A Espetacular Vida de Stan Lee
8. Histórias entrelaçadas
Um dos dias mais felizes da minha vida foi
quando descobri que Steve estava disponível
— e disposto — a encarar o Homem-Aranha
comigo.
— Stan Lee, em sua introdução para o livro
The Art of Ditko, de 2013
OQuarteto Fantástico foi caindo nas graças do público — desenvolvendo também a voz narrativa da dupla Lee e Kirby
—, mas a Timely/Atlas/Marvel continuou lançando histórias de
faroeste, humor e terror enquanto tentava capitalizar ainda mais
em cima da tendência ressurgente de super-heróis nos
quadrinhos. Isso levou à criação do Incrível Hulk, de Lee e Kirby,
que apareceu pela primeira vez em uma revista homônima de
maio de 1962 — o que significa que começou a ser vendida em
meados de fevereiro. Incrível Hulk substituiu a franquia Teen-Age
Romance [Romance adolescente] na programação limitada de
Goodman. Foram apenas seis edições bimestrais contando a saga do tímido cientista Bruce Banner, que, com a exposição à radiação
gama, se transformava em uma máquina de destruição e fúria.
Além disso, o tratamento do personagem ia mudando a cada
edição. Ainda levaria alguns anos para que o Hulk se tornasse um
sucesso.
(Lee só passaria a chamar a encarnação moderna da empresa de
Marvel Comics nos quadrinhos de maio de 1962, mas uma
caixinha com as iniciais MC já aparecia nas capas da empresa em
algumas revistas de junho de 1961 — a partir do mês seguinte,
julho, as iniciais já apareciam em todas as edições de histórias em
quadrinhos. Ainda assim, ninguém nunca foi capaz de confirmar
se essas duas letrinhas inocentes de fato seriam um logo da
Marvel Comics ou se tinham algum outro significado obscuro,
talvez voltado para os distribuidores ou varejistas.)
Um personagem mais bem-sucedido — ainda que tenha levado
algum tempo para perceberem seu sucesso — foi o Espetacular
Homem-Aranha. Ele estreou na edição final de Amazing Fantasy
(que perdera parte do título, Adult, em uma reformulação), de
agosto de 1962. O personagem desapareceu por sete meses antes
de ressurgir em uma revista própria, montada quando Lee e
Goodman descobriram o sucesso daquela primeira aparição. O
processo de criação do Homem-Aranha, talvez o personagem
mais icônico da história da empresa, foi muito parecido com a
criação dos outros super-heróis da Marvel dos anos 1960 — ele
inclusive existia no mesmo universo. Os outros personagens
foram criados principalmente pela dupla Lee e Kirby; porém, o
Homem-Aranha, embora tivesse recebido a contribuição dessa
dupla, teve como cocriador Steve Ditko, que ficou responsável
pela arte do personagem. A presença de Ditko deixou o Homem-Aranha, como foi observado na primeira página de sua história de
origem, “apenas um pouco (…) diferente!”.
A origem do personagem, contada na sua primeira aparição, em
Amazing Fantasy n.º 15, foi recontada inúmeras vezes em muitas
mídias. É assim:
Peter Parker, um adolescente excluído, porém genial, é picado
por uma aranha saturada de radiação. A mordida o concede
poderes de aranha, que Peter decide usar para ganhar muito
dinheiro para os tios, que o criaram desde que ficara órfão, ainda
muito novo. Depois da decisão egoísta de não impedir um
criminoso que poderia ter detido com muita facilidade, Peter fica
arrasado quando o mesmo ladrão assassina seu amado tio Ben. Ao
capturar o criminoso, Peter percebe que “com grandes poderes
vêm grandes responsabilidades”, e promete dedicar a vida a
combater o crime e a garantir, tanto quanto possível, que ninguém
mais sofra perdas como a sua.
A história da origem do Homem-Aranha foi um marco da
cultura pop, resultado das habilidades combinadas de Lee e Ditko.
Para muitos, é a origem perfeita para um super-herói, superando
até a simples elegância do início traumático do Super-Homem e
do Batman, um o ex-único sobrevivente de um planeta, o outro o
único sobrevivente de uma família.
Desde sua primeira aparição na AF n.º 15, o Homem-Aranha
vivia no ensino médio, como uma metáfora da vida norte-
americana moderna e como um cenário literal e figurativo de um
campo de batalha da adolescência. Como Kurt Vonnegut
observou: “O ensino médio nos traz mais do cerne da experiência
norte-americana do que qualquer outra coisa que eu possa
imaginar.” [ 198 ] E, durante esses primeiros anos, o Homem-
Aranha demonstrou exatamente isso.
* * *
Embora Lee e Kirby tivessem temperamentos diferentes, a origem
de ambos era comum aos criadores de quadrinhos da época: eram
filhos de famílias judias pobres de Nova York. Suas experiências e
origens em comum eram tão relevantes no trabalho da dupla
quanto suas personalidades contrastantes. Como observou o
historiador Mark Alexander: “Lee e Kirby tinham formação
judaica proletária. Ambos eram trabalhadores rápidos e
incansáveis, capazes de produzir uma grande quantidade de
histórias de qualidade sem nunca perder um prazo. Fora isso,
eram diametralmente opostos de todas as formas possíveis.” [ 199 ]
O temperamento de Steve Ditko também era muito diferente do
de Lee, mas sua origem não poderia ser mais distinta da de Lee ou
Kirby. Como observou o crítico Greg Rowland:
Enquanto Stan Lee e Jack Kirby refletiam aspectos da psique
judaica de Nova York, Ditko era de uma pequena comunidade
tcheco-americana (de Johnstown, PA). De fato, o trabalho de Ditko
está impregnado da paranoia de uma pequena nação da Europa
Central, sempre atormentada por impérios de todos os lados (o
bigode de escovinha de J. Jonah Jameson não é coincidência). [ 200 ]
A visão de mundo de Kirby também parecia ser muito moldada
pelas experiências em combates e conflitos, seja nas ruas do
Lower East Side, seja nos campos de batalha da Europa na
Segunda Guerra Mundial. Nem Lee nem Ditko parecem ter tido uma infância cheia de brigas de rua, e, apesar de ambos terem
servido nas Forças Armadas, a experiência deles por lá, ao
contrário da de Kirby, não envolveu qualquer forma de combate.
De fato, parece que, apesar de todas as diferenças, a experiência
de vida que Lee e Ditko trouxeram para o super-herói adolescente
Homem-Aranha foi a do ensino médio norte-americano. Antes de
explorar o sucesso do Homem-Aranha, é preciso analisar um
pouco alguns aspectos dos anos de ensino médio de seus
criadores.
* * *
A foto do afável e sorridente Stanley M. Lieber no anuário da
DeWitt Clinton High School de 1939 acompanha uma lista dos
clubes e comitês de que ele participava, quase dez a mais do que
qualquer outro garoto da página — a escola do Bronx era só para
garotos. Lee se formou com 16 anos, tendo pulado uma ou duas
séries.
Sempre enérgico, parece possível que Stanley realmente tenha
pertencido a todas essas organizações, mas talvez algumas das
participações fossem apenas desejos que nunca chegaram a sair
do papel. Parece plausível que ele tenha sido presidente do Public
Speakers Club. E faz sentido que tenha sido membro do Clube de
Xadrez. Mas será que foi mesmo editor do Law Journal da DeWitt
Clinton? Realmente pertencia ao Clube de Francês? Embora Stan
tenha mencionado seu desejo de ser advogado, não era conhecido
por suas habilidades com o francês. Sobre o assunto, o próprio
Lee já comentou: “Criei muitos clubes [no ensino médio]. Criei a
Law Society (…) e acho que criei também um clube de debate.
Mas eu nunca ficava muito tempo.” [ 201 ] Então, ao que parece,
Lee era bastante ativo, mesmo que apenas em curtos períodos.
De muitas maneiras, a parte menos relevante é delimitar a que
clubes Lee de fato pertenceu. O fato de ele querer que as pessoas
acreditassem que era ativo nessas dezenas de organizações é tão
ou mais significativo do que ele ter ou não sido membro — ou do
que todas elas terem ou não existido! (Curiosamente, porém, não
há atividades esportivas listadas junto aos clubes e participações
de Lee, apesar de a DeWitt Clinton ser uma escola conhecida pelo
sucesso de seus times.) Seu objetivo, impresso ao lado da foto, é:
“Alcançar o topo — e lá ficar!” (Seu colega de classe Daniel
Licker, por sua vez, lista como objetivo “Virar engenheiro
aeronáutico”.) Ao que parece, cada graduando deveria escolher
uma frase para sua apresentação. A de Lee era “Junte-se à
Marinha, para que o mundo possa me ver!” — uma brincadeira
com o slogan de recrutamento da Marinha, “Junte-se à Marinha
para poder ver o mundo!”. O apelido listado junto ao nome de
Stan Lieber foi, sem surpresa, “Gabby”.
A maioria dos outros meninos na página lista alguma faculdade
junto com seus feitos e citações. Não está claro se é para onde
esperavam ir ou se já tinham sido aprovados. No entanto, não há
nenhuma faculdade citada junto à foto de Stanley Lieber — o que
talvez fosse um pouco estranho para o editor do Law Journal e
presidente da Law Society, não?
* * *
A foto de 1945 no anuário do ensino médio de Stephen J. Ditko
em Johnstown, Pensilvânia, exibe um jovem bonito de 17 anos,
com um meio-sorriso, e é acompanhada de um texto que não lista clubes nem contém frases espirituosas, embora os de seus colegas
tenham. Seu apelido é: “Steve.” Seus planos para o futuro:
“Indeciso.”
No ensino médio, Ditko “se juntou a um clube de adolescentes
que esculpiam aeromodelos de madeira balsa para treinar
observadores de aviões — adeptos do plane spotting, atividade que
ficou famosa na Segunda Guerra — na identificação de aeronaves
inimigas”. Isso certamente parece o tipo de atividade nerd com a
qual Peter Parker teria se envolvido. Além disso, “a escola que
Ditko usou na ilustração [de Homem-Aranha] era sua escola de
Johnstown, com as mesmas pequenas ameias com embrasuras. O
personagem de Flash Thompson existia na turma de artes
industriais de Ditko — um bully, que batia nos outros alunos e
roubava seu dinheiro do almoço”. [ 202 ]
É bem evidente que Ditko também tem fortes lembranças do
ensino médio.
Depois da escola, Ditko serviu no Exército dos Estados Unidos
na Alemanha do pós-guerra, então voltaria para casa para seguir
com sua carreira artística, e acabaria estudando na New York’s
Cartoonists and Illustrators School [Escola de Cartunistas e
Ilustradores de Nova York] — que hoje se chama School of Visual
Arts [Escola de Artes Visuais] — junto com Jerry Robinson,
conhecido por seu trabalho nos primeiros quadrinhos do Batman,
mas que teve uma carreira ainda mais ilustre em tirinhas de jornal
e muito mais. Robinson disse que Ditko era “muito dedicado,
sempre quieto e reservado. (…) Estudou comigo por dois anos,
quatro ou cinco dias por semana, cinco horas por noite. Foi muito
intenso”. Foi Robinson quem apresentou Ditko a Stan Lee, que
estava visitando a turma em busca de novos talentos. [ 203 ]
Sua carreira nos quadrinhos foi interrompida por um surto de
tuberculose, que o obrigou a retornar a Johnstown até que se
recuperasse. Ditko voltou a Nova York para retomar a carreira em
1955, e, como Lee, trabalhou até o fim de sua vida. Ditko fez seu
primeiro trabalho para Lee em 1956, desenhando 17 histórias em
um período de seis meses. Eram sobretudo quadrinhos de fantasia
e ficção científica, mas ele também desenhou uma história em 2-
Gun Western n.º 4 [Faroeste de duas armas], publicado em maio
de 1956, sua primeira colaboração com Lee como escritor — ou,
pelo menos, a primeira assinada pelos dois.
* * *
Embora não se deva tirar muitas conclusões de um retrato —
literal e figurativo — de um período formativo na vida da pessoa,
como o ensino médio, parece que, no registro dos anuários, havia
certos sinais da personalidade dos homens que aqueles
adolescentes se tornariam.
No retrato do jovem Stanley Lieber — ansioso para que todos
soubessem de suas realizações, e não tão preocupado se haveria
uma pitada de exagero —, a essência do adulto já está ali: um
personagem inteligente, espirituoso e socialmente apto, ansioso
para agradar, provavelmente muito divertido, mesmo que às vezes
um pouco chato. Por outro lado, a foto de Stephen Ditko revela
alguém que sabe de algo que não sabemos e que não sente a
necessidade de nos impressionar com uma lista de realizações. Já
basta que ele tenha ciência dos próprios feitos.
Embora Lee sempre tenha falado com orgulho sobre a DeWitt
Clinton e seus ilustres ex-alunos, ele declarou: “Eu não odiava a
escola, mas queria que acabasse logo para que eu pudesse entrar
no mundo real, porque nada do que eu estudava despertava meu
interesse.” [ 204 ] Não é um sentimento incomum, embora Lee
também tenha dito que, se pudesse se dar ao luxo de ir para a
faculdade, teria, talvez, estudado “literatura, jornalismo, redação…
algo assim”. [ 205 ] Ele frequentou a City College of New York, uma
faculdade pública, por um breve período, porque uma garota de
quem gostava estudava lá. Mas, quando terminaram, ele
abandonou o curso.
Para Lee, assim como para muitos outros profissionais dos
quadrinhos com educação formal relativamente limitada e a
necessidade urgente de ingressar no mercado de trabalho, o
ensino médio cumpria o papel que a faculdade ou a escola de arte
poderia ter para as futuras gerações de criadores de quadrinhos.
Um lugar onde descobriam suas identidades, exploravam e
descartavam as possibilidades; onde formavam suas futuras
personalidades.
Para os profissionais da geração de Lee, escolas de ensino médio
— como a DeWitt Clinton, no Bronx; a High School of Music &
Art, em Manhattan; e a Glenville High School, de Cleveland —
eram a Harvard, a Princeton e a Yale dos quadrinhos. Eram
instituições de ensino cujos fantasmas, bons e ruins, os
assombrariam para sempre. Para esses garotos da classe
trabalhadora, o mundo de sonhos da faculdade — acessível apenas
àqueles com mais recursos, ou talvez com um desejo ardente de
seguir a vida acadêmica — acabaria sendo o ensino médio. Como
Lee não estudara de fato na faculdade, os momentos mais
relevantes de crescimento pessoal que vivera no ensino médio
influenciaram sua vida como grandes pontos de virada, inspiração
e história. Professores notáveis, como Leon B. Ginsberg (que o
ensinou que o humor quase sempre facilita a compreensão), e colegas de escola memoráveis, como John J. McKenna (orador e
vendedor nato), sempre apareciam em suas lembranças. [ 206 ] Da
mesma forma, a metáfora do ensino médio, com seus Andy
Hardy, Archie Andrews e Ferris Bueller, é bem marcante na
cultura pop norte-americana do século XX.
* * *
A mágica das histórias de super-heróis dos quadrinhos é, pelo
menos em parte, permitir que uma criança ou adolescente que as
leia imagine ser não apenas um adulto, mas um adulto com
poderes e habilidades surpreendentes — e sabedoria para usá-los.
Talvez o ponto de maior evidência nesse sentido tenha sido o
personagem original do Capitão Marvel de 1940 (publicado por
Fawcett), que literalmente se transformou de um garoto chamado
Billy Batson em um super-herói adulto.
Super-heróis meninos ou adolescentes como Robin, o Garoto
Prodígio, do Batman, e Bucky Barnes, do Capitão América, em
geral eram parceiros de heróis adultos. Remetiam à fantasia do
irmão mais velho ou do pai heroico, talvez até de algum amigo
adulto legal com quem o jovem pudesse conversar, que o
orientava na carreira imaginária de aventureiro fantasiado — e
que ele até conseguia salvar, de vez em quando.
Stan Lee odiava esses parceiros.
Como disse, em entrevista sobre o Homem-Aranha: “Eu odiava
os adolescentes nos quadrinhos, porque eram sempre os
ajudantes. E sempre senti que, se eu fosse um super-herói, nada
me faria andar com um adolescente para cima e para baixo.” [ 207 ]
Ao longo dos anos, houve alguns super-heróis infantis, como o
Superboy, o Capitão Marvel Júnior e o Kid Flash, versões crianças ou adolescentes de um herói adulto, com identidades dependentes
das de seus mentores. Mas, na maioria dos casos, um super-herói
era um adulto tanto na identidade secreta quanto na vida civil,
seguindo a ideia de que, no fim das contas, nenhuma criança quer
ser criança e ter que se sujeitar às ordens e aos caprichos dos
adultos. O misticismo que cerca a história de um super-herói é
justamente a possibilidade de o leitor se sentir indiretamente
adulto, com responsabilidade para tomar decisões importantes e
afetar as situações. Além disso, muitos super-heróis traziam uma
fantasia dupla para agradar aos leitores: embora o aspecto do herói
fosse, é claro, imbuído de poderes extraordinários ou contasse
com uma tecnologia incrível, as identidades civis também eram de
adultos bem-sucedidos — quando não eram ricos, eram
profissionais respeitados, cumprindo o papel social de médicos,
advogados, cientistas, policiais, playboys bilionários e assim por
diante. Não havia heróis de destaque desempregados ou que
trabalhassem como zeladores ou ajudantes de garçom. Mesmo
tímido, Clark Kent era o principal repórter de um grande jornal
metropolitano.
O que nos leva de volta ao Homem-Aranha.
* * *
Como Lee recordou: “Achei que seria interessante fazer com que
o adolescente fosse o verdadeiro herói. O que aconteceria se um
jovem se visse cheio de poder? Então pensei que seria ainda mais
interessante se fosse um garoto normal, com os problemas de
vários adolescentes.” [ 208 ]
O desenho da história, a princípio, ficou a cargo de Kirby, mas
reviravoltas complicadas levaram Lee a designar Ditko como artista. O Homem-Aranha não se encaixava nos moldes dos
super-heróis adultos ou crianças. Peter Parker não tinha dinheiro
nem fama.
E os leitores entenderam isso. Um deles, Dan Fleming, disse,
sobre o Homem-Aranha, em uma carta impressa no Amazing
Spider-Man n.º 5: [ 209 ]
É bom ter um garoto “pobre” com poderes, em vez dos milionários
loucos que já vemos por aí há tantos anos.
Peter Parker tinha muito em comum com o adolescente Stan
Lieber. Peter ainda estava se desenvolvendo. A tia May e o tio Ben,
sua amada família, não tinham dinheiro sobrando, mas adoravam
o garoto e chegaram até a comprar um microscópio que ele
cobiçava, mesmo sem ter como pagar — o que nos remete aos pais
de Lee comprando uma bicicleta nova com a qual não podiam
arcar sem ajuda de um parente. E, embora Lee fosse bem
extrovertido (o que Peter logo se tornaria), também era, como
Peter, viciado em livros.
Peter Parker era um cara comum, um adolescente típico que,
como todas as pessoas “típicas”, se achava muito diferente — ou
pelo menos esperava que fosse. Era um órfão; fora criado por
parentes amorosos, mas que, no fim das contas, não eram seus
pais. Havia um elemento trágico em sua vida antes mesmo de os
leitores o conhecerem. Ele era muito inteligente, até mesmo
genial, mas muito inseguro. Muitas vezes incompreendido, Peter
afastava os colegas por quem mais queria ser aceito.
Foi preciso uma picada de aranha radioativa e a perda de uma
terceira figura paterna amada, o tio Ben, para Peter ter a chance de mudar tudo isso. Só que virar o Homem-Aranha criou tantos
ou mais problemas quanto resolveu. De certa forma, ampliava as
adversidades que Peter sentia que a vida lhe lançava. E o que se
tornou irresistível para os leitores foi observá-lo lidando com as
mudanças na vida, com os sucessos e fracassos como adolescente,
sobrinho, colega de classe e super-herói. Outro atrativo era o
senso de humor de Peter, que ele explorava abertamente sempre
que se escondia por trás da máscara com desenho de teias, mas
que ia se revelando cada vez mais enquanto não estava em seu
traje. Embora volta e meia quase lhe custassem a vida, os
superpoderes o deixaram mais confiante — ou talvez tenham
apenas revelado uma confiança que já estava ali o tempo todo. De
repente, Peter desenvolveu vida amorosa e social. Será que isso
tudo teria florescido sem aquela mutação? Os poderes tinham
criado aquele homem, ou o homem já existia, só passara a
sustentar os poderes?
Quaisquer que sejam as respostas, Lee e Ditko tinham criado —
e seguiram criando, ao longo das edições — um personagem em
constante desenvolvimento, tanto na identidade secreta quanto na
vida civil. Peter Parker se comportava e reagia às situações da
maneira que muitos jovens pensavam — ou desejavam — reagir.
Estava longe de ser perfeito, mas nunca parava de tentar.
Reclamava e se inquietava, mas sempre acabava fazendo a coisa
certa. Seus criadores tinham descoberto uma combinação única,
que se tornaria o modelo para um novo estilo de super-herói:
Peter era a melhor versão de nós, mas sem perder os problemas
ou as falhas que acometem a todos. Ele — assim como você —
superou (com muita luta) seus problemas e suas falhas. E, assim
como você, tinha que superar tudo de novo, várias vezes.
* * *
Em uma entrevista de 1975 com Steve Chapman para o Harvard
Crimson, Lee falou sobre seus dias no WPA Federal Theatre
Project. Chegou a mencionar por que deixara a organização, que
pagava salários muito baixos. Teria sido fácil culpar a Grande
Depressão, alegando que precisara ajudar a família. A mudança de
vida, da pobreza para a riqueza, é uma das narrativas favoritas das
pessoas bem-sucedidas, sobretudo das que cresceram pobres
durante a Grande Depressão.
Mas Lee deu um toque especial e pessoal ao assunto. O que ele
disse (em um tom muito casual e prático, como sempre
costumava fazer para apresentar suas perspectivas reveladoras)
foi:
Não tinha como ganhar dinheiro naqueles dias (…) e eu tinha uma
família para sustentar, então saí buscando todo tipo de trabalho de
redação. [ 210 ]
Aquilo não tinha sido para complementar a renda da família.
Não tinha sido para ajudar em casa. Tinha sido para sustentar a
família.
Lee nunca hesitou em falar sobre o desemprego constante do
pai, que passava horas angustiado à mesa da cozinha, lendo
anúncios de emprego, saindo em busca de trabalhos que nunca
conseguia, voltando para casa deprimido e derrotado. Mas,
mesmo assim, aquela afirmação foi muito impactante, pois trouxe
a noção de que a família era mais do que apenas pobre, estava
além da fase de “passar por dificuldades” — o filho mais velho se sentia na obrigação de trazer dinheiro para casa, para que a
família pudesse sobreviver.
“Eu tinha uma família para sustentar.”
E, enquanto assumia as finanças da casa (junto com qualquer
ajuda — que ele aparentemente não estava ciente — de outros
parentes), a mãe morreu. Além das repercussões emocionais para
ele próprio, Stan passara a conhecer, através dos olhos do irmão
mais novo, o efeito da morte traumática de um pai em um
adolescente. Talvez a morte da mãe não tenha sido tão
teatralmente dramática quanto o assassinato do tio Ben, mas
certamente para Larry — que falou muito desse trauma — trouxe
mudanças significativas. [ 211 ]
Stan Lee talvez tenha demorado a descobrir o que era um
grande poder, mas certamente aprendeu cedo demais o que era
ter grandes responsabilidades.
* * *
Apesar de ambientado no início da década de 1960, o mundo
ditkoniano de Peter Parker é um misto da imaginação coletiva dos
tempos da Grande Depressão. Com estilos de roupas que
lembram mais os anos 1930 do que a década de 1960, e ruas de
Nova York que poderiam muito bem ter saído da pintura
Nighthawks, de Edward Hopper — e das paisagens urbanas de
êxtase opressivo dos ídolos de Ditko, Will Eisner e Jerry Robinson
—, a arte da revistinha era cheia de angústia e desespero. Talvez
Ditko não tenha testemunhado o mesmo tormento emocional
diário de Lee, mas sua vida não era livre de problemas. Não deve
ter sido fácil passar boa parte de 1955 lutando contra a
tuberculose, numa época em que a doença ainda era temida, incapacitava e matava (sob os cuidados da mãe, que deu vida ao
amor da tia May), logo quando a carreira começava a decolar.
Com o Homem-Aranha, Lee e Ditko conseguiram expor o
segredinho da adolescência: nem tudo são flores — na verdade,
quase nada é. Claro que há momentos de alegria e triunfo, mas a
maior parte é um esforço confuso de descobrir quem se é (ou
quem se pode ser) e depois tentar planejar alguma estratégia para
se tornar essa pessoa. Juntos, Lee e Ditko conseguiram contar a
verdade sobre a adolescência — a verdade tecida entre as tramas
da história de um garoto talentoso da Grande Depressão, por mais
que ficasse evidente que ele estava vivendo na era atômica.
Os vilões do Homem-Aranha também foram forjados desse
mesmo metal ditkoniano, apesar de terem sido cocriados por Lee.
Eram estranhos e malucos, com muito mais problemas do que
Peter Parker, que era apenas neurótico: o Abutre, o Doutor
Octopus, o Homem-Areia e o Lagarto têm anomalias físicas que
poderiam ter saído diretamente das páginas de Dick Tracy, de
Chester Gould, com as reviravoltas das histórias de horror como
Frankenstein e Além da imaginação.
* * *
Não é de surpreender que existam várias histórias sobre a criação
do Homem-Aranha. A mais próxima da verdade é uma amálgama
das versões de Lee, Ditko, Kirby e até Joe Simon: ao que parece,
antes ou depois de Lee decidir criar um super-herói adolescente
relacionado a insetos, Kirby tentara lhe vender a ideia de um
Homem-Aranha, que na verdade era uma versão renovada do
Homem-Mosca, um personagem que ele e Simon tinham criado
para as revistas de aventura da Archie Comics, em 1959. Ditko viu
as páginas no escritório de Stan e comentou que eram muito parecidas com a origem do Homem-Mosca, que Lee afirmou
nunca ter lido. A história, então, foi rejeitada, mas Lee ainda
queria dar voz à sua ideia inicial. [ 212 ]
Mas a história dessa criação tem inúmeras versões. Lee
escreveu, em seu livro Origins of Marvel Comics [As origens dos
quadrinhos da Marvel]:
Eu já estava havia algum tempo brincando com a ideia de fazer
uma tirinha com (…) o personagem principal adolescente, em vez
de apenas o (argh!) parceiro de algum herói adulto! (…) Uma
tirinha em que nada seria de acordo com a fórmula: as situações, o
elenco e o relacionamento entre os personagens seriam incomuns e
inesperados! [ 213 ]
Lee ainda continuou, ressaltando que entregara a Kirby um
roteiro para a origem do Homem-Aranha.
Mas (…) quando vi as primeiras páginas que Jack havia desenhado,
percebi que tínhamos um problema. (…) Por mais que tentasse, ele
parecia incapaz de criar um personagem realmente sem glamour. [
214 ]
Uma versão alternativa da mudança de artistas seria que Kirby
tinha pensado que, se não podia seguir com sua ideia inicial,
preferia simplesmente deixar o projeto de lado. Afinal, ele já
desenhara muitos personagens magrelos, como Steve Rogers, o
Capitão América antes de virar super-herói. Não importa muito a
versão que escolhermos seguir: como principal artista da casa,
Kirby ainda era o motor que mantinha a linha de quadrinhos de Goodman. Haveria mais personagens para desenvolver, sem falar
no trabalho com aqueles com os quais ele já se comprometera.
Mas Lee não queria abandonar a ideia de um super-herói
adolescente com poderes de aranha. Então, passou o roteiro para
Ditko, que, além das histórias de fantasia em parceria com Lee,
também desenhava um super-herói que ele mesmo criara, o
Capitão Átomo, da Charlton Comics. Ditko sabia fazer super-
heróis, sabia fazer coisas estranhas e sabia retratar a prosaica vida
cotidiana com artes dramáticas e intensas. E Lee sabia que era
disso que seu herói aranha precisava. Como Raphael e Spurgeon
observaram: “O maior mérito de Ditko foi a autenticidade
emocional que ele investiu no personagem, o tormento que
imprimiu na existência do Homem-Aranha.” Raphael e Spurgeon
ainda comentaram que o título se tornou “uma análise emocional
brutal e divertida das frustrações de ser um adolescente — uma
perspectiva tão distante da realidade de Archie Andrews e os
jovens da Riverdale High quanto é possível dizer que Dustin
Hoffman, em A primeira noite de um homem, está de Andy Hardy,
personagem de Mickey Rooney”. [ 215 ]
Ditko se lembrava das coisas de maneira diferente, ainda que
suas memórias e as de Lee parecessem convergir. O artista relatou
que Lee havia descrito para ele a história de cinco páginas do
Homem-Aranha de Kirby, ao que ele respondera que soava
exatamente como o personagem da Archie Comics que Kirby
fizera em parceria com Simon: o Homem-Mosca. E Ditko contou
que foi naquele momento que Lee tirou Kirby da série e passou-a
para ele. [ 216 ]
* * *
Ao longo dos anos, e até pelo ímpeto de reduzir o número de
caracteres de uma reportagem, muitos jornalistas creditaram Lee
como o único criador do Homem-Aranha. A esse respeito, Ditko
escreveu, em sua coluna “Tsk! Tsk!”, publicada no The Comics!
[Os quadrinhos!], de julho de 1999:
Com base em quais fatos algumas pessoas falam, escrevem e
afirmam que o Homem-Aranha é criação de um homem só?
Logo abaixo, sob a cópia da manchete “O Homem-Aranha de
Stan Lee”, há um retângulo vertical com os dizeres:
HOMEM-ARANHA
SINOPSE DE UMA OU DUAS PÁGINAS PARA
O ARTISTA DESENHAR 21-24 PÁGINAS DE
HISTÓRIA/ QUADROS DE ARTE.
(O DIÁLOGO DEVE SER ADICIONADO A
PARTIR DO ROTEIRO DOS ESBOÇOS DOS
QUADROS.)
Ao lado, há um retângulo do mesmo tamanho sob os dizeres “O
Homem-Aranha de Steve Ditko”. Dentro desse segundo retângulo,
há um desenho sem falas do Homem-Aranha como o
conhecemos, atirando teias, fazendo reluzir seu Sinal-Aranha, a cabeça cercada por linhas onduladas do “sentido aranha”, o rosto
dividido: metade Parker, metade herói — uma aparência
completamente inventada por Ditko.
Logo abaixo da obra, o artista escreveu:
SERÁ QUE O PERSONAGEM DOS QUADRINHOS DA MARVEL É
CRIAÇÃO DE UM HOMEM SÓ? OU FOI CRIADO EM CONJUNTO? [
217 ]
A partir disso, podemos deduzir que Ditko sentia que, embora
ele e Stan tivessem criado o personagem juntos, Steve merecia a
maior parte do crédito? Parece uma interpretação plausível, mas
não fica claro. Em outro artigo, Ditko escreveu:
Stan queria que eu tirasse o Peter Parker/Homem-Aranha das
teias e do teto… queria que eu mudasse as poses imitando aranha,
mudasse a ação.
Por quê? Stan temia que os “juízes” do Comics Code, a associação
norte-americana que prezava pelos padrões dos quadrinhos,
rejeitassem a história porque Peter Parker (…) poderia ser visto
pelos jovens consumidores como algo não humano (…) o que
causaria todo tipo de problemas mentais e comportamentais. (…)
Eu disse (…) que deveríamos esperar até as autoridades
reclamarem (…).
Ninguém reclamou.
Ditko concluiu o artigo (de uma série), dizendo:
Ninguém “criou” o Homem-Aranha da Marvel sozinho. [ 218 ]
Em sua própria tentativa de esclarecer as coisas, Lee muitas
vezes creditava Ditko publicamente como cocriador. Em 1999, em
resposta à aparente raiva do artista, Lee escreveu uma carta aberta
à comunidade, na qual dizia:
Sempre considerei Steve Ditko cocriador do Homem-Aranha.
Longe de ficar agradecido, Ditko se irritou com o que julgava
ser um suposto recurso legal implícito na frase “Sempre
considerei”. Segundo ele, isso servia para diluir a questão sem de
fato dar créditos pela cocriação. [ 219 ]
Na tentativa de ser conciliatório, Lee expandiu diversas vezes a
declaração da carta de 1999, mas nunca de modo que satisfizesse
a ira de Ditko. Por exemplo, em 2004, Lee disse a Tom DeFalco:
Estou disposto a afirmar que ele é o cocriador. (…) Embora o
Homem-Aranha tenha sido ideia minha, Steve acredita que uma
ideia é apenas isto: ideia. Não é nada até que se desenvolva comple-
tamente. O Homem-Aranha precisava de Steve para deixar de ser
ideia e virar arte no papel. (…) A verdade é que não tenho o menor
problema em dizer que nós dois criamos o Homem-Aranha juntos.
(…) Mas, no meu coração, ainda sinto que quem apresenta a ideia
original é quem a criou de fato, sobretudo se tiver desenvolvido o
nome, a personalidade e os truques por trás do personagem. [ 220 ]
E, no documentário de 2007 de Jonathan Ross, In Search of Steve
Ditko [Em busca de Steve Ditko], Lee e Ross tiveram a seguinte
conversa:
ROSS: Você acredita mesmo que ele foi cocriador [do Homem-
Aranha]?
LEE: Estou disposto a dizer isso.
ROSS: Não é o que estou perguntando, Stan.
LEE: Não, mas essa é a melhor resposta que posso dar.
ROSS: Então, na verdade, é um “não”?
LEE: Eu realmente acho que o criador é o cara que sonhou com a
coisa. Primeiro você sonha, depois passa para qualquer um
desenhar.
ROSS: Mas, se tivesse sido desenhado de outra maneira, talvez não
fosse um sucesso.
LEE: Então eu teria criado algo que não teve sucesso.
Portanto, embora Lee estivesse disposto a ceder o status de
cocriador a Ditko, parecia que, segundo sua própria definição, ele
de fato se considerava o único criador do Homem-Aranha, já que
foi “quem teve a ideia”. Esse conceito parecia funcionar para
George Lucas, por exemplo, que é considerado o criador de Star
Wars e de seus personagens, e para Gene Roddenberry, criador
dos personagens de Star Trek. Portanto, Lee não achava irracional
sentir que, de acordo com as regras — ao menos as de Hollywood
—, ele era o único criador do Homem-Aranha.
Sobre essa disputa, o biógrafo de Kirby, Mark Evanier, que
trabalhou em momentos diferentes com e para Kirby e Lee —
sendo ele próprio um veterano de Hollywood —, disse:
Stan costumava dizer, e acho que estava completamente errado: “Se
eu dissesse: ‘Vamos fazer um programa de TV chamado The A-
Team’, então fui eu que criei, não importa o que alguém possa
dizer.” E eu sempre respondia: “Não, Stan, não funciona assim. Só
quem recebe crédito de criador na TV é a pessoa que escreveu o
piloto.” E ele retrucava: “É mesmo?” E depois repetia a mesma
ladainha. Era como se não tivesse me ouvido. [ 221 ]
Ditko escreveu, em um ensaio de 2008 intitulado “Roislecxe”
(Excelsior de trás para a frente):
Lee criou e executou sua ideia [para o Homem-Aranha] em uma
sinopse. Essa sinopse é criação dele. Mas sua participação na
criação termina aí, apenas com as palavras. (…) Lee tem o direito
de afirmar que foi o criador da sinopse do Homem-Aranha. Que
isso foi criação dele. (…) A sinopse das ideias de um escritor não é
como a planta de um arquiteto, com todos os detalhes necessários
(…) para erguer a estrutura desejada. [ 222 ]
Outro pronunciamento muito interessante, e que passou quase
que despercebido pelo público, encontra-se na introdução escrita
por Lee para The Art of Ditko [A arte de Ditko], de 2013 (editado
por Craig Yoe):
Bem, por que sou qualificado para escrever esta introdução? (…)
Porque Steve Ditko e eu cocriamos um dos super-heróis mais
populares do mundo. (…) Um dos dias mais felizes da minha vida
foi quando descobri que Steve estava disponível — e disposto — a
encarar o Homem-Aranha comigo.
Sem nenhuma hesitação. Nenhum suposto recurso de
interpretação.
“Steve Ditko e eu cocriamos.”
Se Ditko respondeu a essas palavras, não se sabe.
Ao ler os escritos de Ditko na antologia de 2008, The Avenging
Mind [A mente dos vingadores], fica claro que a discordância
entre os dois era puramente filosófica, envolvendo interpretações
ou lembranças dos fatos. Ditko parecia simplesmente acreditar
que não podia confiar em Lee, aparentemente porque os dois não
compartilhavam dos mesmos princípios filosóficos. E essa crença
era tão poderosa que, embora reconhecesse que houvera a
cocriação do personagem, ele parecia sentir que o papel de Stan
tinha sido mínimo. O desprezo que Ditko sentia por Lee é bem
evidente, e ele dava pouca ou nenhuma importância às suas
contribuições como roteirista, editor, diretor de arte e, sim,
corroteirista de muitas das histórias do Homem-Aranha que
fizeram juntos — até que Lee concordasse em dar a ele o crédito
total dos roteiros. [ 223 ]
De muitas maneiras, a discordância entre Lee e Ditko pode ser
resumida ao que Lee disse que “sente” e ao que Ditko afirmou
“provar” em seus textos. Assim como funcionava com a dupla Lee
e Kirby, os dois criadores do Homem-Aranha combinaram
experiência de vida, talentos, interesses e obsessões para criar um
fenômeno único da cultura pop. E, como acontece com o caso de
Kirby e Lee, quem observa de fora sempre discutirá, tanto quanto
os próprios criadores, sobre quem fez o quê. E, claro, além desses
desentendimentos, os advogados e tribunais é que podem
determinar quem recebe qual crédito oficial e qual recompensa
financeira.
Quanto a este último aspecto, Lee foi bem compensado — muito
além das taxas iniciais de redação e edição que recebeu. A parte de Ditko da fortuna do Homem-Aranha nunca foi revelada, e é
objeto de boatos e especulações.
* * *
Embora os painéis e quadros das edições posteriores do Homem-
Aranha (provavelmente todas a partir do n.º 18) tenham sido
totalmente traçados por Ditko — mas ainda roteirizados e,
portanto, “interpretados” por Lee —, tudo indica que as primeiras
edições foram colaborações no sentido canônico da palavra,
talvez com o mesmo tipo de interação que gerou o início do
Quarteto Fantástico. Mas é praticamente impossível não notar a
voz de Lee em Peter Parker e em seu alter ego, não importa quais
partes das versões de Lee e Ditko sejam consideradas.
Como Raphael e Spurgeon observaram, as primeiras aventuras
do Homem-Aranha se tornaram uma maneira de “esmiuçar as
questões do amadurecimento e da necessidade de se tornar mais
confiável, além de explorar todas as possíveis falhas espetaculares
que se esperam de um jovem”. Ainda acrescentaram que o
Homem-Aranha de Lee e Ditko “vivia quase sempre em seu
próprio mundo, um lugar desagradável, cheio de pessoas podres e
rancorosas e colegas ingratos que não conseguiam ver além dos
óculos de Peter Parker”. [ 224 ]
Peter Parker teve que explorar um mundo adulto, um mundo
para o qual a vida falhara em prepará-lo — e de muitas maneiras.
Como Stanley M. Lieber, Peter Parker se tornou o chefe de sua
família. Não é de admirar que esse personagem adolescente não
tenha escolhido se chamar Garoto-Aranha ou Menino-Aranha, e
sim Homem-Aranha, e que tenha optado por cobrir o rosto,
mantendo a ilusão de que era de fato adulto. (Ditko assumiu os créditos pelo aspecto visual, o que parece sensato.) Mesmo que
parecesse e soasse como um adolescente, o mundo que Peter
habitava — um mundo cheio de forças que tentavam destruí-lo —
precisava acreditar que ele não era mais um menino. E, se
estivesse sobrecarregado com as responsabilidades de um adulto,
Peter seria o herói mais adulto possível.
Mas toda essa angústia com certeza foi atenuada. Apesar da
melancolia da arte e da escrita, havia a sensação de que, de alguma
forma, ser o Homem-Aranha era divertido. Nesse sentido, parecia-
se bastante com a realidade de ser adolescente. É verdade que as
vitórias do Homem-Aranha eram entremeadas de drama e
tragédia, mas eram vitórias de verdade, algumas até agradáveis! E,
embora sua história de origem o faça parecer um pária sem
amigos, a primeira edição de sua revista homônima (publicada
sete meses após sua estreia em Amazing Fantasy n.º 15, mas com
todas as evidências de ter sido planejada para publicação logo
após a estreia) mostra Peter como o sujeito excêntrico da turma,
mas definitivamente como parte do grupo — o que é bem
diferente de não ter amigos. Peter é ridicularizado e
menosprezado por seus companheiros, mas todos parecem sentir
que ele está, de alguma forma, conectado ao grupo.
E, embora a colega de classe bonita e popular, Liz Allen, em
geral pareça preferir a companhia do fortão Flash Thompson, ela
concorda em sair com Peter (mas ele acaba furando o encontro
por causa de suas obrigações de super-herói). E a secretária de J.
Jonah Jameson, Betty Brant (que tem a idade de Peter — sim, ela
abandonou a escola por motivos financeiros e foi trabalhar para
Jameson), também parece ter uma quedinha por nosso
protagonista. Betty está, essencialmente, no mesmo nível de Peter, e é junto com ela — que não o conhece como um nerd
esquisito, e sim como um fotógrafo freelancer intrépido, sempre
correndo riscos para obter fotos “impossíveis” do Homem-Aranha
e de seus inimigos mortais — que Peter floresce em sua própria
identidade, amadurecendo como um quase adulto que consegue
se virar em um trabalho adulto dominado pelo mal-humorado
Jameson. Aliás, é com Jameson que Peter afirma seu lugar no
mundo, fazendo-o pagar pela mesquinharia e fazendo piada
contínua do chefe — afinal, o editor que odeia o Homem-Aranha
paga ao Homem-Aranha por fotos do Homem Aranha.
É aqui que a história de vida de Lee realmente assume um papel
fundamental na mitologia do Homem-Aranha, apesar do trabalho
de roteiro de Ditko. Talvez seja porque os dois criadores não
foram tão diferentes quanto imaginavam.
Embora não esteja claro quais empregos tediosos e mal pagos
Lee teve ainda na escola e de quais se ocupou no período entre a
graduação e o início da carreira na Timely (fora alguns trabalhos
de redação freelance), ele sempre parecia acabar em lugares onde
era tratado feito criança ou idiota. Esses cargos subordinados a
chefes caprichosos e abusivos — sobretudo o trabalho na fábrica e
distribuidora de calças — evocam exatamente o tipo de
relacionamento de trabalho que Parker tem com Jameson —
exceto as partes mais satisfatórias, em que Parker é mais esperto
do que o chefe ou até prega peças, como prendê-lo no teto.
(Embora a história de Lee sobre derrubar o contêiner de bilhetes
de corte chegue bem perto disso.) É a fantasia de vingança de
todo escravo do salário, e o que ajusta um pouco o equilíbrio de
poder — mas, no fim das contas, é Jameson quem tem o dinheiro,
o poder e a influência. Mesmo assim, mais por vingança do que pela realização de seus desejos, Lee começa a mostrar como
Jameson é superficial, fazendo-o admitir, em um solilóquio
clássico de O Espetacular Homem-Aranha n.º 11, por que é tão
obcecado pelo Homem-Aranha. Mesmo se Ditko tiver inventado a
cena, foi Lee quem colocou as palavras na boca de Jameson: “O
Homem-Aranha representa tudo o que não sou! Ele é corajoso,
poderoso e altruísta! A verdade é que eu o invejo! (…) Mas nunca
poderei chegar ao nível dele! Então tudo o que me resta é
derrubá-lo, porque — meu Deus — morro de inveja!”
(E, é claro, dar a Peter um inimigo que é um editor de periódico
egoísta e manipulador, que muda de ideia por qualquer coisa, era
o cenário perfeito para Lee satirizar o mercado editorial —
sobretudo Martin Goodman — e até a si mesmo como chefe.)
De um jeito ou de outro, o adolescente no cerne de Peter Parker
— e de Stan Lee — nunca foi esquecido. A saga do Homem-
Aranha é a história de um jovem que vivia em uma bolha de amor
que fora quebrada com um golpe repentino e traumático, e que
então precisou lidar com as repercussões múltiplas e simultâneas
de um evento tão real. Peter teve que lidar com a morte do tio
(pela qual se culpa, do mesmo modo que o filho de um pai
desempregado talvez possa se culpar pelos problemas da família)
e suprir as necessidades financeiras da tia idosa, pagando por suas
crises de saúde constantes, o que sem dúvida remonta à batalha
da mãe de Lee contra o câncer, que acabou lhe tirando a vida. A
existência de Peter Parker é um trauma após o outro, um eco da
jornada difícil de Stan (e de Larry).
Mas, paradoxalmente, preservado pela força do caráter — ainda
que cheio de neuroses —, Peter Parker ama a vida e tenta
descobrir as melhores maneiras de aproveitar ao máximo o presente inesperado de seus poderes sobre-humanos. O trauma
do assassinato do tio o afasta de uma carreira promissora no
showbiz — algo que o próprio Lee sempre cobiçara — e o faz
ingressar em uma carreira de super-herói fantasiado — por mais
que seja um herói que gosta de chamar atenção. Peter se torna um
vigilante fantasiado que luta contra o crime com muita
extravagância, certificando-se de que todos saibam que estava lá
— inclusive inventando um sinal de aranha reluzente que emite do
cinto. Será que é muito diferente de subir em uma escada e
escrever “Stan Lieber é Deus” no teto?
E, no entanto, como Peter Parker, Stan Lee também fazia muitos
comentários amargos sobre a vida. “Acho que deveria ter saído
desse negócio há vinte anos”, disse, ao repórter Ira Wolfman, em
1978. “Queria fazer filmes, ser diretor ou roteirista…” [ 225 ]
Da mesma forma, no fim de muitas de suas aventuras com
roteiro de Lee, Peter Parker se pergunta se as perdas pessoais que
sofre por ser o Homem-Aranha valem a pena. Já em O Espetcular
Homem-Aranha n.º 4, de 1963, ele se perguntou:
Será que sou mesmo como um viciado, desperdiçando meu tempo
em busca de fama e glória? Estou mais interessado na aventura de
ser o Homem-Aranha do que em ajudar as pessoas? Por que eu faço
isso tudo? Por que não simplesmente desisto?
O Homem-Aranha, na melhor das hipóteses, passa por grandes
altos e baixos, levando o leitor junto. E mais: apesar da pretensão
de ser uma história séria, o “teioso” geralmente se envolve em
ações e comportamentos que nada têm a ver com sua famosa
equação de equilíbrio entre poder e responsabilidade. Ele é o Homem-Aranha por diversos outros motivos. Precisa ganhar
dinheiro para sustentar a tia. Mas também gosta de ser o Homem-
Aranha porque é divertido andar de teia em teia pela cidade,
dando surras em bandidos. Além disso, ele gosta de vender fotos
de si mesmo para o inocente Jameson. O escritor e editor de longa
data do Homem-Aranha, Tom DeFalco, observou que, como uma
pessoa real, Peter Parker tem inúmeras motivações e
racionalizações para explicar por que faz o que faz. [ 226 ] De fato,
conforme descrito pelo narrador (Lee!) no último quadro da
edição n.º 9, o Homem-Aranha é “o super-herói que você poderia
ser!”.
* * *
Por mais confusos que sejam, os escritos de Ditko deixam claro
que — assim como Lee ou Kirby — o artista e cocriador do
Homem-Aranha também tinha a necessidade de entrar na mente
dos personagens nos quais estava trabalhando. De alguma forma,
a mistura de necessidades, obsessões, neuroses e talento criativo
de Lee e Ditko imbuiu o Homem-Aranha de uma sensibilidade
que era simultaneamente “deles” e, ainda assim, muito
distintamente da Marvel — embora fosse muito diferente do
universo expandido da Marvel, construído para as criações de
Lee-Kirby, com que o Homem-Aranha apenas compartilhava
espaço.
Enquanto em seus textos posteriores, mais objetivistas
(seguindo a escola de Ayn Rand), Ditko se enfurecia contra o que
via como vontade fraca ou ética comprometida (sobretudo
quando percebia que esse tipo de pensamento vinha de Stan Lee,
o que era frequente), as imagens (se não as ideias) que forneceu em suas colaborações deram a Lee a base de que o autor precisava
para imbuir o Homem-Aranha de uma capacidade de
comportamento mais matizado, por vezes até contraditório,
carregado de dúvidas — algo que Ditko provavelmente nunca quis
que o herói tivesse. Peter Parker, como foi publicado, era um
personagem cheio de contradições. Orgulhoso e envergonhado.
Poderoso e fraco. Concentrado e disperso.
No entanto, é difícil ler os textos raivosos de Ditko sobre Lee
sem achar que, pelo menos em parte, foram causados por alguma
decepção pessoal com Stan como amigo e colega; é difícil não
notar uma espécie de sentimento de traição ou decepção pessoal,
assim como os desacordos criativos, filosóficos ou financeiros que
os dois poderiam ter. Da mesma forma que acontece com seus
sentimentos sobre Kirby, a confusão e a decepção de Lee com as
dificuldades do relacionamento com Ditko parecem estar
relacionadas tanto ao arrependimento e à raiva de perder um
amigo quanto a qualquer outro conflito de atitudes ou opiniões
sobre o trabalho que fizeram juntos.
* * *
Embora seja possível afirmar que o Homem-Aranha foi um
trabalho combinado, autobiográfico e idiossincrático de seus
criadores, o personagem também — talvez justamente por causa
dessa combinação — ressoou entre os leitores. Em alguns fãs, a
personalidade do Homem-Aranha parecia trazer à tona as
contradições típicas de Peter Parker. Uma carta de Doug Storer,
de Butte, Montana, publicada em O Espetacular Homem-Aranha
n.º 8,começava com um texto muito elogioso:
Sua última e mais importante criação, O Espetacular Homem-
Aranha, superou tudo que já vi nas bancas. (…) Tudo sobre o
Homem-Aranha pode e deve ser discutido no superlativo.
Mas a carta seguiu um caminho diferente:
No entanto, há uma coisa que me incomoda no personagem. Com o
tempo, ele talvez se torne “apenas mais um herói”. Pode me chamar
de pessimista, mas já vi isso acontecendo, e nada impede que
aconteça outra vez. (…) Veja bem, estou muito preocupado com o
futuro desta que se tornou minha revista favorita.
Storer não apenas gostava ou sentia empatia pelo Homem-
Aranha. Assim como a tia May, ele se preocupava com Peter. Lee e
Ditko tinham inventado algo — alguém — que de fato tocava as
pessoas.
Outro exemplo está na página de cartas da edição n.º 12,
quando Jodene Green Acciavatti, de Brookline, Massachusetts,
implorou:
Por favor, não mudem o Homem-Aranha. Ele parece tão humano.
Sei que as pessoas podem ser tão irritantes quanto os colegas de
escola dele. (…) Peter está ocupado demais para se adequar ao
código pessoal deles, e acaba sendo desprezado por ser diferente.
Essas pessoas não têm nada melhor para fazer? Eu sofro do mesmo
problema, então me sinto um pouco como Peter Parker. (…) O que
diferencia o Homem-Aranha é que ele luta a vida toda sozinho.
O cabo de guerra passivo-agressivo entre Lee e Ditko sobre o
conteúdo das histórias em que colaboravam persistiu ao longo do
tempo, sem que os leitores soubessem, até que os dois pararam de
se falar — isso muitos meses antes da saída de Ditko da Marvel,
em 1966. (Sol Brodsky geralmente atuava como intermediário.)
Nos anos que se seguiram, um culpava o outro pelo
desentendimento.
Se a batalha solitária do Homem-Aranha foi como um avatar
objetivista ou como, talvez, uma versão superpoderosa e
traumatizada do adolescente de TV dos anos 1960 Dobie Gillis,
tudo dependia do ponto de vista de quem lia. Mas, como era ele
quem colocava as falas nas legendas e nos balões, a questão
acabava dependendo do ponto de vista de Stan Lee.
* * *
Enquanto isso, a popularidade da Marvel só crescia, e os leitores
— e Martin Goodman — exigiam mais super-heróis no estilo do
Quarteto Fantástico e do Homem-Aranha. Ainda havia muito
espaço naquele universo fictício para outros tipos de heróis,
outros públicos — e outros aspectos da atenção dos leitores —
para serem explorados e cultivados. Stan Lee estava determinado
a fazer exatamente isso.
As coisas estavam começando a ficar interessantes.