A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 19 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

18. Adeus e olá

“Jack, eu te amo.”

“Bem, Stan, eu sinto o mesmo.”

— Conversa entre Lee e Kirby

na rádio WBAI-FM, em 28 de agosto de 1987

 

N ão foi muito depois do adeus sem cerimônia de Kirby que alguém chegou — meio que de má vontade — à Marvel. Steve Ditko estava de volta. Por quê? Ora, quem sabe? Talvez tenha ouvido falar que Stan andava passando quase todo o tempo na Costa Oeste.

De qualquer forma, Lee fez um anúncio animado na Soapbox de

abril de 1979:

 

Ditko está de volta ao ofício, e ainda por cima na Marvel! Muito em

breve, você poderá ver seu toque artístico mágico em algumas de

nossas maiores revistas! (…) É uma emoção incrível ver um dos

nossos grandes nomes originais voltando a bordo, como a emoção

de quando o Alegre Jack Kirby voltou às cenas de sua antiga glória!

 

(Tecnicamente, embora não tivesse renovado o contrato, Kirby

ainda trabalhava para a Marvel na época, cumprindo algumas

obrigações que restavam e a cargo dos storyboards para o desenho

animado Quarteto Fantástico — o que logo acabaria. Estava na cara

que Kirby não vinha trabalhando com a parte dos quadrinhos.)

E Ditko voltou para valer com a revista Machine Man n.º 10,

publicada em agosto de 1979. (O personagem tinha sido criado

por Kirby em 1977.) Ditko passou um ano trabalhando para a

Marvel — sempre se recusando a desenhar o Homem-Aranha ou o

Doutor Estranho, mesmo que fizessem uma aparição extra em

algum outro título —, depois desapareceu da empresa por um

tempo, até que voltou de novo e teve um trabalho mais ou menos

contínuo até 1996. Nesse período, participou da cocriação da

Garota Esquilo (que, nos anos 2000, tornou-se uma estrela

improvável dos quadrinhos) e do Speedball, um Homem-Aranha

dos anos 1980. Ditko até chegou perto de trabalhar com Lee outra

vez no início dos anos 1990.

* * *

Embora Lee sem dúvida estivesse genuinamente satisfeito por ter

Ditko de volta aos quadrinhos, estava cada vez mais interessado

em outras áreas, ocupado em solidificar a marca da Marvel — e,

por consequência, a própria.

Por exemplo, mais ou menos na mesma época em que o anúncio

de “Ditko está de volta” apareceu na Soapbox, a edição de 29 de

janeiro de 1979 da revista People publicou uma matéria de Barbara

Rowes sobre Lee e sua família. O artigo era intitulado: “Stan Lee, Creator of Spider-Man and the Incredible Hulk, is America’s

Biggest Mythmaker” [Stan Lee, criador do Homem-Aranha e do

Incrível Hulk, é o maior criador de mitos dos Estados Unidos]. [

368 ]

O artigo era o sonho de todo assessor de imprensa, uma

dedicatória de amor para Lee e para a fantasia de viver na

glamorosa Nova York, que, em 1979 — nas profundezas do

declínio econômico que a cidade sofreu na década de 1970,

apenas alguns anos após a quase falência e a infame manchete do

Daily News: Ford to City: Drop Dead [O presidente Ford sobre a

cidade: “Morram de uma vez”] —, era a narrativa de uma

realidade alternativa em que Lee estava perfeitamente preparado

para assumir o papel principal.

Depois de descrever Lee ditando ideias para um minigravador

em casa, à meia-noite, a matéria o acompanhava na manhã

seguinte:

[Lee] segue pela Terceira Avenida, repleta de butiques. Seu rosto

masculino e viril apresenta um leve bronzeado e relativamente

poucas rugas para seus 56 anos. Ele inclusive se gaba do abdome

liso e “duro como ferro”.

 

Como a mídia costumava fazer com Lee, o artigo ignorava o

humor de suas declarações, como dizer que tinha o abdome “duro

como ferro”, o que, para quem não o conhecia, o retratava mais

como um egocêntrico do que um adepto do humor

autodepreciativo.

Depois de descrever Lee como uma espécie de figura mítica (na

reportagem, Jenette Kahn, editora da DC, se refere a ele como “o

super-herói de carne e osso da indústria dos quadrinhos dos Estados Unidos”), a autora, Rowes, estabelece os louros da

Marvel:

 

Com mais de US$ 25 milhões por ano em vendas, [a Marvel] é a

maior e mais bem-sucedida empresa do gênero no mundo (…)

 

Então, ela observou que Lee passava grande parte do tempo

“supervisionando a transição de seus personagens para outras

mídias”.

Em outra simplificação costumeira, mas que sempre rendia

críticas ao quadrinista, Rowes se referiu ao Homem-Aranha e ao

Hulk (e, por implicação, a todos os personagens da Marvel) como

“personagens de Lee”, ignorando a existência de artistas

colaboradores.

E então, como se aquele sujeito, o cara mais legal do mundo, já

não tivesse o emprego mais legal da história, o artigo continuava:

 

Com tantas bandas famosas fascinadas pelos heróis dos

quadrinhos, Stan se tornou o Werner Erhard do mundo do rock.

 

Erhard foi o fundador do Erhard Seminars Training (EST), um

treinamento popular na época que visava ensinar as pessoas a

melhorarem a própria vida. Werner era muito conhecido no início

de 1979, ainda que fosse uma figura controversa. Mesmo assim, a

comparação era muito benéfica para Lee.

Em seguida, o texto abordava um pouco da dura realidade do

mercado dos quadrinhos:

Um dos motivos para a lealdade de quarenta anos à Marvel pode

ser porque (…) Lee não detém os direitos sobre nenhum de seus

heróis. São todos da empresa. Pedir demissão seria o mesmo que

abandonar suas criações.

 

Enquanto descreve como Lee, já no escritório da Marvel,

atendia ao pedido urgente de John Romita (descrito como “a

pessoa que desenha o Homem-Aranha”) para que ele esclarecesse

um detalhe da história, Rowes acrescenta uma adorável

observação:

 

[Lee] pega um lenço de papel e assoa o nariz. “Estou sempre

resfriado”, reclama. “E, mesmo quando não estou resfriado, pareço

estar.”

 

Claro que ninguém esperava que a revista People fizesse uma

exposição abrasadora sobre Lee ou os quadrinhos. Mas a matéria

dava continuidade à narrativa que tanto irritara alguns dos

colaboradores da Marvel: a ideia de que Lee criara aqueles

famosos personagens por conta própria, sem nenhuma ajuda.

Ao mencionar Romita várias vezes, o artigo reconhecia que, em

pelo menos um caso, não era Lee quem desenhava os quadrinhos.

Mas não seria culpa do leitor se terminasse a matéria pensando

que Lee criara todos os personagens sozinho.

Será que Stan tentara deixar claro para a repórter — que, por

sua vez, é culpada por não ter tomado nota — que todo o seu

trabalho nos quadrinhos era feito com colaboradores de criação?

Se tentou ou não, não é difícil imaginar alguns de seus parceiros artísticos ou outros funcionários da Marvel um pouco irritados

com o artigo.

* * *

Conforme o editor-chefe Jim Shooter consolidava seu poder e

gerava controvérsia, os quadrinhos da Marvel foram começando a

sair dentro do cronograma, e a qualidade geral melhorou — talvez

tenha eliminado alguns momentos de alegria e exaltação, mas pelo

menos diminuiu a frequência de gritos e desespero. A gerência de

Shooter teve muitos adeptos leais, mas também uma boa parcela

de detratores. Apesar de se manter firmemente agarrado às suas

funções administrativas, Shooter fez uma campanha intensa em

prol dos direitos dos criadores, inclusive fazendo com que a

Marvel instituísse um programa de incentivos (nunca chamado de

“royalties”) para os artistas. Isso, é claro, dava sequência à

tradição da Marvel de seus editores terem um pé no mundo da

administração e outro no mundo da criação freelance, tentando

sempre servir a dois mestres. E qual era o problema? Se os super-

heróis podem ter dupla identidade, por que os criadores de

quadrinhos não podem? Seu programa de incentivos acabaria

tendo consequências importantíssimas, ainda que não

intencionais.

Shooter defendia com firmeza a crença de que os escritores não

deveriam ser editores das próprias revistas. Embora permitisse e

até incentivasse a lista cada vez maior de editores a fazer trabalho

de escrita freelance após o expediente, nenhum editor tinha

permissão de atribuir trabalho a si próprio. Jack Kirby, um dos

poucos escritores/editores que restavam, já saíra da editora e

passara a trabalhar com animações. Com isso, as únicas pessoas

ainda autorizadas por contrato a supervisionar seu próprio material eram Wolfman e Thomas. Suas personalidades e valores

em geral iam ao encontro dos de Shooter, mas, quando havia

conflito, Lee apoiava o editor-chefe.

Shooter era acolhedor e ajudou a cultivar e desenvolver novos

talentos — gente como Frank Miller e Bill Sienkiewicz —, além de

dar liberdade e oportunidade a talentos já estabelecidos, como

Tom DeFalco e J.M. De-Matteis. Mas as pessoas que caíam em

suas graças logo o desagradavam, muitas vezes sem entender o

motivo da mudança brusca. Os escritórios da Marvel eram uma

estranha mistura de regras rígidas, com o equilíbrio mantido por

riscos calculados. Os quadrinhos produzidos eram fáceis de ler,

mesmo que não fossem sempre geniais, saíam dentro do prazo

prometido e vendiam bem.

O reinado de Shooter coincidiu com a expansão contínua do

mercado de vendas diretas e a evolução do perfil demográfico do

público consumidor que se seguiu a essa expansão. Em resumo, o

que acontecia era que as lojas especializadas em quadrinhos

atendidas pelas vendas diretas recebiam mais descontos do que as

tradicionais bancas de jornais e mercadinhos. Em troca desse

preço mais baixo, renunciaram aos privilégios de devolução — o

que era bom, já que também lucravam com a venda de edições

passadas. Nessa época, o público consumidor era mais velho —

muitos com cerca de vinte ou trinta anos — e estava mais

interessado do que os leitores das décadas anteriores em

quadrinhos com assuntos e temas relativamente mais sofisticados.

Os editores estavam menos hesitantes em correr riscos com as

publicações, pois sabiam que tudo que imprimiam e enviavam —

um cronograma organizado com base em pedidos feitos com

antecedência e especificados — não podia ser devolvido.

Claro que as lojas estavam ansiosas para vender os grandes

sucessos, mas tinham passado a também poder vender material

incomum, como graphic novels mais literárias de editoras de todos

os tamanhos ou até autopublicações, que não visavam lucrar tanto

quanto as corporações multinacionais. Mais do que nunca,

talentos específicos vendiam tanto quanto personagens

conhecidos do grande público — o que se tornaria cada vez mais

relevante para a indústria dos quadrinhos, especificamente para

Stan Lee.

* * *

Aumentando os fatores desconhecidos daquele mercado em

constante mudança, as disposições da Lei de Direitos Autorais de

1976 entraram em vigor em 1.º de janeiro de 1978. A Marvel

emitiu um acordo de uma só página, exigindo a assinatura de seus

freelancers. O contrato afirmava que todo trabalho que fizessem

pela Marvel era um contrato específico cujos direitos

pertenceriam para sempre à empresa. Neal Adams, à época

empenhado na briga pelos direitos de Jerry Siegel e Joe Shuster,

escreveu no tal acordo um aviso para que ninguém o assinasse, e

divulgou sua versão entre os outros criadores. Ele convocou uma

reunião do que esperava que se tornasse uma espécie de sindicato

dos criadores de quadrinhos. Escritores, artistas e alguns editores

compareceram à reunião de 7 de maio, que pareceu começar bem.

Só que a ideia de sindicalizar não levou a lugar algum. Muitos

tiveram que assinar o acordo — uma exigência tanto da Marvel

quanto da DC —, sob o risco de não receberem mais trabalho.

Em 22 de junho, a DC Comics passou pelo que viria a ser

lembrado como “a implosão da DC”. Muitos títulos foram

cancelados, muitos freelancers de repente se viram sem trabalho, e vários editores foram dispensados. As pessoas correram para a

Marvel, dispostas a assinar o acordo.

Shooter se aproveitou do argumento de que quase todos os

freelancers tinham assinado o documento para instituir vários

planos de incentivos (embora a DC tenha começado com a

iniciativa, forçando a Marvel a fazer o mesmo), até que optou por

um plano em que os incentivos eram pagos com base em um

conjunto de parâmetros de vendas. Pela primeira vez na história,

quando um quadrinho vendesse bem o suficiente, o escritor, o

desenhista e o colorista ganhariam uma quantia significativa

acima e além das taxas de página. Chris Claremont, escritor de X-

Men, por exemplo, usou os pagamentos de incentivo para comprar

uma casa para si e um avião de pequeno porte para a mãe, que era

piloto. Esse sistema de incentivos causou mudanças mais

significativas do que qualquer um poderia imaginar.

* * *

A vida seguia seu fluxo nos escritórios de Nova York, e Lee

passou boa parte de 1978 e 1979 na Califórnia, trabalhando em

projetos como o desenho animado do Quarteto Fantástico e o da

Mulher-Aranha (baseado em um personagem que Archie

Goodwin e Marie Severin criaram em 1976). Ambas as séries

foram produzidas por DePatie-Freleng. Durante esse período, Lee

chegou a encontrar tempo — e motivação — para tirar o

comentarista social da caixinha onde estivera guardado.

Nos quadrinhos de outubro de 1978, Lee anunciou, em sua

Soapbox, que, em um discurso que fizera recentemente na “boa e

velha Universidade James Madison, em Harrisonburg, Virgínia

(…) [um aluno] me lembrou de uma promessa que fiz uma década

atrás! Ele disse que prometi que, no final dos anos 1960, criaria uma coluna intitulada ‘What is a Bigot?’ [O que é fanatismo?]”.

Lee então apresentou sua definição:

 

Do meu ponto de vista, fanatismo é uma das muitas manchas na

honra da humanidade, algo que deve ser erradicado antes que

possamos nos considerar verdadeiramente civilizados. (…) É mais

fácil de ser reconhecido nas generalizações mais cruéis e

irracionais. (…) [E] os papagaios que repetem essas coisas (…) são

pura e simplesmente fanáticos!

 

E, nos Bulletins de março de 1980, depois de anunciar a segunda

temporada da série de TV do Capitão América (“Dei uma olhada

no roteiro e posso dizer que será uma das histórias mais

emocionantes, adultas, cheias de suspense e superespetaculares

que a Marvel já teve o prazer de lhe mostrar!”) e seu novo livro

sem relação com a Marvel, The Best of the Worst [Os melhores

entre os piores] — um apanhado de pequenos fatos e

pensamentos —, ele anunciou: “Andei recebendo muitas cartas

querendo saber minha opinião sobre religião. Embora eu ache que

não deva usar este pequeno palanque desajeitado para expor

minhas opiniões sobre um assunto tão pessoal, gostaria de

mencionar um ponto de vista mais geral e sem nenhuma relação

religiosa específica.” E continuou:

 

Acho muito difícil acreditar que o milagre deste universo em

constante desenvolvimento (…) tenha acontecido por acaso!

Acredito que exista alguma entidade muito mais sábia e mais

poderosa que nós. Sinto que deve haver algum propósito (…) por

trás do tecido místico da existência mortal.

Fora essas notáveis exceções, o Stan Lee filósofo ficaria cada vez

menos em evidência, já que sua carreira e sua vida pessoal

passaram a se concentrar cada vez mais em Hollywood. Além de

passar mais tempo por lá, nos Bulletins de janeiro de 1980, Lee

anunciou:

 

A poderosa Marvel está tão envolvida com o show business que

tive que me mudar para Los Angeles por um tempo para montar

uma sede de produção de filmes aqui na Costa Oeste!

 

O desejo de Lee de sair de Nova York só aumentou quando seu

apartamento no Upper East Side foi assaltado enquanto ele e Joan

viajavam pela Costa Oeste. Como escreveu em uma carta a Alain

Resnais, de 23 de maio de 1979:

 

Tentamos não pensar muito nisso, mas é a coisa mais deprimente e

estressante que se pode imaginar. É um dos motivos por que

estamos considerando juntar as malas e vir definitivamente para

Los Angeles, se pudermos. [ 369 ]

 

E, embora em breve fosse de fato se mudar para Los Angeles

pelo resto da vida, o trabalho por lá implicava em um aprendizado

longo e frustrante enquanto ele se reunia com os figurões de

Hollywood para “apresentar as maravilhas da Marvel”. E, embora

o mundo do cinema tenha permanecido fechado para a Marvel —

apesar do sucesso da série Hulk e, em menor grau, da série

Homem-Aranha —, o mundo dos desenhos animados das manhãs

de sábado, sempre ansioso por material, parecia acolher os personagens e Lee. A Marvel de fato acabou criando o próprio

estúdio de animação.

A empresa comprou o estúdio DePatie-Freleng, que produzia O

Quarteto Fantástico e Mulher-Aranha, e começou a criar várias

séries de desenhos animados. E só alguns com personagens

conhecidos da Marvel, como Homem-Aranha e seus incríveis

amigos e O Incrível Hulk. (Inclusive, era Lee quem narrava os

episódios da série Homem-Aranha.) A principal produção do

estúdio foi com propriedades de outras empresas, como

Comandos em ação e Transformers, que foram muito lucrativos,

mas não ajudaram a solidificar a marca Marvel.

Apesar de ter se estabelecido em um apartamento em Los

Angeles, Lee viajava de um lado para o outro, ainda trabalhando

como editor da Marvel na Costa Leste enquanto tentava abrir mais

espaço para os personagens da empresa na Costa Oeste. Lee

estava ansioso para delegar todos os aspectos da produção de

quadrinhos para Shooter, mas as controvérsias geradas pelas ações

do editor-chefe exigiam sua atenção, sobretudo nas questões

relativas a Roy Thomas e Marv Wolfman, que logo partiriam para

a DC, sentindo que não tinham escolha, considerando as

exigências de Shooter — apoiado por Lee e Jim Galton.

No fim de 1979, os conflitos internos na Marvel eram tão

famosos que acabaram em um artigo de N.R. Kleinfield na edição

de 13 de outubro do New York Times. O artigo, intitulado

“Superheroes’ Creators Wrangle” [Disputa entre criadores de

super-heróis], contava da insatisfação de Thomas e Wolfman com

o status quo, para então afirmar:

Dois outros funcionários da Marvel escreveram ao presidente da

Cadence Industries, empresa-mãe da Marvel, desabafando que os

quadrinhos estavam perdendo prioridade dentro da empresa. Stan

Lee, editor da Marvel, convocou uma reunião de equipe em que,

entre outras coisas, enfatizou que os quadrinhos ainda eram o

carro-chefe da empresa. [ 370 ]

 

A ironia era que, para o próprio Lee, os quadrinhos passavam a

ser cada vez menos “o carro-chefe”, embora ainda escrevesse

muitos.

Em 1979, Lee escreveu o roteiro da primeira edição do

quadrinho The Savage She-Hulk, apresentando a Mulher-Hulk,

que no Brasil só figurou em edições especiais. A história, um spin-

off da revista O Incrível Hulk, foi pensada tanto para capitalizar a

popularidade da série de TV do Hulk quanto para impedir que a

produtora da série criasse (e, por consequência, tivesse

propriedade intelectual sobre) uma versão feminina do

personagem. Durante esse período, Lee também escreveu uma

história curta do Surfista Prateado, desenhada por John Buscema

e Rudy Nebres, que figurou na primeira edição da Epic Illustrated,

editada pelo recém-recontratado Archie Goodwin, uma resposta

da Marvel à artisticamente ambiciosa revista Heavy Metal.

Em geral, Lee continuaria escrevendo histórias para a Marvel

periodicamente, embora sua produção nos quadrinhos estivesse

focada na popular tirinha Homem-Aranha.

* * *

A Marvel Productions — novo nome do estúdio DePatie-Freleng

— produziu desenhos animados de sucesso sem relação com os quadrinhos da Marvel, o que não impediu Lee de gastar seu tempo

tentando vender ideias para outras produtoras. O produtor Chuck

Lorre, uma força criativa por trás de séries de sucesso como The

Big Bang Theory e Two and a Half Men, relembrou, em um

pequeno ensaio chamado “Remembrance”[Memorial], escrito

logo após a morte de Lee, em 2018, a época em que trabalhava

com ele na Marvel Productions. Sobre Stan, ele relatou:

 

Saía do escritório, dia após dia, carregando roteiros (…)

determinado a convencer algum estúdio de cinema, qualquer que

fosse, a levar os personagens de quadrinhos da Marvel (…) para a

telona. E ninguém estava interessado. Ninguém mesmo. Mas Stan

continuou tentando. (…)

Você mostrou a eles, Stan! [ 371 ]

 

A Marvel Productions, sobretudo depois da contratação da

influente executiva de criação Margaret Loesch, veio a se tornar

um dos estúdios de animação mais bem-sucedidos de Hollywood,

mas o envolvimento de Lee com suas várias séries — sobretudo as

que não eram de propriedade intelectual da Marvel — foi bem

limitado. Ainda assim — ou talvez por causa disso —, Lee parecia

estar sempre ocupado, tentando vender os personagens da

Marvel, mesmo que com pouco sucesso.

Como observou John Semper Jr., colega de Lee na Marvel

Productions:

 

[Stan] era um cara com muita energia e uma vontade incrível de

fazer as coisas, mas não havia nada para ele fazer. (…) Ninguém

queria comprar nada dele, que não passava de uma celebridade

antiga. (…) Nenhum estúdio de cinema queria mexer com as coisas

da Marvel, que eram só histórias em quadrinhos bobas, nada dignas

de estúdios de cinema sérios. Ninguém queria fazer filmes bobos de

quadrinhos. (…) Stan podia ainda ser reverenciado no mundo dos

quadrinhos, mas, no mundo do entretenimento, não era nada. [ 372

]

 

Depois que Loesch foi para a Marvel Productions, a empresa

virou um ímã de talento criativo. Loesch acreditava muito em Lee

e na Marvel, mas nem mesmo ela conseguiu vender uma série

com os famosos personagens dos quadrinhos. Claro que a história

mudou drasticamente em 1991, mas, na década anterior, Lee

ainda estava à procura de um nicho em Hollywood, pois

certamente não queria voltar à rotina de publicar histórias em

quadrinhos. Semper relata uma reunião com Lee, nos anos 1980:

 

Tivemos um momento a sós [durante uma reunião com o editorial

da Marvel em Nova York], e ele disse que realmente não gostava de

voltar para lá e de estar na Marvel. (…) Aquilo o deprimia. (…)

Disse que não era onde queria estar. Lee não queria voltar a Nova

York. (…) Não queria fazer nada relacionado aos quadrinhos, e

ponto final. [ 373 ]

 

E, de fato, em 1980, Lee só era editor no papel. Michael Z.

Hobson tinha sido contratado como vice-presidente do setor de

publicação e estava cuidando dessa parte de negócios, enquanto

Jim Shooter gerenciava o editorial. O currículo de Lee desse

período apresenta uma grande variedade de projetos. Para citar

alguns exemplos:

Em 1982, escreveu o roteiro de uma história do Surfista

Prateado que foi desenhada por John Byrne, com arte-final de

Tom Palmer. Ele fez o roteiro da revista anual Amazing Spider-

Man de 1984, que contou com desenho de DeFalco e arte de Ron

Frenz, Bob Layton e Butch Guice — a edição apresentava o

casamento de J. Jonah Jameson. Lee foi consultor e narrador da

série animada Homem-Aranha e seus incríveis amigos. Ele escreveu

pelo menos uma versão cinematográfica de Homem-Aranha para

o produtor Roger Corman e uma de Surfista Prateado para o

produtor Lee Kramer, sugerindo estrelar a então namorada de

Kramer, Olivia Newton-John. E Lee de fato foi a incontáveis

reuniões para tentar vender seus projetos.

* * *

Enquanto Lee se ocupava com seus muitos projetos, o conflito ia

se instaurando entre Jack Kirby e a Marvel. A editora de

quadrinhos havia pouco tempo passara a devolver os originais aos

artistas que as criaram, e, depois de um tempo, começou a

devolver os originais que tinham sido armazenados desde a

década de 1960 aos coloristas e arte-finalistas que tinham

trabalhado no material. Quase todos os artistas eram obrigados a

assinar um documento bastante simples que, essencialmente,

reiterava que a Marvel detinha os direitos de propriedade sobre os

personagens e todo o material. No entanto, o documento que

pediram que Kirby assinasse era muito mais longo e complexo,

projetado para garantir que ele nunca tentaria reivindicar os

direitos de propriedade intelectual sobre os personagens que

criara com Lee.

Como tinha assinado vários desses documentos ao longo dos

anos, Kirby considerava aquele novo acordo uma mera redundância. Mas, mais do que isso, o artista julgou que aquela era

uma medida ofensiva e punitiva. A empresa já devolvera os

originais de seus trabalhos da década de 1970 sem que ele

assinasse aquela renúncia especial, mas queria garantias extras em

relação aos quadrinhos que tinham apresentado e estabelecido os

personagens que vieram a construir o fenômeno Marvel. Além

disso, das milhares de páginas que Kirby escrevera para a empresa

nos anos 1960, a Marvel prometia devolver menos de cem.

Mesmo que certa porcentagem de páginas fosse para o colorista

de cada história, o número oferecido ainda era apenas uma fração

de seu trabalho. A Marvel alegava que o restante das páginas tinha

sido perdido, roubado, destruído ou doado.

Esse conflito sobre a arte se tornou um assunto muito polêmico

e controverso nas comunidades de fãs e profissionais. Muitos se

perguntaram por que Lee não intervinha para fazer justiça por

Kirby. Lee, por sua vez, alegava que não tinha controle nenhum

sobre a situação, que era tudo resultado de decisões corporativas

e requisitos dos advogados para que a empresa se sentisse segura

com a propriedade e o controle dos personagens. As negociações

com Kirby foram interrompidas, sem nenhum dos lados disposto

a ceder. [ 374 ]

* * *

Em 1986, apresentando-se com Shooter em um painel de

convenções de quadrinhos em Chicago, Lee prometeu que o

Homem-Aranha das tirinhas de jornal se casaria com Mary Jane

Watson, um relacionamento de longa data. Shooter também

concordou em fazer com que o casal se casasse nos quadrinhos.

Ambos os casamentos aconteceriam no ano seguinte. Para comemorar, em 5 de junho de 1987, Lee foi a Nova York

oficializar o falso casamento de atores vestidos como Homem-

Aranhae Mary Jane, realizado antes de um jogo do New York

Mets, em um Shea Stadium lotado. Vale lembrar que o estádio fica

no Queens, distrito natal de Peter Parker.

No ano anterior, em 1.º de agosto de 1986, estreara o filme

Howard, o super-herói. Depois de anos tentando lançar um filme

da Marvel nas telas de todo o país, parecia que aquela produção —

do próprio George Lucas — poderia finalmente ser o veículo para

levar a Marvel a seu lugar de direito em Hollywood.

Infelizmente, a película foi um desastre de crítica e público,

chegando às listas dos piores filmes de todos os tempos. Lee não

estava muito envolvido na produção, mas aquilo certamente não o

ajudou a inspirar a crença no potencial comercial dos personagens

da Marvel para longas-metragens.

Também em 1986, a Marvel comemorou o 25.º aniversário do

Quarteto Fantástico — e, portanto, da Marvel moderna — com

capas especiais nas revistas de novembro (O Quarteto Fantástico

n.º 1 foi lançado em novembro de 1961), que deram uma

aparência muito distinta aos quadrinhos daquele mês. Outra

medida da editora para celebrar o aniversário foi criar o Novo

Universo, uma linha de quadrinhos ambientada em uma realidade

alternativa à que continha os personagens já conhecidos. O Novo

Universo foi um experimento fracassado, pois muitos o

consideraram uma maneira estranha de comemorar aquele marco

da Marvel, já que basicamente ignorava o fato de que o universo

principal estava completando um quarto de século. De qualquer

forma, Lee quase não se envolveu nessas comemorações, a não ser por escrever o roteiro de uma das páginas da história de Quarteto

Fantástico daquele mês.

Naquele verão, Shooter relatou ter visto Lee e Kirby apertando

as mãos e conversando amigavelmente na festa do 25.º aniversário

do Quarteto Fantástico, na Comic-Con de San Diego, apesar de

Lee ter cortado a mão pouco antes do encontro e do corte estar

sangrando muito por baixo do curativo improvisado.

Como Shooter descreveu:

 

Foi o ápice de Stan Lee. (…) Ele ofereceu a mão, que Jack apertou…

E aí teve que limpar o sangue na mão de Jack com o lenço. (…)

Depois, Stan disse: “Eu queria, uma última vez… Não me importo

com quem vai ser o dono ou quem ficar com o crédito, mas eu

queria fazer uma história com você.” (…) E Jack disse que também

queria… Então, Roz [a esposa de Kirby] interveio, dizendo: “Pode ir

parando por aí.” [ 375 ]

 

Quando Lee oficializou o casamento do Homem-Aranha, um

ano depois, a Marvel tinha sido comprada pela New World

Entertainment, que, após uma série de conflitos, demitiu Shooter

e o substituiu por Tom DeFalco. DeFalco e Galton conseguiram

entrar em acordo com Kirby — e também deram um jeito de

encontrar milhares de outras páginas da arte original do

quadrinista — e a crise chegou ao fim. [ 376 ]

* * *

Em 28 de agosto daquele mesmo ano, foi o aniversário de setenta

anos de Jack Kirby. Naquele dia, o artista — por telefone, já que

estava na Califórnia — era homenageado no programa Earthwatch, da rádio WBAI, organizado por Robert Knight, Max Schmid e o

anfitrião convidado — e ex-funcionário da Marvel — Warren

Reece. Lee, que estava em Nova York, foi chamado como

convidado surpresa por telefone. Quando Knight perguntou como

era trabalhar com Stan Lee na animada editora, que Lee apelidara

de Merry Marvel Marching Society, Kirby, que não parecia saber

do convite, respondeu: “Não achei nada animado. (…) Eu dava

minhas ideias, recebia meu dinheiro e voltava para casa.” Quando

discutiram o processo de criação das histórias, Kirby relatou: “Eu

criava as situações [das histórias] (…) tudo era meu, exceto as

falas nos balões.”

Quando Reece pediu que Kirby contasse das “lendárias reuniões

sobre as histórias” que tivera com Stan, “com gente pulando nas

mesas e essas coisas”, Kirby respondeu: “Não era nada disso.

Talvez fosse assim depois que eu saía pela porta e ia para casa.”

Enquanto Kirby dava essas respostas amargas, Lee estava na linha,

esperando para entrar no ar.

Knight então declarou: “E chegou a hora de anunciar o

convidado muito especial que temos para o programa de hoje, seu

velho amigo de guerra, Stan Lee.”

Tentando ser educado, Kirby disse: “Ora, Stanley, quero

agradecer por ter ligado, e espero que esteja bem de saúde e

continue assim.”

Depois de alguns momentos de conversa constrangedora, Lee

arrematou com um elogio um tanto duvidoso: “Na minha opinião,

ninguém sabia transmitir a emoção e o drama como você fazia. Eu

não me importava com o desenho todo estranho, porque não era

relevante. A arte transmitia muito bem seu ponto de vista, e

ninguém nunca conseguiu desenhar um herói como você.”

Lee continuou: “O que quer que a gente fizesse junto, não

importa quem fazia o que — e acho que isso será tema de debate

para sempre —, acho que alguma mágica acontecia quando

trabalhávamos juntos.”

Kirby respondeu com seu próprio elogio duvidoso, dizendo a

Lee: “Foi uma ótima experiência para mim, e o produto final com

certeza era de qualidade, o que me deixava muito satisfeito. (…)

Uma das principais razões para o meu grande respeito por você é

o seu imenso profissionalismo e o fato de que você sem sombra

de dúvida sabe apreciar um material de qualidade.”

Não era uma afirmação muito elogiosa, mas pelo menos Kirby

se esforçou para se manter educado.

Poucos minutos depois, no entanto, quando parecia que a

conversa continuaria razoavelmente agradável, Reece comentou:

“Seria interessante saber se o discurso de saída de Galactus na

edição n.º 50 de Quarteto Fantástico era um exemplo do diálogo

criado por Jack ou por Stan, mas vocês…”

Lee interveio: “Ah, posso dizer o seguinte: todas as palavras de

diálogo nesses roteiros eram minhas.”

A isso, seguiu-se uma discussão acalorada:

 

KIRBY: Eu não tinha permissão para escrever…

LEE: Você chegou a ler alguma das histórias depois de pronta? Eu

acho que não. Acho que você nunca leu nenhuma das minhas

histórias. (…) Você nunca lia as revistas depois de prontas.

KIRBY: Eu escrevia o diálogo na minha prova. (…) Então, o que

quer que fosse escrito depois era, bem… Ah, você sabe, era na ação

que eu estava interessado.

LEE: Na minha opinião, você nunca achou que o diálogo fosse

importante. Acho que você pensava: “Ah, não importa, qualquer um

pode inserir o diálogo, o que eu estou desenhando é que importa.”

(…) E eu discordo, mas talvez você esteja certo.

KIRBY: Só estou tentando dizer que… se a pessoa escreve, desenha

e faz os quadrinhos… Acho que deveria ter a oportunidade de fazer

a coisa toda.

 

Knight, Schmid e Reece fizeram o possível para salvar o

programa, depois que Lee encerrou assim:

 

LEE: Só quero dizer que acho que Jack fez o que, na minha opinião,

foi um tremendo marco da cultura dos Estados Unidos, se não da

cultura mundial, e espero, daqui a dez anos, ouvir uma homenagem

ao seu aniversário de oitenta anos. E espero também poder ligar

(…) e lhe desejar tudo de bom. Jack, amo você.

KIRBY: Bem, Stan, eu sinto o mesmo. Muito obrigado, Stan.

[Aqui, Lee desligou.]

KIRBY: Agora dá para entender como as coisas eram. [ 377 ]

 

Apesar de os conflitos de Kirby com a Marvel e Lee não serem

nenhum segredo, Knight e Reece — e talvez até o próprio Lee —

pareciam querer manter nos fãs a esperança de que em uma

analogia a como alguns filhos se sentem a respeito dos pais

divorciados, os dois se reconciliariam e voltariam a se reunir, ou

que pelo menos conseguiriam se comportar em um aniversário.

Em vez disso, como com qualquer casal separado em que um dos

parceiros quer a reconciliação, mas o outro, não, o “Jack, amo

você” de Lee foi recebido com uma resposta bem menos que apaixonada: “Bem, Stan, eu sinto o mesmo.” Ainda assim, a

declaração de Lee não foi rejeitada por Kirby — mais do que isso:

foi correspondida, ainda que com um pouco de hesitação. Mais

uma vez, o relacionamento dos dois se revelava realmente

complexo.

Ficou claro pelo desenrolar do espetáculo que, não importava o

quanto Lee tentasse mergulhar em Hollywood e deixar o passado

para trás: o passado tinha suas próprias ideias de como deveria ser

tratado.

E a pergunta que implorava por resposta era: será que Lee

poderia usar o passado a seu favor e criar um futuro positivo, ou

será que o passado voltaria para consumi-lo?