A Espetacular Vida de Stan Lee
16. O caos e o rei
É como a Alemanha nazista e os Aliados na
Segunda Guerra Mundial.
— Carta de Stan Lee aos funcionários
freelancers da Marvel, 1974
L ogo no começo da era das editoras de quadrinhos, foi estabelecido que as empresas teriam todo o direito de propriedade intelectual sobre as histórias e as obras de arte produzidas por suas equipes de criação — incluindo a propriedade das artes originais. Alguns criadores conseguiam manter certo grau de participação de suas obras, sendo os mais famosos Bob Kane, com Batman, e William
Moulton Marston, com a Mulher-Maravilha. Mas, como os
contratos eram mantidos em sigilo, nunca ficou claro quais eram
exatamente esses acordos e se de fato eram exceções, não a regra.
Jerry Siegel e Joe Shuster, conhecidos por terem vendido todos
os direitos sobre sua criação, o Super-Homem, por 130 dólares, a
princípio foram bem pagos para produzir mais histórias com o personagem, mas, em pouco tempo, passaram a ser excluídos de
qualquer parte da receita maciça de sua criação. Essa história se
transformou em uma espécie de advertência aos criadores de
quadrinhos:
Não deixe que o que aconteceu com Jerry e Joe aconteça com você!
No entanto, quase todos os escritores de quadrinhos e artistas
da época de Jerry e Joe continuaram vendendo os direitos autorais
de seus personagens e de suas histórias para os editores, sem
muita tentativa de negociação. Os criadores eram jovens da era da
Depressão; para eles, o que importava era receber dinheiro na
hora. Pensar em um possível pagamento mais robusto para
versões de seus trabalhos em outras mídias era quase um delírio,
em comparação com o dinheiro que poderiam receber naquele
instante pelo trabalho apressado da noite anterior. Mas, como Stan
Lee lembrara, no evento da Sociedade Nacional de Cartunistas,
em 1971, essas convenções de a editora deter a propriedade
intelectual, sem participação dos criadores, eram no mínimo
problemáticas — um termo mais apropriado talvez fosse
“onerosas”.
Na década de 1970, entraram no mercado alguns escritores e
artistas mais jovens, os baby boomers. Embora também
concordassem com as condições de propriedade intelectual, já
que queriam os trabalhos, eram um pouco mais cautelosos, e
muitos procuravam maneiras de contorná-las. Esses artistas já
tinham visto o destino de seus antecessores no negócio: quando
não era a morte precoce, era uma vida de disputas por mais
trabalhos, sujeita aos caprichos e exigências editoriais. Esses
artistas viam o exemplo do movimento underground comix, em
que os criadores detinham a propriedade intelectual do material, como um modelo para uma abordagem alternativa. É verdade que
não havia uma taxa de páginas tão boa quanto a oferecida pelas
editoras mais famosas da cultura pop, o que era muito útil para
alguém que precisava comer e pagar aluguel, mas a vantagem
potencial de deter os direitos autorais era muito maior. Os
cartunistas das publicações alternativas detinham os direitos
autorais de suas criações e obras de arte e ganhavam dinheiro com
a reimpressão e a fabricação de itens licenciados com base em
suas criações. Não havia outro dono do Mr. Natural a não ser seu
criador, Robert Crumb. Já o Senhor Milagre, inegavelmente
criação de Jack Kirby, era propriedade da DC Comics, mesmo
enquanto a empresa fazia questão de divulgar a presença de Kirby
em seu editorial.
Um dos editores que causavam mais receio aos quadrinistas da
geração boomer era, é claro, Martin Goodman, que, embora capaz
de certa generosidade quando era dono da Marvel — emprestando
dinheiro aos artistas que tinham alguma emergência médica,
mesmo sabendo que não havia chance de receber o pagamento de
volta; concedendo grandes bônus de férias; e permitindo que os
funcionários fixos também aceitassem trabalhos freelancers para
a editora —, também protegera com unhas e dentes sua
propriedade sobre os personagens da Marvel, antes de vender a
empresa. Nem mesmo seu primo, Stan Lee, cocriador de muitos
desses personagens, detinha direitos autorais ou contava com
participação nos lucros.
Portanto, era um tanto irônico que esse mesmo Goodman
passasse, com a nova Atlas, a oferecer várias vantagens aos
artistas que queria roubar da Marvel e da DC — incluindo a
participação nos lucros em produtos licenciados de qualquer personagem que criassem. Goodman estava se posicionando
como amigo dos freelancers. E era mesmo, pelo menos enquanto
o dinheiro continuava caindo na conta.
* * *
Stan Lee já se correspondia com o escritor, artista e editor
alternativo Denis Kitchen desde 1969. Lee tinha tentado
convencê-lo a editar quadrinhos com estilo alternativo para a
Marvel, mas só em 1974 — afetado pela economia fraca e pela
necessidade de dinheiro, além de uma decisão da Suprema Corte
que comprometia a distribuição de editoras alternativas —
Kitchen topou uma cocriação com a Marvel: o livro Comix Book.
Na verdade uma antologia em formato de revista — portanto,
não estava sujeito ao Código dos Quadrinhos —, o Comix Book foi
lançado no final de 1974 e teve apenas três edições publicadas
pela Marvel, sendo que o próprio Kitchen publicou as edições n.º
4 e 5. Lee teve sentimentos conflitantes quanto ao conteúdo, que
não era tão extremo quanto os quadrinhos alternativos mais
avançados — mas, ainda assim, era mais ousado do que as revistas
aprovadas pelo Código. No entanto, estava ansioso por aproveitar
um pouco da moda alternativa e assumir os créditos de
“provocador”. (“Podem dizer que sou um ‘provocador’. Assim, se
a publicação tiver problemas, posso dizer: ‘Não sou responsável,
tudo o que fiz foi provocar.’ Mas, se for um sucesso, posso dizer:
‘Opa, eu que provoquei isso aí!’”) Embora não tenha conseguido
trazer o maior ícone dos quadrinhos alternativos — Robert Crumb
— para a editora, Kitchen reuniu muitas das principais obras da
contracultura, como os quadrinhos de Art Spiegelman, Justin
Green, Trina Robbins e Kim Deitch, todos ansiando pela
exposição que conseguiriam com uma publicação da Marvel, além do pagamento de cem dólares por página — 300% a mais do que a
taxa padrão de editoras alternativas. Além disso, Kitchen
negociara um acordo um pouco incomum no mercado: os artistas
receberiam a arte original de volta — e poderiam, mais tarde,
vendê-la, já que estava surgindo um mercado interessado na arte
original dos quadrinhos — e reteriam a propriedade intelectual do
material publicado.
Lee cancelou o experimento depois de três edições. As vendas
não eram muito expressivas, mas outro motivo muito relevante
para o corte, segundo Kitchen, foi o sentimento que a mera
existência do Comix Book fez se espalhar entre os artistas
regulares da Marvel, que não detinham nenhum direito autoral
nem recebiam o original do material que publicavam. Ainda
assim, estava plantada a ideia de que a Marvel — e, por extensão,
as outras editoras — poderia, se quisesse, fazer acordos fora dos
contratos de trabalho habituais. [ 330 ]
Então, quando os Goodman abriram a nova Atlas/Seaboard, em
1974, já pairava no ar a possibilidade de, além de receber mais
dinheiro, reter a propriedade ou ter participação nas receitas do
material produzido. Goodman se aproveitou disso. Inúmeros
criadores de destaque, como Howard Chaykin, Archie Goodwin,
Neal Adams e até Steve Ditko, decidiram dar uma chance à nova
editora.
Martin e Chip dirigiam a Atlas como executivos, mas
contrataram um ex-editor da Warren, Jeff Rovin, e, curiosamente,
o irmão de Lee, Larry — que, é claro, também era primo dos
Goodman —, para editar os títulos, que incluíam de gibis
coloridos aprovados pelo Código a quadrinhos de terror em preto
e branco que nada tinham a ver com o Código, além de uma revista de palavras cruzadas e outras publicações. A intenção era
criar uma versão menor da Magazine Management.
A resposta de Carmine Infantino a esse ataque da Atlas foi
oferecer muitas das mesmas vantagens que os Goodman, mas
apenas aos criadores que concordassem em manter o trabalho
exclusivo para a DC.
* * *
Stan Lee, por sua vez, decidiu bater de frente com a nova editora.
Em uma carta aos artistas freelancers da Marvel, escreveu:
Infelizmente, o fato de sermos uma empresa grande, com finanças
sólidas e responsabilidade ética, agora age contra nós. É como a
Alemanha Nazista e os Aliados, na Segunda Guerra Mundial.
Hitler, que era um ditador e não precisava responder a ninguém,
poderia fazer como quisesse sempre que tivesse vontade; com isso,
conseguia fazer as promessas mais extravagantes ao seu público
cativo enquanto se mantinha completamente indiferente às
consequências. (…) A Marvel, como os Aliados, simplesmente não
pode reagir com ofertas e promessas impetuosas.
Depois de comparar a editora do primo à Alemanha Nazista,
Lee lembrou aos freelancers que a Marvel fornecia plano de saúde
e seguro de vida aos criadores que se dedicavam à editora, e que
ele estava trabalhando para aumentar as taxas de páginas e os
planos de bônus. Também observou que “anos atrás, quando eu
quis começar a devolver os originais aos artistas, foi justamente
uma dessas pessoas que agora faz ofertas tão extravagantes que se
recusou a permitir!”.
E concluiu dizendo:
A Marvel nunca mentiu para vocês. Nem nunca vai mentir. Fiquem
com a gente, vocês não vão se arrepender. [ 331 ]
Goodman instruíra os editores a imitarem a aparência e o estilo
da Marvel nos quadrinhos, e, de fato, havia uma semelhança
superficial. Mesmo assim, não dava para esperar que aquele
mesmo raio da sorte caísse em outro lugar. Apesar do trabalho
duro de Lieber, Rovin e suas equipes criativas, The Brute [O
Bruto] não tinha como competir com o Hulk, e Wulf, the
Barbarian [Wulf, o Bárbaro], não era páreo para Conan. Em
meados de 1975, a Atlas já havia fechado as portas. E Lee parece
ter perdoado toda essa competição — pelo menos no que diz
respeito aos funcionários e artistas freelancers que tinham
migrado para a Atlas, incluindo o irmão, Lieber, que não demorou
a conseguir emprego como editor da Marvel.
Martin Goodman se aposentou e foi morar na Flórida. Qualquer
contato entre ele e Lee foi muito raro, se é que houve algum. Chip
Goodman, por sua vez, comprou a revista masculina Swank; com a
publicação e diversas outras revistas, estabeleceu uma editora de
sucesso que durou até sua morte prematura aos 55 anos, por
pneumonia, em 1996. [ 332 ] Joseph Calamari, antigo executivo da
Marvel e da Cadence, observou que Chip já estava preparando a
série de revistas antes mesmo da criação da Atlas. [ 333 ] Portanto,
é provável que a Atlas Comics tenha sido apenas parte de um
plano maior e de longo prazo dos Goodman, um insulto simbólico
para Lee e a Cadence, mas sem representar seu verdadeiro plano
de continuar a dinastia editorial.
* * *
Como se não houvesse problemas o suficiente na indústria e
especificamente com a Marvel, a natureza pequena e incestuosa
do mercado dos quadrinhos causou outro problema sério. Em
meados de 1974, quando o conflito com os Goodman estava
apenas começando, Lee descobriu que um artista freelancer
mentira sobre a taxa que recebia da DC apenas para negociar
pagamentos mais altos com a Marvel. Depois disso, Lee marcou
outro almoço com Infantino, e os dois concordaram em
compartilhar informações sobre os pagamentos dos freelancers.
Roy Thomas, que na época já trabalhava como editor havia dois
anos, estressado com o trabalho — e irritado com Lee, que tinha
quebrado (ou simplesmente esquecido) a promessa de um
emprego para sua então esposa —, ficou horrorizado ao saber
desse acordo entre os diretores da Marvel e da DC, e acusou Lee
de conluio. Thomas pediu as contas, e a Marvel ficou sem editor.
Nos três anos seguintes, quatro outras pessoas passaram pelo
cargo. [ 334 ]
* * *
As vendas de quadrinhos de super-heróis estavam diminuindo,
mas, paradoxalmente, a ideia do super-herói como ícone da
cultura pop norte-americana nunca deixara de despertar certo
interesse em Hollywood. Provas do interesse do público nesse
tipo de personagem foram os sucessos da série de TV Batman, de
1966 a 1968, o telefilme Mulher-Maravilha, de 1974, assim como a
série da heroína, de 1975, o primeiro com Cathy Lee Crosby e a
segunda com Lynda Carter no papel principal da amazona da DC.
Os super-heróis têm muito em comum com os filmes de protagonistas com qualidades exacerbadas, como James Bond e O
Homem de Seis Milhões de Dólares, que nunca saíram de moda. A
série televisiva Shazam! — novo nome do Capitão Marvel original,
escrito pela editora Fawcett Comics — era um sucesso com o
público infantil nas manhãs de sábado.
Inclusive, George Lucas, na época conhecido apenas por dirigir
o filme Loucuras de verão, estava tentando convencer a Marvel a
publicar um prelúdio de quadrinhos para sua nova série de filmes
— ainda em planejamento — do subgênero de ficção científica
conhecido como ópera espacial, com protagonistas com essas
mesmas características heroicas: Star Wars. Segundo Lucas, o
filme teria estética e temática muito semelhantes aos quadrinhos
da Marvel e da DC, sobretudo os de Jack Kirby. Era sabido no
mercado que quadrinhos de ficção científica não vendiam bem, e
Lee recusou a oferta. Ainda assim, Hollywood parecia sempre ter
algum interesse nos super-heróis.
E, na primeira metade de 1975, dois antigos colegas de trabalho
de Lee estavam empenhados na produção de documentos que
aumentariam esse interesse e causariam grande impacto na vida e
na carreira de Stan.
Para começar, Mario Puzo — em nome dos produtores
Alexander e Ilya Salkind, que já tinham testado outros escritores,
sem sucesso — estava escrevendo o protótipo de um roteiro para
um filme de ação do Super-Homem. Puzo escrevia com
regularidade para as revistas masculinas de Martin Goodman; ele
tinha tentado escrever quadrinhos para Lee, mas achou que não
valia a pena, por ser muito trabalho para pouco dinheiro. Porém,
depois de lançar o romance best-seller O Poderoso Chefão, de
1969, e mais dois filmes de grande sucesso derivados do livro, Puzo havia se tornado um grande nome da indústria, e os
produtores acreditavam que seu sucesso ajudaria muito na
realização do filme. [ 335 ]
Enquanto isso, o antigo revisor da Marvel e cocriador do Super-
Homem, Jerry Siegel, trabalhava em um longo comunicado para a
imprensa, que começava assim:
Eu, Jerry Siegel, cocriador do Super-Homem, amaldiçoo o filme
Super-Homem! Espero que seja um superfracasso. Espero que os
fãs leais se recusem a assistir. Espero que o mundo inteiro, ao ficar
sabendo da podridão que cerca Super-Homem, evite o filme como
a praga que é.
E por que amaldiçoaria um filme baseado no Super-Homem, uma
criação minha?
Porque eu e o cartunista Joe Shuster, cocriador do Super-Homem,
não receberemos um centavo do contrato desse superfilme (…)
Joe está parcialmente cego. Minha saúde não está boa. Nós dois
temos 61 anos. E, apesar do grande sucesso do Super-Homem,
nossas vidas foram bem difíceis.
Com o apoio de Neal Adams, muito popular na época, e do
antigo artista do Batman (e da Timely), Jerry Robinson — dois
nomes comerciais de peso e que não dependiam dos ganhos com
quadrinhos para levar a vida —, Siegel e Shuster lançaram uma
ofensiva contra a DC e sua empresa-mãe, a Warner
Communications, em busca de justiça — ou seja: de dinheiro, é
claro, mas também de crédito como criadores. [ 336 ]
Apesar de serem documentos distintos e independentes, as
publicações de Puzo e de Siegel sobre o Super-Homem tiveram consequências gigantescas para o futuro dos criadores de
quadrinhos e de super-heróis — e, indiretamente, para Stan Lee.
* * *
Em 1974, Jack Kirby já estava bastante insatisfeito.
As vendas do Quarto Mundo, embora razoavelmente boas, não
tinham sido tão espetaculares quanto a DC esperava. Depois de
menos de um ano de publicações, Infantino decidira cancelar
todas as séries da saga, exceto Senhor Milagre. Era o fim do plano
de Kirby de uma saga extensa, que durasse anos. Sua ideia era
lançar séries e mais séries, que depois seriam repassadas para
outros artistas, enquanto ele supervisionava os títulos e criava
novos. Em vez disso, estava relegado a fazer justamente o que o
motivara a sair da Marvel: trabalhos menores. É verdade que ele
ainda editava os próprios títulos, mas o sonho da autonomia que
imaginara ter na DC — na verdade, a marca com seu nome que ele
esperava dirigir — claramente não se tornaria realidade.
Infantino disse a Kirby para criar títulos sem relação com o
Quarto Mundo para substituir as séries cortadas e mantê-lo em
dia com as obrigações contratuais. Kirby criou OMAC; Etrigan, o
Demônio e Kamandi, quadrinhos com conceitos interessantes e
feitos com esmero — e até com aparente entusiasmo. Mas não era
o que Kirby imaginara que estaria fazendo. Se só quisesse criar
quadrinhos a pedido de outros editores, poderia ter ficado na
Marvel, onde, perto de sua saída, Stan Lee já lhe dava muita
autonomia — e crédito.
Jack Kirby não estava feliz, e o contrato com a DC expiraria em
breve. Parecia haver apenas um lugar para onde ir, mas o artista
praticamente extinguira seus contatos com essa outra editora. E,
no entanto, talvez a situação não fosse tão terminal quanto parecia. Stan Lee supostamente já dissera que: “Se Jack não tivesse
me largado falando sozinho, tenho certeza de que teríamos
chegado a algum acordo.” [ 337 ]
* * *
Nos Bullpen Bulletins de agosto de 1975, havia um aviso que
parecia praticamente colado já com a página pronta:
EXTRA! Trouxemos este aviso discreto para avisar que mês que
vem chega às bancas o mais novo trabalho avassalador do nosso rei
JACK KIRBY! E traremos um belo resumo do nosso mais recente
sucesso no próximo Bulletin!
Ao que parece, os dois conseguiram mesmo chegar a algum
acordo, ou pelo menos estavam começando a forjar um. De
acordo com Mark Evanier, Kirby se mostrara muito relutante em
voltar à Marvel e passara um tempo esperando que as coisas
melhorassem na DC. O artista talvez até tenha encorajado Lee a
anunciar seu retorno antecipadamente. Como Evanier lembrou:
“A Marvel vazou [as notícias de que Kirby concordara em voltar]
(…) e Kirby esperava que isso pressionasse a DC a oferecer um
contrato melhor. Mas, quando ficou claro que isso não
aconteceria, ele de fato voltou.” [ 338 ]
Portanto, só em dezembro que os Bulletins retomaram o assunto,
explicando o retorno de Kirby. E só neles é que o anúncio recebeu
a devida atenção, sendo o único assunto de uma longa coluna da
Soapbox:
Este mês, trazemos notícias tão impactantes que não dá para adiar
falar delas nem por mais um minuto! Jack Kirby está de volta! Isso
mesmo, você leu certo! O rei Kirby (não se esqueçam de que foi na
Marvel que ele conquistou o apelido) voltou ao seio da família do
nosso editorial!
Depois de listar as primeiras tarefas definidas para Kirby — uma
história única de adaptação do filme 2001: Uma odisseia no espaço
e assumir a série Capitão América —, Lee falou mais sobre esse
segundo trabalho:
Jack vai escrever e desenhar a série inteira sozinho. (…) Mas assim
que tivermos um tempinho para respirar, quando você menos
esperar… Verá uma incrível edição especial do — isso mesmo! —
SURFISTA PRATEADO!
A coluna então discutia a primavera anterior, quando a Marvel
realizou sua própria convenção no hotel Commodore, em
Manhattan. Lee relatou um acontecimento do dia 24 de março de
1975, o último dos três dias de evento:
Na ocasião, mencionei que tinha um anúncio especial. (…) Quando
comecei a falar sobre o retorno de Jack (…) todos se viraram,
olhando em volta, enquanto Kirby em pessoa avançava alegremente
pelo corredor para se juntar a nós no palco! Dá para imaginar como
é bom poder retomar os momentos de diversão com o cocriador de
quase todas as melhores séries da Marvel?
Naquele painel, depois de aplausos de pé, Kirby assegurou à
plateia que “independentemente do trabalho que eu assumir na
Marvel, posso garantir que será eletrizante!”. [ 339 ]
* * *
Além da incerteza de Kirby, talvez Lee tenha desistido de explicar
melhor aquele primeiro anúncio de seu retorno logo no mês
seguinte porque estava envolvido com outros projetos, como a
revista Nostalgia Illustrated [Cenas de nostalgia], da Magazine
Management, e a sequência de Origins of Marvel Comics que estava
escrevendo para a Simon Schuster. Lee pode inclusive ter se
distraído por estar ocupado com duas publicações conjuntas com
a DC de Infantino — a primeira empreitada do tipo para as
empresas rivais. Uma era uma adaptação para quadrinhos do filme
clássico de 1939, O mágico de Oz. A outra era a revista Super-
Homem contra o incrível Homem-Aranha. Eram duas revistas
grossas, com páginas maiores do que o normal dos quadrinhos, e
venderam muito bem.
Lee talvez estivesse distraído com a saída de Len Wein do cargo
de editor depois de menos de um ano no ofício, e também quando
o mesmo aconteceu com seu sucessor, Marv Wolfman. O sucessor
de Wolfman, Gerry Conway — que estava escrevendo a revista do
Super-Homem com o Homem-Aranha —, renunciou após apenas
um mês. Claramente, o cargo era trabalho demais para uma só
pessoa. Archie Goodwin, profissional já conhecido, tinha
assumido o cargo — agora com o título de “editor-chefe” —, mas
precisavam encontrar uma maneira de tornar a posição menos
assustadora.
Talvez outro grande motivo para adiar o anúncio da volta de
Kirby tenha sido um acontecimento interno da Marvel — não
apenas desafiador, mas também com um potencial “eletrizante”.
Acontece que o presidente da Marvel e da Magazine
Management, Al Landau, tinha falsificado relatórios financeiros
das empresas para fazer parecer que sua gestão era incrivelmente
lucrativa. Na verdade, sua divisão da Cadence tivera um prejuízo
de US$ 2 milhões só na primeira metade de 1975. Landau foi
demitido quando o rombo financeiro foi descoberto, e substituído
pelo editor veterano Jim Galton, cuja gestão estava concentrada
em reverter a situação em dois anos — ou talvez não haveria mais
Marvel Comics. [ 340 ]
Além de tentar aumentar as vendas onde podiam e cancelar
títulos com desempenho baixo, Lee e Galton concluíram que a
Marvel precisava se concentrar em Hollywood e em seu potencial
para aumentar as receitas da empresa, licenciando as
propriedades da Marvel para filmes e séries de TV e adquirindo
licenças para fazer quadrinhos de filmes e séries populares.
Seguindo essa nova tendência da editora, e em acordo com sua
paixão pelo show business, Lee se envolveu bastante com outros
dois novos títulos da Magazine Management: Film International
(que era um pouco risqué) e Celebrity, que fez uma matéria bem
volumosa sobre uma celebridade conhecida como Stan Lee.
E não era só por ego. O mercado dos quadrinhos enfrentava
problemas mais uma vez. Era a hora de Lee voltar ao modo de
sobrevivência, trabalhando para garantir o sucesso tanto da
Marvel/Magazine Management quanto o próprio.
Para aumentar a urgência da questão, veio o fim repentino de
qualquer chance de que Carmine Infantino daria um lugar para
Lee na DC, como tinham discutido pelo menos uma vez, ou ao
menos de que Lee teria essa possibilidade como moeda de
barganha, caso visse sua posição na Marvel em perigo. [ 341 ]
Infantino foi demitido da DC em janeiro de 1976.