A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 23 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

22. O país inexplorado

Eles não querem que você morra.

— Todd McFarlane, em 29 de outubro de 2017

Nem eu!

— Stan Lee, em 29 de outubro de 2017

 

Operíodo antes e logo após a morte da esposa foi um estranho turbilhão de circunstâncias para Stan Lee. Tanto para os fãs

quanto para os observadores casuais, a vida dele se desenrolava

em acontecimentos absurdos, uma montanha-russa de emoções.

Lee era uma espécie de pai ou de tio querido dos baby boomers,

quando eram crianças, mas agora passara a representar outro

arquétipo: o do pai idoso. E o dilema que o cercava se tornou um

desafio familiar:

O que fazer com papai?

Já havia uma estranheza antes da morte de Joan, mas depois,

com certeza, ficava a dúvida de quem tomava as decisões sobre a

vida de Stan Lee. Assim como acontecia com tantos idosos nos

Estados Unidos — pessoas que tinham sobrevivido à Grande Depressão, servido na Segunda Guerra, vivido carreiras longas,

estavam cada vez mais desamparadas (mas, se tivessem sorte,

ainda tinham suas faculdades físicas e mentais razoavelmente

intactas) —, surgiram muitas perguntas sobre como Lee passaria o

tempo que lhe restava na Terra. Seu principal apoio emocional

tinha sido a esposa. Mas, mesmo enquanto Joan estava viva (e

certamente perto de sua morte), não estava claro quem

administrava a vida do casal.

Embora fossem próximos da filha, não era evidente que papel

ela estaria assumindo na supervisão da vida dos pais. Apesar de

manter contato regular com Lee, Larry Lieber, que morava na

Costa Leste, não estava envolvido nos cuidados ou nas decisões de

vida do casal. Os parceiros e funcionários de Lee na POW! tinham

a responsabilidade de ajudá-lo com alguns aspectos de sua vida,

tanto no escritório quanto em casa, e o mesmo pode ser dito de

Max Anderson, agente dele, que organizava suas viagens. Volta e

meia o colecionador Keya Morgan era mencionado na história dos

últimos anos dos Lee, assumindo vários papéis. O mesmo vale

para uma lista de advogados, todos sempre mudando. Mas, após a

morte de Joan, surgiram perguntas cujas respostas não eram

muito claras. Quem decidia se Lee continuava ou não

participando de convenções, mesmo após sua “turnê de

despedida” de 2016? Quem gerenciava os empregados em sua

casa? Alguém estaria abusando física ou psicologicamente de Lee?

Ou roubando seu dinheiro? Não seria melhor se ele vivesse em

alguma instituição de idosos, ou pelo menos com assistência de

enfermagem? O estado da Califórnia deveria nomear algum tipo

de guardião? Era frequente que as celebridades idosas de

Hollywood — exemplos famosos eram Mickey Rooney e Groucho Marx — fossem exploradas pelos responsáveis por protegê-las.

Por que Stan Lee estaria imune a esse perigo?

Até uma idade muito avançada, Lee conseguia subir nos palcos

das convenções e entreter muito bem as multidões de fãs. Parecia

ter boa memória, e dava respostas bem pensadas, espontâneas e

espirituosas. Podia às vezes parecer um velho meio confuso, com

problemas para ver e ouvir antes de subir ao palco e depois que

saía, mas, no palco, era uma presença explosiva. Até mesmo na

primavera de 2017, quando me deu duas entrevistas por telefone

para este livro, apesar de talvez ter errado alguns detalhes do

passado, Lee no geral manteve uma conversa espontânea,

perspicaz e, é claro, engraçada.

E, como alguém que conhecia e trabalhara com Lee por décadas,

que era visto com regularidade ao lado dele, em seus últimos anos

nos palcos das convenções, sempre me perguntavam se eu achava

que ele sofria algum abuso, no mínimo por se arrastar (ou ser

arrastado) de convenção em convenção, sem descanso. Ele de fato

gostava das aparições? Ou estava sendo usado, fosse por razões

financeiras ou mesmo por pessoas que talvez até estivessem

sendo bem-intencionadas? Como nós dois não conversávamos

muito sobre nossas vidas pessoais, tudo o que eu podia fazer era

retrucar: “Pelo que você conhece de Stan Lee, acha mesmo que

ele prefere morrer em casa, sozinho, dormindo, ou sendo

ovacionado por cinco mil pessoas no auditório de alguma

convenção?”

* * *

Em 23 de julho de 2017 — 17 dias após a morte de Joan Lee (e no

mesmo fim de semana em que Lee se apresentava na Comic-Con de San Diego) —, Flo Steinberg, sua funcionária de 1960, morreu,

aos 78 anos, em Nova York.

Embora não mantivessem contato regular, os dois gostavam

muito um do outro e sempre ficavam felizes em se ver. “Ah, Flo…

Que garota!”, dizia Lee, quando perguntado sobre ela. E, em

entrevistas ao longo dos anos, quando perguntavam sobre Stan,

Steinberg era só elogios. [ 451 ]

Steinberg veio a publicar seus próprios quadrinhos e trabalhou

no editorial e em outras funções para a Arts Magazine e a Warren

Publishing. Na década de 1990 e até alguns anos antes de sua

morte, Flo voltou a trabalhar para a Marvel como revisora e foi a

verdadeira mãe de algumas gerações de funcionários da empresa.

Lee teve vários assistentes ao longo dos anos, mas Steinberg foi

a única que ele incluiu regularmente no imaginário da Marvel,

traduzido nas colunas de cartas e nos Bullpen Bulletins. Os fãs a

colocavam no mesmo pedestal de Kirby, Ditko, Heck, Lieber,

Brodsky e até do próprio Lee, os funcionários lendários da

Marvel. E, como guardiã da editora, Flo provavelmente era a única

personalidade dos Bulletins que as crianças que tentavam entrar

nos escritórios de fato chegavam a conhecer.

Em sua página oficial do Facebook, Lee (ou alguém falando por

ele) escreveu, após a morte de Steinberg:

Eu a apelidei de “Fabulous Flo” por um motivo. Não havia ninguém

mais dedicada ao trabalho ou às pessoas com quem trabalhava. Flo

definiu um padrão inatingível para minhas futuras secretárias.

Para a maioria, a vida na Marvel era apenas mais um trabalho;

para Flo, era o trabalho de sua vida. Toda a indústria dos

quadrinhos conhecia e amava a “Fabulous Flo”, e sua morte é

realmente uma grande perda. [ 452 ]

O falecimento, logo após a perda de Joan Lee, foi muito

simbólico e significativo, era o desaparecimento de mais uma

parte daquela era. Mas a partida de alguém que já protegera tanto

Lee, infelizmente, foi um prenúncio do que estava por vir.

Stan continuou aparecendo em convenções depois do

falecimento de Joan. Na maioria, seus painéis passaram a ser

moderados por Max Anderson. Embora a energia de Stan

variasse, ele costumava se animar bastante com as aparições em

grandes salões, abertos a toda a convenção. Embora a voz tenha

ficado rouca, as respostas ao moderador ou à plateia continuavam

inteligentes, espontâneas e apropriadas. Lee não era um velho

senil dando respostas automáticas a perguntas e comentários — o

que não quer dizer que ele não saísse em tangentes estranhas,

embora divertidas. Jim Salicrup, antigo funcionário da Marvel,

lembrou-se de um painel de setembro de 2017, na convenção da

Wizard World em Madison, da qual participei junto com Lee:

 

Stan foi levado ao palco para uma entrevista e algumas perguntas

do público. Deu ótimas respostas, muito engraçadas e divertidas, e

o público estava amando. (…)

[Um membro da plateia, sem motivo aparente] perguntou: “Qual

é sua madeira favorita?” E Stan retrucou: “É isso mesmo? Eu viajei

centenas de quilômetros até aqui para você me perguntar qual é

minha madeira favorita?” Então, depois de pensar um pouco,

completou: “Espere, espere! Acabei de me lembrar qual é minha

madeira favorita! É madeira do estilo Biedermeier! Temos alguns

móveis desse período, são ótimos! Muito caros. É minha madeira

favorita!” (…)

E o mais surpreendente foi que, quando perguntado sobre sua

pasta de dentes favorita, Stan revelou que não usava pasta de

dentes! [Nota: ele usava apenas escova de dentes e água.] Sim,

Smiling Stan, famoso pelo sorriso, confessou que, quando o dentista

pediu que usasse certo tipo de creme dental, não usou. Assim como

não usou nenhum outro! E, na consulta de retorno, quando

perguntaram se ele estava usando a tal pasta, ele mentiu dizendo

que sim! O dentista disse que dava para ver a mudança, porque os

dentes de Stan estavam ótimos.

Depois de responder a perguntas sobre os primeiros dias da

Marvel e alguns encontros com o antigo chefe, o editor Martin

Goodman, Stan ficou melancólico, dizendo algo como: “Uau. Não é

incrível?” E depois explicou que não tinha sido uma piadinha, ele só

estava refletindo sobre como nunca sonhou que um dia estaria em

um lugar como aquele, em um salão enorme, com tantas pessoas ali

só para vê-lo. E pensou: “Uau. Não é incrível?” [ 453 ]

 

E no domingo de 29 de outubro de 2017, na Stan Lee’s Comic

Con de Los Angeles (anteriormente conhecida como Comikaze

Comic Con, mas Lee acabou emprestando seu nome ao encontro

anual), em uma entrevista pública moderada por Todd McFarlane,

entrevistado e entrevistador entraram em um bate e volta

animado, salpicado de informações e lembranças. Quando surgiu

o assunto das participações especiais de Lee nos filmes da Marvel,

McFarlane sugeriu uma participação especial em que o

personagem de Lee estaria assistindo a um filme de Alfred

Hitchcock na TV, e uma batalha de super-heróis irrompia pela

porta do apartamento. Quando os super-humanos da luta saíssem,

na imaginação de McFarlane, o filme da TV estaria — ironicamente — na parte em que Hitchcock aparecia (o diretor

era famoso pelas breves aparições em seus filmes), e Lee

comentaria, zombeteiro: “A pessoa tem que ser muito egocêntrica

para fazer questão de participar de todos os seus filmes, não é?”

“Será como uma participação especial contra as participações

especiais”, brincou McFarlane.

Lee respondeu: “Não quero ver você zombando do Alfred

Hitchcock. O Hitchcock era um grande homem.”

Então, falando de McFarlane, Lee acrescentou: “Daí ele pensa:

‘Muito bem, vou zombar de Stan Lee.’ Este homem está

incontrolável. Tirem ele do palco!”

E, respondendo à bronca brincalhona de Lee, McFarlane

retrucou, com uma fala chocante (embora sem sentido): “Stan, eu

faço [essa cena] depois que você morrer. Não se preocupe. A

gente faz isso depois que você morrer.”

O público interveio, respondendo com vaias espirituosas.

 

LEE: Eles não querem que você faça isso depois que eu morrer.

McFARLANE: Eles não querem que você morra.

LEE: Nem eu! [ 454 ]

 

Lee e McFarlane compartilhariam outro palco na ACE Comic

Con, em Glendale, no Arizona, em 14 de janeiro de 2018. Lee,

embora ainda bastante alerta, parecia ter menos energia. Durante

a entrevista, ele elogiou os novos proprietários da POW!, a

Camsing, e prometeu que, dali a oito meses, lançariam juntos

quadrinhos com “novas ideias para os super-heróis” que estava

desenvolvendo. [ 455 ]

McFarlane agregou aos dois eventos uma energia incrível e

contagiante, o que fez Lee, durante o evento no Arizona, elogiar

efusivamente suas habilidades de moderação e entrevista. (De

fato, embora ninguém possa duplicar a carreira única de Lee, é

fácil imaginar McFarlane — um artista nato — herdando o papel

de Lee como rosto amistoso e animado dos quadrinhos.)

McFarlane refletiu, um tempo depois:

 

Sobretudo depois de velho, [Stan] me ligava, dizendo: “Olha, estou

ansioso pela convenção deste fim de semana. Vai ser muito

divertido, Todd.” E aquilo era meio como um energético para ele.

Quando voltava para casa, Lee se sentia dez anos mais novo.

Porque absorvia energia dos fãs, guardando tudo para si mesmo. Eu

o via depois das convenções. Ele passava uns dias cheio de energia. [

456 ]

 

No início de 2018, pouco depois do painel com McFarlane no

Arizona, Lee contraiu pneumonia. No início de fevereiro, já tinha

se recuperado o suficiente para me conceder uma entrevista nos

escritórios da POW!, onde faríamos um vídeo relacionado à

exposição Marvel: Universe of Super Heroes. Embora frágil e fraco,

suas respostas foram apropriadas, espirituosas e pontuais, assim

como nos painéis de McFarlane. No entanto, com sua audição e

visão já falhando, Lee precisava de ajuda dos funcionários da

POW! para ir de sala em sala.

Nos meses depois da morte de Joan, houve vários processos

movidos por Lee e contra ele. Havia relatos de grandes somas de

dinheiro faltando em várias de suas contas, algumas descontadas

de cheques que ele não se lembrava de ter assinado. Várias

pessoas alegaram representá-lo, e Lee acabou gravando vídeos, postados em suas redes sociais, com o objetivo de esclarecer

quem de fato representava a ele e a seus interesses, mas os vídeos

se contradiziam. Em maio, um processo contra a POW! pedindo

US$ 1 bilhão — assim mesmo, um número redondo — foi aberto

no nome dele. O processo foi retirado em julho.

Enfermeiras responsáveis por seus cuidados fizeram acusações

de assédio sexual. Lee deu uma declaração dizendo que prometia

combater as acusações, que parecem ter desaparecido. Anderson

foi banido de seu círculo de amigos, assim como Morgan, que

parecia ter administrado a vida de Lee por algum tempo não

muito bem definido. Um agente — que logo foi demitido — colheu

sangue de Lee e misturou com a tinta usada para autografar

quadrinhos, anunciados à venda como contendo o autêntico DNA

de Stan Lee. Na internet, surgiram vídeos constrangedores de Lee

dando autógrafos na Comic Con de abril, no Vale do Silício,

claramente exausto e confuso, aparentemente recebendo

instruções sobre como soletrar o próprio nome. [ 457 ]

Longos artigos sobre a estranha situação de Lee surgiram em

jornais como The New York Times, The Hollywood Reporter, Daily

Beast, além de outras publicações e sites. Não era claro quem

estava no controle de sua vida e de seus bens. Embora não

houvesse suspeita de abuso físico, parecia evidente que Lee vivia

um período de saúde instável. No início de abril, também ficou

aparente que uma coalizão que incluía sua filha, JC, estava

cuidando dele. [ 458 ]

* * *

Enquanto as batalhas pelo controle de sua vida eram travadas,

partes do passado de Lee continuavam desaparecendo.

Em setembro de 2017, Len Wein, cocriador do Wolverine e ex-

editor-chefe da Marvel, faleceu aos 69 anos. Wein teve sérios

problemas de saúde a vida inteira, mas sua morte foi uma

indicação de que a geração de fãs que entrara no mercado dos

quadrinhos nos anos 1960 também estava envelhecendo.

O ano de 2018 trouxe quatro mortes que foram verdadeiros

golpes na história da Marvel, de Lee e dos quadrinhos.

Em 29 de junho, a polícia de Nova York encontrou Steve Ditko

morto em seu apartamento em Manhattan, aos noventa anos.

Como Ditko morava sozinho, o momento exato de sua morte não

é claro. Lee gravou um breve tributo ao quadrinista:

 

Não posso deixar esta semana passar sem comentar sobre Steve

Ditko. Steve foi um dos criadores mais importantes do mundo dos

quadrinhos. (…) Ele contava histórias tão bem quanto um bom

diretor de cinema. (…) [Steve], você deixou sua marca no mundo. [

459 ]

 

Russ Heath, parceiro de Lee em histórias de comédia e de

guerra, faleceu em 23 de agosto. Tinha 91 anos.

E então, no fim de agosto, dois dos últimos membros do

editorial clássico da Marvel dos anos 1960 — e que de fato

trabalhavam nos escritórios — partiram: Marie Severin, no dia 29,

e Gary Friedrich, no dia 30.

Severin tinha sido indispensável para Lee como artista,

colorista, diretora de arte e faz-tudo. Ela faleceu aos 89 anos. Um

ano antes, tinha conversado comigo sobre os velhos tempos,

falando com carinho sobre o quanto gostava de trabalhar com Lee.

“Ele era muito divertido. Um doido. Maravilhoso”, contou. [ 460 ]

O escritor e editor Friedrich — um dos primeiros contratados

quando a Marvel começou a expandir, em meados da década de

1960 — faleceu aos 75 anos. Foi Friedrich que levara Country Joe

and the Fish para conhecer Stan Lee.

Durante esse período, Larry Lieber decidiu se aposentar da

tirinha do Homem-Aranha, querendo se dedicar ao seu crescente

interesse em escrever ficção em prosa. Os irmãos se falavam

sempre ao telefone, e Stan perguntava como o trabalho estava

progredindo, incentivando Larry a continuar.

* * *

Em 8 de outubro, Lee e a filha, junto com o advogado dela, Kirk

Schenck, foram entrevistados — a pedido de Schenck — por Mark

Ebner, do site Daily Beast. O portal já publicara matérias sobre

como a vida de Lee parecia fora de controle, e a entrevista foi uma

tentativa de estabelecer que JC estava — aparentemente com o

apoio voluntário do pai — administrando a vida de Lee, mantendo

afastada qualquer presença danosa. [ 461 ]

Na entrevista, realizada na casa de Lee, Schenck disse que JC era

“uma vingadora; a protetora deste homem [Lee]”.

Sobre o relacionamento com a filha, Lee disse a Ebner:

 

Temos uma vida maravilhosa. Sou um homem de muita sorte. Amo

minha filha, e espero que ela me ame. (…) Volta e meia nós

discutimos, mas eu volta e meia discuto com todo mundo. É capaz

até de discutir com você, afirmando que “Eu não disse isso!”. Mas é

a vida.

Quando perguntada sobre os boatos de que tinha gritado com o

pai, JC respondeu:

 

Ele não ouve bem, entende? Nunca ficamos sozinhos [em casa],

sempre há outras pessoas e influências, e acaba que, sim, faz anos

que eu tenho levantado a voz. E tivemos umas pessoas horríveis

aqui em casa. (…) Elas colocavam meu pai contra mim de tal

maneira que ele não sabia mais que tinha uma filha.

 

Perguntada sobre o boato de que já “pusera as mãos” nos pais,

JC respondeu:

 

Nunca na minha vida encostei um dedo na minha mãe ou no meu

pai, nunca encostei um dedo sequer em um cachorro.

 

Quando o repórter perguntou: “Você concorda com a maneira

como o dinheiro é administrado na família?”, Lee respondeu:

 

Esse dinheiro será deixado [para minha filha] e, em vez de esperar

até eu morrer, dou o máximo que puder para que ela possa

aproveitar agora.

 

Se a intenção da entrevista era garantir a alguém — fossem fãs,

amigos ou as autoridades locais — de que tudo estava bem na casa

dos Lee, é pouco provável que esse objetivo tenha sido alcançado.

Cada resposta parecia suscitar uma nova pergunta, mesmo que

pelo menos parte disso possa ser atribuída aos questionamentos

provocativos de Ebner.

Porém, um resultado importante que a entrevista pareceu

alcançar foi deixar claro que a pessoa de quem se espera que

cuide de um idoso no fim da vida — a filha adulta dele — estava

de fato exercendo esse papel.

* * *

Em 10 de novembro, Roy Thomas e seu gerente, John Cimino,

visitaram Lee. A visita, de acordo com um artigo de Joshua

Hartwig publicado em 15 de novembro no Southeast Missourian,

foi parte de um presente de aniversário que Thomas ganhou de

Cimino. [ 462 ]

Na matéria, Thomas disse: “[Lee] não parece muito disposto a

receber visitas, mas ficou sabendo que eu queria visitá-lo, que eu

estava disposto a atravessar o país de avião para uma visita de

meia hora. E disse: ‘Sim, quero ver o Roy.’ O que me deixou muito

lisonjeado.”

O artigo continuou:

 

Durante a visita, Thomas disse que a primeira coisa que ouviu de

Lee foi: “Sabe, essa coisa de viver até os cem anos não é tão

divertida quanto imaginei” (…) [Thomas acrescentou:] “Acho que o

animei um pouco, durante a meia hora em que estive lá. Sinto que

devia aquilo a ele (…) tanto no aspecto pessoal quanto

profissional.”

Lee sempre falava sobre como Thomas “salvara sua vida”,

lembrou Thomas, aceitando “escrever as coisas quando ele já estava

se cansando de ter que escrever tudo”.

 

Thomas, então, observou:

Mas a verdade é que aquilo foi ainda mais importante para mim.

Ele teria encontrado outra pessoa, mas eu nunca teria encontrado

outro Stan Lee.

 

Discutindo a reunião na página de Cimino no Facebook,

Thomas escreveu:

 

[Lee] não tinha muito de sua velha energia (…) mas, quando

perguntei sobre futuras participações especiais, ele expressou

interesse genuíno (…)

 

Nesse comentário, Thomas também observou:

 

[Lee] ficou muito animado enquanto falava de suas brigas com o

editor Martin Goodman sobre o Homem-Aranha. Sugeri que talvez

a única decisão criativa importante de Goodman tenha sido quando

mandou Stan criar um grupo de super-heróis, em 1961. Stan

pareceu adorar o comentário. [ 463 ]

 

E Cimino disse ao site do canal SYFY:

 

Contei [a Stan] sobre como me sinto a respeito de Roy e afirmei que

sempre estarei ao lado dele, não importa o que aconteça. Stan

pegou minha mão e disse: “Que Deus te abençoe. Cuide do meu

garoto, Roy.” [ 464 ]

 

Dois dias depois da visita de Thomas e de Cimino, Lee foi

levado de ambulância para a emergência do Centro Médico

Cedars-Sinai, em Los Angeles.

Foi lá, às 21h17, em 12 de novembro de 2018, que Stan Lee

partiu para o “país inexplorado” de seu autor favorito, William

Shakespeare.

* * *

O atestado de óbito lista insuficiência cardíaca e insuficiência

respiratória como causas da morte. Também observa que Lee

sofreu de pneumonia por aspiração, causada por alimentos

inalados, ácido estomacal ou saliva. [ 465 ]

Os restos mortais de Lee foram cremados. A POW!

Entertainment fez um pronunciamento, afirmando que “Stan

sempre foi inflexível na decisão de não querer um funeral público,

de modo que a família realizou uma cerimônia privada,

respeitando seus últimos desejos. Estaremos com eles em

pensamentos e orações”. [ 466 ]

O assistente executivo de Lee de longa data, Michael Kelly,

apontou:

 

Embora a morte seja triste, ainda mais durante os anos que a

antecederam (…) não ficaram muitos assuntos inacabados, pelo

menos não comigo, nem com a maioria das pessoas que o

acompanhavam. Nos últimos dois meses, Lee estava praticamente

em paz. Dava para ver como ele ficava sentado, olhando a

paisagem, falando sobre estar bastante satisfeito, relaxado,

confortável. Lee não estava sofrendo. [ 467 ]

 

Stan Lee faleceu após uma série quase inacreditável de

acontecimentos, alguns surrealmente bizarros, outros

inspiradores e adoráveis. No último ano, sua vida foi revirada

várias vezes, como se o próprio destino estivesse conspirando para garantir que seus últimos dias não fossem nem um pouco

entediantes. Até o fim, a história de vida de Stan Lee entreteve e

envolveu aqueles que a acompanhavam. De fato, mesmo após seu

falecimento, apareciam notícias relacionadas a esses meses finais

tumultuosos. Por exemplo:

Keya Morgan, que administrou as propriedades de Lee por um

tempo, foi presa em maio de 2019, com acusações de abuso de

idosos relacionadas a Lee, inclusive por “aprisionamento em

cárcere privado” por ter, depois da morte de Joan, transferido

Stan de sua casa para um condomínio onde, como alegava uma

queixa de 2018, teria “mais controle sobre Lee”. [ 468 ] Em junho,

Morgan alegou inocência a todas as acusações. [ 469 ]

E, no mesmo mês, JC Lee, por meio de seu advogado, Schenck,

entrou com um processo contra o ex-gerente de Lee, Max

Anderson, por “abuso de idosos, quebra de contrato e roubo”. [

470 ]

Até a data de divulgação deste livro, não foi marcado o

julgamento de Morgan nem houve resposta pública de Anderson.

* * *

A Era Stan Lee acabou oficialmente no dia em que ele morreu.

Mas a Era Marvel, que Lee proclamara em 1963, continuava

mais viva do que nunca. De fato, logo após sua morte, houve uma

série de acontecimentos marcantes.