de

muitos na contracultura. Claro que os Fish e outras bandas

populares estavam envolvidos na mesma busca por carreiras de

sucesso que Lee e seus colegas, mas talvez se sentissem mais em

conflito com isso, tentando unir as carreiras bem-sucedidas com a

necessidade de se manterem fiéis a um conjunto amorfo, mas

principalmente não materialista, de ideais.

É claro que as gerações têm diversos aspectos e facetas. Embora

muitos jovens fossem ativos nos movimentos pró-direitos civis e

antiguerra, vários estavam do outro lado da questão. E, como

sempre, os adolescentes quase todos tentavam simplesmente

sobreviver à escola e desenvolver sua vida social. Mas a guerra

cada vez mais intensa no Vietnã e o recrutamento militar

impactavam diariamente a vida dos jovens, não importava se

estavam reunidos no Golden Gate Park ou embarcando para Saigon. Generalizar uma geração — ou várias, já que o boom de

bebês se estendeu por algum tempo — é sempre complicado.

Ainda assim, no fim das contas, é o que move a arte, do artesanato

às indústrias da cultura popular: encontrar algo que atraia e

empolgue um grande segmento demográfico, ofendendo ou

afastando o mínimo possível. E os quadrinhos da Marvel

conseguiam isso, oferecendo histórias que poderiam ser

interpretadas de várias maneiras.

Claro que, como sempre, as crianças ainda compravam e liam

quadrinhos. Mas aquele era um novo fenômeno. Jovens adultos

inteligentes, instruídos e antenados na moda — pessoas que

poderiam muito bem ouvir bandas como os Fish enquanto liam os

quadrinhos — estavam apaixonados por Stan Lee e pela Marvel.

Não importava se eram jovens que tinham seguido o sonho de se

tornar músicos famosos, ou se tinham optado por caminhos mais

tradicionais, buscando educação profissional ou servindo nas

Forças Armadas: os jovens norte-americanos encontravam

inspiração na Marvel Comics. E, como Cohen e Melton, essa

inspiração era personificada em Stan Lee, que se tornara a

encarnação física da Marvel.

* * *

Tudo deve ter parecido um sonho para Lee. Depois de começar

naquele trabalho aos 17 anos, em 1940 — e presumir que

provavelmente seria só mais um emprego temporário, como

tantos que tivera desde que se formara na escola DeWitt Clinton,

no ano anterior —, e levar uma carreira de 25 anos, passando

pelos altos e baixos da indústria dos quadrinhos, Lee estava em

uma posição extraordinária. Tinha se tornado editor-chefe da

Timely Comics aos 18 anos, e presidira o que, até 1957, fora um dos maiores produtores de quadrinhos do país. Ele era bem

conhecido na área, e, em geral, muito apreciado e até admirado

por seus colegas. Mas, nos anos 1950, Lee não era nem um pouco

famoso e certamente ninguém o considerava influente na cultura

geral, popular ou não — na verdade, à exceção das histórias que

supervisionava, Lee não era influente nem mesmo no mundo dos

quadrinhos.

Lee tinha sobrevivido à implosão de 1957 e, mais tarde, ainda

conseguira empregar sua inteligência e suas forças para erigir o

fenômeno da Marvel Comics. Os quadrinhos eram bem-sucedidos

e não estavam sendo notados apenas pelas crianças — sempre tão

apaixonadas pelas histórias, pelos personagens e pelos criadores

—, mas também pelos universitários. Além disso, estavam sendo

notados pelos adultos que, na infância, adoravam ler aquelas

revistas e agora estavam interessados no que a Marvel estava

fazendo. Eram adultos com formação superior, como Roy Thomas

e o dr. Jerry Bails. Além disso, celebridades como Federico Fellini

também estavam sendo atraídas por aquele fenômeno.

Assim, Stan Lee, que antes estava ansioso — quase desesperado

— para deixar os quadrinhos, de repente se ocupara de

reestruturá-los (e a si próprio) em algo novo. Fazia palestras

frequentes para grandes multidões, em faculdades e universidades

de todo o país. Nenhum editor ou escritor de quadrinhos jamais

estivera naquela posição. Em 1960, o mundo inteiro estava

mudando, e muitos pareciam querer saber o que Stan Lee pensava

sobre a agitação política e social do momento. Sem dúvida, uma

situação muito diferente da que ele estava acostumado.

Por alguma razão, Stan não estava mais simplesmente vendendo

coisas. Claro que seu sustento e estilo de vida dependiam de que fizesse e vendesse coisas. Mas, naquele momento, além do que

acabaria se revelando uma compulsão por dizer a verdade

(mesmo que essa verdade estivesse disfarçada em um discurso

casual, carregado de expectativa), havia o desejo de dizer — ao

vivo e na mídia impressa — coisas com mais significado. As

histórias em quadrinhos, que até então tinham proporcionado

uma maneira agradável de ganhar a vida, de repente fizeram dele

uma figura cujas opiniões também interessavam ao público. Mas

será que Lee queria compartilhar suas opiniões em público? Não

apenas no almoço, com seus amigos, ou na relativa intimidade de

um auditório da faculdade, mas nas páginas das revistas em que os

personagens da Marvel lutavam contra supervilões e comoviam o

público com suas tragédias?

Bem, parece que sim, ele queria compartilhar seus sentimentos e

suas opiniões, porque foi exatamente isso que fez. Lee talvez

sentisse que tinha algo a dizer, algo que precisava ser

compartilhado. Mas de quem eram as opiniões que ele divulgava?

De Stan Lee ou da Marvel Comics? Porque, em diversos aspectos,

os dois tinham passado a ser a mesma coisa — exceto, é claro,

pelo pequeno detalhe de que Lee não era proprietário nem editor-

geral da Marvel Comics. Ainda assim, ele compartilhou suas

opiniões.

Para Lee, essa seria mais uma situação em que ele “aprendia

durante o processo”. Transmitiria algumas opiniões leves, porém

sinceras, como já fazia nas páginas de cartas e nos Bullpen

Bulletins, só que oculto sob o “nós” ou falando de “Stan” na

terceira pessoa. Porém, nessa nova empreitada, ele deixou suas

opiniões mais claras com a introdução da coluna Stan’s Soapbox

nos Bullpen Bulletins. A primeira apareceu nos quadrinhos de maio e junho de 1967, e o tópico abordado era “A filosofia

Marvel”, sobre a qual escreveu:

Por trás das revistas tem algo que nos move — um propósito! É um

objetivo claro e simples: entreter você, leitor! (…) E, se pudermos,

contribuir um pouco para promover a causa do intelectualismo, do

humanitarismo e do entendimento mútuo (…) de forma a não

partir o coração de nossa sociedade! (…)

 

Não se pode dizer que foi um editorial especialmente

controverso. Ainda assim, nenhuma outra editora de quadrinhos

defendia “a causa do intelectualismo, do humanitarismo e do

entendimento mútuo”. É pouco provável que essas diretrizes

tenham vindo de ordens de Martin Goodman. Não, aquilo vinha

direto de Stan, mesmo oculto no disfarce ambíguo do “nós”.

Nos quadrinhos de novembro de 1967, a Soapbox informava:

 

Atendemos a um nível intelectual especial. Nossos empolgados

leitores, não importa a idade, se provaram brilhantes, imaginativos,

descontraídos e sofisticados!

 

Mais uma vez, talvez esse elogio aos leitores não tenha sido uma

declaração tão arriscada. Ainda assim, sem dúvida havia leitores

que não gostavam de serem incluídos em uma elite esnobe de

“nível intelectual especial” e que talvez até tivessem muitas

críticas em relação a esse tipo de gente. Considerando isso, a

afirmação pode ter de fato representado algum risco, ainda que

baixo.

Nos quadrinhos de abril de 1968, Lee afirmou, em sua Soapbox:

Você sabia que mais de dez professores universitários dos Estados

Unidos passaram a usar as revistas da Marvel em seus cursos de

inglês, como material suplementar? Isso é apenas um começo, mas

estamos chegando lá, pessoal!

 

Que porcentagem da audiência se importava com isso? E o que é

esse “material suplementar”, exatamente? (E aonde era esse “lá” a

que a Marvel queria chegar?) Porém, para Lee, foi obviamente

importante declarar aquilo.

Nos quadrinhos de setembro de 1968, Lee começava sua dança

entre algumas minas terrestres. Observando que alguns

funcionários da Marvel eram democratas, e outros, republicanos,

afirmou:

 

Este aqui que vos fala e mais alguns outros do editorial preferem

julgar a pessoa por quem é do que pelo partido que defende. É por

isso que tentamos evitar que as edições tratem de questões muito

controversas (…) porque compartilhamos da mesma diversidade de

opiniões que o povo dos Estados Unidos.

 

Em 1968, ninguém esperava isso da revistinha que era lida para

escapar da realidade.

E essa declaração foi seguida, na mesma Soapbox, pela seguinte,

que talvez tenha feito alguns leitores pensarem que o próprio Lee

estava envolvido com algumas substâncias diferenciadas:

 

Acreditamos que o Homem tenha um destino divino e uma

responsabilidade tremenda: a de (…) julgar cada companheiro

humano por seu próprio mérito, independentemente de raça, cor ou

credo (…) e não descansaremos até que isso se torne um fato, e não

apenas um sonho acalentado!

 

De onde aquele pai de classe média, que afirmava estar apenas

preocupado em ganhar a vida, tirou isso? A Marvel, Stan Lee,

alguém, afirmava que não “descansaria” até que a humanidade

cumprisse seu “destino divino”?

Como certo refugiado kryptoniano poderia dizer: “Mas o

que…?!”

Nos quadrinhos de outubro, Lee escreveu, em sua Soapbox, que

a maioria dos leitores que respondiam de fato queria que a Marvel

se posicionasse no debate. O que levou à Soapbox de novembro de

1968, nas bancas em agosto, em que ele declarava:

 

Precisamos definir algumas questões. O racismo e a intolerância

estão entre os males sociais mais mortais que assolam o mundo.

(…) Cedo ou tarde, se quisermos nos provar dignos de nosso

destino, devemos encher o coração de tolerância. Pois então, e só

então, seremos verdadeiramente dignos do conceito de que o

homem foi criado à imagem de Deus — um Deus que chama a

TODOS de filho.

 

E, caso você esteja se perguntando por quem Lee estava falando,

a Soapboxera assinada, abaixo da versão em latim para “paz e

justiça”:

 

Pax et Justitia,

Stan

O mais notável não é tanto a denúncia contra a intolerância; é o

tom e a intensidade do discurso. Aquilo estava muito além do

humor irreverente da Merry Marvel Marching Society ou da

citação de celebridades que tinham visitado a redação no Bullpen.

Ali estava um homem com algo a dizer e, graças às próprias

realizações, com um fórum onde se pronunciar. Os quadrinhos da

década de 1950 da EC Comics tinham se posicionado contra a

censura em suas páginas de texto, declarações que, assim como as

Soapbox, podiam ser exageradas ou ir contra a filosofia de um

número significativo de leitores. Mas o objetivo principal dos

editoriais da EC era a própria sobrevivência. Os quadrinhos

estavam na mira de inimigos dentro e fora da indústria, e seu

objetivo era invalidar os críticos e viver para publicar por mais

um dia.

Mas aquilo era diferente. Lee e a Marvel não pareciam ganhar

nada com as declarações, mesmo que fosse sobre algo pouco

controverso, como a intolerância ou, a propósito, a ideia de se

posicionar publicamente como editorial. Mas, em algum lugar lá

no fundo, com a agenda lotada e estendida, Lee decidiu que era

urgente expressar seus sentimentos mais profundos — e

confundi-los com os “sentimentos” da Marvel. Se o impulso não

era genuíno, se era só uma forma de bajular um público que já

estava viciado nos quadrinhos e nas mercadorias da empresa,

parece ter sido trabalho demais para simplesmente fingir que se

importava.

* * *

Nenhum fato é isolado, é claro. Enquanto o universo pessoal de

Lee passava por uma mudança — que não era nem um pouco

desagradável —, o país e o mundo também mudavam. Dizer que Lee foi compelido a se pronunciar quanto às condições que o

circundavam é redundante. Todos respondem ao mundo ao redor.

Mas Lee teve a chance de se tornar um modelo de

comportamento e não se esquivou do desafio. Ele claramente

apreciava a ideia de que as pessoas procurariam seu trabalho e sua

opinião pessoal em busca de orientação, naqueles tempos

desconcertantes.

Decerto havia mais figuras da geração de Lee que eram

populares entre os boomers, como Sonny Fox e Chuck McCann,

apresentadores de programas infantis de Nova York, e figuras em

um âmbito mais nacional, como Bob Keeshan, também conhecido

como Captain Kangaroo [Capitão Canguru]. E também havia

Soupy Sales, uma celebridade popular tanto entre crianças e

adolescentes quanto entre universitários.

Mas a situação de Stan Lee era diferente. Ninguém se importava

com o que o Capitão Canguru pensava sobre a Guerra do Vietnã.

Havia mais gente da idade de Lee popular nos campi, como

Marshall McLuhan e Allen Ginsberg, por exemplo, além de

William F. Buckley Jr. e Abbie Hoffman. Mas confrontar as

pessoas com suas opiniões era o trabalho desses homens. Ou seja:

Lee claramente também não estava nesse molde.

Se de fato já houve uma figura sui generis, foi Stan Lee. Ninguém

na cultura tinha um papel semelhante: um funcionário no topo

(mas não no comando) de uma editora, cujos produtos eram

consumidos principalmente por crianças, que acreditava que

precisava dar sua opinião sobre as questões do momento. Quando

sua persona pública começou a se tornar conhecida, no fim da

década de 1960, Lee passou a assumir um papel diferente: em vez

de tentar conversar com a geração dos boomers como igual, decidiu ser uma espécie de líder de torcida filosófico, uma espécie

de pai sério, porém descolado, um adulto que não tinha desistido

de seus ideais da juventude, mas que também não tentava

doutrinar ninguém.

Stan Lee anunciava em voz alta que se opunha ao fanatismo.

Como a história nos mostrou, nem todo mundo é tão corajoso,

sobretudo quando trabalha vendendo coisas.

* * *

A ideia de que os baby boomers só querem saber do próprio

umbigo é mais do que clichê. E, no entanto, parece não haver

melhor maneira de explicar a popularidade da Marvel e a fama de

Stan Lee do que este fator da cultura boomer. Um número

significativo de crianças, que tinham sido fisgadas pela Marvel

desde os primórdios de Quarteto Fantástico e Homem-Aranha,

passou da infância para a adolescência, ou da adolescência para a

vida adulta, no decorrer dos anos 1960; ainda assim, esses jovens

mantiveram o interesse pelos personagens e pelos criadores da

Marvel. Claro que a maioria dos adolescentes ainda abandonava os

quadrinhos, mas um número razoável passara a continuar

consumindo esse tipo de mídia, inclusive alguns estudantes

universitários. E, enquanto Kirby rompia fronteiras de conceitos e

de visão, Lee fazia o mesmo com a redação, a edição e a

autopromoção.

O fato de os dois homens terem filhos boomers pode muito bem

ter sido um dos fatores que definia como pensavam e contavam as

histórias. Ambos de fato tinham entrado de cabeça naquela

empreitada. O mundo em que seus filhos cresciam volta e meia

batia às suas portas. “Sexo, drogas e rock and roll” não era apenas

um slogan; era a realidade que seus filhos enfrentavam diariamente na escola e nas ruas — além, é claro, na TV e no

cinema. Era a realidade que os filhos de todos os norte-

americanos encaravam. Havia setenta milhões de boomers naquele

país de cerca de duzentos milhões de habitantes; um terço da

população passava pelos testes dos vários experimentos da

sociedade estadunidense, em constante evolução. (E, embora não

fosse nem boomer nem pai de ninguém, Steve Ditko parecia nunca

ter perdido o contato com aquele adolescente arredio da

Johnstown High School, ou mesmo com as verdades eternas da

adolescência.)

Os jovens que frequentavam a escola primária no início e em

meados da década de 1960 estavam indo para a faculdade, ou a

caminho do Vietnã. Ou entrando no Corpo da Paz. Indo para o

Canadá. Talvez para Haight-Ashbury. Ou para fábricas e

escritórios. E grande parte desse público ainda acompanhava os

quadrinhos da Marvel, o movimento underground comix, os filmes

e — sobretudo — a música da época. E muitos queriam saber o

que Stan Lee pensava sobre o que estava acontecendo.

Por quê? Principalmente porque Lee forjara uma conexão

íntima com os leitores da Marvel, com muitos deles desde que

eram crianças. E Lee era sinônimo de Marvel. Stan Lee, uma

pessoa real, com uma personalidade pública eloquente, era a voz e

o rosto da Marvel em uma época em que a voz e o rosto da DC

eram oSuper-Homem e o Batman, enquanto as outras editoras

nem sequer tinham voz e rosto.

Portanto, não importava para a maioria dos leitores o que os

editores da DC Julius Schwartz, Bob Kanigher ou Mort Weisinger

pensavam sobre as polêmicas da época. Esses homens, quaisquer

que fossem suas personalidades, não se consideravam publicitários ou porta-vozes. O trabalho deles era publicar

histórias em quadrinhos divertidas que vendessem bem para

continuar lançando histórias em quadrinhos divertidas que

vendessem bem.

Stan Lee tinha decidido que seu trabalho era outro. Forjado pela

Grande Depressão e pelas mudanças da indústria dos quadrinhos,

Lee parecia perceber instintivamente que seu desespero para dar

à Marvel um rosto amigável também proporcionava um ponto de

partida para se tornar uma celebridade com opiniões, sentimentos

e paixões — um ideal que se relacionava diretamente à indústria e

à editora com as quais pensava ter deixado de se preocupar

muitos anos antes.

Lee encarou seu status de celebridade com a naturalidade de um

pato na água pela primeira vez. Desenvolveu um novo visual,

passando a usar ternos da moda, barba bem aparada e uma peruca

elegante e bem penteada, como conviria a um homem sob o

escrutínio do público. Já ficou claro que, enquanto a Marvel

permanecesse relevante, Stan também permaneceria. E, se a

Marvel perdesse seu toque de Midas ou decidisse que não

precisava mais dele, Lee estava em posição de usar seu status de

celebridade para se aventurar com o ofício que julgasse necessário

e apropriado. Claro que ainda trabalhava na indústria dos

quadrinhos, mas agora também desbravava a indústria do

entretenimento.

E, o mais importante, estava na indústria de Stan Lee. E isso, ao

que parece, se revelou uma excelente empreitada de negócio. Foi a

atitude que se tornou a chave para praticamente tudo que

aconteceria em sua vida profissional — e muitas vezes na pessoal

também. Se, na história do mundo, houve alguém no lugar certo, na hora certa, com as habilidades, a experiência e a personalidade

certas para aproveitar ao máximo as possibilidades apresentadas

— e criadas por ele —, era Stan Lee.

* * *

A revolução que a Marvel proporcionou ao gênero de super-

heróis, em 1961, foi um incrível divisor de águas na vida de Lee.

Ele aproveitou as oportunidades que vieram com essa nova

abordagem para as histórias em quadrinhos que ajudara a

inventar, e as aproveitou ao máximo. Em 1967, e certamente em

1968, o potencial criativo e de negócios da gigante Marvel era um

fenômeno cultural já certificado. Esses dois anos seriam também

os mais tumultuados da história mundial e da história dos Estados

Unidos.

E, com a crescente influência cultural dele e da Marvel, era

inevitável que Lee se envolvesse nas questões mais extremas da

época. O que se provou uma aventura e tanto para todos os

envolvidos.