A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 3 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

2. O filho do costureiro

[Meu pai] não era bom nos negócios e não teve

sorte. (…) Ele não conseguia emprego. Ficava

em casa vendo os anúncios. Eu morria de pena.

— Stan Lee [ 08 ]

 

S tanley Martin Lieber, um menino de nove anos, estava sentado na cadeira na sala escura do opulento cinema de Upper Manhattan, hipnotizado, encarando a única fonte de luz: a tela em que um mundo de sonhos se projetava. Warren William, astro carismático, interpretava um poderoso promotor no drama policial da Warner Bros., Pela mão de sua

dama, de 1932. O ator parecia encarar o jovem Stanley, talvez

olhando através dele, enquanto resumia o caso de acusação contra

um assassino:

 

O eminente advogado de defesa argumentou que este caso é

baseado em evidências circunstanciais. O que é verdade.

Mas as evidências unem os elos das circunstâncias como uma

corrente forte, que não pode ser quebrada. Que prende este

assassino com o aperto firme de uma serpente constritora e o

entrega diretamente nas mãos da lei!

 

Encantado com a performance ousada, Stanley decidiu que,

quando crescesse, seria advogado. Ou ator. Ou ambos. [ 09 ]

De um jeito ou de outro, ele queria, assim como Warren

William, oferecer ao público a possibilidade de pensar — e sentir!

* * *

Não fazia sentido que a família de Stan Lee morasse na 777 West

End Avenue quando ele nasceu.

Mas morava.

O prédio, que ficava na esquina da West 98th Street, foi

construído em 1910, quando a West End Avenue ainda se

transformava no cobiçado endereço da classe média judaica de

Nova York. Aos poucos iam surgindo os prédios de luxo, como o

777, substituindo cortiços menores que se enfileiravam ao longo

da avenida.

Jack Lieber nascera em 1885 (sem irmãos conhecidos), e sua

esposa, Celia Solomon Lieber, a terceira de seis irmãos, nascera

em 1890. Apesar de ambos serem judeus da Romênia, tinham

imigrado no início do século XX para Nova York, cidade onde se

conheceram. O casal não tinha muito dinheiro, embora Jack

conseguisse trabalho regular como costureiro durante os quase

dez primeiros anos de casamento. [ 10 ]

Em 28 de dezembro de 1922, quando Lee nasceu, sob o nome

de Stanley Martin Lieber, seus pais, Jack e Celia, não eram o tipo de família que morava no 777. O bairro, longe do metrô da IRT,

tinha excelente localização considerando o trabalho de Jack

Lieber no centro de moda, que ocupava grande parte dos edifícios

de luxo da Sétima Avenida. No entanto, Jack não ganhava muito

com seus serviços e não conseguiu mais encontrar trabalho a

partir de 1926. [ 11 ] O apartamento era pequeno e nada

glamoroso. Lee dormia na sala de estar e comentava achar

deprimente o fato de sua família sempre ter morado em

apartamentos de fundos, onde sua única vista era uma parede de

tijolos. [ 12 ]

Mas, em um prédio de luxo como aquele, até um apartamento

pequeno e escuro era difícil de bancar com o salário de operário

de Jack. Stan Lee não se lembrava muito bem do apartamento e

declarou: “Acho que meus pais [e eu] moraram lá por

pouquíssimo tempo antes de se mudarem. (…) Morei lá quando

tinha uns seis meses de vida, então não tenho muitas

lembranças.” [ 13 ]

Talvez os Lieber tivessem um senhorio empático ou um parente

generoso — alguns dos parentes de Celia eram bem

endinheirados [ 14 ] —, permitindo à família que morasse naquele

prédio elegante na época em que o primeiro filho nasceu.

De qualquer maneira, não importa como conseguiram pagar

pela casa: não durou muito. A família logo se mudou para regiões

mais acessíveis de Upper Manhattan — no caso, Washington

Heights, onde moraram uma década antes da construção da ponte

George Washington. A família passou os vinte anos seguintes

trocando de endereço, sempre em bairros mais baratos e de

imigrantes do Bronx, como Heights.

* * *

Nascido no mesmo ano em que Kurt Vonnegut e Jack Kerouac,

Lee veio ao mundo em plena Era do Jazz e no período da Lei Seca

(e dos bares clandestinos da cultura speakeasy), logo no início de

uma recuperação econômica do pós-Primeira Guerra. Porém, não

parece que sua família estivesse envolvida no glamour da era das

melindrosas. Eram pessoas pobres, tentando sobreviver. Lee e o

irmão, o escritor e artista Larry Lieber (nascido em 26 de outubro

de 1931), também comentavam que os pais passavam por

problemas conjugais, quase sempre ansiosos e discutindo por

dinheiro. [ 15 ]

Se os Lieber já enfrentavam problemas financeiros nos anos

relativamente prósperos de 1922 e 1923, é pouco provável que a

crise do mercado de ações de outubro de 1929 — quando Stan Lee

tinha apenas seis anos — tenha melhorado as coisas. Lee se

lembrava de ir à escola primária do PS 173, que ficava na

University Avenue, no Bronx. [ 16 ] Mas o PS 173, na verdade, era

em Washington Heights. Parece mais provável que ele tenha

morado no Heights durante o ensino fundamental e se mudado

para o Bronx durante o ensino médio, voltando para o Heights

algum tempo depois de se formar.

Segundo Jordan Raphael e Tom Spurgeon, em seu livro Stan Lee

and the Rise and Fall of the American Comic Book [Stan Lee e a

ascensão e queda dos quadrinhos americanos]: “O dinheiro era

escasso na casa dos Lieber, e a família quase sempre contava com

a ajuda financeira das irmãs de Celia, que tinham melhores

condições de vida. (…) Jack era inteligente, mas difícil e exigente,

lembra Jean Goodman, um parente próximo. ‘Ele era muito

rigoroso com os meninos…’ Celia, por outro lado, era mais calorosa e cuidava muito dos filhos, a ponto de se sacrificar. ‘O pai

era muito exigente, e a mãe, sofrida. Isso criava um ambiente

complicado’, declarou Goodman.” [ 17 ]

Sobre o pai, Lee disse o seguinte:

 

[Meu pai] não era bom nos negócios e não teve sorte. Durante a

maior parte de minha vida, não trabalhou. Ele não conseguia

emprego. Ficava em casa vendo os anúncios. Eu morria de pena. [

18 ]

 

O irmão, Larry, era nove anos mais novo que Stan, então não

tinha como falar sobre a vida de Lee com os pais antes de nascer,

mas lembrava-se de sua mãe sempre pedir que ele fosse mais

como o irmão, a quem comparava ao presidente Roosevelt. [ 19 ]

Portanto, parece seguro afirmar que Celia Lieber sempre apoiara

Stanley.

Com ou sem dinheiro, as crianças sempre se contentam com o

que têm. Em uma entrevista de 2002 para o extinto site

yesterdayland.com, Lee comentou algumas de suas brincadeiras

de criança:

 

Uma coisa que eu lembro (…) era quase oficial essa coisa das

temporadas. Por exemplo: tínhamos a temporada de handebol. De

repente, todas as crianças do bairro estavam jogando. (…) Depois

veio a temporada de hóquei (…) e todos jogávamos hóquei [de

patins] no acostamento. E era um perigo, porque os carros não

paravam de passar. [ 20 ]

Mas um brinquedo se provou o mais emocionante — e

libertador — da vida do jovem Stanley:

 

Eu tinha uns dez anos, e não sei de onde meus pais tiraram o

dinheiro, mas ganhei uma bicicleta grande e vermelha, de duas

rodas. (…) Eu finalmente poderia ir aonde quisesse. [ 21 ]

 

O que Lee não sabia é que foi Ida Davis — mãe de Jean

Goodman — quem pagou pela bicicleta, assim como pela pequena

cirurgia nos sinos nasais que Stanley teve que fazer em 1934. [ 22 ]

A ponte George Washington foi inaugurada para o público em 25

de outubro de 1931 (um dia antes do nascimento de Larry), e

andar de bicicleta ao longo daquela maravilha da engenharia

humana deve ter sido magnífico.

Lee se descrevia como “aluno mediano” que “mal podia esperar

para dar o fora da escola. (…) Eu não odiava a escola, mas queria

que acabasse logo para que eu pudesse entrar no mundo real,

porque nada do que eu estudava despertava meu interesse”. [ 23 ]

Quando perguntado se gostava de esportes, Lee respondeu:

“Sim, mas não sou fanático. Nunca fui do tipo que saía por aí

quebrando tudo se meu time perdesse. Ou vencesse.” [ 24 ] Mesmo

assim, Lee se lembrava de morar bem perto de dois dos maiores

estádios de beisebol de Nova York — o Yankee Stadium, dos

Yankees, e o Polo Grounds, sede do Giants. “Era maravilhoso”,

contou, afirmando ainda que adorava os dois times. [ 25 ]

O maior interesse de Lee era ler (tudo e qualquer coisa); já na

cultura pop, gostava especialmente do cinema e do rádio.

Lee lembrava-se de ler volumes populares entre as crianças,

como a série de detetives adolescentes Hardy Boys [Os irmãos Hardy], a série de Clair Wallace Hayes Boy Allies [Aliados] e as

aventuras da série Tom Swift. Duas de suas séries favoritas, Jerry

Todd e Poppy Ott, são de autoria de Leo Edwards (pseudônimo de

Edward Edson Lee, que não tem nenhum parentesco com o nosso

Lee). Stan gostava mais desses porque eram mais engraçados. E

ressaltou:

 

A melhor parte dos livros do Jerry Todd era o final. (…) Tinha uma

seção em que o autor respondia cartas dos leitores. Eu achava

aquilo maravilhoso. Me fazia sentir parte daquela coisa toda, como

se conhecesse o autor. [ 26 ]

 

Outros de seus autores favoritos eram H.G. Wells, Sir Arthur

Conan Doyle, Mark Twain e Edgar Rice Burroughs. Quando

cresceu, descobriu Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Edmond

Rostand, Omar Khayyam, Émile Zola “e, é claro, Shakespeare. (…)

O que é minha Bíblia”. [ 27 ] “Acho que minha maior influência foi

Shakespeare, que tive como um deus. (…) Eu amava Shakespeare.

(…) Para mim, era um escritor completo.” [ 28 ]

Lee também adorava o rádio, uma experiência de comunhão

com a família. “Domingo à noite era o momento da família.

Comprávamos comida na delicatéssen. Nas boas fases, tínhamos

cachorro-quente, feijão e chucrute.” [ 29 ] E Lee também contou:

 

Domingo à noite ficávamos ouvindo os comediantes. (…) Fred

Allen, Jack Benny, Edgar Bergen, Charlie McCarthy, W.C. Fields.

(…) E o mais engraçado era que, na hora em que toda a família se

juntava para ouvir os programas, as cadeiras ficavam viradas para

o rádio. Todo mundo ficava sentado olhando o aparelho como se

fosse uma televisão. [ 30 ]

 

Não é nenhuma surpresa que o jovem Lee gostasse de tirinhas

dos jornais e que adorasse as coletâneas, as primeiras de

quadrinhos da história. Suas favoritas eram “as de Milton Caniff

(…) Terry e os piratas. Era o melhor. E também Ferdinando. Eu

gostava das humorísticas. E das aventuras”. [ 31 ] Lee também

gostava de The Katzenjammer Kids, Skippy, Dick Tracy, Smitty e

The Gumps. [ 32 ] Mas, como afirmou no documentário de 2000,

With Great Power: “Criar histórias em quadrinhos nunca foi meu

sonho de criança. Nunca nem pensava nisso.”

Lee amava cinema, talvez mais do que qualquer outra forma de

entretenimento. No bairro de Washington Heights havia cinco

cinemas. [ 33 ]

Um de seus filmes favoritos era Pela mão de sua dama, de 1932,

estrelado por Warren William, cuja atuação “hipnotizou” o jovem

Stanley. [ 34 ]

A atuação de William no filme foi de fato notável. Ele

interpretava um promotor agressivo, Vincent Day, que, sem saber,

condena um inocente à cadeira elétrica. Traumatizado, Day se

torna advogado de defesa, mas acaba se corrompendo, livrando a

vida de criminosos ricos e cheios de culpa. Como você pode

imaginar, a vida dele se torna complicada e trágica, bem parecida

com os melodramas que, anos mais tarde, encontraríamos nos

quadrinhos de Lee.

Apesar de ter afirmado que era fã de diversos astros do cinema

— sobretudo Errol Flynn —, em sua autobiografia Excelsior!,

lançada em 2002, o único filme que mencionou foi Pela mão de sua dama, dizendo que ficara impressionado. Depois de assistir,

Lee passou a sonhar em ser advogado, chegou até a virar

presidente do Clube dos Advogados do Futuro, no ensino médio. [

35 ]

Outro fato relevante sobre o filme, que talvez só tenha causado

alguma impressão no inconsciente de Stan Lee, é que a

protagonista se chama Celia — como sua mãe. Além disso, Celia

foi interpretada por Sidney Fox, uma imigrante judia do leste

europeu que veio para os Estados Unidos quando criança e que,

antes de estrelar em Hollywood, morava em Washington Heights

— isso mais ou menos ao mesmo tempo e na mesma região que a

família Lieber.

Não é loucura supor que um rosto conhecido, de alguém do

mesmo bairro, em um close estampado em uma telona de três

metros e meio, interpretando uma personagem com o mesmo

nome de sua mãe tenha causado um impacto tão grande no jovem

Lee quanto a ousadia de Warren William, deixando o filme ainda

mais significativo.

* * *

Lee não se lembrava de a família ser muito religiosa. Os pais não

mantinham uma casa kosher, mas, segundo o irmão, Larry, [ 36 ]

Jack Lieber ia com alguma regularidade à sinagoga. Apesar de não

ter tido uma educação judaica muito firme, Lee celebrou seu bar

mitzvah. Como recordou em 2006: “Meu pai insistiu que eu fizesse

o bar mitzvah, e tive um curso intensivo para aprender a ler

hebraico. Infelizmente, esqueci tudo. A família não tinha muito

dinheiro, e eu lembro que a cerimônia no templo foi só com meu

pai e eu, e talvez mais umas duas pessoas. E só.” [ 37 ]

O interesse pelo teatro — e por uma garota em especial — o fez

começar a frequentar regularmente a sinagoga de Washington

Heights (não se sabe se foi a mesma onde ele celebrou o bar

mitzvah) na mesma época da comemoração. Lee contou:

 

Houve uma época em que eu queria ser ator, e encontrei um lugar, o

Tabernáculo Hebraico de Washington Heights [à época na 161

West Street]. (…) Ali tinha um grupo de teatro, então assumi a

vida religiosa para poder entrar no grupo e participar das peças.

(…) Mas o importante é que eu gostava de uma garota do grupo.

Ainda me lembro do nome dela, Martha. Era uma espanhola loira

muito bonita. E eu gostava de ir por causa dela. [ 38 ]

 

Também não se sabe se o interesse foi correspondido, e, caso

tenha sido, em que medida.

* * *

Como era comum na época, Lee pulou algumas séries da escola, o

que permitiu que começasse a trabalhar cedo. Mas também fazia

com que quase sempre fosse o mais novo da classe, então tinha

dificuldade de se relacionar com os colegas e vice-versa. [ 39 ]

Na época do ensino médio de Lee, os Lieber provavelmente

moravam no número 1720 da University Avenue, em University

Heights, no Bronx. (Décadas depois, o escritor e editor de

quadrinhos Len Wein viria a morar no mesmo edifício, ainda na

infância.) A avenida e a área em que o prédio fica receberam esse

nome por causa da Universidade de Nova York (que hoje é a

Bronx Community College). Mais uma vez, a família morava em

um apartamento de fundos. Lee cursou o ensino médio na DeWitt Clinton High School, chamada de Clinton, uma insti tuição

gigantesca que se estende por um campus enorme no distrito de

Mosholu Parkway. A escola exclusiva para meninos recebia

grande parte da população do Bronx, e, em seu auge, teve 12 mil

alunos. [ 40 ]

A Clinton, com uma mistura de filhos de imigrantes judeus,

italianos e irlandeses, assim como vários estudantes afro-

americanos, tem uma das listas de ex-alunos mais impressionantes

do país, tendo formado jovens que se destacaram nos mais

diversos campos. Outros ex-alunos notáveis da época de Lee são o

escritor James Baldwin, o dramaturgo Paddy Chayefsky e o

fotógrafo Richard Avedon. Além de Lee, outros garotos da Clinton

foram parar na indústria de quadrinhos, como Bob Kane e Bill

Finger (criadores de Batman), Will Eisner (que criou o Spirit e foi

pioneiro nas graphic novels) e Irwin Hasen (artista de Mulher-

Maravilha e Dondi).

Consultando o anuário de seu tempo na Clinton, pode-se ver

que Lee era membro de vários clubes, incluindo o Advogados do

Futuro. [ 41 ] Embora não fosse editor da revista literária da escola,

The Magpie (Chayefsky assumiu esse papel), foi listado nas

páginas da equipe como publicitário. [ 42 ]

Foi enquanto trabalhava no escritório da Magpie que Lee pregou

uma peça nos colegas. Era comum ouvi-lo falando do assunto com

orgulho (e uma pitada de vergonha):

 

Eu já devia ser meio doido naquela época, porque lembro que tinha

uma revista na escola chamada The Magpie (…) e o escritório

ficava em uma sala chamada The Tower [a torre], que tinha um

pé-direito enorme, ninguém alcançava o teto. (…) Pois bem,

estavam pintando o teto, e um dos pintores desceu para o almoço e

deixou a escada lá. Então eu subi e escrevi “Stan Lee é Deus”, no

teto. Foi uma das primeiras evidências do meu enorme complexo de

inferioridade. [ 43 ]

 

Curiosamente, quando Lee me contou sobre a brincadeira, em

2017, observou: “Morro de vergonha disso. Mas, até onde sei,

ainda está lá no teto.” [ 44 ]

Quando perguntei se naquela época ele já se apresentava como

Stan Lee, a resposta foi: “Não, eu não me apresentava como Stan

Lee. Acho que não. Acho que contei a história desse jeito porque

agora só penso em mim mesmo como Stan Lee. Mas devo ter

escrito Stan Lieber.” [ 45 ]

Quando tinha 15 anos, em três semanas diferentes, Lee ficou em

sétimo lugar e ganhou duas menções honrosas em um concurso

de “maiores notícias da semana”, realizado pelo New York Herald

Tribune. Isso, por si só, já é um feito e tanto, porém, seja lá por

que motivo, anos depois Lee passou a contar que ganhara o

primeiro lugar três semanas seguidas. Nenhuma evidência desse

triunfo foi encontrada. [ 46 ]

* * *

Em algum momento do ensino médio, Lee foi “iniciado nos

mistérios e prazeres do sexo. (…) E um dos meus grandes

arrependimentos é que não me lembro do nome da garota com

quem perdi a virgindade, filha do dono da loja de doces do

bairro”. [ 47 ]

Embora estivesse ansioso para sair pelo mundo, Lee ainda

encontrava tempo para participar da vida extracurricular da Clinton, mesmo mantendo vários trabalhos de meio período. Ele

vendia assinaturas do New York Herald Tribune para outros

alunos, imitando John J. McKenna, um colega que desempenhava

o mesmo serviço, só que para o New York Times. Também

entregava sanduíches para a Jack May’s Pharmacy de Manhattan,

perto do Rockefeller Center, e se orgulhava de sua eficiência, que

lhe gerava mais gorjetas do que os outros entregadores. [ 48 ]

Lee costumava falar que trabalhava para o programa de teatro

Federal Theatre Project da Work Progress Administration (WPA)

na mesma época de Orson Welles (mesmo admitindo que os dois

nunca trabalharam juntos e nem sequer se conheceram). Como

Welles deixou a WPA em 1937, Lee deve ter trabalhado lá

enquanto ainda estava no ensino médio. No entanto, em

Excelsior!, George Mair, coautor do livro, escreveu que Lee entrou

para o Federal Theatre Project“algum tempo depois de concluir o

ensino médio”. De qualquer forma, Lee se juntou ao projeto por

causa de uma garota. Os dois namoraram por um tempo. Depois

de aparecer em algumas peças, Lee começou a amar os palcos,

mas o salário era tão baixo que foi forçado a desistir. O romance

com a garota tinha terminado, o que só facilitou sua saída da

WPA. [ 49 ]

* * *

Depois de se formar na Clinton, em junho de 1939, aos 16 anos,

Lee trabalhou como lanterninha do Teatro Rivoli, no centro de

Manhattan, onde contou ter tido um encontro memorável com a

primeira-dama Eleanor Roosevelt:

Um dia (…) a sra. Roosevelt entrou no teatro. (…) Todos ficamos

esperando, torcendo para que ela viesse pelo corredor pelo qual

éramos responsáveis, mas a sorte foi minha. Nossa, fiquei tão

orgulhoso. Andei pelo corredor com a lanterna brilhando para

iluminar o caminho dos pés dela, com a cabeça erguida, os ombros

eretos, e a chamei de “sra. Presidente”. O que, é claro, foi a coisa

errada a dizer. [O certo seria “sra. Roosevelt”.] Acabei tropeçando

no pé de algum babaca com a perna para fora, e caí no chão. A

“sra. Presidente” me ajudou a levantar, passando os braços por

meus ombros e perguntando: “Tudo bem, meu jovem?” Dá para

imaginar a vergonha que passei. [ 50 ]

 

Depois disso, Lee passou um tempo escrevendo obituários de

celebridades para um serviço de notícias (embora às vezes falasse

que tinha esse emprego ainda no ensino médio). Achava o

trabalho muito deprimente, já que lhe mandavam escrever os

obituários de pessoas ainda vivas, e acabou deixando o emprego. [

51 ]

Jean Goodman, prima de Lee por parte de mãe, era casada com

Martin Goodman, editor que se destacara publicando uma grande

variedade de revistas pulp. Martin se tornou uma das pessoas mais

importantes na vida de Lee, mas, naquela época, os dois ainda não

se conheciam muito bem. Os Goodman é que fizeram a ponte

entre o primo e o recém-fundado Programa de Orientação

Vocacional da organização comunitária judaica B’nai B’rith. [ 52 ]

Graças ao programa, Lee conseguiu um emprego escrevendo

peças publicitárias para a National Jewish Health, uma clínica de

tuberculose em Denver — porém o trabalho era em Nova York.

(Lee também lembrava que alguém chamado “Charlie Plotkin”, que “estava sempre de suéter”, o ajudara a conseguir esse e outros

trabalhos com a escrita.) [ 53 ]

Lee afirmava que “nunca conseguia entender o que estava

tentando fazer [naquele trabalho]. Era para incentivar as pessoas

a contraírem tuberculose, para que pudessem frequentar a clínica?

Bem, a ideia era convencer as pessoas já infectadas a irem se

tratar naquele hospital específico”. [ 54 ]

O contato de Lee com o Programa de Orientação Vocacional

não durou muito, e ele acabou conseguindo um emprego como

office boy na H. Lissner Co., uma fabricante de calças de

Manhattan. Lá, ele se sentia explorado e pouco apreciado pelos

supervisores, que nem se davam ao trabalho de aprender seu

nome. Foi demitido em um corte de custos por ser mais novo que

o outro office boy, mesmo afirmando que trabalhava muito mais

pesado.

Irritado com a demissão injusta, Lee impulsivamente espalhou

alguns grandes lotes de listas de corte, as planilhas com dados

sobre diferentes tipos de calça. [ 55 ] Por sorte, nunca precisou

pedir referências à H. Lissner Co.

Mas, por mais horrível que fosse o trabalho, Lee não podia ficar

sem emprego. Teve que encontrar outro, e depressa.

* * *

Durante a adolescência, enquanto Lee concluía o ensino médio e

passava por vários empregos e um ou outro romance, os Estados

Unidos estavam saindo da Depressão, mesmo com o mundo

parecendo prestes a entrar em erupção novamente. A invasão

alemã da Polônia em 1.º de setembro de 1939 — apenas alguns

meses após a formatura de Lee na Clinton — desencadeou o início da Segunda Guerra. Os Estados Unidos não estavam no conflito

logo no começo, mas sua participação parecia apenas questão de

tempo.

No mundo da cultura pop, o ano de 1939 ficou famoso pelos

filmes clássicos, incluindo O Mágico de Oz, … E o vento levou e No

tempo das diligências; porém, no mundo menos famoso dos

quadrinhos, também foi um ano de grandes acontecimentos. Em

1938, o Super-Homem estreou no Action Comics n.º 1. No início

de 1939, o Batman teve sua primeira aparição na Detective Comics

n.º 27. Ambos os personagens fizeram um enorme sucesso, e os

editores — sobretudo os das revistas pulp, que começaram a ver

quedas intensas nas vendas — correram para entrar na nova moda

dos quadrinhos de super-heróis.

Um dos editores na corrida era Martin Goodman, marido da

prima de Lee, que, no verão de 1939, lançou uma linha de

quadrinhos pela Timely. A primeira edição foi a Marvel Comics n.º

1, que fez enorme sucesso, vendendo quase um milhão de

exemplares, com poucas devoluções dos revendedores. A

revistinha introduzia, entre outros personagens, o Príncipe

Submarino e o Tocha Humana.

A revista Marvel Comics n.º 1 e os subsequentes títulos da

Timely foram produzidos para Goodman por uma editora

externa, a Funnies Inc. Mas Goodman queria uma série de

quadrinhos própria, produzida por funcionários e freelancers que

trabalhassem diretamente para ele. Para isso, no início de 1940,

contratou dois jovens artistas e escritores habilidosos que se

destacavam na ainda incipiente indústria dos quadrinhos: o editor

Joe Simon e o diretor de arte Jack Kirby.

Em um prédio na West 42nd Street, o edifício McGraw-Hill, os

dois produziam quadrinhos de autoria própria e de outras

pessoas. No fim de 1940, Simon (com 27 anos) e Kirby (com 23)

apresentaram o que seria o maior sucesso da Timely: o Capitão

América n.º 1. A edição foi à venda em quase todo o país por volta

de 20 de dezembro.

E foi logo antes da estreia desse marco na história dos

quadrinhos que Stanley Martin Lieber, de 17 anos, bateu à porta

de Timely em busca de emprego. [ 56 ]