A Espetacular Vida de Stan Lee
17. Devoluções e partidas
Honestamente, acho que voltei porque eu
queria voltar. Estou em casa. E a casa que
abriga as pessoas da Marvel fica em um
terreno fértil. O lugar é cheio de boas
pessoas.
— Jack Kirby, “Kirby Speaks” [Falando com
Kirby], FOOM n.° 11, setembro de 1975
P ara a sorte de Stan Lee, fosse lá o que a Marvel esti- vesse se tornando em 1976, parecia que a empresa ainda considerava crucial que ele se mantivesse como uma presença significativa. Uma empresa que, além de Jack Kirby — que voltara à Marvel, onde jurara (duas vezes) que nunca mais poria os pés —, também incluía o cara que o seduzira em 1970. Sim:
Carmine Infantino estava de volta às trincheiras como artista
freelancer — e não na DC, onde, além de chefe, também fez seus trabalhos mais famosos, e sim na Marvel, onde trabalhara pela
última vez na década de 1950.
Paralelamente, em 1976, avançava no Congresso um conjunto
de medidas, reunidas na Lei de Direitos Autorais. O ato, que seria
assinado pelo presidente Gerald Ford em 19 de outubro,
potencialmente abriria as comportas para os criadores de histórias
em quadrinhos (e de outros campos) reivindicarem a propriedade
intelectual do trabalho freelancer que faziam para as empresas de
mídia. Ainda assim, o ato só entraria em vigor em 1978, então, na
época das assinaturas, ninguém pareceu se importar muito com a
questão.
Stan Lee, que tinha Archie Goodwin, um funcionário de
confiança, na posição de editor-chefe, pôde dar mais atenção à
tarefa de promover a Marvel (e a si mesmo) — inclusive
ampliando seu alcance em Hollywood, embora ainda aparecesse
com frequência nos escritórios da empresa na Madison Avenue
para tomar decisões mais globais quanto às edições e publicações.
Ele e o presidente da empresa, Jim Galton, tinham embarcado
na missão de salvar a Marvel, licenciando personagens para filmes
e programas de TV. E, de fato, conquistaram sucessos de mídia,
sobretudo com a série O Incrível Hulk, estrelada por Lou
Ferrigno/Bill Bixby. Também tiveram empreitadas menos bem-
sucedidas, como a série Homem-Aranha, estrelada por Nicholas
Hammond, e, em 1978, o desenho animado Quarteto Fantástico,
com roteiros de Lee e de Roy Thomas e storyboards de Jack Kirby.
O panorama geral dos quadrinhos da Marvel mudou em meados
dos anos 1970, mantendo o núcleo de super-heróis, mas
acrescentando títulos de terror e de monstros, sem falar em
histórias de artes marciais e uma série de revistas em preto e branco — que, por vários motivos, não se adequava ao Código dos
Quadrinhos — que imitava os sucessos da editora Warren
Publishing. E sempre havia espaço para histórias mais
extravagantes, quase sempre com vínculos com Hollywood ou
outras mídias famosas; especialmente adaptações de filmes e de
séries de TV — remontando aos dias em que a Timely/Atlas
publicava adaptações de programas de TV e de rádio. Em grande
medida, essa profusão de adaptações se deu por conta de uma
decisão na qual Lee estava convencido a voltar atrás: Star Wars.
Em 1975, Lee rejeitara a proposta de adaptar Star Wars para os
quadrinhos, pois acreditava que o público simplesmente não
recebia bem as histórias de ficção científica. Mas o criador,
George Lucas, e o diretor de publicidade do filme, Charles
Lippincott, não desistiram. Achavam que uma história em
quadrinhos antes do lançamento seria ótimo para despertar
interesse no filme. Os dois entraram em contato com Roy
Thomas, na época apenas escritor e editor freelancer da Marvel,
que, a princípio — considerando a recusa inicial de Lee —, disse
que não havia o que ele pudesse fazer. Mas, depois de ver o
roteiro e as fotos da produção em andamento, Thomas percebeu
que Star Wars não era aquele tipo de ficção científica difícil de
compreender, e sim uma espécie de “ópera espacial” — uma
história mais fundamentada na caracterização dos personagens,
no humor e na emoção das cenas, tendo a ciência apenas como
pano de fundo. Em outras palavras, era muito semelhante aos
quadrinhos da Marvel. O entusiasmo de Thomas — e o fato de que
Lucas cederia os direitos dos quadrinhos de graça, sem cobrar
taxas de licenciamento — convenceu Lee e Galton a aprovar a adaptação, lançada vários meses antes da estreia do primeiro
filme da saga Star Wars. [ 342 ]
Foram seis edições de Roy Thomas e Howard Chaykin
adaptando o filme, e a saga continuou como série, com novas
histórias aprovadas pela Lucasfilm, fazendo enorme sucesso. A
série é frequentemente creditada por salvar a Marvel — se não da
extinção, pelo menos de cortes nas publicações. Seu sucesso levou
a empresa a adquirir muitas outras licenças, como Shogun
Warriors, Heróis da TV — os Micronautas e muitos outros.
Uma das licenças mais famosas que Lee foi convencido a
adquirir — pelo escritor Steve Gerber — foi a conversão da banda
KISS, que acabara de surgir na época, em super-heróis, com seu
próprio quadrinho. Na promoção, alegava-se que o sangue dos
membros da banda fora misturado à tinta da impressora, para que
todos que comprassem um exemplar recebessem pelo menos
algumas moléculas do autêntico sangue do KISS — o que,
obviamente, aconteceu bem antes da epidemia da AIDS. Embora a
música não fosse seu estilo — para dizer o mínimo —, Lee assistiu
a um show da banda e até acompanhou os integrantes à gráfica em
Buffalo, Nova York, onde supostamente o sangue deles foi
extraído e misturado à tinta usada na impressão. (Há o boato não
confirmado de que a tal tinta misturada com sangue foi usada sem
querer em uma edição da Sports Illustrated, em vez de nos
quadrinhos.) As revistas foram um grande sucesso de vendas. [
343 ]
A partir da edição n.º 11, publicada no início de 1978, os
quadrinhos de Star Wars passaram a ser escritos por Archie
Goodwin e desenhados por Infantino. O ex-editor da DC passara
a ser um artista regular da Marvel, um trabalho que não fazia havia vinte anos. Apesar de alguns intervalos, Infantino continuou
desenhando Star Wars até 1982, bem como várias outras séries da
Marvel.
Em 1976, Lee e Romita Sr. começaram a trabalhar em uma
tirinha de jornal do Homem-Aranha, que estreou em 3 de janeiro
de 1977. Lee não tivera muito sucesso com suas outras tirinhas
dos anos 1970, como a paródia de novela de 1976, The Virtue of
Vera Valiant [As virtudes de Vera Valente] (lançada na época em
que uma novela satírica, Mary Hartman, Mary Hartman, fazia
sucesso) e Says Who! [Olha quem fala!], com suas fotos com
legendas divertidas, [ 344 ] mas a tirinha do Homem-Aranha se
revelou popular e atemporal, sendo publicada até 2019. Foi o
trabalho mais duradouro de Larry Lieber, que atuou como
desenhista, letrista (e, muitas vezes, arte-finalista) dos episódios
diários de 1986 até o final de 2018.
Antes de receber a tarefa, mas depois do imbróglio da
Atlas/Seaboard, Lieber já havia retornado à Marvel, dessa vez
como parte da equipe contratada, atuando como editor da divisão
britânica da empresa, em Londres. Lieber supervisionava a
reimpressão do material e era responsável pelas novas capas
(preparadas em Nova York) para publicação no Reino Unido, mas
também ficou a cargo da criação e do desenvolvimento de um
novo personagem, com o curioso nome de Capitão Britânia.
Curiosamente, Lee tinha muito interesse nas publicações da
Marvel britânica, todas semanais. Talvez porque sua esposa era
britânica, ou talvez porque, ao contrário de muitas das edições
estrangeiras da Marvel, aquelas eram em inglês — sua língua
materna. (Neil Tennant, que mais tarde se tornou membro da
banda Pet Shop Boys, trabalhou como editor-assistente no escritório da Marvel em Londres durante esse período. Este que
vos escreve fez o mesmo, só que no escritório de Nova York,
apesar de ter iniciado a carreira de quadrinhos no departamento
britânico, em julho de 1977.)
* * *
E havia Kirby.
Jack Kirby, de volta à Marvel, trabalhava em vários projetos;
como condição de seu retorno à empresa, era deixado em paz,
trabalhando por conta própria, escrevendo, desenhando e
editando os próprios títulos, escolhendo os letristas e sem a
obrigação de unir as histórias em sagas para manter a
continuidade das narrativas do Universo Marvel — embora seus
quadrinhos tecnicamente se passem no Universo Marvel. [ 345 ]
A série Os eternos, por exemplo, tratava de deuses espaciais
alienígenas que tinham ido à Terra (na época, era grande a
popularidade do livro Eram os deuses astronautas?, de Erich von
Däniken, que trata de um assunto semelhante), o que já
pressupunha interação mínima entre os novos personagens de
Kirby e os antigos, criados junto com Lee, mas que supostamente
habitavam o mesmo planeta. Os leitores acabavam tendo que
fingir que os personagens de Kirby — que incluíam gigantes de
armadura com mais de quinhentos metros de altura — não seriam
notados por nenhum personagem do núcleo principal, exceto por
alguns agentes da S.H.I.E.L.D. recém-criados. A série de Kirby,
Captain America and the Falcon [Capitão América e o Falcão,
publicado no Brasil nas edições de Poderosos Vingadores], não
fazia menção às edições anteriores, e suas histórias de Pantera Negra também não tinham referências à série homônima lançada
havia pouco tempo.
Era difícil dizer se as novas histórias de Kirby eram mesmo
“eletrizantes”, mas de fato tinham um bom número de fãs,
sobretudo no crescente mercado de vendas diretas. Como na DC,
Kirby fazia as coisas mais ou menos à sua maneira, porém, nem a
equipe editorial nem o público pareciam saber o que pensar
dessas obras poderosas, mas idiossincráticas. Havia rumores de
que os funcionários reportavam uma proporção maior de cartas e
críticas negativas sobre os títulos de Kirby do que a editora de fato
recebia e que zombavam das publicações, espalhando páginas de
seus quadrinhos com anotações cruéis pelas paredes do escritório.
É difícil avaliar se isso era pior do que as provocações costumeiras
daquele escritório cheio de gente espertinha. De acordo com
Evanier, Kirby recebia provocações e cartas anônimas junto com o
material distribuído pelo escritório, e sentia que era vítima de
sabotagem por parte dos colegas. Na época, Lee foi um grande
defensor da autonomia de Kirby. Como Evanier lembrou:
Stan apoiou muito Jack como editor [de seus próprios quadrinhos].
Foi de grande importância para garantir que ele tivesse o controle
editorial de seus títulos, e algumas vezes chegou a passar por cima
[do pessoal da Marvel]. [ 346 ]
O que poderia ter atraído uma boa quantidade de leitores era
uma parceria entre Lee e Kirby em histórias de Quarteto
Fantástico ou de Thor, mas não era do interesse de Kirby — que
também não queria saber de mais ninguém além dele escrevendo
o roteiro de suas histórias. Roy Thomas chegou a se oferecer, mas Kirby disse que só toparia se Thomas escrevesse um roteiro
completo tradicional, em vez de mexer na história depois. Kirby
não tinha a menor intenção de traçar quadrinhos para que outra
pessoa inserisse os diálogos. [ 347 ] Lee promovia as revistas do
antigo parceiro em seus Bullpen Bulletins e na Soapbox, mas a
empolgação dos fãs pelo retorno de Kirby nunca chegou a se
materializar tanto quanto o esperado. [ 348 ]
* * *
Lee continuava, é claro, construindo sua marca pessoal. Em 1976,
estava tão famoso que acabou se tornando porta-voz de um
produto, estrelando um comercial de TV para as lâminas de
barbear Personna Double II. Parado de pé no escritório editorial
da Marvel, ele informava aos espectadores, cheio de empolgação,
que “o Personna é muito bem projetado. (…) É como me
disseram: ‘Não existe melhor produto de barbear!’ Parece que vou
acabar criando um novo personagem, o Personna Man!” [ 349 ]
Naquele mesmo ano, posando diante das provas finais do Mighty
Marvel Memory Album Calendar 1977 [Calendário Ilustrado de
1977 da Marvel], Lee informava aos leitores que “quando você
cria super-heróis, as pessoas esperam que você se pareça com um.
Por isso que eu uso camisas da Hathaway.” O anúncio o identifica
como “Stan Lee, Criador da Marvel Comics”.
Também naquele ano, Lee apareceu em ensaios fotográficos nos
quadrinhos do KISS e continuou a escrever a série de livros da
Marvel Origins [Origens da Marvel] para a Simon Schuster. Mas
ele ainda era editor dos quadrinhos e dava muita atenção ao
trabalho; ia ao escritório cinco dias por semana, depois de abrir mão do costume de passar três dias (e os fins de semana, é claro)
trabalhando em casa. [ 350 ]
Segundo Jim Shooter, Lee continuava fazendo o mesmo:
revisava os quadrinhos já impressos com Goodwin — e, mais
tarde, com o próprio Shooter, editor-assistente de Goodwin —,
apontando erros para garantir que não se repetiriam. E, quando
Lee estava disponível para revisões antes da data de lançamento,
nenhuma edição era impressa sem sua aprovação. Além de avaliar
histórias e capas, Lee parecia fazer o possível para evitar o
estresse da vida cotidiana nas trincheiras do editorial da Marvel.
Intervir nas publicações era sempre uma situação complicada,
porque ou arriscava parecer minimizar o papel de seu editor-
chefe, ou poderia afastar um freelancer valioso. Pelo visto, a
melhor estratégia era, de fato, ficar de fora. [ 351 ]
E havia muito estresse no editorial da Marvel. O processo de
criação continuava com pouco controle dos editores-chefes,
simplesmente porque não havia um número suficiente de
funcionários com autoridade para revisar os quadrinhos em todas
as fases criativas. (Além de Shooter, também havia vários
editores-assistentes, mas eles não tinham autoridade para impor
mudanças.) Mesmo assim, não parecia haver nenhum movimento
para reconfigurar o sistema. Talvez isso refletisse a atitude da
gerência da Cadence — e também de Lee —, que parecia crer que
o futuro da empresa dependia menos dos quadrinhos do que de
um possível sucesso em Hollywood. Segundo essa perspectiva, o
conteúdo dos quadrinhos era menos importante do que a receita
que poderia ser gerada com adaptações dos personagens para a
TV e o cinema ou com adaptações do cinema e da TV para os
quadrinhos. A menos que houvesse uma nova surpresa de vendas, como Star Wars,as receitas dos quadrinhos permaneceriam iguais
ou continuariam em declínio. Para salvar a empresa e o emprego
de todos, era preciso alcançar o sucesso em Hollywood.
* * *
No fim de 1977, Goodwin também percebeu que o trabalho do
editor não era para ele. Bem, quem poderia culpá-lo? Certamente
não Wolfman, Wein ou Conway, que também não conseguiram
aguentar a gigantesca carga de supervisionar cerca de quarenta
títulos, muitos editados por escritores sem a menor obrigação de
tomar notas ou aceitar sugestões do editor-chefe da empresa ou
de seus assistentes. Além disso, o cargo os fazia levar em conta
uma infinidade de aspectos do mundo dos negócios em que
nenhum sucessor de Lee tinha treinamento ou interesse em
aprender a fazer.
Goodwin, considerado um dos melhores escritores e editores do
setor, ficou mesmo incomodado com a parte mais gerencial e
comercial do trabalho, bem como com a relutância da Cadence
em expandir a equipe e ampliar sua autoridade ou tomar qualquer
atitude que tornasse o trabalho na Marvel mais atrativo para
artistas e escritores. Era a grande contradição da época: jovens
quadrinistas — que se consideravam talentos únicos, não apenas
engrenagens de uma máquina — insistiam em receber um
tratamento melhor e mais liberdade criativa do que seus
antecessores, apesar de as vendas estarem em declínio. Ainda
assim, era o trabalho desses criadores mais jovens que mais
despertava o interesse dos fãs mais antigos e dedicados,
compradores regulares. Parecia um enigma que não tinha solução.
Goodwin pediu demissão no fim de 1977 — uma atitude que,
segundo consta, não foi bem conduzida por Lee, que anunciou a mudança em um texto impulsivo, ainda que bem-intencionado —,
um pouco antes do prometido. Goodwin passou a ser escritor e
editor freelancer (embora tenha voltado à equipe em 1979). [ 352 ]
Ele foi substituído por Shooter, que parecia prosperar tanto com
as minúcias do aspecto mais gerencial do trabalho como editor-
chefe quanto com assuntos relacionados às histórias e aos
personagens. Shooter odiava o fato de que alguns escritores
também editassem as próprias histórias e acreditava que a
empresa estava muito desorganizada e precisava de um pulso
editorial firme e centralizado. Ele persuadiu Lee e Galton sobre a
necessidade de mais estrutura, e começou a reproduzir o sistema
da DC, com múltiplos escritórios editoriais e um editor-chefe —
no caso, ele — acima de todos.
Shooter tomou medidas drásticas para garantir a sobrevivência
dos quadrinhos da Marvel. Com isso, mexeu em muitos vespeiros.
Estruturou e regularizou as produções da Marvel, trazendo o fim
daquela atmosfera caótica e livre, que se provara ser incapaz de
aumentar as vendas — o que não quer dizer que era o fim da
diversão. Quando Shooter fazia críticas duras aos veteranos da
Marvel — por exemplo, ao antigo colega e parceiro criativo de
Lee, Gene Colan —, Stan aparecia para acalmar os ânimos, mas
sem anular as decisões do editor-chefe. [ 353 ]
Além disso, houve muito conflito quando os jovens quadrinistas
começaram a se sentir perseguidos. Por exemplo, Steve Gerber,
escritor dos quadrinhos do KISS, também foi cocriador de
Howard, o Pato, que estrelava sua própria série de sucesso. Mas
Gerber entrou em uma disputa com a Marvel sobre a propriedade
intelectual do personagem e acabou pedindo as contas.
Ironicamente, foi trabalhar com animações, onde acabou fazendo parceria com Kirby em vários projetos — inclusive Destroyer
Duck, criado para financiar a batalha legal de Gerber contra a
Marvel.
* * *
Além de Kirby, dois dos outros artistas favoritos e mais confiáveis
de Lee, John Romita Sr. e John Buscema, continuavam ocupados.
Ao contrário de Kirby e Ditko, os dois pareciam gostar da
associação com o nome de Lee, além de admirá-lo e respeitá-lo,
mesmo que volta e meia se queixassem de algumas de suas
decisões. Junto com Romita, que ajudara a aumentar as vendas de
Homem-Aranha ao assumir a arte e o roteiro depois da saída de
Ditko, Lee começara a criar os especiais de domingo e a tirinha
diária do Homem-Aranha, que, no auge, era publicada em mais de
quinhentos jornais e que durou muito mais do que outras tirinhas
da Marvel como Howard, o Pato, e Conan, o Bárbaro. [ 354 ] Além
disso, Romita atuava na equipe como diretor de arte, dividindo
um escritório com a esposa, Virginia, sua assistente, que mais
tarde se tornaria gerente de transporte logístico. O filho deles,
John V. Romita — mais conhecido como John Romita Jr., ou
apenas JR —, começou a desenhar para a Marvel em 1976; ele veio
a se tornar um dos principais artistas da empresa.
Buscema, instalado em seu estúdio em Long Island, era um
desenhista prolífico que, como Romita, parecia entender o que
Lee (e seus editores-chefes) queriam. Desenhista regular de
títulos como Os Vingadores e, especialmente, dos quadrinhos de
Conan, o Bárbaro, Buscema dirigia uma escola de quadrinhos onde
Lee volta e meia palestrava como convidado. O relacionamento
dos dois era tão bom que, juntos, produziram o livro Como desenhar quadrinhos no estilo Marvel, publicado originalmente em
inglês em 1978, seguido de um vídeo com o mesmo nome em
1986. (Embora o constrangimento perceptível no vídeo deixe
claro que nem Lee nem Buscema eram atores profissionais, a
rigidez com que apresentavam os tópicos é cativante.) O livro,
que continua a ser publicado quarenta anos depois, é considerado
um dos textos básicos sobre como desenhar super-heróis.
* * *
Durante esse período, Lee também atuava como consultor para as
séries de TV do Homem-Aranha e do Hulk, ainda que ficasse
frustrado pelo fato de os produtores não seguirem muitas de suas
observações. Embora sentisse que a série Hulk, estrelada por Bill
Bixby/Lou Ferrigno, adotava uma abordagem inteligente do
personagem, não era muito fã da série Homem-Aranha. Como
disse em uma entrevista de 1978 à revista SunStorm:
As pessoas que escrevem o programa Homem-Aranha não param
de fazer roteiros ruins. Acaba que ou abandonamos o programa, ou
seguimos com os roteiros ruins, e não sei o que é pior. Os roteiristas
são todos uns picaretas — e estou falando dos melhores do grupo!
—, todos acostumados a trabalhar em séries iguais. O problema é
que nossos personagens precisam de roteiros mais especializados,
já que são únicos. [ 355 ]
Lee ainda morava em Nova York, mas estava passando cada vez
mais tempo em Los Angeles. Desde 1961 até o fim de sua vida, em
2018, o nome de Stan Lee abria portas e gerava reuniões, e foi isso
que ele passou a segunda metade dos anos 1970 fazendo.
* * *
Quando o contrato de Kirby estava chegando ao fim (expiraria em
1978), houve uma proposta de renovação, mas com a cláusula de
que ele nunca reivindicaria a propriedade de nenhum dos
personagens em que trabalhara. [ 356 ] Kirby considerou a
proposta inaceitável e optou por deixar o contrato expirar — mas
não sem antes ter uma última parceria com Lee.
Lee assinara um contrato com a Simon Schuster para fazer um
certo número de livros, e Kirby assinara um contrato com a
Marvel para fazer um certo número de páginas. Para cumprir
ambas as obrigações, foi decidido que os dois trabalhariam juntos,
como Lee declarara em sua Soapbox de dezembro de 1975, em
uma “edição especial e gigantesca de — isso mesmo — Surfista
Prateado!”.
Quando perguntado pela revista do fã-clube da Marvel, a Foom
n.º 11 (à venda em setembro de 1975), se estava trabalhando no
projeto Surfista, Kirby respondeu: “Não ouvi nada de Stan sobre
isso. (…) Se surgir alguma coisa com o Surfista Prateado, tenho
certeza de que Stan discutirá comigo e resolveremos a questão.
Mas ainda não sei de nada.” O próprio Lee mencionou o projeto
mais uma vez em uma entrevista com David Anthony Kraft
(provavelmente feita no fim de 1976), que foi impressa na Foom
n.º 17 (publicada em março de 1977). E, em janeiro de 1977, a
dupla voltou à ativa, assumindo o projeto do Surfista Prateado — e
trabalhando na casa de Kirby, em Los Angeles. Aquela não seria
só mais uma história de vinte páginas, ou mesmo de quarenta,
como as edições anuais. Seria uma saga de cem páginas, publicada
em formato de livro. Recebeu o título de capa Surfista Prateado —
A Experiência Cósmica Final. Mas, desde que foi publicado, em 1978, no mesmo ano em que a inovadora graphic novel Um
contrato com Deus, de Will Eisner, passou a ser conhecido como a
graphic novel do Surfista Prateado.
No prefácio do livro, Lee escreveu:
Depois de todos esses anos, o Alegre Jack e eu conseguimos
terminar o livro que sempre ameaçamos lançar sobre o público
atordoado e surpreso. (…) O Surfista Prateado parece ter um
significado especial para nós dois.
Sempre ansioso por uma viagem para o oeste, tomei coragem e
fui até o cenário idílico da casa de Jack, nas colinas do sul da
Califórnia. Lá, durante uma visita fatídica, definimos os principais
elementos da incrível parábola prestes a se desdobrar diante de seus
olhos deslumbrados. [ 357 ]
Na história, Galactus tenta convencer — na verdade, forçar — o
Surfista Prateado a voltar a ser seu arauto. Como o restante do
trabalho de Kirby nesse período, a história não tinha continuidade
com o Universo Marvel. De fato, grande parte contava a chegada
de Galactus na Terra, mas sem a presença do Quarteto Fantástico
— tão proeminente no relato original de 1966. A parte mais
estranha é que os direitos autorais do livro não são da Marvel, e
sim de Stan Lee e Jack Kirby. Quanto a esses detalhes, Evanier
lembrou:
O Surfista Prateado tinha sido sugerido para um filme, mas a
proposta não incluía o Quarteto Fantástico, então não seria possível
fazer a Trilogia Galactus. Com isso, [os produtores] tentaram
inventar uma história para um filme do Surfista (…) mas não
conseguiam criar um bom roteiro.
Então, o produtor Lee Kramer perguntou para Stan: “Por que
você e Jack não criam um roteiro?” Stan consultou Jack, sugerindo
que trabalhassem juntos. Mas Jack logo pensou: “Ei, os roteiristas
de Hollywood são bem pagos. Por que não nos contratam para
escrever o filme?”
Stan, porém, não conseguiu esse contrato. Portanto, o
compromisso acabou sendo — e isso foi ideia de Stan — que ele
escreveria aqueles livros para a Simon Schuster, e um dos editores
tinha perguntado: “Ei, por que não fazemos uma história original?”
Ele foi até Jack e sugeriu: “Olha, por que não fazemos uma graphic
novel do Surfista Prateado, que poderia ser o enredo do filme? Vou
dar um jeito para termos os direitos autorais (…) Então seremos
pagos por escrever a história como graphic novel e, se quiserem a
ideia para o filme, terão que comprar de nós pagando o preço da
indústria cinematográfica.”
Jack achou a ideia boa, porque já estava querendo sair da Marvel,
e, de qualquer forma, precisava preencher o total das páginas [da
obrigação contratual] mesmo. (…) Jack escreveu um esboço, que
registrou no Writer’s Guild, uma espécie de sindicato de escritores.
(…) Foi Jack que botou a ideia no papel (…) ele escreveu um esboço
do roteiro, depois criou [em páginas datilografadas separadas]
todas as anotações que teria feito nas margens [dos quadros]. Mas
ninguém quis transformar a ideia em filme, e foi o fim da história. [
358 ]
A correspondência sobre a graphic novel do Surfista Prateado,
encontrada nos arquivos de Lee na Universidade de Wyoming, é provavelmente a visão mais completa que temos do processo de
criação da dupla Lee-Kirby. Em uma carta a Kirby, poucas
semanas após a reunião de janeiro, Lee escreveu:
Só estou escrevendo para dizer o quanto gostei de encontrar com
você em Los Angeles. Lamento não termos passado mais tempo
juntos, mas pelo menos tivemos a chance de conversar um pouco.
Espero que tudo o que discutimos esteja claro e seja do seu agrado e
que tudo dê certo. Vamos levando a ideia do SURFISTA — ele deve
se tornar o “Todos os Homens do Presidente” de 1977! [ 359 ]
A correspondência dá uma ideia dos detalhes de como a história
foi construída. Depois da reunião na Califórnia, Kirby dividiu a
narrativa em páginas e painéis, que enviou a Lee em lotes, junto
com páginas de notas datilografadas — o equivalente às notas de
margem que escrevia para Lee durante as colaborações anteriores.
Era como se Kirby quisesse ter certeza de que seus pensamentos
acerca das páginas não poderiam ser apagados.
Mas até mesmo essa documentação parece aberta à
interpretação.
Por exemplo, em uma carta de 24 de janeiro de 1977, Kirby
datilografou quatro páginas descrevendo a Lee uma visão geral do
enredo para a graphic novel. A carta começava assim:
Stanley,
Só para o caso de precisarmos de uma breve reiteração depois da
nossa discussão, acredito que os pontos principais da história sejam
acerca do relacionamento do Galactus com o Surfista e da confusão
que vivemos nesse universo. É uma história do Surfista, é claro, e
sua experiência deve ser dominante na narrativa (sua história de
amor, sua vida entre os povos da Terra, suas decisões). No entanto,
acredito que o leitor ficará intrigado com a questão maior: a
vulnerabilidade do Surfista no grande esquema das coisas.
O restante da carta discute imagens específicas e temas gerais.
Mas será que são imagens e temas que Kirby inventou e está
revelando para Lee, ou são parte da “reiteração depois de nossa
discussão”?
O começo de outra carta de Kirby, enviada com mais um lote de
páginas, datada de 14 de março de 1977, dizia:
Stanley,
Este é o segundo lote do livro do Surfista. Se ignorar os ocasionais
erros de datilografia, verá que enviei páginas explicando o que
considero ser a perspectiva adequada para um cenário realista e de
valor dramático. Claro que tudo foi feito nos moldes do que
discutimos, e espero que fique bem evidente. Também tentei atar
todas as pontas soltas e preparar o cenário para apresentar a vida
do Surfista entre os humanos. [ 360 ]
Pode-se interpretar as correspondências e notas arquivadas
sobre o livro do Surfista de várias formas. Claramente, os dois
homens concordavam que tinham discutido a história, até certo
ponto, e certamente com mais detalhes do que pareciam ter
discutido nos últimos dois anos de colaborações anteriores. No
entanto, com base nas anotações de Kirby (e nas lembranças de
Evanier), o artista parecia ter voltado a elaborar os detalhes da
trama majoritariamente por conta própria. Kirby forneceu descrições de arte quadro a quadro, junto com algumas sugestões
de diálogo. Mas, assim como nas colaborações dos anos 1960, não
havia sugestões de diálogo para todos os quadros, e as que foram
apresentadas não eram muito detalhadas e pareciam pressupor a
necessidade de refinamento.
Por exemplo, as anotações de Kirby para os três quadros da
página 6 diziam:
Página seis
Painel Um — O Surfista desliza entre os prédios altos. O barulho
das ruas abaixo chega até lá em cima.
Painel Dois — Quando desce, o Surfista vê os humanos pela
primeira vez. Há rostos nas janelas, todos mostrando alguma
reação a esse estranho que surgiu entre eles.
Painel Três — Já no nível da rua, o Surfista acaba envolvido por
toda a movimentação e o barulho da cidade.
O roteiro de Lee para a mesma página, acompanhando a arte,
era o seguinte:
PÁGINA 6
1. SP [Surfista Prateado]: Este lugar tem estruturas primitivas,
habitações simples e máquinas básicas de todo tipo!
SP: É uma cultura primitiva, avançando aos tropeços na direção da
maturidade, que quase já posso sentir!
2. SP: No entanto, até O AR parece pulsar de tanta VIDA! Sinto
ENERGIA neste lugar, um ESPÍRITO, uma VITALIDADE que eu
nunca vi!
3. SP: Minha mera presença parece causar PÂNICO nas ruas!
SP: Eles ainda precisam aprender… Só os SELVAGENS temem o
que não compreendem! [ 361 ]
Ciente de que já estava com o pé na porta, Kirby manteve o tom
amistoso na correspondência sobre o livro do Surfista (embora
chamar Lee de “Stanley” possa ser visto como o tipo de apelido
carinhoso que também é uma maneira de lembrar ao editor que
ele já foi o pisher — não o “Stan” chefe de Kirby, e sim “Stanley”,
seu lacaio e parente do chefe).
Não se sabe se os criadores tinham ciência disso, mas não é
preciso muito esforço para interpretar a história como uma
metáfora para a última criação de Kirby na Marvel. A empresa —
e talvez Lee — pode ser vista como Galactus, devorando o que
quiser, incluindo o próprio Surfista (que pode ser visto como
Kirby), uma personificação da inocência. E, como na história
“Worlds Within Worlds” [Mundos dentro de mundos], uma série
em quatro partes de Quarteto Fantástico em que o Surfista se
juntava outra vez a Galactus, o mesmo acontece na graphic novel.
Depois de se iludir, pensando que poderia estar livre de Galactus
com a consciência limpa, o Surfista percebe que seu destino é
ligado ao vilão, pelo menos se quiser proteger o universo das
depredações de seu mestre. E, apesar de ter dito na entrevista à
Foom que “voltei porque queria voltar”, a verdade é que o retorno
de Kirby à Marvel foi feito com grande relutância, como o retorno
do Surfista aos braços de Galactus.
A história parecia dizer, essencialmente, que Galactus e o
Surfista estão destinados a ficarem juntos — talvez como Kirby e
Lee, com a Marvel. Mas seria de Lee a mensagem de que o Surfista
é nobre por ter, por pragmatismo, se aliado outra vez ao gigante predador? E seria a mensagem de Kirby um aviso de um destino a
ser evitado — um destino ao qual ele talvez tenha sucumbido,
pelo menos temporariamente?
Será que Lee estava querendo alguma coisa, manipulando Kirby
para criar uma história sobre o comprometimento entre o
idealismo e o poder avassalador — um poder além do bem e do
mal? Será que era a maneira de Lee de tentar fazer Kirby
compreender que sua permanência junto dele e da Marvel era
para um bem maior? Você tentou a vida na DC, mas não deu muito
certo, não foi?
Uma coisa parece clara: os dois viram o Surfista Prateado como
mais do que um veículo para histórias em quadrinhos cheias de
ação, sem nenhuma mensagem que quisessem transmitir.
Portanto, nessa declaração final do personagem, feita em
conjunto, qual criador teria a mensagem — fosse qual fosse —
dominante? Enquanto Lee, como escritor e editor, teria a palavra
final literal, a narrativa visual de Kirby tinha um poder acima e
além das palavras. No fim das contas, cabe a cada leitor
determinar por si mesmo a mensagem que a história contém.
* * *
Já com o pé na porta, no ano seguinte (1978), Kirby ainda teve
uma última chance de honrar e provocar Lee. Roy Thomas estava
editando como freelancer uma série chamada What If?, cujo
conceito era bem óbvio: a revista retratava resultados alternativos
para histórias importantes da Marvel. A premissa que Thomas deu
a Kirby para a edição n.º 11, de outubro de 1978, era “What If…
the Original Marvel Bullpen Had Become the Fantastic Four?”
[Imagina só se (…) os editores originais da Marvel tivessem
virado o Quarteto Fantástico?]
A história deveria mostrar Lee, Kirby, Thomas e Flo Steinberg
nos papéis dos heróis do Quarteto Fantástico, vivendo sua história
de origem. Porém, quando Kirby entrou com sua arte, decidiu
substituir o Roy Thomas da história — que deveria se tornar o
Tocha Humana — por Sol Brodsky (que, em 1978, era um vice-
presidente da Marvel). [ 362 ] Apesar de irritado por ter sido
excluído da história, Thomas percebeu que realmente fazia mais
sentido ter Brodsky, um dos integrantes originais do editorial, em
vez dele. [ 363 ] Com isso, Thomas entregou o roteiro da história —
de que originalmente pretendia fazer o diálogo — para Kirby.
Embora o diálogo e as legendas tenham sido razoavelmente
elogiosos em relação a Lee — que, na história, se torna o líder da
equipe, o Senhor Fantástico —, Kirby acreditava que Thomas ou
alguma outra pessoa alterara seu diálogo original para que Sol, Flo
e Stan soassem mais “naturais”. Essa pessoa, no entanto, mudara
as falas do Coisa — o avatar que Kirby assumira na história —,
baixando o registro da linguagem, como uma pessoa sem
instrução, fazendo-o parecer mais rude. Thomas não se lembra de
ter mudado o roteiro de Kirby, embora se lembre de que Lee
insistira para que todas as referências a ele como Stanley fossem
alteradas para Stan. [ 364 ] Mesmo a última história de Kirby, que
deveria ser uma lembrança nostálgica, não poderia passar sem
conflito.
* * *
Depois da participação no What If? e sem o drama da sua
demissão de 1970, Jack Kirby saiu da Marvel Comics para
trabalhar com animação, inclusive fazendo storyboards para o
desenho animado Quarteto Fantástico do estúdio DePatie-Freleng
(do qual Lee era produtor). [ 365 ] A Marvel não era mais a
empresa frágil e esfarrapada para onde Kirby retornara no fim dos
anos 1950, não era nem mesmo o reino do caos a que voltara em
1975. A editora em que sua presença e sensibilidade tinham sido
tão importantes se transformara em outra coisa. Em 1961, Kirby e
Lee (e Ditko) eram as pessoas certas, no lugar e na hora certos.
Agora, em 1978, eram parte das dezenas de criadores da Marvel,
e, embora tivessem estabelecido as bases do sucesso da empresa
no presente e no futuro, não eram vistos como artistas com
grande presença comercial. A entidade que tinham criado os
superara de muitas maneiras.
Mas o gosto do público pelo tipo de histórias que os dois faziam
parecia se manter cada vez mais firme. O lucro da empresa vinha
dos quadrinhos de Star Wars e das séries que a Marvel produzia a
partir de outras propriedades intelectuais, como Rom, o cavaleiro
do espaço; Galactica, Astronave de Combate [hoje em dia
conhecida no Brasil pelo nome original, Battlestar Galactica]; Os
Micronautas [publicadas no Brasil como parte de outro selo];
Godzilla e muitos outros. E, no fim de 1978, o grande sucesso do
primeiro filme do Super-Homem provou que uma interpretação
linear da sensibilidade dos quadrinhos poderia fazer muito
sucesso com o público. (E houve até um final feliz para Jerry
Siegel e Joe Shuster — ou pelo menos o fim dos processos
judiciais. Com os esforços de Neal Adams, Jerry Robinson e
outros, a DC acabou concedendo aos dois artistas idosos pensões
modestas e créditos no filme como criadores do personagem.) O
futuro para pessoas com habilidades e experiências como as de
Kirby e Lee parecia residir na propriedade intelectual de filmes e da TV, especificamente em Hollywood. Kirby já tinha se mudado
para o oeste. Lee logo estaria lá também.
Como disse ao repórter Ira Wolfman, em uma entrevista de
1978 para a revista Circus: “Eu devia ter saído do negócio [de
quadrinhos] há vinte anos. Queria fazer filmes, ser diretor ou
roteirista, ter um trabalho como o de Norman Lear [produtor de
TV] ou o de Freddie Silverman [programador de rede]. Queria
fazer o que faço aqui, mas para um público maior.” [ 366 ]
Segundo Wolfman, a entrevista para a Circus partiu de Lee, que
entrou em contato através de seu assessor de imprensa. [ 367 ]
Então, talvez o editor da Marvel estivesse usando o jornalista para
espalhar a notícia de que Stan Lee, mais do que nunca, estava
interessado e disponível para oportunidades em Hollywood, fosse
junto com a Marvel ou — como na parceria com Alain Resnais —
em seu próprio nome.
Lee estava com 55 anos. Não havia tempo a perder.