A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 6 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

5. Deslanchar e ficar

“Espero que goste dessa tirinha!” deve ser

uma das frases mais desnecessárias que já

escrevi… Mas espero mesmo!

— Stan Lee, em uma carta de 3 de outubro de

1957 a Robert Cooper, supervisor das tirinhas

do Chicago Sun-Times, enviado junto com

amostras de Mrs. Lyons’ Cubs

 

Oano de 1957 foi o começo do fim. Mais uma vez. Depois de as trombetas anunciarem o início da cruzada

antiquadrinhos e com a crescente competição por tempo e

atenção da TV, já fazia pelo menos um ano que Stan Lee estava

atrás de uma saída daquele mundo — ou pelo menos de uma

maneira de complementar o que ganhava com o trabalho fixo.

Porém, com quatro quintos dos quadrinhos em que trabalhava

sendo cancelados de uma hora para outra, a necessidade de renda

extra se tornou muito mais urgente.

Mesmo que não houvesse ameaças a seu trabalho na Atlas,

pode-se argumentar que Lee começara ao menos a tentar

expandir seus horizontes com a publicação do livro Secrets Behind

the Comics, de 1947, e com suas tentativas de publicação de

tirinhas.

O primeiro trabalho nessa área foi curto: um mês escrevendo as

tirinhas Howdy Doody [Olá, como vai?] (que apareceram nos

jornais logo no início de 1951), com arte de Chad Grothkopf,

baseadas em um programa de TV infantil homônimo. Depois

disso, participou de outra breve tirinha de 1952 chamada My

Friend Irma [Minha amiga Irma] — um spin-off das séries

homônimas de rádio e TV. Lee foi uma escolha óbvia para o

trabalho, pois já escrevia as histórias em quadrinhos da

personagem, que contavam com ilustrações de Dan DeCarlo.

Bem, essas empreitadas eram de contratos curtos.

Mas a “Implosão da Timely”, como ficou conhecida a época das

demissões, foi um alerta. O trabalho nos bastidores das revistas,

um conforto que Lee considerava garantido, podia não ser tão

seguro assim. Ele precisava de novos planos, e depressa.

* * *

Quando falou sobre esse período em que trabalhava praticamente

sozinho no escritório, Lee contou que se sentia uma espécie de

“chama piloto”, esperando para ver se e quando a linha de

quadrinhos iria expandir. [ 155 ] Alguns, incluindo Bruce Jay

Friedman (antigo editor da empresa, que futuramente se tornaria

um lendário romancista e roteirista), cujo escritório ficava ao lado

do de Lee, achavam que Goodman não se sentia confortável de

demitir um parente, então tentava humilhá-lo até que ele pedisse demissão — e seria mais fácil se Stan compreendesse logo as

indiretas e saísse. [ 156 ]

Embora Lee fizesse trabalhos pontuais de escrita e edição para

as revistas de Goodman, dedicar-se mais a essa atividade parecia

fora de questão. Em 2017, questionado sobre isso, disse: “Acho

que eu teria gostado [de editar as revistas], mas nunca me

passaram o trabalho. E nunca pedi. Acho que Martin queria me

manter nos quadrinhos. Não queria que eu fizesse mais nada.” [

157 ]

Assim, ele foi ficando, e Martin parecia disposto a deixá-lo na

empresa. Mas Stan também traçou seus próprios planos para o

caso de o chefe decidir que não havia nenhum bom motivo para

mantê-lo. Sua vida de freelancer começou a se intensificar nesse

período, e Lee passaria o resto da vida — mesmo após o

indiscutível sucesso da Marvel — trabalhando em projetos

externos, talvez sempre à espera de uma ligação informando que

o pior acontecera. Ele nunca se recuperou da sensação de

incerteza depois daquele último abalo na empresa.

Durante esse período, foi contratado para escrever quadrinhos

promocionais para a rede de hamburguerias Bob’s Big Boy. A

pequena divisão de quadrinhos licenciados (ou seja, feitos por

contrato para outras empresas) começou como um setor da

Timely Illustrated Features, mas passou para a produção

independente do escritor e artista freelancer — e futuro

funcionário e executivo da Marvel — Sol Brodsky. Antes de Sol,

muitos roteiros eram de Lee, e a arte vinha de diversos nomes

conhecidos, como Bill Everett e Dan DeCarlo. Depois que os

quadrinhos da Marvel deslancharam, Lee continuou fazendo

roteiros para Brodsky, seu amigo e colega.

Pela Timely Illustrated Features, Lee também escreveu

“almanaques” especiais, conhecidos como fun books, para a

empresa Birds Eye. As histórias foram feitas com Maneely e, em

1958, ganharam o prêmio de Best Tie-In Sales Premium Plan,

oferecido pelo Premium Industry Club, e o prêmio Key of

Achievement, oferecido pelo Student Marketing Institute, que

parabenizaram a ação pela “excelente atividade destinada a

alcançar, influenciar e vender a juventude americana”, segundo

carta de 30 de abril de 1958 de Edward Tabibian, gerente de

promoção de vendas da Birds Eye. [ 158 ] Não é um Oscar, mas é

melhor do que nenhum prêmio.

Ainda assim, o Santo Graal de muitos criadores de quadrinhos

era o contrato de tirinhas de jornal. O potencial de ganhos — e de

angariar respeito da mídia — era muito maior para os autores de

tirinhas famosas. Cartunistas como Al Capp e Milton Caniff eram

considerados — e depois se descobriu que era verdade —

celebridades que cobravam tanto quanto os astros do cinema.

Como muitos profissionais da indústria de quadrinhos, Lee

ansiava por um espaço nesse meio. O quase fechamento da

empresa onde trabalhava era apenas uma motivação a mais para

que tentasse alcançar o estrelato das tirinhas.

Lee trabalhou com vários artistas em propostas para os jornais.

Com ajuda de sua agente, Toni Mendez, fez parceria com vários

artistas e apresentou inúmeras propostas, algumas bem-sucedidas.

Mesmo apostando nos gêneros populares da época, Stan fazia

questão de deixar sua marca nos roteiros. A tirinha Willie

Lumpkin, feita com DeCarlo, contava a história de um carteiro e

os personagens esquisitos com quem ele interagia. (Willie

Lumpkin mais tarde se tornaria o nome de um personagem secundário recorrente do Quarteto Fantástico, e Lee chegou até a

interpretá-lo no filme homônimo de 2005.) A tirinha alcançou

sucesso moderado, o que também aconteceu com a comédia

infantil suburbana Mrs. Lyons’ Cubs. Não é nenhuma surpresa que

a personagem principal, Sra. Lyons, fosse feita à imagem de Joan

Boocock Lee. (Como vimos ao analisar a Snafu, Lee sempre

recorria à imagem da esposa, fosse para sessões de fotos

glamorosas, fosse como representante da “garota típica”,

assumindo papéis tanto de casada quanto de solteira.)

Um artigo da revista Editor & Publisher de dezembro de 1957

promovia a estreia da tirinha Mrs. Lyons — que apareceria nos

jornais pela primeira vez em 10 de fevereiro de 1958 — e de seus

criadores. Sobre Lee, o texto dizia: “Stan, diretor de arte e

editorial de uma editora em Nova York, é autor de mais de mil

revistas em quadrinhos, escreveu e produziu revistas

especializadas para o governo e a indústria e trabalhou como

escritor freelancer, publicitário e redator.” Ele foi descrito como

“alto, com estilo típico da Madison Avenue, e dono de um sorriso

imenso e cativante”.

Sobre a Mrs. Lyons, Lee afirmava que, embora tivesse

pesquisado muito sobre os Cub Scouts, os escoteiros mirins, “não

é uma tirinha pedante. O tom não é nem um pouco maçante ou

cheio de si”.

O artigo continuava, com uma confissão franca:

 

“Acho que não deveríamos admitir, mas essa não é nossa primeira

tentativa [no mundo das tirinhas]”, afirmou Joe. “Stan e eu

exploramos várias ideias que não chegaram a lugar algum.”

“Sim”, concordou Stan. “Eu me lembro de uma ideia que nós dois

adoramos, mas que nunca nem saiu do papel. Colei os originais na

parede do quarto da minha filha e esqueci.”

 

E, assumindo um tom dramático, o texto trazia a reflexão: “Os

dois ainda são jovens. Esta é a hora, a oportunidade. É pegar ou

largar. Dá para entender como Stan Lee, escritor, e Joe Maneely,

artista, se sentiram.” [ 159 ]

* * *

Tirinhas de sucesso podem deixar os criadores literalmente ricos

e famosos, como aconteceu com Ferdinando, de Al Capp, ou Terry

e os Piratas, de Milton Caniff. Mesmo assim, tirinhas de menor

alcance, como a Mrs. Lyons’ Cubs, geram uma boa renda, ainda

que não seja nada extravagante. Por isso, Lee continuou tentando

outros projetos enquanto trabalhava como editor e roteirista de

quadrinhos. Ao longo de sua carreira, ele sempre se apegou à

segurança do trabalho fixo.

No início de 1958, enquanto escrevia e editava gibis e a tirinha

Cubs, Lee e sua agente, Mendez, tentavam emplacar For the Love

of Linda [Pelo amor de Linda], uma tirinha em parceria com

Vince Colletta, no estilo das novelas, sobre uma jovem de

Manhattan que herda o jornal de uma cidadezinha. Apesar da

prosa ágil de Lee e da fama artística de Colletta, a tirinha não

decolou.

Curiosamente, embora um dos cabeçalhos timbrados das cartas

oficiais de Lee dos anos 1950 o proclamasse “editor-chefe e

diretor de arte da Timely Comics”, há outros da mesma época que

listavam apenas seu nome e o endereço do escritório da Timely, mas sem o cargo ou um título. E, nas várias cartas de Mendez que

acompanhavam os pedidos de análise das tirinhas, Lee é citado

como “editor e diretor de arte da Magazine Management Co.”. Fica

evidente que o cargo de editor-chefe e diretor de arte de uma

empresa de quadrinhos só servia como credencial em

determinadas situações. E essa presença intermitente do título faz

ainda mais sentido se somado aos relatos de Lee sobre como, nos

coquetéis e eventos de adultos, sempre evitava deixar claro o tipo

de trabalho que fazia, alegando que as pessoas sempre se

afastavam quando descobriam que as tais “revistas infantis” eram,

na verdade, gibis. [ 160 ]

É fato que nunca saberemos quantas ideias de tirinhas foram

descartadas depois de alguns rabiscos em pedaços soltos de papel,

mas os arquivos de Toni Mendez contêm muitos documentos

fascinantes sobre as ideias de sucesso e as várias tirinhas que não

deram certo.

Nascida em Nova York e considerada muito talentosa em sua

área de atuação, Mendez era a primeira escolha para os

cartunistas e quadrinistas em busca de agenciamento. Sua vida na

indústria do entretenimento começou como dançarina do famoso

grupo The Rockettes, na Radio City Music Hall, mas ela só passou

a agenciar cartunistas e roteiristas (além de autores de prosa) em

1946 — e se manteve no mercado até sua morte, em 2003, aos 94

anos. Mendez também ajudou a fundar a National Cartoonists

Society [Sociedade Nacional de Cartunistas] e era tia de Cynthia

Weil, que escreveu — em parceria com o marido, Barry Mann —

músicas clássicas do pop, incluindo “We Gotta Get Out of This

Place” e “On Broadway”. Os volumosos arquivos de Mendez ficam

guardados na Billy Ireland Cartoon Library and Museum, na Universidade Estadual de Ohio. Seus muitos clientes incluíam

Milton Caniff, Rube Goldberg, Ernie Bushmiller e Stan Lee.

Como membro de várias organizações de cartunistas e de

trabalhadores da mídia (incluindo a National Cartoonists Society,

o Newspaper Council [Conselho de Jornais] e a Academy of

Television Arts and Sciences [Academia de Artes e Ciências da

Televisão]) e a enorme quantidade de títulos no currículo, Lee

conseguiu convencer Mendez a representá-lo, pleiteando as

tirinhas que ele criava em parceria com outros vários artistas. Um

dos primeiros contratos que Mendez arranjou para Lee era de

uma tirinha chamada Clay Murdock, V.P. A criação, em parceria

com Colletta, era sobre o vice-presidente de uma empresa de

publicidade. Mendez parecia bem animada com o trabalho de Lee.

Em uma carta para Philip Steitz, diretor de pesquisa editorial do

Chicago’s Publishers Syndicate, empresa de distribuição de

tirinhas de Chicago, escreveu: “Lee é um indivíduo muito

singular; tenho certeza de que você vai gostar de trabalhar com

ele.”

De 1956 a pelo menos 1961, Mendez enviava pacotes regulares

com amostras de tirinhas em nome de Lee — isso mesmo

enquanto disputavam na justiça (Lee que se juntara a DeCarlo,

artista de Willie Lumpkin) em um processo por royalties. Em uma

espécie de prenúncio do “processo amigável” de Lee contra a

Marvel, em 2002, ele e Mendez mantiveram relações cordiais

mesmo em um período em que, tecnicamente, eram adversários.

Em uma carta de 1960, Lee apontou, em um contrato, a cláusula

específica feita justamente para manter seu direito de processá-la,

encerrando a missiva com uma piadinha: “Se advogados

recebessem por palavra, o meu seria o mais bem pago de todos!” Essas correspondências cordiais entre os dois se mantiveram até

pelo menos medos dos 1970 e 1980.

As duas tirinhas mais bem-sucedidas de Lee — Mrs. Lyons’ Cubs

e Willie Lumpkin — figuraram em campanhas publicitárias nos

próprios jornais onde apareciam.

Por exemplo, em um livreto com as histórias da Mrs. Lyons’

Cubs, editado pela agência de distribuição que escolhia as tirinhas

do Chicago Sun-Times, a sra. Lyons — sósia de Joan Lee — aparece

sorrindo para o título da tirinha, com uma imagem dos jogadores

do Cubs, time de beisebol homônimo, dando risada logo abaixo.

No texto, somos informados de que aquela será “uma tirinha

diária, com uma página no jornal dominical, perfeita para todo

tipo de público. Não importa se você é jogador de beisebol ou mãe

de menino: a risada é garantida!”. Além disso, consta que a tirinha

foi “aprovada pelo Conselho Nacional dos Escoteiros da América

— os Lions Cubs”.

No livreto, há ainda a informação de que aquela é “a única

história em quadrinhos aprovada pelo Conselho Nacional dos

Escoteiros da América”, junto de uma reprodução da carta que

concede essa aprovação, datada de 30 de outubro de 1957,

assinada por Rebel Robertson, diretor de relações públicas dos

Escoteiros da América. (Algumas cartas nos arquivos de Mendez

indicam que, como havia sido dito na entrevista da Editor &

Publisher, Lee e Maneely obtiveram essa aprovação por terem

feito uma extensa pesquisa sobre o escotismo, para que

acertassem cada detalhe — mas isso só depois de errarem

bastante.)

Vários anos depois, Joan Lee teve uma participação

instrumental na lenda do surgimento da Marvel Comics, mas também participou ativamente da promoção de Mrs. Lyons’ Cubs.

Em um movimento publicitário que os escoteiros — alegando

motivos éticos — não podiam fazer e que a distribuidora não

parecia disposta ou capaz de levar adiante, Joan ligou para líderes

de tropas escoteiras de todo o país, informando-os da existência

de Mrs. Lyons’ Cubs. De acordo com as cartas ainda em registro,

Joan convenceu vários deles a comprar os jornais locais onde a

tirinha aparecia ou, quando não havia distribuição na cidade, a

pedir aos jornais que a publicassem. [ 161 ]

* * *

Apesar de venderem bem, o sucesso das tirinhas era limitado.

Com isso, Lee não podia abrir mão do trabalho formal na editora

nem da renda de escritor freelancer. Stan Lee teria apreciado

muito a oferta de um cargo fixo em uma ou mais das revistas de

Martin que não estavam relacionadas a quadrinhos, mas a

proposta nunca aconteceu. [ 162 ] O que faz sentido, já que Lee não

se encaixava no perfil dos funcionários das revistas para adultos,

todos graduados e pós-graduados em universidades da Ivy League

— Goodman gostava de se gabar da equipe de classe alta,

apressando-se em ressaltar que, apesar da formação cobiçada,

optavam por trabalhar para ele, que nem sequer se formara no

segundo grau, em uma fábrica de revistas populares.

(Também parece possível que Lee, embora muito inteligente,

criativo e dedicado, tivesse alguma forma de DDA ou TDAH, o

que o tornava mais adequado para um fluxo interminável de

trabalhos curtos, em vez de projetos que exigiriam atenção

prolongada.)

Outra possibilidade é que Goodman de fato acreditasse que a

indústria de quadrinhos voltaria a crescer e que — se não

abandonasse o barco, humilhado — Lee seria o homem certo para

gerenciar esse retorno glorioso ao mercado. Além disso, mantê-lo

no cargo pouparia dramas familiares. A essa altura, os Lee já

moravam em Hewlett Harbor, perto dos Goodman, e as famílias

se encontravam socialmente — Stan e Martin, inclusive, iam e

voltavam juntos para o trabalho.

Havia, além disso, a possibilidade de que Goodman sentisse que

seu dever familiar estava cumprido com a oferta de um trabalho

estável e seguro, e que o prestígio (ou falta dele) do cargo em

questão não era problema seu. Lee já tinha cogitado procurar

emprego fora da influência de Goodman, mas sentia que o

histórico de trabalhar com quadrinhos fosse malvisto no mercado.

Ele se imaginava indo a uma editora como a Simon & Schuster e

dizendo: “Ah, eu editava quadrinhos. E aí, o que podem me

oferecer?” E ficava muito inseguro para se aventurar fora da asa

de Goodman. [ 163 ]

Lee chegou a declarar que também trabalhou em vários outros

materiais além de quadrinhos e tirinhas, mas o registro de sua

participação nessas outras mídias é muito vago. Ele lembrou:

 

Eu escrevia programas de rádio. (…) Não posso mencionar os

títulos, porque eram publicados sob o nome de outras pessoas. (…)

Fui ghost-writer de vários programas de televisão. E de tirinhas de

jornal. Escrevi Howdy Doody. (…) Fiz algumas peças

publicitárias. [ 164 ]

Quaisquer que tenham sido os trabalhos externos, parece que

Lee não ganhou o suficiente para sentir que poderia deixar a —

frágil — segurança de seu cargo na Timely. Convencido de que

não tinha escolha, ele perseverou. Ainda assim, continuava

pleiteando ideias de tirinhas e de outros projetos.

* * *

Quando o estoque de material da Timely/Atlas começou a esgotar,

e os problemas de distribuição da empresa foram resolvidos com

a criação da Independent, Lee passou a ter mais o que fazer no

escritório, já que enfim fora autorizado a encomendar novas

histórias. Editar de oito a dez histórias por mês —

aproximadamente duzentas páginas de material a cada trinta dias

— era uma carga de trabalho respeitável para qualquer editor de

quadrinhos, sobretudo porque Lee também escrevia muitos dos

roteiros. De fato, seria uma quantidade quase perfeita para um

editor disposto a fazer mais do que dar uma olhada superficial no

material que parava em sua mesa, analisando a possível publicação

com mais tempo e cuidado. Naquelas circunstâncias, um

editor/escritor esperto poderia até começar a pensar em temas e

caracterizações e, possivelmente, descobrir alguma estratégia de

marketing e publicidade.

E, com uma equipe de artistas que incluía talentos como Jack

Kirby, Steve Ditko, Don Heck e o incrivelmente ágil e talentoso

Maneely, talvez a Timely, a Atlas ou fosse qual fosse o nome da

empresa (muitos artistas só a chamavam de “empresa do Stan

Lee”) pudesse criar histórias com um pouco mais de substância,

talvez até algum significado.

Claro que esse era o tipo de coisa de que apenas os mais

sonhadores, como o lendário Will Eisner, costumavam falar — e o próprio Eisner deixara de produzir quadrinhos regulares em 1952,

encerrando até mesmo a tirinha cômica e muito respeitada The

Spirit [O Spirit, que mais tarde figurou em quadrinhos da DC

também publicados no Brasil]. Eisner passara a produzir

quadrinhos educativos para militares, corporações e agências

governamentais, e o pagamento lhe proporcionava um bom estilo

de vida. A mudança na carreira lhe ofereceu mais tempo com os

filhos pequenos e meios financeiros para uma agradável vida no

subúrbio, longe da agitação das ruas de Nova York em que ele,

assim como Lee, crescera. Se aquele era um trabalho bom o

suficiente para um gênio como Eisner, quem seria Stan Lee para

aspirar mais?

Assim, Lee se manteve na posição. Em meados de 1958, as

coisas na Timely/Atlas começaram a entrar em processo de

recuperação. A empresa sobrevivera à crise, e ele finalmente pôde

oferecer mais trabalhos aos freelancers. Enquanto isso, a Mrs.

Lyons’ Cubs alcançava algum sucesso.

Mas, em 7 de junho de 1958, viria uma nova mudança —

repentina e dramática — na vida de Stan Lee.

Naquele dia, Joe Maneely faleceu. Durante uma viagem de trem

de Manhattan para casa, em Nova Jersey, Maneely, que estava sem

os óculos — tinham quebrado —, deu um passo em falso e caiu

entre os vagões com o trem ainda em movimento.

Além da dor da perda, houve grandes repercussões profissionais

para Lee. Maneely ilustrava o Mrs. Lyons’ Cubs e inúmeros outros

quadrinhos, e um abismo terrível se abriu de repente em seu

mundo.

E, como que por sugestão divina, foi nessa mesma semana que

Jack Kirby decidiu visitar o escritório da Timely/Atlas.