A Espetacular Vida de Stan Lee
1. JFK, os Beatles… e Stan Lee
Stan Lee (…) contribuiu para a revolução e a
modernização da indústria de quadrinhos
norte-americana nos anos 1960 da mesma
forma que Elvis e os Beatles revolucionaram a
indústria da música e transformaram toda uma
cultura.
— “Stan Lee: An Appreciation”, The Boston
Herald,
13 de novembro de 2018 [ 01 ]
Jamais podemos permitir que esta nação se
torne uma ditadura do… Doutor Destino!…
Temos que seguir adiante, avançar sem vacilar!
E agora, senhores, se me dão licença, é hora
de botar a Caroline para dormir!
— John F. Kennedy, presidente dos Estados
Unidos, na versão de Stan Lee da edição de
número 17 de Quarteto Fantástico, agosto de
1963
E m maio de 1963, Stan Lee proclamou ao mundo que começava a “Era Marvel dos Quadrinhos”. E, de fato, quase todos os gibis que saíram naquele mês anunciavam o fato em negrito, em manchetes enormes: O GRUPO MARVEL APRESENTA “A ERA MARVEL DOS QUADRINHOS!”
E isso acabou se tornando mais do que uma jogada de marketing
inteligente. Lee e seus colaboradores do departamento criativo
estavam envolvidos justamente na criação dessa “Era Marvel” —
ou, como é mais conhecida, a década de 1960.
O ano de 1963 talvez tenha sido aquele em que Lee mais inovou
em toda a sua vida. Com os parceiros Jack Kirby, Steve Ditko,
Larry Lieber (irmão de Lee), Don Heck e alguns outros, Stan Lee
reinventava os quadrinhos ao criar personagens que mudariam a
cultura pop. Só naquele ano, surgiram o Homem-Aranha, o
Doutor Estranho, os Vingadores e os X-Men, sem falar na atenção
que o público continuava a dedicar ao Quarteto Fantástico, que
Lee e Kirby haviam lançado em 1961.
Lee, que aos quarenta anos continuava jovem e enérgico, ainda
que com entradas cada vez mais profundas no cabelo, se dedicava
ao máximo a inventar quadrinhos diferentes de tudo o que já se
vira. Alguns dos episódios mais hilários incluíam pular nas
escrivaninhas e fazer poses de efeito, encenando para os artistas o
tipo de ação e poder que queria ver nas histórias. Mas, além de simplesmente demonstrar as poses, seus pulos, gritos e gestos
intensos eram um jeito de transmitir sua empolgação aos artistas
— e, se tudo desse certo, contagiá-los.
Apesar de todo o entusiasmo, nem mesmo Lee poderia ter
previsto que o Homem-Aranha se tornaria o símbolo de toda
criança que se sentia deslocada nem que os X-Men fariam com
que todos os adolescentes excluídos sentissem que, em algum
lugar, havia uma família de pessoas igualmente estranhas na qual
conseguiriam se encaixar. Lee não sabia que os hippies
maconheiros veriam as histórias de Ditko do Doutor Estranho e
presumiriam que os roteiristas estavam tão chapados quanto eles.
(E isso quando R. Crumb ainda trabalhava desenhando cartões de
aniversário!)
Stan Lee pensava estar apenas produzindo — e escrevendo boa
parte de — uma série de histórias em quadrinhos de super-heróis
que parecia fazer sucesso entre crianças, adolescentes e — isso
sim uma grande novidade — o pessoal da faculdade. Lee tentava
conquistar um público mais velho, e chegou até a criar uma HQ
chamada Amazing Adult Fantasy, cujo slogan era: “A revista que
respeita sua inteligência” — e tudo indicava que estava
conseguindo.
Lee era conhecido como um sabe-tudo animado que gostava de
se divertir com a equipe. O problema era que os grandes cortes de
orçamento de 1957 tinham reduzido muito o número de
funcionários. Então, para extravasar o jeito brincalhão, e fazendo
o que considerava uma última tentativa de continuar na indústria
de quadrinhos, Stan Lee começou a empregar essa atitude na
contação de histórias e no contato direto com os leitores, o que incluía proclamar a chegada de uma “nova era” para suas séries de
quadrinhos.
Essa abordagem divertida, combinada com uma grande
capacidade de contar boas histórias e as habilidades dos artistas
com quem trabalhou, parecia surtir efeito. A garotada, que
adorava o humor irreverente e às vezes um pouco
incompreensível de Steve Allen, Jonathan Winters e Ernie Kovacs,
parecia fisgada pelas séries de quadrinhos de Lee. As vendas só
aumentavam, assim como a atenção das crianças. E Stan Lee sabia
muito bem disso, considerando as cartas que jorravam pelo
correio e o fluxo constante de pré-adolescentes que tentavam
entrar escondidos nos escritórios da Marvel para vê-lo de perto e
conhecer os artistas imaginários dos Bullpen Bulletins, que, de
acordo com a ilusão criada por Lee, estavam só esperando uma
visita e um bate-papo.
Mesmo assim, ainda ia demorar alguns anos para que diretores
como Federico Fellini e Alain Resnais aparecessem no escritório
da Marvel para conversar com Lee; para que estrelas do rock em
turnê por São Francisco aproveitassem para dar uma passadinha
na redação; para que a revista Esquire dedicasse um bom espaço
de suas páginas aos quadrinhos da Marvel e a seus fãs; e, com
certeza, para que um aluno do curso de letras da Universidade de
Princeton apontasse a Marvel Comics como “a mitologia do século
XX”, ressaltando que Lee seria “o Homero dessa geração”.
Sobretudo, ainda levaria um ano inteiro até que as universidades
começassem a sequer convidá-lo para palestras.
Lee sabia que influenciava as conversas da garotada que se
encontrava em farmácias e lanchonetes do colégio. Mas foram
dois eventos memoráveis que o fizeram perceber que não estava apenas criando histórias na onda cultural do tempo em que vivia,
e sim que causava um impacto na cultura, assumindo uma posição
importante no debate.
* * *
Lee já tinha passado por muitos apertos em sua carreira nos
quadrinhos e sabia que era melhor não apostar todas as fichas de
uma vez só. Estava sempre em busca de trabalhos paralelos, talvez
até por algo que o tirasse do mundo pouco rentável das HQs,
pegando freelas publicitários e agenciando autores de tirinhas
para jornais. Também escrevia para as revistas de Martin
Goodman sem relação com os comics; tais publicações pertenciam
à Goodman’s Magazine Management Company, que também
abrigava a Marvel. (Além de chefe, Goodman era casado com a
prima de Lee, o que ao longo dos anos se provou uma bênção e
uma maldição.)
Para a Magazine Management, Lee produzia uma publicação
humorística chamada You Don’t Say. Era uma revista de fotos de
celebridades, inclusive políticos, por cima das quais Lee inseria
balõezinhos de diálogo cheios de humor. Era um trabalho fácil e
divertido que gerava renda extra. Além disso, Lee acreditava que,
considerando o nível de humor que ele se empenhava em criar, a
publicação poderia até competir com a reverenciada revista The
New Yorker! E mais: acreditava que a You Don’t Say tinha o
potencial de se tornar um título de grande importância que o
permitiria trocar de vez o mercado de quadrinhos por um mais
estável, mais apropriado para um adulto. [ 02 ]
As duas primeiras edições venderam bem. Na capa da terceira,
Lee usou uma foto do então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy (que inclusive fizera aparições não remuneradas nos
quadrinhos da Marvel). A figura reconhecida internacionalmente
estava por trás de um pódio, com enormes selos presidenciais
estampados tanto no púlpito quanto na parede. A piada para a
imagem redundante era um balãozinho saindo da boca de
Kennedy com os dizeres: “Permitam que eu me apresente.”
Segundo o próprio Lee:
Enquanto a edição estava no prelo, o presidente John F. Kennedy foi
assassinado.
Eu não tinha como permitir que aquela revista chegasse às
bancas. Todos os exemplares foram destruídos. Fiquei tão mal que
nem cogitei continuar a publicar a You Don’t Say. [ 03 ]
(Parece que ao menos alguns exemplares saíram da gráfica, já
que, volta e meia, é possível encontrar um original à venda na
internet.)
Flo Steinberg, assistente do escritório, à época recém-
contratada, fez questão de ressaltar o efeito daquela tragédia
nacional sobre a equipe. Ela contou, lembrando:
O pessoal da Magazine Management sempre tirava sarro da gente
[os que trabalhavam com quadrinhos]… Os departamentos só se
uniram de verdade quando ficamos sabendo do assassinato do
presidente Kennedy. Todo mundo parou o que estava fazendo e se
juntou para ouvir as notícias no rádio. [ 04 ]
Toda a nação ficou atordoada com o crime, cometido em 22 de
novembro. A Marvel tinha incorporado muito da personalidade empática, brincalhona e otimista associada à administração jovem
e enérgica de Kennedy. (Assim como Kennedy, Lee e Kirby
faziam parte da geração que presenciara a Segunda Guerra. Kirby,
inclusive, nasceu no mesmo ano que o ex-presidente, 1917.)
Será que alguém teria se ofendido se a terceira edição de You
Don’t Say tivesse chegado às bancas? Logo depois do assassinato,
havia tantas revistas com fotos de Kennedy na capa que a
publicação provavelmente não teria atraído muita atenção
negativa.
O mais importante aqui é analisar a opinião que Lee tinha do
impacto de seu trabalho, a ponto de a revista precisar ser
impedida de chegar ao público. Mesmo que os leitores que não
faziam parte do público antenado na moda — e os inúmeros pré-
adolescentes — não tivessem percebido a importância de seu
trabalho, Lee sabia. (E, nos anos 1940 e 1950, suas publicações de
fato atraíam bastante atenção da mídia. Por que não atrairiam
naquele momento?) De fato, não demoraria para que o mundo
passasse a concordar com a visão de Lee sobre a importância dos
comics da Marvel.
* * *
Enquanto o país tentava processar e entender o assassinato de seu
presidente, Lee — como muitos da indústria do entretenimento —
seguiu com seu trabalho, cumprindo prazos e lançando
quadrinhos, pavimentando o caminho de sucesso da Marvel.
Durante essa mesma época, havia outra figura de meia-idade
muito relevante na cultura pop: Ed Sullivan. Em maior escala, ele
também teve que lidar com os mesmos desafios de Lee. Sullivan
apresentava um programa de variedades na TV que levava seu
próprio nome. E, assim como Lee, teve que descobrir como continuar entretendo o público norte-americano logo após esse
trauma nacional.
Sullivan tinha acabado de visitar a Inglaterra, onde
testemunhara em primeira mão o crescente fenômeno conhecido
como “Beatlemania”. Os Beatles não eram apenas uma banda de
rock extremamente popular; eram objeto de uma adoração quase
histérica e sem precedentes, sobretudo por parte do público de
meninas adolescentes. Como a banda de Liverpool também estava
começando a fazer sucesso nos Estados Unidos, Sullivan os
convidou para três episódios consecutivos em seu programa
noturno de domingo, que se passava em Nova York — isso no
começo de 1964. Embora especialistas como Dick Clark, guru da
música pop, achassem que a banda não tinha muita relevância,
Sullivan decidiu seguir seus instintos, que diziam justo o oposto.
Quando estrearam no programa, em 9 de fevereiro, os Beatles já
eram febre nos Estados Unidos, assim como na Inglaterra. E, ao
fim da série, a banda estava ainda mais famosa. A primeira
aparição do grupo virou uma espécie de marco cultural. Assim
como aconteceu com o assassinato de Kennedy, os jovens da
época usavam o momento como ponto de referência, querendo
saber onde as pessoas estavam na hora do programa.
A solução de Stan Lee para o desafio de lidar com o assassinato
de Kennedy foi simplesmente seguir com as revistas em
quadrinhos. Não houve nenhuma menção direta ao assassinato
nas histórias. Talvez Lee sentisse que nada que dissesse seria
apropriado. (Em alguns anos, sua atitude de evitar comentários
públicos sobre eventos relevantes mudaria drasticamente.) Mas
era certo que ele tinha noção do que estava acontecendo na
cultura pop — incluindo o fenômeno dos Beatles. Na página de cartas dos leitores do Quarteto Fantástico n.º 31, que foi às bancas
em julho de 1964, David Grace, um leitor de Liverpool, escreveu:
Ficou sabendo que o segundo Quarteto Fantástico passou 13 dias aí
nos Estados Unidos? Estou falando dos Beatles! Eles são o nome
mais importante da música, assim como as suas histórias dominam
a cena dos quadrinhos.
Ao que Lee respondeu:
Obrigado, Dave! Só não sei se essa carta devia ter vindo para o
pessoal aqui da redação ou para os Beatles!
E em Strange Tales n.º 130, que chegou às bancas
posteriormente naquele mesmo ano, Lee, em parceria com os
artistas Bob Powell e Chic Stone, apresentou uma história com o
mesmo título do primeiro álbum norte-americano dos Beatles:
Meet the Beatles [Conheça os Beatles]. Na história, o Coisa e o
Tocha Humana, do Quarteto Fantástico, estrelavam uma trama
secundária em que conseguiam ingressos para levar as namoradas
ao show dos Beatles. Só que, devido aos deveres da vida de herói,
não puderam comparecer. A banda chegou a fazer algumas
aparições ao longo da trama, então, mesmo com as dificuldades
dos protagonistas, os leitores puderam “conhecer” os Beatles.
Assim como Ed Sullivan, Stan Lee sabia que a banda inglesa era
relevante na cultura pop, mesmo que não entendesse bem o
motivo e estivesse ocupado produzindo quadrinhos também
culturalmente relevantes naquele momento. Ao contrário dos
Beatles, Lee ainda não tinha um público ao vivo que prestigiaria seu trabalho em qualquer palco do mundo. Porém, assim como a
banda, que tinha fãs e fã-clubes, Lee conseguia fazer com que seus
leitores se sentissem ao mesmo tempo parte de um movimento
gigantesco e de uma comunidade secreta de aficionados que
acreditavam nas mesmas coisas. O que não era um feito pequeno.
Assim como Sullivan, Lee estava fazendo uma espécie de
curadoria cultural, mostrando em seus quadrinhos tudo o que o
público não sabia que queria até descobrir nas páginas de cada
edição. Foi como o roteirista de quadrinhos Dennis O’Neil falou,
ao comentar a carreira de Lee nos anos 1960: “Stan passou uns
sete anos sem cometer um único erro. Foi um sucesso atrás do
outro, e tudo dava certo.” [ 05 ] Considerando o sucesso fenomenal
dos personagens e da empresa em que Lee teve um papel tão
fundamental na criação, é justo dizer que o homem estava à frente
de seu tempo, mesmo que não compreendesse a grandeza dessa
questão no início dos anos 1960.
* * *
Seriam muitos anos até Stan Lee conhecer alguns dos Beatles
pessoalmente — chegando inclusive a fazer negócios com eles —,
embora fossem fãs declarados da Marvel. [ 06 ] E, com o tempo,
Stan chegou até a encontrar presidentes. Mas, enquanto isso,
ajudava a moldar a cultura com cada aventura de super-herói,
cada resposta às cartas dos leitores e cada manchete hiperbólica.
Junto com artistas-colaboradores, Stan Lee estava criando as
histórias da Marvel. E, sozinho, usava essas histórias — e as
personas que criara para si e para os colegas artistas — para
estabelecer a Era Marvel. (Um leitor escreveu reclamando que
chamar aquele momento cultural de “Era Marvel” parecia presunçoso, já que havia outras empresas no ramo. Ao que Lee
respondeu: “Bem, então elas que construam suas próprias eras!
Vivemos em um país livre!”) [ 07 ]
Em retrospecto, era bem evidente que, entre as muitas figuras
que moldaram a época, Stan Lee e a Marvel Comics — sinônimos
quase desde os primórdios — se tornariam peças importantes no
cenário cultural. Embora Kennedy e os Beatles atuassem em
plataformas com alcance muito maior que as publicações de Lee, a
influência dos quadrinhos que ele produzia era — e é até hoje —
inegável.
* * *
Então, será que Stan Lee estava apenas no lugar certo e na hora
certa — ou será que criou o lugar e a hora certos para prosperar?
Bem, se você leu até aqui, então com certeza está curioso a
respeito de como Lee se tornou essa figura central. Para descobrir
a resposta, é hora de recorrer a um dos melhores e mais
tradicionais recursos dos quadrinhos: vamos voltar no tempo e
revelar…
… a origem secreta de Stan Lee!