A Espetacular Vida de Stan Lee
19. California Dreamin’
Amar Stan não é o mesmo que
dar carta branca para ele.
— Don Kopaloff, agente de filmes da Marvel
em meados da década de 1980 [ 378 ]
E m novembro de 1987, um romance sensual chamado The Pleasure Palace [O palácio do prazer], publicado pela Dell, apareceu nas livrarias dos Estados Unidos. Parecia um dos livros de autores best-sellers como Harold Robbins ou Judith Krantz, a amiga dos Lee e esposa do produtor Steve. Mas esse romance, que teve vendas razoavelmente boas, foi escrito por uma autora de primeira
viagem:
Joan Lee.
Segundo o marido, Joan escreveu o livro mais ou menos sem
esforço e pediu que ele o levasse ao agente, Jonathan Dolger. O
agente conseguiu vender o material, que foi publicado, tornando
Joan a primeira (e única) da família Lee a publicar um romance em prosa. A capa da edição promocional, publicada apenas em
brochura, dizia (e, por algum motivo, cada palavra começava com
uma letra maiúscula): “Opulento, Sensual, Traiçoeiro e Sedutor:
Bem-Vindo a Bordo do Transatlântico Mais Luxuoso do Mundo.”
O livro era dedicado, em parte:
A minha filha, Joan, que me deu o primeiro empurrão, e a meu
marido, Stan, que me apoiou por todo o caminho.
Uma das personagens principais tinha o mesmo nome da
falecida filha de Stan e Joan: Jan.
Joan escreveu mais dois romances, mas decidiu não publicá-los,
alegando que “foi porque eu não tinha aquela fome. (…) Com
Stan, eu nunca tinha aquela fome”. [ 379 ]
Pelo menos alguém da família publicara um livro.
* * *
Quanto ao próprio Stan Lee, parecia que sua vida e sua carreira
tinham encontrado um ritmo estável, nada desinteressante — e
nem um pouco livre de conflitos, como veremos —, que parecia
poder durar o resto de sua vida. Com Mike Hobson e Tom
DeFalco mantendo a parte de publicações da Marvel funcionando
sem problemas — e quase completamente livre do drama dos anos
de gerenciamento de Shooter —, Lee se deu a liberdade de
participar apenas o quanto quisesse da criação dos quadrinhos.
Ele continuava promovendo e dando consultoria nos projetos de
mídia da Marvel, viajando regularmente para convenções e outros
eventos para divulgar a editora, e, em geral, atuava como
embaixador da boa vontade da empresa.
A New World Entertainment parecia satisfeita com esse arranjo,
mesmo que não levassem Lee tão a sério. “Stan não fica sabendo
das decisões envolvendo as jogadas porque não é jogador”,
explicou um executivo da New World. “Ele não era um parceiro,
não tinha voto no conselho. Mas era como um pitbull.
Simplesmente não queria largar o osso.” [ 380 ]
Será que Lee teria novas criações capazes de alterar o status quo,
como aquelas das quais fizera parte nos anos 1960 e 1970? Talvez,
mas talvez não. De qualquer forma, Stan estivera à frente de
muitas criações, mais do que a maioria das pessoas, mesmo as
mais motivadas e talentosas. Em 1987, estava com 64 anos e não
parecia nem pensar em se aposentar. Era bem remunerado pelo
que fazia e desfrutava de um estilo de vida agradável, com colegas
interessantes e bons amigos, e ainda havia a possibilidade de que
seu próximo trabalho fosse o sucesso que mais uma vez mudaria o
mundo! As coisas poderiam ser bem piores, e com certeza
piorariam. Mas ainda não.
* * *
Em 1988, Lee e Moebius, pseudônimo de Jean Giraud, um ícone
francês dos quadrinhos, lançaram uma história do Surfista
Prateado em duas partes, chamada “Parábola”. O quadrinho
ganhou o prêmio Eisner de Melhor Série Limitada. Feito no estilo
Marvel, desenhado a partir de um roteiro de seis páginas de Lee,
era de fato uma parábola, aberta à interpretação dos leitores.
Na história, vagamente ligada à continuidade do Universo
Marvel, Galactus volta à Terra e, embora cumpra a promessa de
não consumir o planeta, se declara uma divindade e começa a
causar estragos com a proclamação de que anulava todas as regras e leis, e que os humanos poderiam agir pensando apenas em si
mesmos, sem restrições. Como o vilão planejara, o planeta entra
em caos. Como tinha jurado que não consumiria a Terra, Galactus
fez aquilo por pura malícia, querendo tornar a vida no planeta
miserável.
(Era uma inovação interessante para Lee, cujos vilões
geralmente tinham um objetivo específico em mente, como
dinheiro, poder, amor ou a garantia da própria sobrevivência. A
ideia de que Galactus poderia agir apenas por malícia era uma
abordagem muito mais niilista do que ele escrevera para a maioria
de seus vilões.)
O Surfista entra na história para revelar que Galactus é muito
menos que um deus, frustrando os planos de seu antigo mestre. A
resposta dos humanos é simplesmente declarar o próprio Surfista
um deus que devem adorar. Parece que Lee deixou transparecer
na história muitos de seus sentimentos conflitantes em relação à
religião. Ao incluir o personagem de um televangelista corrupto —
ou talvez iludido — que tenta explorar os dogmas niilistas de
Galactus, Lee parece querer condenar a religião como, na melhor
das hipóteses, pura tolice. Louvado como uma divindade, o
Surfista lamenta:
É loucura. Eles têm sede de liderança como uma criança tem sede
de leite materno. Com certeza é por isso que muitas vezes são
vítimas de tiranos e déspotas.
Por que não conseguem perceber que a fé mais verdadeira é a fé
em si mesmo? O que os deixou tão desesperados para que outros
lhes mostrassem o caminho?
Rejeitando o papel que os humanos lhe atribuíam, o Surfista
sobe aos céus — apesar de ainda preso à atmosfera da Terra, por
um decreto muito antigo de Galactus — e, como a divindade do
poema de Lee, “God Woke”, lamenta a falta de visão da
humanidade, abrindo mão da perspectiva de se tornar um suposto
deus para dar à humanidade a chance de resolver seus próprios
problemas, livre de lealdade servil a qualquer divindade, mesmo
que seja ele. O Surfista é visto pela última vez em sua prancha,
tristonho, lamentando:
Vivi a empolgação inebriante da vitória. Vivi a dor constante da
derrota. Mas nunca deixarei de procurar um oásis de sanidade no
deserto da loucura que a humanidade chama de Terra. Porque o
pior destino de todos, em meio a incontáveis mundos e infinitas
estrelas…
É ser para sempre sozinho.
Lee não estava sozinho em Los Angeles, mas “Parábola”pode
ser interpretada como um lamento sobre o fato de que, depois de
quase uma década na cidade, ele ainda não conquistara o grande
sucesso da Marvel — ou dele próprio. Ainda estava procurando
por um “oásis de sanidade” no “deserto da loucura” que a
humanidade chama de Hollywood.
Relatos do tempo de Lee no mundo do entretenimento nos anos
1980 parecem versar sobre um homem em uma missão solitária,
incapaz de convencer qualquer um a se interessar pelos heróis da
Marvel ou por suas ideias. Deve ter sido duplamente frustrante a
Marvel pertencer a uma produtora de filmes e de TV, mas ainda
assim não ter nenhuma criação significativa com seus personagens. De fato, por mais que Lee gostasse de escrever as
histórias do Surfista e por mais que tenha apreciado a chance de
trabalhar com o lendário Moebius, é provável que teria ficado
mais feliz trabalhando também em um filme de grande orçamento
— não importava se fosse da Marvel ou não.
* * *
Em janeiro de 1989, logo após o lançamento de “Parábola”, o
grupo MacAndrews Forbes, do magnata Ronald Perelman,
comprou a Marvel da New World, que estava com problemas
financeiros. Perelman declarou que queria fazer da Marvel “a
próxima Disney”. Sem que Lee sequer pedisse, seu salário foi
triplicado. Finalmente a empresa parecia ser propriedade de
alguém que pensava como ele. [ 381 ]
Em 23 de junho, houve a estreia do primeiro filme do Batman,
com Michael Keaton no papel do Cavaleiro das Trevas. O filme
teve ainda mais impacto do que a adaptação de Super-Homem para
as telonas, em 1978 (e a sequência de 1980), e sua popularidade
aumentou a potência de vendas de histórias dos personagens da
Marvel e da DC. Além disso, catalisou a venda de mercadorias
licenciadas para ambas as empresas. O mercado de artigos
relacionados aos quadrinhos explodiu! [ 382 ]
Uma das poucas propriedades da Marvel que tinha conseguido
navegar com sucesso pelo labirinto de Hollywood, o Incrível
Hulk, foi o foco do filme para a televisão de 1989 da NBC, O
julgamento do Incrível Hulk. No filme, Lee fez a primeira de suas
participações especiais em filmes da Marvel, um jurado sem falas
na cena de tribunal imaginário. Em 1990, ele também apareceu em um pequeno papel de editor de quadrinhos em A ambulância,
filme dirigido por seu amigo e diretor de filmes cults Larry Cohen.
Naquele mesmo ano, o Comics Journal publicou uma infame
entrevista com Jack Kirby. Nela, o artista basicamente afirmou
que tinha criado sozinho os personagens da Marvel e que Lee era
pouco mais que um estagiário glorificado, levando recados para
Martin Goodman. Até os mais fiéis apoiadores de Kirby acharam
que a entrevista foi exagerada; o artista insultara Lee de uma
forma nunca vista pelo público.
* * *
Mas, enquanto as paixões dos mais fanáticos estavam inflamadas
pelo que se via na batalha de palavras (e às vezes de advogados)
ocorrida nos bastidores, entre Kirby e a Marvel, o público geral
dos quadrinhos parecia não se perturbar nem um pouco com as
disputas internas, quaisquer que fossem suas opiniões ou o nível
de preocupação em definir quem tinha feito o que trinta anos
antes. Os quadrinhos da Marvel começavam a alçar níveis
históricos de circulação. Alimentadas pelos trabalhos de artistas
jovens e populares, como Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefeld,
e pela especulação de que as histórias em quadrinhos poderiam
virar valiosos artigos de colecionador, as vendas da Marvel
aumentavam em porcentagens de dois dígitos a cada ano. Tendo
passado a receber uma pequena porcentagem dos lucros dos
títulos em que trabalhavam, os editores também conseguiam uma
renda extra significativa com base nas vendas de seus títulos. [ 383
] E havia contratos para prendê-los à empresa, uma insistência de
DeFalco de que editores talentosos eram tão valiosos para a
empresa quanto os criadores dos personagens.
No verão de 1991, a organização de Perelman tornou pública a
aquisição da Marvel, e as ações dispararam. O anúncio de que o
diretor mais badalado de Hollywood, James Cameron, famoso
pelo Exterminador do futuro, assinara um contrato para dirigir um
filme do Homem-Aranha — estrelando o igualmente badalado
Arnold Schwarzenegger como um dos vilões — só alimentou a
fogueira. Finalmente o público reconhecia o valor da Marvel e dos
personagens que Lee já tentava emplacar como sucesso havia
tanto tempo. [ 384 ]
Também em 1991, depois de uma disputa editorial com DeFalco
(e o autor que vos escreve, que na época era diretor editorial dos
quadrinhos do Homem-Aranha), McFarlane deixou a Marvel, o
que acabou gerando um êxodo dos criadores com mais sucesso de
vendas da empresa. Essas pessoas logo abririam a própria empresa
— a Image Comics —, investindo o dinheiro que tinham
acumulado com suas participações nos lucros das vendas na casa
dos milhões das revistas em que trabalhavam. O fenômeno abalou
a Marvel e toda a indústria dos quadrinhos.
Naquele ano, Lee tinha aberto uma produtora de filmes à parte
do seu trabalho na Marvel, em parceria com Peter Bierstedt,
agente de cartunistas e ex-executivo da New World. [ 385 ] Seu
primeiro projeto, The Comic Book Greats [Os gigantes dos
quadrinhos], foi uma série de entrevistas em vídeo que Lee fez
com figurões do passado e do presente da indústria; o produto foi
vendido diretamente ao público, sem passar pela TV ou pelo
cinema. Entre os entrevistados estavam amigos de Lee como Will
Eisner, que parecia ter um bom relacionamento com Stan; Bob
Kane, cocriador do Batman; e Harvey Kurtzman, com a saúde
deteriorada, que apareceu junto com o lendário Jack Davis, com quem escrevia a Mad. Embora tivesse saído da Marvel, McFarlane
apareceu em um dos episódios junto com Liefeld. John Romita Sr.
e o filho, John Romita Jr., também apareceram em um episódio.
As entrevistas eram bem reveladoras e perspicazes, e, em cada
episódio, os artistas tiravam um tempo para desenhar enquanto
Lee mantinha uma conversa bem informativa, muitas vezes
zombando da própria reputação e brincando que, como
entrevistador, deveria ter direito à parte da propriedade
intelectual dos personagens que estavam sendo desenhados.
Embora não fosse um excelente moderador de debates e
entrevistador, Lee certamente estava bem melhor diante das
câmeras do que na produção de How To Draw Characters The
Marvel Way, com John Buscema. Ele expôs suas habilidades como
editor, diretor de arte e escritor enquanto fazia perguntas
perspicazes, com base no conhecimento acumulado depois de
anos de experiência.
* * *
O ano de 1992 trouxe aos quadrinhos da DC um fenômeno: a
“Morte do Super-Homem”, sucesso que foi absorvido pela grande
mídia e fez os quadrinhos atingirem números de vendas
espetaculares. Os leitores menos assíduos compraram vários
exemplares da edição que apresentava a morte do Homem de Aço
(que depois se mostrou temporária), convencidos de que o herói
de fato estaria morto para sempre, e — ignorando a lei da oferta e
da demanda — acreditando que, se mantivessem os exemplares
guardados por alguns anos, conseguiriam revender as revistas
com tanto lucro que poderiam pagar a faculdade dos filhos.
Nesse período, o fenômeno também aconteceu na indústria dos
quadrinhos como um todo, com outras edições que traziam histórias “especiais”. A percepção errada do público sobre o valor
a longo prazo de certas revistas com “eventos especiais” foi
decisiva no planejamento das publicações dos próximos anos,
causando um rombo do qual o mercado dos quadrinhos nunca se
recuperou completamente. Editoras e varejistas desapareceram;
muitas pessoas perderam seu ganha-pão.
Lee, sem querer, teve uma participação nesse ciclo de
investimentos. O ano de 1992 marcou o aniversário de trinta anos
da estreia do Homem-Aranha na Amazing Fantasy n.º 15, de 1962.
A revista Amazing Spider-Man n.º 365 (editada pelo autor deste
livro), foi lançada em agosto, mês em que a Amazing Fantasy n.º
15 fora colocada à venda, três décadas antes. A história principal
envolvia o suposto retorno dos pais mortos de Peter Parker. A
edição também continha várias histórias extras, incluindo “I
Remember Gwen”[Eu me lembro de Gwen], com traços de Tom
DeFalco, roteiro de Lee e arte de Romita Sr. Essa união de Lee e
Romita em uma história do Homem-Aranha era um grande
atrativo da edição. Foi decidido que, como edição especial de
aniversário, os quadrinhos teriam um holograma na capa, com
uma imagem em 3D do Homem-Aranha, desenvolvida a partir de
um desenho de Romita. O plano era criar um item especial e
comemorativo. Acompanhando a ideia, “I Remember Gwen” era
uma história tocante, nostálgica e muito bem elaborada que
tornou a edição ainda mais especial, o que caía bem em um
aniversário tão importante.
Mas, considerando a moda de comprar quadrinhos para guardar
até que se tornassem artigo de colecionador, foi tomada a
estratégia de marketing de fazer com que os quatro principais
títulos de Homem-Aranha daquele mês tivessem capas com holograma. O sucesso de vendas dessas edições com capas
especiais foi prova o suficiente para alguns executivos de
marketing e de vendas de que as revistas da Marvel dos próximos
anos só precisariam de uma leve desculpa para adicionar um
toque extra e, com isso, aumentar significativamente o preço da
edição em questão. A tática se tornou onipresente na indústria.
Essa abordagem acabou sendo um dos fatores que geraram várias
crises no mercado dos quadrinhos — crises que afetaram Lee
diretamente.
* * *
Outra morte significativa — esta no mundo real — ocorreu em
1992. Em 6 de junho, Martin Goodman faleceu aos 84 anos, na
Flórida, onde passara a morar. Fazia vinte anos que deixara a
Marvel. Em 2006, Lee disse, sobre o antigo chefe: “Acho que
Martin teria sido um dos maiores editores de todos os tempos se
fosse um pouco mais ambicioso. (…) Mas ele não queria ser
Bennett Cerf. Ou Hugh Hefner.” [ 386 ]
* * *
No início daquele ano, o desenho animado X-Men começava a ser
desenvolvido para a Fox Kids, durante a administração da New
World, previsto para estrear no outono. O programa tinha sido
encomendado por Margaret Loesch, presidente da Fox Kids e
amiga e apoiadora de longa data de Lee. A emissora também
abrigava o muito admirado desenho Batman: A série animada.
Eric Lewald, showrunner do desenho, descreveu, em seu livro
Previously on X-Men: The Making of an Animated Series
[Anteriormente, em X-Men: A criação de uma série animada],
publicado em 2017, que sua intenção foi criar uma série que igualasse ou superasse a qualidade e a sofisticação do desenho
animado Batman. [ 387 ] E, em teoria, Lee queria o mesmo. Em seu
livro, Excelsior!, Lee descreveu uma reunião em 1981, logo no
início de sua temporada em Hollywood, com uma executiva para
quem tentava vender ideias de animação. A mulher perguntou o
que ele achava dos desenhos da televisão. Lee alega ter
respondido que achava, no geral, os diálogos pouco naturais e
muito “caricatos”. A mulher respondeu: “Não queremos uma série
só de conversas entre os personagens.”
Lee respondeu que também não queria isso, só que esperava
que “os diálogos, não importava quais, fossem bem escritos”.
A resposta da executiva foi reiterar que “não queria blá-blá-blá”.
Ficaram discutindo isso por mais um tempo, até que Lee percebeu
que a executiva tinha uma ideia muito intransigente sobre o que
definia um bom desenho animado e que ou não estava
interessada, ou não tinha a capacidade de entender o que ele
estava tentando dizer. Seus apelos por uma abordagem mais
sofisticada aos desenhos foram ignorados. [ 388 ]
No entanto, 11 anos depois, quando Lee se tornou produtor
executivo do desenho animado X-Men, alguns de seus
subordinados o viam como obstáculo para animações melhores.
De acordo com Lewald:
Eu não tinha noção da teimosia de Stan. Desde o início, ele quis
mudar completamente o tom e a narrativa do desenho. (…) Stan,
que não escrevia os quadrinhos dos X-Men desde 1964, queria
muito dirigir o programa. [ 389 ]
Lee queria ele próprio apresentar e narrar cada episódio, como
fizera em Homem-Aranha e seus incríveis amigos. Lewald, por sua
vez, achava que a série atual precisava de uma abordagem
diferente. Ele passou a ignorar as copiosas anotações de Lee nos
storyboards, o que gerou um acesso de raiva.
Depois de um tempo, a paz entre os dois foi mediada por Will
Meugniot, amigo de Lee e artista da série animada. Lewald
descreveu a atmosfera depois do acordo de paz como “um festival
de amor”. E relatou que, finalmente, “depois de uma estreia bem-
sucedida, nunca mais ouvi uma palavra de Stan [sobre quaisquer
problemas que ele pudesse ter com a animação]”. Chegou até a
dizer que “Stan e eu trabalhamos juntos e felizes em alguns outros
projetos depois da série X-Men, e sempre apreciei seus instintos
de contador de histórias, todos muito bem-vindos em reuniões
que podem ser carregadas de papo comercial e de marketing”. [
390 ]
Lee, por sua vez, deu a seguinte versão a Tom DeFalco, para o
livro Comics Creators on X-Men [Criadores dos quadrinhos falam
sobre os X-Men]:
Lembro-me de conversar com Eric Lewald, o editor da história.
Discutimos o primeiro roteiro que ele tinha escrito. Eu não tinha
gostado de algumas coisas. Acabamos brigando, até que,
finalmente, chegamos a uma solução. Mais tarde, Eric e eu nos
tornamos bons amigos, até trabalhamos juntos em outros projetos,
anos depois. [ 391 ]
No mesmo ano, a Fox Kids desenvolveu um desenho animado
do Homem-Aranha (que seria lançado em 1994), contando com John Semper Jr. como produtor, roteirista principal e editor. Lee
se viu outra vez envolvido em um impasse com pessoas que, cada
uma à sua maneira, queriam fazer justiça ao personagem. Lewald
relatou em seu livro o que observara ao trabalhar em um crossover
entre os desenhos dos X-Men e do Homem-Aranha:
Se houve uma luta para que o pessoal da série animada dos X-Men
pudesse se concentrar e avançar na direção certa, o que aconteceu
na série do Homem-Aranha foi uma verdadeira guerra mundial.
(…) [John] Semper tinha estabelecido um método para lidar com as
partes em conflito — Avi Arad e Stan Lee, da Marvel, Bob
Richardson, o diretor, e Sidney Iwanter, da Fox — que tentavam
dirigir o programa. Ele colocava todos em um escritório e lia uma
linha do roteiro, com diálogo ou ação. A linha teria que ser aceita
por todos ou modificada até que todos a aceitassem. [ 392 ]
No entanto, como Semper lembrou, o filme do Homem-Aranha
de Cameron estava se tornando uma possibilidade real, tirando o
interesse de Lee pela série animada:
Stan estava muito mais envolvido com a produção de Eric. Quando
chegou a hora da minha série animada, já estavam planejando um
filme de Jim Cameron, e havia coisas maiores em andamento. E
Stan [com quem eu já tinha trabalhado em projetos bem-sucedidos]
confiava muito em mim. (…)
Acho que parte da razão para Stan me indicar [para a série
animada do Homem-Aranha] foi porque sabia [depois de nosso
trabalho juntos na Marvel Productions] que eu me sairia bem,
sabia que eu entendia o personagem. (…) Acho que Stan se
envolveu mais porque Avi requisitava sua atenção do que por ele de
fato querer se envolver, já que estava recebendo um pouco mais de
atenção do mundo do cinema, com toda a questão de Cameron, e
(…) acho que essa parte de animação não era mais tão importante
para ele como teria sido dez anos antes. (…) Ele chegou a me dizer
certo dia: “Olha, realmente não quero me envolver na animação.
Por isso contratei você. Contratei alguém que acredito que possa
fazer a coisa funcionar.” (…)
Lee esteve muito envolvido na primeira temporada [do desenho
animado do Homem-Aranha]. Envolvia-se bastante na parte do
roteiro, e deixou marcas por toda a primeira temporada. Mas,
quando ela terminou, ele também se afastou; não queria mais se
envolver.
Avi queria que Stan participasse, porque havia aquela certeza
geral de que Stan é o cara. (…) De que Stan é que ia deixar a
história boa. (…) Por isso, tínhamos essas leituras dos roteiros.
Stan tinha que estar lá. Um dia ainda escrevo uma peça que será
apenas com uma das nossas reuniões de leituras do roteiro. (…)
Eram as reuniões mais incríveis que já se viu! [ 393 ]
E então, como se já não tivesse acontecido coisa o bastante em
1992, Lee teve uma participação significativa na área dos
quadrinhos, além de “I Remember Gwen”.
Pelo menos desde o roteiro de The Monster Maker, que
escrevera para Resnais, Lee tinha muito interesse em questões
relacionadas à poluição. Em 1992, concluiu que aquela era uma
questão tão premente que faria uma história em quadrinhos (e
talvez até uma linha inteira) sobre um futuro distópico de uma
Terra dominada pela poluição, onde os coletores de lixo eram
cruciais para a sobrevivência da sociedade. Lee queria uma ambientação mais sombria, ao estilo do Juiz Dredd. O projeto
levou o nome de Ravage. Jim Salicrup, editor da Marvel na época,
concordou em ajudar Lee a encontrar o artista certo para o
quadrinho. Tom DeFalco, então editor-chefe, comprometido
(como Shooter, antes dele) em manter os artistas de longa data
ocupados, sugeriu Steve Ditko.
Surpreendentemente, Ditko aceitou participar de uma reunião
para discutir o projeto durante uma das visitas de Lee aos
escritórios da Marvel em Nova York. Salicrup relatou:
Eu tinha trabalhado com Steve (…) então liguei para ele. Marcamos
uma reunião [eu, ele, Tom e Stan]. Nós nos encontramos no
escritório do então presidente da Marvel, Terry Stewart, e foi muito
divertido.
Os dois homens claramente ainda tinham muito respeito um pelo
outro, e acho que, se eu não estivesse planejando deixar a Marvel
em breve, teria conseguido fazer com que voltassem a trabalhar
juntos. Steve explicou a Stan por que não queria fazer Ravage,
dizendo que não queria desenhar uma versão negativa do futuro;
queria algo com uma visão mais positiva, como a série de TV Star
Trek.
Stan então fez a proposta de os dois trabalharem juntos em uma
graphic novel do Homem-Aranha (…) e o pedido também foi
recusado, com Steve dizendo que nunca mais conseguiria se
importar tanto com o personagem quanto na época em que o criou.
Stan ficou bastante desapontado, e acho que Steve estaria disposto
a trabalhar em algum outro projeto com ele, mas infelizmente não
aconteceu. [ 394 ]
DeFalco lembrou que, na reunião, Lee e Ditko
estavam muito felizes em se encontrar. Quando se viram, seus
rostos se iluminaram (…) e Stan abraçou Steve, que retribuiu o
abraço. Stan explicou o conceito da história, e Steve pensou um
pouco, até decidir que a ideia não era muito de seu interesse, não
parecia nada muito “heroico”. Os dois apertaram as mãos e
disseram: “Talvez a gente possa trabalhar juntos de novo no
futuro”, ambos deixando essa porta bem aberta.
Então Steve foi embora, e vivi um daqueles momentos surreais.
Enquanto eu andava pelo corredor com Stan, ele me perguntou:
“Sabe, Tommy, sempre tive curiosidade de saber… Você sabe por
que Steve se demitiu?”
E respondi: “Stan, acho que eu ainda estava no ensino médio
quando isso aconteceu. Realmente não tenho ideia.” [ 395 ]
Mark Evanier, que estava visitando os escritórios da Marvel
naquele dia, lembrou-se de ter ouvido falar da reunião logo após o
ocorrido:
Ditko chegou dizendo que estava disposto a considerar trabalhar
outra vez com Stan. (…) Stan resumiu a ideia (…) mas Ditko achou
que era uma visão muito feia da humanidade, e não parava de
sugerir: “Vamos mudar isso. Vamos mudar aquilo.” E parece que,
depois de um tempo, Stan disse: “Não, não. Eu sou o escritor. É
assim que eu quero fazer. Se não quiser desenhar, tudo bem, mas
não comece a falar como se eu fosse um novato.” E fim. [ 396 ]
(Preciso abandonar minha voz autoral para dizer que
testemunhei o que eu viria a descobrir ter sido a segunda parte da
reunião, após uma pausa para o almoço, quando Ditko entrou nos
escritórios da Marvel e foi até a sala de Salicrup, onde Lee estava
sentado de frente para a porta. Apesar de os dois já terem passado
a manhã juntos, quando Lee viu Ditko, abriu um sorriso enorme,
como se estivesse encontrando um velho amigo que não via havia
muito tempo.)
A série Ravage, que estreou no final de 1992, acabou sendo
chamada de Ravage 2099 e foi incorporada ao Universo 2099 da
Marvel, ambientada no futuro. As outras séries da linha traziam
histórias de versões futuras do Homem-Aranha, dos X-Men e
assim por diante. Desenhada por Paul Ryan e Danny Bulanadi,
Ravage 2099 durou quase dois anos, embora Lee tenha escrito
apenas as oito primeiras edições.
Apesar do que pareceu ter sido uma reconciliação cordial, Lee e
Ditko nunca voltaram a trabalhar juntos, e seu relacionamento,
conduzido pela mídia, tornou-se dolorosamente litigioso.
* * *
Lee continuou com as inúmeras funções de executivo da Marvel,
além de trabalhar em projetos freelancers. Graças às vendas dos
quadrinhos da Marvel e ao interesse que Cameron fez despertar
pela empresa, assim como o interesse derivado dos desenhos
animados bem-sucedidos, parecia que as coisas poderiam ficar
estáveis por um tempo.
Mas essa estabilidade acabou tendo vida curta. A Marvel estava
prestes a se tornar vítima de seu próprio sucesso, e Stan Lee seria
atacado justamente pelo tipo de maquinação do mundo dos
negócios da qual tanto tentara se isolar.