A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 17 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

16. O caos e o rei

É como a Alemanha nazista e os Aliados na

Segunda Guerra Mundial.

— Carta de Stan Lee aos funcionários

freelancers da Marvel, 1974

 

L ogo no começo da era das editoras de quadrinhos, foi estabelecido que as empresas teriam todo o direito de propriedade intelectual sobre as histórias e as obras de arte produzidas por suas equipes de criação — incluindo a propriedade das artes originais. Alguns criadores conseguiam manter certo grau de participação de suas obras, sendo os mais famosos Bob Kane, com Batman, e William

Moulton Marston, com a Mulher-Maravilha. Mas, como os

contratos eram mantidos em sigilo, nunca ficou claro quais eram

exatamente esses acordos e se de fato eram exceções, não a regra.

Jerry Siegel e Joe Shuster, conhecidos por terem vendido todos

os direitos sobre sua criação, o Super-Homem, por 130 dólares, a

princípio foram bem pagos para produzir mais histórias com o personagem, mas, em pouco tempo, passaram a ser excluídos de

qualquer parte da receita maciça de sua criação. Essa história se

transformou em uma espécie de advertência aos criadores de

quadrinhos:

Não deixe que o que aconteceu com Jerry e Joe aconteça com você!

No entanto, quase todos os escritores de quadrinhos e artistas

da época de Jerry e Joe continuaram vendendo os direitos autorais

de seus personagens e de suas histórias para os editores, sem

muita tentativa de negociação. Os criadores eram jovens da era da

Depressão; para eles, o que importava era receber dinheiro na

hora. Pensar em um possível pagamento mais robusto para

versões de seus trabalhos em outras mídias era quase um delírio,

em comparação com o dinheiro que poderiam receber naquele

instante pelo trabalho apressado da noite anterior. Mas, como Stan

Lee lembrara, no evento da Sociedade Nacional de Cartunistas,

em 1971, essas convenções de a editora deter a propriedade

intelectual, sem participação dos criadores, eram no mínimo

problemáticas — um termo mais apropriado talvez fosse

“onerosas”.

Na década de 1970, entraram no mercado alguns escritores e

artistas mais jovens, os baby boomers. Embora também

concordassem com as condições de propriedade intelectual, já

que queriam os trabalhos, eram um pouco mais cautelosos, e

muitos procuravam maneiras de contorná-las. Esses artistas já

tinham visto o destino de seus antecessores no negócio: quando

não era a morte precoce, era uma vida de disputas por mais

trabalhos, sujeita aos caprichos e exigências editoriais. Esses

artistas viam o exemplo do movimento underground comix, em

que os criadores detinham a propriedade intelectual do material, como um modelo para uma abordagem alternativa. É verdade que

não havia uma taxa de páginas tão boa quanto a oferecida pelas

editoras mais famosas da cultura pop, o que era muito útil para

alguém que precisava comer e pagar aluguel, mas a vantagem

potencial de deter os direitos autorais era muito maior. Os

cartunistas das publicações alternativas detinham os direitos

autorais de suas criações e obras de arte e ganhavam dinheiro com

a reimpressão e a fabricação de itens licenciados com base em

suas criações. Não havia outro dono do Mr. Natural a não ser seu

criador, Robert Crumb. Já o Senhor Milagre, inegavelmente

criação de Jack Kirby, era propriedade da DC Comics, mesmo

enquanto a empresa fazia questão de divulgar a presença de Kirby

em seu editorial.

Um dos editores que causavam mais receio aos quadrinistas da

geração boomer era, é claro, Martin Goodman, que, embora capaz

de certa generosidade quando era dono da Marvel — emprestando

dinheiro aos artistas que tinham alguma emergência médica,

mesmo sabendo que não havia chance de receber o pagamento de

volta; concedendo grandes bônus de férias; e permitindo que os

funcionários fixos também aceitassem trabalhos freelancers para

a editora —, também protegera com unhas e dentes sua

propriedade sobre os personagens da Marvel, antes de vender a

empresa. Nem mesmo seu primo, Stan Lee, cocriador de muitos

desses personagens, detinha direitos autorais ou contava com

participação nos lucros.

Portanto, era um tanto irônico que esse mesmo Goodman

passasse, com a nova Atlas, a oferecer várias vantagens aos

artistas que queria roubar da Marvel e da DC — incluindo a

participação nos lucros em produtos licenciados de qualquer personagem que criassem. Goodman estava se posicionando

como amigo dos freelancers. E era mesmo, pelo menos enquanto

o dinheiro continuava caindo na conta.

* * *

Stan Lee já se correspondia com o escritor, artista e editor

alternativo Denis Kitchen desde 1969. Lee tinha tentado

convencê-lo a editar quadrinhos com estilo alternativo para a

Marvel, mas só em 1974 — afetado pela economia fraca e pela

necessidade de dinheiro, além de uma decisão da Suprema Corte

que comprometia a distribuição de editoras alternativas —

Kitchen topou uma cocriação com a Marvel: o livro Comix Book.

Na verdade uma antologia em formato de revista — portanto,

não estava sujeito ao Código dos Quadrinhos —, o Comix Book foi

lançado no final de 1974 e teve apenas três edições publicadas

pela Marvel, sendo que o próprio Kitchen publicou as edições n.º

4 e 5. Lee teve sentimentos conflitantes quanto ao conteúdo, que

não era tão extremo quanto os quadrinhos alternativos mais

avançados — mas, ainda assim, era mais ousado do que as revistas

aprovadas pelo Código. No entanto, estava ansioso por aproveitar

um pouco da moda alternativa e assumir os créditos de

“provocador”. (“Podem dizer que sou um ‘provocador’. Assim, se

a publicação tiver problemas, posso dizer: ‘Não sou responsável,

tudo o que fiz foi provocar.’ Mas, se for um sucesso, posso dizer:

‘Opa, eu que provoquei isso aí!’”) Embora não tenha conseguido

trazer o maior ícone dos quadrinhos alternativos — Robert Crumb

— para a editora, Kitchen reuniu muitas das principais obras da

contracultura, como os quadrinhos de Art Spiegelman, Justin

Green, Trina Robbins e Kim Deitch, todos ansiando pela

exposição que conseguiriam com uma publicação da Marvel, além do pagamento de cem dólares por página — 300% a mais do que a

taxa padrão de editoras alternativas. Além disso, Kitchen

negociara um acordo um pouco incomum no mercado: os artistas

receberiam a arte original de volta — e poderiam, mais tarde,

vendê-la, já que estava surgindo um mercado interessado na arte

original dos quadrinhos — e reteriam a propriedade intelectual do

material publicado.

Lee cancelou o experimento depois de três edições. As vendas

não eram muito expressivas, mas outro motivo muito relevante

para o corte, segundo Kitchen, foi o sentimento que a mera

existência do Comix Book fez se espalhar entre os artistas

regulares da Marvel, que não detinham nenhum direito autoral

nem recebiam o original do material que publicavam. Ainda

assim, estava plantada a ideia de que a Marvel — e, por extensão,

as outras editoras — poderia, se quisesse, fazer acordos fora dos

contratos de trabalho habituais. [ 330 ]

Então, quando os Goodman abriram a nova Atlas/Seaboard, em

1974, já pairava no ar a possibilidade de, além de receber mais

dinheiro, reter a propriedade ou ter participação nas receitas do

material produzido. Goodman se aproveitou disso. Inúmeros

criadores de destaque, como Howard Chaykin, Archie Goodwin,

Neal Adams e até Steve Ditko, decidiram dar uma chance à nova

editora.

Martin e Chip dirigiam a Atlas como executivos, mas

contrataram um ex-editor da Warren, Jeff Rovin, e, curiosamente,

o irmão de Lee, Larry — que, é claro, também era primo dos

Goodman —, para editar os títulos, que incluíam de gibis

coloridos aprovados pelo Código a quadrinhos de terror em preto

e branco que nada tinham a ver com o Código, além de uma revista de palavras cruzadas e outras publicações. A intenção era

criar uma versão menor da Magazine Management.

A resposta de Carmine Infantino a esse ataque da Atlas foi

oferecer muitas das mesmas vantagens que os Goodman, mas

apenas aos criadores que concordassem em manter o trabalho

exclusivo para a DC.

* * *

Stan Lee, por sua vez, decidiu bater de frente com a nova editora.

Em uma carta aos artistas freelancers da Marvel, escreveu:

 

Infelizmente, o fato de sermos uma empresa grande, com finanças

sólidas e responsabilidade ética, agora age contra nós. É como a

Alemanha Nazista e os Aliados, na Segunda Guerra Mundial.

Hitler, que era um ditador e não precisava responder a ninguém,

poderia fazer como quisesse sempre que tivesse vontade; com isso,

conseguia fazer as promessas mais extravagantes ao seu público

cativo enquanto se mantinha completamente indiferente às

consequências. (…) A Marvel, como os Aliados, simplesmente não

pode reagir com ofertas e promessas impetuosas.

 

Depois de comparar a editora do primo à Alemanha Nazista,

Lee lembrou aos freelancers que a Marvel fornecia plano de saúde

e seguro de vida aos criadores que se dedicavam à editora, e que

ele estava trabalhando para aumentar as taxas de páginas e os

planos de bônus. Também observou que “anos atrás, quando eu

quis começar a devolver os originais aos artistas, foi justamente

uma dessas pessoas que agora faz ofertas tão extravagantes que se

recusou a permitir!”.

E concluiu dizendo:

A Marvel nunca mentiu para vocês. Nem nunca vai mentir. Fiquem

com a gente, vocês não vão se arrepender. [ 331 ]

 

Goodman instruíra os editores a imitarem a aparência e o estilo

da Marvel nos quadrinhos, e, de fato, havia uma semelhança

superficial. Mesmo assim, não dava para esperar que aquele

mesmo raio da sorte caísse em outro lugar. Apesar do trabalho

duro de Lieber, Rovin e suas equipes criativas, The Brute [O

Bruto] não tinha como competir com o Hulk, e Wulf, the

Barbarian [Wulf, o Bárbaro], não era páreo para Conan. Em

meados de 1975, a Atlas já havia fechado as portas. E Lee parece

ter perdoado toda essa competição — pelo menos no que diz

respeito aos funcionários e artistas freelancers que tinham

migrado para a Atlas, incluindo o irmão, Lieber, que não demorou

a conseguir emprego como editor da Marvel.

Martin Goodman se aposentou e foi morar na Flórida. Qualquer

contato entre ele e Lee foi muito raro, se é que houve algum. Chip

Goodman, por sua vez, comprou a revista masculina Swank; com a

publicação e diversas outras revistas, estabeleceu uma editora de

sucesso que durou até sua morte prematura aos 55 anos, por

pneumonia, em 1996. [ 332 ] Joseph Calamari, antigo executivo da

Marvel e da Cadence, observou que Chip já estava preparando a

série de revistas antes mesmo da criação da Atlas. [ 333 ] Portanto,

é provável que a Atlas Comics tenha sido apenas parte de um

plano maior e de longo prazo dos Goodman, um insulto simbólico

para Lee e a Cadence, mas sem representar seu verdadeiro plano

de continuar a dinastia editorial.

* * *

Como se não houvesse problemas o suficiente na indústria e

especificamente com a Marvel, a natureza pequena e incestuosa

do mercado dos quadrinhos causou outro problema sério. Em

meados de 1974, quando o conflito com os Goodman estava

apenas começando, Lee descobriu que um artista freelancer

mentira sobre a taxa que recebia da DC apenas para negociar

pagamentos mais altos com a Marvel. Depois disso, Lee marcou

outro almoço com Infantino, e os dois concordaram em

compartilhar informações sobre os pagamentos dos freelancers.

Roy Thomas, que na época já trabalhava como editor havia dois

anos, estressado com o trabalho — e irritado com Lee, que tinha

quebrado (ou simplesmente esquecido) a promessa de um

emprego para sua então esposa —, ficou horrorizado ao saber

desse acordo entre os diretores da Marvel e da DC, e acusou Lee

de conluio. Thomas pediu as contas, e a Marvel ficou sem editor.

Nos três anos seguintes, quatro outras pessoas passaram pelo

cargo. [ 334 ]

* * *

As vendas de quadrinhos de super-heróis estavam diminuindo,

mas, paradoxalmente, a ideia do super-herói como ícone da

cultura pop norte-americana nunca deixara de despertar certo

interesse em Hollywood. Provas do interesse do público nesse

tipo de personagem foram os sucessos da série de TV Batman, de

1966 a 1968, o telefilme Mulher-Maravilha, de 1974, assim como a

série da heroína, de 1975, o primeiro com Cathy Lee Crosby e a

segunda com Lynda Carter no papel principal da amazona da DC.

Os super-heróis têm muito em comum com os filmes de protagonistas com qualidades exacerbadas, como James Bond e O

Homem de Seis Milhões de Dólares, que nunca saíram de moda. A

série televisiva Shazam! — novo nome do Capitão Marvel original,

escrito pela editora Fawcett Comics — era um sucesso com o

público infantil nas manhãs de sábado.

Inclusive, George Lucas, na época conhecido apenas por dirigir

o filme Loucuras de verão, estava tentando convencer a Marvel a

publicar um prelúdio de quadrinhos para sua nova série de filmes

— ainda em planejamento — do subgênero de ficção científica

conhecido como ópera espacial, com protagonistas com essas

mesmas características heroicas: Star Wars. Segundo Lucas, o

filme teria estética e temática muito semelhantes aos quadrinhos

da Marvel e da DC, sobretudo os de Jack Kirby. Era sabido no

mercado que quadrinhos de ficção científica não vendiam bem, e

Lee recusou a oferta. Ainda assim, Hollywood parecia sempre ter

algum interesse nos super-heróis.

E, na primeira metade de 1975, dois antigos colegas de trabalho

de Lee estavam empenhados na produção de documentos que

aumentariam esse interesse e causariam grande impacto na vida e

na carreira de Stan.

Para começar, Mario Puzo — em nome dos produtores

Alexander e Ilya Salkind, que já tinham testado outros escritores,

sem sucesso — estava escrevendo o protótipo de um roteiro para

um filme de ação do Super-Homem. Puzo escrevia com

regularidade para as revistas masculinas de Martin Goodman; ele

tinha tentado escrever quadrinhos para Lee, mas achou que não

valia a pena, por ser muito trabalho para pouco dinheiro. Porém,

depois de lançar o romance best-seller O Poderoso Chefão, de

1969, e mais dois filmes de grande sucesso derivados do livro, Puzo havia se tornado um grande nome da indústria, e os

produtores acreditavam que seu sucesso ajudaria muito na

realização do filme. [ 335 ]

Enquanto isso, o antigo revisor da Marvel e cocriador do Super-

Homem, Jerry Siegel, trabalhava em um longo comunicado para a

imprensa, que começava assim:

 

Eu, Jerry Siegel, cocriador do Super-Homem, amaldiçoo o filme

Super-Homem! Espero que seja um superfracasso. Espero que os

fãs leais se recusem a assistir. Espero que o mundo inteiro, ao ficar

sabendo da podridão que cerca Super-Homem, evite o filme como

a praga que é.

E por que amaldiçoaria um filme baseado no Super-Homem, uma

criação minha?

Porque eu e o cartunista Joe Shuster, cocriador do Super-Homem,

não receberemos um centavo do contrato desse superfilme (…)

Joe está parcialmente cego. Minha saúde não está boa. Nós dois

temos 61 anos. E, apesar do grande sucesso do Super-Homem,

nossas vidas foram bem difíceis.

 

Com o apoio de Neal Adams, muito popular na época, e do

antigo artista do Batman (e da Timely), Jerry Robinson — dois

nomes comerciais de peso e que não dependiam dos ganhos com

quadrinhos para levar a vida —, Siegel e Shuster lançaram uma

ofensiva contra a DC e sua empresa-mãe, a Warner

Communications, em busca de justiça — ou seja: de dinheiro, é

claro, mas também de crédito como criadores. [ 336 ]

Apesar de serem documentos distintos e independentes, as

publicações de Puzo e de Siegel sobre o Super-Homem tiveram consequências gigantescas para o futuro dos criadores de

quadrinhos e de super-heróis — e, indiretamente, para Stan Lee.

* * *

Em 1974, Jack Kirby já estava bastante insatisfeito.

As vendas do Quarto Mundo, embora razoavelmente boas, não

tinham sido tão espetaculares quanto a DC esperava. Depois de

menos de um ano de publicações, Infantino decidira cancelar

todas as séries da saga, exceto Senhor Milagre. Era o fim do plano

de Kirby de uma saga extensa, que durasse anos. Sua ideia era

lançar séries e mais séries, que depois seriam repassadas para

outros artistas, enquanto ele supervisionava os títulos e criava

novos. Em vez disso, estava relegado a fazer justamente o que o

motivara a sair da Marvel: trabalhos menores. É verdade que ele

ainda editava os próprios títulos, mas o sonho da autonomia que

imaginara ter na DC — na verdade, a marca com seu nome que ele

esperava dirigir — claramente não se tornaria realidade.

Infantino disse a Kirby para criar títulos sem relação com o

Quarto Mundo para substituir as séries cortadas e mantê-lo em

dia com as obrigações contratuais. Kirby criou OMAC; Etrigan, o

Demônio e Kamandi, quadrinhos com conceitos interessantes e

feitos com esmero — e até com aparente entusiasmo. Mas não era

o que Kirby imaginara que estaria fazendo. Se só quisesse criar

quadrinhos a pedido de outros editores, poderia ter ficado na

Marvel, onde, perto de sua saída, Stan Lee já lhe dava muita

autonomia — e crédito.

Jack Kirby não estava feliz, e o contrato com a DC expiraria em

breve. Parecia haver apenas um lugar para onde ir, mas o artista

praticamente extinguira seus contatos com essa outra editora. E,

no entanto, talvez a situação não fosse tão terminal quanto parecia. Stan Lee supostamente já dissera que: “Se Jack não tivesse

me largado falando sozinho, tenho certeza de que teríamos

chegado a algum acordo.” [ 337 ]

* * *

Nos Bullpen Bulletins de agosto de 1975, havia um aviso que

parecia praticamente colado já com a página pronta:

 

EXTRA! Trouxemos este aviso discreto para avisar que mês que

vem chega às bancas o mais novo trabalho avassalador do nosso rei

JACK KIRBY! E traremos um belo resumo do nosso mais recente

sucesso no próximo Bulletin!

 

Ao que parece, os dois conseguiram mesmo chegar a algum

acordo, ou pelo menos estavam começando a forjar um. De

acordo com Mark Evanier, Kirby se mostrara muito relutante em

voltar à Marvel e passara um tempo esperando que as coisas

melhorassem na DC. O artista talvez até tenha encorajado Lee a

anunciar seu retorno antecipadamente. Como Evanier lembrou:

“A Marvel vazou [as notícias de que Kirby concordara em voltar]

(…) e Kirby esperava que isso pressionasse a DC a oferecer um

contrato melhor. Mas, quando ficou claro que isso não

aconteceria, ele de fato voltou.” [ 338 ]

Portanto, só em dezembro que os Bulletins retomaram o assunto,

explicando o retorno de Kirby. E só neles é que o anúncio recebeu

a devida atenção, sendo o único assunto de uma longa coluna da

Soapbox:

Este mês, trazemos notícias tão impactantes que não dá para adiar

falar delas nem por mais um minuto! Jack Kirby está de volta! Isso

mesmo, você leu certo! O rei Kirby (não se esqueçam de que foi na

Marvel que ele conquistou o apelido) voltou ao seio da família do

nosso editorial!

 

Depois de listar as primeiras tarefas definidas para Kirby — uma

história única de adaptação do filme 2001: Uma odisseia no espaço

e assumir a série Capitão América —, Lee falou mais sobre esse

segundo trabalho:

Jack vai escrever e desenhar a série inteira sozinho. (…) Mas assim

que tivermos um tempinho para respirar, quando você menos

esperar… Verá uma incrível edição especial do — isso mesmo! —

SURFISTA PRATEADO!

 

A coluna então discutia a primavera anterior, quando a Marvel

realizou sua própria convenção no hotel Commodore, em

Manhattan. Lee relatou um acontecimento do dia 24 de março de

1975, o último dos três dias de evento:

 

Na ocasião, mencionei que tinha um anúncio especial. (…) Quando

comecei a falar sobre o retorno de Jack (…) todos se viraram,

olhando em volta, enquanto Kirby em pessoa avançava alegremente

pelo corredor para se juntar a nós no palco! Dá para imaginar como

é bom poder retomar os momentos de diversão com o cocriador de

quase todas as melhores séries da Marvel?

 

Naquele painel, depois de aplausos de pé, Kirby assegurou à

plateia que “independentemente do trabalho que eu assumir na

Marvel, posso garantir que será eletrizante!”. [ 339 ]

* * *

Além da incerteza de Kirby, talvez Lee tenha desistido de explicar

melhor aquele primeiro anúncio de seu retorno logo no mês

seguinte porque estava envolvido com outros projetos, como a

revista Nostalgia Illustrated [Cenas de nostalgia], da Magazine

Management, e a sequência de Origins of Marvel Comics que estava

escrevendo para a Simon Schuster. Lee pode inclusive ter se

distraído por estar ocupado com duas publicações conjuntas com

a DC de Infantino — a primeira empreitada do tipo para as

empresas rivais. Uma era uma adaptação para quadrinhos do filme

clássico de 1939, O mágico de Oz. A outra era a revista Super-

Homem contra o incrível Homem-Aranha. Eram duas revistas

grossas, com páginas maiores do que o normal dos quadrinhos, e

venderam muito bem.

Lee talvez estivesse distraído com a saída de Len Wein do cargo

de editor depois de menos de um ano no ofício, e também quando

o mesmo aconteceu com seu sucessor, Marv Wolfman. O sucessor

de Wolfman, Gerry Conway — que estava escrevendo a revista do

Super-Homem com o Homem-Aranha —, renunciou após apenas

um mês. Claramente, o cargo era trabalho demais para uma só

pessoa. Archie Goodwin, profissional já conhecido, tinha

assumido o cargo — agora com o título de “editor-chefe” —, mas

precisavam encontrar uma maneira de tornar a posição menos

assustadora.

Talvez outro grande motivo para adiar o anúncio da volta de

Kirby tenha sido um acontecimento interno da Marvel — não

apenas desafiador, mas também com um potencial “eletrizante”.

Acontece que o presidente da Marvel e da Magazine

Management, Al Landau, tinha falsificado relatórios financeiros

das empresas para fazer parecer que sua gestão era incrivelmente

lucrativa. Na verdade, sua divisão da Cadence tivera um prejuízo

de US$ 2 milhões só na primeira metade de 1975. Landau foi

demitido quando o rombo financeiro foi descoberto, e substituído

pelo editor veterano Jim Galton, cuja gestão estava concentrada

em reverter a situação em dois anos — ou talvez não haveria mais

Marvel Comics. [ 340 ]

Além de tentar aumentar as vendas onde podiam e cancelar

títulos com desempenho baixo, Lee e Galton concluíram que a

Marvel precisava se concentrar em Hollywood e em seu potencial

para aumentar as receitas da empresa, licenciando as

propriedades da Marvel para filmes e séries de TV e adquirindo

licenças para fazer quadrinhos de filmes e séries populares.

Seguindo essa nova tendência da editora, e em acordo com sua

paixão pelo show business, Lee se envolveu bastante com outros

dois novos títulos da Magazine Management: Film International

(que era um pouco risqué) e Celebrity, que fez uma matéria bem

volumosa sobre uma celebridade conhecida como Stan Lee.

E não era só por ego. O mercado dos quadrinhos enfrentava

problemas mais uma vez. Era a hora de Lee voltar ao modo de

sobrevivência, trabalhando para garantir o sucesso tanto da

Marvel/Magazine Management quanto o próprio.

Para aumentar a urgência da questão, veio o fim repentino de

qualquer chance de que Carmine Infantino daria um lugar para

Lee na DC, como tinham discutido pelo menos uma vez, ou ao

menos de que Lee teria essa possibilidade como moeda de

barganha, caso visse sua posição na Marvel em perigo. [ 341 ]

Infantino foi demitido da DC em janeiro de 1976.