A Espetacular Vida de Stan Lee
2. O filho do costureiro
[Meu pai] não era bom nos negócios e não teve
sorte. (…) Ele não conseguia emprego. Ficava
em casa vendo os anúncios. Eu morria de pena.
— Stan Lee [ 08 ]
S tanley Martin Lieber, um menino de nove anos, estava sentado na cadeira na sala escura do opulento cinema de Upper Manhattan, hipnotizado, encarando a única fonte de luz: a tela em que um mundo de sonhos se projetava. Warren William, astro carismático, interpretava um poderoso promotor no drama policial da Warner Bros., Pela mão de sua
dama, de 1932. O ator parecia encarar o jovem Stanley, talvez
olhando através dele, enquanto resumia o caso de acusação contra
um assassino:
O eminente advogado de defesa argumentou que este caso é
baseado em evidências circunstanciais. O que é verdade.
Mas as evidências unem os elos das circunstâncias como uma
corrente forte, que não pode ser quebrada. Que prende este
assassino com o aperto firme de uma serpente constritora e o
entrega diretamente nas mãos da lei!
Encantado com a performance ousada, Stanley decidiu que,
quando crescesse, seria advogado. Ou ator. Ou ambos. [ 09 ]
De um jeito ou de outro, ele queria, assim como Warren
William, oferecer ao público a possibilidade de pensar — e sentir!
* * *
Não fazia sentido que a família de Stan Lee morasse na 777 West
End Avenue quando ele nasceu.
Mas morava.
O prédio, que ficava na esquina da West 98th Street, foi
construído em 1910, quando a West End Avenue ainda se
transformava no cobiçado endereço da classe média judaica de
Nova York. Aos poucos iam surgindo os prédios de luxo, como o
777, substituindo cortiços menores que se enfileiravam ao longo
da avenida.
Jack Lieber nascera em 1885 (sem irmãos conhecidos), e sua
esposa, Celia Solomon Lieber, a terceira de seis irmãos, nascera
em 1890. Apesar de ambos serem judeus da Romênia, tinham
imigrado no início do século XX para Nova York, cidade onde se
conheceram. O casal não tinha muito dinheiro, embora Jack
conseguisse trabalho regular como costureiro durante os quase
dez primeiros anos de casamento. [ 10 ]
Em 28 de dezembro de 1922, quando Lee nasceu, sob o nome
de Stanley Martin Lieber, seus pais, Jack e Celia, não eram o tipo de família que morava no 777. O bairro, longe do metrô da IRT,
tinha excelente localização considerando o trabalho de Jack
Lieber no centro de moda, que ocupava grande parte dos edifícios
de luxo da Sétima Avenida. No entanto, Jack não ganhava muito
com seus serviços e não conseguiu mais encontrar trabalho a
partir de 1926. [ 11 ] O apartamento era pequeno e nada
glamoroso. Lee dormia na sala de estar e comentava achar
deprimente o fato de sua família sempre ter morado em
apartamentos de fundos, onde sua única vista era uma parede de
tijolos. [ 12 ]
Mas, em um prédio de luxo como aquele, até um apartamento
pequeno e escuro era difícil de bancar com o salário de operário
de Jack. Stan Lee não se lembrava muito bem do apartamento e
declarou: “Acho que meus pais [e eu] moraram lá por
pouquíssimo tempo antes de se mudarem. (…) Morei lá quando
tinha uns seis meses de vida, então não tenho muitas
lembranças.” [ 13 ]
Talvez os Lieber tivessem um senhorio empático ou um parente
generoso — alguns dos parentes de Celia eram bem
endinheirados [ 14 ] —, permitindo à família que morasse naquele
prédio elegante na época em que o primeiro filho nasceu.
De qualquer maneira, não importa como conseguiram pagar
pela casa: não durou muito. A família logo se mudou para regiões
mais acessíveis de Upper Manhattan — no caso, Washington
Heights, onde moraram uma década antes da construção da ponte
George Washington. A família passou os vinte anos seguintes
trocando de endereço, sempre em bairros mais baratos e de
imigrantes do Bronx, como Heights.
* * *
Nascido no mesmo ano em que Kurt Vonnegut e Jack Kerouac,
Lee veio ao mundo em plena Era do Jazz e no período da Lei Seca
(e dos bares clandestinos da cultura speakeasy), logo no início de
uma recuperação econômica do pós-Primeira Guerra. Porém, não
parece que sua família estivesse envolvida no glamour da era das
melindrosas. Eram pessoas pobres, tentando sobreviver. Lee e o
irmão, o escritor e artista Larry Lieber (nascido em 26 de outubro
de 1931), também comentavam que os pais passavam por
problemas conjugais, quase sempre ansiosos e discutindo por
dinheiro. [ 15 ]
Se os Lieber já enfrentavam problemas financeiros nos anos
relativamente prósperos de 1922 e 1923, é pouco provável que a
crise do mercado de ações de outubro de 1929 — quando Stan Lee
tinha apenas seis anos — tenha melhorado as coisas. Lee se
lembrava de ir à escola primária do PS 173, que ficava na
University Avenue, no Bronx. [ 16 ] Mas o PS 173, na verdade, era
em Washington Heights. Parece mais provável que ele tenha
morado no Heights durante o ensino fundamental e se mudado
para o Bronx durante o ensino médio, voltando para o Heights
algum tempo depois de se formar.
Segundo Jordan Raphael e Tom Spurgeon, em seu livro Stan Lee
and the Rise and Fall of the American Comic Book [Stan Lee e a
ascensão e queda dos quadrinhos americanos]: “O dinheiro era
escasso na casa dos Lieber, e a família quase sempre contava com
a ajuda financeira das irmãs de Celia, que tinham melhores
condições de vida. (…) Jack era inteligente, mas difícil e exigente,
lembra Jean Goodman, um parente próximo. ‘Ele era muito
rigoroso com os meninos…’ Celia, por outro lado, era mais calorosa e cuidava muito dos filhos, a ponto de se sacrificar. ‘O pai
era muito exigente, e a mãe, sofrida. Isso criava um ambiente
complicado’, declarou Goodman.” [ 17 ]
Sobre o pai, Lee disse o seguinte:
[Meu pai] não era bom nos negócios e não teve sorte. Durante a
maior parte de minha vida, não trabalhou. Ele não conseguia
emprego. Ficava em casa vendo os anúncios. Eu morria de pena. [
18 ]
O irmão, Larry, era nove anos mais novo que Stan, então não
tinha como falar sobre a vida de Lee com os pais antes de nascer,
mas lembrava-se de sua mãe sempre pedir que ele fosse mais
como o irmão, a quem comparava ao presidente Roosevelt. [ 19 ]
Portanto, parece seguro afirmar que Celia Lieber sempre apoiara
Stanley.
Com ou sem dinheiro, as crianças sempre se contentam com o
que têm. Em uma entrevista de 2002 para o extinto site
yesterdayland.com, Lee comentou algumas de suas brincadeiras
de criança:
Uma coisa que eu lembro (…) era quase oficial essa coisa das
temporadas. Por exemplo: tínhamos a temporada de handebol. De
repente, todas as crianças do bairro estavam jogando. (…) Depois
veio a temporada de hóquei (…) e todos jogávamos hóquei [de
patins] no acostamento. E era um perigo, porque os carros não
paravam de passar. [ 20 ]
Mas um brinquedo se provou o mais emocionante — e
libertador — da vida do jovem Stanley:
Eu tinha uns dez anos, e não sei de onde meus pais tiraram o
dinheiro, mas ganhei uma bicicleta grande e vermelha, de duas
rodas. (…) Eu finalmente poderia ir aonde quisesse. [ 21 ]
O que Lee não sabia é que foi Ida Davis — mãe de Jean
Goodman — quem pagou pela bicicleta, assim como pela pequena
cirurgia nos sinos nasais que Stanley teve que fazer em 1934. [ 22 ]
A ponte George Washington foi inaugurada para o público em 25
de outubro de 1931 (um dia antes do nascimento de Larry), e
andar de bicicleta ao longo daquela maravilha da engenharia
humana deve ter sido magnífico.
Lee se descrevia como “aluno mediano” que “mal podia esperar
para dar o fora da escola. (…) Eu não odiava a escola, mas queria
que acabasse logo para que eu pudesse entrar no mundo real,
porque nada do que eu estudava despertava meu interesse”. [ 23 ]
Quando perguntado se gostava de esportes, Lee respondeu:
“Sim, mas não sou fanático. Nunca fui do tipo que saía por aí
quebrando tudo se meu time perdesse. Ou vencesse.” [ 24 ] Mesmo
assim, Lee se lembrava de morar bem perto de dois dos maiores
estádios de beisebol de Nova York — o Yankee Stadium, dos
Yankees, e o Polo Grounds, sede do Giants. “Era maravilhoso”,
contou, afirmando ainda que adorava os dois times. [ 25 ]
O maior interesse de Lee era ler (tudo e qualquer coisa); já na
cultura pop, gostava especialmente do cinema e do rádio.
Lee lembrava-se de ler volumes populares entre as crianças,
como a série de detetives adolescentes Hardy Boys [Os irmãos Hardy], a série de Clair Wallace Hayes Boy Allies [Aliados] e as
aventuras da série Tom Swift. Duas de suas séries favoritas, Jerry
Todd e Poppy Ott, são de autoria de Leo Edwards (pseudônimo de
Edward Edson Lee, que não tem nenhum parentesco com o nosso
Lee). Stan gostava mais desses porque eram mais engraçados. E
ressaltou:
A melhor parte dos livros do Jerry Todd era o final. (…) Tinha uma
seção em que o autor respondia cartas dos leitores. Eu achava
aquilo maravilhoso. Me fazia sentir parte daquela coisa toda, como
se conhecesse o autor. [ 26 ]
Outros de seus autores favoritos eram H.G. Wells, Sir Arthur
Conan Doyle, Mark Twain e Edgar Rice Burroughs. Quando
cresceu, descobriu Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Edmond
Rostand, Omar Khayyam, Émile Zola “e, é claro, Shakespeare. (…)
O que é minha Bíblia”. [ 27 ] “Acho que minha maior influência foi
Shakespeare, que tive como um deus. (…) Eu amava Shakespeare.
(…) Para mim, era um escritor completo.” [ 28 ]
Lee também adorava o rádio, uma experiência de comunhão
com a família. “Domingo à noite era o momento da família.
Comprávamos comida na delicatéssen. Nas boas fases, tínhamos
cachorro-quente, feijão e chucrute.” [ 29 ] E Lee também contou:
Domingo à noite ficávamos ouvindo os comediantes. (…) Fred
Allen, Jack Benny, Edgar Bergen, Charlie McCarthy, W.C. Fields.
(…) E o mais engraçado era que, na hora em que toda a família se
juntava para ouvir os programas, as cadeiras ficavam viradas para
o rádio. Todo mundo ficava sentado olhando o aparelho como se
fosse uma televisão. [ 30 ]
Não é nenhuma surpresa que o jovem Lee gostasse de tirinhas
dos jornais e que adorasse as coletâneas, as primeiras de
quadrinhos da história. Suas favoritas eram “as de Milton Caniff
(…) Terry e os piratas. Era o melhor. E também Ferdinando. Eu
gostava das humorísticas. E das aventuras”. [ 31 ] Lee também
gostava de The Katzenjammer Kids, Skippy, Dick Tracy, Smitty e
The Gumps. [ 32 ] Mas, como afirmou no documentário de 2000,
With Great Power: “Criar histórias em quadrinhos nunca foi meu
sonho de criança. Nunca nem pensava nisso.”
Lee amava cinema, talvez mais do que qualquer outra forma de
entretenimento. No bairro de Washington Heights havia cinco
cinemas. [ 33 ]
Um de seus filmes favoritos era Pela mão de sua dama, de 1932,
estrelado por Warren William, cuja atuação “hipnotizou” o jovem
Stanley. [ 34 ]
A atuação de William no filme foi de fato notável. Ele
interpretava um promotor agressivo, Vincent Day, que, sem saber,
condena um inocente à cadeira elétrica. Traumatizado, Day se
torna advogado de defesa, mas acaba se corrompendo, livrando a
vida de criminosos ricos e cheios de culpa. Como você pode
imaginar, a vida dele se torna complicada e trágica, bem parecida
com os melodramas que, anos mais tarde, encontraríamos nos
quadrinhos de Lee.
Apesar de ter afirmado que era fã de diversos astros do cinema
— sobretudo Errol Flynn —, em sua autobiografia Excelsior!,
lançada em 2002, o único filme que mencionou foi Pela mão de sua dama, dizendo que ficara impressionado. Depois de assistir,
Lee passou a sonhar em ser advogado, chegou até a virar
presidente do Clube dos Advogados do Futuro, no ensino médio. [
35 ]
Outro fato relevante sobre o filme, que talvez só tenha causado
alguma impressão no inconsciente de Stan Lee, é que a
protagonista se chama Celia — como sua mãe. Além disso, Celia
foi interpretada por Sidney Fox, uma imigrante judia do leste
europeu que veio para os Estados Unidos quando criança e que,
antes de estrelar em Hollywood, morava em Washington Heights
— isso mais ou menos ao mesmo tempo e na mesma região que a
família Lieber.
Não é loucura supor que um rosto conhecido, de alguém do
mesmo bairro, em um close estampado em uma telona de três
metros e meio, interpretando uma personagem com o mesmo
nome de sua mãe tenha causado um impacto tão grande no jovem
Lee quanto a ousadia de Warren William, deixando o filme ainda
mais significativo.
* * *
Lee não se lembrava de a família ser muito religiosa. Os pais não
mantinham uma casa kosher, mas, segundo o irmão, Larry, [ 36 ]
Jack Lieber ia com alguma regularidade à sinagoga. Apesar de não
ter tido uma educação judaica muito firme, Lee celebrou seu bar
mitzvah. Como recordou em 2006: “Meu pai insistiu que eu fizesse
o bar mitzvah, e tive um curso intensivo para aprender a ler
hebraico. Infelizmente, esqueci tudo. A família não tinha muito
dinheiro, e eu lembro que a cerimônia no templo foi só com meu
pai e eu, e talvez mais umas duas pessoas. E só.” [ 37 ]
O interesse pelo teatro — e por uma garota em especial — o fez
começar a frequentar regularmente a sinagoga de Washington
Heights (não se sabe se foi a mesma onde ele celebrou o bar
mitzvah) na mesma época da comemoração. Lee contou:
Houve uma época em que eu queria ser ator, e encontrei um lugar, o
Tabernáculo Hebraico de Washington Heights [à época na 161
West Street]. (…) Ali tinha um grupo de teatro, então assumi a
vida religiosa para poder entrar no grupo e participar das peças.
(…) Mas o importante é que eu gostava de uma garota do grupo.
Ainda me lembro do nome dela, Martha. Era uma espanhola loira
muito bonita. E eu gostava de ir por causa dela. [ 38 ]
Também não se sabe se o interesse foi correspondido, e, caso
tenha sido, em que medida.
* * *
Como era comum na época, Lee pulou algumas séries da escola, o
que permitiu que começasse a trabalhar cedo. Mas também fazia
com que quase sempre fosse o mais novo da classe, então tinha
dificuldade de se relacionar com os colegas e vice-versa. [ 39 ]
Na época do ensino médio de Lee, os Lieber provavelmente
moravam no número 1720 da University Avenue, em University
Heights, no Bronx. (Décadas depois, o escritor e editor de
quadrinhos Len Wein viria a morar no mesmo edifício, ainda na
infância.) A avenida e a área em que o prédio fica receberam esse
nome por causa da Universidade de Nova York (que hoje é a
Bronx Community College). Mais uma vez, a família morava em
um apartamento de fundos. Lee cursou o ensino médio na DeWitt Clinton High School, chamada de Clinton, uma insti tuição
gigantesca que se estende por um campus enorme no distrito de
Mosholu Parkway. A escola exclusiva para meninos recebia
grande parte da população do Bronx, e, em seu auge, teve 12 mil
alunos. [ 40 ]
A Clinton, com uma mistura de filhos de imigrantes judeus,
italianos e irlandeses, assim como vários estudantes afro-
americanos, tem uma das listas de ex-alunos mais impressionantes
do país, tendo formado jovens que se destacaram nos mais
diversos campos. Outros ex-alunos notáveis da época de Lee são o
escritor James Baldwin, o dramaturgo Paddy Chayefsky e o
fotógrafo Richard Avedon. Além de Lee, outros garotos da Clinton
foram parar na indústria de quadrinhos, como Bob Kane e Bill
Finger (criadores de Batman), Will Eisner (que criou o Spirit e foi
pioneiro nas graphic novels) e Irwin Hasen (artista de Mulher-
Maravilha e Dondi).
Consultando o anuário de seu tempo na Clinton, pode-se ver
que Lee era membro de vários clubes, incluindo o Advogados do
Futuro. [ 41 ] Embora não fosse editor da revista literária da escola,
The Magpie (Chayefsky assumiu esse papel), foi listado nas
páginas da equipe como publicitário. [ 42 ]
Foi enquanto trabalhava no escritório da Magpie que Lee pregou
uma peça nos colegas. Era comum ouvi-lo falando do assunto com
orgulho (e uma pitada de vergonha):
Eu já devia ser meio doido naquela época, porque lembro que tinha
uma revista na escola chamada The Magpie (…) e o escritório
ficava em uma sala chamada The Tower [a torre], que tinha um
pé-direito enorme, ninguém alcançava o teto. (…) Pois bem,
estavam pintando o teto, e um dos pintores desceu para o almoço e
deixou a escada lá. Então eu subi e escrevi “Stan Lee é Deus”, no
teto. Foi uma das primeiras evidências do meu enorme complexo de
inferioridade. [ 43 ]
Curiosamente, quando Lee me contou sobre a brincadeira, em
2017, observou: “Morro de vergonha disso. Mas, até onde sei,
ainda está lá no teto.” [ 44 ]
Quando perguntei se naquela época ele já se apresentava como
Stan Lee, a resposta foi: “Não, eu não me apresentava como Stan
Lee. Acho que não. Acho que contei a história desse jeito porque
agora só penso em mim mesmo como Stan Lee. Mas devo ter
escrito Stan Lieber.” [ 45 ]
Quando tinha 15 anos, em três semanas diferentes, Lee ficou em
sétimo lugar e ganhou duas menções honrosas em um concurso
de “maiores notícias da semana”, realizado pelo New York Herald
Tribune. Isso, por si só, já é um feito e tanto, porém, seja lá por
que motivo, anos depois Lee passou a contar que ganhara o
primeiro lugar três semanas seguidas. Nenhuma evidência desse
triunfo foi encontrada. [ 46 ]
* * *
Em algum momento do ensino médio, Lee foi “iniciado nos
mistérios e prazeres do sexo. (…) E um dos meus grandes
arrependimentos é que não me lembro do nome da garota com
quem perdi a virgindade, filha do dono da loja de doces do
bairro”. [ 47 ]
Embora estivesse ansioso para sair pelo mundo, Lee ainda
encontrava tempo para participar da vida extracurricular da Clinton, mesmo mantendo vários trabalhos de meio período. Ele
vendia assinaturas do New York Herald Tribune para outros
alunos, imitando John J. McKenna, um colega que desempenhava
o mesmo serviço, só que para o New York Times. Também
entregava sanduíches para a Jack May’s Pharmacy de Manhattan,
perto do Rockefeller Center, e se orgulhava de sua eficiência, que
lhe gerava mais gorjetas do que os outros entregadores. [ 48 ]
Lee costumava falar que trabalhava para o programa de teatro
Federal Theatre Project da Work Progress Administration (WPA)
na mesma época de Orson Welles (mesmo admitindo que os dois
nunca trabalharam juntos e nem sequer se conheceram). Como
Welles deixou a WPA em 1937, Lee deve ter trabalhado lá
enquanto ainda estava no ensino médio. No entanto, em
Excelsior!, George Mair, coautor do livro, escreveu que Lee entrou
para o Federal Theatre Project“algum tempo depois de concluir o
ensino médio”. De qualquer forma, Lee se juntou ao projeto por
causa de uma garota. Os dois namoraram por um tempo. Depois
de aparecer em algumas peças, Lee começou a amar os palcos,
mas o salário era tão baixo que foi forçado a desistir. O romance
com a garota tinha terminado, o que só facilitou sua saída da
WPA. [ 49 ]
* * *
Depois de se formar na Clinton, em junho de 1939, aos 16 anos,
Lee trabalhou como lanterninha do Teatro Rivoli, no centro de
Manhattan, onde contou ter tido um encontro memorável com a
primeira-dama Eleanor Roosevelt:
Um dia (…) a sra. Roosevelt entrou no teatro. (…) Todos ficamos
esperando, torcendo para que ela viesse pelo corredor pelo qual
éramos responsáveis, mas a sorte foi minha. Nossa, fiquei tão
orgulhoso. Andei pelo corredor com a lanterna brilhando para
iluminar o caminho dos pés dela, com a cabeça erguida, os ombros
eretos, e a chamei de “sra. Presidente”. O que, é claro, foi a coisa
errada a dizer. [O certo seria “sra. Roosevelt”.] Acabei tropeçando
no pé de algum babaca com a perna para fora, e caí no chão. A
“sra. Presidente” me ajudou a levantar, passando os braços por
meus ombros e perguntando: “Tudo bem, meu jovem?” Dá para
imaginar a vergonha que passei. [ 50 ]
Depois disso, Lee passou um tempo escrevendo obituários de
celebridades para um serviço de notícias (embora às vezes falasse
que tinha esse emprego ainda no ensino médio). Achava o
trabalho muito deprimente, já que lhe mandavam escrever os
obituários de pessoas ainda vivas, e acabou deixando o emprego. [
51 ]
Jean Goodman, prima de Lee por parte de mãe, era casada com
Martin Goodman, editor que se destacara publicando uma grande
variedade de revistas pulp. Martin se tornou uma das pessoas mais
importantes na vida de Lee, mas, naquela época, os dois ainda não
se conheciam muito bem. Os Goodman é que fizeram a ponte
entre o primo e o recém-fundado Programa de Orientação
Vocacional da organização comunitária judaica B’nai B’rith. [ 52 ]
Graças ao programa, Lee conseguiu um emprego escrevendo
peças publicitárias para a National Jewish Health, uma clínica de
tuberculose em Denver — porém o trabalho era em Nova York.
(Lee também lembrava que alguém chamado “Charlie Plotkin”, que “estava sempre de suéter”, o ajudara a conseguir esse e outros
trabalhos com a escrita.) [ 53 ]
Lee afirmava que “nunca conseguia entender o que estava
tentando fazer [naquele trabalho]. Era para incentivar as pessoas
a contraírem tuberculose, para que pudessem frequentar a clínica?
Bem, a ideia era convencer as pessoas já infectadas a irem se
tratar naquele hospital específico”. [ 54 ]
O contato de Lee com o Programa de Orientação Vocacional
não durou muito, e ele acabou conseguindo um emprego como
office boy na H. Lissner Co., uma fabricante de calças de
Manhattan. Lá, ele se sentia explorado e pouco apreciado pelos
supervisores, que nem se davam ao trabalho de aprender seu
nome. Foi demitido em um corte de custos por ser mais novo que
o outro office boy, mesmo afirmando que trabalhava muito mais
pesado.
Irritado com a demissão injusta, Lee impulsivamente espalhou
alguns grandes lotes de listas de corte, as planilhas com dados
sobre diferentes tipos de calça. [ 55 ] Por sorte, nunca precisou
pedir referências à H. Lissner Co.
Mas, por mais horrível que fosse o trabalho, Lee não podia ficar
sem emprego. Teve que encontrar outro, e depressa.
* * *
Durante a adolescência, enquanto Lee concluía o ensino médio e
passava por vários empregos e um ou outro romance, os Estados
Unidos estavam saindo da Depressão, mesmo com o mundo
parecendo prestes a entrar em erupção novamente. A invasão
alemã da Polônia em 1.º de setembro de 1939 — apenas alguns
meses após a formatura de Lee na Clinton — desencadeou o início da Segunda Guerra. Os Estados Unidos não estavam no conflito
logo no começo, mas sua participação parecia apenas questão de
tempo.
No mundo da cultura pop, o ano de 1939 ficou famoso pelos
filmes clássicos, incluindo O Mágico de Oz, … E o vento levou e No
tempo das diligências; porém, no mundo menos famoso dos
quadrinhos, também foi um ano de grandes acontecimentos. Em
1938, o Super-Homem estreou no Action Comics n.º 1. No início
de 1939, o Batman teve sua primeira aparição na Detective Comics
n.º 27. Ambos os personagens fizeram um enorme sucesso, e os
editores — sobretudo os das revistas pulp, que começaram a ver
quedas intensas nas vendas — correram para entrar na nova moda
dos quadrinhos de super-heróis.
Um dos editores na corrida era Martin Goodman, marido da
prima de Lee, que, no verão de 1939, lançou uma linha de
quadrinhos pela Timely. A primeira edição foi a Marvel Comics n.º
1, que fez enorme sucesso, vendendo quase um milhão de
exemplares, com poucas devoluções dos revendedores. A
revistinha introduzia, entre outros personagens, o Príncipe
Submarino e o Tocha Humana.
A revista Marvel Comics n.º 1 e os subsequentes títulos da
Timely foram produzidos para Goodman por uma editora
externa, a Funnies Inc. Mas Goodman queria uma série de
quadrinhos própria, produzida por funcionários e freelancers que
trabalhassem diretamente para ele. Para isso, no início de 1940,
contratou dois jovens artistas e escritores habilidosos que se
destacavam na ainda incipiente indústria dos quadrinhos: o editor
Joe Simon e o diretor de arte Jack Kirby.
Em um prédio na West 42nd Street, o edifício McGraw-Hill, os
dois produziam quadrinhos de autoria própria e de outras
pessoas. No fim de 1940, Simon (com 27 anos) e Kirby (com 23)
apresentaram o que seria o maior sucesso da Timely: o Capitão
América n.º 1. A edição foi à venda em quase todo o país por volta
de 20 de dezembro.
E foi logo antes da estreia desse marco na história dos
quadrinhos que Stanley Martin Lieber, de 17 anos, bateu à porta
de Timely em busca de emprego. [ 56 ]