A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 8 de 28

Páginas do PDF

A Espetacular Vida de Stan Lee

7. Ressurgindo das cinzas

As ideias dos novos personagens dos anos

1960 só surgiram para mim porque criá-los era

minha responsabilidade. (…) Sonhei com o

Quarteto Fantástico e escrevi um resumo do

roteiro. Passei a ideia para Jack Kirby, que fez

um trabalho maravilhoso.

— Stan Lee, em depoimento gravado de 13 de

maio de 2010 no julgamento da Marvel

Worldwide Inc. contra Kirby et al.

 

Eu criei o Quarteto Fantástico. Eu criei o Thor.

Eu criava o que fosse preciso para vender as

revistas. Stan Lee nunca teve tino editorial. Um

homem como ele jamais conseguiria inovar —

aliás, também não conseguiria repetir nada de

bom do passado.

— Jack Kirby, The Comics Journal n.° 134,

fevereiro de 1990

A história que Lee repetiu tantas vezes conta que, no início de 1961, ele estava prestes a deixar o emprego quando Martin Goodman o chamou em seu escritório. Em uma conversa com

Roy Thomas em 1998, Lee afirmou que ia se demitir naquele

mesmo dia, mas Goodman sugeriu que deveriam fazer histórias

de super-heróis, o que despertou seu interesse o suficiente para

que adiasse o pedido de demissão. [ 185 ] Goodman acabara de

descobrir o sucesso de vendas da Liga da Justiça da América, da

DC Comics — havia o boato de que ele ouvira um executivo da

DC se gabar durante um jogo de golfe, mas não é verdade. Seja lá

como Goodman descobriu, o fato é que um editor tão obcecado

com as tendências do mercado como ele faria questão de saber o

que vendia nas bancas e como a concorrência estava se saindo.

Acompanhando o ressurgimento lento, mas constante, da glória

dos super-heróis, com a repaginação do Flash e do Lanterna Verde

e a formação da Liga da Justiça (sem falar das histórias do Super-

Homem, do Batman e da Mulher-Maravilha, que nunca chegaram

a ser canceladas), Goodman notou a tendência do mercado, que

se voltava outra vez para os super-heróis, mas agora organizados

em equipes. Claro que o teste com o Doutor Druida, no início

daquele ano, parecia não levar a nada, mas talvez um quadrinho

sobre alguma equipe de heróis se saísse melhor com o público.

Com isso, Goodman instruiu Lee a produzir uma história sobre

um time de super-heróis, sem dúvida presumindo que Stan

desenterraria os velhos personagens da Timely, talvez

adicionando um ou dois novos, e que juntaria uma boa equipe,

como aconteceu com o Esquadrão Vitorioso dos anos 1940. As crianças tinham suas vontades e seus desejos. Se gostavam de

times de super-heróis, então a editora faria um.

Só que Lee não queria simplesmente ressuscitar os antigos

heróis da Timely. Não temos como saber seus motivos, mas é

preciso levar em conta que ele se lembrava bem do fracasso de

1954, a última vez em que tinha tentado relançar algum

personagem. Lee relembrou o dia em que contou para Joan a

respeito de sua mais recente tarefa, e disse que ela o aconselhara

(como parece ter feito várias vezes ao longo de suas conversas

sobre trabalho) a tentar fazer algo diferente, a parar de reclamar

de ser forçado a seguir com a velha fórmula de sucesso e ver o que

conseguia criar de novidade. O pior que poderia acontecer seria a

demissão — o que parecia improvável, visto que Lee era parente

do chefe, e a tentativa de história seria apenas uma das muitas

revistas lançadas por ano. Sem falar que ele já andava dizendo que

queria sair do trabalho. Lee contou que criou os personagens,

escreveu um esboço da história e o entregou ao “artista mais

talentoso e confiável” com quem podia contar, Jack Kirby. [ 186 ]

* * *

Nas várias versões do relato de Lee sobre essa história, Martin ora

parece empolgado com a ideia de retomar os super-heróis, ora

parece neutro e desapegado dos personagens, como se só

estivesse tomando mais uma de tantas decisões de negócios. Em

algumas versões, Martin chamava Lee para uma reunião; em

outras, ia diretamente ao escritório do editorial de quadrinhos.

Embora as diferenças sejam sutis, parecem refletir como Lee se

sentia a respeito de Martin e dos quadrinhos em geral no

momento em que contava a história. Curiosamente, em todas as versões, Martin é um participante ativo, dando a Lee a ordem de

reviver os super-heróis. As maiores variações se encontram na

parte de Lee estar de fato literalmente prestes a pedir demissão ou

estar apenas cumprindo suas tarefas, sem nenhum plano

específico de deixar a empresa. Por exemplo, como Lee contou,

em 2010:

 

Martin Goodman me pediu para criar um time de heróis depois de

descobrir o da National Comics, que estava vendendo bem. Fui para

casa e pensei na ideia, querendo fazer algo diferente dos quadrinhos

de super-heróis da época. Não queria nenhuma dupla identidade,

nada de segredos.

E queria que fossem o mais realista possível. Em vez de morarem

em Gotham ou em Metrópolis, queria que vivessem em Nova York

(…).

Queria tudo bem real, que os relacionamentos deles fossem reais.

Em vez de uma garota que não sabia que o namorado era um super-

herói, queria que, além de saber, eles estivessem noivos, prestes a se

casar. E que ela também tivesse um superpoder.

Esse tipo de coisa, entende? Queria tentar isso. Então, escrevi

uma breve sinopse e, naturalmente, liguei para Jack, que era nosso

melhor artista, perguntando se ele aceitava fazer. Ele pareceu

gostar da ideia.

Jack pegou a sinopse e desenhou a história, acrescentando suas

próprias ideias, todas geniais. [ 187 ]

 

Sobre ter recebido uma cópia do roteiro original, Lee comentou:

Discutimos as ideias, acrescentamos alguns toques e fizemos

pequenas mudanças. Mas esse foi o começo de tudo. [ 188 ]

 

Como Lee recordou, ele discutiu os personagens com Kirby

antes ou depois — talvez antes e depois — de escrever o roteiro.

Kirby desenhou a primeira edição, escrita por Lee e

provavelmente com arte-final de George Klein, que fazia muitos

trabalhos como freelancer para a DC e de vez em quando se

aventurava na Timely. E o resto, como se costuma dizer, é história

— ou pelo menos uma versão dela.

A versão de Kirby sobre a criação do time é muito diferente

(além de inconsistente, variando muito conforme ele a repetia). É

claro que as visões e versões opostas são, até hoje, fonte de muitos

conflitos.

Em poucas palavras, Kirby tem vários depoimentos afirmando

que já chegou para Lee com a ideia completa e a primeira edição

pronta, e que Lee, desesperado para manter o próprio emprego,

ficou muito empolgado com a oportunidade de publicá-la. Kirby

afirmou que já fazia algum tempo que pedia a Goodman para

voltar a publicar histórias de super-heróis, pois notara que a moda

estava de volta. “Sempre acreditei muito no potencial dos super-

heróis, sempre soube que eles poderiam voltar à tona — e com

muita força”, contou Kirby ao pioneiro dos quadrinhos, Will

Eisner.

 

Tive que lutar muito pelos super-heróis. (…) Tive que recriar toda a

série [da Timely]. Senti que, na editora, não havia mais ninguém

qualificado para isso. Stan Lee foi apenas uma ferramenta para que

eu alcançasse meus objetivos. Ele era meu contato com Martin.

E, na mesma conversa, disse ainda: “Não foi Stan Lee quem

escreveu. Eu escrevi.” [ 189 ]

Seja lá quem teve a ideia, o fato é que o novo time de heróis era

composto por Reed Richards (o “Sr. Fantástico”, com corpo

elástico); Ben Grimm (“O Coisa”, com força sobre-humana);

Susan Storm (a “Mulher Invisível”, que, como diz o apelido, ficava

invisível quando quisesse); e Johnny Storm (o “Tocha Humana”,

que tinha controle sobre o fogo). Esses quatro personagens eram

o núcleo do que viria a ser conhecido como Universo Marvel, e

estrearam na primeira edição da revista Quarteto Fantástico.

Antes de romper com a DC e voltar para a Timely, Kirby

desenhara e participara do roteiro de Desafiadores do

desconhecido, um quarteto de aventureiros que, como no caso dos

novos heróis da Timely, tinham adquirido seus poderes depois de

uma colisão da nave espacial em que estavam. Há quem aponte a

semelhança das origens dos quartetos como prova de que a versão

de Kirby está mais próxima da verdade.

De fato, o Quarteto Fantástico tem alguma semelhança com os

Desafiadores de Kirby (criados em parceria com Joe Simon), mas

também se assemelha a outros times de heróis dentro e fora dos

quadrinhos, incluindo a Liga da Justiça e o Esquadrão Vitorioso, da

Timely. Outra versão do Tocha Humana já tinha aparecido em

algumas revistas, e o Sr. Fantástico lembrava os clássicos Homem-

Borrachae Homem-Elástico, criados como paródia dos “homens

de borracha” dos circos e das exposições de bizarrices de

antigamente. A Mulher Invisível era mais uma das muitas

personagens invisíveis na história da ficção. O Coisa não tinha

uma aparência muito diferente dos monstros que Lee e Kirby produziam juntos vários anos antes. As manchetes de jornais

foram uma inspiração óbvia para a corrida espacial representada

na história. (Existe até a teoria de que a batalha contra o Toupeira,

na segunda metade da primeira edição do Quarteto Fantástico, já

era uma história da Timely/Atlas guardada nos arquivos e que foi

adaptada para o novo time de heróis, embora Lee tenha negado.)

O que é estranho, e talvez mostre que o Quarteto Fantástico não

estava nos planos de nenhum dos dois, é que a arte da primeira

edição é indiscutivelmente inferior ao trabalho que Kirby fizera

naquele mesmo mês em Billy Blue e na história do monstro Orrgo,

em Strange Tales [Contos estranhos]. Mesmo assim, Stan Lee —

editor, escritor e diretor de arte — e o próprio Goodman

permitiram que a revista fosse às bancas. Chega a parecer que o

quadrinho foi feito exatamente com a atenção que os cocriadores

acharam que deviam dedicar a uma tarefa extra, dada por um

editor que não tinha mais o que fazer além de criar revistas novas

só por causa de um palpite, enquanto os dois se acabavam de

trabalhar para dar conta dos títulos já existentes. É como se Lee e

Kirby dissessem: Pronto, aqui está o time de super-heróis que você

queria, Martin. Não sei se reparou que não temos nenhum

personagem importante como o Super-Homem ou o Batman, mas

você é o chefe, então aqui está o que pediu. Um time de super-heróis

de uma editora que não publica nenhuma história famosa de super-

heróis há anos. Pode arquivar junto com o Doutor Druida.

E aqui estamos: com o início do Quarteto Fantástico, vem a

época mais significativa — e a mais cheia de ambiguidades — das

histórias de Lee e da Marvel. É o período que todos gostariam de

conseguir colocar em uma ordem cronológica detalhada, de ter

um relato inequívoco do que “realmente aconteceu”. Porque, apesar de vários raios de sucesso terem caído perto da dupla Lee e

Kirby, que já havia trabalhado em tantas histórias, era a primeira

vez que os acertava em cheio.

Durante os dois anos seguintes, foram criados — ou, em alguns

casos, repaginados — os principais heróis do Universo Marvel. E

algumas perguntas imploram por respostas: como isso aconteceu?

Como uma editora pequena, por mais que contasse com bons

profissionais, ainda por cima com Lee, Kirby e Ditko no comando

— um time de gente com experiência de sete a vinte anos em

quadrinhos —, de repente lançou todo um panteão de ícones na

cultura pop? Personagens que, hoje, quase seis décadas depois da

criação, geram mais interesse e renda do que qualquer um teria

sonhado? Todos querem examinar a magia do momento, saber

quem fez o que, dissecar cada palavra e imagem de cada história

para poder ver exatamente quem criou quais partes do panteão da

Marvel — e, no processo, reconhecer e recompensar cada criador

de maneira justa.

Claro que não há respostas óbvias. Grande parte do trabalho

com quadrinhos é solitário, em mesas, pranchetas e máquinas de

escrever (que, mais tarde, viraram computadores), embora os

escritores e os artistas discutam as colaborações com

antecedência. Muito do trabalho começa na cabeça dos criadores,

durante o tempo livre, e depois é trazido à vida no papel. Algumas

coisas surgem espontaneamente, com pouca ou nenhuma

premeditação. É raro ter o processo criativo documentado — não

há muito motivo para tal.

Os quadrinhos podem até ser examinados e analisados, e a

evidência restante de material digitado e desenhado pode ser vista

e dissecada, mas, no fim das contas, a verdade permanece um mistério, não importa a quantidade — e o fervor — de gente

convencida de que sabe as respostas.

É como Mark Evanier, biógrafo de Kirby, escreveu:

 

Entre aqueles que trabalhavam com a dupla na época, havia uma

visão unânime: o Quarteto Fantástico fora criado por Stan e Jack.

Não parecia apropriado dividir os créditos, nem na ideia nem nas

maravilhas que ainda estavam por vir. [ 190 ]

 

E, segundo Raphael e Spurgeon:

 

Quando (…) os novos quadrinhos da Marvel conquistaram a fama,

quem criou cada personagem e o quanto cada pessoa colaborou se

tornaram questões importantes, tanto no aspecto legal quanto no

ético. Mas (…) conforme a nova fórmula de revistinhas tomava os

escritórios da Marvel (…) a melhor maneira de garantir a qualidade

da nova série de super-heróis, criada às pressas, era que os

envolvidos contribuíssem com suas ideias na hora em que surgiam.

[ 191 ]

 

Quando o Quarteto Fantástico estreou, parecia uma espécie de

continuação do primeiro super-herói “moderno” da Timely/Atlas,

o Doutor Druida, mas feita sem vontade. Quem sabe? Talvez

Goodman também tenha sugerido a criação de revistinhas de

super-heróis na época, e o Doutor Druidatenha sido uma resposta

passivo-agressiva para acabar logo com aquele capricho do chefe,

de modo que os editores pudessem continuar o trabalho com os

quais já haviam se comprometido.

De fato, no mesmo mês em que surgiu Quarteto Fantástico, a

empresa também lançou cinco quadrinhos de fantasia, dois de

faroeste, três títulos de romance e um de comédia — 12

quadrinhos no total, demonstrando que a restrição de oito títulos

por mês imposta pela Independent News estava mais relaxada. A

um olhar mais atento, de fato parece que quase todas as outras

publicações daquele mês foram feitas com mais empenho e

entusiasmo. Mas, obviamente, havia uma faísca de sucesso

enterrada naquela primeira revistinha feita às pressas.

* * *

A relativa falta de empenho na primeira edição de Quarteto

Fantástico, bem como seu potencial, foram notados por pelo

menos um fã — alguém com bom conhecimento sobre o mercado

e a história da empresa. Em artigo para o fanzine ComiCollector,

Roy Thomas, de 24 anos, professor de inglês do ensino médio de

Missouri, escreveu:

 

Apesar das falhas — e esta primeira edição traz erros gritantes —,

o Quarteto Fantástico pode se tornar um dos melhores quadrinhos

da atualidade, na opinião deste crítico. [ 192 ]

 

Thomas elogiou o Coisa, chamando-o de “paladino pavoroso da

justiça”, e completou: “Neste tempo de super-homens bonitos

demais, precisamos de algo para nos lembrar de que a bondade do

coração e a aparência física não estão relacionadas.”

De fato, Thomas (que, é claro, mais tarde virou escritor e editor

da Marvel, onde trabalhou por muitos anos) tinha sentido o que

deve ser o elemento mais inovador e apaixonado da edição de estreia de Quarteto Fantástico: oCoisa. Enquanto Reed Richards —

muito parecido com o Ward Cleaver de Hugh Beaumont, da série

de TV Leave It to Beaver, dos anos 1950 — falava como um

cientista de filme de ficção científica dos anos 1950, e Johnny e

Sue Storm tinham padrões de fala de quadrinhos bastante

estereotipados, o Coisa, que antes da mutação se chamava Ben

Grimm, evoluía no decorrer da história, quase como se Lee

estivesse desenvolvendo sua personalidade junto com o roteiro.

No início da revista, o Coisa tinha uma fala mais formal. Por

exemplo, depois que um policial em pânico mirou nele e errou o

tiro, ele disse: “His first shot missed… but he’ll not get another

chance.” [O primeiro tiro foi errado… mas ele não terá outra

chance.]

Porém, já no fim da primeira história, na página 13 (das 25

totais), Ben declara, numa fala muito mais coloquial: “I ain’t Ben

anymore — I’m what Susan called me — the thing.” [Não sou

mais o Ben. Sou o que Susan me chamou. A Coisa.] Mais tarde na

história, quando a equipe luta contra o vilão da revistinha — o

Toupeira —, o Coisa derrota um monstruoso guerreiro de pedra.

Ao ver isso, Sue comemora que Ben matou o vilão. Ben, então,

responde: “What did you expect? I’m the Thing, ain’t I?”

[Esperava o quê? Eu sou o Coisa, não sou?] [ 193 ]

Ou seja: no espaço de uma única revista, o personagem evoluiu

depressa, deixando de lado a fala formal e sombria e assumindo o

discurso à la William Bendix/Broderick Crawford pelo qual

passou a ser conhecido. Analisando o balão de fala mais de perto,

pode-se ver que na frase original “I’m the Thing, ain’t I?” há um

espaço extra entre a contração ain’t e I. É possível especular que

Lee pode ter escrito aren’t I, uma contração menos informal, ou talvez até am I not, que seria uma fala ainda mais formal,

justamente pela falta de contração. Se isso aconteceu, não foi

traduzido pelo letrista e arte-finalista, então talvez Lee tenha

notado que o desenvolvimento de personalidade do personagem

exigia que sua fala passasse a ser mais informal.

Kirby também parece ter dado mais atenção — assim como o

arte-finalista George Klein — ao Coisa do que aos outros

personagens. Ben foi desenhado com mais intensidade,

personalidade e humor do que outros, e fica claro que Kirby, tanto

quanto Lee, pareceu se identificar com o personagem,

personalizando mais o traço do Coisa mesmo nesta primeira

aparição. E essa identificação de Kirby só aumentaria nos anos

seguintes, a ponto de ele se tornar o alter-ego do personagem em

uma história de 1978 — que também apresentava Lee no papel do

Sr. Fantástico, o líder do time.

Um pouco mais tarde, em sua resenha do ComiCollector,

Thomas opinou: “Com um pouco mais de imaginação nas histórias

e na arte — e talvez a adição de um quinto personagem, como o

Sub-Mariner (…) acho que o quadrinho poderia ser digno de

grande circulação.” [ 194 ]

É claro que a série recebeu esse “pouco mais de imaginação”. A

mudança começou no número 2 e se firmou de vez no número 3.

Com isso, o editorial parecia entender o que era o Quarteto

Fantástico e qual seria seu potencial — e o que mais havia na

primeira edição era potencial. Como se em rebelião contra os

roteiros muito fixos e cheios de continuidade da DC Comics na

época, o Quarteto Fantástico n.º 1 é puro caos. A história é confusa

e bagunçada, mesmo supondo que Kirby a tenha de fato

desenhado com base no esboço de trama que recebera de Lee (um dos poucos que existem no histórico de trabalhos da dupla),

descrevendo 13 páginas de apresentação e origem do grupo. (A

sinopse pode ser encontrada em vários lugares, incluindo a edição

n.º 358 do Quarteto Fantástico.) As instruções de Lee no resumo

foram:

 

A história pode abrir com uma reunião do Quarteto Fantástico.

Quando começa, a legenda informa ao leitor que vamos voltar

algumas semanas no tempo para ver como tudo começou (…)

 

A partir daí, o roteiro é um flashback sobre a origem do grupo.

Porém, a história publicada, desenhada por Kirby, tem as oito

primeiras páginas no presente. Reed Richards dispara um sinal de

alerta, convocando o restante da equipe para a sede (em Central

City, em um prédio sem nome). Então, sem nenhuma menção na

sinopse de Lee, temos uma cena introdutória para cada um dos

outros três membros da equipe.

Vemos Susan Storm fugindo de um chá da alta sociedade,

assustando os transeuntes, derrubados pela passagem

destrambelhada da Mulher Invisível. Vemos o Coisa — disfarçado

com sobretudo, chapéu e óculos escuros — tentando comprar

roupas para o enorme corpanzil, depois avançando pelas ruas e

pelos esgotos a caminho da reunião. Por fim, vemos Johnny

Storm, que consertava um carro antigo em uma oficina mecânica,

explodindo em chamas e zunindo pelo céu em direção à fonte do

sinal, perseguido por aviões da Força Aérea cujos pilotos não

sabem quem ou o que ele é. A rota aérea, de acordo com a legenda

da narrativa, o leva à reunião em “menos de uma hora”, sabe-se lá por quê. Os aviões disparam mísseis nucleares contra ele, que é

salvo no último minuto por um alongamento do Sr. Fantástico.

As apresentações dos personagens são emocionantes, ainda que

não façam muito sentido, e duram sete páginas. Finalmente, na

página 9, entramos no flashback de Lee, onde conhecemos a

origem do grupo, descobrindo sobre o voo espacial trágico,

lançado às estrelas durante a corrida para “vencer os comunistas”.

Bombardeados por raios cósmicos — como mais de um estudioso

observou, Reed, um gênio da ciência, “se esqueceu” de levantar os

escudos apropriados da espaçonave —, eles são transformados no

Quarteto Fantástico e juram usar seus poderes para ajudar a

humanidade. O juramento ocorre na página 13.

Na página 14, de volta ao presente, Reed conta ao grupo sobre o

misterioso desaparecimento de usinas atômicas em todo o mundo.

Então partimos, na página 15, para a “África Francesa”, onde um

buraco se abre no chão, sugando outra usina e liberando um

monstro — o verde gigante visto na capa da edição — que

aterroriza um grupo de soldados. Comandado por seu mestre — o

Toupeira (ou Homem-Toupeira, como era chamado nessa

primeira aparição) —, o monstro retorna ao “núcleo da Terra”.

A história então volta para a sede do Quarteto Fantástico, onde

a equipe descobre sobre este último roubo de usina. Contra toda a

lógica, Reed descobre que a fonte do problema está na Ilha

Monstro. O grupo voa em seu jato particular até a ilha, cujo nome

sem dúvida é um impeditivo para turistas curiosos, e lá batalham

contra — adivinhe só? — dois monstros. Johnny e Reed são

capturados pelo Toupeira, que, em seguida, relembra a própria

origem e como descobriu aquela ilha.

Em uma cena final climática de duas páginas, composta por 15

painéis muito apertados, a equipe escapa dos monstros. O Tocha,

então, usa sua chama para “causar um deslizamento, selando essas

criaturas para trás” — porém, na arte, parece que ele assa os

monstros ainda vivos no subsolo. O grupo descobre que Reed

deixou o Toupeira fugir — dizendo que “Ele ficou para trás.

Nunca mais incomodará ninguém!” —, então os quatro voam para

longe, encarando o futuro em um dos painéis menos empolgantes

já desenhados por Jack Kirby.

Dizer que a edição foi feita às pressas é um eufemismo. A

história não tem coesão e é cheia de inconsistências, com

desenhos desanimados e narrativa indiferente, não importa se o

roteiro é de Lee, de Kirby ou de ambos. As outras histórias da

dupla que foram às bancas no mesmo mês, como as de Billy Blue e

Strange Tales, eram muito superiores em arte e roteiro. Como o

leitor Bill Sarill escreveu sobre a história, em uma carta publicada

na coluna de cartas da edição n.º 3:

 

Acabei de ler o Quarteto Fantástico [n.º 1] e devo admitir que

estou decepcionado. Espero coisas melhores da dupla Lee-Kirby.

Jack faz artes muito melhores do que aquilo. (…) A história

também sofre da “Síndrome do Monstro”, para parafrasear Jean

Shepard [sic], que dominou a maioria, se não todos, os quadrinhos

da empresa por um tempo.

 

Sarill obviamente era fã da editora, e não um leitor casual, já que

conhecia os trabalhos de Lee e Kirby. E é preciso destacar como a

Timely aceitou publicar uma crítica negativa como essa na coluna

principal de cartas do leitor. Embora Lee tenha dito muitas vezes que sabia que o Quarteto Fantástico tinha sido um sucesso devido

ao repentino dilúvio de correspondências, o fato é que as

primeiras colunas de cartas continham mensagens de

funcionários e freelancers da editora, incluindo Sol Brodsky, Stan

Goldberg e Jim Mooney — algumas piadinhas nas cartas tornam

isso bem evidente para os poucos leitores cientes de quem as

escrevera. As outras cartas publicadas vinham de fãs conhecidos

da editora, como Ronn Foss e o próprio Thomas. No entanto,

curiosamente, Lee escolheu publicar a carta de Sarill, permitindo

que o precioso espaço de resposta ao leitor (essencialmente, uma

página promocional disfarçada) levasse uma mensagem que

acusava ele e Kirby de não terem feito um bom trabalho — muito

pior do que evidenciar algum erro de ortografia ou de cor.

Igualmente interessante é a resposta de Lee, que não procurou

defender a dupla, e sim dizer, literalmente: “Viu como somos

justos? Damos tanta atenção às críticas quanto aos elogios!”

É claro que imprimir a carta de Sarill também permitiu que Stan

colocasse o nome do escritor e radialista Jean Shepherd em um

quadrinho de super-heróis, uma maneira subliminar de dizer aos

leitores que este quadrinho — assim como a própria Marvel e o

editor da revista — era diferente do que se via por aí. Usar o nome

de um ícone como Shepherd em resposta a uma crítica brutal era

indicativo de que, embora não fosse o Paris Review, algo naqueles

quadrinhos fazia valer a pena a leitura, não importava o que Bill

Sarill pensasse. (Shepherd, aliás, já tinha popularizado a

exclamação “Excelsior!” antes de Lee adotá-la.)

* * *

Como acontecia mesmo em alguns dos trabalhos posteriores de

Lee e Kirby, feitos com mais esmero, as cenas mais importantes de ação nessa primeira revista do Quarteto Fantástico não são

mostradas, e sim — para surpresa de todos — descritas em

legendas, um indicativo de que Lee estava determinado a contar

uma história diferente, em alguns aspectos, da que acabou sendo

desenhada. Kirby, que deu seu próprio ritmo à narrativa — o que

quase sempre resultava em obras impactantes e muito expressivas

—, acabou deixando muito da história para as últimas páginas,

com numerosos painéis pequenos em vez do que o leitor

esperava: mais páginas com painéis maiores, mostrando a ação

explosiva que as legendas descreviam.

Embora seja improvável que as crianças de 1961 estivessem

lendo com atenção o bastante para notar esse detalhe, quando

analisamos a revista em retrospecto, a questão parece o

equivalente em quadrinhos a dois capitães lutando pelo controle

do timão de um navio. A luta de Lee e Kirby pelo controle da

narrativa persistiu pelos dez anos seguintes — porém, quase que

por milagre, a disputa resultava em obras excelentes.

Ainda assim, como Thomas e outros previram, a história trazia

algo a mais, apesar da natureza caótica da narrativa — talvez até

por causa dela. Como Raphael e Spurgeon observaram:

 

Os vinte anos de falta atenção e de desprezo criativo pelos super-

heróis agiram em favor de Kirby e Lee. Até as menores mudanças

que os dois faziam pareciam radicais e ousadas. [ 195 ]

 

O que aconteceu foi que os dois autores seguiram seus instintos

de se preocupar menos com a lógica e a consistência da narrativa

e mais com o impacto emocional da história que estavam

escrevendo e desenhando. Para Kirby, era imperativo retratar, através da arte, os sentimentos dos personagens e a intensidade da

narrativa. Para Lee, pensar em como os personagens diziam as

coisas que queriam dizer, com que intensidade expressavam seus

pensamentos, sentimentos e personalidades era tão ou mais

importante do que a própria narrativa, e era o que fazia uma

história de sucesso. Os acadêmicos podem explicar essa dinâmica

de criação como dialética, uma luta contínua dos dois criadores

pelo domínio da narrativa. Os leitores de quadrinhos da época,

incluindo muitos estudantes universitários, só diziam que era

maneiro.

* * *

Thomas, com todo o seu interesse e entusiasmo, era um tipo de

leitor relativamente raro. Ele e o editor da ComiCollector, Jerry

Bails, assim como outros adultos fãs de quadrinhos — alguns dos

quais liam e escreviam fanzines —, não eram numerosos o

suficiente para criar e sustentar o interesse em determinada

revista ou editora. Além de revisitar as alegrias de ler os

quadrinhos de sua infância com o olhar adulto, esses fãs se

dedicavam igualmente — talvez até mais — a conferir as

novidades das publicações de super-heróis. Com isso, é

compreensível que estivessem mais interessados nos heróis da

DC, já consagrados. O editor da DC, Julius Schwartz, dava muita

atenção a esses fãs, inclusive fornecendo informações

privilegiadas. Lee também fazia isso. Mas, naquela época, esses

especialistas não causavam muito impacto nas vendas. Mesmo que

não tivessem influência para convencer o público a dar uma

chance às histórias do Quarteto Fantástico, esses fãs tinham a

capacidade de influenciar os editores no que se refere ao

conteúdo — como visto pela sugestão de Thomas, de devolver o anti-herói Príncipe Submarino, da era de ouro da Timely, aos

quadrinhos.

Mas, como Goodman já tinha previsto, se a revista Liga da

Justiça, da DC, era popular, talvez uma criança que visse o

Quarteto Fantástico em uma banca de jornal estivesse disposta a

apostar um centavo em um novo time de super-heróis. Ao mesmo

tempo, a capa indicava que os novos personagens talvez já fossem

heróis conhecidos — havia, por exemplo, uma chamada: “Juntos

pela primeira vez nesta revista incrível.” Além dos amantes de

super-heróis, talvez o público que gostasse dos outros quadrinhos

da Timely — sobretudo dos títulos de fantasia, ficção científica e

monstros — também estivesse disposto a investir um centavo de

dólar em uma nova distração para o mês de agosto, com o fim das

férias se aproximando.

O Quarteto Fantástico n.º 1 foi para as bancas em 8 de agosto de

1961, chegando a algumas outras regiões um pouquinho mais

tarde, mas mais ou menos na mesma época. Era o tempo da

Guerra Fria e da corrida espacial. O russo Yuri Gagarin tinha sido

o primeiro homem a ser lançado ao espaço, naquele mesmo ano,

em 17 de abril. Alan Shepard se tornou o primeiro estadunidense

no espaço em 5 de maio, seguido em 21 de julho por Gus

Grissom. Menos de uma semana após o lançamento do Quarteto

Fantástico n.º1, as tensões entre os soviéticos e o Ocidente

tomaram forma física com o início da construção do Muro de

Berlim, separando a Alemanha capitalista da parte controlada

pelos soviéticos. Ciente das manchetes e do zeitgeist, o espírito da

época, qualquer criança que visse a capa da revista em alguma

banca poderia querer comprar aqueles quadrinhos, com histórias

sobre norte-americanos corajosos disparando para o espaço.

Mas convencer as crianças a darem uma chance à nova revista

era só uma parte da questão. Para criar um quadrinho de sucesso,

era preciso convencê-las também a comprar a edição seguinte e

contar aos amigos sobre a história. O editor precisava de uma

história que convencesse as crianças a consumir a revista também

pela recomendação dos amigos. Ei, custa só um centavo! É só um

chocolatinho a menos na semana. Custa o mesmo que uma bala!

Por que não tentar?

E o que Thomas e os outros fãs mais velhos viram nos

quadrinhos também deve ter sido evidente para muitos dos

leitores menos ávidos. Em uma carta de 29 de agosto de 1961, Lee

escreveu a Bails: “A julgar pelos primeiros relatórios de vendas,

acho que temos um título de sucesso em nossas mãos!”

E continuou:

 

Quanto ao futuro do Quarteto Fantástico, TEREMOS:

UNIFORMES

NOVO TRATAMENTO (de arte) DO TOCHA HUMANA

NOVOS PERSONAGENS NAS PRÓXIMAS EDIÇÕES

(Talvez você veja o Príncipe Submarino outra vez. Ou o Capitão

América… Fique de olho!)

 

Lee concluiu a carta dizendo:

 

Foi de propósito que decidimos (…) não atribuir MUITOS

superpoderes aos personagens, pois sentimos que esses efeitos

servem apenas para atrair os leitores MAIS NOVOS, e estamos

tentando (talvez em vão?) atingir um público um pouco mais

maduro e mais sofisticado. [ 196 ]

Lee e Bails também trocaram cartas sobre a Amazing Adult

Fantasy n.º7 — uma versão repaginada da Amazing Adventures —,

que tinha sido publicada no mesmo mês de estreia do Quarteto

Fantástico. Cada edição da AAF continha várias histórias curtas de

fantasia com finais surpreendentes, todas escritas por Lee e

desenhadas por Ditko. As histórias não eram muito diferentes das

que apareciam em várias revistas da linha, mas o estilo de arte de

Ditko, muito distinto, deu à AAF uma aparência única. O

marketing da publicação, direcionando-a para leitores mais

inteligentes — assim como o uso da palavra “adulto” no sentido de

maduro, em vez de pornográfico —, foi importante para definir que

o público era especial. Essa sensação de ser excepcional

simplesmente por ler os quadrinhos e se interessar por aqueles

assuntos mais importantes se tornou um dos principais aspectos

da abordagem de Lee para criar e promover a marca Marvel.

Bails escreveu para Lee que a AAF “é excelente e provavelmente

venderá bem”. Ele também observou que “os fãs estão reclamando

de não encontrarem as revistas nas bancas locais”. Quantos fãs?

Bem, mais adiante na mesma carta, ele afirmou que havia “cerca

de quinhentos fãs ativos”, o que provavelmente significava que

cerca de quinhentas pessoas assinavam suas revistas

ComiCollector e Alter Ego. Sobre as mudanças que Lee prometeu,

ele ainda acrescentou: “Quase todos os meus correspondentes já

clamavam por essas mudanças antes mesmo de lerem a crítica de

Roy.”

Então, entre o desejo de criar uma história em quadrinhos à sua

maneira e a vontade de alcançar um público maior e mais

sofisticado, Lee intuiu que o sucesso da publicação não

dependeria apenas de crianças ou dos fãs nostálgicos e mais antigos, mas também dos leitores casuais, um pouco mais velhos

(ou jovens mais inteligentes), que buscassem algo mais profundo.

Quarteto Fantástico e Amazing Adult Fantasy foram os primeiros

passos nessa jornada de explorar as possibilidades e

potencialidades do mercado.

* * *

Consciente ou não do que fazia, Stan Lee estava desenvolvendo

uma estratégia de marketing para suas publicações que também o

atingia diretamente, que lhe proporcionava uma garantia de

sobrevivência dentro de uma empresa pequena em um mercado

de nicho. Aos 38 anos, passava por uma clássica crise de meia-

idade. Além de desejar mais desafios, precisava ampliar o

currículo, para o caso de querer (ou de ser forçado a) sair do

emprego. Seus empreendimentos com autopublicação e tirinhas

de jornal tinham sido razoavelmente bem-sucedidos, mas não a

ponto de permitir que ele largasse o emprego. E, mesmo que não

fosse sair da Timely, Lee precisava melhorar sua posição por lá.

Goodman lhe passava alguns trabalhos de edição e redação para

revistas que não eram de quadrinhos, mas não eram suficientes

para que Stan mudasse de vez para o outro setor. Embora passasse

por uma fase de estabilidade, o mercado dos quadrinhos tinha

sofrido muito recentemente. Quanto tempo aquela bonança

duraria?

Lee estava acostumado ao estilo de vida suburbano de classe

média que o emprego e os trabalhos autônomos proporcionavam a

ele e à família. Queria sair do mercado dos quadrinhos, mas

precisava do emprego. Manter o estilo de vida e partir para outro

setor editorial era seu sonho, sua maior “fantasia adulta”. Em conversa com o historiador David Hajdu sobre sua situação antes

de Quarteto Fantástico, Lee contou:

 

Eu odiava [trabalhar com quadrinhos naquela época]. Estava

sempre prestes a desistir, pensando “Vou passar só mais uns meses

aqui, talvez mais um ano, para juntar um dinheiro, então peço

demissão”. Mas nunca conseguia juntar dinheiro o suficiente, e,

sempre que pensava em desistir, recebia um aumento ou me pediam

mais publicações, e a coisa toda ficava um pouco mais interessante.

E eu gostava de trabalhar com os artistas. Fiz muitos amigos.

Então [o pensamento] estava sempre em algum lugar da minha

cabeça: “Talvez eu saia no próximo ano.” Nunca senti que aquele

era um trabalho adulto, de alguém que quisesse chegar a algum

lugar na vida. Eu escrevia essas histórias… o próprio Martin

Goodman sempre achou que fossem para criancinhas ou para

adultos mais infantiloides. [ 197 ]

 

Assim, com Quarteto Fantástico e Amazing Adult Fantasy, Lee

estava começando a transformar sua vida e o mercado, mas sem

sair do lugar. Como sempre, daria ao chefe o que ele queria —

neste caso, uma parte dos lucros da tendência do mercado de

super-heróis —, mas também cultivaria um público mais maduro e

sofisticado. Estava fazendo quadrinhos para pessoas com

consciência política, gente culta o bastante para saber quem era

Jean Shepherd. Tentava fazer com que seus quadrinhos não

fossem apenas histórias infantis, e sim algo que inserisse as

revistas na cultura do povo dos Estados Unidos.

Lee podia não ser formado em uma universidade de elite da Ivy

League, como os escritores que Goodman contratava para suas revistas comerciais. Podia não ter mais que o diploma de ensino

médio da DeWitt Clinton. Mas por que não poderia aspirar a

coisas maiores e melhores, como seu colega de escola Paddy

Chayefsky? Talvez, se associasse seu nome a trabalhos mais

sofisticados, alguma editora “de verdade” poderia procurá-lo. E, se

a estratégia não funcionasse, que diferença faria? Lee não tinha

nada a perder.

Não era bem um plano para sua carreira ou sua linha de

quadrinhos, mas era um começo. Talvez pudesse levá-lo a algum

lugar.