A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 1 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

Prefácio

P ergunte a qualquer fã de cultura pop quais são seus três quadrinistas favoritos. É muito provável que respondam: Stan Lee. E então vão parar por aí. Stan Lee é o único quadrinista que a maioria conhece. Essas mesmas pessoas provavelmente conseguiriam nomear dez diretores ou escritores famosos. Talvez até dez pintores. Mas

 

quadrinistas? Só Stan Lee.

O que é estranho, por vários motivos.

Primeiro que Lee era escritor, editor, diretor de arte e editor-

executivo de quadrinhos — ou comics, como está na moda

chamar. E, mesmo com todo esse currículo e a natureza visual das

histórias que publicou, Lee não era desenhista profissional (ainda

que tivesse um talento acima da média na arte dos rascunhos). Ele

não era desenhista de quadrinhos.

Sem falar que, embora estivesse envolvido com alguns dos

personagens e marcas mais populares e lucrativos da indústria do

entretenimento — como o Homem-Aranha, os Vingadores e os X-

Men —, Lee não desenvolveu os personagens nem desenhou suas

aventuras. Ele precisava de artistas para isso, e trabalhou junto de

pessoas incrivelmente talentosas para criar os heróis mais

famosos da Marvel.

Seus parceiros mais notáveis foram Jack Kirby e Steve Ditko. E é

de se pensar que, tendo um papel tão relevante para dar vida aos

personagens e às suas aventuras, esses dois deveriam ser tão

famosos quanto Lee, não é mesmo? Pois não são.

Além da fama associada aos personagens, simplesmente seria

lógico pensar que, já que a imagem de Lee passou mais de 75 anos

associada à Marvel (que antes era conhecida como Timely, depois

como Atlas), ele devia ser um dos donos da empresa; que uma

fração de cada ingresso vendido para um dos filmes da Marvel ia

diretamente para o seu bolso.

Mas isso também não é verdade. Lee sempre foi funcionário da

empresa — e era muito bem pago, obviamente, só que não era

dono de nem 1% da propriedade intelectual dos personagens que

ajudou a criar.

Mesmo assim, querendo ou não, Lee virou o rosto e a voz não

apenas dos quadrinhos da Marvel, mas também de toda a

indústria de quadrinhos.

Essa fama teve início com o enorme sucesso das revistinhas da

Marvel entre os anos 1961 e 1970, quando foram criados os

personagens mais famosos da marca, parte de uma virada cultural

que incluía James Bond, Kurt Vonnegut, Betty Friedan, Mickey

Mantle, Muhammad Ali e os Beatles. Foram dez anos de sucesso

em uma vida que durou mais de 95, com quase oitenta de carreira.

Então, fica a questão: o que, no começo da vida e nos vinte

primeiros anos de carreira de Stan Lee, permitiu sua explosão sem

precedentes na cultura pop? E, depois de revolucionar

completamente essa cultura… o que restava para ele fazer?

* * *

Lee personificou a clássica história de sucesso norte-americano.

Fruto da Geração Grandiosa e filho de judeus imigrantes que

viviam na pobreza, Lee, nascido em 1922, sobreviveu à Grande

Depressão, serviu no Exército durante a Segunda Guerra Mundial

e enfim encontrou seu lugar nos quadrinhos, uma mídia que na

época era desprezada, palco da disputa entre golpistas e

gângsteres, que batalhavam por cada centavo.

Dotado de uma personalidade carismática e envolvente, além de

muita inteligência e criatividade, Lee ascendeu ao cargo de editor-

chefe da Timely/Atlas/Marvel, que, nos anos 1940 e 1950, era

uma das produtoras de quadrinhos mais prolíficas dos Estados

Unidos. Stan Lee tinha um salário respeitável de classe média e

morava com a esposa e a filha em uma casa no subúrbio.

Mas estar no topo da cadeia alimentar de uma indústria de

entretenimento que, na melhor das hipóteses, era ignorada por

qualquer pessoa acima de 14 anos — quando não odiada — era

uma faca de dois gumes.

Lee não recebia o respeito dedicado a profissionais como os

advogados, e sua carreira não tinha o glamour da de um

publicitário ou de um produtor de cinema. Apesar de ter alguma

vontade de escrever um romance ou de fazer algo digno de nota

— como seu primo, o diretor Mel Stuart (de Willy Wonka), ou

como o dramaturgo e roteirista Paddy Chayefsky (Marty), seu

colega de classe —, Lee estava preso à rotina confortável de um

trabalho bem remunerado e até interessante.

Então, em 1961, já perto dos quarenta anos, trabalhando havia

vinte na indústria dos comics, Stan Lee entrou na clássica crise da

meia-idade dos norte-americanos.

Entediado, porém levando uma vida confortável, e feliz por ter

sobrevivido a uma recente crise no mercado de quadrinhos, Lee

(com os cocriadores Kirby e Ditko) criou uma abordagem mais

atual e “realista” às histórias de super-heróis — e a ideia agradou

aos leitores. Esses novos heróis se comportavam mais como eu ou

você nos comportaríamos caso tivéssemos superpoderes. Podiam

até tentar fazer a coisa certa, mas suas falhas humanas volta e

meia frustravam seus planos.

Lee decidiu reunir essas histórias sob a marca Marvel. Claro que,

na época, ele não fazia ideia se a popularidade da marca

perduraria ou se seria apenas mais uma moda passageira da

cultura pop, como os bambolês.

E foi aí que eu entrei.

* * *

Eu fui um dos baby boomers seduzidos pela Marvel dos anos 1960.

Já tinha lido muitas histórias e ouvido falar de Quarteto Fantástico,

o primeiro quadrinho “moderno” da Marvel. Encontrei a

revistinha número 4, que anunciava o retorno de um tal de

Príncipe Submarino do qual eu nunca ouvira falar, mas que Lee, na

edição, conseguia convencer que era um evento urgente e

importantíssimo.

Fui fisgado logo de cara, e não só pelo comic e pelos

personagens, mas também pelas pessoas que escreviam e

desenhavam aquela história. Afinal, Stan Lee fez questão de

ressaltar como todos (inclusive ele) eram especiais — e como nós,

leitores, também éramos especiais só de ler os quadrinhos!

Mergulhei de cabeça nas notícias, fofocas e pérolas de sabedoria

nas páginas de cartas dos leitores e nos Bullpen Bulletins [Boletins

da Redação] que Lee escrevia.

E amei visitar — ou será que ele é quem me visitava? — o

criador literário daquelas páginas, mais conhecido como “Stan

Lee”. Claro que eu já adorava Jack Kirby e Steve Ditko, mas estava

evidente que Stan Lee era o supervisor responsável por unir tudo

em um só lugar. As palavras, as cores e os desenhos — até os

anúncios — supervisionados por Lee formavam um mundo

imaginário que eu amava.

Depois de um período ausente, retornei àquele mundo de ma-

ravilhas. Logo após a graduação, consegui um emprego de editor-

assistente em um departamento obscuro da Marvel. Achei que

ficaria no cargo por apenas alguns meses, mas me adaptei bem à

empresa, e os comics — um antigo hobby, que começou por volta

dos seis anos — se tornaram minha carreira. Escrevi muitas

histórias para a empresa e cheguei a editor-chefe da divisão do

Homem-Aranha. (A marca tinha crescido a ponto de virar uma

empresa dentro da empresa, lançando, por mês, quase vinte

títulos relacionados ao personagem.)

Passei 18 anos na Marvel, trabalhando como editor e escritor.

(Às vezes eu era até editor de Stan Lee, o que era bem estranho.)

Portanto, entendo um pouco como é estar no lugar de Lee. Além

disso, durante esses anos de trabalho e nas décadas que se

seguiram, nós dois tivemos muitas conversas formais e informais,

de entrevistas (inclusive as novas, para este livro) a almoços.

Enquanto escrevia este volume, tentei imprimir o máximo de

observações únicas a partir desse ponto de vista mais próximo.

* * *

Nem preciso dizer que, apesar dos inúmeros altos e baixos, os

quadrinhos da Marvel e suas adaptações para outras mídias se provaram muito mais do que uma modinha passageira e agora

dominam a cultura pop, tornando Lee mais famoso do que nunca.

Para a maioria, Stan Lee era aquele velhinho sábio e espirituoso

que sempre fazia uma aparição nos filmes e seriados da Marvel.

Ninguém sabe muito bem o que ele fazia, mas todos tinham noção

de que era uma pessoa presente na empresa desde os primeiros

dias e um senhorzinho adorável, como aquele parente brincalhão

e divertido que só encontramos em casamentos e funerais. Não

sabemos bem qual é o grau de parentesco, mas a conversa é

sempre divertida e vamos embora com um sorriso no rosto.

Aqueles que conhecem a história dos quadrinhos sabem que Lee

foi cocriador do Universo Marvel e principal — e por muito

tempo único — divulgador das histórias e das pessoas que as

compunham. Um sujeito cujo nome figurava sob a legenda de

“apresentado por” dos gibis e que passou as últimas décadas

envolvido no show business em Hollywood.

Muitos dos que trabalhavam com e para ele achavam Stan Lee

um chefe incrível, sempre cheio de atividades para delegar,

inspirando todos a darem o melhor de si, além de sempre se

preocupar com os funcionários e suas famílias. Outros o

consideravam um cara bacana, porém cheio de falhas, alguém que

gostariam, talvez, que tivesse sido melhor do que de fato foi.

Já um pequeno grupo de profissionais e fãs dos quadrinhos

acredita que Stan Lee foi o pior dos vilões, explorando pobres

artistas que na verdade faziam todo o trabalho criativo enquanto

se colocava à frente de tudo, mesmo não passando de um

manipulador sortudo e ardiloso que, por acaso, estava no lugar

certo e na hora certa. (Mas devo dizer que 75 anos é muito tempo

estando nos lugares certos e nas horas certas!)

Seja lá o que você pensa que sabe sobre Stan Lee — ou mesmo

se não o conhece muito bem —, espero que esta biografia dê um

pouco mais de dimensão e profundidade ao homem e às suas

conquistas e mostre que, não importa qual seja a sua opinião: há

mais nessa história do que você imagina.

O movimento iniciado por Lee, que cresceu além das

expectativas mais absurdas de todos, tem uma história fascinante,

tão estranha e improvável quanto qualquer aventura de mutantes

sobre-humanos e homens-aranhas que a Marvel tenha contado.

Se deseja entender a cultura pop dos Estados Unidos — ou seja,

compreender de onde vêm as histórias que contamos a nós

mesmos para tentar entender quem somos —, um bom ponto de

partida é compreender a vida de Stan Lee.

 

Danny Fingeroth

Maio de 2019