A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 14 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

13. Na crista da onda

Aqui (…) neste mundinho solitário (…)

encontrei o que a humanidade chama de (…)

consciência!

— Surfista Prateado, em Quarteto Fantástico

n.° 50, maio de 1966

 

J ack Lieber morreu em 26 de fevereiro de 1968. Em Excelsior!, Stan comenta o acontecimento da seguinte maneira: Um telefonema inesperado de meu irmão, Larry, com a voz triste e abalada, anunciou o falecimento repentino de meu

pai, que nunca se casara outra vez e passara todos esses anos

morando em Manhattan. [ 282 ]

 

E Lee prosseguiu, dizendo que a morte o inspirou a sair com a

família de Hewlett Harbor para morar em Manhattan — principalmente porque a filha, então com 18 anos, estava doida

para morar na cidade grande.

Isso é tudo que consta das memórias de Lee sobre a morte do

pai, e parece ser tudo o que ele já comentou sobre o assunto. Não

seria estranho imaginar que o acontecimento tenha tido um efeito

poderoso sobre Lee; decerto, o falecimento de Jack Lieber não

poderia ter ocorrido em um ano mais movimentado e crucial na

vida do quadrinista, isso sem falar no cenário geral dos Estados

Unidos e do mundo como um todo. A morte de Jack, aos 81 anos,

parece ter sido inesperada — um indicativo de que a saúde do

patriarca parecia estável —, mas, considerando os padrões de

1968, 81 anos não era uma vida curta.

É difícil interpretar a decisão de Lee de voltar para Manhattan,

onde Jack passara os últimos anos de vida e Larry ainda morava,

logo depois do falecimento do pai. Se fosse mesmo o caso de a

filha simplesmente desejar a mudança, depois de uma vida nos

subúrbios, seria mais simples pagar para que ela morasse em um

belo apartamento em um bom prédio de um bairro seguro.

Talvez a mudança tenha sido simplesmente consequência do

aumento da carga de trabalho. O mundo de Stan Lee na passagem

da década de 1960 para a de 1970 foi surpreendentemente

atribulado, e tanta ocupação divide muito a atenção. Além disso, a

súbita perda de um ente querido seria uma distração até para a

pessoa mais focada, e isso talvez o tenha levado a não reparar em

certas coisas que, de outra forma, jamais passariam

despercebidas…

… como os sentimentos de Jack Kirby em relação ao Surfista

Prateado.

* * *

Durante a carreira, Stan Lee e Jack Kirby criaram, sozinhos ou em

conjunto, centenas, talvez milhares de personagens. No decorrer

de suas colaborações, os dois criaram dezenas, talvez centenas de

séries de quadrinhos. Deixando as questões financeiras e de

propriedade intelectual à parte, é interessante tentar descobrir

que personagens refletem mais a personalidade e as sensibilidades

de um ou outro criador. Será que Reed Richards tem mais a ver

com o prolixo Stan, ou é todo fruto de Jack, cuja cabeça estava

sempre nas nuvens? O Coisa tem mais de Kirby, considerando que

apresenta trejeitos de um garoto de rua do Lower East Side, ou a

necessidade quase patológica de fazer piadinhas o torna mais

como Stan?

Com muitas das criações mais famosas da dupla, a história de

quem teve a ideia inicial é cheia de ambiguidade e contradição.

Estranhamente, um dos poucos personagens que Lee credita

desde o princípio como criação inequívoca de Kirby é o Surfista

Prateado. No entanto, desde o início, algo no personagem atraiu

muito da sua atenção; Lee gostava de escrever diálogos

melodramáticos para aquela criatura ingênua e ultrapoderosa.

Além disso, ele encontrou no Surfista um veículo muito propício

para expressar sua filosofia pessoal.

De fato, como Lee disse a Neal Conan, na entrevista de rádio da

WBAI de 1968, o Surfista Prateado

 

não precisa da prancha e não precisa ser prateado. (…) O

importante é que ele é um personagem que representa algo, que tem

um significado maior. (…) Ele tem filosofia e moral internas, tem

uma personalidade densa, que faz o leitor sentir que está

explorando um personagem real, de carne e osso, que,

possivelmente, até mesmo traga uma mensagem significativa. [ 283

]

 

Mais cedo, no mesmo programa, Lee tinha declarado sobre suas

palestras em universidades:

 

O público é maravilhoso. Sempre fico impressionado com as

perguntas que fazem, todas em um plano mais filosófico. (…) E

acabo tendo que me tornar um filósofo amador, para dar conta

dessas pequenas palestras. [ 284 ]

 

No início de 1970, Lee disse a Mike Bourne, na revista Changes:

 

Quando percebi que cada vez mais adultos e universitários liam

nossas publicações (o que acho tremendamente gratificante), senti

como se enfim pudesse começar a expressar algumas das coisas que

sempre quis dizer (…) sobre drogas e crime, sobre o Vietnã, as

faculdades e outras coisas mais significativas. [ 285 ]

 

Mais tarde, na mesma entrevista, Lee confidenciou a Bourne:

 

Gosto de passar ensinamentos [nas histórias em quadrinhos].

Sempre fico com um pouco de receio, e espero não exagerar e

desanimar os leitores. Mas a verdade é que eu talvez tenha um

talento natural para repassar a sabedoria. Acho que gosto disso. E o

engraçado é que parece que as pessoas também gostam. [ 286 ]

 

Portanto, mesmo ainda não tendo escrito seu Grande Romance

(nem nenhum outro livro), Lee tinha ambições o suficiente para querer deixar um registro de seus pensamentos e sentimentos

sobre a condição humana. E o Surfista Prateado parecia o veículo

perfeito para repassá-los.

E ainda disse a Bourne que suas instruções sobre como John

Buscema deveria desenhar o personagem foram:

 

Quanto mais parecido com Jesus Cristo, melhor. [ 287 ]

 

Como Spurgeon e Raphael observaram:

 

Lee fez do Surfista Prateado um poeta, um artista de rua que

entoava comentários dolorosos sobre a humanidade e seu próprio

destino miserável com ares dignos de Romeu. (…) Lee pegou um

personagem com habilidades divinas e o tornou nobre, porém

trágico. [ 288 ]

 

A afinidade de Lee pelo personagem não ficou clara nas

histórias de Quarteto Fantástico, nas quais o conceito do

personagem apresentado aos leitores pode muito bem ter sido de

Kirby. Porém, desde a aparição de Hulk em Tales to Astonish n.º

93, de 1967, desenhado por Marie Severin, ficou claro que Lee

sentia uma conexão especial pelo Surfista. Além disso, no

Fantastic Four Annual n.º 5, do mesmo ano, Lee e Kirby

apresentaram uma história secundária com a primeira aparição

solo do Surfista — o que talvez fosse um protótipo, pavimentando

o terreno para uma possível série do personagem. E quem mais,

além de Kirby — reconhecidamente o criador do Surfista —,

poderia ser o parceiro de Lee naquelas aventuras carregadas de

filosofia?

No entanto, a tarefa de desenhar a série do Surfista Prateado

não foi designada para Jack Kirby, e sim para John Buscema — o

motivo continua sendo um mistério.

O amigo e biógrafo de Kirby, Mark Evanier, oferece várias

possíveis explicações, e todas parecem fazer sentido. [ 289 ]

Por um lado, Evanier sente que é possível que Lee tenha

mencionado a Kirby seu desejo de fazer uma série do Surfista,

mas o fez brevemente, sem dar muita ênfase. E, como não obteve

uma resposta tão empolgada (o desenhista talvez não estivesse

prestando muita atenção), presumiu que Kirby não se importava

com quem a desenharia. Também é possível que Lee tenha

imaginado que, com tantos personagens em seu crédito, Kirby não

teria nenhum afeto especial pelo Surfista.

Evanier também levantou a hipótese de Lee, editor-chefe e

ciente da programação de trabalhos de Kirby, não querer tirar

nenhuma de suas tarefas regulares nem oferecer um projeto que o

levaria a descartar alguma revista que já fazia sucesso.

Também é possível que tenha sido mais um caso de desacordo

entre Lee e Kirby sobre a direção da história ou do personagem, e

Lee prevaleceu por ser o editor. A dupla sentia que o Surfista era

especial, e ambos se identificaram com aquele personagem, que

era literalmente uma tábula rasa, mas suas ideias para as origens e

a direção dele divergiram, e Lee decidiu que não queria ceder.

Qualquer que tenha sido o motivo, Lee lançou a série do Surfista

com Buscema. De acordo com Evanier, Kirby só soube da

publicação ao ouvir um funcionário não identificado da Marvel

mencioná-la. [ 290 ]

Sobre este assunto, a falta de comunicação entre a dupla parece

ter sido tão intensa que Kirby — que, de acordo com Sean Howe,

já previa a criação de uma série do Surfista Prateado [ 291 ] —

tinha começado a trabalhar em uma história de Quarteto

Fantástico que explicaria a origem do Surfista e foi forçado a

abandoná-la. A história que foi publicada no provável período em

que a origem do Surfista seria apresentada surgiu em Quarteto

Fantástico n.º 74 a 77, lançadas em 1968. No roteiro, o Surfista

fugia de Galactus, que o quer de volta como arauto. Ele acaba se

reunindo novamente com o vilão, jurando impedir que essa força

da natureza consumisse planetas onde havia consciência. O que

aconteceu de fato foi que Kirby ficou encarregado de criar (mas

não desenhar) uma prequel — na qual foi narrada uma tentativa

nobre, mas falha, de escapar do destino — para a série do Surfista.

A edição final da história de Quarteto Fantástico ainda continha

um gancho para a revista Surfista Prateado n.º 1, à venda ao

mesmo tempo.

É comum os leitores se sentirem tentados a atribuir mais

importância do que o necessário a certas decisões criativas. Às

vezes, um charuto é apenas um charuto, assim como a atribuição

de um trabalho no ramo dos quadrinhos é apenas isso: mais um

editor buscando um freelancer. Neste caso, no entanto, parece

que Kirby se sentiu um pouco ofendido por não ter sido chamado

para a criação da série do Surfista, o que o deixou desmotivado.

Segundo Evanier, “Jack Kirby não gostou nem um pouco de não

ter recebido a chance de decidir se queria ou não ser parte da

nova série. O personagem que ele criara tinha sido tirado de suas

mãos em todos os sentidos possíveis”. [ 292 ]

Em retrospecto, já dá para ver nas páginas dessa história

específica de Quarteto Fantástico o declínio do interesse de Kirby

em criar narrativas visuais inovadoras. Embora repleta de ação e drama, a sensação que se tem ao ler essas revistas — e certamente

as que se seguiram — é de ver velhas ideias sendo recicladas —

claro que com muito talento e excelência, mas mesmo assim

faltava a aura de novidade que podia ser vista nas histórias

anteriores de Quarteto.

Lee, por sua vez, encheu os painéis da história de quatro partes

com extensos diálogos e legendas envolventes, além de notas de

rodapé e textos espirituosos — o que, para a maioria dos leitores,

as tornava uma continuação à altura da saga que começara com a

primeira edição. O que faltava em novidade — e apenas em

comparação com as edições anteriores — foi compensado pela

habilidade e proficiência de Lee, Kirby e Joe Sinnott.

Fosse por descuido, crueldade ou falta de comunicação, Surfista

Prateado estreou em meados de 1968, no meio da revolução de

Lee e da Marvel. Os detalhes da história de origem do personagem

previstos na série coordenada por Lee alteraram o pouco que se

sabia sobre o passado do Surfista, em um esforço para torná-lo

mais simpático e aumentar seu apelo com o público. O Surfista foi

estabelecido como um alienígena humanoide que se juntou a

Galactus para salvar seu mundo natal, Zenn-La; porém, desde o

início, se dedicava a impedir Galactus de devorar planetas onde

houvesse consciência — um revisionismo flagrante do papel único

que a Terra desempenhara no relacionamento entre o Surfista e

Galactus. Foi justamente a preocupação com nosso planeta que o

fez se rebelar contra seu mestre, percebendo que tinha errado, no

passado, quando levara Galactus a mundos onde havia registros de

consciência.

O conceito original de Kirby, do Surfista como um ser estoico

feito de energia pura, teria muita chance de resistir às intervenções de Lee, que via o personagem como um alienígena

humanoide trágico e problemático, com poder cósmico e

revestimento prateado. Seria fácil ter chegado a um acordo,

bastava que os dois tivessem discutido a questão.

E de fato parecia que Lee genuinamente ansiava por expressar

algumas ideias grandiosas, mesmo que se resumissem às

permutações da Regra de Ouro. Talvez ele tenha sido movido pela

sensação de que aquela era a sua chance — possivelmente a única

que já tivera — de deixar uma marca no mundo com algo além de

tiradas inteligentes em uma área que era vista com desdém. O pai

tinha morrido sem deixar marcas no mundo, um destino que Lee

queria evitar — e já estava na casa dos quarenta. Lee não

escrevera romances nem roteiros, e a grandeza pela qual ansiava,

a conquista literária com a qual sonhava, ainda estava fora de

alcance, apesar de seu inegável impacto na cultura popular. Talvez

o Surfista pudesse lhe trazer — por falta de uma palavra melhor —

um pouco de classe.

Afinal, multidões de estudantes universitários — e ainda por

cima de instituições de prestígio — queriam ouvir o que ele tinha

a dizer. É difícil julgar se muitos mantiveram o interesse para além

do pouco mais de uma hora de duração de suas palestras com

perguntas abertas, mas o fato é que acabaram ouvindo seus

ensinamentos, e vários traziam questionamentos sobre um

significado mais pro fundo dos quadrinhos. Ao que parece, essa

atenção o fez pensar mais na questão, solidificando sensações e

ideias que vinha ponderando já havia algum tempo — ou talvez

ele tenha apenas decidido que essas questões exigiam respostas

mais profundas do que piadas, e que Surfista Prateado seria seu

meio de expressar suas visões de mundo.

Um dos exemplos mais claros de Surfista sendo usado como

palanque para divulgar os pensamentos de Lee pode ser

encontrado na edição n.º 5, de abril de 1969. Na história “And

Who Shall Mourn Him?” [E quem lamentará por ele?], um

corajoso físico negro, Al B. Harper, leva o Surfista inconsciente —

ainda tentando se libertar da barreira imposta por Galactus, que o

impede de viajar para o espaço — até sua casa para se recuperar.

Mais tarde, o cientista explica ao herói que fez aquilo porque

“sabe como é ser usado como marionete”. Embora Lee tenha

retratado a raça de Harper como um detalhe sem importância,

essa observação sugeria o passado que o personagem precisara

superar. No clímax da história, Harper se sacrifica para salvar a

Terra.

Em uma correspondência sobre esse gibi, na página de cartas da

edição n.º 7, um leitor reclamou:

 

Há uma tendência recente da Marvel de colocar os Pretos [sic] em

destaque. (…) Esse negócio de começar um protesto pelos direitos

civis… Bem, sou contra. (…) Vocês já estão há meses “nos”

atacando (e sabem muito bem a quem estou me referindo). (…) Eu

não sou racista, sou apenas um fã preocupado que não quer sua

empresa de quadrinhos favorita arruinada.

 

Nenhum editor publicaria uma carta dessas sem planejar uma

resposta específica. E, de fato, a resposta do editor — que, se não

foi escrita por Lee, sem dúvida foi lida e aprovada por ele —

poderia muito bem ter vindo do próprio Surfista Prateado:

Acontece que questões como racismo e igualdade nos interessam,

sim. (…) Acreditamos que já chega de ver as pessoas (…) darem as

costas ou desviarem os olhos das coisas mais desagradáveis que

acontecem a cada dia. E talvez nossa intenção tenha sido fazer

alguma coisa (…) para deixar o mundo um pouquinho melhor.

O argumento de Lee era claro: a Marvel Comics — a Marvel

Comics de Stan Lee — não ia mais ignorar “as coisas mais

desagradáveis que acontecem a cada dia”.

De certa forma, Lee poderia ser acusado de se levar muito a

sério, sem mencionar o risco de afastar alguns segmentos do

público. Ainda assim, este era um novo território para ele e para

os quadrinhos, então a seriedade poderia muito bem ser

considerada uma abordagem apropriada. Publicar a carta com essa

resposta não foi um pequeno passo. Mas foi um passo em direção

a quê? Isso ainda era um mistério.

A única certeza é que era um passo para longe da vida do editor

que tentava se manter distante dos riscos. Será que Lee estava

expressando um ponto de vista pessoal e genuíno e, como sentia

que era uma opinião muito correta, não se importava com quem

gostasse ou não? Ou estava apenas exibindo opiniões que achava

que fariam sucesso com o público das universidades? Somente

uma avaliação muito cínica não veria a sinceridade daquelas

palavras.

Mostrar nos quadrinhos algumas de suas verdadeiras opiniões

era o passo certo para Stan Lee? Bem, oito anos antes, a Marvel

quase deixara de existir; quem poderia dizer o que aconteceria

dali a mais oito anos? Talvez aquilo tudo virasse apenas uma

memória. Não havia garantias. Então por que não fazer do Surfista um veículo para ele expressar suas crenças pessoais? Se não

pudesse correr esse risco agora, quando teria outra chance?

* * *

No mundo do entretenimento de 1968, a Marvel Comics ainda era

peixe pequeno, mesmo que Lee estivesse crescendo

metaforicamente a cada dia. Mas, fora da lagoa dos quadrinhos,

muita gente ainda não levava Lee e o fenômeno Marvel a sério,

mesmo ciente do valor de se associar à marca.

Por exemplo: uma das primeiras aparições de Lee na TV

nacional foi em 30 de maio de 1968, no Dick Cavett Show, um

programa de entrevistas e variedades de Nova York da rede ABC.

Pat McCormick, o apresentador, comentou, com ironia: “Uma

coisa que eu gosto nessas histórias em quadrinhos é que fica fácil

virar a página com uma só mão, já que a outra o leitor ocupou

chupando o dedo.”

Lee pareceu deixar o insulto de lado, e apenas perguntou se

podia mudar de lugar. Mais tarde, quando Cavett perguntou a

McCormick se ele já tinha visto uma revistinha de Mighty Thor,

Lee interrompeu: “Já no título tem uma palavra de duas sílabas,

então você talvez tenha um pouco de dificuldade.”

Curiosamente, Cavett, um famoso intelectual, tratou Lee com

bastante respeito. O apresentador parecia ter alguma

familiaridade com os quadrinhos, e os dois tiveram uma troca

interessante:

 

CAVETT: Você já pensou no poder que tem em mãos, com essa

publicação de circulação tão gigantesca?

LEE: Para falar a verdade, não. Gostamos disso. Prefiro pensar que,

se alguém precisa ter influência sobre os jovens de hoje, detendo um

poder considerável, melhor que seja a gente. (…) Estamos fazendo o

possível para construir um mundo um pouquinho melhor.

 

Ali estava Stan Lee, defendendo-se bem dos ataques de Pat

McCormick, que estudara em Harvard e era um conhecido

escritor de quadrinhos e de comédia — era também um indivíduo

fisicamente grande e imponente —, e batendo papo com Dick

Cavett, ex-aluno de Yale, enquanto transmitia a mensagem de que,

na Marvel, os quadrinhos continham filosofia, sátira e

comentários políticos que os tornavam mais do que meras

histórias de criança. E tudo isso enquanto respondia a perguntas

sobre Little Lulu de outra entrevistada, Diana Sands (que havia

pouco atuara em uma aclamada produção de George Bernard

Shaw, Saint Joan).

Lee começara a nadar com os peixões. A aparição no programa

de Cavett era diferente de suas trocas de gracejos com Sol

Brodsky e Marie Severin. Tampouco lembrava as discussões sobre

pontos da trama e nuances éticas com Kirby e Ditko, e muito

menos as negociações conduzidas pelo humor e pelos caprichos

de Martin Goodman. Essas coisas aconteciam na privacidade dos

escritórios da Marvel. E, em suas palestras, mesmo os estudantes

mais inteligentes ainda eram crianças, ainda ficavam admirados de

vê-lo pessoalmente.

Não, aquela aparição no programa era totalmente diferente.

Aquele era um Stan Lee totalmente diferente — ou, pelo menos,

uma versão evoluída, que agora atuava em cenário nacional e até

mundial. E naquele ímpeto de crescer parecia haver mais do que

simplesmente a busca por fama e dinheiro — o que se evidenciava

no que Lee escrevia nas histórias em quadrinhos e nos Bullpen Bulletins. O que se evidenciava no interesse incomum que Lee

demonstrava no desenvolvimento do Surfista Prateado.

Algo estava acontecendo com Stan Lee. Talvez tenha sido mais

uma crise da meia-idade. Em 1968, Lee estava com 45 anos. Ele

transformara sua carreira razoavelmente estável, ainda que um

tanto sem brilho, em uma vida de subcelebridade. Embora os

leitores de quadrinhos da Marvel tivessem alguma ideia de quem

era Stan Lee, o público geral — como, por exemplo, Pat

McCormick — realmente não sabia ou não se importava. O grande

público não notava ou não considerava grande coisa os

quadrinhos bobos da Marvel serem um pouco mais sofisticados

do que a maioria dos que se encontravam nas bancas.

Ainda assim, esses quadrinhos deram a Lee a chance de elevar a

si próprio e também a mídia em que trabalhara por quase três

décadas — pelo menos um pouco — para a categoria de “coisas a

serem levadas a sério”. Agora, Lee teria sua chance de… Bem, de

que, exatamente?

* * *

Mesmo para os padrões dos anos 1960, uma década famosa pelas

transformações, 1968 foi um ano insano. O país foi vítima de

assassinatos, tumultos, distúrbios civis e mudanças culturais que

abalaram as estruturas, sem falar na Guerra do Vietnã, ainda em

andamento. Para Stan Lee, foi um ano de mudanças drásticas —

além da morte do pai — na vida pessoal e profissional.

No mundo dos negócios, o fim dos anos 1960 foi caracterizado

por aquisições corporativas, com os conglomerados adicionando

empresas aleatórias aos seus portfólios, todas com pouca ou

nenhuma sinergia entre si, sendo colecionadas com a mesma

aleatoriedade com que se adiciona pingentes a uma pulseira da sorte. A National Comics foi comprada pela Warner

Communications, que foi comprada pela Kinney Parking, que

originalmente era uma funerária e operadora de aluguel de

limusines. A nova direção da DC, cujas vendas vinham

diminuindo, colocou o artista veterano Carmine Infantino, que

criava as capas da empresa, para dirigir o departamento editorial.

Infantino traria uma sensibilidade mais visual aos quadrinhos da

DC, em relação às gestões anteriores, dirigidas por editores que

não eram artistas.

Na época dessa mudança, vários escritores e artistas freelancers

de longa data decidiram que era apropriado exigir educadamente

que a DC lhes proporcionasse benefícios básicos, como seguro de

saúde e um plano de aposentadoria, mesmo não sendo

tecnicamente membros da equipe. Não demorou para que quase

todos esses criadores constatassem que, além de não terem as

demandas atendidas, também pararam de receber trabalhos com

regularidade, enquanto nomes mais jovens começavam a aparecer

nos créditos. Especialistas não sabem dizer se foi uma represália

calculada pela gerência ou simplesmente uma resposta da

empresa às mudanças no gosto do público. De qualquer maneira,

ficou bem claro para os veteranos — e para qualquer pessoa no

ramo de quadrinhos — que os quadrinistas eram considerados

dispensáveis e substituíveis, não importava o tempo de trabalho

de alta qualidade que tivessem dedicado.

Para quem andava atento à indústria, também estava bem claro

que Martin Goodman tinha interesse em vender a Magazine

Management. E, em grande parte devido ao sucesso dos

quadrinhos da Marvel, Goodman encontrou um comprador para

toda a operação editorial disposto a pagar o que ele considerava um preço justo. Goodman era relativamente jovem, com sessenta

anos em 1968, e já trabalhava no ramo editorial havia quase

quarenta. Os anúncios que ele lançava em revistas comerciais se

gabando das vendas da Marvel eram, na verdade, anúncios de

venda disfarçados. O glamour da Marvel abria o caminho, e a

empresa estava pronta para ser fisgada. Mas, para fechar a venda,

Martin tinha uma demanda que parecia ter a mesma importância

do que a quantia oferecida: queria garantir um futuro para o filho,

Chip, que já trabalhava na empresa. E queria que Chip o sucedesse

como editor.

Então, quando a Perfect Film Chemical Corporation ofereceu

US$ 14 milhões e concordou em tornar Chip editor, depois que o

próprio Martin concluísse um período de quatro anos no cargo,

Goodman aceitou a oferta. Como garantia, a Perfect Film (que

mais tarde foi renomeada como Cadence Industries) pediu, entre

outras coisas, um acordo quanto aos serviços do único

profissional de quadrinhos que consideravam insubstituível: Stan

Lee.

Lee contou que Goodman lhe fez promessas verbais —

incluindo uma concessão de “garantias” da empresa que trariam

segurança financeira para toda a sua vida —, induzindo-o a assinar

um contrato de vários anos. Lee assinou o contrato sem insistir

para que as promessas de garantias fossem registradas por escrito.

Essas promessas, que ainda continham a perspectiva de um

aumento salarial, nunca foram cumpridas. [ 293 ]

Assinar o contrato teria sido ingenuidade de Lee? Em suas

memórias, ele afirmou que um amigo íntimo, o empresário

Marshall Finck (cuja esposa, Edith, foi apresentada no obituário,

em 2017, como modelo para Susan Storm, do Quarteto Fantástico), o aconselhou a usar sua influência para fazer com que

Goodman aprovasse qualquer coisa que Lee quisesse botar no

papel. Ainda assim, Lee nem de longe pressionou Martin tanto

quanto poderia — o que certamente pode ser visto como

ingenuidade, além de parte do ônus de trabalhar para um parente.

Só que, não muito tempo antes, toda a linha de quadrinhos de

Goodman estava à beira da extinção. Lee deve ter encarado a

sobrevivência a esse período — e ainda por cima a prosperidade

dos anos seguintes — como um milagre. Será que acharia

ganancioso pedir mais? Não estaria testando a sorte?

Para complicar ainda mais, o próprio Goodman assinara um

contrato para permanecer como editor por mais quatro anos. Ou

seja, Martin continuaria com o mesmo poder de supervisão,

porém sem nenhum risco. A empresa seria de propriedade de um

conglomerado, mesmo que continuasse a parecer a mesma

pequena operação familiar. A quantidade de parentes de

Goodman empregados pela Magazine Management permaneceria

como era antes de a Perfect Film Chemical comprar a empresa.

A vida continuaria a mesma.

Só que não.

Lee tinha entrado em território inexplorado. Gozava de

segurança por três (ou, segundo alguns relatos, cinco) anos, mas e

depois? Quando o contrato expirasse, Lee estaria com cinquenta

anos. E o que faria? Qualquer coisa poderia acontecer até o final

do contrato, e ele não poderia mais contar com o apoio de seus

parentes.

E o que aconteceria com o público? Inclusive com os estudantes

universitários, que ainda pareciam amar os quadrinhos da Marvel,

mesmo que quadrinhos underground tivessem chegado ao mercado, explorando tópicos que Lee e a Marvel não podiam

abordar — e que não abordariam mesmo se pudessem,

simplesmente porque não eram de sua alçada. A Marvel podia ser

alvo de admiração de cineastas e bandas de rock, mas parecia não

conseguir falar aquela linguagem juvenil secreta, algo

verdadeiramente underground, que claramente uma barba da

moda ou uma peruca estilosa não ajudariam a traduzir. Cada vez

mais apareciam publicações como Zap Comix, de R. Crumb, que

estreou no início de 1968, trazendo o potencial de mudar tudo.

Não era apenas a questão de esses quadrinhos diferenciados

terem liberdade de retratar sexo e violência mais explícitos; era

sua familiaridade privilegiada com a cultura jovem em constante

evolução — uma cultura impenetrável para quase todas as pessoas

que já haviam passado dos trinta.

Talvez nada simbolizasse mais o conflito da Marvel na época —

a tentação de explorar novas áreas contra o imperativo de não

fazer o barco virar — do que a partida de Flo Steinberg,

funcionária muito querida e competente que se tornara parte da

mitologia do universo Marvel graças à Fabulous Flo, que Stan Lee

criara para as páginas de cartas e os Bullpen Bulletins. Os fãs

gostavam tanto da secretária de Lee quanto de qualquer outro

artista e escritor que o quadrinista apresentara e tornara famosos.

Além disso, Steinberg também tinha contatos importantes com

cartunistas underground e formadores de opinião de que uma

empresa como a Marvel precisava para se manter atualizada.

Mesmo assim, segundo consta, Goodman optou por abrir mão da

funcionária, que pedira um aumento de cinco dólares por semana,

alegando que o cargo de secretária determinava que Flo não poderia ganhar acima de determinado valor, por mais importante

que fosse para o funcionamento e a imagem da Marvel.

Assim, os Bullpen Bulletins de setembro de 1968 afirmavam que

 

com muita tristeza, anunciamos a saída de uma das criaturinhas

mais populares do Bullpen: a Fabulous FLO STEINBERG, que nos

deixa com uma despedida carinhosa em busca de novos caminhos

em outro campo de atuação.

 

Em outras palavras, Steinberg ficou tão chateada com a recusa

do aumento que pediu demissão mesmo sem outro emprego em

vista.

Em fevereiro de 1969, em um gesto conciliatório, os Bulletins

anunciaram que

 

a Fabulous FLO STEINBERG, nossa assistente geral, foi

contratada para um excelente emprego no Rockefeller Center, não

muito longe de nossos escritórios. Ela agradece a seus muitos

amigos nas terras da Marvel pelas cartas e desejos de sucesso.

 

A substituta de Flo foi uma mulher chamada Robin Green, que

em 1971 escreveria um artigo para a revista Rolling Stone sobre

seu tempo na Marvel. Seus trabalhos mais famosos foram como

escritora e produtora de seriados de TV como Northern Exposure,

Família Soprano e Blue Bloods. No artigo da Rolling Stone, Robin

afirmou sobre Stan:

 

Ele trabalhava muito, se esforçava muito, e era tão animado que a

gente tinha vontade de facilitar as coisas para ele. O trabalho é feito

todo sozinho; Lee não delega nada, e é por isso que trabalha tanto. [

294 ]

 

Embora tenha contratado diversos assistentes ao longo dos anos

(Green só ficou no trabalho por cerca de seis meses, em 1968),

Lee nunca mais deu a nenhum deles o papel central do imaginário

do Bullpen, que fora de Steinberg.

* * *

Assim, nesse ambiente de trabalho em transição de empresa

familiar para parte de um conglomerado, Stan Lee se viu em uma

situação ao mesmo tempo segura e precária. No entanto, havia

duas coisas que pareciam certas.

A primeira era que a publicação de quadrinhos precisava

continuar, é claro. Inclusive, precisavam começar a produzir ainda

mais quadrinhos. Vários meses antes da venda, Goodman

negociara um acordo melhor com a distribuidora Independent

News, e Lee estava livre para aumentar a linha de quadrinhos, que

já vinha crescendo gradualmente. Em pouco tempo, a Cadence se

tornaria dona da Curtis Circulation, e Lee se veria completamente

livre da Independent. Ele passara a supervisionar mais de vinte

títulos por mês e começara a experimentar diferentes formatos,

como uma revista em quadrinhos maior do Homem-Aranha, do

tamanho da revista Mad. [ 295 ]

A outra certeza era que precisava continuar promovendo a

marca Stan Lee. Era impossível prever as necessidades dos novos

proprietários e os gostos e desejos do público — inclusive, o

mundo inteiro parecia estar mudando diante de seus olhos. E essa

mudança parecia vir do público jovem, das crianças, dos

adolescentes e dos universitários de vinte e poucos anos que, pelo menos no momento, pareciam inclinados a pensar que Stan Lee

tinha algo a oferecer. Mas quanto tempo essa moda duraria? Sem

falar que o plano B sempre fora parte de sua estratégia de carreira.

Agora que se tornara uma espécie de celebridade, por que não

seguir até ver onde isso ia dar?

Lee ultrapassou os limites das páginas de quadrinhos, dando um

passo hesitante para um mundo desconhecido, mas ainda assim

em uma progressão lógica: no outono de 1968, tornou-se

apresentador de um programa de entrevistas na televisão. Nesse

período, pouco depois das nomeações de candidatos à presidência

dos Republicanos e dos Democratas, feitas em convenções no

verão, mas provavelmente antes da eleição de Richard Nixon, Lee

apresentou o piloto de um programa de entrevistas sobre eventos

políticos e atualidades. O episódio piloto concentrou-se, entre

outras coisas, em um debate acerca dos protestos estudantis da

Universidade Columbia de abril e maio de 1968 e das convenções

de agosto, além de fazer alusão ao assassinato de Robert Kennedy.

Os programas de painéis e entrevistas sobre assuntos atuais

eram populares na TV da época, e os apresentadores iam desde

intelectuais eruditos como David Susskind e William F. Buckley

Jr. até provocadores agressivos como Alan Burke e Joe Pyne. Em

seu piloto, Lee parecia mais inclinado a se posicionar como o

primeiro tipo, tentando se mostrar mais como de fato era: um pai

de família do subúrbio, preocupado e com consciência política,

tentando entender exatamente o que “os jovens de hoje” queriam.

Lee já abordara um pouco o assunto na revista Thor n.º 154, à

venda em abril daquele ano; o Deus do Trovão repreende um

grupo de hippies por desistirem da sociedade:

Não é desistindo do turbilhão da vida, e sim mergulhando fundo

nele, que encontramos sabedoria! Existem causas para defender!!

Batalhas a serem vencidas! A glória e a grandeza estão por toda a

volta, basta abrir os olhos!

 

E como revelou sobre a revista, publicada logo depois da

entrevista no programa de Cavett:

 

Na época em que a pequena página foi escrita [provavelmente em

fevereiro], parecia um bom sermão. Hoje, por sorte, não acho que

seja tão necessário. Os jovens de agora parecem muito mais

engajados, o que considero muito saudável. Esse negócio de desistir

não parece ter afetado a todos.

A mudança tão significativa e em tão pouco tempo — da

redação, em fevereiro, até a entrevista para Cavett, em maio — na

opinião de Lee sobre “os jovens de hoje” era um indício das

constantes mudanças daqueles tempos.

Os “jovens” que apareceram em seu programa piloto

definitivamente não eram do tipo que desistia. O programa (que

pode ser encontrado no YouTube) era dividido em painéis e

filmado em preto e branco. [ 296 ] O título, se é que houve um, se

perdeu na história. No programa, Lee ostentava uma barba cheia e

uma peruca que parecia muito natural; mesmo com 45 anos,

aparentava talvez uma década a menos. (Questionado sobre o

piloto em 2017, [ 297 ] Lee afirmou não se lembrar de nada, nem

mesmo depois de assistir a alguns trechos, então não pôde

esclarecer o que de fato acontecera.)

Claramente, alguém confiava que o bem articulado, perspicaz,

afável e charmoso Stan Lee seria um bom apresentador e moderador de debates sobre atualidades em um programa de

televisão. A ideia, ao que parece, era tratar de assuntos que não

tinham muito a ver com quadrinhos — pelo menos nada além do

fato de terem proporcionado a credibilidade e o status de

celebridade de Lee. Com base no piloto, o programa pretendia

cobrir eventos de interesse do público da Marvel, sobretudo dos

leitores mais velhos, mas que também atrairiam qualquer

interessado em debater a sociedade e a política, talvez inclusive os

outros pais confusos da idade de Lee.

Os convidados do programa foram Jeff Shero, editor do jornal

underground Rat Subterranean News [Notícias dos ratos do

subterrâneo]; Chuck Skoro, editor-gerente do jornal estudantil da

Universidade Columbia, o Columbia Daily Spectator; e Skip Weiss,

editor do Daltonian, o jornal estudantil da instituição de elite

Upper East Side Dalton School. Todos os presentes eram editores,

sendo Lee o único que não dirigia algum tipo de jornal. Mas ele

não estava tentando competir com a especialização de seus

convidados; estava, sobretudo, desempenhando o papel de

“homem comum”. O debate, se é que pode ser chamado assim,

representou as conversas da época, que se davam em torno de

inúmeras mesas de jantar.

Eis como Lee, nos comentários iniciais, descreveu sua missão

com o programa:

 

Eu sou Stan Lee, e escrevo histórias para os jovens há trinta anos.

(…) Recebo de duzentas a trezentas cartas de fãs todos os dias —

provavelmente tanto quanto os Beatles. Passo quase todo o tempo

lendo as correspondências, e respondê-las toma muito do tempo

livre que me resta.

Acho que aprendi muito sobre o que os jovens pensam. E, mais

importante, acho que aprendi muito sobre o que os jovens são.

Hoje, chegamos a um momento na história em que definitivamente

há uma lacuna entre gerações. Parece que a sociedade se

beneficiaria de qualquer coisa que possa ser feita para minimizar

essa lacuna, para ajudar a apresentar o ponto de vista desses

jovens.

O programa de hoje abordará assuntos que consideramos muito

prementes entre os jovens.

 

Portanto, o objetivo do piloto (e, podemos presumir, da série

que poderia surgir) era dar voz aos jovens, em uma conversa em

que Stan representaria a geração mais velha.

Como muitos talk shows — e muitas conversas à mesa de jantar

—, o debate era amplo e de fluxo livre, com muitas das

contribuições dos palestrantes logo virando discursos ou

pronunciamentos. No entanto, é possível ouvir, na moderação

contida de Lee, a mesma voz dos Bullpen Bulletins e das Stan’s

Soapboxes— claro que com a ausência notável das piadas, marca

registrada do quadrinista. O programa é surpreendentemente

desprovido de humor, o que talvez seja mais um indicativo das

mudanças da época, mas que pode ter sido derivado da

necessidade de Lee de levar o programa — e a si mesmo — a sério.

Ele também poderia estar preocupado com a possibili dade de os

entrevistados interpretarem suas tiradas bem-humoradas

características como se Lee — que ali representava sua geração,

dominante na sociedade — não os levasse a sério.

Alguns trechos do episódio dão uma ideia da lacuna entre as

gerações. Por exemplo, a conversa entre Lee e Shero sobre a divulgação de mensagens impressas:

 

STAN LEE: Se eu editasse um jornal underground (…) e tivesse

alguma mensagem a passar (…) ia querer apresentá-la de forma

que atingisse o maior público possível. As revistas que edito têm

todo tipo de mensagens subliminares (…) mas não tomamos

nenhuma atitude (…) que possa afastar algum segmento dos

leitores.

JEFF SHERO: Acho que essa visão é muito antiquada, porque parte

do princípio de que o público geral tem poder. (…) Só dois tipos de

gente podem causar algum efeito nos rumos do país: (…) quem se

comprometeu com a mudança e quem está no topo, as pessoas que

detêm as rédeas do poder. E só os jovens estão comprometidos com

a mudança da sociedade; portanto, o Rat só quer conversar com o

público jovem.

 

Shero era o mais radical e o mais prolixo do grupo, além de

talvez ser o mais ligado ao que ele mesmo chamava de

“contracultura”. Os outros dois eram estudantes, enquanto Shero

era jornalista. Seu jornal da moda, o Rat, tinha sido lançado ainda

naquela primavera.

Lee tentou desafiar as noções radicais do convidado:

 

JEFF SHERO: “Manter a lei e a ordem” é manter os negros

acuados.

STAN LEE: Você não acha possível que “manter a lei e a ordem”

seja apenas uma questão de lei e de ordem? As pessoas sentem que

a criminalidade aumentou muito no país, o povo quer mais lei e

mais ordem. Por que isso tem que necessariamente ser um anseio

racista?

 

Shero, é claro, não se convenceu.

Na conversa mais acalorada do programa, Lee e Shero de mons-

traram como suas opiniões e sensibilidades eram drasticamente

diferentes:

 

STAN LEE: Acho que, como parte do chamado Sistema, no fundo

não vejo muita diferença entre o que o Sistema quer e o que os

jovens querem.

JEFF SHERO: Isso está totalmente errado. O Sistema não quer

acabar com a guerra [do Vietnã]. Você fala das corporações…

STAN LEE: Ei, espere um minuto. Como você pode afirmar uma

coisa dessas?

JEFF SHERO: Como posso afirmar uma coisa dessas? Posso

porque a guerra só tem aumentado nos últimos cinco anos. Porque

os candidatos que defendiam a paz, e que tinham o voto popular,

foram eliminados da eleição.

 

Lee, não se sabe se intencionalmente, não mordeu a isca de

Shero sobre os “candidatos que defendiam a paz” terem sido

“eliminados das eleições”. Ele estava se referindo a Eugene

McCarthy e Bobby Kennedy, e sugerindo que McCarthy não tinha

sido nomeado candidato pelo Partido Democrata por culpa do

“Sistema”. E, em uma nota mais sombria, que o assassinato de

Kennedy tinha sido um anseio desse mesmo Sistema.

E, embora nunca tenha feito isso nas páginas dos quadrinhos,

durante o episódio piloto, Lee assumiu uma posição definitiva em

relação à Guerra do Vietnã:

STAN LEE: Eu preciso dizer que nunca teria como defender a

Guerra do Vietnã. Acho que é uma guerra indefensável. Uma

guerra ridícula. E concordo com a palavra que você usou antes: é

uma guerra obscena. (…) Mas acho que você está sendo igualmente

obsceno quando afirma que o Sistema (…) não quer o fim dessa

guerra. Acho que isso é apenas uma afirmação ridícula.

JEFF SHERO: E que medidas concretas você vê [sendo tomadas

para o fim da guerra]?

STAN LEE: Bem, você não acha possível que, assim como a

juventude tem se sentido perdida (…), o Sistema também esteja

confuso? (…) Acho que só há um caminho para fora da guerra, e

não tenho dúvida de que os jovens sejam a única esperança para o

mundo. Mas isso só vai acontecer por vias legais e legítimas. Não

acho que a resposta seja a anarquia.

 

Shero e Lee concordaram que seria difícil para os Estados

Unidos saírem de repente do Vietnã, embora o jovem jornalista

tenha atribuído isso a razões mais nefastas:

 

JEFF SHERO: O problema com os políticos que governam o país

[os Estados Unidos] é: eles reconhecerão a legitimidade da Frente

de Libertação Nacional? E será que vão passar o controle para a

FLN? (…) Trazer a paz ao Vietnã significa entregar o país nas

mãos dessas pessoas. Essa é uma contradição com a qual os

políticos não conseguem lidar.

 

Shero chegou a questionar toda a carreira de Lee:

JEFF SHERO: Você edita os quadrinhos da Marvel. Se suas

opiniões pessoais se refletissem nos quadrinhos, você estaria em

apuros. Suas histórias, por exemplo, trazem a emoção da guerra e

do calor da batalha. (…) E mesmo assim você diz que é contra…

STAN LEE: Nós apresentamos a guerra em algumas histórias, mas

não tentamos torná-la divertida.

JEFF SHERO: Algumas das histórias realmente exaltam o conflito.

 

As tentativas de Lee de trazer um ponto de vista adulto

“realista” foram constantemente desafiadas durante a transmissão,

como na conversa com Skoro, da Universidade Columbia:

 

STAN LEE: Simpatizo com os liberais, mas a verdade é que, no

instante em que eles ganharem muito poder (…) ou se tornarem

uma ameaça grande demais, a nação vai se voltar para o

conservadorismo. E então, as mesmas coisas que acho que vocês

estão tentando conseguir serão esmagadas.

CHUCK SKORO:Liberal é quase uma ofensa no movimento

radical. Chamar alguém de liberal, para os membros da SDS, é uma

ofensa horrível. (…) Um liberal é uma pessoa que, ao ver crianças

sendo espancadas nas ruas [o que acontecera do lado de fora do

prédio que abrigava a recente convenção democrata], pensa: “Bem,

(…) elas mereciam.”

STAN LEE: Eu obviamente estava pensando em liberal em outro

sentido. (…) Nessa sua definição, ser liberal é quase como ser

conservador.

 

Shero, em uma mensagem de Facebook de 2016 para o

historiador Sean Howe, falando sobre o vídeo, lembrou que “foi filmado como piloto de um programa de Stan Lee, mas disseram

que ele me deixou falar demais e não se expressou o suficiente

(…) então não foi ao ar”. (Não se sabe quem disse isso a Shero. Em

1968, antes da TV a cabo e da internet, é provável que o

comunicado tenha vindo de uma produtora ou de uma

organização que quisesse vender o programa às emissoras de TV

independentes, como a WOR ou a WPIX, de Nova York.)

Os problemas que Shero citou não parecem necessariamente

intransponíveis. Lee não parecia hesitar em contrariar as

observações de seus convidados, embora suas declarações —

assim como as deles — com frequência parecessem vagas, mesmo

soando profundas e cheias de jargões. Àquela altura, Lee tinha

muita experiência em debates com o público universitário, e não é

inconcebível que tenha tentado aperfeiçoar seu estilo para um

programa de TV.

O que é mais difícil imaginar é que Lee estaria confortável com

a perspectiva de conviver com as consequências financeiras e

pessoais do provável distanciamento de grandes segmentos de seu

público de quadrinhos. Isso seria uma consequência esperada de

posicionamentos mais regulares e consistentes, mesmo que

moderados, quanto aos assuntos da atualidade — imagine então se

Lee expusesse uma opinião totalmente contrária à Guerra do

Vietnã.

Ainda assim, só o esforço para fazer o programa é um indicativo

de sua vontade de tentar se redefinir, ou pelo menos de ampliar as

possibilidades de seu status em constante desenvolvimento na

cultura pop. A preocupação com o que fazer com o status de

celebridade e a preocupação aparentemente genuína com o

destino da sociedade marcaram Lee como mais do que um mero supervisor de histórias em quadrinhos. Mas quem e o que ele se

tornaria ainda era uma incógnita.

Shero, hoje conhecido como Jeffrey Shero Nightbyrd, manteve-

se fiel às raízes da contracultura e até hoje escreve em seu site.

Charles Skoro morreu em 2016, aos 68 anos, tendo sido

presidente do Departamento de Economia da Boise State

University em seu estado natal, Idaho, e, depois, ministro do

campus do Diretório de Estudantes Católicos da Saint Paul

University e diácono da paróquia de Nossa Senhora do Rosário. A

história de vida e a carreira de Skip Weiss são desconhecidas.

Stan Lee ainda viria a apresentar programas de TV que de fato

iriam ao ar, mas nunca mais tentaria sair de sua zona de conforto

na cultura pop — um limite que ele raramente ultrapassava.

* * *

Na arte, assim como na vida, limites reais e metafóricos — e sua

luta contra delimitações — definiriam a carreira de Lee.

Na Trilogia Galactus de 1966, a punição do Surfista Prateado

por fazer a coisa certa — voltar-se contra seu mestre para salvar a

Terra — foi ser banido para sempre na Terra e nos céus em volta

do pequeno planeta azul. Uma barreira invisível o impedia de

atingir todo o seu potencial e viver a liberdade ilimitada do

espaço. Em aparições posteriores, o Surfistalamentou estar preso

naquela “prisão insana, em órbita, que os humanos chamam de

Terra” — foi como se referiu ao planeta em Quarteto Fantástico n.º

77, publicado em agosto de 1968. No mesmo mês, em Surfista

Prateado n.º 1, de Lee e John Buscema (arte-final de Joe Sinnott),

o protagonista lamentou:

Aqui estou, preso neste mundo de loucura! Por quanto tempo

estou destinado a suportar uma sina que não consigo sequer

compreender?

Lee tinha uma conexão tão intensa com o personagem que

chegou a determinar que, nas duas décadas subsequentes, seria o

único escritor das aventuras do Surfista. O personagem passou

aquelas duas décadas preso à Terra e com o potencial limitado —

mesmo que visse e realizasse muito dentro dessas restrições.

Ainda assim, o Surfista sempre ansiava pelo que imaginava serem

as inúmeras possibilidades de um campo maior — na verdade,

infinito — para jogar.

Talvez o sofrimento com as limitações tenha sido parte do apelo

que o personagem tinha tanto para Lee quanto para Kirby, talvez

tenha sido por isso que ambos se identificaram tanto com ele. O

maior desafio do Surfista não eram outros seres superpoderosos

ou relacionamentos interpessoais atormentados, embora ele

encontrasse muito dos dois. Eram os limites impostos, contra os

quais estava sempre lutando, e que Lee optou por não remover.

Lee e Kirby se sentiam presos e limitados. Não apenas no ramo

dos quadrinhos, mas também, mais especificamente, nos

quadrinhos da Marvel. Cada homem, à sua maneira, via sua

carreira tolhida por forças que pareciam além de seu controle.

Para cada um deles, o ofício dos quadrinhos era uma prisão, um

confinamento — ainda que confortável. Ambos eram os maiores

peixes em um lago que parecia minúsculo, em comparação com as

mídias de filmes, séries de TV e livros. Sua fama e glória, assim

como suas realizações criativas, só podiam avançar até certo

ponto.

Assim como o Surfista, cada um explorou seu reino limitado da

melhor forma possível. E, da mesma maneira, ambos ansiavam

por descobrir e conquistar novos mundos, por se verem livres dos

altos e baixos dos quadrinhos e do humor inconstante do patrão e

do público. Sua luta era a mesma do Surfista, e vice-versa.

Mas quem era o Galactus desses dois? Quem, na vida real, os

mantinha presos, os impedia de alcançar a plenitude de seu

potencial? Ou será que esses eram limites que impunham a si

mesmos? Eles estavam simplesmente com medo de correr riscos?

Os esforços de Lee para se libertar dessas limitações podem ser

vistos em projetos como o piloto de seu programa de entrevistas.

Nos anos que se seguiram, ele testou seus limites tanto na Marvel,

onde experimentava diferentes formatos e assuntos, quanto no

mundo real. Mas será que Lee poderia abandonar a indústria de

vez?

Jack Kirby, por sua vez, mudou-se com a família de Long Island

para Los Angeles no início de 1969 — uma mudança estimulada

em grande parte pela necessidade da filha de viver em um clima

seco. Mesmo a cinco mil quilômetros de distância, Kirby

continuava na órbita da Marvel, preso por barreiras invisíveis.

Mas a Páscoa Judaica, a Festa da Libertação que comemorava a

fuga dos Filhos de Israel da escravidão, estava se aproximando. E,

embora Moisés não planejasse comparecer ao seder da família

Kirby, havia um convidado quase tão bom quanto.

Seu nome era Carmine Infantino.