A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 24 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

23. Legado

Seu legado é imenso — tanto que talvez a

gente precise de uma nova palavra para definir

essa magnitude. (…) Stan Lee iniciou um

movimento que não para mais, que só vai seguir

em frente.

— Todd McFarlane

 

O s personagens que Stan Lee inventou junto com seus parceiros, principalmente Jack Kirby e Steve Ditko, estão mais conhecidos do que nunca, mesmo meio século depois de sua criação. Em 21 de janeiro de 2019, foi anunciado que o filme Pantera Negra recebera sete indicações do Oscar, incluindo Melhor Filme.

Era a primeira vez que um filme de super-herói concorria ao

prêmio dessa categoria, e, embora não tenha ganhado essa, foi o

vencedor de três outras.

E em 27 de janeiro, o filme ganhou o maior prêmio do Screen

Actors Guild, na categoria Melhor Elenco.

Stan Lee e Jack Kirby criaram o Pantera Negra em 1966, como

participação na revista Quarteto Fantástico n.º 5, pouco depois de

terem inventado Galactus, o Surfista Prateado, os Inumanos e

muitos outros personagens que também passaram a compor os

fundamentos do Universo Marvel. O Pantera Negra, o primeiro

super-herói negro que ocupava um papel principal, é só mais um

entre as dezenas de personagens agora mundialmente famosos

que os dois inventaram. Mais de cinquenta anos depois, o

protagonista do filme de super-herói solo de maior sucesso é

claramente reconhecível na figura que estreou na edição n.º 52 de

Quarteto Fantástico.

Até o momento em que este livro foi escrito, Vingadores:

Ultimato, trazendo vários personagens criados ou apresentados

por Lee e Kirby, o filme que apresenta o final de uma década de

história da Marvel, ultrapassou a marca de US$ 2,6 bilhões de

bilheteria, e as vendas mundiais não mostram sinais de estarem

desacelerando.

Em qualquer noite de 2019, pode-se ir a qualquer cinema,

assistir a qualquer filme, e, mesmo que a película não seja baseada

no Universo Marvel, provavelmente haverá mais de um trailer de

um próximo lançamento da empresa.

Na TV, há programas baseados no estilo da Marvel; e, no nosso

mundo de entretenimento por streaming, pode-se passar centenas

de horas consumindo séries derivadas da Marvel.

Verdade seja dita: mesmo trabalhos que não têm relação direta

com a Marvel ou com Stan Lee podem seguir a fórmula muito

reconhecível e altamente adaptável que Lee e a empresa colocaram em prática: a história de uma pessoa ou um grupo de

pessoas que têm falhas profundas, mas que tentam fazer a coisa

certa, desafiando probabilidades quase impossíveis e apesar de

suas piores tendências autodestrutivas. São histórias de “heróis

com pés de barro”.

Stan Lee não inventou essa fórmula. O modelo já existia desde

sempre na grande literatura, no teatro e no cinema. Mas não

estava na cultura pop, voltada principalmente para crianças. E

certamente não estava nos quadrinhos.

Pode-se afirmar que foi graças às inovações de Stan Lee que

agora vivemos em um mundo em que esse gênero de mídia faz

tanto sucesso. Lee de fato foi como uma crise de meia-idade do

mundo inteiro.

Claro que ele precisava de seus colaboradores criativos para

conseguir tudo o que fez. Sem Kirby e Ditko, não haveria Marvel

Comics. Mas foi Lee quem uniu tudo dentro de cada história

individual, cada série individual e dentro do chamado Universo

Marvel — que funciona exatamente como no Universo

Cinematográfico Marvel de hoje.

O mais incrível é como essa fórmula de contar histórias

comerciais foi ampliada, saindo das revistinhas de dez centavos,

com 32 páginas e margens de lucro reduzidas, até se tornar a

franquia multibilionária de entretenimento que é hoje. A

declaração bombástica que Stan Lee deu em 1963, de que estava

começando a Era Marvel, de fato se tornou realidade — e hoje

mais do que nunca.

* * *

Após a morte de Lee, houve inúmeras homenagens. Alguns eram

louvores sinceros (palavra que aprendi com os quadrinhos de Lee) dos associados aos triunfos de mídia da Marvel:

 

Nunca haverá outro Stan Lee. Durante décadas, ele proporcionou, a

jovens e adultos, momentos de aventura, fuga, conforto, confiança,

inspiração, força, amizade e alegria.

— Chris Evans (Capitão América) [ 471 ]

 

Obrigado, @TheRealStanLee, por me permitir escapar um pouco

desta realidade e pela grande alegria natural dos mundos que você

criou!!

— Samuel L. Jackson (Nick Fury) [ 472 ]

 

Stan Lee, Dr. Seuss e Ray Bradbury. Para mim, é aí que começa e

que termina. (…) Descanse em paz, meu querido Stan. Você ajudou

a melhorar nosso tempo aqui.

— Josh Brolin (Thanos) [ 473 ]

 

Um dia muito triste. Descanse no poder, tio Stan. Você fez do

mundo um lugar melhor com o poder da mitologia moderna e do

seu amor por essa coisa confusa que é a humanidade…

— Mark Ruffalo (o Hulk) [ 474 ]

 

Para o alto e avante, em busca de glória! Excelsior, meu bom

homem! Excelsior!

— Angela Bassett (Ramonda) [ 475 ]

 

Ícones da cultura fora do universo da Marvel também prestaram

suas homenagens.

Um adeus para Stan Lee, da Marvel Comics. Ele fará muita falta.

Tive a sorte de conhecê-lo. (…) E ficamos um tempo conversando

sobre quadrinhos, contei de minha admiração por seu trabalho. Lee

inclusive sugeriu criar um super-herói que portasse um baixo

Hofner (…) e devo dizer que a ideia de virar um super-herói

empunhando um baixo (…) era muito atraente.

Envio amor para a família e os amigos e sempre guardarei

lembranças felizes desse grande homem. Amo você, Stan! — Paul

— Paul McCartney

(compositor de “Magneto and Titanium Man”) [ 476 ]

 

Já havia peças antes de Shakespeare, mas o trabalho do bardo

revolucionou o teatro. (…) E Stan Lee fez o mesmo pelos

quadrinhos. Não, claro que ele não fez tudo sozinho. A genialidade

dos artistas da Marvel, especialmente de Jack Kirby e Steve Ditko,

não pode nunca ser minimizada. (…) Mas Lee estava no centro de

tudo (…).

— George R. R. Martin

(criador da série Guerra dos Tronos

que, na infância, escrevia cartas para a Marvel) [ 477 ]

 

Ele viverá para sempre através de seu trabalho. Um gigante.

Com grande poder vem a imortalidade.

— Lin-Manuel Miranda

(criador e astro de Hamilton e celebridade

que também veio de Washington Heights) [ 478 ]

 

É impossível quantificar a enormidade de sua contribuição para a

Cultura Pop. (…) Eu amava esse homem, sentirei sua falta para

sempre. Dizem que nunca se deve conhecer um ídolo de infância.

Mas estão errados. #RIPStanTheMan

— Mark Hamill (Luke Skywalker de Star Wars) [ 479 ]

 

Duas homenagens emocionantes vieram da família Kirby:

 

Sua morte traz grande tristeza, mas me consolo em saber que as

criações de meu avô, de Stan e de tantos outros como eles

continuarão inspirando jovens e adultos do mundo todo! Descanse

em paz, Stan.

— Jeremy Kirby (neto de Jack Kirby) [ 480 ]

 

Minha mãe, Connie, meu pai, Neal, e eu enviamos nossas sinceras

condolências à família de Stan Lee. (…) As colaborações de Stan

com meu avô e muitos outros grandes talentos criativos foram o Big

Bang do Universo Marvel.

— Jillian Kirby (neta de Jack Kirby) [ 481 ]

 

E, é claro, muitos representantes da indústria dos quadrinhos e

da animação escreveram memoriais:

Todd McFarlane observou:

 

Acho que o legado de Stan só continuará a crescer. (…) Acho que

seu legado é imenso — tanto que talvez a gente precise de uma nova

palavra para definir essa magnitude. Daqui a vinte anos, todos

teremos uma boa conversa, falando sobre como o subes timamos. [

482 ]

O roteirista de live-action e animação Tony Puryear, que

trabalhou com Lee em Hollywood, escreveu lembranças

empolgantes no Facebook:

 

Eu adorava aquele velho maluco. Adorei cada segundo do trabalho

com ele. Stan era puro improviso louco; o rei do improviso, não

havia quem competisse com ele na loucura, um Mozart do

improviso. E digo isso com total admiração, como alguém que

construiu uma boa vida improvisando loucuras ao longo dos anos.

A alegria de Stan pelo trabalho era contagiosa. [ 483 ]

O escritor e quadrinista Frank Miller afirmou:

 

Devastado com a morte de meu amigo Stan. Ele foi uma inspiração

de infância, um instrutor de quando eu estava apenas começando e

um homem genuinamente doce. Sentirei muito sua falta. [ 484 ]

 

Neil Gaiman (escritor da série Sandman) lembrou:

 

Ele era uma potência de energia e entusiasmo, e sua morte encerra

uma era em que gigantes andavam na Terra e inventavam novos

tipos de histórias. [ 485 ]

 

Algumas personalidades proeminentes preferiram encarar o

problema de frente, abordando diretamente os conflitos sempre

presentes na vida de Stan sobre o seu relacionamento com os

colaboradores. Michael Chabon (autor de As incríveis aventuras de

Kavalier e Clay) opinou:

Basta olhar para o trabalho solo de #JackKirby para ver o que Stan

trouxe à parceria: uma humanidade inabalável, uma fé na

capacidade humana de altruísmo e de sacrifício e no consequente

triunfo da racionalidade sobre o irracional, do amor sobre o ódio;

um contrapeso perfeito ao quase niilismo sombrio e suado de Kirby.

(…) Foi a visão de Stan que predominou e que continua a moldar

minha maneira de ver o mundo. (…) #olevhasholem [ 486 ]

 

E Paul Levitz, escritor e editor de quadrinhos e ex-presidente e

editor da DC Comics, afirmou, em sua página no Facebook:

 

Stan deixa um legado complexo, em que sua imensa criatividade às

vezes é encoberta por debates impossíveis de resolver sobre o valor

das contribuições e ações dos colaboradores e sobre as atitudes que

ele poderia ter tomado, em um mundo ideal, para ajudá-los a obter

mais ganhos financeiros, além de suas declarações sobre o processo

colaborativo. Mas como alguém que conhecia e trabalhava com

praticamente todos os envolvidos, acredito que Stan foi um

catalisador insubstituível, sem o qual a mágica da primeira década

da Marvel Comics nunca teria acontecido e talvez nem as

mudanças que esse fenômeno espalhou pelo mundo dos

quadrinhos. [ 487 ]

 

Seria impossível discutir o legado de Stan Lee sem falar sobre

qual foi, para muitos, o seu trabalho mais conhecido: as famosas

aparições nos filmes e nas séries.

Lee apareceu em quase todos os projetos de filmes e TV da

Marvel, até nos videogames da empresa, em geral com papel de

algumas falas curtas. No contexto de sua vida, essas aparições fazem todo o sentido para um cara cuja ambição de adolescente

era ser ator.

Tecnicamente, a primeira participação especial de Lee em um

live-action foi no filme para a TV de 1989, O julgamento do Incrível

Hulk, quando interpretou um jurado envolvido no drama do

tribunal. Um papel sem falas.

Pode-se dizer também que sua primeira participação especial

em um filme “de verdade” foi no primeiro longa dos X-Men, em

2000, quando interpretou um vendedor de cachorro-quente que

fica chocado ao ver um mutante.

Mas Lee também deu voz à sua aparição no episódio final de

1998 do desenho animado Homem-Aranha. Nesta participação, o

herói leva seu cocriador por um passeio no estilo Homem-Aranha

por Nova York, balançando nas teias de prédio em prédio. “Sabe,

teioso”, diz Lee, “sempre quis experimentar o verdadeiro passeio

de teia”.

Mas, tecnicamente, a primeira participação de Lee foi na revista

All Winners Comics n.º 2 de 1942, que traz uma história em prosa

em que um dos personagens é chamado de “o editor de All

Winners”. Claro que o tal editor era Stan Lee, então com 19 anos,

que tinha acabado de ser elevado ao cargo após a partida de

Simon e de Kirby. Na história, “o editor” interage com os

membros do Esquadrão All Winners (também traduzido como

Esquadrão Vitorioso), incluindo o Capitão América, o Príncipe

Submarino, o Tocha Humana, o Destruidor e o Whizzer.

Seguindo essa lógica, ao longo dos anos, tornou-se uma tradição

os criadores de quadrinhos se inserirem nas histórias com certa

regularidade, e Stan Lee e seus colaboradores fizeram isso. Fosse

em histórias de super-heróis, como a de Quarteto Fantástico n.º 10, de 1962, em que Lee e Kirby eram usados pelo Doutor

Destino contra o Quarteto Fantástico; ou em histórias de comédia,

como a Chili n.º 3, de 1969, quando Stan Lee e o artista Stan

Goldberg foram visitados por Millie,de Millie, the Model, e sua

amiga/inimiga Chili, que invadiram os escritórios da Marvel para

discutir sobre como os dois Stans estavam retratando as

personagens nos quadrinhos.

Mas a maioria só pensa nas aparições de Stan Lee como, é claro,

nas dos filmes de ação e dos seriados de TV da Marvel,

começando com X-Men.

Lee adorava fazer essas participações especiais. Dois dias antes

de falecer, ele disse a Roy Thomas que adoraria fazer mais delas,

apesar de não ter mais tanta energia. Porém, de acordo com Tom

DeSanto, produtor e roteirista dos dois primeiros filmes dos X-

Men, as aparições quase foram interrompidas antes de virarem

um costume sério. Como DeSanto relatou, X-Men estava sendo

filmado logo após o fiasco da Stan Lee Media, e alguns executivos

da Marvel hesitavam em colocar Lee nos filmes, considerando a

publicidade negativa e as disputas jurídicas que a situação estava

gerando. No podcast Fatman Beyond, de Kevin Smith (como

relatado por Joshua M. Patton no Medium), DeSanto discutiu o

ocorrido. Parece que ele

 

e os outros cineastas insistiram para que o filme tivesse uma

participação especial de Stan Lee…

… o pessoal do filme foi avisado para não discutir nada da

produção [com Stan], por causa dos possíveis problemas jurídicos.

Uma diretiva que ninguém obedeceu. DeSanto disse que a chegada

de Stan no set foi como “Jesus” descendo dos céus. (…) [E] que,

após as filmagens, Stan conversou com cada funcionário da equipe

e com qualquer pessoa que viesse cumprimentá-lo ou pedir uma

foto. [ 488 ]

 

Sam Raimi, que dirigiu o filme do Homem-Aranha de 2002,

bem como as duas sequências, e que genuinamente admirava e

gostava de Lee, lembrou como foi criada a participação de Stan

naquele filme, em que resgatava uma garotinha de detritos

lançados pelo ataque do Duende Verde:

 

[O executivo de cinema da Marvel] Avi Arad disse: “Quero que você

ponha Stan no filme.”

(…) [Raimi respondeu:] “Não. Eu conheço Stan, e ele não sabe

atuar.”

“Eu quero ele no filme.”

Agora imagine que você é um diretor de um pequeno teatro da

Inglaterra, fazendo Macbeth, e lhe digam: “Ponha o dramaturgo na

peça.” Parece absurdo. “Tudo bem, então querem Shakespeare na

peça? Pois vou colocar Shakespeare na peça.” E agora é uma das

minhas partes favoritas do filme. [ 489 ]

 

O assistente executivo de longa data de Lee, Michael Kelly, me

contou, por e-mail, como as participações aconteciam:

 

Até onde eu sei, não havia nenhum contrato.

Os produtores e diretores dos vários projetos, começando com X-

Men, é claro, convidavam Stan para aparecer, e em geral ofereciam

transporte, acomodações e tudo o mais.

No entanto, o pagamento era mínimo. Como membro do

SAG/AFTRA, Stan recebia o pagamento diário por participações.

Ele as fazia mais porque amava aquilo do que por dinheiro.

Os diretores diziam o que tinham em mente para o papel e a fala

de Stan, que seguia as orientações, talvez dando uma ou outra

sugestão.

As aparições não eram consideradas parte das responsabilidades

de Stan para com a Marvel, embora Kevin Feige tenha começado a

garantir que ele aparecesse regularmente em suas produções da

Marvel Studios.

Os herdeiros de Lee continuam arrecadando os lucros de suas

muitas aparições. [ 490 ]

Quanto a Barrados no shopping, de 1995 — um filme de Kevin

Smith no qual Lee interpretou um papel bastante longo —, Kelly

lembrou:

 

Havia um “personagem” com o papel já escrito, com orientações

para interpretar “Stan Lee”. E ele praticamente recitou as falas que

estavam escritas, com apenas algumas conversas nos estúdios, em

que ofereceu a Kevin algumas sugestões de ajustes. Lee não

escreveu uma única fala para Kevin Smith. [ 491 ]

 

Em um momento bastante transcendente, mesmo para o padrão

cômico de suas aparições, no filme Capitã Marvel, de 2019, que se

passa em 1995, mesmo ano em que foi lançado Barrados no

shopping, Lee é visto em um trem, isolado do filme em si,

ensaiando suas falas do filme de Kevin Smith. (Também é digno

de nota o fato de que, em Capitã Marvel, o primeiro filme da

Marvel lançado após a morte de Lee, a montagem dos créditos de

abertura, em geral baseada em imagens do personagem principal

do filme em questão, foi substituída por uma montagem com as participações especiais de Lee, seguidas por um letreiro que dizia:

“Obrigado, Stan.”)

Em 2014, Lee se pronunciou sobre as participações especiais:

 

O que mais gostei de fazer deve ter sido o do filme Quarteto

Fantástico, em que não tinha sido convidado para o casamento de

Sue e Reed, e não me deixavam entrar. Eu reclamei: “Mas eu sou

Stan Lee!”, e o segurança me empurrou para o lado. [ 492 ]

 

Mas, em outras entrevistas, ele citou outras aparições como

favoritas, então não parece que Lee tivesse de fato definido qual

era sua predileta. O que muitos desses papéis parecem ter em

comum era o fato de exigirem vários níveis de interpretação. Seus

papéis transmitiriam pontos de enredo de graus variados de

importância, mas também reconheciam que o público sabia que

aquele figurante em particular não era só mais um ator iniciante

que passara em um teste e conseguira papéis em vários filmes.

Muitos espectadores estavam cientes de que aquele era Stan Lee

— quem quer que achassem que Stan Lee fosse.

Então, assim como interpretara uma versão de si mesmo que é

barrada no casamento de Reed e Sue (como aconteceu com ele e

Kirby nos quadrinhos que retratavam esse ocorrido, na edição

anual n.º 3 de Quarteto Fantástico), Lee aparece em Guardiões da

Galáxia Vol. 2 interpretando um personagem que parecia ser “Stan

Lee”, contando a um grupo de seres cósmicos que tudo vê, os

Vigias, uma longa história — na verdade, era essencialmente a

trama de vários filmes (e quadrinhos) da Marvel. O personagem

de Lee esgota a paciência ilimitada das criaturas a ponto de elas se afastarem, enquanto ele, em uma tirada cômica, pede que

esperem para ouvir mais, e depois se repreende por afastá-las.

Quando mencionei esse papel para Lee, parecia que ele (assim

como o público) não estava completamente certo do significado

da cena:

 

STAN LEE: Isso prova que na verdade eu sou o Vigia.

DANNY FINGEROTH: Você é o Vigia ou estava passando

informações ao grupo de Vigias?

STAN LEE: Bem, eu mesmo não tenho certeza. Vou ter que ver o

filme de novo. [ 493 ]

 

Uma rara aparição não cômica de Lee foi em X-Men: Apocalipse,

em que Lee e a esposa, Joan, interpretam um casal de idosos

apavorado quando numerosas armas nucleares são lançadas. A

atuação deles para essa cena curta transmitiu a angústia

necessária para o momento sem que nenhuma palavra fosse dita.

Um amigo e colega de Lee, o escritor Jim McLaughlin,

expressou alguns descontentamentos com todo o conceito das

participações especiais:

 

Entendo que essas participações especiais sejam divertidas e tudo

mais, um momento voltado para o público, mas na minha opinião

(…) eram apenas um pouco de salsinha na borda de um enorme

prato de realizações de carreira (…) e me parece incongruente Lee

sentir que precisava fazer essas participações minúsculas nos

filmes pequeninos para validar o trabalho de sua vida. [ 494 ]

Ainda assim, não há como negar que Lee gostava de aparecer no

cinema e que uma porcentagem significativa das pessoas que

sabem quem é Stan Lee só o conhece por causa de suas

participações especiais. Foi uma carreira secundária estranha e

inesperada, mas que o fez completar o ciclo, iniciado em seus dias

de atuação no Tabernáculo Hebraico de Washington Heights e no

WPA Federal Theatre Project.

* * *

Em 1957, havia três homens que não tinham nada a perder.

Stan Lee testemunhara o quase desaparecimento da empresa em

que trabalhara por toda a vida adulta. Ele nunca se recuperou

completamente da insegurança gerada por esse trauma.

Jack Kirby recentemente passara pela dissolução de sua parceria

de longa data com Joe Simon. Os sonhos de Kirby de atingir um

sucesso criativo e financeiro contínuo foram substituídos por uma

realidade de histórias sem graça, desenhadas em troca de

pagamentos baixos espalhados por várias empresas. Seu sonho de

atingir a glória com uma tirinha de jornal foi frustrado pelo editor

da DC, Jack Schiff, que tinha o poder de tornar sua vida miserável

e não hesitou em fazê-lo.

Steve Ditko entrara no ramo de quadrinhos no pior momento

possível: exatamente quando a indústria estava prestes a

desaparecer. Logo depois, contraiu tuberculose, o que

interrompeu sua carreira por um ano.

Lee, Kirby e Ditko, em sua autobiografia coletiva e ainda em

andamento conhecida como “O Universo Marvel”, capturaram

elementos de suas personalidades e origens e os enxertaram em

uma construção fictícia diferente de tudo o que já havia sido

criado antes deles. Os três conceberam uma espécie de mensagem no seu trabalho, de uma maneira que poucos criadores de

quadrinhos tinham conseguido estabelecer desde Jerry Siegel e

Joe Shuster, com a criação do herói guerreiro do New Deal, o

Super-Homem, em 1938.

Eram as pessoas certas, no lugar certo, na hora certa.

Ainda assim, Lee teve uma epifania muito importante, que

Kirby e Ditko não tiveram. Ele percebeu que, no início dos anos

1960, havia uma audiência de fãs adultos que liam quadrinhos

quando crianças e que ainda estavam interessados nas

publicações. Se estavam perdendo o público infantil da época para

a TV, talvez houvesse uma maneira de recuperar alguns dos

leitores mais velhos, agora na faculdade ou no mercado de

trabalho, para fazê-los ajudar a espalhar a ideia de que quadrinhos

eram legais, ou mesmo relevantes, sem perder o público maior de

crianças. Para isso, era preciso criar quadrinhos que pudessem

agradar vários níveis de leitores.

Kirby e Ditko eram parceiros perfeitos para Lee nesse

empreendimento. Os personagens objetivistas de Ditko — os

derradeiros homens de fronteira contra a comunidade —,

somados à visão de Kirby de um mundo cão, extremamente

competitivo, onde cada pessoa só poderia confiar — talvez — na

própria mãe, eram o ingrediente-chave para aquela receita

estranha, mas saborosa, que às vezes ficava crua, às vezes passava

do ponto. E o ponto de vista humanista de Stan Lee, ao mesmo

tempo cínico e idealista, pontilhado de humor, era o tempero

secreto que combinava tudo.

Lee já vivera sua parcela de tragédia e melodrama, e parecia

compartilhar de algumas das visões sombrias de Kirby e de Ditko

sobre a humanidade, mas ainda assim conseguiu imprimir uma atitude em geral otimista que acreditava no potencial de cada ser

humano (se não de toda a humanidade) para alcançar a felicidade

em um mundo tão cheio de imperfeições.

Essa combinação de impulsos contraditórios poderia ter criado

quadrinhos confusos, com protagonistas sem apelo ao público.

Mas, como editor, Lee sempre teve a palavra final nas mensagens

da Marvel, que deixava aberta e subliminar, e sempre se permitiu

seguir seus instintos. Como ele mesmo disse:

Sempre escrevi para mim mesmo. Imagino que não seja tão

diferente assim das outras pessoas. Quando gosto muito de uma

história, sei que deve haver outras pessoas com gostos semelhantes.

[ 495 ]

 

Como Ted Anthony, da Associated Press, escreveu sobre os

personagens da Marvel:

 

Alguns ricos, outros da classe trabalhadora, mas todos neuróticos e

com poderes conquistados através do infortúnio ou de escolhas

questionáveis. (…) E às vezes era difícil diferenciar os heróis dos

vilões. Mais ou menos como na vida real.

Isso foi, em grande parte, graças a Lee. (…) Ele deu

personalidade, ambiguidade e uma narrativa a personagens que

não demoraram a conquistar o coração do público. [ 496 ]

 

A epifania de Lee, catalisada pelo trabalho de seus

colaboradores, impulsionou uma mudança pessoal e profissional

que permitiu que ele desencadeasse algo até então inexplorado.

Lee afirmou nunca ter estudado muito da psicoterapia (“Nunca

tive tempo”, revelou a David Hochman em 2014), mas parece quase o tipo de epifania que se pode ter depois de um período de

psicanálise. [ 497 ]

Lee tinha a autoridade de um proprietário, mas a insegurança

financeira de um freelancer. Ainda estava à mercê do chefe,

embora a maioria de seus colegas o visse como o chefe. Podia

escrever — e de fato escreveu — histórias nas quais assumia ao

mesmo tempo as identidades de oprimido e opressor, rei e

vassalo, chefe e lacaio, líder e seguidor, sempre expressando com

muita eloquência como se sentia nessas posições.

Como editor, diretor de arte, coescritor e roteirista — e parente

do dono —, Lee estava em uma posição única entre seus colegas,

funcionários e toda a indústria. De certa forma, isso lhe permitiu

virar um verdadeiro autor, alguém que de fato — com a

contribuição indispensável do chefe e dos cocriadores — produzia

quadrinhos que faziam jus às ideias que ele realmente planejava

passar. Podiam até ser ideias que ele criava apenas em parte, ou

que às vezes distorciam as intenções de seus parceiros. Mas, no

fim das contas, os quadrinhos retratavam suas ideias.

Como Anthony, da AP, observou:

 

Muitos sentiam que Lee não compartilhava crédito suficiente com

pioneiros dos quadrinhos, como Jack Kirby e Steve Ditko. (…) O

que é justo dizer. Mas parte da genialidade de Lee era sua

capacidade de ser um mestre da montagem.

Como Bob Dylan ou Gene Roddenberry, Lee juntava impulsos

culturais, elementos já em andamento na sociedade, e construía sua

própria colcha de retalhos. [ 498 ]

Lee costumava escolher o Surfista Prateado para representar

seu avatar nos quadrinhos. Era no Surfista que canalizava seus

sentimentos sobre a falta de apreço da humanidade pela beleza e

generosidade na Terra.

Ainda assim, as aventuras solo que escreveu para o Surfista

nunca venderam muito, apesar da bela arte de John Buscema,

Moebius e outros. O personagem a quem Lee deu voz era um

messias espacial que lamentava a loucura da humanidade. Mas,

apesar de sincera, fora da Trilogia Galactus, essa voz nunca soou

como o verdadeiro Stan Lee. Talvez o aspirante a romancista

Stanley Martin Lieber é que escrevesse essas falas. O Surfista de

Lee era sério demais para ser levado a sério.

Por outro lado, é nas palavras e nos pensamentos que ele

escrevia para Peter Parker, Ben Grimm e Nick Fury — crianças

pobres que, com talento e determinação, melhoraram de vida —

que mais aparecia o dom de Lee para canalizar os pensamentos e

as emoções das pessoas comuns.

Na primeira história da S.H.I.E.L.D., publicada na edição n.º 135

de Strange Tales, de 1965, de autoria de Lee e de Kirby, Nick Fury

— então com cerca de 45 anos, mais ou menos a idade de Lee —

se torna a estrela de sua própria série “moderna” (em oposição ao

seu papel principal em outra história em quadrinhos, que se passa

nos tempos da Segunda Guerra Mundial). Embora seja frequente

identificar Fury com Jack Kirby, também há bastante de Stan Lee

no personagem. Na história, Fury acaba de ser escolhido como

diretor da agência de espionagem e super-heróis. Sua resposta à

oferta é: “De onde vocês tiraram que eu tenho o que é preciso

para um cargo desses? Eu vou estragar tudo!”

O charmoso e sofisticado Tony Stark, membro do círculo

interno da S.H.I.E.L.D. (além de secretamente ser o Homem de

Ferro), o tranquiliza: “Você se subestima, Fury! Sua vida inteira

preparou você para este trabalho!”

A vida inteira de Stan Lee foi o que o preparou para o trabalho

de dar uma voz autêntica aos personagens e quadrinhos da

Marvel.

Seu dom de saber o que os leitores queriam ouvir nos anos

iniciais da Marvel é que tornou possível que ele mantivesse uma

eterna conexão com o público. Sua lealdade à visão que tinha de

um “cara normal” foi um dos elementos principais da mágica dos

quadrinhos da Marvel.

Essa visão, somada a inúmeros elementos tangíveis e intangíveis

fornecidos por Kirby, Ditko e outros artistas, é o legado de Stan

Lee.