A Espetacular Vida de Stan Lee
4. A psicopatologia dos quadrinhos
Somos empresários, não deveriam nos
repassar a responsabilidade de proteger
crianças problemáticas que podem ser
influenciadas por histórias policiais.
— Stanley Lieber, The New York Herald Tribune,
9 de maio de 1948
A ssim como Stanley Lieber, Judith Klein nasceu em 1922, só que no Bronx. Nesse mesmo ano, Friedrich Ignatz Wertheimer imigrou da Áustria para os Estados Unidos a fim de concluir sua formação em psiquiatria na Universidade Johns Hopkins.
Em 1948, as vidas de Stan Lee, Judith Crist e Fredric Wertham
ficariam entrelaçadas por circunstâncias relacionadas à ordem
surpreendente de Goodman.
* * *
Por que Martin Goodman mandaria Stan Lee demitir sua equipe
de artistas, mesmo com os negócios crescendo?
A história nos trouxe uma explicação que é principalmente
econômica.
Para garantir que a empresa sempre tivesse material suficiente
para tantos quadrinhos — cerca de setenta títulos por mês —, e
porque não gostava de negar trabalho a quem precisava, Lee
acumulara um arquivo impressionante de histórias, que poderiam
ser incluídas quando e onde fosse necessário. Conta-se que,
quando Goodman descobriu todas aquelas páginas arquivadas em
um armário — mesmo que, pela lógica, ele já devesse ter notado o
acúmulo antes disso —, ficou tão furioso que decidiu demitir
todos para usar aquele excesso de papel.
Parando para pensar, a história não faz muito sentido. Se o
problema fosse excesso de estoque, teria sido melhor reduzir a
equipe ou talvez aumentar temporariamente a quantidade de
publicações para usar a arte acumulada. (Afinal, grande parte do
excedente tinha sido gerada pelos artistas da casa no decorrer do
dia de trabalho, não apenas por freelancers, que apareciam de vez
em quando.) Mas e se surgisse uma nova moda que precisassem
seguir, o que parecia cada vez mais inevitável? Estariam sem nada.
Outra explicação mais plausível era que alguém da empresa de
Goodman — possivelmente o supervisor da contabilidade,
Monroe Froehlich Jr. — chegou à conclusão de que a nova
legislação tributária tornava mais em conta manter os artistas
como freelancers (regime já adotado para a maioria dos
escritores), para que trabalhassem de casa. No mínimo, a empresa
economizaria no aluguel de espaço para a equipe, sem mencionar
os benefícios dos contratos. De certa forma, isso também tornaria a empresa mais capaz de responder depressa às mudanças de
mercado, já que contratariam apenas os artistas adequados para as
tendências do momento.
Raphael e Spurgeon observaram que “quase todos os
funcionários foram dispensados em grupos a partir do Natal de
1949” e que “Lee conseguiu oferecer bastante trabalho freelance
para os antigos artistas do Bullpen até o fim de 1950 e 1951”. [ 117 ]
Foi a preocupação com as mudanças do mercado que fez com
que Goodman encerrasse contrato com a distribuidora, Kable
News, e abrisse sua própria empresa de distribuição para os
comics e demais revistas. [ 118 ] Como Raphael e Spurgeon
observaram: “Quando abriu a Atlas News Company [empresa
distribuidora], que tinha o respaldo financeiro dos 82 títulos
mensais que Stan Lee e sua equipe produziam na divisão de
quadrinhos, eliminando o intermediário, Goodman conseguiu
aumentar os lucros. Assim, também conseguiria responder muito
mais depressa às mudanças de mercado e aos números de vendas,
sempre se alterando.” [ 119 ]
Havia um fator muito importante nas “mudanças de mercado”, e
era bem maior que a questão usual das preferências dos leitores: o
ataque contínuo aos quadrinhos, que vinha desde o editorial da
Sterling North de 1940 (e que antes disso tivera outros
momentos, já que o problema começara logo nas primeiras
tirinhas dos jornais). Porém, a partir do fim dos anos 1940,
passara a ter como líder o psiquiatra Fredric Wertham, o mais
ferrenho de um número crescente de críticos.
Goodman, Froehlich e Stan Lee perceberam que o movimento
contra os comics tinha impactado a percepção pública da Timely e
que precisavam se adaptar depressa aos novos tempos para sobreviverem a qualquer possível golpe desse movimento.
Dezenas de estados aprovaram leis antiquadrinhos, e houve até
queima pública de gibis pelo país, inclusive em Binghamton, Nova
York, a apenas algumas horas de carro dos escritórios da maioria
das editoras, em Manhattan.
Diversas editoras faliram ou estavam prestes a fechar as portas,
e, com as mudanças estruturais, Goodman não apenas sobrevivia
à crise: com menos empresas produzindo para um público ainda
considerável, os quadrinhos da Timely prosperavam. O público
ainda consumia milhões de gibis de todos os tipos — embora não
comprassem mais tantos quadrinhos de super-heróis.
* * *
Alguns anos antes, com o fim da Segunda Guerra Mundial, a moda
dos super-heróis diminuíra um pouco, mas as revistas em
quadrinhos continuavam populares como nunca, se não mais. A
mídia ia crescendo e se diversificando, com todos os gêneros
representados. Claro que sempre haveria gêneros mais ou menos
populares. No fim da década de 1940 e início de 1950, havia
quatro gêneros no topo da popularidade.
Havia quadrinhos de romance, uma invenção recente de Simon
e Kirby para a Crestwood Publications, mas logo adotado por toda
a indústria. Havia quadrinhos policiais, com títulos como Justice
Traps the Guilty! [A justiça prende os culpados!] e crime Does Not
Pay [ o crime não compensa]. Havia quadrinhos de terror, sempre
tentando chocar os leitores. E havia também os quadrinhos de
guerra, que ganharam muita popularidade durante a Guerra da
Coreia.
A linha EC Comics, do editor William M. Gaines, era conhecida
pela qualidade dos roteiros e da arte. Lee estudou bastante os quadrinhos da EC, ainda mais quando Goodman o encorajou a
imitar o que estava funcionando para aquela empresa. E, como
Raphael e Spurgeon observaram, Lee ficou fascinado pela maneira
como a EC “estabelecera uma identidade para todos os
quadrinhos da marca, mesmo tendo, assim como a Atlas, sempre
trabalhado com vários gêneros”. [ 120 ]
No entanto, o que a EC e algumas outras editoras faziam era
testar os limites do que o público aceitava com suas histórias de
crime e terror. Um exemplo extremo, agora clássico, foi a história
“Foul Play” [Jogo sujo] da EC, na revista Haunt of Fear n.º 19, de
junho de 1953, sobre uma partida de beisebol em que os
jogadores usavam partes do corpo de um personagem odiado — a
cabeça como bola, o intestino como as linhas no chão, que
definem a base. Muitos dos quadrinhos policiais enfatizavam a
violência brutal e apresentavam femmes fatales extremamente
sexualizadas. Histórias como essas eram aproveitadas pelos
críticos e se tornavam objeto de escrutínio negativo da mídia.
A Timely/Atlas de Goodman (a empresa passou a ser conhecida
pelos dois nomes, embora a Atlas tecnicamente fosse apenas o
nome da franquia de distribuição) foi a mais prolífica imitadora da
EC, e com quadrinhos de melhor qualidade. Isso se deu em parte
graças ao fechamento de muitas outras editoras, o que
disponibilizava mais artistas qualificados no mercado. Embora
seus quadrinhos de crimes e terror raramente fossem tão
chocantes quanto os da EC e de algumas outras, a Timely
competia em pé de igualdade.
Havia tentativas de banir ou regulamentar os quadrinhos —
sobretudo os policiais e de terror — nos governos locais de todo o
país. Embora Lee tomasse cuidado para que suas revistas não tivessem representações de violência e sanguinolência tão
intensas quanto as de algumas dos outros editores, os quadrinhos
ainda podiam ser bastante chocantes, pelo menos aos olhos dos
críticos. Entre os antiquadrinistas, o mais proeminente foi o
psiquiatra Fredric Wertham.
Wertham militava por várias causas, e, em 1954, sua pesquisa
foi usada como evidência dos efeitos negativos da segregação e a
favor da integração escolar no processo histórico de Brown contra
o Conselho de Educação. Ele também dirigia uma clínica
psiquiátrica popular no Harlem.
Trabalhando com crianças negras e pobres em sua clínica do
Harlem, Wertham se convenceu de que os problemas que muitos
dali enfrentavam eram, se não causados, ao menos agravados pela
forma como a violência e a misoginia eram retratadas na cultura
popular, sobretudo nos quadrinhos.
Ao contrário de outros oponentes das HQs, que as atacavam por
um viés religioso e/ou conservador, Wertham era um progressista
liberal que acreditava que os quadrinhos, como subcultura
“secreta” a que as crianças tinham acesso por apenas dez centavos
de dólar, poderiam causar danos aos jovens impressionáveis — e
em níveis que os pais nem sequer poderiam imaginar. Embora
parecesse sincero em suas preocupações, Wertham precisava de
publicidade para divulgar a tese, e não tinha vergonha de correr
atrás de exposição. Ele se tornou um intelectual público, lançando
artigos sobre suas preocupações acerca dos quadrinhos em muitas
revistas populares. Suas ideias foram muito bem recebidas entre
os adultos preocupados com o notável aumento — tanto em
número quanto em nível de brutalidade — na criminalidade
juvenil, também conhecida como “delinquência juvenil”.
(Nos últimos anos, a historiadora de quadrinhos Carol Tilley
descobriu o que muitos suspeitavam: Wertham costumava fingir e
falsificar dados para atingir os resultados desejados.) [ 121 ]
* * *
Curiosamente, as atividades antiquadrinhos de Wertham eram
noticiadas por uma jovem repórter que entrevistara Stan Lee pelo
menos uma vez.
Judith Klein, filha de um outrora próspero comerciante de peles
de Nova York que perdera tudo durante a Grande Depressão,
frequentou a escola Morris, no Bronx, e a Faculdade Hunter, em
Manhattan. Depois disso, obteve seu título de mestrado na Escola
de Jornalismo da Universidade Columbia. Em 1945, foi trabalhar
para o New York Herald Tribune como repórter de artigos gerais.
Em 1947, casou-se com o profissional de relações públicas
William Crist, assumindo seu sobrenome. Como Judith Crist,
galgou o posto de uma das críticas de cinema mais famosas de
todos os tempos. Mas, em 1947, ainda uma jovem repórter, foi
designada para cobrir as pautas de Fredric Wertham. Como ela
relembrou, em 2008:
Eu era repórter de Acontecimentos da Sociedade [do Herald
Tribune] (…). A editora era Dorothy Dunbar Bromley, uma
colunista de destaque na época (…) e parece que ela havia lido ou
ouvido falar de Wertham. Então, me enviou para entrevistá-lo em
seu apartamento. (…) Lembro que ele tinha bons argumentos
[contra os quadrinhos] (…) e publiquei a entrevista. (…)
Eu admirava parte do trabalho dele (…) tinha alguns de seus
livros. O texto mais memorável acho que se chama “Medea in Long
Island” [A Medeia de Long Island], ou coisa do tipo (…) sobre uma
mulher que matou os filhos em algum lugar de Long Island. Ele
compara o caso com o complexo de Medeia, e por aí vai. Um texto
fascinante e verdadeiramente inesquecível sobre uma Medeia
moderna. [ 122 ] [O texto se chamava “The People vs. Medea” [O
povo vs. Medeia], e apareceu originalmente no Harper’s Bazaar de
janeiro de 1948.] [ 123 ]
Outro fã dos escritos de Wertham sobre assassinos insanos era
Stan Lee. Como ele lembrou:
Quando eu era criança, lá pelos 13 anos, li um livro [Dark Legend]
de um psiquiatra (…) e achei maravilhoso. Abordava algumas
questões realmente importantes. (…) Anos depois, descobri que era
o mesmo dr. Wertham que atacava os quadrinhos. Não sei como ele
foi ficar tão doido. [ 124 ]
Dark Legend foi publicado em 1941, então Lee já tinha 18 anos e
trabalhava na Timely quando foi lançado. Mas o fato é que ele se
lembrava do livro mais de sete décadas depois de tê-lo lido.
Judith Crist recordou:
[Wertham] era muito impressionante. E também muito charmoso
(…). Nós mantivemos certo contato. (…) Acho que ele me enviou
um exemplar da sua coletânea de ensaios, ou coisa do tipo. (…)
Acho que ele era um completo egoísta. Não via muito além dos
próprios princípios. Não era o tipo de homem que eu considerava
admirável, mas ficou na minha memória. [ 125 ]
Ao que parece, Crist ficou mesmo impressionada e encantada,
mesmo que não o considerasse tão admirável assim. De qualquer
forma, por qualquer motivo que seja — talvez apenas por ser uma
jovem repórter cujos instintos pedissem para seguir com a
matéria —, o Herald Tribune publicou inúmeras de suas
reportagens sobre Wertham e suas atividades antiquadrinhos.
Em 28 de dezembro de 1947 (25.º aniversário de Lee), Crist
escreveu um artigo sobre Wertham para o Herald Tribune, com a
manchete: comic books are called obscene by n.y.
psychiatrist at hearing [Em audição pública de N.Y., psiquiatra
acusa histórias em quadrinhos de obscenidade]. E no subtítulo:
“Dr. Wertham Says They Present ‘a Glorification of Sadistic-
Masochistic Sexual Attitudes’; He Defends Nudist Society’s
Magazine.” [Dr. Wertham diz que o conteúdo dos quadrinhos é
“uma glorificação das atitudes sexuais sádicas e masoquistas”,
enquanto defende a revista da Nudist Society.]
O artigo relata que Wertham, testemunhando a favor dos
editores da revista nudista Natural Herald, acusada de
obscenidade pelo Departamento de Correios de Washington,
D.C., declarou que a revista estava longe de ser obscena. O artigo
continuava, com um salto absurdo da lógica:
Mas, declarou o psiquiatra, se a obscenidade deve ser avaliada por
sua lascívia ou por seu efeito de estimular sexualmente uma pessoa
comum, então, sugeriu, é hora de voltarmos a atenção da justiça às
histórias em quadrinhos, que definiu como “definitivamente
prejudiciais, culpadas de incutir atitudes erradas sobre sexo e
violência”.
Para o Herald Tribune, Crist também cobriu o simpósio
Psychopathology of Comic Books[A psicopatologia das histórias
em quadrinhos], conduzido por Wertham na Universidade de
Nova York, em 19 de março de 1948. Outros palestrantes do
simpósio incluíam os críticos culturais Gershon Legman e a
parceira de pesquisa de Wertham, Hilde Mosse. Na plateia — mas
sem chance de fala — estavam membros da indústria de
quadrinhos, incluindo o cartunista Harvey Kurtzman, que na
época criava pequenas histórias humorísticas para Lee, na Timely.
Wertham comparou a presença dele lá a “produtores de bebidas
alcoólicas em um simpósio sobre alcoolismo”. [ 126 ]
* * *
Talvez o artigo mais conhecido de Crist — e Wertham — sobre
quadrinhos tenha sido publicado na edição de 27 de março de
1948 da revista Collier’s. O texto foi intitulado “Horror in the
Nursery” [Horror no berçário]. (“Fiquei um pouco surpresa com
a manchete”, refletiu Crist, em 2008, indicando que o tom era
mais lúgubre do que o pretendido.) [ 127 ] Com a reportagem,
Crist deu espaço a Wertham em uma revista popular no país
inteiro, inclusive com fotos de atores mirins “torturando” uns aos
outros com base em ações supostamente encontradas nas revistas
em quadrinhos. No texto, Wertham — por meio de Crist —
definiu vários pontos que considerava relevantes para a causa.
Para citar apenas alguns exemplos, ele disse:
As histórias em quadrinhos estão intencionalmente acabando com
a consciência moral da juventude. Apresentam a violência como
sedutora e cruelmente heroica. (…) Se os responsáveis se recusam a
limpar o mercado de quadrinhos (…) é hora de criar uma legislação
para retirar essas revistas das bancas e lojas. [ 128 ]
Embora Wertham não defendesse a censura de quadrinhos para
adultos, sem dúvida desejava que essas revistas não existissem e
que houvesse regulamentação para a venda a crianças menores de
15 anos.
Sobre os psiquiatras que defendiam os quadrinhos, disse:
Ver alguns psiquiatras infantis apoiando os quadrinhos não é
comprovação de que sejam mídias saudáveis, e sim de que a
psiquiatria infantil está doente. [ 129 ]
Em 9 de maio de 1948, um artigo do Herald Tribune intitulado
“Controversy Over ‘Crime’ Comic Books Grows” [Cresce a
controvérsia sobre os quadrinhos “policiais”], Crist cobriu as
tentativas do governo local de regulamentar os quadrinhos em
Detroit, Indianápolis e outras cidades. Na matéria, ela observou
que:
A maioria dos editores [com quem conversei] enfatizou sua
integridade pessoal, assim como Stanley Lieber, responsável por
cinco dos títulos proibidos [de quadrinhos policiais].
Stan Lee, usando o nome verdadeiro (que ainda era seu nome
legal) para a entrevista com Crist, disse:
Não estamos vendendo livros sobre peitos e sangue. Somos
empresários, não deveriam nos repassar a responsabilidade de
proteger crianças problemáticas que podem ser influenciadas por
histórias policiais. Somos muito rigorosos na autocensura.
Não se parece muito com o Stan Lee afável com chapéu de
hélice que os colegas vieram a conhecer. Talvez Lee/Lieber ainda
não tivesse aprendido a encantar os repórteres. Ou talvez tenha
sido justamente a declaração mais polêmica e cruel que parecera
mais atrativa para um artigo sobre a influência perniciosa dos
quadrinhos.
* * *
Em outubro de 1948, cinquenta cidades tinham adotado medidas
para proibir ou censurar os quadrinhos. [ 130 ] Como outras
empresas, a Timely contratou um especialista para combater a
atenção negativa. Nesse caso, foi o dr. Jean Thompson, “psiquiatra
do Departamento de Orientação Infantil do Conselho de
Educação da Cidade de Nova York”, como declarou o editorial, nas
edições de novembro e dezembro de 1948 das revistas em
quadrinhos. (Esta obra e três editoriais subsequentes se referiram
à empresa como Marvel Comic Group, nome usado algumas vezes
ao longo dos anos antes de virar permanente, na década de 1960.)
Os editoriais eram todos assinados como “Editores da Marvel
Comic Group”. O historiador Michael Vassallo acredita que foram
escritos por Stan Lee, porém “certamente sob a direção de Martin
Goodman”. [ 131 ] Parece provável que uma comunicação tão
importante com os leitores tenha sido produzida pelo chefe
editorial.
O primeiro editorial, escrito em uma linguagem amigável,
porém séria, afirmava:
Queremos ajudá-lo a proteger seu direito de comprar e ler suas
revistas favoritas, contanto que não contenham nenhum material
que possa ser prejudicial para você.
O texto prosseguia com a explicação de que o dr. Thompson
fora contratado para “garantir que nossas histórias não
contenham nenhum material que possa causar objeções em seus
pais, professores ou amigos”.
O segundo editorial, nas revistas de janeiro a março de 1949, é
menos casual e mais específico. Em referência a um artigo de
Wertham na Saturday Review of Literature, declarava que:
Um tal de dr. Wertham quer discutir o problema da delinquência
juvenil nos Estados Unidos e atribui a culpa de alguns dos casos a
revistas em quadrinhos. (…)
Assim, os inimigos dos quadrinhos foram concentrados em uma
só pessoa: o dr. Wertham.
Após citar a resposta muito eloquente de David Pace
Wigransky, de 14 anos, ao artigo de Wertham, em uma edição
posterior do Saturday Review (“Em nenhum desses casos ficou
provado que a leitura de gibis foi a causa da delinquência”), Lee
prosseguiu com a pergunta:
Por que não dar crédito aos quadrinhos pela boa influência que
exerceram sobre milhões de crianças saudáveis e normais, em vez
de apenas culpá-los pelos poucos delinquentes?
No terceiro editorial, nas revistas de abril e maio de 1949, Lee
tentou outra abordagem, fazendo o possível para estabelecer os
quadrinhos como um passo natural da evolução da grande lite-
ratura:
Que esses críticos de hoje olhem para a história. Eles precisam
decidir se querem ser lembrados como seus pares do século XX, que
chamaram Robinson Crusoé de “desleixado”.
A raiva por trás das palavras do editorial é palpável. Lee estava
pedindo a Wertham, Legman e outros acadêmicos e intelectuais
com opiniões negativas a respeito dos quadrinhos que levassem
em conta como a história os julgaria. O que foi bastante audacioso
para um garoto de 26 anos cuja credencial mais avançada era um
diploma de ensino médio em uma escola pública de Nova York.
O quarto e último editorial, nos quadrinhos da Marvel/Timely
de junho e julho de 1949, enquadrava o argumento da empresa
em um discurso apaixonado, porém melancólico, com o escritor
quase suspirando enquanto lamentava:
Os adultos devem um pedido de desculpas a vocês, jovens, porque
não fizemos do mundo um lugar muito seguro e pacífico para se
viver. (…)
E seguia com a reflexão de que, ao menos nos quadrinhos, os
mocinhos sempre venciam. E apontava:
Assim como existem pessoas boas e más, programas de rádio bons
e ruins, filmes bons e ruins, também há literatura boa e ruim (…)
Os quadrinhos, com suas muitas imagens, são apenas mais um tipo
de literatura.
Os quadrinhos, prosseguia o editorial, são “um patamar no
caminho da apreciação dos livros que resistiram ao teste do
tempo”.
Aqui, Lee gastava seus últimos recursos de defesa, dizendo aos
leitores que o mundo podia às vezes ser um lugar ruim, mas, ao
menos nos quadrinhos, ao contrário da vida real, os mocinhos
sempre vencem. Que alguns quadrinhos são “bons” — embora ele
confunda “bom”, no sentido de “agradável”, com “bom” de
“benéfico” — e que comics são apenas parte da “nossa vasta
herança literária”, não a única coisa que deve ser lida.
Não dá para acusá-lo de não ter tentado.
Embora seja difícil mensurar o efeito desses editoriais, pode-se
dizer que foram no mínimo um dos fatores que levaram a
empresa a manter-se ativa nos oito anos seguintes, enquanto
vários concorrentes fechariam as portas.
Curiosamente, a voz nos editoriais é familiar, é a voz editorial
que Lee vinha desenvolvendo desde seu primeiro trabalho —
aquela história em prosa da Captain America Comics n.º 3 —, que
floresceria como voz da Marvel e de Stan Lee nas respostas às
cartas dos leitores e nos Bullpen Bulletins das revistas da década de
1960.
* * *
Enquanto a luta de Wertham contra os quadrinhos ganhava força,
a vida continuava para Stan Lee, sua família e sua empresa.
Lee ainda supervisionava dezenas de quadrinhos por mês e
escrevia várias histórias por semana. Mesmo — ou talvez especialmente — após as demissões de 1949, ainda havia muito
trabalho a ser feito. Porém, com algumas exceções, Lee contratava
os artistas como freelancers. Novos nomes que logo se tornariam
conhecidos dos leitores de quadrinhos começaram a surgir.
Embora ainda houvesse alguns veteranos dos anos 1930 e 1940 —
principalmente Carl Burgos e Bill Everett —, também havia vários
artistas jovens demais para terem participado dos primeiros anos
da febre dos super-heróis, artistas que tinham acompanhado as
histórias na infância ou na adolescência e que estavam ansiosos
para entrar em campo. Para os mais entusiastas, no entanto, os
quadrinhos ainda eram uma maneira de ganhar dinheiro rápido,
um caminho para impulsionar carreiras de ilustrador ou
publicitário.
Ainda assim, foi a época em que artistas como John Romita, Joe
Maneely, Gene Colan, Dick Ayers e Joe Sinnott começaram a
aparecer. Até Jerry Robinson, famoso pelo trabalho em Batman
nos anos 1940, trabalhou para a Timely de 1950 a 1960. Sobre
trabalhar para Lee, ele lembrou:
Acho que ele devia conhecer meu trabalho em Batman ou alguma
outra revista, porque já chegou dizendo: “Caramba, eu adoraria
trabalhar com você!” (…) Ele me atraiu de volta para os
quadrinhos, já que eu não andava muito interessado neles. (…)
Tivemos um relacionamento muito bom durante aqueles [dez]
anos. E ele era um editor muito tranquilo. Acho que confiava muito
no meu trabalho, então eu nunca precisava que ele revisasse nada. [
132 ]
Em algum momento do período em que Robinson trabalhou
para Lee, ele apresentou o editor a um de seus alunos da Escola de
Cartunistas e Ilustradores (que não demorou para passar a se
chamar Escola de Artes Visuais), Steve Ditko.
* * *
Durante esse período de cerca de seis meses, de 1949 a 1950, Stan
Lee dispensou os artistas da antiga equipe, embora não tenha
demorado a contratá-los, só que como freelancers. Foram
mandados embora até criadores mais confiáveis, que já tinham
atuado como editores. Lee considerava muitos deles amigos,
pessoas cujas famílias conhecia e com quem se importava. Ele
lembrou o período de cortes como “dias sombrios”. [ 133 ] Um
exemplo foi Al Jaffee, que editava quadrinhos para adolescentes e
passou a apenas escrevê-los e desenhá-los.
Mas, ainda que sempre estivesse à sombra da destruição
iminente, a Timely vivia um tempo de prosperidade. Editoras
menores estavam fechando, mas a empresa de distribuição de
Goodman lhe permitiu agarrar o mercado das editoras que
estavam saindo de campo ou passando por severas reduções.
(Goodman também reduziu os pagamentos dos freelancers como
parte dessa estratégia de sobrevivência.) Stan Lee supervisionava
mais de setenta títulos. [ 134 ]
A lista de artistas que trabalharam para Lee no período entre
1950 e 1957 é incrível, com quase todos que eram ou ainda se
tornariam gigantes dos quadrinhos, como John Romita, Gene
Colan, Stan Goldberg, Joe Sinnott, Jerry Robinson, Bernard
Krigstein, Al Feldstein, Al Jaffee e muitos outros. Algumas das memórias deles podem nos dar uma ideia de como eram aqueles
tempos e do papel de Lee na época.
Goldberg, o chefe da equipe de coloristas, era amigo dos Lee. E,
mesmo na recessão, Lee tentava expandir seus horizontes.
Segundo Goldberg:
Quando íamos visitá-los (…) Stan chamava: “Vamos lá em cima!”
Era onde ele trabalhava. “Quero discutir algumas ideias.” E eram
ideias que tentaríamos transformar em tirinhas de jornal. (…) Por
exemplo, uma tirinha sem continuidade e de um só quadro (…) que
chamamos de “Doc”. Era sobre um médico muito camarada. (…)
[Não foi vendida para nenhum jornal, mas] conseguimos usar
quase 75% do material que criamos para “Doc” em revistas
médicas. [ 135 ]
A esposa de Goldberg, Pauline, recordou:
Stan [Goldberg] (SG) dizia que sempre almoçava com Stan Lee
(SL). Lee o arrastava pela cidade para comprar todos os jornais e
conferir as tirinhas. (…) SG disse que, quando voltava ao escritório,
estava exausto, com as pernas doendo [Stan Lee era famoso pelas
longas caminhadas]. (…) SL sempre foi muito bom para SG.
Sempre aumentava o salário sem que ele sequer pedisse. Além
disso, sempre opinava sobre o trabalho de SG, o que era mesmo
muito bom para ele, pois sentiu que realmente melhorou como
profissional. SG sempre foi muito grato, sempre fez questão de
dizer isso. Sempre sentiu que devia sua carreira a SL.
Também me lembro de ir à casa dos Lee para depois jantarmos
no bairro de Hewlett Harbor, em uma noite de neve, e encontrei SL
parado no bar de sua casa, usando blazer azul e calça branca, muito
distinto. Parecia que estava em um navio [ancorado] em uma ilha
do Caribe. (…) [Stan e Joan] eram muito carismáticos. Eram feitos
um para o outro. [ 136 ]
O artista Joe Sinnott, que começou a trabalhar para Lee em
1950, lembrou:
Stan sempre gostou de coisas exageradas. Ele realmente subia na
mesa e mostrava a pose que queria. (…) E levava o trabalho a sério.
(…) Acho que não dava para encontrar um editor melhor. [E] ele
escreveu histórias bem interessantes (…) e fáceis de desenhar,
considerando o aspecto visual [de contar a história]. [ 137 ]
O artista Bernard Krigstein passaria a ser considerado uma
“lenda” por seu trabalho para a EC, sobretudo em “Master Race”,
uma história escrita por Al Feldstein. Entre 1950 e 1957, Krigstein
fez mais de setenta histórias para Lee na Timely/Atlas — muito
mais do que fez para a EC ou qualquer outra editora, e com mais
liberdade criativa. [ 138 ] Mesmo assim, não foi um dos que
guardaram boas lembranças de Lee. Eles encerraram a parceria
pelo que poderia ser chamado educadamente de “diferenças
criativas”.
Um artista que gostava de trabalhar com Lee e que era
correspondido nesse aspecto, além de ser seu amigo, era Joe
Maneely, que fazia lindos desenhos para quase qualquer gênero,
inclusive humor. Ele desenhou e fez a arte-final de suas próprias
histórias numa velocidade extraordinária. Ele e Lee também
faziam uma tirinha razoavelmente bem-sucedida, a Mrs. Lyons’
Cubs [Os filhotes da sra. Lyons].
John Romita juntou-se à Atlas em 1949 e, dessa época até 1957,
desenhou mais de duzentas histórias para Lee. Gene Colan
também produziu a mesma quantidade de trabalho durante esse
período. Ambos se tornariam os pilares da Marvel nos anos 1960.
Carl Burgos, que tinha criado o Tocha Humana em 1939, estava
na equipe do escritório, desenhando muitas histórias, mas
também trabalhando como editor de capa. A arte de muitas das
capas da Atlas da década de 1950 era consistente porque, naquele
período, Burgos retocou quase todas — um processo que Vassallo,
cuja pesquisa esclareceu o papel dele no escritório, chamou de
“Burgonizar”.
* * *
Em abril de 1950, Joan Lee deu à luz uma filha, Joan Celia Lee,
que mais tarde foi apelidada de “JC”, para diferenciá-la da mãe.
Quando perguntado a respeito de a paternidade ter mudado seu
modo de ver a da vida, Lee lembrou, em 2017:
Não, isso não mudou nada na minha perspectiva de vida. Só me
deixou com menos tempo para escrever, porque eu tinha que passar
mais tempo com minha filha. [ 139 ]
Sobre a adaptação do marido à vida de pai, Joan Lee disse:
Quando minha filha nasceu, [Stan] sempre arranjava tempo para
levá-la aos parques e carrosséis. Não importava o quanto
trabalhasse, Stan sempre tinha tempo para ela e para mim. Sempre
arranjava tempo para passar [com JC]. A gente até chegava a se
preocupar de sermos próximos demais. Quando passarmos para o
Desconhecido, ela sentirá muita falta de nós, porque é louca pelo
pai (…) e pela mãe. [ 140 ]
Mais tarde, naquele ano, na edição de outubro de 1950 da
revista Focus, editada por Lee, apareceu um artigo — creditado a
“Stanley Martin” — intitulado “Don’t Legalize Prostitution” [Não
legalize a prostituição].
É um texto interessante, e não apenas por ser uma peça rara de
não ficção escrita por Lee para uma publicação da Magazine
Management — e a Focus era uma das poucas revistas que
Goodman editava —, mas também porque Stan parece ter usado
as informações sobre ISTs que provavelmente havia aprendido
durante a campanha de prevenção contra doenças venéreas que
fez para o Exército.
A opinião exposta no artigo — de que legalizar a prostituição
tendia a aumentar, não a diminuir, a incidência de doenças
venéreas, um argumento para que o ofício permanecesse na
ilegalidade — poderia ou não ser o que Lee pensava na época, mas
o certo é que ele embasou seu argumento em dados muito fortes
(e algumas afirmações sem fundamento). Embora Lee tenha
escrito ficção e humor para as revistas de Goodman ao longo dos
anos, esse foi um dos poucos — talvez o único — texto de não
ficção baseado em pesquisas.
* * *
Larry Lieber, que trabalhava na produção da Magazine
Management, voltou aos quadrinhos, primeiro trabalhando como
arte-finalista de quadrinhos humorísticos e títulos para
adolescentes, depois desenhando e fazendo a arte-final de pelo menos uma história, “Cop on the Beat”, lançada na revista All True
Crime n.º 44, de maio de 1951. Lieber logo se juntaria à Força
Aérea dos Estados Unidos e serviria um tempo em Okinawa,
sendo dispensado em 1955.
* * *
Foi em 1952 que Martin Goodman começou a fazer a própria
distribuição dos quadrinhos e revistas, criando a Atlas. (Os
quadrinhos de Timely desse período são conhecidos como Atlas
Comics, já que o logotipo da Atlas era a única marca consistente
que aparecia nas capas.) Talvez ele e o contador da empresa,
Froehlich, estivessem preocupados com a possibilidade de que,
com toda a publicidade negativa das HQs, os distribuidores não
dessem a atenção de que precisavam. Nesse caso, seria melhor
tomar o controle do processo (embora isso não explique por que
também fazer a distribuição das revistas). Em teoria, Goodman
agora também conseguiria reter uma porcentagem maior dos
lucros dos quadrinhos (e das revistas), o que se tornava
especialmente importante porque os varejistas — mais uma vez,
devido à publicidade negativa das HQs — passaram a encomendar
lotes menores ou a parar completamente a revenda. De qualquer
forma, a opção pareceu funcionar, e os quadrinhos e revistas
continuaram a prosperar.
Nesse mesmo ano, os Lee se mudaram para uma nova casa,
“uma antiga garagem de carruagens remodelada em Richards
Lane, no bairro de Hewlett Harbor, em Long Island. (…)
Desapropriada de um clube privado da década de 1920,
frequentado por quem os historiadores locais descrevem como ‘as
famílias mais proeminentes e ricas da ilha’”. [ 141 ] Stan e Joan sempre preferiam comprar a casa mais antiga e acessível em um
bairro muito sofisticado. [ 142 ] Como na residência anterior, a
nova casa não ficava longe da propriedade opulenta de Martin
Goodman.
Em 1953, Joan Lee deu à luz outra filha, a quem ela e o marido
batizaram de Jan. No entanto, a criança morreu com menos de
uma semana de vida. Joan refletiu:
Nossa única grande tragédia foi a perda de nossa filha. Ela viveu
apenas alguns dias, e não podíamos mais ter filhos. Talvez seja por
isso que Stan, Joan e eu sempre fomos tão grudados. Fora esse
evento trágico, tive uma vida muito abençoada. [ 143 ]
Quando o médico revelou que Joan não poderia mais ter filhos,
o casal tentou adotar, mas o estado emocional da esposa após a
morte de Jan foi motivo de receio para as agências de adoção, que
também se incomodaram com o fato de Stan ser judeu e Joan
pertencer à Igreja Episcopal. Com isso, os dois desistiram de
tentar expandir a família. [ 144 ]
* * *
Em 1953, apesar da falta de interesse por super-heróis nas bancas
(dos heróis mais famosos, apenas Super-Homem, Batman e
Mulher-Maravilha ainda apareciam com frequência), a série de
TV Superman foi um grande sucesso. Goodman e Lee decidiram,
então, reviver os três principais heróis da Timely em vários
títulos. John Romita — então com vinte e poucos anos e
estabelecendo o estilo que o tornaria uma estrela dos quadrinhos
nos anos 1960 — desenhou as histórias do Capitão América desse relançamento. Carl Burgos, criador do Tocha Humana, trabalhou
outra vez nele junto com o novato Dick Ayers. Bill Everett
também retomou sua criação, o Príncipe Submarino. Esse revival
duraria menos de um ano, a não ser pelo Príncipe Submarino, que
se manteve até 1955, com a perspectiva de uma adaptação para a
TV que mantivesse a versão impressa viva. No entanto, a série
nunca se concretizou.
Naquele ano, apesar de escrever algumas poucas histórias de
super-herói, Lee preferiu se limitar ao humor e aos westerns,
pontuados por algumas histórias de mistério, terror e guerra.
Na edição n.º 29 de Suspense, lançada em abril de 1953, Lee e
Maneely — em um ataque velado a Wertham — publicaram “The
Raving Maniac” [O maníaco desvairado]. Na história, um homem
exaltado e descabelado invade o escritório do editor de
quadrinhos para repreendê-lo por imprimir histórias de terror. O
editor é a cara de Stan Lee, que responde ao sujeito frenético
mostrando o jornal do dia, com a apavorante manchete nova
bomba atômica pode destruir a terra! e dizendo: “Pelo menos
os leitores sabem que nossas histórias são ficção! Quando deixam
a revista de lado, podem se esquecer do que aconteceu! Mas dá
para morrer de medo só de ler as manchetes do jornal!”
Continuando o argumento, ele diz que se o sujeito não gosta das
histórias…
Então não leia! Ninguém está obrigando! Essa é uma das
maravilhas desta grande nação: todo mundo é livre para fazer o
quiser, desde que não faça mal a mais ninguém!
Um momento depois, atendentes de uma instituição não
especificada aparecem para tirar o “maníaco desvairado” dali. O editor volta para casa no fim do expediente, feliz em ver a esposa
(que se parece com Joan Lee) e a filha. A história termina com o
editor contando à criança uma história para dormir que começa
assim:
Era uma vez um homenzinho muito agitado, sem nada com que se
preocupar, que entrou no escritório de um editor para reclamar de
algumas revistas (…)
Depois, Lee editaria e escreveria as histórias das oito primeiras
edições de uma nova série de terror e fantasia chamada Menace,
que estreou em março de 1953. Talvez por querer mostrar que ele
— e a Atlas — poderiam competir com a EC em pé de igualdade,
Stan assumiu o título como uma espécie de projeto. Na série, sua
voz editorial surgia nos momentos de informalidade, falando com
os leitores no início e no fim de muitas histórias. A série, seu
projeto de estimação, passaria pelas mãos de seus artistas
favoritos, incluindo Joe Maneely, Bill Everett, Russ Heath, Joe
Sinnott, John Romita, Gene Colan e George Tuska.
A Menace n.º 7 incluía “The Witch in the Woods” [A bruxa na
floresta], outra história contra os antiquadrinhos, feita por Lee e
Joe Sinnott. Era sobre um pai preocupado que impede o filho de
ler histórias em quadrinhos e decide, em vez disso, ler um conto
de fadas para o garoto. Mas o conto de fadas se mostra
perturbador demais para o pai bem-intencionado, que é incapaz
de ter minar a história. O garoto exige: “Vamos lá, pai… Conta! O
que aconteceu?”
Apavorado, suando em bicas, o pai responde: “Não consigo! É
horrível demais! Estou até passando mal!”
Então a criança conclui, numa síntese brilhante:
Minha nossa, pai… você devia ler uns quadrinhos… Esses contos de
fadas são muito violentos!
Também em 1953 e 1954, Lee e Goodman, imitando a bem-
sucedida revista Mad, da EC — que começou como livro em cores
que copiava outros quadrinhos e tirinhas —, publicaram três
cópias de curta duração: Crazy, Wild e Riot. Os historiadores de
quadrinhos não conseguem determinar se Lee escreveu alguma
das histórias dessas revistas, mas, como editor, ele decerto
escolheu alguns de seus artistas favoritos para a publicação,
incluindo John Severin, Joe Maneely, Russ Heath, Dan DeCarlo e
Al Hartley. As três séries de humor, no entanto, terminaram em
meados de 1954.
Na mesma época, a cruzada de Fredric Wertham ganhava força,
e ainda mais com a publicação do livro antiquadrinhos mais
vendido, Seduction of the Innocent [Sedução dos inocentes],
lançado em abril de 1954. O senador Estes Kefauver assumiu a
briga contra a delinquência juvenil e sua possível ligação com os
quadrinhos. Foram realizadas audiências públicas em
Washington, D.C., ainda enquanto Seduction causava alvoroço na
mídia.
Os editores de quadrinhos enviaram representantes às
audiências, que tinham o próprio Wertham de testemunha, mas o
único editor a depor foi William M. Gaines, da EC, cuja fala em 21
de abril de 1954 foi considerada um fiasco, afundando-o junto
com a própria editora e a indústria como um todo. Gaines teve que defender uma capa da EC que mostrava a cabeça decepada de
uma mulher, alegando que era “de bom gosto”.
Como Joe Simon recordou, ele, Kirby e suas famílias assistiam
juntos à audiência pela TV. E lembrou que, ao ver o testemunho
de Gaines, disse: “Sabíamos que estávamos com problemas.” [ 145 ]
Foi Froehlich, não Goodman, quem testemunhou diante do
comitê em nome da Timely. Gaines tentara convencer os
senadores de que os quadrinhos de terror da EC eram apenas
piadas — mesmo sendo condescendente com seus interrogadores
—, mas o testemunho de Froehlich foi profissional, diminuindo o
valor dos quadrinhos policiais e de terror da Timely, alegando que
só publicavam aquele tipo de história para se manter na
competição com outras editoras. Ele observou que também
tinham publicado quadrinhos bíblicos (“Nosso editor foi até a
Escola de Teologia da Universidade Yale em busca de
orientação”), mas que foram um fracasso de vendas.
Mantendo-se longe de argumentos com fatos e números,
Froehlich assumiu um discurso um tanto poético:
Se a violência em si tivesse sido proibida de toda a literatura,
eliminando tudo que fosse tabu, estranho ou louco, será que Mary
Shelley teria escrito Frankenstein? Será que Shakespeare teria
escrito Macbeth? [ 146 ]
Embora Froehlich tenha encantado o comitê, a Timely/Atlas
entrou na pilha das outras editoras. A estratégia de invocar
Shelley e Shakespeare se mostrou insuficiente quando um
membro do comitê exibiu um exemplar da Strange Tales n.º 28, de Goodman, observando que “em cinco histórias, 13 pessoas têm
mortes violentas”. [ 147 ]
* * *
Em resposta à atenção do governo, os editores formaram a Comics
Magazine Association of America (CMAA) [Associação de
Revistas em Quadrinhos da América], substituindo a ACMP, e
instituíram o Comics Code [Código dos Quadrinhos], um
conjunto de diretrizes internas de censura para a indústria. Sem
querer ingressar na CMAA e incapaz de ganhar força no mercado
com a linha de quadrinhos New Direction — sobretudo porque
muitos distribuidores e varejistas desconfiavam da EC —, Gaines
acabou transformando a bem-sucedida revista Mad, editada por
Kurtzman, em uma publicação maior em preto e branco, e o
formato o livrava do código. A Mad se tornou um enorme sucesso,
salvando a empresa de Gaines. Lee, sempre amante do humor,
apresentou a resposta da Timely, a Snafu.
O título era um acrônimo impertinente e de origem militar para
Situation Normal All Fucked Up (ou Fouled Up, para os mais
sensíveis) [Situação Normal, Tudo Fodido (ou Ferrado)]. A Snafu
era toda escrita por Lee, exceto por algumas aparições de seus
artistas. Os créditos para a primeira edição eram: “O projeto
inteiro foi quase todo cuidadosamente escrito e editado por
Stan Lee.”
Entre os outros créditos cômicos estão “Founded by Irving
Forbush” [Fundada por Irving Forbush] e “Losted by Marvin
Forbush” [Perdida por Marving Forbush] — esses nomes
engraçados [Forbush pode ser traduzido como “Fuleiro”, e Irving
Forbush veio a se tornar o Forbush Man, que no Brasil foi traduzido como Homem-Fuleiro] que Lee usou poderiam ter sido
retirados de alguma apresentação humorística da vaudeville
judaica, e é possivelmente a primeira menção impressa a Irving
Forbush, um nome a que Lee recorreria ao longo dos anos para
evocar esse humor mais iídiche, a língua germânica adotada pelos
judeus, escrita com os caracteres hebraicos. Não há registros de o
nome Marvin Forbush ter sido usado outra vez.
Para a segunda edição, Lee recorreu outra vez ao iídiche, com o
crédito: “Toda essa mashuguna [“besteirada”, em iídiche] foi
escrita e editada por Stan Lee, o risonho.”
Além de Stan receber a alcunha de “risonho”, todas as pessoas
listadas nos créditos da edição também tiveram apelidos
carinhosos — mais tarde, Lee ficaria famoso por apelidar seus
cocriadores da Era Marvel. Algumas das alcunhas usadas na Snafu
n.º 2 incluem: Martin Goodman, o festeiro; Monroe Froehlich Jr.,
o animado (sobre quem observou que “Irving Forbush ficaria
orgulhoso” — talvez por ter um nome igualmente engraçado e que
parecia judeu?); Joe Maneely, o alegre; e Johnny Severin, o
empolgado. Curiosamente, o nome da irmã de Severin aparece na
página de créditos como “A responsável pela produção é a doida
da marie severin”. Marie ingressara havia pouco tempo na
Timely, logo após a intensa redução de produção da EC, onde fora
colorista-chefe. Ela viria a se tornar uma das principais artistas da
Marvel nos anos 1960.
Uma revista humorística como a Snafu — que competia com a
Mad, do amigo e ex-artista da casa Harvey Kurtzman — era
perfeita para Lee. Embora o humor seja subjetivo, podemos
ressaltar algumas das piadas mais famosas das edições:
A primeira edição (de novembro de 1955) tinha uma seção
intitulada “Cheesecake”. A página continha sete fotos pudicas de
modelos femininas em trajes de banho ou equivalente, e, na parte
inferior, uma legenda dentro de uma seta, que dizia: “Vire a
página para ver o maior cheesecake [ 148 ] do mundo!” A página
seguinte tinha apenas uma foto de — talvez você já tenha
adivinhado — um enorme cheesecake.
A terceira edição (de março de 1956) tinha uma seção chamada
“You Don’t Say!” [Não me diga!]. Era um título recorrente para
Lee, usado inclusive na revista Fumetti (de fotos cômicas),
publicada nos anos 1960. No caso da Snafu, era uma matéria de
duas páginas com oito fotos de uma jovem de cabelo castanho
curto conversando com o além e fazendo “comentários típicos de
uma garota”. Sob cada comentário, porém, estava escrito “o
verdadeiro pensamento da nossa garota Snafu”.
Por exemplo, uma legenda dizia: “Ah, Nancy, você precisa
mesmo ir tão cedo?” Porém, abaixo, o pensamento da garota era:
“Se eu passar mais um minuto com essa chata insuportável vou
dar um berro !” A “garota” nas fotos (todas com desenhos
criativos como plano de fundo) é ninguém menos que nossa Joan
Boocock Lee, porém não creditada. Ela também aparece como
modelo de um maiô casto e simples na mesma edição, numa
matéria chamada “Eles que comam cheesecake!”, onde é
identificada apenas como “uma das oito delícias”. Essa edição não
tem nenhuma foto de torta, mas cada foto tem uma legenda bem-
humorada.
A terceira edição tem uma coluna de cartas, mas todas parecem
falsificadas e apenas para efeito humorístico. Uma das menores é:
Caro Stan:
Potrzebie!
De Karvey Hurtzman
(endereço retido por medo de retaliação)
É difícil determinar quantos leitores compreendiam essas piadas
internas. (Além da brincadeira com o nome de Kurtzman,
potrzebie era uma palavra sem sentido usada na Mad em
momentos de exaltação.) De qualquer maneira, a terceira edição
da Snafu foi a última.
A publicação foi seguida por mais três edições (n.º 4-6) da Riot,
no formato tradicional de quadrinhos em cores, todas com
créditos de escrita atribuídos a Lee. Essas edições publicavam
paródias e cópias de tirinhas, histórias em quadrinhos, filmes e
muito mais. Dois destaques foram os quadrinhos de Lee e
Maneely, “The Seventeen-Year Itch” [A crise dos 17 anos] e sua
sátira de Dennis the Menace, chamada de “Pascal the Rascal”
[Pascal, o Patife].
* * *
Em 1956, Larry Lieber, dispensado da Força Aérea havia um ano,
estava desenhando — e talvez escrevendo — histórias em
quadrinhos de romance para a Timely/Atlas. Ele morava com os
Goodman e estudava na Art Students League, a Liga de
Estudantes de Arte, em Manhattan. [ 149 ]
Nesse mesmo ano, Jack Kirby, depois de encerrar a parceria
com Joe Simon, trabalhava de freelancer na DC. Precisando de
mais renda, retomou contato com a Timely/Atlas pela primeira
vez desde o desentendimento dele e de Simon com Goodman, em
1941. Lá, fez algumas histórias curtas de ficção científica e três edições dos quadrinhos do Garra Amarela, personagem inspirado
em Fu Manchu. Foi provavelmente todo o material que escreveu e
desenhou para a Timely. Não demoraria para que Kirby — e todos
os outros artistas — encerrassem bruscamente os trabalhos com a
Timely.
Embora as vendas da Atlas tenham sido razoavelmente boas, era
inevitável que a disposição antiquadrinhos no país afetasse as
receitas da empresa. Os pagamentos dos freelancers eram
reduzidos com certa regularidade. De acordo com Raphael e
Spurgeon: “Amedrontado com o declínio nas vendas de
quadrinhos e os potenciais efeitos das audiências no Senado e do
Comics Code, Goodman fechou a Atlas News [sua franquia de
distribuição] em novembro de 1956, assinando um acordo com a
maior distribuidora de quadrinhos [e revistas no geral] de meados
da década de 1950, a American News.” [ 150 ]
Mas a American News, por sua vez, também estava vivendo um
desastre financeiro. O “festeiro” Martin Goodman — aconselhado
pelo “animado” Monroe Froehlich (que talvez tenha conseguido
interpretar os sinais do declínio quando se dirigiu ao comitê do
Senado, em 1954) — tinha tomado o que Raphael e Spurgeon
chamaram de “a pior decisão comercial de sua carreira. (…) A
American News saiu do mercado no início de 1957, deixando
Goodman numa busca desesperada por outro distribuidor”. [ 151 ]
A história é vaga sobre os motivos de Goodman não ter
simplesmente tomado as rédeas da situação, pedindo desculpas
aos atacadistas e varejistas que deixara na mão, e restabelecido a
própria distribuidora.
Quaisquer que fossem as razões, Goodman mudou a
distribuição para a gigante Independent News (IND), subsidiária da National Periodical Publications/DC Comics. Porém, receoso
do hábito de Goodman de inundar o mercado, a IND limitou a
distribuição da Timely a oito quadrinhos por mês (que ele
cumpria com 16 lançamentos bimestrais). De repente, as
publicações de Goodman foram reduzidas em 80% por mês. [ 152 ]
Lee parou de distribuir trabalho para os freelancers, tentando
usar o material acumulado. Mais de uma vez, teve que dizer aos
artistas que não tinha trabalho disponível. Segundo relatos, ele ia
ao banheiro vomitar após cada recusa. [ 153 ]
Entre os muitos freelancers com quem Lee encerrou contrato
estava John Romita, a quem Lee avisou por meio de um
telefonema de sua secretária, talvez por medo de um confronto
direto com um homem que estimava muito. Romita lembrou:
Achei que nunca mais fosse trabalhar com quadrinhos. (…)
Quando Stan cancelou meu trabalho em uma revista de western no
meio da história, pensei: “É isso.” Nunca fui pago pelo que já tinha
feito e disse a [minha esposa] Virginia: “Se Stan Lee ligar, diga a
ele que vá para o inferno.” [ 154 ]
Ela não precisou se dar ao trabalho.
Lee já estava lá.