A Espetacular Vida de Stan Lee
14. Tensão nas transições
Acho que a indústria de histórias em
quadrinhos é a pior do mundo para as pessoas
criativas, e as razões são incontáveis.
— Stan Lee, em 1971, na reunião da National
Cartoonists Society
S abendo da crescente insatisfação de Kirby em relação à Marvel, o diretor editorial da DC, Carmine Infantino, fez questão de aceitar o convite para o seder de Kirby. E, pouco depois da cerimônia, Infantino foi convidado a conhecer o estúdio do quadrinista, para ver os personagens que Kirby estava desenvolvendo escondido de Lee e da Marvel.
Infantino ficou impressionado. Mas, mesmo se não ficasse, era
uma oportunidade enorme. Jack Kirby era grande parte do
fenômeno da Marvel. E, embora não fosse muito bom na
autopromoção, Kirby tivera uma parceria de mais de uma década
com um homem que, além de exímio nessa arte, ainda anunciava os talentos do companheiro a todos da indústria. Quem é que não
sabia que Jack Kirby era o “Rei”?
Embora Lee não fosse responsável pelo talento de Kirby, cujo
histórico profissional enorme e rico datava desde a década de
1930, o fato era que o atual status de lenda viva do desenhista era
produto da propaganda incansável e incessante do homem que
nascera Stanley Martin Lieber. Kirby pode ter achado o apelido de
“Rei Kirby” cafona, mas era sua marca — uma marca imbatível.
Depois de meses de Lee dizendo aos leitores da Marvel que Jack
era maravilhoso, querendo que identificassem o artista como uma
das figuras-chave na criação da magia da Marvel, Kirby se tornara
— ao menos na mente dos leitores — uma parte insubstituível da
empresa. Era impensável uma Marvel sem Kirby, assim como fora
a Marvel sem Ditko. O Homem-Aranha e o Doutor Estranho eram
únicos, e Ditko era brilhante. Mas o Quarteto Fantástico tinha sido
o primeiro grupo de heróis da Era, e sua história norteara a
criação de todas as outras. Além disso, era Kirby quem fazia os
layouts dos artistas novos e antigos e que desenhava muitas das
capas. Grande parte da estética dos Quadrinhos Marvel era arte de
Kirby sob direção de Lee. Graças a Lee, Kirby era considerado tão
insubstituível quanto… bem, quanto Stan Lee.
Mas Kirby ainda se sentia desvalorizado, forçado a adaptar as
histórias que bolava de acordo com a visão de Lee, expressá-las
através dos scripts do editor. Além disso, tinha que engolir os
pedidos — muitas vezes em cima da hora — de revisão e de
inserção de mudanças, quase todos não remunerados. Abstratas
ou concretas, as “melhorias” que Lee fazia nas histórias não eram
vistas dessa forma por Kirby.
Assim como Lee, Kirby sabia muito bem que, apenas uma
década antes, a empresa e a indústria estavam à beira do colapso.
E, assim como Lee, sentia como se não houvesse outro lugar para
ele que não a Timely/Marvel. Além disso, assim como Lee, Kirby
queria usar o sucesso da Marvel para ampliar seus horizontes
criativos e financeiros; ele estava negociando um novo contrato
com a Cadence, mas com certeza sabia muito bem que estar mais
próximo das produtoras de cinema e TV ajudaria muito em sua
carreira. Kirby sabia que algo positivo ia acontecer; era apenas
questão de tempo.
Com as vendas do setor diminuindo e a ordem de agitar as
coisas, Infantino estava disposto a fazer o possível para convencer
Kirby a entrar na DC. Ansioso por se libertar de Lee e de
Goodman, Kirby, por sua vez, estava pronto para sair da Marvel.
Mas não seria tão fácil quanto ele ou Carmine esperavam, já que
Kirby tinha uma esposa e quatro filhos para sustentar e não queria
correr riscos.
Até que a Cadence ofereceu um contrato que não deixou Kirby
nada satisfeito, e ele ainda se recusava a negociar os termos.
Ainda assim, embora longe de perfeita, a proposta trazia a
segurança de um pagamento bem razoável.
Além disso, embora o editor Jack Schiff não estivesse mais na
DC, o pessoal do editorial e da criação parecia acreditar, mesmo
mais de uma década depois da briga, que Kirby fizera algum mal a
Schiff, além de ter sido ingrato. Inclusive, seu suposto papel como
potência que alimentava o renascimento da Marvel era visto na
National como algum erro que em breve seria corrigido. O público
dos quadrinhos logo voltaria a si e deixaria de lado a empolgação momentânea com a estética que Kirby estabelecera para a Marvel
— que quase todos os editores da DC consideravam “feia”.
Infantino, porém, era mais sensato. Além disso, as
circunstâncias estavam mudando, incluindo sua crescente
autoridade para mudar as coisas. Schiff já estava fora da DC havia
muitos anos, e Mort Weisinger, outro inimigo de Kirby, já estava
com o pé na porta. A contratação só dependia de Kirby. Mesmo
assim, Jack estava hesitante em deixar a empresa e os títulos com
os quais conseguira tanto sucesso, e ainda levaria um tempo para
assumir esse risco. De qualquer forma, a ideia tinha sido plantada.
Stan Lee, por sua vez, estava fazendo planos para o próprio
futuro. Claro que era divertido mencionar os nomes das
celebridades que visitavam os escritórios da Marvel, das
universidades onde dera palestras, ou dos jornais, revistas e
programas de TV e rádio que o entrevistavam. Mas esses lugares e
pessoas também eram contatos, e o interesse que tinham por Lee
era o mesmo que Lee nutria por eles. Sobretudo em 1969.
Lee começou a trabalhar esses contatos. Seus arquivos em
Wyoming estão cheios de correspondência cordial com
celebridades, autores, acadêmicos e poetas, além de fãs de
quadrinhos de todas as idades. Essa comunicação com pessoas
famosas parecia ir além de apenas um recurso útil; Lee parecia
genuinamente gostar de manter esse tipo de contato — e as
pessoas também gostavam de se comunicar com ele. Claro que
isso era parte de uma estratégia geral de Lee (e, pelo menos no
momento, da Marvel) de manter as opções abertas. É verdade que
ele acabaria repensando algumas dessas ideias, e, por exemplo,
desistiu da proposta de trabalhar em parceria com o poeta
Kenneth Koch em uma série de quadrinhos contra a Guerra do Vietnã, mas alguns desses relacionamentos floresceram — sua
amizade com Alain Resnais, por exemplo, começou forte e assim
continuou até a morte do diretor, em 2014.
Resnais parece ter visitado a Marvel pela primeira vez em 1969,
e parece ter se dado muito bem com Lee. Quase imediatamente
começaram a debater projetos juntos. Em uma conversa privada e
gravada daquele ano, Lee disse a Resnais:
Eu era leal ao editor [Goodman], mas, agora que a Marvel é de
propriedade de outra empresa, cogitei pela primeira vez que, na
minha idade [46 anos], é hora de começar a pensar em outras
coisas.
Andei pensando muito em escrever uma peça — conheço alguns
produtores daqui — ou o roteiro de um filme. Eu estava pensando
em escrever uns poemas, como Rod McKuen — o pessoal gosta
desse tipo de coisa, um toque de filosofia e de sátira. O tipo de
linguagem que eu trabalho nos quadrinhos, sabe? Como Surfista
Prateado ou Homem-Aranha.
Acho que meu nome é famoso o bastante para que esses poemas
vendam. O único problema é que, enquanto eu estiver aqui [na
Marvel], não tenho tempo de escrevê-los. E, se eu sair, não terei a
renda de que preciso para me manter! Tenho que pensar em uma
solução. [ 298 ]
Em 1971, Lee e Resnais começaram a trabalhar no primeiro dos
dois projetos de filme em que colaboraram. Lee tirou um mês de
férias de suas funções como escritor de quadrinhos, inclusive
pedindo a Roy Thomas que fizesse os Bullpen Bulletins, e escreveu
para Resnais um roteiro chamado The Monster Maker [O criador de monstros]. A história apresenta um estressado produtor de
filmes B de terror que teve grande sucesso, mas que deseja fazer
um filme mais “significativo”, tratando das perigosas
consequências da poluição (uma paixão de Resnais). O texto
trafega uma linha tênue entre a paródia e a seriedade, e é
impossível dizer como isso teria ficado depois de revisões,
interpretado por um elenco disposto a transmitir tanto o aspecto
humorístico quanto a parte mais séria do roteiro. Foi escrito para
a Filmways Inc., que pagou a Lee US$ 25 mil, mas nunca foi
produzido.
Como Lee dizia, sobre sua parceria com Resnais:
Ele veio para Nova York porque queria fazer um filme do Homem-
Aranha. Naquela época, eu não estava em condições de criar um
filme do Homem-Aranha; eu não tinha todo esse poder. Mas, como
éramos amigos muito próximos, pensamos em fazer outro filme,
um que pudéssemos fazer juntos. E tive a ideia para The Monster
Maker. Escrevi o roteiro, coisa que nunca tinha feito, e depois tive
que reescrever tudo, porque a primeira versão estava com diálogos
demais.
Levamos o roteiro a um sujeito chamado Martin Ransohoff, o
cabeça da Filmways, que adorou a ideia e queria produzir o filme.
Mas ele disse: “Você precisa diminuir esses diálogos, Stan. Tem que
ficar com metade do tamanho.” Eu concordei. Mas Alain se
aproximou, dizendo [Lee imita um sotaque francês]: “Stan não vai
mudar uma palavra!” Alain tinha adorado a coisa do jeito que
estava. E até eu, um amador, disse que estava longo demais. E ele
respondeu: “Não, você não vai mudar uma palavra!”
A gente tinha química, dava certo. E ele era tão diferente dos
americanos… Quando estava procurando locações para The
Monster Maker, veio me procurar. Queríamos um lugar sujo,
fedorento, horrível e poluído, e ele veio correndo, todo animado,
dizendo: “Encontrei o lugar! Encontrei o lugar!” Eu logo perguntei
onde era, e ele respondeu: “Lá no rio East tem uma ilhota chamada
Rat Island. Quase nenhum americano conhece, mas eu a
encontrei!” Eu nunca tinha nem ouvido falar dessa Rat Island, mas
Alain estava muito empolgado e me mostrou as fotos que tinha
tirado. Parecia um lugar horrível, então seria perfeito. Enfim, esse
era o Alain. Chegamos até a viajar juntos, eu, Joan, ele e a esposa,
que era filha do ministro da Cultura da França. Passamos algumas
semanas na França. Foi maravilhoso. [ 299 ]
Lee também produziria o tratamento de outro filme de Resnais,
chamado The Inmates [Os prisioneiros], sobre um futuro em que
outros planetas colocam a Terra em quarentena, mas mesmo
assim um terráqueo e um alienígena se apaixonam. O plano de
Lee era escrever apenas o tratamento e contratar alguém para
executar o roteiro, mas o projeto nunca foi adiante. [ 300 ]
Mesmo com o sucesso da Marvel, Lee estava procurando opções
para complementar ou, se necessário, substituir seu salário. Na
verdade, como disse a Resnais, estava tentando usar o sucesso
para atuar em outras áreas. E, considerando os filmes e o piloto do
programa de entrevistas, Lee queria fazer algo “relevante”. Talvez
esse desejo de usar sua influência para fazer a diferença fosse
simplesmente consequência da época, uma vez que Lee sentia a
necessidade do público por alguém que trouxesse mudanças em
suas conversas com os universitários, nas palestras, e com os
funcionários mais jovens da Marvel.
* * *
Sabendo ou não das conversas de Kirby com Infantino, Lee
parecia preocupado com os sentimentos do artista. Nos Bullpen
Bulletins de outubro de 1969, escreveu:
De repente, o fabuloso QUARTETO FANTÁSTICO virou a
sensação aqui nos reinos da Marvel! Primeiro, o pessoal foi à
loucura com nossas paródias humorísticas com os temas da série de
TV The Prisioner, alguns meses atrás… Agora, as aventuras do
Quarteto no planeta dos Skrull, carregada de influência de todos os
filmes de máfia que você já viu, estão fazendo os fãs pirarem! E isso
graças a LEE e KIRBY!
Em outras palavras: “Todo mundo sabe que Jack estava
homenageando e até mesmo se inspirando na série The Prisoner e
nos episódios cheios de referências à máfia de Star Trek — e não
simplesmente copiando por não querer usar suas novas ideias com
a Marvel. E estamos especialmente felizes por Kirby ter dado
ideias para Thor! (Por favor, Jack, não vá embora!)”
E haveria mais elogios para Kirby. Nos Bulletins dos quadrinhos
de janeiro de 1970, Lee escreveu:
Por falar no ALEGRE JACK, muitos fãs de longa data andam
escrevendo para dizer que O QUARTETO FANTÁSTICO está
melhorando a cada edição, com as histórias cada vez mais
parecidas com as obras-primas memoráveis das primeiras edições!
E, nessa mesma página, Lee continuou:
Contabilizamos os votos, e todo o reino da Marvel quer que STAN e
JACK criem uma revista dos Inumanos em 1970…
Então, nos Bulletins de abril de 1970, escreveu:
JACK KIRBY, O REI, desenhou e fez o roteiro de um thriller
arrasador na edição atual de CHAMBER OF DARKNESS! Vai
abalar os corações de quem por acaso não saiba que nosso Jack é
tão talentoso como escritor quanto como artista!
Curiosamente, os Bulletins do mesmo mês também informam:
Nosso querido STAN LEE e seu velho amigo CARMINE
INFANTINO (o equivalente ao nosso líder na National Periodic
Publications) foram vistos juntos em um almoço animado. (…)
Neste nosso mundinho cão, é bom saber que alguns concorrentes
ainda podem manter o respeito e o carinho um pelo outro.
Será que Lee sabia das negociações de Infantino com seu outro
“velho amigo”, Kirby?
De qualquer forma, três meses depois, nos Bullpen Bulletins de
julho de 1970, Lee anunciou, animado:
Acabamos de receber uma visita do nosso rei, JACK KIRBY, que
anda se desviando mais para o leste. (…) Nosso alegre camarada
veio conversar com Stan sobre a nova série de INUMANOS que vai
produzir nas próximas AMAZING ADVENTURES. O velho Stan,
esperto como sempre (…) persuadiu nosso rei a escrever e desenhar
esta nova série incrível!
Claramente ciente do desejo de Kirby de escrever os diálogos de
seu próprio trabalho, além de fazer o roteiro e a arte, Lee deu a ele
os Inumanos (rebaixados por Goodman por motivos financeiros
para figurar em publicações existentes, em vez de ter sua própria
série). Talvez isso satisfizesse Kirby? Afinal, ele e Lee tinham
acabado de bater o recorde de cem edições de Quarteto Fantástico,
mais do que qualquer equipe criativa fizera em qualquer título.
Talvez a ideia de continuar na empresa e estender seu próprio
recorde animasse Kirby por um tempo?
Ou não. O contrato oferecido pela Cadence se provou, em
última análise, inaceitável para Kirby. E, nos Bulletins de
setembro, nos quadrinhos à venda em maio, Lee escreveu, na
Stan’s Soapbox:
Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?
Lembram-se do que aconteceu alguns anos atrás, quando Steve
Ditko saiu de repente dos sagrados salões da Marvel para tentar a
sorte em outras empreitadas? Bem, no momento da redação deste
artigo (início de março), Jack Kirby anunciou, inesperadamente,
sua saída de nossa equipe — pequena, porém robusta. Todos
ficamos muito surpresos.
Então, ele garantiu aos leitores:
O pessoal da redação se juntou para um papo intenso e já está
preparando algumas das surpresas mais absurdas e incríveis de
todos os tempos, que serão um choque para os olhos e um golpe nos
sentidos!
Assim, o pior aconteceu. Com um breve telefonema para Lee,
Kirby pediu demissão. Pior: anunciou que iria para a DC, onde
poderia liberar seu talento sem freios, criando roteiros, desenhos
e até mesmo editando uma série de quadrinhos. E se Jack
realmente conseguisse fazer tudo — e ainda por cima fazer melhor
— sem Stan?
* * *
Houve certo pânico no editorial enquanto a Marvel tentava
processar a partida de Kirby. Marie Severin prendeu uma ponta de
charuto velha (supostamente de Kirby) em um quadro e
desenhou um balãozinho, que gritava: “Eu me demito!” John
Romita acreditava que Quarteto Fantástico seria cancelada. “Eu
achava que mais ninguém saberia tocar a série”, contou.
“Perguntei a Stan quem desenharia as histórias do Quarteto, e ele
respondeu: ‘Você!’ Achei que Stan estava louco.” [ 301 ]
Kirby, que, assim como Lee, ao longo dos anos mudaria o relato
das lembranças e dos sentimentos sobre o que acontecera, andava
dizendo coisas como:
Bem, eu não trabalhei com Stan Lee, não exatamente. (…) Eu dizia
a Stan Lee qual seria a próxima história, ia para casa e fazia o
trabalho. (…)
[Na National] consigo planejar mais as coisas, posso fazer tudo
do meu jeito e saber que vou receber o crédito por tudo que fizer. Na
Marvel, houve momentos em que eu não podia dizer nada, porque a
ideia seria surrupiada (…) e eu seria cortado completamente do
projeto. (…) Isso faz a pessoa se sentir meio como um fantasma. [
302 ]
As vendas da Marvel, que já diminuíam, continuaram a cair — o
que também aconteceu com as vendas de todo o setor. Novas
histórias da Marvel, como o quadrinho de Roy Thomas e Barry
Smith, Conan, o bárbaro, de repente viraram foco de muita
atenção. De fato, novos artistas começavam a entrar no ramo,
tanto na Marvel quanto na DC. Jovens quadrinistas talentosos
estavam se tornando cada vez menos raros. Ainda assim, todos
pareciam estar segurando o fôlego, esperando que o trabalho de
Kirby para a DC chegasse às bancas. Nos Bulletins de outubro
(provavelmente escritos em maio), Lee relatou:
Sejamos francos: esse deve ser o momento mais crucial e orgulhoso
da incrível Marvel! Mesmo aqui, na mundialmente famosa Casa
das Ideias, nunca fizemos tantas mudanças repentinas e
cataclísmicas, nem tantas apostas inesperadas e sem precedentes!
Ele então passou a enumerar as trocas de pessoal em vários
títulos, incluindo a adição do “gênio artístico” de John Romita na
revista Quarteto Fantástico, “combinado com a sátira cortante e o
realismo bruto e duro das letras de STAN LEE”. Também
proclamou que, com a nova equipe de Thor, “NEAL ADAMS dará
vida à saga do poderoso THOR, que será incrível como apenas
Stan Lee conseguiria escrever! (…) A literatura e a lenda nunca
mais serão as mesmas!”
E, no mesmo mês, na Soapbox, Lee confidenciou:
No começo da nossa segunda década como fornecedores das ficções
ilustradas mais populares do mundo, os desafios são maiores do Enquanto Kirby preparava a saga do Quarto Mundo e a Marvel e a
que nunca! (…) Claro, estamos orgulhosos do passado, mas, como
sempre dizemos, o melhor ainda está por vir!
Na DC, o primeiro quadrinho de Kirby, uma reformulação da
série Jimmy Olsen, foi lançado no final de 1970. O restante de seu
novo trabalho, uma série interconectada com seus novos
personagens sobre-humanos, só saiu no início de 1971.
Enquanto isso, Martin Goodman brincava de gato e rato com os
leitores, varejistas e a DC sobre qual seria exatamente o preço e o
número de páginas de seus quadrinhos. Ele acabou prejudicando
as vendas na DC, que foi pega de surpresa quando Goodman
ofereceu aos varejistas um preço melhor para seus quadrinhos do
que a concorrência. E Lee sapateava o mais depressa que podia
em vários fronts, tanto pessoais quanto profissionais.
Além do trabalho com Resnais, Lee ainda escrevia três histórias
mensais, que também editava, claro; além de editar — com a ajuda
de Thomas e outros — toda a linha da Marvel. E Lee fazia de tudo
para encher os quadrinhos com material que chamasse atenção.
Por exemplo, respondendo a uma solicitação do Governo
Federal, Lee escreveu a primeira de três partes de uma história de
O espetacular Homem-Aranha (nas edições 96 a 98, de maio a
julho de 1971) tratando do uso de drogas — assunto cuja
abordagem era proibida pelo Código dos Quadrinhos. A história
dava uma visão muito negativa do uso de drogas, com Harry
Osborn — filho do Duende Verde e amigo íntimo de Peter Parker
— experimentando drogas sem nome junto com um adolescente
negro, cujo abuso de dro gas foi retratado como resultado do
racismo.
Lee mandou a história ao Código dos Quadrinhos para
aprovação do chefe, Len Darvin, mas foi rejeitada. Parecia que Lee
enviara a história enquanto Darvin estava de férias, e a revisão foi
feita por John Goldwater, membro do conselho e presidente da
Archie Comics. Especula-se que Darvin teria aprovado a história,
que não violava explicitamente nenhum regulamento, só ia de
encontro a um aviso geral sobre não retratar certos tipos de
comportamento negativo. [ 303 ]
De qualquer forma, a história foi rejeitada. Lee relata, em
Excelsior!, que levou a história rejeitada a Goodman — que ainda
era seu chefe, embora não fosse mais dono da empresa —, ele
corajosamente concordou em publicar a edição e as duas partes
seguintes sem o selo do Código.
Claro que Goodman, que já recebera todo o dinheiro da venda
da empresa, não tinha nada a perder. Além disso, ele e Lee devem
ter percebido que a decisão geraria muita publicidade. E, se
Goldwater de fato estava por trás da rejeição, os dois também
teriam um pouco de satisfação com o golpe na concorrência.
As edições com a história das drogas acabaram desencadeando
uma liberalização do Código, que permitiu à DC, alguns meses
depois, abordar o uso de drogas na famosa série Lanterna Verde e
Arqueiro Verde, que tratava das questões do momento. As
mudanças no Código também permitiram que os editores
membros produzissem séries com elementos “de terror”, como
zumbis, lobisomens e vampiros, que antes eram proibidos. A
Marvel aproveitou a nova liberdade para lançar séries como A
tumba de Drácula e O monstro de Frankenstein.
* * *
DC testavam os limites do novo Código dos Quadrinhos, Stan Lee
surfava nas próprias ondas, apresentando-se em um painel do
encontro da Sociedade Nacional de Cartunistas junto com nomes
como John Goldwater. O painel, realizado em 20 de janeiro de
1971, no Lambs Club, em Nova York, debatia o estado da
indústria dos quadrinhos. Além de Lee e Goldwater, foram
convidados Will Eisner, Gil Kane e Dennis O’Neil.
No evento, Lee — talvez ainda sofrendo com a perda de Kirby e
o conflito com o Código — soltou algumas “bombas de
sinceridade” surpreendentes. A mais devastadora foi:
Acho que a indústria dos quadrinhos é a pior do mundo para as
pessoas criativas, e as razões são muitas e atacam em bando. (…)
Mesmo quem chega (…) ao ápice do sucesso nos quadrinhos tem
menos sucesso, menos segurança (…) do que um artista mediano
da televisão, do rádio, do cinema. (…) O criador (…) não é dono de
nada de sua criação. A editora é detentora de todos os direitos
autorais. [ 304 ]
Em essência, Lee estava mais ou menos defendendo a proprie-
dade intelectual dos criadores dos quadrinhos, o que parecia um
ponto de vista muito avançado para um editor da época.
Goldwater defendeu — pela terceira ou quarta vez — que a
propriedade de todos os direitos autorais devia ser das editoras:
Acho que [trabalhar para uma editora] é um aprendizado
maravilhoso. Por que negar a um jovem a oportunidade de (…)
aprender com os profissionais, para depois sair e passar para outro
campo (…)?
Ao que Lee respondeu:
Mas não é ridículo trabalhar em uma indústria em que o máximo
que se pode dizer para o artista, a mente criativa, é que aquilo é um
campo de aprendizado para conseguir coisa melhor? Por que não ir
diretamente para esse outro campo?
E, antes, Lee tinha comentado, com um toque de ironia:
Não sei como alguns dos editores conseguiram ficar tão ricos —
pelo menos tão ricos quanto parecem ser. Porque ouvi várias vezes
(…) que os livros os faziam perder dinheiro. (…) Ou tem que ser
muito trouxa para permanecer nesse mercado, ou então tem
alguma coisa errada.
Lee, o idealista, o homem preocupado em definir o certo e o
errado, estava muito em evidência nessas falas, assim como nas
histórias de Homem-Aranha que abordavam drogas e também na
criação — junto com o artista Gene Colan — do primeiro super-
herói afro-americano, o Falcão, que foi apresentado nas páginas
de Capitão América.
Na primavera de 1971, a DC começou a lançar os títulos do
Quarto Mundo de Kirby, apresentando Senhor Milagre, Novos
deuses e Povo da eternidade. À primeira vista, pareciam muito a
recente produção de Kirby para a Marvel. Mas, sob uma análise
mais profunda, eram muito diferentes de suas colaborações com
Lee. Como Gerard Jones e Will Jacobs descreveram:
A visão que começara a se desenvolver durante o tempo de Kirby na
Marvel (…) floresceu. Algumas de suas ideias da Marvel voltaram à
tona, mas destiladas nos termos mais puros de Kirby, desprovidas
das inclinações de Lee de humanizar e mostrar a angústia interior
dos personagens. Nesses novos heróis, não se vê nada da fórmula
da Marvel para caracterização. O Quarto Mundo era um teatro
para o drama puro, para o choque de conceitos absolutos. [ 305 ]
Kirby de fato mostrara — ou pelo menos descrevera — para Lee
as ideias do que viria a se tornar o Quarto Mundo. Eram, de
acordo com Sean Howe, “os heróis da geração seguinte, que Kirby
queria que substituíssem Thor e os outros ‘deuses antigos’ das
revistinhas”, e a ideia era que surgissem depois de uma história
que ele e Lee tinham feito sobre Ragnarok, o crepúsculo dos
deuses. Mas “Lee não permitira que Kirby tomasse essa direção”.
Lee tinha pensado nesses personagens e nessas histórias como
apenas mais material a ser absorvido em um dos títulos da Marvel,
não como uma linha separada para Kirby dirigir. Daí veio a
decisão, que parece ter passado despercebida por Lee, de não
apresentar o material para a Marvel. [ 306 ]
Kirby somou a intensidade dos seus conceitos e da sua estética
com roteiros idiossincráticos a um estilo aparentemente projetado
para ser o oposto das frases mais orgânicas e fáceis de ler de Lee,
que sempre fazia questão de explicar as reviravoltas da trama na
narrativa. Uma série perfeita para quem queria ver Kirby sem
filtro, sem a influência de Joe Simon ou de Stan Lee. Mas restava a
questão: era isso que o grande público — e os todo-poderosos da
DC — queria?
* * *
Um artigo escrito por Saul Braun e publicado no New York Times
de 2 de maio de 1971, intitulado Shazam! Here Comes Captain
Relevant! [Shazam! Aí vem o capitão da moda!], trazia uma
fascinante reunião de pontos de vista, com as opiniões de Lee,
Kirby, Goodman, Infantino e Thomas, apresentando os principais
atores daquele momento crucial na indústria dos quadrinhos.
O texto retrata Goodman como uma espécie de patriarca da
indústria, sendo Lee e Kirby seus dois “filhos” mais bem-
sucedidos, agora em desacordo. No artigo, Goodman, a um ano de
sair de cena de vez, apresentava um ponto de vista meio cansado
e que analisava a situação como um todo: “‘O volume [de vendas]
não tem subido no setor’, diz Goodman com tristeza. (…) Depois
de alguns anos, começa a erosão no mercado. Os leitores fiéis se
mantém, mas perde-se muito mais leitores do que as revistas dão
conta de ganhar.”
Sobre Lee, Goodman lembrou:
Stan começou na empresa ainda criança; ele é primo da minha
esposa. (…) O garoto tinha talento para escrever. (…) Acho que
Stan fez um bom trabalho ao criar os super-heróis da Marvel, e
muitos estudantes universitários passaram a ler os quadrinhos (…)
mas, se voltamos as histórias para esse público, perdemos os
leitores muito jovens. (…) Já li algumas [das histórias de Stan], e
nem eu consigo entender do que se trata.
Depois de trinta anos de associação profissional e dez anos de
sucesso da Marvel, Goodman ainda assim não conseguia dar
muito mais crédito ao primo de sua esposa do que dizer que Lee tinha “talento para escrever” e que “fez um bom trabalho”. (E,
claro, a menção de que eram parentes parece ter a intenção de
minimizar o trabalho de Lee, apresentando-o apenas como um
sortudo beneficiário do nepotismo.) Mesmo naquela época,
Goodman ainda parecia ver Lee como o adolescente que fora ao
escritório, em 1940, procurando uma vaga de aprendiz. E também
é possível que Goodman já tivesse alguma noção da futura briga
por poder que travaria com Lee e que acabaria se transformando
em um verdadeiro conflito shakespeariano.
Embora Lee tenha sido destaque no artigo, Braun parece
descrevê-lo mais como os outros o viam (em vez de como o
próprio Lee via a si mesmo), começando com Resnais
(apresentado como “fã de Lee”) e Goodman. Talvez tenha sido
porque Stan parecia entrar no piloto automático quando
perguntado sobre si mesmo, repetindo pequenas anedotas
testadas e aprovadas sobre a criação dos personagens da Marvel.
Seu único comentário fora do roteiro foi:
Durante anos, os maiores assuntos nos campi eram McLuhan e
Tolkien, Stan Lee e Marvel. E todo mundo sabia de McLuhan e
Tolkien, mas ninguém sabia sobre a Marvel. Agora, nosso
concorrente [a DC] está lançando histórias em quadrinhos mais
“atuais”. E, como a empresa tem um departamento maravilhoso de
relações públicas, estão se aproveitando da nossa publicidade.
Não é de surpreender que, mesmo aproveitando para citar o
nome do intelectual McLuhan, Lee não tenha mencionado a
opinião negativa que o professor apresentou sobre ele no livro
The Mechanical Bride, de 1951.
Braun também entrevistou Goldwater, que falou sobre as
histórias que tratavam de drogas em Homem-Aranha:
Goodman se reuniu com os editores do conselho e prometeu que
não faria mais uma coisa dessas, então, estamos satisfeitos.
Qualquer pessoa com 15 anos de altos padrões de publicação de
quadrinhos com o selo [do Código] tem o direito de errar.
Goodman, por sua vez, falou de toda a controvérsia sobre as
histórias das drogas como “uma tempestade em um bule de chá”.
No artigo, fica claro que o principal interesse de Braun era
Kirby. Enquanto o texto retratava Lee e Goodman concentrados
em disputas e triunfos passados, Braun gastou centenas de
palavras descrevendo os novos quadrinhos de Kirby.
E o quadrinista disse:
Não tenho nenhuma das respostas. Ainda não criei o final [das
histórias do Quarto Mundo]. É uma história contínua. (…) E estou
bem otimista [com os novos quadrinhos]. Cerca de 90% das cartas
tiveram críticas positivas, e as vendas estão indo bem.
A citação final é de Infantino, cujas falas são citadas várias vezes
ao longo do artigo. Braun parece ciente de que, com exceção de
Roy Thomas, as pessoas que falavam com ele sobre as
preferências dos jovens para a cultura pop estavam na casa dos
cinquenta anos. Infantino parecia esperar que Kirby tivesse
trazido um pouco da credibilidade da Marvel nos campi quando
refletiu:
Os jovens de Yale acham que as novas histórias de Kirby falam
mais com eles do que qualquer outra mídia. (…) Estamos nos
sintonizando com o que [os estudantes universitários] vivem. [ 307 ]
Assim como Lee se perdera na conversa com Jeff Shero, da Rat
Subterranean News, no piloto do programa de entrevistas de 1968,
esses adultos responsáveis — Lee, Kirby, Goodman e Infantino —
pareciam não ter ideia do que “os jovens” queriam ou consumiam
e que papel deviam assumir como criadores de quadrinhos de
meia-idade. O certo seria glamorizar as visões psicodélicas, para
que os jovens as consumissem no papel, e não nas drogas, ou
deveriam, como o governo Nixon solicitara a Lee, estigmatizar o
uso das drogas? Os estudantes universitários eram contra ou a
favor da violência? O que raios o público queria? Lee e Kirby
tinham tropeçado no espírito daquela geração e conseguido surfar
aquela onda por uma década inteira. Mas o que os criadores e as
empresas de quadrinhos deveriam fazer agora?
* * *
Em setembro de 1971, a futura roteirista e produtora de Família
Soprano, Robin Green, publicou um artigo na Rolling Stone sobre a
Marvel, e a edição conta inclusive com uma capa do Hulk feita por
Herb Trimpe. (Quando Hulk apareceu em outra capa, em 2015,
Lee perguntou, em uma entrevista no site da revista: “Por que
demoraram tanto tempo para repetir o feito?”) Green retratava o
ex-chefe como uma figura simpática, mas um pouco perdida. Ela
citou uma entrevista para a revista Alter Ego em que Gil Kane
afirmava que “Jack e Stan acabaram se limitando quando
converteram tudo da Marvel para o mesmo modelo de quadrinho,
e o mundo está perdendo o interesse nesse modelo”. [ 308 ]
“Bem, agora Stan está sozinho”, continua Green, no artigo. “Ele
mantém a fronte e o sorriso, mas às vezes parece um pouco
triste.” Ela o descreveu como uma pessoa que sofria de sinusite, o
que ressoava com a reclamação de Lee, no artigo de Braun, de
“estar sempre resfriado”. (Talvez fosse um problema com o clima
da Costa Leste?)
Green deixou que o público visse o lado mais profundo e
atencioso de Stan, aquele sujeito que conhecemos no piloto do
programa de entrevistas. Por exemplo:
Sabe, às vezes pareço muito quadrado e cheio de ensinamentos,
mas, quanto mais percebo que as pessoas são afetadas pelo que
escrevemos, quanto mais noto a influência que exercemos, mais me
preocupo com o que escrevo. (…) Eu nunca tento dizer ao leitor que
“é assim que deve ser”, porque sinto que… Quem sou eu para definir
qualquer coisa?
Green então relatou que Lee acrescentou, filosoficamente:
Acho que a única mensagem que quero passar é, pelo amor de
Deus, não sejam fanáticos. Não sejam intolerantes. (…) Acho que a
maioria das pessoas (…) quer viver uma vida feliz, estar em paz.
(…) Mas acho que todo mundo pensa em um caminho diferente
para alcançar esse nirvana.
A publicação das matérias do New York Times e da Rolling Stone
pode parecer trazer uma espécie de amadurecimento para os
quadrinhos. Afinal, a mídia estava sendo apresentada nos
principais periódicos da época, com artigos cheios de reflexões
sobre o passado e o futuro da indústria e sobre onde os quadrinhos se encaixam no mundo moderno, com apresentação
de figuras-chave do setor e até uma das editoras contando
vantagem sobre a popularidade de seus quadrinhos em Yale. Os
entrevistados eram profissionais experientes, mas certamente não
descansavam sobre os louros de suas conquistas. Em vez disso,
pareciam tentar romper os limites da mídia e da indústria com
que trabalhavam em busca de maneiras de manter o antigo
público e conquistar novos. Mas será que os quadrinhos — pelo
menos os apresentados pela Marvel e pela DC — tinham mesmo
atingido a maioridade, ou só estavam chegando ao fim de uma
explosão de popularidade?
O início dos anos 1970 foi tão tumultuado para os quadrinhos
quanto para o restante da cultura pop. Nos anos seguintes,
Infantino, Kirby, Goodman e Lee ficariam ainda mais envolvidos
nas complicações e nas disputas da indústria.