A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 5 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

4. A psicopatologia dos quadrinhos

Somos empresários, não deveriam nos

repassar a responsabilidade de proteger

crianças problemáticas que podem ser

influenciadas por histórias policiais.

— Stanley Lieber, The New York Herald Tribune,

9 de maio de 1948

 

A ssim como Stanley Lieber, Judith Klein nasceu em 1922, só que no Bronx. Nesse mesmo ano, Friedrich Ignatz Wertheimer imigrou da Áustria para os Estados Unidos a fim de concluir sua formação em psiquiatria na Universidade Johns Hopkins.

Em 1948, as vidas de Stan Lee, Judith Crist e Fredric Wertham

ficariam entrelaçadas por circunstâncias relacionadas à ordem

surpreendente de Goodman.

* * *

Por que Martin Goodman mandaria Stan Lee demitir sua equipe

de artistas, mesmo com os negócios crescendo?

A história nos trouxe uma explicação que é principalmente

econômica.

Para garantir que a empresa sempre tivesse material suficiente

para tantos quadrinhos — cerca de setenta títulos por mês —, e

porque não gostava de negar trabalho a quem precisava, Lee

acumulara um arquivo impressionante de histórias, que poderiam

ser incluídas quando e onde fosse necessário. Conta-se que,

quando Goodman descobriu todas aquelas páginas arquivadas em

um armário — mesmo que, pela lógica, ele já devesse ter notado o

acúmulo antes disso —, ficou tão furioso que decidiu demitir

todos para usar aquele excesso de papel.

Parando para pensar, a história não faz muito sentido. Se o

problema fosse excesso de estoque, teria sido melhor reduzir a

equipe ou talvez aumentar temporariamente a quantidade de

publicações para usar a arte acumulada. (Afinal, grande parte do

excedente tinha sido gerada pelos artistas da casa no decorrer do

dia de trabalho, não apenas por freelancers, que apareciam de vez

em quando.) Mas e se surgisse uma nova moda que precisassem

seguir, o que parecia cada vez mais inevitável? Estariam sem nada.

Outra explicação mais plausível era que alguém da empresa de

Goodman — possivelmente o supervisor da contabilidade,

Monroe Froehlich Jr. — chegou à conclusão de que a nova

legislação tributária tornava mais em conta manter os artistas

como freelancers (regime já adotado para a maioria dos

escritores), para que trabalhassem de casa. No mínimo, a empresa

economizaria no aluguel de espaço para a equipe, sem mencionar

os benefícios dos contratos. De certa forma, isso também tornaria a empresa mais capaz de responder depressa às mudanças de

mercado, já que contratariam apenas os artistas adequados para as

tendências do momento.

Raphael e Spurgeon observaram que “quase todos os

funcionários foram dispensados em grupos a partir do Natal de

1949” e que “Lee conseguiu oferecer bastante trabalho freelance

para os antigos artistas do Bullpen até o fim de 1950 e 1951”. [ 117 ]

Foi a preocupação com as mudanças do mercado que fez com

que Goodman encerrasse contrato com a distribuidora, Kable

News, e abrisse sua própria empresa de distribuição para os

comics e demais revistas. [ 118 ] Como Raphael e Spurgeon

observaram: “Quando abriu a Atlas News Company [empresa

distribuidora], que tinha o respaldo financeiro dos 82 títulos

mensais que Stan Lee e sua equipe produziam na divisão de

quadrinhos, eliminando o intermediário, Goodman conseguiu

aumentar os lucros. Assim, também conseguiria responder muito

mais depressa às mudanças de mercado e aos números de vendas,

sempre se alterando.” [ 119 ]

Havia um fator muito importante nas “mudanças de mercado”, e

era bem maior que a questão usual das preferências dos leitores: o

ataque contínuo aos quadrinhos, que vinha desde o editorial da

Sterling North de 1940 (e que antes disso tivera outros

momentos, já que o problema começara logo nas primeiras

tirinhas dos jornais). Porém, a partir do fim dos anos 1940,

passara a ter como líder o psiquiatra Fredric Wertham, o mais

ferrenho de um número crescente de críticos.

Goodman, Froehlich e Stan Lee perceberam que o movimento

contra os comics tinha impactado a percepção pública da Timely e

que precisavam se adaptar depressa aos novos tempos para sobreviverem a qualquer possível golpe desse movimento.

Dezenas de estados aprovaram leis antiquadrinhos, e houve até

queima pública de gibis pelo país, inclusive em Binghamton, Nova

York, a apenas algumas horas de carro dos escritórios da maioria

das editoras, em Manhattan.

Diversas editoras faliram ou estavam prestes a fechar as portas,

e, com as mudanças estruturais, Goodman não apenas sobrevivia

à crise: com menos empresas produzindo para um público ainda

considerável, os quadrinhos da Timely prosperavam. O público

ainda consumia milhões de gibis de todos os tipos — embora não

comprassem mais tantos quadrinhos de super-heróis.

* * *

Alguns anos antes, com o fim da Segunda Guerra Mundial, a moda

dos super-heróis diminuíra um pouco, mas as revistas em

quadrinhos continuavam populares como nunca, se não mais. A

mídia ia crescendo e se diversificando, com todos os gêneros

representados. Claro que sempre haveria gêneros mais ou menos

populares. No fim da década de 1940 e início de 1950, havia

quatro gêneros no topo da popularidade.

Havia quadrinhos de romance, uma invenção recente de Simon

e Kirby para a Crestwood Publications, mas logo adotado por toda

a indústria. Havia quadrinhos policiais, com títulos como Justice

Traps the Guilty! [A justiça prende os culpados!] e crime Does Not

Pay [ o crime não compensa]. Havia quadrinhos de terror, sempre

tentando chocar os leitores. E havia também os quadrinhos de

guerra, que ganharam muita popularidade durante a Guerra da

Coreia.

A linha EC Comics, do editor William M. Gaines, era conhecida

pela qualidade dos roteiros e da arte. Lee estudou bastante os quadrinhos da EC, ainda mais quando Goodman o encorajou a

imitar o que estava funcionando para aquela empresa. E, como

Raphael e Spurgeon observaram, Lee ficou fascinado pela maneira

como a EC “estabelecera uma identidade para todos os

quadrinhos da marca, mesmo tendo, assim como a Atlas, sempre

trabalhado com vários gêneros”. [ 120 ]

No entanto, o que a EC e algumas outras editoras faziam era

testar os limites do que o público aceitava com suas histórias de

crime e terror. Um exemplo extremo, agora clássico, foi a história

“Foul Play” [Jogo sujo] da EC, na revista Haunt of Fear n.º 19, de

junho de 1953, sobre uma partida de beisebol em que os

jogadores usavam partes do corpo de um personagem odiado — a

cabeça como bola, o intestino como as linhas no chão, que

definem a base. Muitos dos quadrinhos policiais enfatizavam a

violência brutal e apresentavam femmes fatales extremamente

sexualizadas. Histórias como essas eram aproveitadas pelos

críticos e se tornavam objeto de escrutínio negativo da mídia.

A Timely/Atlas de Goodman (a empresa passou a ser conhecida

pelos dois nomes, embora a Atlas tecnicamente fosse apenas o

nome da franquia de distribuição) foi a mais prolífica imitadora da

EC, e com quadrinhos de melhor qualidade. Isso se deu em parte

graças ao fechamento de muitas outras editoras, o que

disponibilizava mais artistas qualificados no mercado. Embora

seus quadrinhos de crimes e terror raramente fossem tão

chocantes quanto os da EC e de algumas outras, a Timely

competia em pé de igualdade.

Havia tentativas de banir ou regulamentar os quadrinhos —

sobretudo os policiais e de terror — nos governos locais de todo o

país. Embora Lee tomasse cuidado para que suas revistas não tivessem representações de violência e sanguinolência tão

intensas quanto as de algumas dos outros editores, os quadrinhos

ainda podiam ser bastante chocantes, pelo menos aos olhos dos

críticos. Entre os antiquadrinistas, o mais proeminente foi o

psiquiatra Fredric Wertham.

Wertham militava por várias causas, e, em 1954, sua pesquisa

foi usada como evidência dos efeitos negativos da segregação e a

favor da integração escolar no processo histórico de Brown contra

o Conselho de Educação. Ele também dirigia uma clínica

psiquiátrica popular no Harlem.

Trabalhando com crianças negras e pobres em sua clínica do

Harlem, Wertham se convenceu de que os problemas que muitos

dali enfrentavam eram, se não causados, ao menos agravados pela

forma como a violência e a misoginia eram retratadas na cultura

popular, sobretudo nos quadrinhos.

Ao contrário de outros oponentes das HQs, que as atacavam por

um viés religioso e/ou conservador, Wertham era um progressista

liberal que acreditava que os quadrinhos, como subcultura

“secreta” a que as crianças tinham acesso por apenas dez centavos

de dólar, poderiam causar danos aos jovens impressionáveis — e

em níveis que os pais nem sequer poderiam imaginar. Embora

parecesse sincero em suas preocupações, Wertham precisava de

publicidade para divulgar a tese, e não tinha vergonha de correr

atrás de exposição. Ele se tornou um intelectual público, lançando

artigos sobre suas preocupações acerca dos quadrinhos em muitas

revistas populares. Suas ideias foram muito bem recebidas entre

os adultos preocupados com o notável aumento — tanto em

número quanto em nível de brutalidade — na criminalidade

juvenil, também conhecida como “delinquência juvenil”.

(Nos últimos anos, a historiadora de quadrinhos Carol Tilley

descobriu o que muitos suspeitavam: Wertham costumava fingir e

falsificar dados para atingir os resultados desejados.) [ 121 ]

* * *

Curiosamente, as atividades antiquadrinhos de Wertham eram

noticiadas por uma jovem repórter que entrevistara Stan Lee pelo

menos uma vez.

Judith Klein, filha de um outrora próspero comerciante de peles

de Nova York que perdera tudo durante a Grande Depressão,

frequentou a escola Morris, no Bronx, e a Faculdade Hunter, em

Manhattan. Depois disso, obteve seu título de mestrado na Escola

de Jornalismo da Universidade Columbia. Em 1945, foi trabalhar

para o New York Herald Tribune como repórter de artigos gerais.

Em 1947, casou-se com o profissional de relações públicas

William Crist, assumindo seu sobrenome. Como Judith Crist,

galgou o posto de uma das críticas de cinema mais famosas de

todos os tempos. Mas, em 1947, ainda uma jovem repórter, foi

designada para cobrir as pautas de Fredric Wertham. Como ela

relembrou, em 2008:

 

Eu era repórter de Acontecimentos da Sociedade [do Herald

Tribune] (…). A editora era Dorothy Dunbar Bromley, uma

colunista de destaque na época (…) e parece que ela havia lido ou

ouvido falar de Wertham. Então, me enviou para entrevistá-lo em

seu apartamento. (…) Lembro que ele tinha bons argumentos

[contra os quadrinhos] (…) e publiquei a entrevista. (…)

Eu admirava parte do trabalho dele (…) tinha alguns de seus

livros. O texto mais memorável acho que se chama “Medea in Long

Island” [A Medeia de Long Island], ou coisa do tipo (…) sobre uma

mulher que matou os filhos em algum lugar de Long Island. Ele

compara o caso com o complexo de Medeia, e por aí vai. Um texto

fascinante e verdadeiramente inesquecível sobre uma Medeia

moderna. [ 122 ] [O texto se chamava “The People vs. Medea” [O

povo vs. Medeia], e apareceu originalmente no Harper’s Bazaar de

janeiro de 1948.] [ 123 ]

 

Outro fã dos escritos de Wertham sobre assassinos insanos era

Stan Lee. Como ele lembrou:

 

Quando eu era criança, lá pelos 13 anos, li um livro [Dark Legend]

de um psiquiatra (…) e achei maravilhoso. Abordava algumas

questões realmente importantes. (…) Anos depois, descobri que era

o mesmo dr. Wertham que atacava os quadrinhos. Não sei como ele

foi ficar tão doido. [ 124 ]

 

Dark Legend foi publicado em 1941, então Lee já tinha 18 anos e

trabalhava na Timely quando foi lançado. Mas o fato é que ele se

lembrava do livro mais de sete décadas depois de tê-lo lido.

Judith Crist recordou:

 

[Wertham] era muito impressionante. E também muito charmoso

(…). Nós mantivemos certo contato. (…) Acho que ele me enviou

um exemplar da sua coletânea de ensaios, ou coisa do tipo. (…)

Acho que ele era um completo egoísta. Não via muito além dos

próprios princípios. Não era o tipo de homem que eu considerava

admirável, mas ficou na minha memória. [ 125 ]

Ao que parece, Crist ficou mesmo impressionada e encantada,

mesmo que não o considerasse tão admirável assim. De qualquer

forma, por qualquer motivo que seja — talvez apenas por ser uma

jovem repórter cujos instintos pedissem para seguir com a

matéria —, o Herald Tribune publicou inúmeras de suas

reportagens sobre Wertham e suas atividades antiquadrinhos.

Em 28 de dezembro de 1947 (25.º aniversário de Lee), Crist

escreveu um artigo sobre Wertham para o Herald Tribune, com a

manchete: comic books are called obscene by n.y.

psychiatrist at hearing [Em audição pública de N.Y., psiquiatra

acusa histórias em quadrinhos de obscenidade]. E no subtítulo:

“Dr. Wertham Says They Present ‘a Glorification of Sadistic-

Masochistic Sexual Attitudes’; He Defends Nudist Society’s

Magazine.” [Dr. Wertham diz que o conteúdo dos quadrinhos é

“uma glorificação das atitudes sexuais sádicas e masoquistas”,

enquanto defende a revista da Nudist Society.]

O artigo relata que Wertham, testemunhando a favor dos

editores da revista nudista Natural Herald, acusada de

obscenidade pelo Departamento de Correios de Washington,

D.C., declarou que a revista estava longe de ser obscena. O artigo

continuava, com um salto absurdo da lógica:

 

Mas, declarou o psiquiatra, se a obscenidade deve ser avaliada por

sua lascívia ou por seu efeito de estimular sexualmente uma pessoa

comum, então, sugeriu, é hora de voltarmos a atenção da justiça às

histórias em quadrinhos, que definiu como “definitivamente

prejudiciais, culpadas de incutir atitudes erradas sobre sexo e

violência”.

Para o Herald Tribune, Crist também cobriu o simpósio

Psychopathology of Comic Books[A psicopatologia das histórias

em quadrinhos], conduzido por Wertham na Universidade de

Nova York, em 19 de março de 1948. Outros palestrantes do

simpósio incluíam os críticos culturais Gershon Legman e a

parceira de pesquisa de Wertham, Hilde Mosse. Na plateia — mas

sem chance de fala — estavam membros da indústria de

quadrinhos, incluindo o cartunista Harvey Kurtzman, que na

época criava pequenas histórias humorísticas para Lee, na Timely.

Wertham comparou a presença dele lá a “produtores de bebidas

alcoólicas em um simpósio sobre alcoolismo”. [ 126 ]

* * *

Talvez o artigo mais conhecido de Crist — e Wertham — sobre

quadrinhos tenha sido publicado na edição de 27 de março de

1948 da revista Collier’s. O texto foi intitulado “Horror in the

Nursery” [Horror no berçário]. (“Fiquei um pouco surpresa com

a manchete”, refletiu Crist, em 2008, indicando que o tom era

mais lúgubre do que o pretendido.) [ 127 ] Com a reportagem,

Crist deu espaço a Wertham em uma revista popular no país

inteiro, inclusive com fotos de atores mirins “torturando” uns aos

outros com base em ações supostamente encontradas nas revistas

em quadrinhos. No texto, Wertham — por meio de Crist —

definiu vários pontos que considerava relevantes para a causa.

Para citar apenas alguns exemplos, ele disse:

As histórias em quadrinhos estão intencionalmente acabando com

a consciência moral da juventude. Apresentam a violência como

sedutora e cruelmente heroica. (…) Se os responsáveis se recusam a

limpar o mercado de quadrinhos (…) é hora de criar uma legislação

para retirar essas revistas das bancas e lojas. [ 128 ]

 

Embora Wertham não defendesse a censura de quadrinhos para

adultos, sem dúvida desejava que essas revistas não existissem e

que houvesse regulamentação para a venda a crianças menores de

15 anos.

Sobre os psiquiatras que defendiam os quadrinhos, disse:

 

Ver alguns psiquiatras infantis apoiando os quadrinhos não é

comprovação de que sejam mídias saudáveis, e sim de que a

psiquiatria infantil está doente. [ 129 ]

 

Em 9 de maio de 1948, um artigo do Herald Tribune intitulado

“Controversy Over ‘Crime’ Comic Books Grows” [Cresce a

controvérsia sobre os quadrinhos “policiais”], Crist cobriu as

tentativas do governo local de regulamentar os quadrinhos em

Detroit, Indianápolis e outras cidades. Na matéria, ela observou

que:

 

A maioria dos editores [com quem conversei] enfatizou sua

integridade pessoal, assim como Stanley Lieber, responsável por

cinco dos títulos proibidos [de quadrinhos policiais].

 

Stan Lee, usando o nome verdadeiro (que ainda era seu nome

legal) para a entrevista com Crist, disse:

 

Não estamos vendendo livros sobre peitos e sangue. Somos

empresários, não deveriam nos repassar a responsabilidade de

proteger crianças problemáticas que podem ser influenciadas por

histórias policiais. Somos muito rigorosos na autocensura.

 

Não se parece muito com o Stan Lee afável com chapéu de

hélice que os colegas vieram a conhecer. Talvez Lee/Lieber ainda

não tivesse aprendido a encantar os repórteres. Ou talvez tenha

sido justamente a declaração mais polêmica e cruel que parecera

mais atrativa para um artigo sobre a influência perniciosa dos

quadrinhos.

* * *

Em outubro de 1948, cinquenta cidades tinham adotado medidas

para proibir ou censurar os quadrinhos. [ 130 ] Como outras

empresas, a Timely contratou um especialista para combater a

atenção negativa. Nesse caso, foi o dr. Jean Thompson, “psiquiatra

do Departamento de Orientação Infantil do Conselho de

Educação da Cidade de Nova York”, como declarou o editorial, nas

edições de novembro e dezembro de 1948 das revistas em

quadrinhos. (Esta obra e três editoriais subsequentes se referiram

à empresa como Marvel Comic Group, nome usado algumas vezes

ao longo dos anos antes de virar permanente, na década de 1960.)

Os editoriais eram todos assinados como “Editores da Marvel

Comic Group”. O historiador Michael Vassallo acredita que foram

escritos por Stan Lee, porém “certamente sob a direção de Martin

Goodman”. [ 131 ] Parece provável que uma comunicação tão

importante com os leitores tenha sido produzida pelo chefe

editorial.

O primeiro editorial, escrito em uma linguagem amigável,

porém séria, afirmava:

Queremos ajudá-lo a proteger seu direito de comprar e ler suas

revistas favoritas, contanto que não contenham nenhum material

que possa ser prejudicial para você.

 

O texto prosseguia com a explicação de que o dr. Thompson

fora contratado para “garantir que nossas histórias não

contenham nenhum material que possa causar objeções em seus

pais, professores ou amigos”.

O segundo editorial, nas revistas de janeiro a março de 1949, é

menos casual e mais específico. Em referência a um artigo de

Wertham na Saturday Review of Literature, declarava que:

 

Um tal de dr. Wertham quer discutir o problema da delinquência

juvenil nos Estados Unidos e atribui a culpa de alguns dos casos a

revistas em quadrinhos. (…)

 

Assim, os inimigos dos quadrinhos foram concentrados em uma

só pessoa: o dr. Wertham.

Após citar a resposta muito eloquente de David Pace

Wigransky, de 14 anos, ao artigo de Wertham, em uma edição

posterior do Saturday Review (“Em nenhum desses casos ficou

provado que a leitura de gibis foi a causa da delinquência”), Lee

prosseguiu com a pergunta:

 

Por que não dar crédito aos quadrinhos pela boa influência que

exerceram sobre milhões de crianças saudáveis e normais, em vez

de apenas culpá-los pelos poucos delinquentes?

No terceiro editorial, nas revistas de abril e maio de 1949, Lee

tentou outra abordagem, fazendo o possível para estabelecer os

quadrinhos como um passo natural da evolução da grande lite-

ratura:

 

Que esses críticos de hoje olhem para a história. Eles precisam

decidir se querem ser lembrados como seus pares do século XX, que

chamaram Robinson Crusoé de “desleixado”.

 

A raiva por trás das palavras do editorial é palpável. Lee estava

pedindo a Wertham, Legman e outros acadêmicos e intelectuais

com opiniões negativas a respeito dos quadrinhos que levassem

em conta como a história os julgaria. O que foi bastante audacioso

para um garoto de 26 anos cuja credencial mais avançada era um

diploma de ensino médio em uma escola pública de Nova York.

O quarto e último editorial, nos quadrinhos da Marvel/Timely

de junho e julho de 1949, enquadrava o argumento da empresa

em um discurso apaixonado, porém melancólico, com o escritor

quase suspirando enquanto lamentava:

Os adultos devem um pedido de desculpas a vocês, jovens, porque

não fizemos do mundo um lugar muito seguro e pacífico para se

viver. (…)

 

E seguia com a reflexão de que, ao menos nos quadrinhos, os

mocinhos sempre venciam. E apontava:

 

Assim como existem pessoas boas e más, programas de rádio bons

e ruins, filmes bons e ruins, também há literatura boa e ruim (…)

Os quadrinhos, com suas muitas imagens, são apenas mais um tipo

de literatura.

 

Os quadrinhos, prosseguia o editorial, são “um patamar no

caminho da apreciação dos livros que resistiram ao teste do

tempo”.

Aqui, Lee gastava seus últimos recursos de defesa, dizendo aos

leitores que o mundo podia às vezes ser um lugar ruim, mas, ao

menos nos quadrinhos, ao contrário da vida real, os mocinhos

sempre vencem. Que alguns quadrinhos são “bons” — embora ele

confunda “bom”, no sentido de “agradável”, com “bom” de

“benéfico” — e que comics são apenas parte da “nossa vasta

herança literária”, não a única coisa que deve ser lida.

Não dá para acusá-lo de não ter tentado.

Embora seja difícil mensurar o efeito desses editoriais, pode-se

dizer que foram no mínimo um dos fatores que levaram a

empresa a manter-se ativa nos oito anos seguintes, enquanto

vários concorrentes fechariam as portas.

Curiosamente, a voz nos editoriais é familiar, é a voz editorial

que Lee vinha desenvolvendo desde seu primeiro trabalho —

aquela história em prosa da Captain America Comics n.º 3 —, que

floresceria como voz da Marvel e de Stan Lee nas respostas às

cartas dos leitores e nos Bullpen Bulletins das revistas da década de

1960.

* * *

Enquanto a luta de Wertham contra os quadrinhos ganhava força,

a vida continuava para Stan Lee, sua família e sua empresa.

Lee ainda supervisionava dezenas de quadrinhos por mês e

escrevia várias histórias por semana. Mesmo — ou talvez especialmente — após as demissões de 1949, ainda havia muito

trabalho a ser feito. Porém, com algumas exceções, Lee contratava

os artistas como freelancers. Novos nomes que logo se tornariam

conhecidos dos leitores de quadrinhos começaram a surgir.

Embora ainda houvesse alguns veteranos dos anos 1930 e 1940 —

principalmente Carl Burgos e Bill Everett —, também havia vários

artistas jovens demais para terem participado dos primeiros anos

da febre dos super-heróis, artistas que tinham acompanhado as

histórias na infância ou na adolescência e que estavam ansiosos

para entrar em campo. Para os mais entusiastas, no entanto, os

quadrinhos ainda eram uma maneira de ganhar dinheiro rápido,

um caminho para impulsionar carreiras de ilustrador ou

publicitário.

Ainda assim, foi a época em que artistas como John Romita, Joe

Maneely, Gene Colan, Dick Ayers e Joe Sinnott começaram a

aparecer. Até Jerry Robinson, famoso pelo trabalho em Batman

nos anos 1940, trabalhou para a Timely de 1950 a 1960. Sobre

trabalhar para Lee, ele lembrou:

 

Acho que ele devia conhecer meu trabalho em Batman ou alguma

outra revista, porque já chegou dizendo: “Caramba, eu adoraria

trabalhar com você!” (…) Ele me atraiu de volta para os

quadrinhos, já que eu não andava muito interessado neles. (…)

Tivemos um relacionamento muito bom durante aqueles [dez]

anos. E ele era um editor muito tranquilo. Acho que confiava muito

no meu trabalho, então eu nunca precisava que ele revisasse nada. [

132 ]

Em algum momento do período em que Robinson trabalhou

para Lee, ele apresentou o editor a um de seus alunos da Escola de

Cartunistas e Ilustradores (que não demorou para passar a se

chamar Escola de Artes Visuais), Steve Ditko.

* * *

Durante esse período de cerca de seis meses, de 1949 a 1950, Stan

Lee dispensou os artistas da antiga equipe, embora não tenha

demorado a contratá-los, só que como freelancers. Foram

mandados embora até criadores mais confiáveis, que já tinham

atuado como editores. Lee considerava muitos deles amigos,

pessoas cujas famílias conhecia e com quem se importava. Ele

lembrou o período de cortes como “dias sombrios”. [ 133 ] Um

exemplo foi Al Jaffee, que editava quadrinhos para adolescentes e

passou a apenas escrevê-los e desenhá-los.

Mas, ainda que sempre estivesse à sombra da destruição

iminente, a Timely vivia um tempo de prosperidade. Editoras

menores estavam fechando, mas a empresa de distribuição de

Goodman lhe permitiu agarrar o mercado das editoras que

estavam saindo de campo ou passando por severas reduções.

(Goodman também reduziu os pagamentos dos freelancers como

parte dessa estratégia de sobrevivência.) Stan Lee supervisionava

mais de setenta títulos. [ 134 ]

A lista de artistas que trabalharam para Lee no período entre

1950 e 1957 é incrível, com quase todos que eram ou ainda se

tornariam gigantes dos quadrinhos, como John Romita, Gene

Colan, Stan Goldberg, Joe Sinnott, Jerry Robinson, Bernard

Krigstein, Al Feldstein, Al Jaffee e muitos outros. Algumas das memórias deles podem nos dar uma ideia de como eram aqueles

tempos e do papel de Lee na época.

Goldberg, o chefe da equipe de coloristas, era amigo dos Lee. E,

mesmo na recessão, Lee tentava expandir seus horizontes.

Segundo Goldberg:

 

Quando íamos visitá-los (…) Stan chamava: “Vamos lá em cima!”

Era onde ele trabalhava. “Quero discutir algumas ideias.” E eram

ideias que tentaríamos transformar em tirinhas de jornal. (…) Por

exemplo, uma tirinha sem continuidade e de um só quadro (…) que

chamamos de “Doc”. Era sobre um médico muito camarada. (…)

[Não foi vendida para nenhum jornal, mas] conseguimos usar

quase 75% do material que criamos para “Doc” em revistas

médicas. [ 135 ]

A esposa de Goldberg, Pauline, recordou:

 

Stan [Goldberg] (SG) dizia que sempre almoçava com Stan Lee

(SL). Lee o arrastava pela cidade para comprar todos os jornais e

conferir as tirinhas. (…) SG disse que, quando voltava ao escritório,

estava exausto, com as pernas doendo [Stan Lee era famoso pelas

longas caminhadas]. (…) SL sempre foi muito bom para SG.

Sempre aumentava o salário sem que ele sequer pedisse. Além

disso, sempre opinava sobre o trabalho de SG, o que era mesmo

muito bom para ele, pois sentiu que realmente melhorou como

profissional. SG sempre foi muito grato, sempre fez questão de

dizer isso. Sempre sentiu que devia sua carreira a SL.

Também me lembro de ir à casa dos Lee para depois jantarmos

no bairro de Hewlett Harbor, em uma noite de neve, e encontrei SL

parado no bar de sua casa, usando blazer azul e calça branca, muito

distinto. Parecia que estava em um navio [ancorado] em uma ilha

do Caribe. (…) [Stan e Joan] eram muito carismáticos. Eram feitos

um para o outro. [ 136 ]

 

O artista Joe Sinnott, que começou a trabalhar para Lee em

1950, lembrou:

 

Stan sempre gostou de coisas exageradas. Ele realmente subia na

mesa e mostrava a pose que queria. (…) E levava o trabalho a sério.

(…) Acho que não dava para encontrar um editor melhor. [E] ele

escreveu histórias bem interessantes (…) e fáceis de desenhar,

considerando o aspecto visual [de contar a história]. [ 137 ]

 

O artista Bernard Krigstein passaria a ser considerado uma

“lenda” por seu trabalho para a EC, sobretudo em “Master Race”,

uma história escrita por Al Feldstein. Entre 1950 e 1957, Krigstein

fez mais de setenta histórias para Lee na Timely/Atlas — muito

mais do que fez para a EC ou qualquer outra editora, e com mais

liberdade criativa. [ 138 ] Mesmo assim, não foi um dos que

guardaram boas lembranças de Lee. Eles encerraram a parceria

pelo que poderia ser chamado educadamente de “diferenças

criativas”.

Um artista que gostava de trabalhar com Lee e que era

correspondido nesse aspecto, além de ser seu amigo, era Joe

Maneely, que fazia lindos desenhos para quase qualquer gênero,

inclusive humor. Ele desenhou e fez a arte-final de suas próprias

histórias numa velocidade extraordinária. Ele e Lee também

faziam uma tirinha razoavelmente bem-sucedida, a Mrs. Lyons’

Cubs [Os filhotes da sra. Lyons].

John Romita juntou-se à Atlas em 1949 e, dessa época até 1957,

desenhou mais de duzentas histórias para Lee. Gene Colan

também produziu a mesma quantidade de trabalho durante esse

período. Ambos se tornariam os pilares da Marvel nos anos 1960.

Carl Burgos, que tinha criado o Tocha Humana em 1939, estava

na equipe do escritório, desenhando muitas histórias, mas

também trabalhando como editor de capa. A arte de muitas das

capas da Atlas da década de 1950 era consistente porque, naquele

período, Burgos retocou quase todas — um processo que Vassallo,

cuja pesquisa esclareceu o papel dele no escritório, chamou de

“Burgonizar”.

* * *

Em abril de 1950, Joan Lee deu à luz uma filha, Joan Celia Lee,

que mais tarde foi apelidada de “JC”, para diferenciá-la da mãe.

Quando perguntado a respeito de a paternidade ter mudado seu

modo de ver a da vida, Lee lembrou, em 2017:

 

Não, isso não mudou nada na minha perspectiva de vida. Só me

deixou com menos tempo para escrever, porque eu tinha que passar

mais tempo com minha filha. [ 139 ]

 

Sobre a adaptação do marido à vida de pai, Joan Lee disse:

 

Quando minha filha nasceu, [Stan] sempre arranjava tempo para

levá-la aos parques e carrosséis. Não importava o quanto

trabalhasse, Stan sempre tinha tempo para ela e para mim. Sempre

arranjava tempo para passar [com JC]. A gente até chegava a se

preocupar de sermos próximos demais. Quando passarmos para o

Desconhecido, ela sentirá muita falta de nós, porque é louca pelo

pai (…) e pela mãe. [ 140 ]

 

Mais tarde, naquele ano, na edição de outubro de 1950 da

revista Focus, editada por Lee, apareceu um artigo — creditado a

“Stanley Martin” — intitulado “Don’t Legalize Prostitution” [Não

legalize a prostituição].

É um texto interessante, e não apenas por ser uma peça rara de

não ficção escrita por Lee para uma publicação da Magazine

Management — e a Focus era uma das poucas revistas que

Goodman editava —, mas também porque Stan parece ter usado

as informações sobre ISTs que provavelmente havia aprendido

durante a campanha de prevenção contra doenças venéreas que

fez para o Exército.

A opinião exposta no artigo — de que legalizar a prostituição

tendia a aumentar, não a diminuir, a incidência de doenças

venéreas, um argumento para que o ofício permanecesse na

ilegalidade — poderia ou não ser o que Lee pensava na época, mas

o certo é que ele embasou seu argumento em dados muito fortes

(e algumas afirmações sem fundamento). Embora Lee tenha

escrito ficção e humor para as revistas de Goodman ao longo dos

anos, esse foi um dos poucos — talvez o único — texto de não

ficção baseado em pesquisas.

* * *

Larry Lieber, que trabalhava na produção da Magazine

Management, voltou aos quadrinhos, primeiro trabalhando como

arte-finalista de quadrinhos humorísticos e títulos para

adolescentes, depois desenhando e fazendo a arte-final de pelo menos uma história, “Cop on the Beat”, lançada na revista All True

Crime n.º 44, de maio de 1951. Lieber logo se juntaria à Força

Aérea dos Estados Unidos e serviria um tempo em Okinawa,

sendo dispensado em 1955.

* * *

Foi em 1952 que Martin Goodman começou a fazer a própria

distribuição dos quadrinhos e revistas, criando a Atlas. (Os

quadrinhos de Timely desse período são conhecidos como Atlas

Comics, já que o logotipo da Atlas era a única marca consistente

que aparecia nas capas.) Talvez ele e o contador da empresa,

Froehlich, estivessem preocupados com a possibilidade de que,

com toda a publicidade negativa das HQs, os distribuidores não

dessem a atenção de que precisavam. Nesse caso, seria melhor

tomar o controle do processo (embora isso não explique por que

também fazer a distribuição das revistas). Em teoria, Goodman

agora também conseguiria reter uma porcentagem maior dos

lucros dos quadrinhos (e das revistas), o que se tornava

especialmente importante porque os varejistas — mais uma vez,

devido à publicidade negativa das HQs — passaram a encomendar

lotes menores ou a parar completamente a revenda. De qualquer

forma, a opção pareceu funcionar, e os quadrinhos e revistas

continuaram a prosperar.

Nesse mesmo ano, os Lee se mudaram para uma nova casa,

“uma antiga garagem de carruagens remodelada em Richards

Lane, no bairro de Hewlett Harbor, em Long Island. (…)

Desapropriada de um clube privado da década de 1920,

frequentado por quem os historiadores locais descrevem como ‘as

famílias mais proeminentes e ricas da ilha’”. [ 141 ] Stan e Joan sempre preferiam comprar a casa mais antiga e acessível em um

bairro muito sofisticado. [ 142 ] Como na residência anterior, a

nova casa não ficava longe da propriedade opulenta de Martin

Goodman.

Em 1953, Joan Lee deu à luz outra filha, a quem ela e o marido

batizaram de Jan. No entanto, a criança morreu com menos de

uma semana de vida. Joan refletiu:

 

Nossa única grande tragédia foi a perda de nossa filha. Ela viveu

apenas alguns dias, e não podíamos mais ter filhos. Talvez seja por

isso que Stan, Joan e eu sempre fomos tão grudados. Fora esse

evento trágico, tive uma vida muito abençoada. [ 143 ]

 

Quando o médico revelou que Joan não poderia mais ter filhos,

o casal tentou adotar, mas o estado emocional da esposa após a

morte de Jan foi motivo de receio para as agências de adoção, que

também se incomodaram com o fato de Stan ser judeu e Joan

pertencer à Igreja Episcopal. Com isso, os dois desistiram de

tentar expandir a família. [ 144 ]

* * *

Em 1953, apesar da falta de interesse por super-heróis nas bancas

(dos heróis mais famosos, apenas Super-Homem, Batman e

Mulher-Maravilha ainda apareciam com frequência), a série de

TV Superman foi um grande sucesso. Goodman e Lee decidiram,

então, reviver os três principais heróis da Timely em vários

títulos. John Romita — então com vinte e poucos anos e

estabelecendo o estilo que o tornaria uma estrela dos quadrinhos

nos anos 1960 — desenhou as histórias do Capitão América desse relançamento. Carl Burgos, criador do Tocha Humana, trabalhou

outra vez nele junto com o novato Dick Ayers. Bill Everett

também retomou sua criação, o Príncipe Submarino. Esse revival

duraria menos de um ano, a não ser pelo Príncipe Submarino, que

se manteve até 1955, com a perspectiva de uma adaptação para a

TV que mantivesse a versão impressa viva. No entanto, a série

nunca se concretizou.

Naquele ano, apesar de escrever algumas poucas histórias de

super-herói, Lee preferiu se limitar ao humor e aos westerns,

pontuados por algumas histórias de mistério, terror e guerra.

Na edição n.º 29 de Suspense, lançada em abril de 1953, Lee e

Maneely — em um ataque velado a Wertham — publicaram “The

Raving Maniac” [O maníaco desvairado]. Na história, um homem

exaltado e descabelado invade o escritório do editor de

quadrinhos para repreendê-lo por imprimir histórias de terror. O

editor é a cara de Stan Lee, que responde ao sujeito frenético

mostrando o jornal do dia, com a apavorante manchete nova

bomba atômica pode destruir a terra! e dizendo: “Pelo menos

os leitores sabem que nossas histórias são ficção! Quando deixam

a revista de lado, podem se esquecer do que aconteceu! Mas dá

para morrer de medo só de ler as manchetes do jornal!”

Continuando o argumento, ele diz que se o sujeito não gosta das

histórias…

 

Então não leia! Ninguém está obrigando! Essa é uma das

maravilhas desta grande nação: todo mundo é livre para fazer o

quiser, desde que não faça mal a mais ninguém!

 

Um momento depois, atendentes de uma instituição não

especificada aparecem para tirar o “maníaco desvairado” dali. O editor volta para casa no fim do expediente, feliz em ver a esposa

(que se parece com Joan Lee) e a filha. A história termina com o

editor contando à criança uma história para dormir que começa

assim:

 

Era uma vez um homenzinho muito agitado, sem nada com que se

preocupar, que entrou no escritório de um editor para reclamar de

algumas revistas (…)

 

Depois, Lee editaria e escreveria as histórias das oito primeiras

edições de uma nova série de terror e fantasia chamada Menace,

que estreou em março de 1953. Talvez por querer mostrar que ele

— e a Atlas — poderiam competir com a EC em pé de igualdade,

Stan assumiu o título como uma espécie de projeto. Na série, sua

voz editorial surgia nos momentos de informalidade, falando com

os leitores no início e no fim de muitas histórias. A série, seu

projeto de estimação, passaria pelas mãos de seus artistas

favoritos, incluindo Joe Maneely, Bill Everett, Russ Heath, Joe

Sinnott, John Romita, Gene Colan e George Tuska.

A Menace n.º 7 incluía “The Witch in the Woods” [A bruxa na

floresta], outra história contra os antiquadrinhos, feita por Lee e

Joe Sinnott. Era sobre um pai preocupado que impede o filho de

ler histórias em quadrinhos e decide, em vez disso, ler um conto

de fadas para o garoto. Mas o conto de fadas se mostra

perturbador demais para o pai bem-intencionado, que é incapaz

de ter minar a história. O garoto exige: “Vamos lá, pai… Conta! O

que aconteceu?”

Apavorado, suando em bicas, o pai responde: “Não consigo! É

horrível demais! Estou até passando mal!”

Então a criança conclui, numa síntese brilhante:

 

Minha nossa, pai… você devia ler uns quadrinhos… Esses contos de

fadas são muito violentos!

 

Também em 1953 e 1954, Lee e Goodman, imitando a bem-

sucedida revista Mad, da EC — que começou como livro em cores

que copiava outros quadrinhos e tirinhas —, publicaram três

cópias de curta duração: Crazy, Wild e Riot. Os historiadores de

quadrinhos não conseguem determinar se Lee escreveu alguma

das histórias dessas revistas, mas, como editor, ele decerto

escolheu alguns de seus artistas favoritos para a publicação,

incluindo John Severin, Joe Maneely, Russ Heath, Dan DeCarlo e

Al Hartley. As três séries de humor, no entanto, terminaram em

meados de 1954.

Na mesma época, a cruzada de Fredric Wertham ganhava força,

e ainda mais com a publicação do livro antiquadrinhos mais

vendido, Seduction of the Innocent [Sedução dos inocentes],

lançado em abril de 1954. O senador Estes Kefauver assumiu a

briga contra a delinquência juvenil e sua possível ligação com os

quadrinhos. Foram realizadas audiências públicas em

Washington, D.C., ainda enquanto Seduction causava alvoroço na

mídia.

Os editores de quadrinhos enviaram representantes às

audiências, que tinham o próprio Wertham de testemunha, mas o

único editor a depor foi William M. Gaines, da EC, cuja fala em 21

de abril de 1954 foi considerada um fiasco, afundando-o junto

com a própria editora e a indústria como um todo. Gaines teve que defender uma capa da EC que mostrava a cabeça decepada de

uma mulher, alegando que era “de bom gosto”.

Como Joe Simon recordou, ele, Kirby e suas famílias assistiam

juntos à audiência pela TV. E lembrou que, ao ver o testemunho

de Gaines, disse: “Sabíamos que estávamos com problemas.” [ 145 ]

Foi Froehlich, não Goodman, quem testemunhou diante do

comitê em nome da Timely. Gaines tentara convencer os

senadores de que os quadrinhos de terror da EC eram apenas

piadas — mesmo sendo condescendente com seus interrogadores

—, mas o testemunho de Froehlich foi profissional, diminuindo o

valor dos quadrinhos policiais e de terror da Timely, alegando que

só publicavam aquele tipo de história para se manter na

competição com outras editoras. Ele observou que também

tinham publicado quadrinhos bíblicos (“Nosso editor foi até a

Escola de Teologia da Universidade Yale em busca de

orientação”), mas que foram um fracasso de vendas.

Mantendo-se longe de argumentos com fatos e números,

Froehlich assumiu um discurso um tanto poético:

 

Se a violência em si tivesse sido proibida de toda a literatura,

eliminando tudo que fosse tabu, estranho ou louco, será que Mary

Shelley teria escrito Frankenstein? Será que Shakespeare teria

escrito Macbeth? [ 146 ]

 

Embora Froehlich tenha encantado o comitê, a Timely/Atlas

entrou na pilha das outras editoras. A estratégia de invocar

Shelley e Shakespeare se mostrou insuficiente quando um

membro do comitê exibiu um exemplar da Strange Tales n.º 28, de Goodman, observando que “em cinco histórias, 13 pessoas têm

mortes violentas”. [ 147 ]

* * *

Em resposta à atenção do governo, os editores formaram a Comics

Magazine Association of America (CMAA) [Associação de

Revistas em Quadrinhos da América], substituindo a ACMP, e

instituíram o Comics Code [Código dos Quadrinhos], um

conjunto de diretrizes internas de censura para a indústria. Sem

querer ingressar na CMAA e incapaz de ganhar força no mercado

com a linha de quadrinhos New Direction — sobretudo porque

muitos distribuidores e varejistas desconfiavam da EC —, Gaines

acabou transformando a bem-sucedida revista Mad, editada por

Kurtzman, em uma publicação maior em preto e branco, e o

formato o livrava do código. A Mad se tornou um enorme sucesso,

salvando a empresa de Gaines. Lee, sempre amante do humor,

apresentou a resposta da Timely, a Snafu.

O título era um acrônimo impertinente e de origem militar para

Situation Normal All Fucked Up (ou Fouled Up, para os mais

sensíveis) [Situação Normal, Tudo Fodido (ou Ferrado)]. A Snafu

era toda escrita por Lee, exceto por algumas aparições de seus

artistas. Os créditos para a primeira edição eram: “O projeto

inteiro foi quase todo cuidadosamente escrito e editado por

Stan Lee.”

Entre os outros créditos cômicos estão “Founded by Irving

Forbush” [Fundada por Irving Forbush] e “Losted by Marvin

Forbush” [Perdida por Marving Forbush] — esses nomes

engraçados [Forbush pode ser traduzido como “Fuleiro”, e Irving

Forbush veio a se tornar o Forbush Man, que no Brasil foi traduzido como Homem-Fuleiro] que Lee usou poderiam ter sido

retirados de alguma apresentação humorística da vaudeville

judaica, e é possivelmente a primeira menção impressa a Irving

Forbush, um nome a que Lee recorreria ao longo dos anos para

evocar esse humor mais iídiche, a língua germânica adotada pelos

judeus, escrita com os caracteres hebraicos. Não há registros de o

nome Marvin Forbush ter sido usado outra vez.

Para a segunda edição, Lee recorreu outra vez ao iídiche, com o

crédito: “Toda essa mashuguna [“besteirada”, em iídiche] foi

escrita e editada por Stan Lee, o risonho.”

Além de Stan receber a alcunha de “risonho”, todas as pessoas

listadas nos créditos da edição também tiveram apelidos

carinhosos — mais tarde, Lee ficaria famoso por apelidar seus

cocriadores da Era Marvel. Algumas das alcunhas usadas na Snafu

n.º 2 incluem: Martin Goodman, o festeiro; Monroe Froehlich Jr.,

o animado (sobre quem observou que “Irving Forbush ficaria

orgulhoso” — talvez por ter um nome igualmente engraçado e que

parecia judeu?); Joe Maneely, o alegre; e Johnny Severin, o

empolgado. Curiosamente, o nome da irmã de Severin aparece na

página de créditos como “A responsável pela produção é a doida

da marie severin”. Marie ingressara havia pouco tempo na

Timely, logo após a intensa redução de produção da EC, onde fora

colorista-chefe. Ela viria a se tornar uma das principais artistas da

Marvel nos anos 1960.

Uma revista humorística como a Snafu — que competia com a

Mad, do amigo e ex-artista da casa Harvey Kurtzman — era

perfeita para Lee. Embora o humor seja subjetivo, podemos

ressaltar algumas das piadas mais famosas das edições:

A primeira edição (de novembro de 1955) tinha uma seção

intitulada “Cheesecake”. A página continha sete fotos pudicas de

modelos femininas em trajes de banho ou equivalente, e, na parte

inferior, uma legenda dentro de uma seta, que dizia: “Vire a

página para ver o maior cheesecake [ 148 ] do mundo!” A página

seguinte tinha apenas uma foto de — talvez você já tenha

adivinhado — um enorme cheesecake.

A terceira edição (de março de 1956) tinha uma seção chamada

“You Don’t Say!” [Não me diga!]. Era um título recorrente para

Lee, usado inclusive na revista Fumetti (de fotos cômicas),

publicada nos anos 1960. No caso da Snafu, era uma matéria de

duas páginas com oito fotos de uma jovem de cabelo castanho

curto conversando com o além e fazendo “comentários típicos de

uma garota”. Sob cada comentário, porém, estava escrito “o

verdadeiro pensamento da nossa garota Snafu”.

Por exemplo, uma legenda dizia: “Ah, Nancy, você precisa

mesmo ir tão cedo?” Porém, abaixo, o pensamento da garota era:

“Se eu passar mais um minuto com essa chata insuportável vou

dar um berro !” A “garota” nas fotos (todas com desenhos

criativos como plano de fundo) é ninguém menos que nossa Joan

Boocock Lee, porém não creditada. Ela também aparece como

modelo de um maiô casto e simples na mesma edição, numa

matéria chamada “Eles que comam cheesecake!”, onde é

identificada apenas como “uma das oito delícias”. Essa edição não

tem nenhuma foto de torta, mas cada foto tem uma legenda bem-

humorada.

A terceira edição tem uma coluna de cartas, mas todas parecem

falsificadas e apenas para efeito humorístico. Uma das menores é:

Caro Stan:

Potrzebie!

De Karvey Hurtzman

(endereço retido por medo de retaliação)

 

É difícil determinar quantos leitores compreendiam essas piadas

internas. (Além da brincadeira com o nome de Kurtzman,

potrzebie era uma palavra sem sentido usada na Mad em

momentos de exaltação.) De qualquer maneira, a terceira edição

da Snafu foi a última.

A publicação foi seguida por mais três edições (n.º 4-6) da Riot,

no formato tradicional de quadrinhos em cores, todas com

créditos de escrita atribuídos a Lee. Essas edições publicavam

paródias e cópias de tirinhas, histórias em quadrinhos, filmes e

muito mais. Dois destaques foram os quadrinhos de Lee e

Maneely, “The Seventeen-Year Itch” [A crise dos 17 anos] e sua

sátira de Dennis the Menace, chamada de “Pascal the Rascal”

[Pascal, o Patife].

* * *

Em 1956, Larry Lieber, dispensado da Força Aérea havia um ano,

estava desenhando — e talvez escrevendo — histórias em

quadrinhos de romance para a Timely/Atlas. Ele morava com os

Goodman e estudava na Art Students League, a Liga de

Estudantes de Arte, em Manhattan. [ 149 ]

Nesse mesmo ano, Jack Kirby, depois de encerrar a parceria

com Joe Simon, trabalhava de freelancer na DC. Precisando de

mais renda, retomou contato com a Timely/Atlas pela primeira

vez desde o desentendimento dele e de Simon com Goodman, em

1941. Lá, fez algumas histórias curtas de ficção científica e três edições dos quadrinhos do Garra Amarela, personagem inspirado

em Fu Manchu. Foi provavelmente todo o material que escreveu e

desenhou para a Timely. Não demoraria para que Kirby — e todos

os outros artistas — encerrassem bruscamente os trabalhos com a

Timely.

Embora as vendas da Atlas tenham sido razoavelmente boas, era

inevitável que a disposição antiquadrinhos no país afetasse as

receitas da empresa. Os pagamentos dos freelancers eram

reduzidos com certa regularidade. De acordo com Raphael e

Spurgeon: “Amedrontado com o declínio nas vendas de

quadrinhos e os potenciais efeitos das audiências no Senado e do

Comics Code, Goodman fechou a Atlas News [sua franquia de

distribuição] em novembro de 1956, assinando um acordo com a

maior distribuidora de quadrinhos [e revistas no geral] de meados

da década de 1950, a American News.” [ 150 ]

Mas a American News, por sua vez, também estava vivendo um

desastre financeiro. O “festeiro” Martin Goodman — aconselhado

pelo “animado” Monroe Froehlich (que talvez tenha conseguido

interpretar os sinais do declínio quando se dirigiu ao comitê do

Senado, em 1954) — tinha tomado o que Raphael e Spurgeon

chamaram de “a pior decisão comercial de sua carreira. (…) A

American News saiu do mercado no início de 1957, deixando

Goodman numa busca desesperada por outro distribuidor”. [ 151 ]

A história é vaga sobre os motivos de Goodman não ter

simplesmente tomado as rédeas da situação, pedindo desculpas

aos atacadistas e varejistas que deixara na mão, e restabelecido a

própria distribuidora.

Quaisquer que fossem as razões, Goodman mudou a

distribuição para a gigante Independent News (IND), subsidiária da National Periodical Publications/DC Comics. Porém, receoso

do hábito de Goodman de inundar o mercado, a IND limitou a

distribuição da Timely a oito quadrinhos por mês (que ele

cumpria com 16 lançamentos bimestrais). De repente, as

publicações de Goodman foram reduzidas em 80% por mês. [ 152 ]

Lee parou de distribuir trabalho para os freelancers, tentando

usar o material acumulado. Mais de uma vez, teve que dizer aos

artistas que não tinha trabalho disponível. Segundo relatos, ele ia

ao banheiro vomitar após cada recusa. [ 153 ]

Entre os muitos freelancers com quem Lee encerrou contrato

estava John Romita, a quem Lee avisou por meio de um

telefonema de sua secretária, talvez por medo de um confronto

direto com um homem que estimava muito. Romita lembrou:

Achei que nunca mais fosse trabalhar com quadrinhos. (…)

Quando Stan cancelou meu trabalho em uma revista de western no

meio da história, pensei: “É isso.” Nunca fui pago pelo que já tinha

feito e disse a [minha esposa] Virginia: “Se Stan Lee ligar, diga a

ele que vá para o inferno.” [ 154 ]

 

Ela não precisou se dar ao trabalho.

Lee já estava lá.