A Espetacular Vida de Stan Lee
15. Política do poder
O que deu no Parker?? Ele era um bobão! Como
ficou esperto?
— J. Jonah Jameson, em o espetacular homem-
aranha n.° 33, de fevereiro de 1966, de Stan Lee
e Steve Ditko
E m 9 de setembro de 1971, começou uma rebelião na prisão Attica Correctional Facility, no interior do estado de Nova York. Os prisioneiros fizeram de reféns 42 guardas e funcionários. No dia 13, após negociações fracassadas entre os detentos e Nelson Rockefeller, chefe do departamento correcional e governador do estado, a polícia estadual foi acionada para reprimir o levante.
Quarenta e três pessoas morreram durante o ataque, incluindo
dez reféns, e todas as mortes foram causadas por disparos da força
policial. Houve um intenso debate, que continua até hoje, sobre
quem foi o responsável pelo caos e pelas mortes durante esses
quatro dias.
Por alguma razão, Lee decidiu que esses acontecimentos seriam
os principais tópicos tratados na Soapbox dos quadrinhos da
Marvel de abril de 1972:
Estes breves pensamentos aleatórios estão sendo escritos pouco
depois da tragédia da Prisão Estadual de Attica. Não quero impor
minhas opiniões sobre qual lado, qual grupo (ou grupos) podem
estar certos ou errados. Em vez disso, queria debater justamente
essa teoria do “certo ou errado”.
Lee faz exatamente isso, ponderando: “Eu me pergunto como
seria a vida se não estivéssemos tão preocupados em provar que
estamos certos, e o outro lado, errado.” Talvez não tenha sido o
editorial mais contundente já feito, mas o mais notável é que
vinha de um escritor e produtor de inúmeras histórias que
poderiam ser acusadas de tentar justamente provar o que era
certo — e ainda por cima pelo uso da força! Ainda mais
interessante é a ideia de Lee de iniciar a conversa abordando um
acontecimento recente, porém tão controverso. Considerando o
contexto da tentativa do programa de entrevistas de 1968, do
roteiro com Alain Resnais abordando o tema ecológico e das
tentativas de crítica social em quadrinhos como Surfista Prateado,
este texto inspirado na rebelião de Attica pode ser visto como
mais um passo de Lee na tentativa de crescer como pessoa, editor
e figura pública.
A Soapbox do mês seguinte foi curta e direta: um breve resumo
da nova série de quadrinhos, Luke Cage: Herói de aluguel. Este foi
o primeiro gibi da Marvel (talvez da indústria) a apresentar um
super-herói negro solo. Mas, em vez de anunciar que Cage era o
primeiro herói negro solo, Lee publicou um desenho do personagem, simplesmente informando aos leitores que “ele é
mesmo diferente!”. A história de origem do personagem foi
ambientada em uma prisão de segurança máxima, onde Luke,
detido por um assassinato que não cometera, adquiriu poderes
sobre-humanos em um experimento sabotado por um guarda
sádico que não gostava dele.
Considerando os cronogramas de publicação dos quadrinhos, o
personagem — creditado a Archie Goodwin, George Tuska, Roy
Thomas e John Romita Sr. — já devia estar sendo produzido
meses antes da rebelião de Attica. (O próprio Lee instruíra o
quarteto a criar um equivalente dos filmes de ação de sucesso,
como Shaft, para os quadrinhos, em uma espécie de resposta da
Marvel à moda do blaxploitation, filmes dirigidos e estrelados por
negros e direcionados ao público negro.) Como Thomas disse, no
Facebook:
O sucesso do filme [Shaft] (…) levou Stan a pensar que, já que não
podíamos fazer uma série solo do Pantera Negra, em grande parte
por causa da conotação controversa do nome [igual ao do grupo
político radical], era hora de criar um novo personagem. (…)
Stan, Archie Goodwin, John Romita e eu conversamos muito. (…)
Cada um de nós trouxe algo para o debate (…), mas Stan foi quem
direcionou tudo. [ 309 ]
Mesmo assim, ainda é difícil não ver relação entre Cage e a
Soapbox do mês anterior.
No mínimo, pode-se dizer que Lee ainda estava em sintonia
com o zeitgeist, que continuava processando o que acontecia no
mundo e transformava suas impressões em substrato para os quadrinhos. Talvez Cage tenha tido apenas esse anúncio curto por
conta de sentimentos conflitantes — o orgulho da Marvel, que
passava a ter um herói negro principal com a própria série, talvez
misturado com um pouco de vergonha por perceber que sua bem-
intencionada tentativa de se mostrar a par dos assuntos da
atualidade na Soapbox em que debatia a tragédia de Attica tinha
saído apenas um mês antes do lançamento de Herói de aluguel.
* * *
Enquanto Lee cultivava seu papel e sua imagem de comentarista e
analista, envolvido com acontecimentos recentes, tentando
manter a Marvel em destaque, ainda restavam alguns assuntos
antigos para resolver, querendo ele ou não.
Jack Kirby, agora na DC, estava ocupado como sempre,
produzindo material incrível, ainda que idiossincrático. Mesmo
assim, o quadrinista arranjou tempo para, em Senhor Milagre n.º 6,
à venda em outubro de 1971, inventar e incluir um personagem
que era obviamente baseado em Lee: Funky Flashman, que no
Brasil, em algumas aparições, recebeu o nome de O Vigarista.
Flashman, um vigarista egocêntrico que se apresentava como
agente de talentos, mudava de aparência, botando peruca e barba
falsa, e ficava muito parecido com o Stan Lee da época. Funky era
um personagem patético e autocentrado que vivia à custa de um
parente e que venderia até a mãe para se beneficiar ou para ajudar
o principal vilão do Quarto Mundo de Kirby, Darkseid. A
introdução da história descreve Flashman da seguinte maneira:
Nas sombras de um mundo entre o sucesso e o fracasso, vive um
homenzinho que anseia por tudo!!! Um estraga-prazeres
oportunista e sem caráter nem valores!
Funky era servido por um manobrista chamado Houseroy, uma
versão igualmente pejorativa de Roy Thomas. Em certo momento,
enquanto tentavam se aproveitar de Scott Free (cujo codinome
era Senhor Milagre), Houseroy adverte Funky dos riscos que
Scott insistia em correr. E Flashman responde: “Bem, então ele
quebra a perna ou morre!!! E aí eu vou ficar na beira da praia,
tomando meu martíni, só esperando o próximo peixe!!!”
A história da revista termina em desastre para Flashman, que
observa sua antiga fazenda de escravos (uma metáfora velada para
a Marvel, o dono e o editor-chefe) arder em chamas, e reflete:
E tudo termina em chamas! A propriedade Mockingbird, [ 310 ] com
suas lembranças felizes! (…) Os escravos felizes cantando para a
família!
A capa da edição — presumivelmente escrita por Kirby — trazia
certa ambiguidade com a manchete: “Funky Flashman! Vilão ou
herói? Você decide!”
A apresentação desse personagem é um ataque mais intenso do
que simplesmente exagerar a vaidade ou os padrões de fala da
pessoa. É uma interpretação mordaz de Lee como falso e mal-
intencionado, sem nenhum valor, ganancioso e que adorava se
vangloriar. Essas paródias não tão sutis de Funkye Houseroy
podem ter passado despercebidas por boa parte dos leitores, mas,
para quem sabia um pouco sobre as pessoas por trás dos
quadrinhos, eram um último “Vão à merda!” de Kirby. Seria difícil
imaginar ele e Lee fazendo as pazes ou voltando a trabalhar
juntos.
Thomas comentou a história:
Esse Funky Flashman incomodou um pouco [Stan], porque, pelo
menos para Stan, a atitude foi um tanto mesquinha. (…) Até eu
fiquei meio incomodado na primeira vez que vi o tal do Houseroy,
porque é uma interpretação apenas parcialmente verdadeira de
mim. (…) E eu odiei aquela história, que muitos achávamos (…)
que era um ataque baixo contra Stan, e eu teria odiado, com ou sem
Houseroy.
Quando fui conversar, é claro que Jack respondeu: “Ah, é só uma
história.” (…) Mas todos sabíamos que era um pouco mais que isso.
(…) Stan sempre dizia que não ia se deixar incomodar, mas o
relacionamento [entre Lee e Kirby] nunca mais foi o mesmo. [ 311 ]
O parceiro de Kirby, Mark Evanier, lembrou:
Sei que Roy ficou mais chateado com a história do que o próprio
Stan, e Jack até estava um pouco… Bem, não vou dizer que ele
estava arrependido de ter feito a história, mas por ter saído do jeito
que saiu. Porque o que aconteceu foi que Jack começou a fazer uma
história sobre outra pessoa (…) mas na época saiu uma entrevista
de Stan que o deixou muito ofendido; Jack achou aquilo muito
desagradável. Ao longo dos anos, os dois lados tiveram vários
[ressentimentos e a sensação de que tinham sido ofendidos], e
sempre vinham à tona na hora errada. Jack ficou bravo com Stan, e
Stan ficou bravo com Jack. [ 312 ]
Claro que a verdadeira ameaça de Kirby era a competição nas
bancas, o material que ele estava produzindo. Embora as vendas não tenham sido tão boas quanto a DC esperava, ainda eram mais
do que respeitáveis. E, mesmo que o estilo de roteiro de Kirby
causasse estranhamento em alguns leitores, o que impressionava
era o poder dos desenhos e da narrativa visual, somado aos
personagens inéditos e à enorme quantidade de novas ideias que
Kirby lançava a cada edição. Jack parecia estar cumprindo seu
objetivo de criar histórias autorais, em que era responsável por
todos os aspectos, de modo que, independentemente de qualquer
outra coisa, seu trabalho na DC pudesse ser encarado como sua
visão pessoal pura, sobretudo depois que pôde contratar o arte-
finalista que tanto queria, Mike Royer. Claro que havia a questão
de que, sempre que Kirby desenhava o Super-Homem, a DC
mudava o rosto do personagem para se “enquadrar ao modelo”, o
que acontecia com muita frequência, especialmente na série
Jimmy Olsen, um spin-off de Super-Homem. Bem, nem tudo é
perfeito.
* * *
Logo depois do aparecimento de Funky Flashman, Stan Lee deu
um grande passo para controlar e expandir sua marca. Em 5 de
janeiro de 1972, ele apresentou o evento A Marvel-ous Evening
with Stan Lee [Uma noite de Marvel e Maravilhas com Stan Lee],
no famosíssimo Carnegie Hall.
A ideia foi do produtor Steve Lemberg, que também estava por
trás do álbum The Amazing Spider-Man: From Beyond the Grave —
A Rockomic [O incrível Homem-Aranha volta do túmulo — Um
disco-gibi de rock]. Lemberg — que obteve, com Chip Goodman,
os direitos de muitos dos personagens da Marvel por uma
pechincha — tinha a clara intenção de transformar Lee em uma
celebridade, usando os personagens da Marvel como trampolim. A noite foi uma mixórdia de grupos e elementos ecléticos, com
leituras dramáticas de quadrinhos, desenhos de John Romita e
Herb Trimpe feitos na hora e música de Chico Hamilton e sua
banda (Hamilton também assinava a trilha sonora dos programas
de rádio da Marvel, que Lemberg estava produzindo), sem falar na
presença de Roy Thomas e de Barry Smith. Alain Resnais, o
romancista Tom Wolfe e o ator René Auberjonois participaram de
leituras das histórias em quadrinhos e de textos que tratavam do
assunto.
O evento também foi a estreia pública do poema épico de Lee,
“God Woke” [Deus despertou]. Lee confidenciara a Resnais que o
recital, conduzido pela esposa, Joan, e pela filha, JC Lee, era a
materialização de seu desejo de se tornar um poeta famoso como
Rod McKuen. Apesar de hoje em dia estar quase esquecido,
McKuen era muito popular e fazia aparições regulares na TV, além
de vender milhões de livros de poesia.
A noite parece ter sido muito divertida, mas, segundo vários
relatos, inclusive os de Thomas e Gerry Conway, na verdade foi
sem graça. Talvez o erro tenha sido tentar criar uma extravagância
multimídia que extrapolasse as palestras de Lee em universidades
e convenções de quadrinhos, orquestrando — literalmente — suas
habituais conversas ininterruptas em um espetáculo do showbiz,
mas em grande parte composto por pessoas que — à exceção do
grupo de Hamilton — não eram profissionais do entretenimento
— e isso, claro, incluía Lee. Ao que parece, não se conquista o
público reunindo um monte de escritores, desenhistas e artistas
amadores numa vã tentativa de criar uma tradução convincente
dos personagens de quadrinhos impressos em um espetáculo ao
vivo.
O crítico Dean Latimer escreveu sobre a noite em The Monster
Times:
A plateia saiu em um silêncio atordoado, depois de muitas vezes
bocejar mais alto do que as apresentações incríveis. (…) Tudo não
passou de uma besteirada sentimental (…) e dá para entender por
que todos ficaram tão impressionados. E entediados. [ 313 ]
O crítico Peter Ainslie relatou, para o Women’s Wear Daily:
[Lee] apresentou várias celebridades de Nova York, como Tom
Wolfe, Alex Bennett, Brute Force, René Auberjonois e muitos
outros, mas o evento não empolgou. [ 314 ]
Conway lembrou, em entrevista para Raphael e Spurgeon:
O produtor não sabia o que estava fazendo. (…) A capacidade de
improviso é, ao mesmo tempo, a maior força e a maior fraqueza de
Stan. Infelizmente, não se pode improvisar um espetáculo de duas
horas. [ 315 ]
Até o produtor, Lemberg, tinha lembranças negativas:
Foi realmente horrível. Fiquei até me sentindo mal pela qualidade
do evento. [ 316 ]
No entanto, pelo menos um participante adorou: Scott Edelman,
futuro escritor e editor da Marvel, mas que na época era apenas
um estudante do ensino médio do Brooklyn. “Amei todas as apresentações”, lembrou. Edelman acredita que muitos também se
divertiram bastante. “Quando as pessoas começaram a escrever
[críticas negativas] nos fanzines (…) olha, não sei o que essa gente
esperava. (…) Talvez não fosse o tipo de coisa que eles gostam
(…) mas, para mim, foi uma noite maravilhosa.” [ 317 ]
* * *
O poema épico de Lee recitado naquela noite, “God Woke”, não
era tão ruim para uma poesia pop, como os pensamentos de um
homem de meia-idade tentando compreender o sentido da
existência. O tema e o assunto pareciam ser os mesmos nas
entrelinhas das histórias do Surfista Prateado de Lee: por que os
humanos sempre criam conflito, se poderiam criar um mundo
muito melhor com mais cooperação e gratidão?
Lee estava determinado a escrever apenas poemas rimados (ele
disse ao professor de filosofia Jeff McLaughlin que não gostava de
poemas sem rimas e que “odiava versos livres”) e que passassem
algum tipo de mensagem (Lee também disse a McLaughlin que
odiava poemas em que “não dá para saber o que estão dizendo”).
“God Woke” é um poema longo, com cerca de trezentos versos,
boa ambientação e que conta uma história. Em rimas. [ 318 ]
O poema é claramente produto de uma mente ágil e curiosa; foi
escrito por alguém que de fato se preocupa em definir o propósito
da humanidade na Terra. Embora Lee tenha afirmado que nunca
se ateve muito a questões religiosas, uma pessoa que não liga
muito para religião não escreveria um poema épico com Deus no
título, como observou o dr. Thomas Mick. [ 319 ]
* * *
O ano de 1972 também marcou o fim da era de Martin Goodman
na empresa. Tudo estava indo conforme o planejado, com Chip
Goodman já no convés, esperando para assumir o cargo do pai
como presidente e editor da Magazine Management. Seguindo os
passos do pai, Chip comandaria o império da família, que vinha
com a Marvel Comics e Stan Lee.
No entanto, havia uma pessoa com grandes ressalvas a essa
mudança antecipada.
Embora Lee fosse muito bem pago pela Cadence, a promessa
que ouvira de Goodman, de muitos lucros com a venda da
empresa, não se concretizara. E mesmo que não houvesse essa
promessa de dinheiro, Lee passara mais de três décadas
trabalhando nas trincheiras de Goodman e, mais do que isso,
reinventando a linha de quadrinhos — sem falar no que ele fizera
pela própria indústria! Trinta anos. Agora, Lee queria fazer as
coisas do seu jeito. Tinha várias ideias que queria implementar
para novas iniciativas de publicação. E ainda havia rumores de que
ele estivera conversando com o pessoal da DC sobre um possível
trabalho por lá. Talvez aquele almoço amigável com Carmine
Infantino, mencionado nos Bullpen Bulletins, não tenha sido
apenas para relembrar os velhos tempos. (Ter Kirby e Lee
trabalhando ao mesmo tempo na DC teria sido uma realidade
alternativa interessante, para dizer o mínimo.)
Considerando tudo isso, Lee foi promovido, na primavera de
1972, para presidente e editor da Marvel Comics.
Em 2017, refletindo sobre a época, ele comentou a promoção:
Foi minha única vingança. Martin tinha colocado o filho para
trabalhar lá e ainda tinha combinado com a Cadence que ele seria
editor depois que Goodman se aposentasse. E eu disse para a
Cadence: “Se ele virar editor, eu me demito.” Foi assim que acabei
me tornando o editor. [ 320 ]
Ou, como Raphael e Spurgeon colocaram:
Não faltava gente com tino para os negócios na Cadence. O que
faltava eram ícones da cultura pop cujas personalidades
extravagantes podiam reunir um séquito de fãs capazes de encher o
Carnegie Hall. [ 321 ]
E, mesmo que Lee tivesse passado a ocupar um cargo mais
elevado — tendo, portanto, se afastado do ofício de escrever e
editar os quadrinhos mensais —, Chip Goodman ainda assim foi
promovido a presidente e editor da Magazine Management, o que
também incluía a Marvel. Lee subira de posição, mas parecia, pelo
menos no papel, ainda se reportar a um Goodman. Em 27 de
março de 1974, ele enviou um memorando a Martin, convidando
pai e filho para um almoço da diretoria da Comics Magazine
Association of America [Associação de Revistas de Quadrinhos
dos Estados Unidos] para homenagear um sujeito chamado Bill
Server por seus anos de serviço. [ 322 ] Esse convite indica que as
relações entre Lee e os Goodman continuavam, até esse ponto, no
mínimo cordiais. O que não duraria muito.
* * *
Lee logo passou a assumir o que considerava que deveriam ser os
deveres do novo cargo de presidente e editor da Marvel. Depois
de discussões internas sobre os cargos e as responsabilidades — uma batalha que ainda atormentaria a Marvel por muitos anos —,
Thomas assumiu o antigo cargo de Lee como editor (ainda não
existia o título de “editor-chefe” para o principal editor da
empresa), enquanto Stan se ocupava de buscar ideias para inovar
os quadrinhos da empresa, procurando formatos diferentes,
apresentando mudanças de conteúdo ou uma combinação de
ambos os aspectos das histórias. Claro que Lee não fez isso só por
amar a ideia de criar novos produtos, mas também porque as
vendas da Marvel estavam caindo. [ 323 ]
No fim das contas, Goodman vendeu a empresa na hora certa; já
começava um dos períodos de crise da indústria dos quadrinhos.
O êxodo da classe média para os subúrbios diminuiu a quantidade
de bancas de jornais e lojas de esquina em que as crianças
passavam a caminho da escola para comprar refrescos e gibis. Na
época, havia lojas especializadas, mas eram poucas, e ainda
estavam começando a surgir no país. Era o início do que viria a se
chamar mercado direto. Ainda assim, a moda estava apenas
começando, com pioneiros como Phil Seuling fechando acordos
com a Marvel e a DC para evitar os custos dos distribuidores
tradicionais e receber os quadrinhos direto da fonte, podendo
vendê-los a preços mais baixos, sacrificando, em troca, o
privilégio de poder devolver alguma revista que não vendesse
bem. [ 324 ]
Já estavam acabando as forças do impulso inicial da chamada
Era de Prata dos quadrinhos, que tinha começado com a leva de
super-heróis repaginados da DC e que, por sua vez, inspirara os
novos quadrinhos de heróis da Marvel. Embora a Marvel
mantivesse o recorde de inovação, venda e engajamento desde
Quarteto Fantástico n.º 1, no início dos anos 1970 os personagens e a abordagem da empresa estavam perdendo o apelo. Àquela
altura, os super-heróis já eram bem conhecidos e estabelecidos no
mercado, e o Homem-Aranha era quase tão icônico quanto o
Super-Homem. A abordagem mais realista que inovara os
quadrinhos da Marvel e causara tanta surpresa ao público já tinha
perdido esse efeito. Os quadrinhos eram vendidos por vários
motivos, mas a novidade não era mais um deles. Era por isso que
Lee estava tão ansioso para experimentar novos gêneros e
formatos.
Em certo nível, a principal questão era — e continuaria sendo
pelos próximos quarenta anos —: para quem fazemos isso? Quem
lê quadrinhos? E a resposta não era mais tão simples quanto nos
anos 1950, quando a maioria dos leitores eram crianças, meninos
e meninas, que só se apegavam aos quadrinhos por alguns anos.
Além disso, a própria natureza do que a Marvel introduzira no
mercado — um universo fictício, com histórias e séries que se
relacionavam, povoado de personagens que se comportavam de
maneira um tanto realista — parecia também ter se tornado um
clichê. Mesmo com escritores e artistas talentosos envolvidos no
processo de criação de cada história, quase tudo ou já parecia ter
sido feito, ou, em alguns casos, era tão extravagante que não
atraiu o grande público.
Além disso, considerando as mudanças que tinham abalado a
distribuição das revistas e afrouxado o Código dos Quadrinhos,
sem mencionar toda a estética alternativa das publicações
underground que adolescentes e estudantes universitários tinham
passado a consumir, fica bem claro que a definição de como
deveria ser uma história em quadrinhos estava passando por
algumas mudanças. E será que os quadrinhos poderiam competir de verdade com a TV ou com os filmes, com seus retratos francos
de sexo e violência?
E, enquanto todos os envolvidos — criadores, distribuidores,
pontos de venda e até os fãs — reavaliavam o lugar dos
quadrinhos em seu cosmos, acontecia uma revolução dentro da
própria indústria, que pode ser muito bem exemplificada com a
presença de Carmine Infantino e Stan Lee em cargos executivos.
Uma década antes, os dois não teriam tido sequer a oportunidade
de preencher essas cadeiras. Lee não teria sido considerado sério
o suficiente, um peso leve em comparação aos editores “de
verdade”. Infantino seria “apenas um artista”, com a cabeça nas
nuvens, incapaz de descer à Terra e descobrir como preencher os
registros de perdas e ganhos. Mas os dois estavam no comando,
contratando jovens intensos e cheios de motivação, que lançavam
quadrinhos igualmente intensos e cheios de motivação. Mas, ainda
assim, não estavam vendendo muito bem.
Ao que parecia, Martin Goodman cronometrara tudo
perfeitamente. Logo estaria fora da indústria, e, de acordo com o
contrato com a Cadence, Chip dirigiria o espetáculo na Magazine
Management.
* * *
A Marvel e a DC — assim como as outras empresas menores —
inventavam e publicavam, para então cancelar, dezenas de títulos
de vários gêneros. De 1972 a 1974, o número de títulos da Marvel
foi de cerca de vinte para mais ou menos quarenta. Ainda assim, a
estrutura básica da empresa não mudou. Thomas herdara um
sistema editorial e de produção originalmente concebido para
funcionar com um editor supervisionando de oito a dez títulos
por mês, mas que culminou em uma carga de trabalho intensa demais quando o editor — Thomas — teve que supervisionar mais
de quarenta histórias mensais. Para lidar com a carga de trabalho
esmagadora, criou-se um sistema em que os escritores de cada
quadrinho eram também os editores dos títulos, enquanto
Thomas e Lee tentavam lidar com as questões mais globais de
direção e de filosofia da marca. Lee ou Thomas talvez
decretassem que era preciso fazer uma série com história de
vampiros, de motociclistas místicos ou de um trio de super-
heroínas. Caberia então a Thomas (com eventuais pitacos de Lee)
pegar essas ideias sugeridas ou as que tivessem sido aprovadas e
discuti-las com escritores e artistas, que as traduziriam em gibis
reais — que, por sua vez, precisavam sair regular e pontualmente.
Entediado com as minúcias da parte administrativa do trabalho
editorial, Lee tentou se concentrar mais no lado criativo, testando
novos tipos de formato e assuntos com os quais Goodman sempre
hesitara em trabalhar. A essa altura, quatro anos depois de Martin
acertar a venda da empresa, a Marvel praticamente não tinha nada
a perder com as experimentações.
E Lee tentou de tudo. Houve a proposta de uma série de
quadrinhos escrita por grandes nomes da literatura, como Kurt
Vonnegut e Václav Havel (que nas horas vagas trabalhava como
presidente da Tchecoslováquia), mas a ideia nunca se
materializou. Stan convidou o criador da revista Mad, Harvey
Kurtzman, para elaborar uma nova revista humorística, mas
Kurtzman não estava interessado em desenvolver mais um
produto qualquer da Marvel. Lee chegou a cogitar com Will
Eisner a possibilidade de ele criar uma linha de quadrinhos ou de
publicar reimpressões de Spirit — ou talvez novos materiais de Spirit — pela Marvel, ou até que ele assumisse um cargo de editor,
enquanto Lee manteria o título de presidente.
Segundo o biógrafo de Eisner, Michael Schumacher, o autor não
queria fazer parte da estrutura corporativa da Marvel. Além disso,
“Eisner informou a Lee que, se fosse encarregado da Marvel,
implementaria mudanças que dessem aos escritores e artistas a
propriedade intelectual de seus trabalhos. Lee não estava em
posição de negociar tais mudanças”. [ 325 ]
Da mesma forma, Jim Warren, proprietário da Warren
Publishing — editora de Eerie, Creepy e Vampirella —, não ficou
muito satisfeito quando Lee, que supostamente prometera se
manter fora da competição nos quadrinhos em preto e branco,
lançou justamente um desses. Mas Warren não deve ter se
surpreendido. A sobrevivência da marca estava em jogo, e Warren
conhecia bem seu amigo/inimigo. Sabia que Stan faria o que fosse
preciso para garantir o emprego.
Em 1974, Lee tinha dito à revista Rolling Stone, cheio de ironia:
“Ele [Warren] me detesta. Se eu fosse mais sensato, contrataria
um guarda-costas.”
E continuou: “Sei que ele costuma dizer às pessoas que estamos
tentando destruí-lo. Não é nada disso. (…) Eu acho que, se
fizermos nosso trabalho bem, só vai ajudá-lo. (…) Considerando o
jeito como se comporta, acho que ele é meio doido.” [ 326 ]
Em entrevistas feitas em 1998 e 1999, Warren refletiu:
Eu odiava qualquer um que roubasse nossos conceitos, nossas
ideias, e inundasse o mercado com cópias só porque tinham o
aparato e o apoio de uma grande empresa como a Marvel.
Mas se eu realmente odeio Stan Lee? Quem poderia odiá-lo? Stan
é um dos caras mais bacanas do mundo dos quadrinhos. Mas, se
Stan Lee decidir me chamar para a briga (…) Bem, melhor arranjar
um carro com fundo de vidro, para poder olhar a cara dele quando
eu passar por cima. [ 327 ]
Nos Bullpen Bulletins dos quadrinhos de setembro de 1972,
provavelmente escritos em maio, Lee declarou que aquele era o
começo da “Fase Dois da Marvel”. Ele escreveu que, com Thomas
como editor:
Finalmente terei tempo (…) para me dedicar exclusivamente a
sonhar com projetos novos e empolgantes para a casa, com novos
campos para a Marvel conquistar no cinema, na TV, nos livros…
em tudo o que você quiser!
Incansável em seus esforços para melhorar a imagem da
indústria dos quadrinhos e, por consequência, as vendas da
Marvel, Lee também se tornou ativo na ACBA, a Academy of
Comic Book Arts [Academia de Artes dos Quadrinhos]. Sua visão
da organização, como um grupo que funcionaria feito a Motion
Picture Academy, distribuindo prêmios e espalhando boa vontade,
era bem diferente do que buscavam alguns dos escritores e
artistas participantes, como Neal Adams e Archie Goodwin,
ansiosos por um tipo de grupo ou sindicato para defender seus
direitos.
* * *
Após as promoções, não é nenhuma surpresa que o status de
celebridade de Lee tenha continuado a crescer:
Em abril de 1972, por exemplo, ele e Kirby apareceram juntos
no Cartoon Symposium [Simpósio de Cartunistas], da
Universidade Vanderbilt, em Nashville, junto com Gahan Wilson,
Garry Trudeau, Dave Berg e outros. Não houve nenhuma menção
a Funky Flashman.
Em 3 de maio de 1974, Lee foi agraciado com o prêmio Popular
Culture Award of Excellence for Distinguished Achievements in
the Popular Arts [Prêmio Cultura Pop de Excelência por
Realizações Distintas nas Artes Populares], durante a quarta
Convenção Nacional da Popular Culture Association [Associação
de Cultura Pop], em Milwaukee. Outros vencedores do prêmio
foram Count Basie, James M. Cain, Agatha Christie, Howard
Hawks e Irving Wallace.
Um folheto promocional de uma associação de palestrantes da
época o colocava ao lado de figuras talentosas, como Richard
Leakey, Norman Lear, Ramsey Lewis e Art Linkletter. O texto de
apresentação o descrevia assim:
Rei dos Quadrinhos, editor da Marvel Comics (…) escritor,
ilustrador e a mente por trás dos quadrinhos mais populares nos
campi universitários da atualidade. Lee oferece uma visão de como
um homem na casa dos cinquenta, mas atendendo a um mercado
jovem, pode “revolucionar o sistema” para se tornar o escritor mais
publicado dos Estados Unidos.
Mas, celebridade ou não, Lee ainda tinha que manter seu
emprego e resolver as pendências diárias da vida de editor.
* * *
Apesar de Lee ser presidente e editor da Marvel Comics, Chip
Goodman era presidente e editor da Magazine Management,
empresa proprietária da Marvel. Então, tecnicamente, ainda era
chefe de Lee.
E havia intrigas se espalhando quanto ao relacionamento de Lee
e Chip. O antigo sócio comercial de Goodman, Albert Einstein
Landau — afilhado do físico Einstein —, também se colocou no
cargo de presidente da Magazine Management e,
consequentemente, da Marvel. Lee, então, passou a ser editor da
Marvel e da Magazine Management, com Landau como chefe de
Stan e de Chip. Em 1974, ao fim do contrato de Chip, não houve
renovação. Ou seja: nem Chip nem Martin eram empregados da
Cadence.
Embora seja difícil de acreditar que um homem de negócios tão
experiente quanto Martin Goodman não tivesse feito os acordos e
contratos necessários para garantir a permanência do filho em um
cargo executivo por mais do que apenas alguns anos, parece que
foi isso mesmo o que aconteceu. Martin, enfurecido com o
tratamento dedicado ao filho, começou a planejar vingança.
Estava determinado a prejudicar a Cadence — e Lee, por
consequência —, certo de que ele e Chip triunfariam. O
relacionamento entre Stan Lee e Martin Goodman lembrava cada
vez mais uma das histórias em quadrinhos da Marvel.
* * *
Durante esse período de brigas corporativas e familiares, a Marvel
passava pelas dores e — poucas — delícias do crescimento. Uma
geração inteira de novos artistas e escritores estava entrando em
campo, trazendo para as editoras a consciência criativa da geração
dos baby boomers, em oposição direta ao lado mais mercadológico dos quadrinhos. Muitos dos novos quadrinistas tinham nascido
entre os fãs das revistas, como Len Wein, Marv Wolfman, Steve
Gerber, Mary Skrenes, Steve Englehart, Frank Brunner, Jim
Starlin, Mike Friedrich, Linda Fite, Mimi Gold e muitos outros,
que cada vez mais acrescentavam suas visões de mundo e
ampliavam a ideia de como deveria ser uma história em
quadrinhos. Claro que as histórias de super-heróis da Marvel
continuaram, mas a editora também passou a publicar títulos de
terror, fantasia histórica, romance e ficção científica. A natureza
do mercado e a mudança crescente no modelo de venda dos
quadrinhos significavam que muitos dos experimentos
fracassariam. Ainda assim, permanecia a sensação de que a
Marvel estava disposta a tentar de tudo, e que Stan de fato faria o
que se propusera a fazer naquela Soapbox: “Sonhar com projetos
novos e empolgantes para a casa.” A verdade é que Stan não tinha
escolha quanto à sobrevivência da empresa. Era uma época
animada, porém assustadora, para a Marvel e para toda a indústria
dos quadrinhos.
* * *
Embora a Marvel estivesse testando gêneros, imagens e roteiros
que nunca tinham ousado — ou que não teriam permissão do
Código para — publicar apenas alguns anos antes, foi só quando
mexeram com seus amados super-heróis que, como se pode
imaginar, todos se intrometeram.
Em uma tentativa de aumentar as vendas de O Espetacular
Homem-Aranha, alguém — a maioria acredita que tenha sido o
diretor de arte John Romita Sr. — teve a ideia de matar um
querido personagem coadjuvante, assim como o ídolo Milton
Caniff fizera anos antes, matando Raven Sherman, na tirinha de jornal Terry and the Pirates. Após discussões entre Lee, Thomas,
Romita e o escritor da série, Gerry Conway, foi decidido que
Gwen Stacy, namorada de Peter Parker, seria assassinada. Isso
aconteceu na edição n.º 121, lançada em março de 1973.
A reação dos fãs ao assassinato, sobretudo o que se falava nas
aparições de Lee nas universidades, foi muito negativa. E não
ajudou em nada o fato de o crime ter sido apresentado de maneira
que dava a entender que o assassino poderia ter sido o próprio
Homem-Aranha, que a matara inadvertidamente enquanto
tentava salvá-la do Duende Verde. Lee dizia ao público — e talvez
de fato acreditasse nessa versão — que a decisão tinha sido
tomada sem seu conhecimento, enquanto ele estava em uma
viagem de negócios. E Lee afirmava isso mesmo que todos os
outros envolvidos negassem que fosse possível, alegando que,
mesmo que Lee tivesse se ausentado por alguns dias, ele
supervisionava tudo, de modo que certamente sabia e aprovara
essa guinada crucial na vida dos personagens. [ 328 ]
Por outro lado, Lee assumiu a responsabilidade e se posicionou
com firmeza na questão dos anúncios exibidos nos quadrinhos, o
que de muitas maneiras foi mais significativo para o cerne e a
identidade da empresa. Nos arquivos de Lee na Universidade de
Wyoming, há uma carta datada de 3 de julho de 1974, escrita para
Roy Thomas por um leitor indignado:
Chegou à minha atenção algo que me levou a considerar seriamente
o boicote à Marvel por motivos morais. Estou me referindo
especificamente aos anúncios neonazistas exibidos na sua seção de
classi ficados. São propagandas para uma empresa chamada
“Adolf’s”, que vende decalques nazistas, ensígnias [sic] etc.
Thomas acrescentara uma nota para Lee na carta: “Podemos
insistir [ao pessoal da publicidade] que se recusem a aceitar esse
tipo de anúncio no futuro?”
Em 11 de julho, Lee enviou um memorando para a empresa que
lidava com os classificados da Marvel:
A partir do presente momento, não se deve aceitar mais nenhum
tipo de anúncio que possa ser considerado neonazista. Como
exemplo, o referido na carta em anexo, de um leitor ofendido com o
anúncio veiculado por uma empresa chamada Adolf’s. [ 329 ]
Esses anúncios pararam de ser exibidos.
* * *
Além do trabalho no escritório e nas palestras, Lee também
trabalhava no livro Origins of Marvel Comics [As origens da
Marvel Comics], para a Simon Schuster. Embora em grande
parte fosse composto de reimpressões das histórias de origem e
aventuras do Homem-Aranha, do Quarteto Fantástico, do Hulk e
de outros heróis, o livro também continha as versões oficiais de
Lee — e, portanto, da Marvel — de como os personagens tinham
sido criados. Essas histórias foram escritas para serem mais
divertidas do que factuais, e, ao que parece, com a intenção de
tornar Lee a figura mais central e importante da criação dos
personagens — o que não é de surpreender, já que os outros dois
colaboradores mais relevantes tinham abandonado a empresa e o
deixado sozinho.
No livro, assim como em muitos dos textos que vieram depois,
Lee dedicou elogios decididamente efusivos para Kirby e Ditko,
mas a narrativa deixava claro que Stan Lee era a principal força
criativa por trás da Marvel e de seus personagens. É de se
imaginar que, além de querer consagrar a lenda de Lee, a Marvel
preferiria que a história oficial fosse de um contratado da
empresa, em vez de alguém que estivesse trabalhando para outras
editoras e que poderia até acabar abrindo um processo por
propriedade intelectual.
* * *
Quaisquer que fossem, as obrigações contratuais que impediam
Martin Goodman de abrir competição contra a Marvel e a
Magazine Management devem ter expirado em meados de 1974.
Naquele verão, Martin e Chip deram início a um novo
empreendimento editorial, localizado literalmente na esquina da
Madison Avenue, onde ficavam os escritórios da Marvel. A
empresa publicava uma varie dade de revistas, além de quadrinhos
coloridos e em preto e branco, e a linha de quadrinhos competia
diretamente com a Marvel, a DC e todas as outras editoras.
Apropriando-se do nome da distribuidora que criara nos anos
1950, Martin deu à empresa o nome de Atlas Comics — também
conhecida como Atlas/Seaboard.
No entanto, aquele meio do ano de 1974 não se configurava um
bom momento para abrir uma editora de quadrinhos. Era como se
Martin Goodman, o empresário astuto, que vendera sua empresa
na hora mais do que certeira, tivesse começado a dar alguns
tropeços, como se tivesse perdido seu tino para os negócios ou
estivesse apenas cego de raiva.
No meio de uma crise de circulação de quadrinhos e de um
momento questionável na economia nacional, o homem que
entrara de cabeça e vencera guerras de circulação e distribuição
que vinham desde os anos 1930, o empresário responsável pela
criação do espírito da indústria dos quadrinhos junto com Stan
Lee (e, antes disso, da Funnies Inc. e de Simon e Kirby), que
parecia sempre saber o que e quando fazer, que soubera o
momento certo de vender a Marvel…
Foi nessa hora que o antigo Martin Goodman decidiu tirar uma
soneca.
O Martin Goodman que decidira abrir uma editora de
quadrinhos agora, na verdade, parecia muito mais o sujeito que
tomara aquela decisão incrivelmente errada em 1957, quando
resolvera parar com a própria distribuição e assinara um contrato
com a American News, já prestes a falir. Uma decisão que quase o
levara a encerrar a própria empresa.
O Martin Goodman que abria aquela editora de quadrinhos para
gerir junto com Chip parecia descuidado, movido apenas pelo
ódio, querendo vingança por algo do qual ele mesmo falhara em
prever e tomar medidas para se proteger.
A nova Atlas oferecia um pagamento significativamente mais
alto para os escritores e artistas, além de vantagens como
participação nas vendas e a devolução da arte original a seus
criadores. Uma estratégia que de fato atraiu muitos profissionais
proeminentes para a empresa, mas que não tinha como aumentar
o público dos quadrinhos.
Vários fatores, nenhum deles relacionado à qualidade do
conteúdo (muitos fãs se lembram com carinho da produção da
Atlas), pareciam quase garantir que a Atlas Comics não fosse bem-sucedida. A questão não era se a nova editora dos Goodman
fracassaria ou não. A questão era se, quando isso acontecesse,
levaria o resto da indústria ladeira abaixo.