A Espetacular Vida de Stan Lee
10. Os laços que unem
Só Stan Lee teria aceitado um personagem
como o Surfista Prateado. Se você levasse o
Surfista Prateado a um editor da DC, ele teria
rido na sua cara. (…) Stan Lee não apenas
aceitou: ele seguiu com a ideia e a tornou ainda
melhor.
— John Romita [ 240 ]
N a edição de 4 de julho de 1963 do South Shore Record, um jornal local de Long Island, a coluna “Roslyn Reports”, de Roslyn Davis, relata: O diretor de arte e de roteiros Stan Lee (Lieber) e sua bela esposa britânica, Joan, ofereceram uma festa animada à
beira da piscina, com jantar, no sábado à noite, em sua casa
colonial de 125 anos em Richards Lane [em Hewlett Harbor]. (…)
Sempre bela, a sra. Lieber, com suas madeixas loiras, recebia os
convidados em um longo déshabillé du soir de algodão xadrez
preto e branco, preso à cintura por um ramalhete de margaridas.
A lista de convidados, todos muito interessantes, atraentes e
talentosos, incluía David Mansure, pintor aqui de Columbia, S.A.,
com uma bolsa de estudos da Guggenheim; o editor de revistas
Martin Goodman e a esposa, Jean; o sr. e a sra. Kenneth Bald (ele é
o artista da tirinha Dr. Kildare); os anunciantes de TV Kay Dowd e
Stanley Sawyer, com Sheila Sawyer (…) o advogado Jerry Perlis
[sic] e sua talentosa esposa, Blanche. (…)
A propósito, o segundo livro de legendas hilárias de Stan Lee,
“More, You Don’t Say” [Não me diga ainda mais], acaba de ser
publicado. [ 241 ]
Naquele julho de 1963, enquanto Os Vingadores e X-Men
estreavam nas bancas de todo o país, Stan “Lee (Lieber)” era
apresentado ao mundo, ou pelo menos à costa sul de Long Island,
como “diretor de arte e de roteiros”, embora o detalhe sobre o que
exatamente ele dirigia não tenha sido especificado para os leitores
do South Shore Record. A “festa animada à beira da piscina” contou
com a presença de um grupo considerável, e muitos dos
participantes listados — os Goodman (parentes e empregador de
Stan), os Bald (amigos íntimos de Stan e Joan), Kay (na verdade
Kaye) Dowd (irmã do artista de quadrinhos Vic Dowd e esposa de
Ken Bald, sendo mencionada duas vezes), os Sawyer (amigos de
longa data de Stan e Joan) e Jerry Perles (advogado de Goodman)
— não desconheciam a área de publicação que passou anônima, da
qual Lee parecia ser um figurão.
O objetivo do relato da festa dos Lee, que ocupa metade da
coluna, parece ser, em última análise, promover o segundo
volume de You Don’t Say, publicado por Goodman. (A metade superior da coluna é dedicada à promoção da produção de A volta
ao mundo em oitenta dias, show de Guy Lombardo, que
aconteceria no anfiteatro Jones Beach Marine Theatre e no
restaurante East Point House, propriedade de Lombardo.) Os Lee
e os Goodman já moravam na área havia muito tempo, então
parece um pouco estranho que tanto espaço do jornal tenha sido
dedicado a proclamar que os Lee davam festas excelentes e a
divulgar o More, You Don’t Say, enquanto se esquecem de
mencionar em que tipo de publicação Martin ou Stan estavam
envolvidos — ou mesmo de mencionar qualquer uma de suas
publicações por nome, tirando, é claro, a peça da propaganda.
De qualquer forma, aqui, nos estágios iniciais — mas não nos
primeiros — da Era Marvel, a apresentação de Lee ainda é
ambígua, ainda em transição. A única foto na coluna de página
inteira é o rosto de Joan, legendado apenas como “Joan Lieber”.
Quem eram as pessoas da festa? Eram profissionais do mundo
editorial? Se sim, então por que toda essa imprecisão? E o que
raios é um “livro de legendas hilárias”? Legendas para quê? Por
que o único convidado creditado com trabalho relacionado a
quadrinhos foi Ken Bald, pela tirinha (muito mais respeitável do
que as revistinhas e as séries de TV associadas) Dr. Kildare? Isso
parecia alguma coluna de fofoca estranhamente especializada em
citar nomes de famosos.
A partir de 1941, Stan Lieber apresentara-se aos leitores e
profissionais de quadrinhos como “Stan Lee”, enquanto mantinha,
em sua vida não profissional, a identidade de Stanley Lieber.
Agora havia duas versões dessa pessoa. Mas a versão fictícia
estava, lenta e constantemente, evoluindo, despontando e se
tornando a versão real. Não que Lee estivesse abandonando alguma identidade ultrapassada. Era mais como se ele estivesse
aprendendo a implantar sua personalidade já encantadora e
envolvente em uma área mais ampla.
Em 1963, Stan Lieber levava uma vida suburbana, com desejos e
aspirações de crescer economicamente, enquanto Stan Lee
trabalhava horas extras, tentando manter o impulso do raio que o
acertara em cheio enquanto perseguia outros raios. O raio não
eram apenas os personagens e as histórias; o raio foi em grande
parte o relacionamento da Marvel com seus leitores. E a Marvel
estava se tornando sinônimo de “Stan Lee”.
* * *
Por meio de uma combinação estranha de instinto, observação e
experiência, Lee tinha criado um relacionamento com os leitores
que era mais amplo e profundo do que apenas dizer às pessoas
que, se gostassem do que estavam lendo, deviam dar uma chance
a outros lançamentos da mesma editora. No relacionamento que
começou com os fãs da imprensa e que se estendeu para os
leitores em geral, Lee se envolveu em uma campanha de
publicidade e promoção para a Marvel, seus personagens e seus
criadores. Ele se lembrava da própria experiência como fã de
Poppy Otte de outras séries de livros de Leo Edwards, de como
Edwards criava um vínculo com seu público através dos textos
adicionais e das colunas de cartas nas quais respondia às
perguntas e sanava as preocupações dos fãs. Ele também conhecia
a maneira como a EC Comics, de Bill Gaines, criara uma conexão
com os leitores através de páginas informais de texto e cartas. E,
abrigado nos escritórios da Marvel, na Madison Avenue, Lee
sempre estudara e admirara campanhas publicitárias. Então, tinha a profunda consciência de que, se conseguisse se relacionar com
os leitores, conseguiria, no mínimo, vender mais quadrinhos.
Mas a questão era ainda maior. Embora a Magazine
Management tivesse especialistas em várias campanhas de
marketing, não havia, no início da Marvel dos anos 1960, uma
equipe para os quadrinhos. Enquanto até as menores editoras
contam com departamentos dedicados ao marketing, criando
promoções, fomentando o engajamento dos consumidores,
gerando campanhas de publicidade e tentando estabelecer a
marca no mercado, a Marvel Comics contava apenas com uma
pessoa capaz e disposta a fazer tudo isso: Stan Lee.
Lee intuía que o que estava vendendo não era apenas o
conteúdo ou a qualidade dos quadrinhos. Esses eram elementos
subjetivos, variavam a cada edição, a cada história. Não se pode
controlar o que uma pessoa vai gostar ou não de ler, que erros ou
falhas ela pode ou não perdoar em um determinado problema ou
história. Lee descobriu que precisava criar uma base de fãs leais a
mais do que uma única revista, ou mesmo a uma série de leituras
satisfatórias.
Então, é claro que ele queria que o leitor adorasse os quadrinhos.
Mas, além de histórias, arte e personagens, Stan Lee estava
vendendo relacionamentos. Estava vendendo os relacionamentos
entre os próprios leitores (lembrando-os sempre de que eram
uma “nova geração” de público, que eram especiais simplesmente
por terem aquelas histórias em mãos, o que os tornava membros
de um grupo diferenciado); estava vendendo conexões pessoais
entre os leitores e os artistas, letristas e membros da equipe — seu
famoso Bullpen, como ele chamava a redação; e estava vendendo
um relacionamento entre a Marvel e o mundo inteiro da cultura popular. Daí a citação constante de escritores, músicos e cineastas
descolados, muitos dos quais seu público tinha apenas uma leve
noção de que existiam.
Mas esses nomes estavam por aí, mencionados em revistas
elegantes e programas de entrevistas noturnos. Associar a Marvel
àquela cultura nova, atual, e até esnobe era como dizer que você,
o leitor, era mais que uma criança de dez anos cuja maior emoção
seria uma prova para a qual não estava preparada. Não: você era
parte de uma elite que certamente apreciava os quadrinhos da
Marvel, mas que também estava atenta ao mundo sofisticado da
cultura de Nova York. E acompanhava e compreendia as mesmas
piadas que os outros leitores de Stan, gente da Universidade de
Princeton.
É claro que, por trás de tudo, Stan Lee estava desenvolvendo
uma conexão — um relacionamento, uma amizade — entre ele e os
leitores. Stan Lee era a voz presente na capa, na narrativa, nas
notas de rodapé e, principalmente, nas páginas de resposta às
cartas. Ele conseguiu transformar seu nome em sinônimo da
Marvel Comics.
Nem todo mundo gostava tanto assim dessa ideia. Martin
Goodman, por exemplo, estava preocupado com a possibilidade
de a empresa estar ficando muito dependente de Lee. [ 242 ] Mas
ninguém parecia ter uma ideia melhor.
E o fã que adorava a Marvel Comics adorava Stan Lee. Se tivesse
passado por um dia difícil na escola e corrido para casa, para ler
uma revistinha da Marvel Comics e esquecer qualquer coisa
terrível que tivesse acontecido, esse fã era confortado por Stan
Lee. Se quisesse saber o que estava acontecendo nos bastidores da
Marvel, Stan Lee contava. Se estava com vontade de ouvir alguma história boba sobre a mudança de Sol Brodsky para um
apartamento diferente no mesmo prédio do Brooklyn, Stan Lee
também contava. A Marvel Comics contava essas histórias. Stan-
Marvel, Marvel-Stan contava essas histórias. Era uma voz
reconhecível, o som de alguém escrevendo uma carta ou deixando
você espiar seu diário. Era a voz de um amigo. Uma voz que até
lhe permitia perdoar histórias em quadrinhos que não eram
ótimas, porque, como ela garantiu, a Marvel — sua amiga — estava
sempre tentando fazer o melhor. Ao contrário dos pais, irmãos,
professores ou amigos, Stan Lee nunca decepcionava os fãs.
Porque, se o fizesse, não estaria decepcionando apenas o leitor,
mas também a si mesmo e a seus colegas de trabalho. Ele
decepcionaria todos aqueles que se esforçavam tanto para criar os
melhores quadrinhos que pudessem, com pontualidade e
regularidade. E essa decepção, o leitor sabia, a voz não permitiria.
A voz entendia, assim como Peter Parker, a importância da
responsabilidade. Amigos não decepcionam amigos. Nunca.
Desde a capa até a narrativa das histórias, as respostas às cartas,
os anúncios de outros produtos da empresa, a citação de nomes de
celebridades grandes e pequenas, a gratidão expressa pela
oportunidade de ter leitores tão grandiosos, as queixas sobre
fadiga ocular causada pelas centenas (centenas!) de cartas que
recebiam todos os dias, as piadas sobre o jogo de golfe de “Marty”
Goodman — aquilo não se parecia com nada que os leitores da
época já tivessem experimentado. Essa fusão das personas de um
indivíduo e de uma empresa em uma mídia tão intimista —
sobretudo para uma criança, embora também funcionasse com os
leitores mais velhos — quanto as histórias em quadrinhos foi um
presente incrível.
E essa pessoa — esse Stan-Marvel — não estava apenas
contando uma ótima história — ou às vezes uma história não
muito boa —, estava conversando, brincando e fofocando com o
leitor. Essa voz se sentia em dívida simplesmente pelos 12
centavos que você trocava por, mesmo para um leitor não tão
rápido, menos de vinte minutos de envolvimento. E aquilo era tão
mágico quanto qualquer experiência de entretenimento que
alguém pudesse pedir. Na verdade, foi muito mais do que uma
experiência de entretenimento. Foi, sejamos francos, uma
experiência de família. Stan era sua família, mas sem a parte ruim
da família de verdade.
De onde veio essa capacidade repentina de se conectar com os
leitores? Como um profissional de mídia que já ingressara na casa
dos quarenta de repente desenvolveu o conjunto de habilidades
necessárias para se relacionar com uma grande quantidade de
leitores, crianças, adolescentes, estudantes universitários e
militares? Como Stan Lee saiu de trás da cortina e se tornou não
apenas sua própria personalidade, mas a de toda uma empresa?
A resposta parece estar relacionada à sua percepção de que o
que funcionara nos bastidores, no relacionamento com os artistas,
também poderia funcionar diante das cortinas, para o público
geral. Não era uma questão de inventar a personalidade. Era uma
questão de compartilhar essa personalidade, de desenvolver uma
versão dela para os leitores. Essa “nova” voz de Stan Lee ficava
evidente em suas cartas para Toni Mendez e outros do mundo das
tirinhas dos anos 1950. Era a voz nas cartas enviadas a fãs como
Jerry Bails. Foi a voz que apareceu algumas vezes nos anúncios de
Menace [Ameaça] e de outros quadrinhos que a Atlas publicava
nos anos 1950. É a voz da personalidade que se tornou familiar a pessoas de seus vários círculos de amizade desde que “Gabby”
Lieber rabiscara “Stan Lieber é Deus” no teto da DeWitt Clinton.
Há quem alegue que, mesmo no seu apogeu, os quadrinhos de
Goodman careciam de individualidade; neste caso, o mais
próximo que chegavam de ter uma personalidade era aquela voz
de Stan Lee. Os quadrinhos dos anos 1950 da empresa, no
entanto, pareciam intencionalmente carentes de identidade e
marca, muitas vezes imitando os produtos do próprio Goodman
ou de outras empresas. Dos anos 1940 a 1960, os freelancers às
vezes diziam que estavam trabalhando para a Timely (nunca para
a Atlas, que é um nome usado em retrospecto). De vez em
quando, alguns até diziam que estavam trabalhando para a Marvel,
nome que a empresa usava desde antes dos anos 1960. Mas, acima
de tudo, diziam que estavam trabalhando “para Stan Lee”.
Portanto, já havia o mecanismo para que as pessoas
identificassem a Marvel e Stan Lee como uma mesma entidade.
Era apenas uma questão de Lee entender o significado desse
fenômeno e aplicar essa realidade ao público, em vez de mantê-la
apenas nos bastidores. A ideia de Stan Lee e Marvel como
entidade única precisava ser explorada. A cortina precisava ser
aberta para revelar o homem por trás. Ao contrário do Mágico de
Oz, o truque era ver a pessoa por trás da cortina — mas continuar
comprando mentirinhas e ilusões agradáveis.
As ilusões viriam a se tornar ao mesmo tempo mais complexas e
mais simples. Stan Lee não era o dono da empresa, não desenhava
as histórias, e muitas vezes não as escrevia por inteiro, mas, ainda
assim, era a alma da empresa e de seus produtos. Essa confusão de
Lee com seus colaboradores e colegas de trabalho, bem como com
a própria empresa, levaria a alguns dos maiores triunfos da Marvel e de Lee, bem como a uma das controvérsias mais duradouras.
Stan Lee era um sujeito afável e carismático. Em nome da Marvel
— e em conluio com a editora —, ele lançou uma ofensiva de
simpatia cujos efeitos perduram até hoje. Começou nos
quadrinhos, estabelecendo um vínculo com os leitores, e isso
levou a um aumento nas vendas e a mais visibilidade e
respeitabilidade para ele e para a Marvel, o que trouxe maiores
oportunidades de negócio, possibilitando a contratação de
funcionários e freelancers melhores e mais bem pagos, o que
gerou um crescimento ainda maior para a Marvel e para Stan Lee.
E, o que é mais relevante, enquanto tudo isso se desenvolvia, as
histórias e a arte da Marvel — a criação de aventuras de super-
heróis incrivelmente emocionantes e atraentes — continuaram em
um ritmo acelerado. Todos os tiros estavam sendo disparados de
uma só vez, em um ataque como raramente era visto — se muito,
em alguma campanha de publicidade dos estúdios da MGM. Como
Raphael e Spurgeon relataram a respeito de Lee:
Ele desencavou a essência do que era atraente para os leitores,
destilou-a e passou a transmiti-la com sucesso a uma ampla varie-
dade de artistas e escritores. (…) E também fez o melhor trabalho
de sua carreira como escritor, tanto ao complementar ideias de
outros artistas quanto ao trabalhar com artistas cuja criatividade
era subordinada à dele próprio. Nenhum fenômeno da cultura pop
jamais ofereceu aos leitores mais do que a Marvel de Stan Lee deu
aos fãs de quadrinhos nos anos 1960. [ 243 ]
Ao longo de sua carreira, Lee foi fonte de inspiração para muitos
escritores, artistas e funcionários, muitas vezes graças aos mesmos traços de personalidade e práticas editoriais que
afastaram alguns desses artistas. Com o sucesso crescente nos
anos 1960, a força e o entusiasmo de Lee com as histórias e os
artistas alimentaram a abordagem que ele usava com os leitores
nos editoriais, nas histórias e até nas notas de rodapé. A assistente
executiva Flo Steinberg analisava as centenas de cartas diárias, e
Lee selecionava as opções que ela lhe fornecia em busca daquelas
que permitiriam respostas inteligentes, divertidas e informativas,
complementadas por anúncios especiais e promoções. [ 244 ]
A partir dos quadrinhos de dezembro de 1965, os anúncios
especiais mais interessantes ou importantes, assim como a Lista
de Quadrinhos da Marvel à venda naquele mês, foram
formalizados nas páginas do Bullpen Bulletins. Lee entendia muito
bem que uma coluna de cartas ou um comunicado da redação
eram tão importantes na promoção dos quadrinhos quanto
qualquer anúncio interno ou página de história oficial. A diversão
de ler os quadrinhos da Marvel tinha que ser comunicada em cada
seção de cada edição. Até a estranha variedade de anúncios
pequenos e baratos que a empresa cobrava para exibir nos
quadrinhos — continham de tudo, desde ofertas para converter
poemas em música até a venda de um “subatômico” por US$ 6,95
(um bom negócio!) — de alguma maneira acrescentavam à
atmosfera de festa dos quadrinhos.
Pelo menos no começo, não se pode dizer que Lee planejara
esse fenômeno de divulgação e interação com fãs. Quando a Atlas
fazia sucesso, nos idos de 1950, praticamente não havia
correspondência de fãs, mesmo quando a circulação era massiva.
Os quadrinhos de super-heróis da DC imprimiam colunas com
cartas e premiavam escritores de cartas excepcionais com os originais de arte dos quadrinhos (que na época tinham pouco ou
nenhum valor), mas praticamente ninguém escrevia para o editor
da Timely. Ao que parecia, as histórias genéricas que estavam
imprimindo, por mais que tivessem artes empolgantes ou diálogos
inteligentes, eram consideradas apenas passatempos, uma editora
por quem ninguém se interessaria ou para quem não teriam
tempo de escrever uma carta ou um cartão-postal para elogiar ou
reclamar. Eram histórias para crianças que encaravam os
quadrinhos como uma maneira de aliviar o tédio. Quem gostaria
tanto daquilo a ponto de escrever uma carta? Da mesma forma,
não houvera muito esforço da empresa para incentivar os leitores
a comentarem as histórias, exceto nos quadrinhos de garotas,
como Millie, the Model, que incentivavam os leitores a enviarem
modelos de roupas para os personagens. Outra exceção foi a
Menace, de 1952, que incentivou os leitores a comentarem as
histórias, oferecendo até um prêmio — “uma foto do quadrinho
‘The Men with Two Heads’ [Os homens de duas cabeças] (…)
autografado pelo artista Bill Everett”. O historiador Michael
Vassallo acredita que essa “foto” devia ter sido uma espécie de
pôster. [ 245 ]
E, ainda assim, havia cartas o suficiente sobre Quarteto
Fantástico n.º 1 para imprimir uma coluna de cartas na edição n.º
3. Catalisado pelo renascimento dos super-heróis da DC, um
pequeno grupo de fãs tinha se empolgado com os novos heróis da
Timely. É verdade que havia muito espaço extra em volta das
cartas publicadas, além de uma óbvia carta falsa de Sol Brodsky.
Mas o restante parecia genuíno, incluindo uma missiva do futuro
artista de quadrinhos Alan Weiss. A edição n.º 4 também foi
lançada com cartas reais, com exceção de uma de Stan Goldberg, artista e colorista da Timely. A edição n.º 5 continha cartas
autênticas de fãs, incluindo as do futuro escritor e editor da
Marvel, Roy Thomas, e o integrante do fã-clube, Ronn Foss. No
final dessa coluna, Lee escreveu:
Estamos aprendendo muito com suas cartas. Aprendemos que
vocês gostam e não gostam da alcunha do SR. FANTÁSTICO. Que
gostam e não gostam do Coisa. Bem, não podemos agradar a todos.
(…) Mas não parem de escrever nem fiquem muito bravos com a
gente. E lembrem-se de manter a cabeça erguida!
O interessante é que essa resposta resume o que logo se tornaria
a abordagem da Marvel — ou seja, a abordagem de Stan Lee —
com os quadrinhos e com os fãs. Lee falava com eles como
amigos, que podem se empolgar com uma história emocionante,
depois compartilhar uma piada (e uma perspectiva irônica dos
“bastidores”) com o editor (ainda sem nome naquela época),
enquanto dá uma olhada no que acontece por trás das cortinas. O
editor então termina com uma frase de efeito — “cabeça erguida!”
— que passará a ser associada a ele, mas que também é, como
vários dos slogans de Lee, derivados de gírias do Exército — o que
o ligava aos veteranos e a seus filhos, mas também servia para
inventar um léxico próprio da Marvel. A única carta “plantada” na
coluna talvez seja a de Jon Davidson, que se descreve como “um
estudante inglês”. O estudante é da cidade natal de Joan Lee,
Newcastle upon Tyne, e, em sua resposta, Stan diz: “Esperamos
que você continue gostando das aventuras de seus primos
americanos!”
Em Quarteto Fantástico n.º 10 (que apresentava versões fictícias
de Lee e Kirby como parte da história principal da edição,
relatando a batalha contra o Doutor Destino), a página de cartas
se abria com o seguinte anúncio:
Olha, a partir de agora acabou essa história de “Caro Editor”! Jack
Kirby e Stan Lee (somos nós!) leem todas as cartas, e nós gostamos
de sentir que conhecemos você — e que você nos conhece! Por isso,
mudamos as saudações nas cartas que vamos publicar aqui para
mostrar como nosso jeito soa muito mais simpático!
Em um movimento verdadeiramente revolucionário, que
alteraria para sempre a relação entre fãs de quadrinhos e
profissionais, Lee realizou uma elegante mudança de tom. Ele
editou as cartas de seus leitores para ensinar a eles uma nova
maneira de encarar a equipe da Marvel. Todas as cartas da coluna
começavam, em letras garrafais, com:
“ Caros Stan e Jack”.
Com essa mudança perspicaz, Lee alterou a relação produtor-
consumidor entre a Marvel e seus leitores. Um leitor não estaria
mais se dirigindo a um funcionário de uma empresa. Ele estava
agora se comunicando com dois amigos.
Além disso, Lee gerou a imagem mental que queria que seus
leitores tivessem em relação a quem exatamente estavam
escrevendo. Se ele só quisesse deixar as saudações informais,
fazer a Marvel parecer um pouco menos rígida que a DC, a revisão
mais lógica de “Caro Editor” teria sido “Caro Stan”. Mas, para ele,
era obviamente importante incluir Kirby na equação. E a
construção de Stan-Jack viria a assumir uma infinidade de significados. Dependendo do contexto, pode significar um dos
dois, Stan ou Jack, os dois juntos, ou todos os membros de todos
os departamentos da Marvel.
O que Stan-e-Jack poderiam oferecer aos leitores que os
editores da DC não podiam era a realidade de que, na Marvel, não
havia um abismo entre a voz do criador e a voz editorial. Se uma
revista em quadrinhos pudesse falar, falaria com a voz de Stan-e-
Jack. Não havia nenhum filtro entre o leitor e as pessoas que
criaram os quadrinhos que eram lidos. Lee formou uma voz
autoral que falava do coração da Marvel para o coração dos
leitores. Pensar em Stan e Jack como dois caras — dois amigos,
que também eram seus amigos — abordando cada remetente (e
cada um era um avatar para muitos outros leitores) criava uma
sensação de que aquilo era clube especial ao qual o leitor
pertencia.
E será que ele e Kirby, como declarado, “liam todas as cartas”?
Isso certamente teria sido possível quando o volume era
minúsculo, mas ficou menos provável com o passar do tempo,
quando a quantidade de correspondências aumentou de vez. Mas,
seja qual for o grau de participação de Kirby — e Ditko — na
avaliação das cartas de fãs, fica bem claro que a voz e a atitude da
entidade que se autodenominava “Marvel” vinha diretamente da
mente, da caneta ou da máquina de escrever onde Stan Lee
“catava milho”, digitando sem muita proficiência.
Um exemplo da natureza abrangente da intimidade
aparentemente genuína das colunas de cartas é o de Quarteto
Fantástico n.º 23. Em uma demonstração de franqueza calculada,
porém autêntica, Lee escreveu:
Não podemos dizer o que vai acontecer na próxima edição porque
ainda não decidimos o enredo. (…) Tudo o que diremos é:
precisaremos sonhar com uma história nos próximos dias e
desenhar tudo o mais rápido possível se quisermos cumprir com o
prazo! Então, para descobrir se conseguimos (…) não perca
Quarteto Fantástico n.º 24.
No entanto, depois dessa confissão sincera, cheia de humor e
humildade (mas contando que o leitor presumiria que qualquer
história que conseguissem formular seria maravilhosa), Lee
acrescentou um final sarcástico:
Aliás, se nós PERDERMOS o prazo final deste mês, pode deixar
para lá as cartas para Stan e Jack — muito provavelmente haverá
NOVOS nomes por aqui!
Acima vemos, mais uma vez, o lado “cara comum” de Lee
transparecendo, mesmo quando supostamente está falando em
nome de si e de Kirby. Decerto todos os leitores sabiam que as
chances de Stan e Jack falharem em produzir ou serem demitidos
por essa falha hipotética eram praticamente nulas. Mas a
mensagem trazia a ideia de que, assim como os pais dos leitores e
até mesmo os professores, as pessoas que produziam os
quadrinhos eram humanas e passíveis de falhas e que, dadas as
circunstâncias certas — ou erradas —, poderiam perder o
emprego! Estes quadrinhos são entretenimento para você, dizia
Stan aos leitores, mas é assim que ganhamos a vida! Sabe como seu
pai e sua mãe podem de repente perder o emprego? Então, nós
também podemos!
Esse vínculo com os leitores, combinado com o crescente
sucesso criativo e de vendas dos quadrinhos, levaria — no que,
pelo menos a princípio, não pareceu uma estratégia planejada — a
um círculo inebriante de crescimento e expansão da empresa. A
imprensa estava prestando atenção à Marvel, tanto aos quadrinhos
quanto à voz que falava em nome da empresa. Queriam conhecer
essa voz. E a pessoa que encontravam era, é claro, Lee.
Extrovertido, sociável e sempre no escritório, Lee era a escolha
natural para conversar quando repórteres ou fãs telefonavam. E
foi a escolha natural para os fãs — sobretudo os estudantes
universitários — convidarem Lee para uma conversa em seu
território.
J. Geoffrey Magnus e Isabelle Kamishlian, estudantes da Bard
College, ambos do “Comitê Especial de Programação de Palestras
do Clube de Ciências”, foram os primeiros a convidar Stan Lee
para palestrar em uma faculdade, em uma carta de 24 de março de
1964. [ 246 ] Eles ofereceram honorários de cinquenta dólares e
uma refeição no restaurante italiano local. E talvez também
tenham arcado com a despesa da passagem de trem.
Kamishlian, estudante de química — uma raridade na Bard
College, faculdade voltada para as artes — que viria a trabalhar no
controle de qualidade da Coca-Cola, se lembrava de Lee como
uma pessoa divertida, tanto no jantar quanto na palestra. “Nós
demos início a um movimento”, contou, em 2017. “As pessoas
estavam ‘saindo do armário’, não tinham mais receio de ler
quadrinhos em público.” Ela lembrou que Stan talvez estivesse
“confuso” sobre o motivo de ter sido convidado para palestrar em
uma faculdade. Os alunos, como ela se lembrava, tinham feito o
convite “de brincadeira”. Segundo Kamishlian, a palestra de Lee foi o evento mais cheio que o Clube de Ciências já teve, atraindo
cerca de cinquenta pessoas — o mesmo número que o Clube de
Cinema da faculdade conseguia reunir. [ 247 ] O orador de 5 de
junho de 1964 foi anunciado como “Dr. Stan Lee”.
A Bard College não era uma faculdade qualquer. Embora seja
comum pensar que a era dos hippies e dos aspirantes a hippie,
com seus cabelos longos e tingidos da década de 1960, só caiu nas
graças do imaginário cultural por volta de 1967, no festival
Monterey Pop e no “Verão do Amor” em São Francisco, a Bard era
um centro do florescimento precoce de várias contraculturas da
época. A noventa quilômetros ao norte de Nova York, era uma
famosa faculdade progressista, com alunos conhecidos por
estarem na vanguarda do levante político e cultural. Decerto
convidar um editor e escritor de quadrinhos — mas, mais
importante, a personificação da Marvel Comics — para palestrar
era uma empreitada ao mesmo tempo ousada e — muito
provavelmente — digna de zombaria. Podendo optar por todas as
figuras políticas e culturais da região de Nova York, Magnus (que
faleceu em 2015) e Kamishlian decidiram que era Stan Lee quem
precisavam convidar.
Da mesma forma, em um artigo de Jonathan Wax (estudante de
Princeton e filho de um importante rabino ativista dos direitos
civis de Memphis) em uma edição do Trenton Sunday Times-
Advertiser de março de 1966, um estudante de literatura da
universidade, que não quis se identificar, declarou: “Pensamos na
Marvel Comics como a mitologia do século XX, e em você [Stan
Lee] como o Homero desta geração.” Lee tinha ido à faculdade
para palestrar para a “Whig-Cliosophic Society” — uma espécie
de associação de debates e estudos filosóficos — da universidade.
Eles foram os primeiros a descobrir que Ditko deixara a empresa [
248 ] e laurearam Lee como membro honorário em uma cerimônia
posterior nos escritórios da Marvel. [ 249 ] (Parece provável que o
próprio Wax fosse o estudante de literatura de Princeton. Caso
contrário, por que não dizer seu nome?)
Tratava-se de um fenômeno novo. Jovens espertos, inteligentes
e instruídos encontravam inspiração na Marvel Comics de Stan
Lee. E, embora conhecessem e admirassem os artistas, que eles
supunham estar passando pelo menos parte de seus dias
intoxicados por várias substâncias psicodélicas, foi Stan quem se
fez a voz e o rosto da Marvel, e era Stan quem eles queriam ver.
Mesmo nessa fase inicial, Lee não representava apenas a si
mesmo; ele falava por toda a Marvel — talvez por toda a indústria
dos quadrinhos.
Mas, embora espalhasse a voz da Marvel e idealizasse como
maximizar as vendas e os lucros, o trabalho diário pelo qual Lee
estava sendo pago era editar os quadrinhos. Sem mais ter tempo
para editar e escrever todos os quadrinhos e ainda fazer o
trabalho promocional, Lee precisava de mais funcionários dentro
e fora do escritório. Tinha contratado Flo Steinberg em 1963
como secretária (e pelo menos uma pessoa a precedeu nesse
cargo, depois que Goodman lhe permitiu contratar alguém) e, em
1965, contratou Steve Skeates como assistente editorial. Com o
passar dos meses, a quantidade de freelancers ia aumentando,
com escritores como Robert Bernstein e Leon Lazarus, além de
artistas como Bob Powell e Werner Roth (que assinava como Jay
Gavin) aparecendo nos créditos.
Em julho de 1965, logo após Skeates ingressar na empresa, o
superfã Roy Thomas teve uma reunião com Lee. Em vez de embarcar nos estudos de pós-graduação em ciências políticas,
Thomas aceitara uma oferta de assistente de Mort Weisinger,
editor da DC. Não era uma combinação ideal, e Thomas estava
infeliz trabalhando para o difícil editor de Super-Homem. Ainda
sem cogitar pedir demissão, tinha marcado um encontro com Lee,
com quem trocara correspondências. Lee gostara muito da crítica
que ele tinha escrito sobre Quarteto Fantástico n.º 1, mas sabia
pouco sobre o jovem de Missouri. Thomas fizera o teste de
redação da Marvel — criando diálogos sobre alguns quadrinhos
sem roteiro de Kirby — e achava que ele e Stan iam conversar a
respeito.
Na reunião, Lee não mencionou o teste, mas ofereceu a Thomas
um emprego como “escritor da equipe”. Thomas aproveitou a
oportunidade e, expulso da DC assim que contou a Weisinger
sobre a oferta, começou a trabalhar na Marvel naquela mesma
tarde. Ele logo passou de escritor da equipe a editor-assistente,
mas também escrevia como freelancer.
A chegada de Thomas permitiu que Lee diminuísse a própria
carga de trabalhos editoriais e de redação, o que lhe proporcionou
mais tempo para se concentrar no panorama editorial e para
viajar e palestrar — algo que, ele percebeu, poderia ajudar a
Marvel a vender quadrinhos e também lhe forneceria um fluxo de
renda como orador que talvez pudesse substituir (e exceder)
qualquer trabalho de escrita que estivesse recusando. [ 250 ]
As lembranças de Thomas de seus primeiros dias na Marvel
pintam uma imagem fascinante da empresa em meados de 1965:
A Marvel não tinha escritórios muito grandes, só três ou quatro
salas pequenas. O escritório de Stan era tão grande quanto todos os
outros, e Sol Brodsky, Flo Steinberg e Marie Severin ficavam
amontoados em duas salinhas. (…) Ditko e Stan não estavam se
falando (…) então Ditko entregava suas coisas para Sol, que as
levava para Stan. (…) Jack e Stan ainda se davam muito bem, até
almoçavam juntos de vez em quando. [ 251 ]
Esses escritórios eram uma bela mudança em relação ao
pequeno e humilhante escritório que Lee ocupava após 1957,
lembra Bruce Jay Friedman, escritor e roteirista de cinema, [ 252 ]
e era maior do que o espaço que Steinberg descrevera em suas
memórias de uma época anterior, por volta de 1963. [ 253 ] Aos
poucos, as coisas iam melhorando para a divisão de quadrinhos de
Goodman.
Skeates logo deixaria a empresa, e Thomas se juntaria a seus
compatriotas de Missouri, Dennis O’Neil e Gary Friedrich. O’Neil
duraria cerca de seis meses na Marvel, depois partiria para
lendárias realizações na Charlton e na DC Comics. Friedrich
permaneceria como escritor da Marvel por mais de uma década.
Mas Thomas seria o mais importante redator e editor da época.
Depois que seu trabalho diário evoluíra para um importante papel
editorial, ele também passou a fazer muitos trabalhos autônomos
de redação, que recebia em um pagamento separado do salário.
No início, Lee reescrevia boa parte dos roteiros de Thomas, mas,
depois de um tempo, passou a deixar o texto quase sem
alterações. [ 254 ]
Logo após a contratação de Thomas, Lee conseguiu recuperar
John Romita, que passara oito anos desenhando histórias em
quadrinhos na DC, depois de algumas tentativas anteriores de
trazê-lo de volta à empresa em 1963 e 1964. Romita ficara sem um fluxo de trabalho constante devido a alguma decisão de
política dos executivos da National, e trabalhara um pouco com
arte-final para Lee — mas John não queria aceitar trabalhos de
letrista, o que achava muito mais difícil. (Ao que parecia, seus
sentimentos em relação a Lee e a Marvel tinham melhorado muito
com o passar do tempo, e já estavam muito mais positivos desde a
época em que ele instruíra a esposa a mandar Stan “ir para o
inferno”, em 1957). Depois de trabalhar com Romita em Capitão
América e em outras histórias dos anos 1950, Stan estava ansioso
para ter o artista talentoso, confiável e até temperamental de volta
à Marvel. Com a recente partida do artista e escritor Wallace
Wood, irritado com a parceria com Lee em Demolidor, e com Lee
e Ditko sem se falar, fazia sentido que Stan quisesse adicionar essa
figura à lista da Marvel.
Romita lembrou, em uma entrevista de 2001 para a Alter Ego,
conduzida por Thomas, que tinha aceitado um emprego na
agência de publicidade BBDO, fazendo storyboards,
mas quando ele [Lee] me pediu para entrar como letrista, eu disse:
“Não, acho que não consigo.” (…) E Lee respondeu: “Venha aqui,
vou levar você para almoçar.” Nós fomos almoçar, e ele passou três
horas me perturbando. (…) “Por que quer ser um peixinho em um
lago enorme, se pode ser um peixe enorme em um laguinho?
Garanto que você iguala o salário que estão pagando.” [ 255 ]
Como os quadrinhos, especialmente os de ação e aventura, eram
seu primeiro amor, Romita deixou o emprego na agência de
publicidade e aceitou o trabalho de desenho na Marvel. Para
manter a própria disciplina, pediu para trabalhar no escritório, de
forma que pudesse se concentrar na arte. Mas, no escritório, acabou fazendo todo tipo de tarefas relacionadas à arte, além de
desenhar os quadrinhos. Dessa forma, Romita se tornou — a
princípio informalmente, mas, em dado momento, assumiu um
cargo oficial — diretor de arte da Marvel, embora ainda estivesse
compro metido em desenhar pelo menos uma história de vinte
páginas por mês.
Logo no início, foi designado para substituir Wood em
Demolidor. A princípio, trabalhava sobre os layouts grosseiros de
Kirby, para se acostumar com a abordagem dinâmica que Lee
preferia, mas Romita logo começou a fazer seus próprios roteiros
a lápis para o título. Sua primeira edição foi a n.º 12, de janeiro de
1966, à venda em novembro de 1965. Curiosamente, as
porcentagens de vendas por distribuições em suas edições
aumentaram significativamente em relação às edições anteriores.
Lee, muito provavelmente pensando em transferir Romita para
Homem-Aranha, para o caso de Ditko decidir ir embora, fez o
astro com poderes de aranha aparecer em Demolidor n.º 16 e 17.
Romita só desenhou mais duas edições de Demolidor depois
dessas, porque Ditko de fato largou Homem-Aranha (e a empresa)
depois da edição n.º 38, com capa de julho de 1966. Romita,
acreditando que o artista perceberia que cometera um erro e
voltaria a trabalhar em Homem-Aranha — e em Doutor Estranho
—, tentou imitar a abordagem de Ditko, diametralmente oposta ao
seu estilo de heróis mais tradicionais, cheio de homens bonitos e
musculosos e mulheres atraentes de Hollywood.
Frustrado pelo relacionamento difícil com Ditko, Lee ficou
muito satisfeito por se envolver outra vez na trama do segundo
título mais vendido da Marvel. Para garantir que os leitores não
abandonariam o barco, a primeira história do Homem-Aranha de Lee-Romita saiu em duas partes, nas quais o Duende Verde era
desmascarado como Norman Osborn, empresário e pai do colega
de classe de Peter, Harry Osborn. Na verdade, Norman Osborn e
o Homem-Aranha descobririam a identidade um do outro nessas
duas edições, o que culminou em uma longa história. Parecia que
Lee — e a Marvel — tinham sobrevivido à tempestade da saída de
Ditko.
* * *
Grande parte da empolgação dos universitários em relação à
Marvel — assim como a empolgação de crianças e adolescentes —
foi exemplificada pela popularidade da Merry Marvel Marching
Society [Sociedade da Marcha Alegre com a Marvel] (M.M.M.S),
um fã-clube que Lee inventou em 1964, talvez inspirado no
Timely’s Sentinels of Liberty [Sentinelas da Liberdade da
Timely], um clube da década de 1940; nos fã-clubes de sua
juventude; e provavelmente na popularidade de fã-clubes da
cultura pop, sobretudo dos Beatles, cujos admiradores formavam
uma legião raivosa. No início dos anos 1960, o único fã-clube de
quadrinhos conhecido era o Supermen of America [Super-
Homens da América], da DC. Por um centavo, a criança recebia
uma carta assinada por Clark Kent, um broche e um decodificador
de mensagens secretas impressas nos quadrinhos — geralmente
anúncios sobre outros quadrinhos.
A entrada no M.M.M.S. custava um dólar — o valor de oito
revistas em quadrinhos —, o que era muito para uma criança. Mas,
em troca desse dinheiro, a pessoa recebia todo tipo de
quinquilharia — a mais interessante era um LP flexível de 45 RPM
de Stan, Jack, Sol, Flo e outras pessoas da redação — Steve Ditko
não participava — fazendo piadas sobre um roteiro intencionalmente brega escrito por Lee. Os fãs conheciam o
trabalho, as peculiaridades e os rostos dos criadores dos
quadrinhos da Marvel, e passaram a poder ouvir suas vozes
naquele tesouro de áudio dos tempos pré-internet. Apesar da taxa
cara, o M.M.M.S. se tornou surpreendentemente popular, com
mais de cinquenta mil membros. Os escritórios da Marvel foram
inundados com notas de um dólar enviadas para a entrada no
clube. [ 256 ] Uma parte muito relevante do contrato de associação
dizia que a Marvel imprimia o nome de cada membro em uma
edição não especificada de alguma história em quadrinhos da
empresa — uma ideia para vender mais quadrinhos. As colunas de
cartas dos leitores ficaram cheias de mensagens de estudantes
universitários anunciando que tinham formado grupos do
M.M.M.S. em suas faculdades. Lee, mais uma vez, encontrara uma
mina de ouro farta e cheia de entusiasmo. O interesse pelos
quadrinhos alimentava o interesse pelo clube, que alimentava
ainda mais o interesse pelos quadrinhos, e assim por diante.
Mas por que toda essa empolgação crescente sobre o que, pelo
menos na superfície, pareciam ser apenas um conjunto de boas
histórias e de marketing inteligente do editor de uma pequena
editora de revistas com histórias de personagens travando
combates extravagantes entre si? Por que um público tão diverso
estava tão impressionado com a Marvel Comics e com Stan Lee?
Deve haver uma centena de explicações plausíveis relacionadas
aos baby boomers, ao assassinato do presidente Kennedy e à
ameaça de devastação nuclear, mas, é claro, ninguém sabe definir
exatamente quais foram os motivos, além da sugestão óbvia de
que a Marvel estava no lugar certo e na hora certa, oferecendo os
produtos certos. (Igualmente fascinante é a questão de por que os super-heróis da Marvel não apenas sustentaram, mas expandiram
sua popularidade até o século XXI, embora agora suas aparições
aconteçam, sobretudo, em filmes e na TV.)
De qualquer forma, em 1966, não havia uma revista voltada ao
público geral considerada mais moderna e impactante do que a
Esquire. Suas edições cheias de temas universitários, inclusive,
eram consideradas capazes de influenciar todos os jovens norte-
americanos (homens) com renda de sobra. Em sua edição de
setembro de 1966 (depois de, no ano anterior, nomear o Hulk e o
Homem-Aranha como duas das figuras mais importantes nos
campi universitários do país), a revista trazia uma reportagem
sobre a Marvel Comics, falando da popularidade dos quadrinhos
nas faculdades.
Nele, o estudante Jack Marchese, da Universidade Stanford,
disse: “As histórias, os heróis e os vilões têm personalidade, são
reais. São governados por emoções e ideais. Em outras palavras,
os heróis da Marvel não são fantasmas, são seres humanos,
indivíduos. O Homem-Aranha (…) é um de nós.” [ 257 ]
No mesmo artigo, Richard Weingroff, colaborador de fanzines
de quadrinhos e estudante da Universidade de Maryland,
declarou: “O Homem-Aranha é o Hamlet, ou o Raskolnikov, do
universo dos quadrinhos. Claro que quem não conhece a
literatura pode discordar, mas não acreditamos que Hamlet e
Raskolnikov devam ser considerados superiores e mais bem
avaliados só porque são da literatura.” [ 258 ]
Em 2010, recordando-se da entrevista, Weingroff refletiu: “Eu
era um dos baby boomers que queriam que a cultura em geral
levasse os quadrinhos mais a sério. (…) Agora, quatro décadas
depois, olhando para trás, vejo que não estava falando a sério. (…) Eu estava exagerando para que pudessem compreender minha
alegação (…) de que a Marvel tinha mudado o estereótipo do
super-herói e, portanto, merecia ser mais respeitada. (…) Uma
coisa era certa: ao revitalizarem o conceito de super-herói, Lee e
seus colegas criadores permitiram que os quadrinhos da Marvel
mantivessem seu apelo conforme os leitores envelheciam.”
Um ponto importante de ressaltar é que Weingroff concluiu a
lembrança falando sobre como conheceu Stan Lee, em 1966, em
uma convenção de quadrinhos em Nova York:
Conheci Stan Lee logo que ele entrou na área de reuniões. (…)
Quando apertamos as mãos, fiquei impressionado por ele saber
quem eu era e por ter se lembrado de um de meus artigos. Foi um
dos pontos altos dos meus anos como fã de quadrinhos. [ 259 ]
Aqui temos outro possível motivo para a grande popularidade
da Marvel Comics, que, na verdade, era inseparável da populari-
dade de Stan Lee: Lee prestava atenção às pessoas importantes
para ele e para a Marvel. Claro que qualquer empresa que se preze
dá atenção a seus clientes. Mas, verdadeira ou não — e muito disso
parece genuíno —, a atenção de Lee vinha acompanhada de um
cuidado sincero com a qualidade do produto que estava
fornecendo e, além disso, de uma preocupação com as pessoas
para quem estava produzindo o trabalho — sobretudo os leitores
mais sofisticados, como Weingroff, que compreendiam o que ele
estava fazendo.
Algo indistinto entre o trabalho e a pura alegria de criar
histórias — bem como a exuberância de perceber que ele e seus
colegas estavam criando um fenômeno — parece ter inspirado Lee. Quaisquer que sejam os motivos atribuídos ao fenômeno,
havia algo acontecendo na Marvel, algo diferente das aventuras de
super-heróis que já estavam sendo produzidas pela DC e por
outras empresas, muitas com alto nível de habilidade e arte. Foi
inspiração? Genialidade? Sorte? Fosse o que fosse, as pessoas
falavam muito das revistas da Marvel — e compravam mais ainda.
Dava para se empolgar com o desenho dinâmico de Kirby, com
quadros irreverentes e personagens surpreendentes; talvez se
encantar com o mundo de Ditko, anguloso e sombrio, cheio de
uma intensa hipernormalidade. Mas era Stan Lee quem colocava
as palavras na boca dos personagens e narrava suas histórias. Era
Stan Lee quem fazia os leitores sentirem que toda história, mesmo
que não fosse ótima, valia a pena ser lida — e relida — porque a
voz autoral e editorial se importava com o leitor, conseguia
identificá-lo no meio de uma grande multidão — como Lee fez
com Richard Weingroff —, e isso fazia com que todos os visitantes
da redação se sentissem convidados especiais, não um
aborrecimento ou uma distração do “trabalho de verdade”.
Pouco a pouco, Lee ia transformando a Marvel e a si mesmo em
celebridades. Recebendo e dando crédito, criando mitologias
sobre o que ele e seus colegas faziam para se sustentar, tornando
os artistas e a si mesmo figuras tão importantes quanto os
personagens cujas histórias contavam, Lee fez o que nenhum
criador de quadrinhos tinha conseguido desde Jerry Siegel, Joe
Shuster e Bob Kane, de décadas antes: Lee se tornou uma
celebridade. Na era da televisão e, em menor grau, do rádio, com
sua infinita necessidade de conteúdo, Lee tinha conseguido um
veio do minério do estrelato, e um mundo novo se abria para ele e
para a empresa que incorporava, mas da qual não era dono. Stan Lee estava se tornando uma celebridade. E, como logo aprenderia,
esse papel vinha com seu próprio conjunto de poderes e
responsabilidades.
* * *
Lee até podia estar flertando com a ideia de atingir a fama — e
conseguindo. Mas certamente não poderia ser acusado de
negligenciar os quadrinhos por causa do novo status. De fato, ele
se concentrou nos quadrinhos com mais intensidade do que
nunca, ao mesmo tempo que delegava mais dos trabalhos de
roteiro para seus colaboradores. Como ele escreveu nos Bullpen
Bulletins de março de 1966 (publicados nas revistas da Marvel de
dezembro de 1965), falando de si mesmo, como sempre, em
terceira pessoa:
Tudo que Stan faz com profissionais como o REI JACK KIRBY, o
deslumbrante DON HECK e o querido DICK AYERS é dar a eles a
semente de uma ideia; e os artistas compõem todos os detalhes
enquanto desenham e traçam a história.
Porém, enquanto Lee se mantinha atento às histórias, qualquer
que fosse o estágio em que chegassem às suas mãos, ele também
(com a aprovação de Goodman, é claro) estava construindo uma
infraestrutura institucional projetada para sustentar a inovação
contínua dos quadrinhos e a quebra de barreiras criativas, tudo
enquanto cultivava a nova cultura e economia da Marvel. E, como
bônus, ainda era famoso. Lee ficava mais do que feliz de levar seus
colaboradores nessa nova empreitada, mas garantia que todos
soubessem que era ele quem estava dirigindo o carro.
Envolvendo-se na carreira de palestrante universitário, Lee se
tornara ainda mais o para-raios da atenção que a mídia prestava à
Marvel. Em 3 de novembro de 1965, o lendário diretor italiano
Federico Fellini veio com uma comitiva conhecer Stan e a Marvel.
Então, na primavera de 1966, foi a vez do músico Peter Asher, do
popular grupo britânico de folk-rock Peter Gordon. Asher disse
a Lee que seus amigos, os Beatles, também eram fãs da Marvel.
Nos Bullpen Bulletins de agosto de 1966, Stan falou da visita de
Asher e de como descobrira que os Beatles amavam a Marvel, e
prosseguiu:
Acredite se quiser, [Peter] vai abrir uma livraria na alegre Londres,
onde quer vender nossas obras-primas da Marvel — junto com
obras de Shakespeare, Sartre, Salinger e outras pérolas da
literatura!
Como já se tornara natural para ele, Lee conseguiu associar a
Marvel e a si mesmo a uma lista de escritores cheia de aliterações
e que passaria aos leitores a mensagem subliminar de que ele e a
Marvel eram levados em conta na mesma frase que o Bardo, o
Existencialista e o enigmático autor de best-sellers. O autor de O
apanhador no campo de centeio e o escritor de Homem-Aranha
estavam, literalmente, na mesma página.
Além disso, 1966 parece ter sido o ano em que o diretor francês
Alain Resnais — um fã de quadrinhos e da Marvel, assim como
Fellini — foi visitar Lee pela primeira vez. Eles se tornariam
amigos íntimos e trabalhariam juntos em projetos
cinematográficos vários anos depois.
Foi também em 1966 que apareceu uma matéria sobre a Marvel
na revista de curiosidades do jornal New York Herald Tribune, na
edição de 9 de janeiro. O artigo descrevia uma conversa de Lee e
Kirby sobre o enredo de Quarteto Fantástico, com Thomas na sala
tomando notas, e o repórter do Herald Tribune, Nat Freedland,
testemunhando a ação. Embora houvesse alguma semelhança com
as verdadeiras reuniões de Lee e Kirby, e o assunto de fato
parecesse ser sobre o que viria a acontecer na edição n.º 55,
posterior à matéria, havia claramente um participante muito mais
à vontade nessa situação, que foi pelo menos parcialmente
encenada.
O artigo descrevia o extrovertido Lee como “uma versão mais
atrevida de Rex Harrison, com um vestuário de cores intensas e
peças típicas dos universitários, além de um bronzeado intenso”,
mas descrevia Kirby como um “sujeito de meia-idade com
olheiras e um terno folgado à la Robert Hall” que poderia ser
confundido com “o capataz assistente em uma fábrica de cintos”.
Lee era retratado como dinâmico e ativo, lançando ideias e
sugestões, e Kirby, como taciturno, volta e meia murmurando
alguma resposta concisa.
Quando a família Kirby — especialmente a esposa de Jack, Roz
— viu o artigo, ficaram todos lívidos e acusaram Stan de ter
influenciado, de alguma maneira, a percepção de Freedland na
reunião. Lee sentiu-se péssimo com aquilo. Alguns, inclusive
Thomas, veem o episódio como o começo do fim da parceria
entre Lee e Kirby.
Não se sabe se a família Kirby ficou um pouco menos irritada
depois do texto que apareceu nos Bullpen Bulletins de setembro de
1966, publicados em junho e provavelmente escritos em abril ou maio. A narração é de alguém que se refere a si mesmo como
“nós” e fala de “Stan” na terceira pessoa, mas sem dúvida era do
próprio Lee:
O rei Kirby chegou, logo depois de uma reunião de uma hora com
Stan, discutindo o roteiro. (…) Jack foi ouvido murmurando: “Bem,
acabamos com uns holocaustos [antes que a palavra passasse a se
referir ao assassinato nazista dos judeus europeus] e um cataclismo
ou dois! Agora vou (…) relaxar sonhando com desastres mais
simples!” (…) Já se perguntou como é cansativo ilustrar guerras
galácticas, batalhas entre deuses e aventuras cósmicas, dia após
dia?
Talvez o texto não tenha sido um elogio direto a Jack, exceto
pelo uso do apelido “rei Kirby” e da ideia de que Jack estará
“sonhando com desastres simples” (ou seja, planejando como eles
se desenvolvem), mas a interpretação é clara: Jack Kirby é um
gênio.
O ex-parceiro de Kirby, Joe Simon, tentou atacar o status
crescente de celebridade de Lee, no fim daquele ano. No n.º 48 da
revista humorística editada por Simon, Sick, da Crestwood
Publications, Simon escreveu uma história, desenhada por Angelo
Torres, chamada “The New Age of Comics” [A nova era dos
quadrinhos], na qual um egoísta sem talento chamado Sam Me é o
diretor de uma série de revistas em quadrinhos de super-heróis
muito populares, pelas quais recebe todo o crédito e o pagamento
pelo trabalho de outras pessoas, assinando seu nome em tudo.
Sam Me é culpado até de roubar um personagem chamado
“Captain American” [Capitão Americano] de seus criadores, evocando ecos do ressentimento de Simon sobre Goodman ter
usurpado o personagem dele e de Kirby. (Apesar dessa sátira
bastante agressiva, Simon — pelo menos em seus últimos anos de
vida — parecia gostar bastante de Lee, e vice-versa. Mas parece
que, apesar de toda a sua experiência e esperteza — ou talvez
simplesmente por causa do ressentimento com a situação do
Capitão América —, Simon não poderia ou não queria levar a
sério as inovações que estavam acontecendo na Marvel sob
direção de Lee.)
* * *
Os sucessos iniciais da Marvel geraram muita imitação. Em 1965,
as prateleiras de quadrinhos ficaram cheias de quadrinhos de
super-heróis, muitos imitando descaradamente a Marvel,
incluindo uma série apelidada de “Mighty Comics”, publicada pela
Archie e editada pelo cocriador de Super-Homem, Jerry Siegel.
Embora contratassem alguns dos artistas e escritores da Marvel —
além do próprio Siegel — para criar os contos de super-heróis
(muitos usando versões atualizadas dos personagens da própria
empresa, datados da década de 1940), estavam longe da qualidade
dos quadrinhos da Marvel aos olhos da maioria dos consumidores.
Em 1966, os quadrinhos da DC ainda eram mais vendidos do
que os da Marvel. Batman quase foi cancelado, mas, com o editor
Julius Schwartz assumindo o comando e lançando um “novo
visual” muito anunciado para o personagem, as vendas estavam
subindo. Então, com a popularidade dos quadrinhos da Marvel
não apenas entre as crianças, mas também entre adolescentes e
adultos, ao mesmo tempo que o movimento pop art usava
referências dos quadrinhos, os super-heróis se tornaram uma
moda para além dos gibis. Uma série de TV do Batman, estrelada por Adam West, foi lançada, com grande audiência, em janeiro de
1966. Os super-heróis eram tão populares que, naquele mesmo
ano, estreou um musical da Broadway com o principal
personagem da DC — É um pássaro? É um avião? É o Super-
Homem! —, estrelado por Bob Holiday no papel principal, além de
Linda Lavin e Jack Cassidy (pai do futuro ídolo adolescente David
Cassidy).
A resposta da Marvel a essa competição foi, obviamente, dobrar
as iniciativas comerciais e criativas. Nos Bullpen Bulletins de
outubro de 1966, Lee menciona que — além do crescente
M.M.M.S. — em breve estariam à venda livros de bolso da Marvel,
além de álbuns, miniaturas de plástico dos heróis, chapéus e
capuzes, fantasias de Halloween, broches enormes dos
personagens, minilivros, bótons, figurinhas de chiclete, anéis de
brinquedo, action figures, jogos de tabuleiro, quebra-cabeças,
camisetas, moletons, anéis iluminados, amuletos e etiquetas
adesivas. E, na mesma página, anunciou:
Os super-heróis da Marvel estão na TV! (…) Nossas primeiras
emissoras passarão a exibir animações de cinco — sim, CINCO —
de nossos heróis da Marvel em meados de setembro [de 1966]. Os
personagens apresentados serão: o Capitão América, o Homem de
Ferro, o Thor, o Príncipe Submarino e o Hulk, todos em cores! (…)
A produção já está em andamento no famoso estúdio Grantway-
Lawrence Animation Co., em Hollywood.
A bonança de merchandising da Marvel já estava em andamento.
Mantendo os negócios dentro da família, Goodman designara seu
filho, Chip, para supervisionar esses tesouros licenciados. De fato, nos Bullpen Bulletins de dezembro, Lee informava aos leitores
sobre esse rumo dos acontecimentos:
Esperem só, quem temos aqui? Quem é que gira os discos, assiste à
TV, apalpa as miniaturas de plástico de super-heróis e inspeciona
camisas, moletons e chicletes com a mesma desenvoltura? Não
poderia ser outro senão o alegre Chip Goodman, mestre de
merchandising da Marvel que, com ousadia, distribui nossas belas
mercadorias em todas as áreas estéticas além da página impressa!
Nas páginas dos quadrinhos dedicadas à história, o momento
não era menos emocionante. Enquanto Lee e Romita
reformulavam o Homem-Aranha, Lee e Kirby introduziam, em
Thor (revista que antes era chamada de Journey Into Mystery), a
mitologia nórdica inspirada na ficção científica que traria vida a
Ego, o planeta vivo e ao Alto evolucionário. No Capitão América de
Lee e Kirby, em Tales of Suspense, o principal vilão, o Caveira
Vermelha, renascera nos dias atuais e tomara controle do
aterrador poder de desejos do Cubo Cósmico. Cada uma dessas
histórias — na verdade, quase todas as séries da Marvel — elevava
os riscos a cada edição para níveis de empolgação impossíveis,
sempre se perguntando: “Como superar isso?”
Talvez as histórias mais ambiciosas e emocionantes estivessem
sendo contadas no principal título da Marvel. O Quarteto
Fantástico enfrentava Galactus, o Devorador de Mundos, junto
com seu temido arauto, o Surfista Prateado, em uma história de
três partes (nas edições n.º 48 a 50) que passou a ser conhecida
como “Trilogia Galactus”. Lee sempre disse que Kirby criara o
Surfista sem nenhuma conversa com ele, e que o artista argumentara que alguém tão poderoso quanto Galactus precisaria
de um arauto para anunciar sua chegada. Lee não ficou muito feliz
com aquela figura potencialmente absurda, que parecia uma
estatueta do Oscar, que chegava sempre surfando sem água, e
sempre se referia ao personagem como “o maluco em uma
prancha voadora”. [ 260 ] Mesmo assim, ele e Kirby fizeram o
Surfista dar certo. Os dois acabariam brigando pela propriedade
do personagem.
Lee e Kirby (e Joe Sinnott) concluíram a Trilogia Galactus com
um ano de histórias igualmente impressionantes, incluindo a
clássica “This Man… This Monster” [Este homem… este monstro]
na edição n.º 51, a apresentação do primeiro super-herói negro, o
Pantera Negra, na edição n.º 52, e uma história transcendente de
quatro partes, geralmente chamada de “Doomsday” [Dia do Juízo
Final], nas edições n.º 57 a 60, em que o Doutor Destino rouba o
poder cósmico do Surfista Prateado e o usa para tentar aniquilar o
Quarteto e conquistar a Terra. Embora a trama seja razoavelmente
linear, o desenvolvimento de personagens e a ascensão e queda da
tensão dramática foram iguais, se não ainda mais intensos, do que
na Trilogia Galactus. (E, provando que não se levavam muito a
sério, no ano seguinte, Lee e Kirby fizeram uma paródia hilária de
Doomsday em “The Saga of the Silver Burper” [A saga do
arrotador prateado], na primeira edição da revista de sátiras Not
Brand Echh [Nada de novo], de 1967.)
A locomotiva da Marvel — conduzida por Stan Lee — avançava
a todo vapor. Em termos de vendas e criatividade, sem falar no
ingresso a áreas além dos quadrinhos, a empresa estava se
tornando sinônimo de entretenimento de ponta para um público
de diversas faixas etárias, além de fonte de uma infinidade de mercadorias promocionais. Apesar das perdas potencialmente
devastadoras de Wood e Ditko, Lee estava à frente de um
fenômeno da cultura pop.
Se o artigo do Herald Tribune irritou Kirby, parece que, como
teorizou o artista Gil Kane, toda a “frustração dele [com Lee]
transpareceu no trabalho, o que obviamente só o tornou mais
especial” — a raiva parecia estar valendo a pena para Lee e a
Marvel. [ 261 ] E se o sucesso da série de TV Batman estava
aumentando as vendas da DC… bem, também estava ajudando as
vendas da Marvel.
* * *
Mas, em meio a tanto sucesso em 1966, o ano também trouxe
processos contra a Marvel por dois de seus criadores fundadores.
Essas ações judiciais ameaçavam desfazer tudo o que Lee
construíra nos últimos cinco anos.
Embora o sucesso inicial da Marvel moderna tenha começado
em 1961, com Quarteto Fantástico, suas raízes estavam nos
quadrinhos da Timely dos anos 1930 e 1940. Os principais super-
heróis de Goodman daquela época — que tinham sido revividos
brevemente na década de 1950 — eram o Príncipe Submarino, o
Tocha Humana e o Capitão América. Foi principalmente com
esses personagens que Stan Lee aprendeu o ofício de editor,
escritor e diretor de arte.
Porém, em meados da década de 1960, com a Marvel em
ascensão, dois dos títulos de maior destaque da empresa eram
Quarteto Fantástico e Os Vingadores. O primeiro contava com uma
nova versão do Tocha Humana como membro da equipe. E, entre
os principais adversários desse time estava o príncipe Namor, também conhecido como Príncipe Submarino (que, em 1965,
tinha suas próprias histórias em Tales to Astonish). Enquanto isso,
os Vingadores eram liderados pelo Capitão América, revivido
literal e figurativamente. Namor, o Tocha Humana e o Capitão
eram partes importantes do empreendimento moderno de
publicação de quadrinhos de Goodman, e certamente seriam
valiosas para quem pensasse em comprar a empresa. Goodman
detinha os direitos autorais e as marcas registradas desses
personagens, como era o caso de todas as criações da Marvel.
Mas havia uma brecha da lei para os criadores originais
reivindicá-los, e pelo menos dois desses criadores estavam
determinados a fazer exatamente isso. Carl Burgos, criador do
Tocha Humana, e Joe Simon, cocriador do Capitão América,
abriram — independentemente um do outro — processos legais
para se reapropriar de seus personagens.
Não se sabe até que ponto chegou o processo de Burgos contra a
Marvel — se é que deu em algum lugar. Carl Burgos não tinha
sumido na indústria fora dos quadrinhos depois da Era de Ouro.
Ele trabalhara regular e incessantemente para Lee e Goodman
durante os anos 1950, fazendo quadrinhos, revistas humorísticas
e pulp, escrevendo e desenhando histórias, além de projetar,
desenhar e refazer inúmeras capas — a ponto de o historiador
Michael Vassallo cunhar o termo “burgosized” [burgotizada] para
se referir à arte desenhada por outros, mas muito retrabalhada
por Burgos. [ 262 ]
Após o súbito período de escassez dos gibis de Goodman, em
1957, Burgos trabalhou em arte comercial e fora dos quadrinhos.
Em 1964, porém, retornou brevemente sob a chefia de Lee para
desenhar algumas histórias — incluindo uma história de Johnny Storm, o Tocha Humana, com participações especiais dele e de
Lee. Mas, em algum momento entre aquele ano e o verão de 1966,
Burgos abriu uma ação legal contra Goodman pelos direitos do
Tocha Humana original de 1939. Esse personagem “original”
tinha reaparecido pela primeira vez desde os anos 1950 —
provavelmente como uma maneira de consolidar a propriedade de
Goodman —, em uma luta contra sua versão moderna, no
Fantastic Four Annual n.º 4 [Anuário do Quarteto Fantástico], de
1966.
Durante o verão, a filha de Burgos, Susan — à época com 15
anos —, lembrou que o pai reunira todos os antigos gibis e outros
vestígios não especificados de sua carreira nos quadrinhos em
uma pilha no quintal, querendo se desfazer de tudo, e chegou até a
insistir para que ela devolvesse à pilha os poucos quadrinhos que
tentara resgatar. Segundo Susan, naquele dia deve ter acontecido o
acordo — bem pouco satisfatório — de qualquer ação legal que
Burgos tenha empreendido contra Goodman. Embora seja
tentador pensar que Burgos pretendia “fazer uma tocha” com os
materiais, ele parece ter descartado tudo de uma maneira mais
apropriada aos subúrbios: deixando para os coletores de lixo. [ 263
]
Susan Burgos também lembrou que, na época do processo, “ele
[Burgos] passou meses murmurando várias coisas sobre Stan Lee.
Antes daquele dia [em que ele jogou fora o material da Era de
Ouro], eu sabia que meu pai estava infeliz e que algo estava
acontecendo, mas realmente não sabia o quê. (…) Ele ficou
mesmo chateado quando Stan Lee renovou completamente o
Tocha”.
Portanto, além de quaisquer problemas de propriedade que
Burgos pudesse ter com a Marvel, parecia haver algo que o
incomodava na versão de Johnny Storm do personagem. Qualquer
que fosse o problema, não tinha sido resolvido de maneira justa,
pelo menos na opinião de Carl Burgos.
Curiosamente, Burgos desenhou uma versão do Capitão Marvel
para a MF Enterprises, da editora Myron Fass, em 1966. A marca
registrada da Fawcett Publications sobre o Capitão Marvel original
tinha expirado, então a Fass correu para registrar o nome e
publicou várias edições antes de Goodman comprar os direitos e,
em 1967, publicar a versão da Marvel do Capitão Marvel, escrita
por Lee e desenhada por Gene Colan. A capa de Capitão Marvel
n.º 4, de Fass (de novembro de 1966), foi o último trabalho de
Burgos nos quadrinhos, embora ele tenha permanecido como
editor das Eerie Publications [Publicações arrepiantes], de Fass
(que não podem ser confundidas com a revista Eerie [Arrepiante],
da Warren Publishing), e para a Harris Publications até sua morte,
em 1984.
* * *
A questão de Joe Simon — com mais tino para os negócios do que
a maioria dos criadores de quadrinhos, e ainda infeliz com as
promessas quebradas de Goodman, em 1940 — sobre a
participação nos lucros do Capitão América seria mais difícil de
resolver. Provavelmente não por coincidência, a Marvel começou
a reimprimir as histórias de Simon e Kirby do Capitão América de
1941, mas com os créditos de Simon e Kirby removidos — o que
era notável para uma empresa que fazia questão de dar crédito aos
autores. Fosse ou não uma ação preventiva de Goodman para
manter a propriedade e o controle do material, Simon de fato abriu um processo. Como ele escreveu em My Life in Comics
[Minha vida nos quadrinhos]: “Enviei a documentação
apropriada, mas não incluí Jack Kirby no processo porque ele
estava trabalhando para a Marvel, na época, em projetos que
incluíam o Capitão América. Achei que isso constituiria um
conflito de interesses [para Kirby].”
Em 1966, Simon entrou com um processo na Suprema Corte do
Estado de Nova York contra os Goodman (Martin e Jean, já que
ambos estavam listados como proprietários da entidade
corporativa que Simon estava processando) por “apropriação
indevida de seus direitos de propriedade de acordo com a lei
estadual” e, em 1967, entrou com uma ação semelhante no
Tribunal Distrital dos Estados Unidos, no Distrito Sul de Nova
York. Neste último, alegou que “como autor das obras, tinha o
direito único e exclusivo aos termos de renovação dos direitos
autorais” e “também tencionava (…) proibir os Goodman de
solicitar o registro de renovação das obras”. [ 264 ]
Em resposta, os Goodman entraram com um processo. De
acordo com Simon, a alegação era de que Lee e Kirby tinham
“criado o personagem enquanto trabalhavam no escritório,
portanto, eram de propriedade da empresa”. Além disso, Simon
ainda disse que a Marvel convencera Kirby a testemunhar em
nome da empresa. Isso, combinado a um caso contemporâneo
com resultado desfavorável para Theodor Seuss Geisel (também
conhecido como Dr. Seuss), que processara a revista Liberty por
propriedade intelectual do trabalho que fizera para eles na década
de 1930, convenceu Simon a aceitar um acordo fora dos tribunais
em 1969. A Marvel acabou com a propriedade definitiva do Capitão América, pelo menos até Simon reabrir o processo,
décadas depois.
Quanto ao Príncipe Submarino, Bill Everett voltara a fazer
trabalhos esporádicos para a Marvel desde o primeiro volume de
Demolidor, de 1964, e depois ingressara como funcionário regular
em 1966. De acordo com Roy Thomas, Everett dependia da
empresa para obter renda regular, o que — com seu
relacionamento difícil com os prazos — ele ficava mais do que
satisfeito por ter. Como Thomas explicou:
Isso era outra coisa boa de Stan (…), ele sentia que devia lealdade a
profissionais de longa data, como (…) Everett. E, embora ele não
pudesse abrir espaço para todos, sentia que eles mereciam uma
chance. Stan não achava que os artistas deviam ser jogados no lixo
simplesmente porque talvez não estivessem mais em sua melhor
forma. [ 265 ]
Além disso, Goodman fizera a Everett um empréstimo
considerável para o qual, segundo Thomas, não se esperava
reembolso. O empréstimo, de acordo com Blake Bell, biógrafo de
Everett, provavelmente foi para alguns problemas graves de saúde.
Bill Everett não processaria Martin Goodman. [ 266 ]
Embora nunca tenha sido dito que a reimpressão dos
personagens icônicos da Timely foi feita por Lee a pedido de
Goodman, e, portanto, especificamente para estabelecer que
pertenciam à Marvel, é difícil imaginar, se fosse o caso, que Lee,
depois de 25 anos no ramo, não entendia o que estava
acontecendo. Também é difícil culpá-lo por publicar o que era de
interesse da empresa (e o que muitos fãs ficaram gratos por terem a chance de ler). Afinal, Lee era um funcionário da Marvel
Comics e da Magazine Management, sem falar que era primo de
Martin e Jean Goodman.
E assim, vários impedimentos em potencial ao progresso da
Marvel — e de Stan Lee — foram evitados e contidos. Os anos
seguintes apenas acelerariam o ritmo de crescimento do homem e
da empresa.
* * *
Embora eras muito mais lucrativas e impactantes para Lee e a
Marvel ainda estivessem por vir, os anos seguintes trariam o que
muitos consideram o ápice de criatividade e inspiração do homem
e da marca. E tudo isso realizado durante os anos de chegada à
maioridade dos primeiros baby boomers, em meio a agitações
políticas, culturais e sociais nos Estados Unidos e em todo o
mundo.
Foi um período cheio de demandas confusas e estimulantes
sobre a geração de Stan Lee. E sua resposta foi típica do pessoal da
Geração Grandiosa, mas, ainda assim, única — sobretudo para
alguém de seus talentos e temperamentos, que cumpria papéis
como de refletor e modelador das correntes culturais em
desenvolvimento.
Os baby boomers estavam despertando. E, embora décadas mais
velho, Stan Lee também.
Mais do que nunca, a posição única de Lee naquele movimento
cultural traria desafios que nem ele nem ninguém no ramo dos
quadrinhos já tivera que enfrentar. E, assim como os desafios,
suas respostas foram multifacetadas e nem sempre consistentes,
mas foram exclusivamente suas.