A Espetacular Vida de Stan Lee
21. Sobre o amor e as leis
Por acaso Deus está falando com você agora?
Ele nos mandou parar?
— Stan Lee, ao autor, em um painel de uma
convenção em 2014
“Oprocesso mais amigável que já se viu.” Foi o que Stan Lee disse esperar da batalha judicial contra
a Marvel, movida para forçar o pagamento da porcentagem dos
lucros de filmes e programas de TV prevista em seu contrato com
a editora. [ 425 ]
Inclusive, em 2003, com o processo já em andamento, Lee,
então com oitenta anos, continuou trabalhando com a Marvel,
fazendo a tirinha do Homem-Aranha e aparições nos filmes e nas
séries de TV da Marvel (além, é claro, de seus muitos projetos
com a POW! e outros).
No início de 2005, a justiça decidiu a favor de Lee, [ 426 ] e um
acordo foi firmado em abril do mesmo ano. Acredita-se que ele
tenha recebido um pagamento fixo de US$ 10 milhões por todos
os lucros atuais e futuros do cinema e da TV, além do salário anual de US$ 1 milhão, mais US$ 125 mil por ano para manter a tirinha
do Homem-Aranha. Embora US$ 10 milhões não sejam pouco
dinheiro, não foi um grande negócio para Lee, considerando o
sucesso financeiro que a Marvel havia conquistado nos cinemas e
na TV nos anos seguintes. Ainda assim, resolveu o conflito entre
ele e seu empregador de longa data. [ 427 ]
O conflito com a Marvel acerca dos royalties não foi o último
processo envolvendo Lee. Pelo contrário: sua última década e
meia de vida pareceu, muitas vezes, mais um turbilhão surreal de
aparições em filmagens, apresentações em convenções e
depoimentos.
* * *
Dois anos antes, em 2003, a Marvel já entrara em acordo depois
de um processo aberto em 1999 acerca dos direitos do Capitão
América. O processo foi aberto pelo cocriador do personagem,
Joe Simon, quando mudanças legais promovidas pela empresa
proporcionaram a possibilidade da tomada de ação legal. Assim
como o acordo de 2005 com Lee, foi arquivado com pouca
publicidade, e os detalhes foram mantidos em segredo, mas os
dois lados parecem ter saído satisfeitos. Simon deu a entender que
os direitos de propriedade de Kirby foram incluídos no acordo,
mas os termos não foram divulgados. [ 428 ] Um artigo de 30 de
setembro de 2003, do New York Times, afirmava que “o acordo
abre para a Marvel a possibilidade de transformar o Capitão
América em uma estrela do cinema, dos videogames e das
atrações de parques temáticos”. [ 429 ]
* * *
Dinheiro à parte, a recompensa de Lee por todo seu trabalho — e
era, sim, trabalho, por mais que ele gostasse do que fazia — era
voltar todos os dias para os braços de Joan. Como escreveu seu
antigo assistente executivo, Michael Kelly, logo após a morte de
Lee:
Stan também era um marido apaixonado, que ligava para a esposa
do escritório pelo menos uma vez por dia, se não mais. E não
importava quão importante fosse a reunião em que ele estivesse, eu
deveria repassar a chamada na hora caso a esposa ligasse. Todos os
anos, Stan escrevia lindos poemas de amor só para Joan, para
celebrar o aniversário de casamento e o dia dos namorados. Por
mais que fosse viciado em trabalho, todos os dias passando horas a
fio sentado diante da máquina de escrever ou do computador, Stan
sempre parecia ansioso para voltar para casa. E, quando chegava,
sentava-se com a esposa para conversar sobre o dia, não importa se
tivesse sido cheio de acontecimentos memoráveis ou só mais um dia
normal. [ 430 ]
À medida que envelhecia, Lee parecia achar que as pessoas que
amava eram tão importantes quanto o trabalho, se não mais. Seu
livro de memórias Excelsior! é uma leitura bastante curta,
abordando o que ele de fato achava relevante que os fãs
soubessem a seu respeito. O livro tem cerca de quarenta mil
palavras, sendo 25% delas a parte narrativa de George Mair,
contando um resumo da vida de Lee, que acrescentou detalhes e
comentários.
Grande parte de um capítulo intitulado “Friends Are Forever”
[Amigos são para sempre], consiste em Lee e Mair tecendo elogios aos maravilhosos amigos de Stan e Joan. Dois nomes —
Bob Kane, do Batman,e o artista Ken Bald — são conhecidos por
fãs interessados na história dos quadrinhos. No entanto, a maioria
é de pessoas sem a menor conexão com o mundo do
entretenimento ou das publicações, gente que certamente não é
celebridade. Mas, mesmo assim, Lee decidiu que era importante
prestar homenagem a esses amigos, em vez de apenas citá-los de
passagem em uma página de agradecimentos, como outros autores
fariam. Lee escreveu parágrafos substanciais que, na verdade, não
cumprem nenhum outro propósito além de agradar aos amigos.
(Em outra parte do livro, há um espaço dedicado à família, é claro,
incluindo a esposa, a filha e o irmão, além de Mel Stuart, seu
primo, que dirigiu A fantástica fábrica de chocolate, de 1971.)
Uma das amigas mencionadas foi Edith Finck, cujo obituário do
New York Times, publicado em 12 de março de 2017, declarava:
“Por cinquenta anos, seus amigos mais próximos foram Joan e
Stan Lee, que usaram Edith como inspiração para Sue Richards,
do Quarteto Fantástico.” [ 431 ] Isso deve ter sido uma baita
novidade para qualquer fã de Quarteto Fantástico que possa ter
lido o tal obituário.
Uma pesquisa no Google sobre os nomes que aparecem no
capítulo mostra que muitos dos amigos mais próximos dos Lee
acabaram falecendo antes do casal, nos anos desde a publicação de
Excelsior!.Além de perder amigos “civis” que considerava
próximos o suficiente para eternizá-los até mesmo no livro de
suas memórias que criou para os fãs de quadrinhos, Lee viveu o
bastante para sobreviver a muitas das pessoas com quem criara
seus quadrinhos mais conhecidos — muitos nomes que ele tornara
famosos, e alguns deles seus amigos íntimos. Como, por exemplo:
Joe Maneely, que faleceu jovem, aos 32 anos, uma fatalidade,
em 1958.
Bill Everett, que faleceu em 1973, aos 55 anos.
Sol Brodsky, que morreu aos 61 anos, e Carl Burgos, com 67,
ambos em 1984.
O leal produtor do Bullpen, Morrie Kuramoto, que morreu aos
63 anos, e Danny Crespi, aos 59, ambos em 1985.
Frank Giacoia faleceu em 1988, aos 63 anos.
Vince Colletta passou desta para a melhor em 1991, aos 67
anos.
Harvey Kurtzman morreu em 1993, aos 68 anos.
Jack Kirby tinha 76 anos quando faleceu em 1994.
Don Heck morreu no ano seguinte, aos 66 anos.
Bob Kane morreu em 1998, aos 83 anos.
A lanterna de Gil Kane se apagou no ano 2000, aos 73 anos; e
a de Dan DeCarlo em 2001, aos 82.
John Buscema morreu em 2002, com 74 anos.
Seu colega da escola DeWitt Clinton, Will Eisner, morreu em
2005, aos 87 anos.
Quando começou a ficar velho, Lee optou por se cercar de
pessoas mais novas nos eventos públicos, sem querer ser
retratado com nostalgia, como um criador “dos velhos tempos”.
Aos oitenta anos, essa escolha começava a ser tirada de suas mãos,
já que os outros poucos anciões restantes não podiam ou não se
dispunham a fazer viagens regulares para comparecer a eventos.
* * *
Enquanto isso, como os zumbis das publicações de terror da
Marvel, Menace — que não chegou ao Brasil — e A essência do
medo, os proprietários dos restos mortais da Stan Lee Media
periodicamente voltavam do mundo dos mortos para processar
qualquer um que vissem, incluindo Lee, por direitos sobre vários
personagens, até mesmo os da Marvel, ou pelas criações de Lee
durante os anos da SLM.
A lógica desses processos era de que, durante o período de
falência da Marvel, houve um momento em que a propriedade dos
personagens da empresa poderia ter passado para Lee (se ele
tivesse processado e vencido uma batalha judicial, o que não
aconteceu). Então, naquele momento, Lee na verdade repassara os
direitos desses personagens para a Stan Lee Media.
Segundo esse raciocínio, os proprietários do que restava da SLM
deveriam, portanto, ter os direitos de propriedade sobre os
personagens da Marvel e da Disney. A certa altura, o famoso
advogado Martin Garbus — conhecido, entre outras coisas, por
representar Lenny Bruce, Nelson Mandela e Daniel Ellsberg —
chegou a se envolver na defesa da SLM, mas se afastou em menos
de um ano, citando “impossibilidade de conciliação das diferenças
entre seus clientes”. [ 432 ]
Até o momento em que escrevo este livro, nenhum dos
inúmeros processos da Stan Lee Media se saiu bem-sucedido.
* * *
Na parte criativa, Lee se manteve ocupado como sempre nos anos
2000, envolvendo-se em inúmeros projetos para a POW! e
também entrando em projetos paralelos, como apresentações em convenções e eventos de autógrafos. Como Michael Kelly
lembrou, Lee
sempre gostou de se manter ocupado. Sempre gostou de ter o que
fazer. Estava sempre muito envolvido [em seus projetos]. E sempre
dizia — e acho mesmo que ele acreditava nisso — que, se estivesse
fazendo algo que amava, não considerava trabalho. Ele adorava
inventar ideias e personagens e criar formas de ganhar dinheiro
com suas ideias e personagens. (…) Era o que o mantinha animado,
o que o fazia seguir em frente. O que o fazia feliz. [ 433 ]
E o jornalista Abraham Riesman observou:
Tem uma coisa crucial que você precisa saber sobre como Lee
aborda esses produtos [os projetos da POW!]: ele não é um
proprietário ausente. Está sempre envolvido nos projetos que levam
seu nome, e em parte porque não fica feliz só em ser a face do
produto ou projeto em questão; ele quer ter o crédito criativo desses
projetos — coisa que, nas últimas décadas, foi muito questionado,
graças a Ditko e Kirby. Então, como vemos a marca de Lee em
tantos produtos, seria de se imaginar que, pagando bem, ele
permite que qualquer coisa leve seu nome e o selo Stan Lee de
aprovação, mas não é o caso. [ 434 ]
Alguns dos muitos empreendimentos de Lee nessa época foram:
Who Wants to Be a Superhero?, um reality show do Sci-Fi
Channel em que os participantes se apresentavam como um
super-herói de sua criação, e Lee escolhia o melhor.
O evento Stan Lee’s Comikaze Convention (que mais tarde
passou a ser chamado de Stan Lee’s L.A. Comic Con).
Stan Lee’s World of Heroes, um canal de YouTube sobre
cultura pop dos super-heróis.
Os Super-Humanos de Stan Lee, um programa do History
Channel que percorreu o mundo em busca de pessoas com
habilidades únicas.
Lightspeed — Operação céus de fogo, um filme de ficção cien-
tífica.
Mosaico, uma animação lançada direto em DVD sobre uma
jovem que ganha poderes místicos.
Uma linha de quadrinhos da marca Stan Lee para a BOOM!
Studios (editada pelo proeminente quadrinista Mark Waid).
Stan Lee’s Kids Universe, uma série de livros para o público
infantil feita com a 1821 Media.
Romeo Juliet: The War [Romeu e Julieta: A guerra], uma
graphic novel de ficção científica (e possível filme da
Lionsgate) baseada na famosa peça de Shakespeare.
A série de livros Stan Lee’s How To, em que Lee dá instruções
sobre vários aspectos da criação de histórias em quadrinhos —
produzida pela Dynamite Entertainment e publicada pela
Watson-Guptill.
Uma marca de roupas, joias e até perfume com o nome Stan
Lee.
Ultimo, um mangá lançado pela Viz Media.
Stan Lee’s Mighty 7, uma parceria de quadrinhos com a Archie
Comics.
Uma linha de super-heróis para as equipes da Liga Nacional
de Hóquei dos Estados Unidos.
Esses foram apenas alguns dos muitos empreendimentos que
Lee anunciou na época. Alguns se concretizaram; outros nunca
saíram do papel. De tudo o que foi produzido, muita coisa foi
razoavelmente bem-sucedida, mas nada atingiu o ápice do sucesso
de público. Ainda assim, a quantidade de projetos por si só já
indica que não havia escassez de pessoas e de empresas querendo
se associar a Stan Lee.
* * *
Em 17 de novembro de 2008, Lee recebeu a Medalha Nacional das
Artes do presidente George W. Bush, com quem teve um diálogo
ágil e cheio de piadinhas durante a cerimônia.
E, em 2009, quando o presidente Barack Obama apareceu em
uma edição da revista do Homem-Aranha, Lee disse ao repórter
Michael Cavna, do Washington Post:
Eu [recentemente] tinha lido que o presidente eleito era um grande
fã do Homem-Aranha e do Conan. (…) E talvez ele ainda leia os
quadrinhos, pelo menos é o que eu espero! Quando li isso, enviei
para ele um pôster autografado do Homem-Aranha. [ 435 ]
Também em 2009, como se para cumprir o objetivo que Lee
declarara anos antes, de tornar a Marvel “a próxima Disney”, a
Walt Disney Company comprou a Marvel Entertainment por US$
4 bilhões, segundo consta nos autos. [ 436 ]
Naquele mesmo ano, a Disney também comprou uma
participação de 10% na POW!. [ 437 ]
E, também em 2009, representantes de Jack Kirby, por meio do
advogado Marc Toberoff, entraram com uma ação contra a Disney (e outras entidades corporativas associadas aos filmes da Marvel)
pelos direitos de propriedade intelectual dos personagens em que
Kirby estivera envolvido na criação. Muitos figurões da indústria
foram intimados a testemunhar no caso, incluindo Lee.
Quase todo o depoimento de Lee, prestado em maio de 2010, é
mantido em sigilo, mas uma parte foi divulgada. Seu testemunho,
pelo menos a parte de acesso ao público, foi mais ou menos a
história da criação dos personagens que ele conta no livro de
1974, Origins of Marvel Comics.
Embora faça grandes elogios a Kirby, o testemunho descreve o
próprio Lee como fonte de todas as ideias que fizeram da Marvel a
empresa que é, com Kirby retratado como talentoso intérprete
dessas ideias, e não cocriador. Por exemplo, sobre a criação do
Quarteto Fantástico, Lee afirmou:
Nos anos 1960, as ideias para os novos personagens vinham de
mim, porque essa era minha responsabilidade. (…) [Com o
Quarteto Fantástico] tentei fazer tudo o que podia para
transformar personagens superpoderosos em, de alguma forma,
criaturas realistas e humanas, que reagissem como humanos
normais, se homens normais tivessem poderes de super-herói. (…)
Escrevi uma breve sinopse sobre isso e naturalmente liguei para
Jack, que era nosso melhor artista, perguntando se ele topava fazer.
Jack pareceu gostar da ideia. Ele pegou a sinopse e desenhou a
história, colocando seus próprios toques, que foram brilhantes. (…)
E pode-se dizer que esse foi o começo do sucesso da Marvel. [ 438 ]
Sobre a criação de Thor, Lee testemunhou:
Nessa hora, eu estava procurando por algo diferente e mais
impressionante do que qualquer outra coisa [que já tivéssemos
feito], e pensei: o que pode ser maior que um deus? (…) Achei que
os deuses nórdicos caíam bem. Eu gostava da sonoridade de Thor e
de Asgard e de toda a coisa de Ragnarok, Crepúsculo dos Deuses e
tudo o mais. Jack gostou muito dessa mitologia, ainda mais do que
eu, então, quando contei a ideia, ele ficou muito empolgado. Nós
nos reunimos e fizemos o Thor da mesma maneira [que fizemos
com os outros personagens]. [ 439 ]
Parte da comunidade dos quadrinhos achou as palavras de Lee
decepcionantes. Mark Evanier, por exemplo, achava que Lee tinha
a responsabilidade de, pelo menos, reiterar o que dissera no
passado, sobre Kirby ter sido fundamental na criação dos
personagens. [ 440 ] Segundo Evanier:
Quando interrogado por Toberoff sobre as muitas vezes em que se
referira a Jack como cocriador, como por exemplo nos prefácios das
reimpressões de coleções, Lee respondeu: “Escrevi os prefácios
sabendo que Jack os leria. Quis fazer parecer que nós dois tínhamos
feito tudo juntos, para agradá-lo.” [ 441 ]
Os Kirby perderam o caso, julgado pelo Tribunal Federal do
Distrito Sul de Nova York em 2011, e perderam a apelação no
Tribunal do Segundo Circuito de Apelações, em 2013.
Mesmo que Lee (chamado para testemunhar em nome da
Marvel) tivesse sido mais generoso em seu testemunho — cujo
objetivo era deixar claro que Lee apresentara as ideias para os
personagens como funcionário da Marvel —, é pouco provável que o Tribunal de Apelações teria decidido a favor da família
Kirby, de qualquer maneira. Como a juíza Colleen McMahon
afirmara em seu discurso final, em 2011, não era uma questão de
se era ou não justo [definir quem criara o quê], e sim de Kirby ter
feito os quadrinhos em um trabalho contratado — o que o tribunal
estava convencido de que era o caso. [ 442 ]
A família Kirby tentou recorrer do veredicto, chegando até a
Suprema Corte, que já estava decidindo se deveria ou não ouvir o
caso, quando, em 26 de setembro de 2014, a Disney/Marvel optou
por firmar um acordo cujo valor não foi revelado. Parecia que
manter intactas as atuais leis de direitos autorais, em vez de
arriscar uma decisão da Suprema Corte que pudesse atrapalhá-las,
era mais interessante para a Disney do que pagar aos
representantes de Kirby o que, para eles, foi uma quantia
relativamente modesta — as estimativas variam de US$ 40
milhões a até US$ 100 milhões. [ 443 ] Também foi significativo o
acordo de que Kirby seria creditado oficialmente, junto com Lee
e, quando apropriado, Lieber, como o cocriador dos personagens
que ajudara a estabelecer. [ 444 ]
A Disney tinha pagado US$ 4 bilhões pela Marvel, e, em 2014,
seus filmes com os personagens da empresa arrecadaram muitos
bilhões — ou seja, em retrospecto, foi uma compra barata.
Levando isso em conta, pagar até US$ 100 milhões para resolver
um problema jurídico e de relações públicas — e pagar aos
herdeiros de Kirby o que, por quase todos os padrões “normais”,
era uma quantia generosa — deve ter, de longe, parecido vantajoso
para a Disney.
* * *
Porém, durante todo o processo até o acordo, a vida de Stan Lee
não ficou livre de acontecimentos significativos.
Em 4 de janeiro de 2011, Lee foi premiado com uma estrela na
Calçada da Fama de Hollywood. Entre os palestrantes daquele dia
estava Todd McFarlane, que sempre mantivera boas relações com
Lee, mesmo nos tempos em que ele e outros fundadores da Image
estavam em disputa ferrenha com a Marvel.
Em maio de 2012, Arthur Lieberman morreu de câncer no
pulmão. Para Lee, a perda de Lieberman não foi apenas a perda de
um amigo e parceiro de negócios. Lee perdeu uma parte
importante da equipe que o protegera dos aspectos mais
desagradáveis do mundo dos negócios. Lieberman era um
advogado agressivo, disposto a batalhar para proteger os
interesses de Lee sempre que necessário. Era alguém em quem
Lee sabia que podia confiar.
E, em setembro de 2012, Lee passou por uma cirurgia — bem-
sucedida — para instalar um marca-passo, o que lhe permitiu
realizar ainda mais projetos. Para Lee, isso significava manter
aparições regulares nos escritórios da POW!, além de ser
convidado para dezenas de convenções de quadrinhos por ano,
além de várias premiações locais e outros eventos do mundo do
entretenimento na área de Los Angeles.
Muitas das convenções em que Lee fazia aparições eram
organizadas pela Wizard World, uma empresa de eventos de
quadrinhos que surgiu a partir da popular revista de fãs Wizard,
dos anos 1990. A Wizard World produzia cerca de 15 convenções
por ano nos Estados Unidos, e Lee era um convidado regular de
muitas.
O autor deste livro, que na época trabalhava como consultor de
programação para a Wizard World, foi moderador regular dos
grandes painéis de Lee, nas apresentações de 2014 a 2016. Foi
incrível ver de perto o relacionamento entre o quadrinista e o
público de milhares de pessoas das convenções. Em geral, essas
multidões não conheciam — ou não se importavam com — as
várias controvérsias que cercavam a vida de Lee. Também não se
importavam muito com o fato de que ele era funcionário da
Marvel. Com base nas perguntas que faziam e em como reagiam
às histórias e piadas de Lee, parecia que Stan saltara por uma
distorção do tempo, saindo direto dos escritórios da Marvel de
1965 — ou de uma tela de cinema com uma de suas participações
especiais — para falar ali no palco.
Como Michael Kelly me disse:
Stan praticamente decidiu [que o que os fãs mais queriam ouvir era
sobre os primeiros anos da Marvel], e ele tinha respostas tão bem
ensaiadas sobre os quadrinhos da Marvel que escrevera nos anos
1960 que a coisa toda era bem fácil para ele. Uma de suas frases
favoritas era: “Já contei essa história tantas vezes que pode até ser
verdade!” Lee genuinamente estava orgulhoso do que a Marvel
conquistara durante a década sob sua orientação.
Sua única frustração era quando realmente queria promover um
novo projeto da POW!, já que ninguém queria falar disso, só do
tempo dele na Marvel. Mas Stan em geral conseguia, daquele jeito
dele, com um papo tranquilo e interessante, promover bastante os
projetos mais recentes. [ 445 ]
Entre minhas aparições com Lee em convenções, uma das mais
memoráveis foi quando a apresentação dele teve um dia de atraso,
devido a uma reação adversa à vacina da gripe, que ele tomara
antes de uma convenção da Wizard de 2014, em Sacramento, na
Califórnia. Antes do nosso painel de 9 de março, o presidente da
Wizard anunciou que Lee faria apenas uma entrevista de vinte
minutos (em vez dos 45 habituais) devido à fraqueza resultante
da reação. E, antes de ser apresentado, vi que Lee realmente
estava com um passo mais lento.
Mas, depois que nós dois já estávamos acomodados no palco,
percebi que ele ficou energizado pela adoração da multidão.
Depois de responder a algumas perguntas minhas, abrimos para a
participação da plateia. Vinte minutos depois, informei que o
tempo prometido tinha terminado. Perguntei se Lee tinha alguma
palavra final para o público antes de encerrarmos aquele painel
reduzido. E Lee retrucou: “Por acaso Deus está falando com você
agora? Ele nos mandou parar? Eu estou ótimo! Vamos continuar!”
Houve um pandemônio nos bastidores, enquanto o pessoal que
acompanhava Lee e a equipe da Wizard tentavam lidar com a
situação — e ainda me passar orientações sobre o que queriam
que eu fizesse. Acabamos estendendo a conversa por mais dez
minutos, mas, mesmo assim, Lee se mostrou relutante em deixar
o palco.
O tempo e a mortalidade continuaram seguindo em frente.
Jim Mooney, amigo íntimo e colega de trabalho de Lee,
faleceu em 2008, aos 88 anos.
Em 2011, passaram desta para a melhor Gene Colan, aos 84
anos, Jerry Robinson, aos 89, e Joe Simon, que contratara Lee
na Timely, aos 98.
Dick Ayers morreu em 2014, aos 90 anos, assim como Stan
Goldberg, aos 82.
Mas Stan Lee continuou. Apesar das ordens do médico de não
passar mais de duas horas em um voo, Lee com frequência
atravessava o país e passeava pelo mundo.
* * *
Em 2 de fevereiro de 2014, entre aparições em convenções (uma
em Portland e outra em Nova Orleans), Lee, aos 91 — nunca
havendo demonstrado nenhum interesse particular por futebol
americano —, apareceu, junto com o famoso criador de
quadrinhos Todd McFarlane, no Super Bowl. McFarlane estava lá
para uma sessão de autógrafos das action figures de futebol
americano de sua empresa de brinquedos. E Lee? Lee tinha sido
levado pela Doritos, para julgar uma promoção da marca, que
fizera um concurso de criação de um comercial. (Lee também
arranjou tempo para posar em uma foto com Paul McCartney.)
Era um cronograma de viagem cansativo para qualquer um,
ainda mais um nonagenário. No entanto, quando nos encontramos
em uma convenção da Wizard em Nova Orleans, em um painel
que fizemos juntos, menos de uma semana depois do Super Bowl,
Lee parecia mais animado que nunca. No painel, ele me contou
melhor sobre a promoção do Super Bowl:
STAN LEE: Bem, tem essa pequena empresa chamada “Doritos”
(…) que é um dos patrocinadores do Super Bowl. Eles fizeram um
grande concurso (…) podia entrar gente de todas as partes do
mundo, e o objetivo (…) era que criassem seu próprio (…)
comercial de trinta segundos [para a Doritos]… Ou talvez fosse
sessenta, não lembro.
Os cinco melhores seriam enviados para julgamento no Super
Bowl. E, desses cinco, dois seriam exibidos na programação. E,
desses dois, um seria julgado o vencedor, e o criador ganharia um
milhão de dólares e a chance de fazer um filme de verdade.
Parece que receberam centenas de milhares de inscrições,
reduzidas a algumas dezenas de ideias ótimas que eu tinha que
olhar, porque queriam que eu fosse um dos juízes, óbvio, já que
tenho um gosto excelente e sei muito sobre salgadinhos. (…)
Fui lá [ao Super Bowl] e conheci as pessoas que tinham mandado
as cinco melhores inscrições. Conheci a pessoa que ganhou, e tudo
o mais. E essa deve ser a história mais chata que já contei. Por que
você perguntou disso?
DANNY FINGEROTH: Porque é o Super Bowl. O Super Bowl não
é uma ocasião em que a gente imaginaria ver Stan Lee.
STAN LEE: Pode me imaginar em tudo. [ 446 ]
Como ficou evidente muitas vezes ao longo dos anos, e por mais
improvável que possa parecer, Lee e McFarlane eram mesmo
amigos. É de se imaginar que McFarlane, o rebelde supremo, e
Lee, o cara sempre certinho e leal à empresa — inclusive sendo a
personificação da empresa em que McFarlane jurou nunca mais
trabalhar —, seriam tudo, menos amigos; que se alguém poderia
se ressentir eternamente de Lee era McFarlane, em nome de Jack
Kirby e Steve Ditko. Mas, obviamente, não era o caso.
Talvez a explicação para a boa vontade dele com Lee fosse por
causa de algo que ocorreu quando McFarlane ainda era um garoto
desconhecido de 16 anos que encontrou seu ídolo em uma
convenção de quadrinhos. Como McFarlane lembrou:
Eu estava em um hotel onde acontecia uma convenção de
quadrinhos. Lee também estava lá, e ele me deixou sentar ao seu
lado o dia todo e respondeu minhas perguntas, porque eu estava
pensando em entrar para o mundo dos quadrinhos. Eu tinha 16
anos, tinha acabado de começar minha coleção. E ele me aturou o
dia inteiro. Aquele dia teve um impacto gigante na minha vida.
Claro que Lee não se lembrava de nada, mas mesmo assim aquilo
me marcou. [ 447 ]
Com o passar do tempo, até os críticos mais ferrenhos da
Marvel começaram a ficar empolgados com a perspectiva de
serem vistos com Lee. Talvez fosse simplesmente por terem
enfim compreendido que Lee — assim como eles — não viveria
para sempre.
O que quer que fosse, fez com que pessoas como Frank Miller,
por exemplo, que tinham atacado a Marvel tão intensamente em
1986 por causa do tratamento dedicado a Kirby, participassem de
um encontro com Lee promovido pela Barnes Noble de L.A.
sobre Bob Kane, em fevereiro de 2016, e de um painel de bate-
papo com Lee na convenção C2E2, de Chicago, em abril de 2017.
* * *
Em maio de 2017, a POW! Entertainment foi comprada pela
chinesa Camsing International Holding, que colocou Shane Duffy, vice-presidente da Camsing USA, como CEO. Gill Champion
permaneceu como presidente e Lee como diretor de criação. Os
principais produtos da empresa ainda eram o nome e a fama de
Stan Lee.
A partir dos noventa anos, suas aparições em convenções
assumiram um ritmo frenético, como se ele estivesse desesperado
para terminar as apresentações o mais rápido possível — o que era
o caso. Lee chegava à cidade, dormia, fazia alguns painéis no dia
seguinte e embarcava em um avião de volta para casa. Por mais
que adorasse aparecer para os fãs e receber elogios — e ainda por
cima sendo muito bem pago, já que a preocupação constante
adquirida durante a Depressão nunca havia desaparecido
completamente —, Lee sempre queria voltar para casa o mais
rápido possível. Queria estar junto com a esposa, ainda mais
depois que a saúde dela começou a se deteriorar.
Como Michael Kelly lembrou:
A perda da esposa levou mais de um ano. Joan ficou de cama em
algum momento de 2016, uma complicação que foi aumentando
aos poucos. (…) Eu sabia, pelas interações que via entre os dois, que
Joan era a luz da vida dele. (…) Ambos tinham um ótimo senso de
humor e davam muitas risadas sempre que estavam juntos. [ 448 ]
Joan Lee morreu em 6 de julho de 2017, aos 95 anos, vítima de
complicações de um derrame. Ela e Stan estavam casados havia 69
anos.
* * *
Menos de duas semanas depois, em 15 de julho, Lee e Kirby
receberam o prêmio Disney Legends, entregue por Robert Iger, presidente da empresa, na D23 Expo (D de Disney, e 23 de 1923,
ano em que Walt Disney fundou a corporação), no Centro de
Convenções de Anaheim.
Ambos os prêmios foram precedidos de um breve vídeo de
retrospectiva, contando a carreira de cada homem. O prêmio de
Kirby foi o primeiro a ser concedido, recebido por seu filho, Neal,
que, antes de iniciar o discurso de aceitação, expressou
condolências a Lee pela perda de Joan.
No discurso de aceitação de seu próprio prêmio, Lee estava
segurando as lágrimas e, com a voz embargada, disse: “Fiquei
emocionado ao ver esse vídeo em homenagem a Jack Kirby. É
muito merecido.”
Ainda profundamente emocionado, Lee falou de si mesmo
quando menino:
Um dia, em uma livraria, vi (…) um livro caro (...) The Art of Walt
Disney [A arte de Walt Disney]. (…) Eu não tinha como pagar, o
que me deixou louco, porque eu queria muito aquele livro.
Economizei cada centavo e, depois de alguns meses, comprei. Amei
tanto o livro. Eu amava Walt Disney. Ele era mais que um homem;
era uma inspiração.
E pensar que, hoje, estou aqui, na casa que a Disney construiu, e
prestamos homenagem a Jack… É um momento tão emocionante
que me faltam palavras para explicar. [ 449 ]
Dois dias depois, Jillian, filha de Neal Kirby (neta de Jack e
Roz), postou uma mensagem de seu pai na página do Facebook
Kirby4Heros:
Na última sexta-feira, tive a honra de aceitar o prêmio Disney
Legends em nome de meu pai. (…) Stan Lee, que também recebeu
um prêmio, prestou uma linda homenagem, muito emocionante, ao
meu pai. (…)
Falo isso porque, nos últimos dois dias, vi (…) comentários muito
mesquinhos sobre Stan Lee. (…) Independentemente do que cada
um aqui sente a respeito de acontecimentos que ocorreram há
tantos anos, agora já chega. (…) O mais importante é que meu pai
está enfim recebendo o reconhecimento que realmente merece. [ 450
]
Enquanto lamentava a perda da esposa, Lee praticamente
dobrou as aparições em convenções. Ele parecia estar em toda
parte.
Mas, embora isso o mantivesse ocupado e distraído, problemas
sérios estavam prestes a surgir, tornando o ato final de Stan Lee
mais estranho do que qualquer um poderia imaginar.