A Espetacular Vida de Stan Lee
6. Reunindo forças
Eu estava prestes a desistir. Estava realmente
entediado com o que vinha fazendo.
Isso foi por volta de 1960.
— Stan Lee, para o jornalista
Leonard Pitts Jr., em 1981 [ 165 ]
N ão é de surpreender que ninguém saiba bem como foi a história, se Lee chamou Jack Kirby para discutir os novos quadrinhos ou se Kirby foi até o escritório da Timely querendo explorar as possibilidades depois da morte de Joe Maneely. Já antes do desastre de distribuição com o American News, Kirby voltara a escrever e desenhar para a Timely, entre 1956 e
1957, indicado e apoiado pelo artista Frank Giacoia. Durante o
período de escassez de trabalhos, ele criou para a Archie e a DC
Comics, e ainda manteve uma tirinha chamada Sky Masters of the
Space Force [Mestres celestiais da força do espaço], inspirada na
corrida espacial. Mas aquelas portas já tinham se fechado, ou pelo menos estavam prestes a se fechar. Kirby precisava de trabalho, e
já era de conhecimento geral que Lee mandara algumas das
tarefas de Maneely para Steve Ditko, então parecia haver trabalho
disponível. [ 166 ]
Anos mais tarde, Kirby viria a dizer que a empresa estava
prestes a fechar as portas e que, quando foi conversar em busca de
trabalho, encontrou Lee chorando, sem saber o que fazer, já com
os móveis da editora prestes a serem recolhidos para garantir o
pagamento de dívidas, e que foi a sua chegada o divisor de águas. [
167 ] Lee negou que tenha sido visto chorando e que a empresa
estava à beira da ruína. Talvez Kirby tenha achado que a tristeza
de Stan com a perda do amigo tivesse outra causa.
De qualquer forma, tanto por precisar de mais alguém para dar
conta do grande volume de trabalho quanto pela admiração
genuína pelos talentos de Kirby, Lee imediatamente o empregou.
Juntos, os dois criariam histórias de ficção científica inspiradas
nos filmes de monstros da época, como O mundo em perigo e A
bolha assassina, além de westerns e de outros gêneros. Esses
quadrinhos eram anunciados na capa, quase sempre assumindo o
título de histórias principais de revistas como Tales to Astonish
[Histórias de espanto] e Strange Tales [Contos estranhos], e
tinham títulos como “I Discovered the Secret of the Flying
Saucers” [Descobri o segredo dos discos voadores] e “The Thing
Called… It!” [A coisa chamada… Isso!].
E foi justamente desses quadrinhos comerciais que seguiam um
mesmo modelo — e também dos quadrinhos de humor e romance
que já eram produzidos, é claro — que surgiu a amálgama
idiossincrática de ideias e personalidades que revolucionou o cenário da cultura pop. Mas, antes disso, naquela época, a
prioridade era a sobrevivência individual e da empresa.
* * *
Embora fosse raro Lee contratar novos escritores freelancers
depois da tragédia das demissões, houve uma exceção para seu
irmão, Larry. Depois de sair da Força Aérea, em 1955, Larry teve
diversos trabalhos para o New York Times e a Magazine
Management, principalmente fazendo os paste-ups, as montagens
e colagens das páginas para impressão. Decidido a alimentar a
ambição de seguir os passos de seu ídolo, Kirby — que volta e
meia lhe dava conselhos sobre desenho, inclusive dizendo para ele
não se preocupar tanto com a anatomia —, Larry fizera diversos
cursos na Art Students League e no Pratt Institute. [ 168 ] Os
irmãos chegaram até a criar uma breve tirinha, Jack and Jill, sobre
um casal do subúrbio, com roteiro de Stan e arte de Larry. O
projeto acabou engavetado porque Larry era muito lento em
completar a arte. [ 169 ]
Então, como não encontrava quem escrevesse as histórias
exatamente como ele queria, Lee recrutou a ajuda do irmão mais
novo. Larry não se considerava um bom roteirista, mas Stan
insistiu, argumentando que as cartas que ele enviava para casa
enquanto trabalhava para a Força Aérea eram muito bem escritas
e que, com base nisso, poderia ensiná-lo a escrever roteiros de
quadrinhos. [ 170 ] Larry começou com os roteiros de romance,
mas depois de um tempo Lee delegou para o irmão a escrita de
muitas das histórias de monstros que foram desenhadas por
Kirby.
Larry, desenhista por natureza, pegava os rascunhos de trama
de Lee e os dividia em esboços de cada quadrinho. Ele adicionava
os diálogos, então traduzia os desenhos em um texto para cada
quadro, entregando os “roteiros finais” para Kirby desenhar. [ 171 ]
Larry continuou escrevendo para Kirby por um bom tempo,
tendo feito aventuras do início da Era Marvel para personagens
como o Thor, o Homem-Formiga, o Homem de Ferro e o Tocha
Humana. Claro que não se sabe muito bem se essas ideias iniciais
eram criação exclusiva de Stan ou se eram fruto de suas conversas
com Kirby, mas Larry sempre imaginou que fossem criações do
irmão. [ 172 ]
Um fato é indiscutível: a partir de 1958, Jack Kirby criou muitas
histórias, de muitos gêneros, com e para Stan Lee. Ele foi o
principal artista da época que definiu a aparência dos quadrinhos
de ação e aventura da empresa de Goodman. Apesar de Kirby não
ter cargo oficial, a identidade visual dos quadrinhos era
justamente sua arte. A parceria de Lee e Kirby (às vezes contando
com a presença de Lieber) resultou em muitas histórias
empolgantes, mesmo que às vezes bobas, de ficção científica e
faroeste. Só que ainda levaria um tempo até que essas histórias
evoluíssem. Stan Lee e Jack Kirby ainda não eram stan lee & jack
kirby, mas estavam chegando lá.
* * *
À medida que surgiam mais trabalhos, Lee, que precisava de gente
para fazer quase toda a parte de desenho, foi estabelecendo um
grupo exclusivo de artistas competentes com quem podia contar
para trabalhos pontuais. Além de Kirby, havia Don Heck, Dick
Ayers, Paul Reinman, Joe Sinnott e Steve Ditko — sem falar de Larry Lieber, que, como mencionado, também fazia diversos
roteiros. Lembrando-se do grupo, Heck comentou: “Era uma coisa
da Marvel que eu achava legal. Stan juntou um monte de gente
competente fazendo tudo aquilo, e eram todos bem diferentes.
Acho que era principalmente eu, Ditko, Kirby e Dick Ayers.” [ 173
]
Heck parece ter entendido um dos principais aspectos que
tornavam o trabalho com Lee — ou seja, com a Timely/Atlas —
tão atrativo para os artistas. Embora “achar legal” não pareça
muito um elogio, a verdade é que havia uma diferença
significativa em relação à concorrência. A outra principal empresa
para artistas de ação e aventura, a National Comics, era
estruturada e administrada com uma eficiência corporativa, e os
escritórios editoriais da mesma empresa se comportavam como
concorrentes. Um artista que trabalhasse para algum editor da DC
era proibido de procurar ou aceitar trabalhos de outro.
E, naquela época de escassez, alguns editores da National
empregavam seu poder tratando os freelancers com práticas
humilhantes e condescendentes — ou seja, nada “legais”. Uma
história famosa é de um editor que rejeitou um roteiro dizendo
que “não servia nem para limpar a bunda”, mas logo em seguida
repassou o enredo para outro escritor, apresentando a ideia como
sua. Havia rumores de editores requisitando “pagamentos” para
liberar trabalhos tanto na DC quanto em outros lugares. A editora
produzia obras impressionantes, histórias que certamente
atendiam à necessidade de entreter as crianças e muitas vezes iam
além, mas não era uma empresa que promovesse inovação ou que
empolgasse seus colaboradores. Era projetada para manter as
vendas estáveis, e tinha um grupo leal de criadores veteranos com contrato de exclusividade. A National tinha um diretor editorial,
Irwin Donenfeld, mas ele se concentrava nos assuntos gerais —
como, por exemplo, definir o que fazia uma capa vender mais —,
deixando os feudos editoriais por conta própria.
Já na Timely/Atlas pós-demissões em massa, havia apenas Stan
Lee — com algumas aparições pontuais de Martin Goodman,
claro, mas ele costumava deixar que Lee tratasse com os
freelancers. Embora até fosse capaz de soltar um ou outro
conselho grosseiro ou de dar críticas pesadas disfarçadas com
sutilezas, Lee incentivava e adorava o trabalho de seus artistas.
Além disso, era conhecido por não guardar ressentimentos. Se
ficasse com raiva, em geral era por algum detalhe específico do
momento. Heck se lembrava de Lee como um cara fácil de
trabalhar. “Nunca tive problemas com ele.” [ 174 ]
Claro que a DC de fato pagava um valor bem mais alto que a
Timely/Atlas. E, ao contrário do que Stan fazia, era pouco
provável que, na entrega de algum trabalho, um editor da DC
fosse tentar convencer o freelancer a se sentar por alguns minutos
para fazer correções de arte urgentes — e gratuitas — no trabalho
de algum outro artista já prestes a ir para a gráfica.
Por sorte, Lee podia se aproveitar de sua natureza amigável e
acolhedora. Sempre que preciso, empregava toda a força de sua
personalidade extravagante para fazer com que os artistas se
sentissem especiais, sentissem como se o próprio Stan — e, por
consequência, a própria empresa — gostasse muito de estar com
eles. Muitos relatam que a presença de Lee era empolgante e
energizante. Se, como Heck disse, Lee conseguiu um monte de
“gente dedicada” a trabalhar com ele, foi em grande parte porque
conseguiu fazê-las se importar com as histórias que criavam. Ao longo da carreira, Lee parece ter inspirado muitas pessoas a
darem seu melhor, fosse por ele ou apesar dele. Além disso, Lee
era conhecido por não fazer os artistas esperarem muito pelos
próximos trabalhos. Ele recompensava a lealdade dos freelancers
— e, considerando que a empresa pagava menos do que muitas
outras, era bem inteligente já ter mais trabalhos engatilhados.
* * *
Lee nunca desistiu do emprego na editora, mas também não parou
de empenhar tempo e energia em projetos paralelos ambiciosos,
incluindo vários outros lançamentos de tirinhas para jornais. A
linha de quadrinhos de Goodman podia até estar se recuperando,
mas não tinha o futuro garantido. Tendo deixado a glória do
Empire State Building para trás, o editorial passara para duas
salinhas nos escritórios da Magazine Management, no número
655 da Madison Avenue. Levando em conta essas mudanças, Lee
continuou a trabalhar em seus outros projetos.
Ele recrutou Al Hartley, artista de quadrinhos humorísticos da
Timely, para ocupar o lugar de Maneely na arte da Mrs. Lyons’
Cubs, mas a tirinha não resistiu por muito mais tempo, tendo sido
impressa pela última vez em 27 de dezembro de 1958.
Toni Mendez ainda tentou emplacar a ideia de Lee de um livro
chamado Art Script, que acrescentava legendas engraçadas às
obras de arte clássicas (e de domínio público). Anos depois, um
conceito semelhante foi bem-sucedido nas mãos de outras
pessoas, mas, na época, o projeto não deu certo. [ 175 ]
Em 1959, também sob a influência de Mendez, Lee fez um
acordo com o Bettmann Archive para produzir um livro dando
legendas divertidas a gravuras do século XIX curadas pelo próprio Bettmann. O volume provavelmente seria intitulado Look Back in
Laughter [Relembrar e rir], mas a ideia não foi aceita por
nenhuma editora — a proposta foi enviada para agências de venda
de tirinhas como a World Publishing Company e a Scribner’s.
Mendez também tentou lançar uma coluna de Lee chamada Stag
Line[O solteirão], que parece ter sido o projeto de uma “versão
masculina de Dear Abby”, uma famosa coluna em que uma
conselheira sob o pseudônimo de Abby responde às cartas e
dúvidas dos leitores. [ 176 ]
Em abril de 1959, Lee e Russ Heath se juntaram para criar “L’il
Repute”[Má fama], uma tirinha adulta de cunho mais sexual.
Mendez tentou vendê-la para distribuidoras como a McGraw-Hill
e a Simon & Schuster, entre outras. “Acredito que a arte
deslumbrante teria resultado em um trabalho muito bonito e
engraçado”, escreveu o historiador de quadrinhos Ger Apeldoorn
(responsável por estabelecer uma cronologia lógica e crível para o
material de Lee nos arquivos de Mendez) na revista Alter Ego n.º
150. Ele ainda diz que “talvez tenha sido um pouco ousado para a
época. Não como assunto (pois muitos livros apresentavam
prostitutas como personagem principal), mas é que ninguém fazia
uma arte tão sexy quanto a de Russ Heath”.
Também houve o projeto de um livro de colorir chamado
Cartoonists Cookbook [Livro de receitas dos cartunistas], em que
Lee tentou juntar o trabalho de vários artistas afiliados à
Sociedade Nacional de Cartunistas, mas nunca saiu do papel.
Então veio Willie Lumpkin.
* * *
Tudo começou como uma parceria de Lee e Dan DeCarlo em
Barney’s Beat [A vida de Barney], uma tirinha de humor policial
sobre um tira camarada. O projeto foi evoluindo (contra os
instintos de Lee) para charges de um único quadro, depois virou
uma tirinha sobre um carteiro do interior que comentava eventos
e personalidades locais. O Publishers Syndicate pareceu querer
emplacar a ideia, criando folhetos e outros materiais
promocionais. [ 177 ]
“Você vai rir! Vai amar! E vai gostar das pessoas que encontrar
(…) no Maravilhoso Mundo deWillie Lumpkin”, anuncia a
manchete na capa de uma das brochuras que anunciavam as
novidades à venda no mercado. O Publishers Syndicate também
criou diversos anúncios que podiam ser usados para preencher o
espaço extra de qualquer artigo. Pelo menos um jornal — o
Oklahoma City Times — realizou um concurso promocional
chamado “Quem é o carteiro mais simpático?” (Alerta de spoiler:
houve dois vencedores! Um deles recebeu um título de ação de
cem dólares, o outro ganhou dois pares de sapato.) A tirinha
estreou em 7 dezembro de 1959. [ 178 ]
O Publishers Syndicate lançou um artigo promocional intitulado
“Men Behind Willie Lumpkin” [Os homens por trás de Willie
Lumpkin], criado para apresentar Lee e DeCarlo como típicos
moradores do subúrbio, os “caras de sempre” dos anos 1950 que
almejavam subir na vida. O texto citava Lee: “Se as pessoas
gostam de Willie Lumpkin, acho que é porque tentamos falar sobre
coisas engraçadas e bem familiares para os leitores, já que passam
por muitas dessas situações no dia a dia.” Um pouco mais para a
frente, no texto, vemos a seguinte reflexão de Lee: “Quando
criança, eu queria ser o de sempre: bombeiro, policial, artista de circo, estrela de beisebol… Então claro que virei escritor!” E o
artigo conclui: “Embora tenha virado um suburbano típico, Stan
faz questão de ressaltar, com orgulho, que pertence ao seleto
grupo de ‘nova-iorquinos nativos’, que, segundo ele, já está quase
extinto.” [ 179 ]
Apesar de ter aparecido em mais de cinquenta jornais, muitos
de grande distribuição, Willie Lumpkin terminou em 28 de maio
de 1961, depois de 18 meses. A vida curta foi, em parte, causada
pela recessão nacional, que fez com que os jornais reduzissem as
tirinhas — Willie, assim como Mrs. Lyons’ Cubs, não estava
destinado a uma vida longa.
* * *
Embora tenha manifestado publicamente que apreciava fazer Mrs.
Lyons’ Cubs e Willie Lumpkin, Lee admitiu, anos depois, que as
tirinhas não eram o que gostaria de fazer:
“Willie era inicialmente (…) sobre um policial [da cidade]. (…)
Levei a ideia para o Publishers Syndicate. (…) Mandaram mudar o
personagem para um carteiro (…) de uma cidade pequena. (…)
Achei que eles sabiam mais sobre o assunto do que eu (…) mas a
tirinha [só] durou cerca de um ano. [Até que] um dia eu disse:
“Aposto que, se eu fizesse uma tirinha sobre os escoteiros, seria
aceita (…).” [A ideia] pegou (…) e fiquei preso com uma tirinha
que não era bem o que eu queria. [ 180 ]
Após o cancelamento das duas tirinhas, Lee parece ter mudado
a atenção que não era dedicada à Timely/Atlas para a autopublicação de pequenos livros de comédia, retomando o que
começara em 1947 com o Secrets Behind the Comics.
Golfers Anonymous [Os golfistas anônimos] e Blushing Blurbs
[Manchetes chocantes], ambos publicados em 1961, foram
produzidos sob o selo de Lee na Madison Publishing. Golfers
Anonymous — que levava o subtítulo de “A Hilarious Look at Life
on the Links” [Um olhar cômico sobre a vida nos campos] —
consistia em desenhos (que Apeldoorn afirma provavelmente
serem de Stan Goldberg) e fotos com legendas bem-humoradas.
Blushing Blurbs — com o subtítulo “A Ribald Reader for the Bon
Vivant” [Leituras impróprias para um bon-vivant] — consistia em
fotos atrevidas — a foto de capa era Joan Lee se passando por uma
prostituta de rua — também acompanhadas de legendas
engraçadinhas. Segundo a autobiografia de Lee, os livros
venderam bem, cerca de dez mil exemplares cada, mas ele nunca
insistiu para que fizessem mais impressões. [ 181 ]
Além disso, os arquivos sobre Lee na Universidade de Wyoming
indicam que havia outro projeto em andamento, o My Own
Executive Doodle Book [O livro de rabiscos do executivo] (que
talvez pudesse se chamar A First Reader for the Thoughtful
Executive [O livro básico do executivo atencioso]), escrito e
desenhado pelo próprio Lee. Os doodle books, ou livros de
rabiscos, eram publicações com ideias e espaço para os leitores
desenharem. Eram bem populares na época, e a ideia de Lee
parece ter sido uma tentativa de capitalizar em cima da tendência.
Segundo Apeldoorn, o livro talvez até tenha sido publicado em
1962, mas, até o momento em que escrevo este texto, nenhum
exemplar foi localizado.
Considerando as evidências disponíveis, a partir desse ponto,
durante os dez anos seguintes, parece que qualquer atividade de
Lee fora dos quadrinhos ficou confinada à editora de Goodman,
como a You Don’t Say!, uma revista de fotos divertidas que saiu
em 1963. Ainda assim, não seria surpreendente descobrir que Lee
continuou investindo em tirinhas de jornal e títulos
autopublicados, mesmo que não haja nada nos arquivos de
Mendez durante esse período. Qualquer outra empreitada só foi
documentada a partir de meados da década de 1970.
* * *
De volta aos quadrinhos, o período de 1957 a 1961 é, em
retrospecto, conhecido como o prelúdio da Era Marvel. Na época,
é claro, nenhum dos envolvidos — nem mesmo os leitores, quase
todos do começo da geração dos baby boomers — tinha ideia do
evento que tomaria suas vidas sem grandes anúncios (o que
depois seria compensado com anúncios até demais). Ninguém
percebeu, mas Lee e seus colaboradores estavam esperando que
os boomers se tornassem leitores sofisticados o suficiente para
apreciar o fenômeno que a Timely ainda nem sabia que
proporcionaria. Essa geração de leitores recebe esse nome por
causa da taxa incrivelmente alta de nascimentos — o boom dos
bebês — que começou por volta de 1945, quando os militares que
voltavam da Segunda Guerra Mundial passaram a formar suas
famílias. O período durou até cerca de 1964, mas o ápice foi em
1957, que teve mais nascimentos do que em qualquer ano anterior
da história dos Estados Unidos.
A Timely se esforçava para sobreviver, mas a National seguia
firme e forte. Essas editoras ainda resistiam — talvez
simplesmente porque tantas outras tenham declarado falência. A DC apostou no lançamento de versões atualizadas de seus super-
heróis, começando com o Flash, em 1956. Aos poucos, a aposta ia
dando retorno. O editor Julius Schwartz teve sucesso em suas
versões renovadas do Flash, do Lanterna Verde, do Átomo e do
Gavião Negro. Em 1959, o Flash e o Lanterna Verde — junto com
o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha, cujos
quadrinhos nunca pararam de ser produzidos — se juntaram ao
Caçador de Marte, lançado em 1955, e formaram a Liga da Justiça
da América, um time que foi grande sucesso de vendas.
O ano de 1957 também marcou o início da corrida espacial, com
o satélite Sputnik, da União Soviética, superando os Estados
Unidos, que só lançaram o Explorer 1 no ano seguinte. A ameaça
nuclear também pairava na mente de todos enquanto progredia a
corrida armamentista contra a URSS. Esse ano também trouxe o
começo de uma recessão, que exacerbou os problemas de
distribuição de Goodman. O otimismo da Era Eisenhower foi
eliminado pelo medo de que a grande jornada de todos pudesse, a
qualquer momento, ter um fim violento e irrevogável.
O ano de 1959 trouxe o lançamento da série de TV Além da
imaginação, de Rod Serling, que estreou em 2 de outubro. Lee se
inspirou nos programas curtos similares ao de O. Henry,
acreditando que o tipo de história cabia bem no estilo artístico de
Steve Ditko, nascido na Pensilvânia. Grande parte da produção de
ficção científica e fantasia da Timely já seguia a escola de
reviravoltas e finais surpreendentes — resultado de uma
influência cultural generalizada que envolvia Poe, os quadrinhos
de terror da EC e até as séries de rádio da década de 1930. Mesmo
assim, séries de TV como Além da imaginação e Alfred Hitchcock
Presents deram um tom completamente novo às histórias carregadas de ironia que a Atlas já distribuía. Lee e Ditko viraram
mestres de histórias assustadoras e curtas, com cerca de cinco
páginas, que traduziam as ansiedades da época, com uma
narrativa — graças à arte singular de Ditko — em um estilo ao
mesmo tempo moderno e muito antigo. Muitas das histórias
foram criadas no que ainda viria a ser chamado de “Método
Marvel”: discussões curtas sobre o roteiro, que logo era
rascunhado, então acrescentavam-se os diálogos, aí era só fazer o
trabalho de arte-final e de colorismo. [ 182 ] Tal método viria a ser
fonte de muita controvérsia na vida de Lee.
* * *
Devido à última grande crise de distribuição, três anos antes, em
1960 Lee ainda não conseguia fornecer trabalho o suficiente para
manter os artistas ocupados. Kirby, que fora praticamente expulso
da National depois de uma disputa jurídica com o editor Jack
Schiff, encontrou trabalho junto com Joe Simon na Archie
Comics, e os dois criaram The Fly [A Mosca] e o Private Strong
[Soldado Forte]. Mas os chefes de Simon, buscando um estilo
supostamente mais elegante, como o que se via na produção da
DC, eram tão críticos com o traço mais apressado de Kirby que
ele, frustrado, deu o fora. [ 183 ] Sua tirinha de jornal, Sky Masters,
fonte de desentendimento com Schiff, que intermediara a venda,
tinha sido finalmente cancelada. Com isso, Kirby precisava de
mais trabalho para sustentar a família em crescimento, e Lee fez o
que pôde para ajudar. Já Ditko, enquanto trabalhava para Lee,
continuava produzindo para a Charlton Comics, uma editora de
Connecticut que pagava ainda menos que a Timely.
A Timely/Atlas continuou seguindo as tendências.
Acompanhando o sucesso dos filmes e programas de TV de
faroeste, sobretudo a incrível audiência da série Rawhide,com
Clint Eastwood, que estreou no outono de 1959, Lee se juntou
com Kirby para apresentar uma nova versão de um antigo
personagem de faroeste da Timely, o Rawhide Kid, que no Brasil
ficou conhecido como Billy Blue. O retorno do personagem veio
na revista Rawhide Kid n.º 17 (que, apesar da numeração, era a
primeira edição), de agosto de 1960. A essa altura, Kirby já estava
de volta à Timely havia algum tempo, e já fizera inúmeras
histórias com Lee, mas essa foi sua primeira colaboração em um
novo personagem contínuo.
Quase um ano depois, em Amazing Adventures n.º 1, lançada em
junho de 1961, a dupla Lee-Kirby — contando com arte-final de
Ditko — tentou um novo super-herói: o Doutor Druida,
ambientado em um universo mágico. Não se sabe ao certo se Lee
fez os roteiros inteiros ou se apenas passou resumos curtos para
Larry, mas não há dúvida de que Kirby fez a arte dos quatro
primeiros volumes. Apesar de ter se perdido nas várias narrativas
da revolução de super-heróis da Marvel dos anos 1960, o Doutor
Druida foi o primeiro dedo da Timely para testar as águas de
super-heróis da época. O personagem não obteve o sucesso inicial
necessário para se manter como presença fixa, mas talvez o
abandono precoce do Doutor Druida (que foi posteriormente
apagado da linha do tempo da Marvel) tenha algo a ver com o fato
de ele ser um médico caucasiano que se transformava em um
feiticeiro asiático sem qualquer motivo aparente — estranho até
para os padrões de 1961. Talvez a vida do Druida tenha sido curta
simplesmente porque ele nunca sequer figurou em uma capa de revista, o que já era indicativo da falta de confiança no sucesso do
personagem. De qualquer forma, Kirby fez os quatro primeiros
episódios do Doutor Druida, e o quinto — lançado na Amazing
Adventures n.º 6 — foi desenhado por Paul Reinman.
Na sétima edição, o título da revista foi alterado para Amazing
Adult Fantasy [Incríveis fantasias adultas], tornando-se uma
publicação apenas de contos no estilo Lee-Ditko inspirados em
Além da imaginação. Lee tinha decidido que a revista, ainda uma
antologia, seria o playground para ele e um de seus colaboradores
favoritos criarem histórias supostamente mais sofisticadas (ou
seja, “adultas”) do que as das outras. O slogan da publicação era
“A revista que respeita sua inteligência”. Versões cômicas de Lee e
Ditko aparecem, brincando com as percepções dos leitores, na
história da edição n.º 12, “Something Fantastic?”[Algo
fantástico?]. Esse tipo de quebra de paradigmas em todos os
gêneros passou a ser a marca de Lee, que costumava se colocar
dentro dos quadrinhos junto com o artista da própria história — o
que aconteceu mais de uma vez em Millie, the Model —, quase
sempre em uma versão fictícia dos escritórios da editora, o
suposto local onde a equipe criativa passava os dias fazendo
quadrinhos e lidando com malucos, fãs e os personagens
principais de cada aventura.
Ao contrário da maioria das revistas em quadrinhos, Amazing
Adult Fantasy tinha sumário e mensagens do editor/escritor,
textos dirigidos diretamente ao público, cujo linguajar também
presumia que o leitor fosse mais sofisticado do que a média — ou
seja, que talvez tivessem 15 anos, em vez de dez.
* * *
Enquanto isso, a chegada dos anos 1960 trazia mudanças grandes
e pequenas pelo mundo todo.
John F. Kennedy tornou-se presidente dos Estados Unidos em
janeiro de 1961. O incidente da Baía dos Porcos, em abril daquele
ano, sua primeira provação no comando, foi um tremendo fiasco.
Enquanto isso, Kennedy pouco a pouco aumentava o
envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã, sem deixar dúvida
de suas intenções. Longe das atenções norte-americanas, a URSS
concluiu o primeiro voo espacial tripulado, lançando o astronauta
Yuri Gagarin em órbita em 12 de abril de 1961 e devolvendo-o em
segurança para a Terra pouco depois. A corrida espacial já estava
a toda, e os Estados Unidos estavam perdendo! E, como em uma
demonstração de que a Segunda Guerra Mundial não tinha
terminado de verdade — e que nunca terminaria nos quadrinhos
—, o nazista Adolf Eichmann, capturado em Buenos Aires no ano
anterior por agentes do Mossad, foi julgado em Israel, em 1961,
pelos crimes horrendos que cometeu no Holocausto, e foi
executado em 1962.
Na cultura popular, 1961 foi o ano da competição para o melhor
batedor dos Yankees, time de beisebol de Nova York, com uma
disputa acirrada entre Mickey Mantle e Roger Maris. Maris
quebrou o famoso recorde de Babe Ruth naquele outono, mas
demorou mais jogos do que o previsto para conseguir, o que
manchou sua reputação para sempre. Vários quilômetros ao sul do
estádio dos Yankees, um jovem cantor de folk chamado Bob Dylan
começava a ganhar atenção. Os cinemas exibiam uma pluralidade
de filmes, como Amor, sublime amor, O grande amor de nossas
vidas e Ano passado em Marienbad (dirigido por Alain Resnais,
que mais tarde se tornaria amigo íntimo de Lee). Na TV, além dos grandes sucessos de faroeste como Rawhide e Paladino do Oeste, a
audiência amava programas como The Dick Van Dyke Show, The
Many Loves of Dobie Gillis e 77 Sunset Strip. Aos poucos a geração
dos baby boomers criava uma identidade cultural e de mercado.
No mundo dos quadrinhos, os editores começavam a perceber o
interesse por narrativas mais densas e introspectivas. O Super-
Homem, por exemplo, começava a desenvolver uma história, com
o homem de aço de fato refletindo sobre o significado e as
repercussões de ser o último sobrevivente do planeta Krypton,
coisa que mal se dera ao trabalho de notar antes. (Mais ou menos
na mesma época, ele descobriria que não era realmente o último
de sua espécie nem o único sobrevivente, mas, mesmo assim, sua
história levantou o importante argumento de que as sagas de
super-heróis poderiam ter um pouco mais de profundidade.)
Também havia quadrinhos como Our Army at War [Nosso
exército em guerra], da DC — com o novo personagem Sgt. Rock
—, com histórias sobre a Segunda Guerra Mundial, o que foi muito
bem aceito pelo mercado do momento: os filhos dos veteranos de
guerra queriam ler aventuras sobre versões idealizadas de seus
pais. E o mundo real também aparecia nas histórias dos super-
heróis da DC do início dos anos 1960, com os personagens
encontrando versões suas da era da guerra, que viviam em um
mundo paralelo, a “Terra 2”. Essas versões eram bem mais velhas,
mas continuavam formidáveis inimigos do mal. “Flash of Two
Worlds”[o Flash de dois mundos], uma história inovadora da DC,
lançada em 1961, estabeleceu um elo entre o Flash dos
quadrinhos e sua versão da década de 1940. Isso gerou o
reavivamento de vários heróis da DC que tinham feito parte da
vida dos pais dos leitores. As crianças de dez anos foram afetadas por uma onda de nostalgia, uma saudade dos quadrinhos
publicados antes mesmo de nascerem. Algo estava mudando. Algo
na DC gerava nos escritores a vontade de aprofundar as histórias.
Talvez tenha sido a perspectiva mais madura dos criadores e
editores que tinham chegado à meia-idade. Ou, quem sabe, fãs
mais velhos famosos, como Jerry Bails e Roy Thomas, tivessem
despertado uma sensação de identidade e história para esses
heróis.
Na Timely/Atlas, a história era parecida com a de grande parte
da equipe editorial e criativa da DC: Stan Lee, então com 38 anos,
e Jack Kirby, com 43, também eram veteranos da Segunda Guerra.
Lee servira nos Estados Unidos, trabalhando em material de
propaganda, já Kirby presenciara a brutalidade do combate. Os
dois também tinham amadurecido e encaravam a vida com uma
nova perspectiva. Também tinham histórias poderosas para
contar, cheias de emoções complexas. E perceberam que também
queriam passar algumas lições de vida para a geração seguinte.
Mas não estavam trabalhando na DC Comics. Suas histórias
eram publicadas nos quadrinhos sem nome de Martin Goodman,
uma editora sempre avessa aos riscos das inovações de mercado e
que quase saíra do ramo fazia pouco tempo. Uma empresa
comprometida em evitar riscos para garantir a própria
sobrevivência. De qualquer ponto de vista razoável, Lee e Kirby
pareciam estar seguindo o caminho mais sensato possível:
produziam histórias simples, baseadas em gêneros populares dos
filmes e da TV.
Kirby aceitava todo o trabalho de desenho que conseguia. E
recebia quase tudo de Stan Lee, que lhe passava o máximo de
tarefas que pudesse. Lee, por sua vez, se ocupava de construir uma carreira variada, em parte porque não queria se entediar com
o próprio trabalho, mas principalmente para garantir que não
precisaria depender de nenhuma fonte de renda específica.
Apesar dos ônus e bônus de trabalhar para um parente, seu
emprego diário lhe proporcionava o luxo de poder atribuir a si
mesmo todo o trabalho de redação freelancer que conseguisse
aceitar. Apesar disso, os acontecimentos dos últimos anos tinham
deixado claro que aquela situação de emprego não era nem um
pouco estável.
Lee tinha um bom currículo — ainda que nada espetacular —
com tirinhas de jornal, além de poder contar com uma agente que
confiava em seu trabalho a ponto de sempre pleitear suas ideias
com as agências distribuidoras. Além disso, tinha alguma
experiência com autopublicação, o que poderia voltar a fazer caso
surgisse o desejo ou a necessidade.
Era um currículo extraordinário? Não. Mas não era nada mau
para alguém que quase perdera o emprego, poucos anos antes. Lee
tinha uma base sólida sobre a qual podia planejar seus próximos
passos, além de opções e contatos que talvez fossem úteis quando
decidisse exatamente o que faria. O que era ótimo, já que estava
determinado a dar o fora do mundo dos quadrinhos. [ 184 ]
* * *
Até que, um belo dia, no início de 1961, Martin Goodman sugeriu
que seria uma boa ideia tentar voltar a fazer histórias de super-
heróis.