A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 4 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

3. O flautista da West 42nd Street

Eu achava [Stan Lee] o Orson Welles da

indústria de quadrinhos. Um rapaz jovem,

bonito e cheio de energia.

— David Gantz [ 57 ], artista da Timely

 

S tanley Martin Lieber não era apenas primo de Jean Goodman. Uma reviravolta do destino mais estranha que a ficção fizera com que o irmão de sua mãe — Robbie Solomon — se casasse justo [ 58 ] com a irmã de Martin Goodman. Ou seja: Stanley tinha uma dupla relação de parentesco com o

dono da Timely Comics. Além disso, vários dos irmãos de Martin

também trabalhavam para a editora — o que não era incomum

para empresas de imigrantes ou dos primeiros filhos de

imigrantes nascidos nos Estados Unidos. Ao empregarem

parentes, garantiam funcionários de confiança e ainda ajudavam a

família a encontrar trabalho.

Segundo quase todos os registros, o papel de tio Robbie,

qualquer que fosse o título oficial, era ser os olhos e ouvidos de

Martin na empresa. O homem fazia questão de saber o que estava

acontecendo em cada departamento, o que lhe rendera a

reputação de chato e intrometido. No entanto, o que muitos não

pareciam compreender é que se intrometer era justamente a

descrição não oficial de seu cargo. [ 59 ]

De acordo com Joe Simon, Solomon levou Lee até ele em

dezembro de 1940, no edifício McGraw-Hill, da Timely, na

distante West 42nd Street, dizendo: “Olha, o Martin quer que

você dê alguma coisa para esse aqui fazer. Bote ele para

trabalhar.” [ 60 ] Mas, segundo Lee, seu primeiro dia de trabalho

foi diferente. Goodman pareceu surpreso em vê-lo e até

perguntou: “O que você está fazendo aqui?” E Lee nunca

descobriu se o chefe estava falando sério. [ 61 ]

Lee virou assistente geral de Simon e de Kirby, uma espécie de

menino de recados. Ia comprar café e sanduíches, limpava os

rascunhos, revisava os textos… o que fosse preciso para manter o

escritório funcionando. Como Simon lembrou:

 

A gente quase sempre botava o Stan para apagar os traços a lápis

dos desenhos, depois que o nanquim do arte-finalista secava, e para

buscar café. O garoto nos seguia para tudo que é lado. Quando o

chamávamos para almoçar, ele ficava tentando ser nosso amigo.

Quando não tinha o que fazer, se sentava em um canto do

departamento de arte e tocava uma flauta ou flautim, o que deixava

o Kirby doido. (…) Eu sempre o achei um garotinho fofo. [ 62 ]

Como Stanley desejava ser escritor, o trabalho de assistente na

editora de quadrinhos era justamente do que precisava. Para ser

enviado pelo correio para leitores e distribuidores a taxas mais

baixas, todo periódico precisava ter duas páginas de texto corrido,

e era por isso que cada revistinha tinha duas páginas de algum

material em prosa. O consenso era de que os leitores em geral não

se incomodavam com aquela interrupção na história, pulando as

páginas sem nem ler, como fariam com algum anúncio que não

lhes chamasse atenção.

Assim, Simon encarregou Stanley de escrever o texto da edição

n.º 3 de Capitão América. O adolescente escreveu uma história

chamada “Captain America Foils the Traitor’s Revenge” [O

Capitão América frustra a vingança do Traidor]. Só que quem

assinava a história não era Stanley Martin Lieber, e sim um tal de

“Stan Lee”. [ 63 ] Lee sempre alegou estar guardando seu nome

verdadeiro para assinar o grande romance que estava destinado a

escrever. “Eu sentia que… Bem, se ia mesmo virar escritor, ou

talvez um grande ator, era melhor deixar meu nome para as coisas

realmente importantes.” [ 64 ] A história contava com duas novas

ilustrações de Jack Kirby, sendo então a primeira colaboração

entre os dois.

Não demorou para o recém-rebatizado Stan Lee — que só

mudou de nome legalmente décadas depois — também começar a

escrever roteiros para os quadrinhos. O primeiro foi uma história

(desenhada por Charles Wojtkoski) que estrelava um novo

personagem, Jack Frost, na primeira edição da USA Comics, que

foi às bancas no início de maio de 1941. Logo depois veio uma

história do Black Marvel desenhada por Al Avison e Al Gabriele,

na primeira edição do All Winners Comics, publicada mais tarde no mesmo mês. No fim desse mesmo mês veio a estreia de

“Headline Hunter, Foreign Correspondent” [Caçador de

manchetes, o correspondente estrangeiro], uma série escrita por

Lee e desenhada por Charles Nicholas (possivelmente um

pseudônimo de Wojtkoski), na quinta edição de Capitão América.

No mesmo número, a dupla também apresentava uma história

com o personagem Hurricane, Master of Speed. [ 65 ]

Enquanto Lee se estabelecia como escritor — o que

representava um adicional de cinquenta centavos de dólar por

página ao seu salário semanal de oito dólares —, Simon e Kirby,

junto com a Funnies Inc., produziam e expandiam uma série de

quadrinhos exclusiva para Goodman. Syd Shores foi contratado

como artista interno, e a série cresceu, já na época com mais de

seis edições de 64 páginas.

* * *

Com o crescimento da Timely e de outras editoras, os quadrinhos

estavam atraindo cada vez mais olhares, e nem toda essa atenção

era bem-vinda. Sterling North, editor literário do Chicago Daily

News, escreveu, na edição de 8 de maio de 1940 — meio ano antes

de Stanley Lieber ser contratado na Timely —, que as histórias em

quadrinhos eram como “cogumelos venenosos” na literatura, e

culpava seus criadores por um “massacre cultural de cérebros

inocentes”. A crítica mordaz foi publicada no The News e repetida

por dezenas de outros jornais. Foi o começo de um movimento

antiquadrinhos que teria seus altos e baixos ao longo das décadas,

complicando muito a vida de Stan Lee.

Mas, naquela época, as coisas ainda corriam às mil maravilhas

na Timely, com Capitão América, seu maior sucesso, vendendo quase um milhão de exemplares por edição. A revistinha era tão

conhecida que até membros da organização nazista The German

American Bund perseguiam os criadores. Simon recordou: “Os

apoiadores do nazismo faziam bastante barulho, e eram muitos.

Não paravam de mandar ameaças. Chegou ao ponto de

precisarmos de policiais de vigia no lado de fora dos escritórios, e

até o FBI entrou na história.” O prefeito de Nova York, Fiorello La

Guardia, chegou a ligar pessoalmente para Simon, garantindo que

os quadrinistas receberiam proteção pública. [ 66 ]

* * *

Simon e Kirby tinham um acordo informal com Goodman de que

receberiam 25% dos lucros de Capitão América. Com isso,

deveriam estar ganhando muito dinheiro. Mas Goodman afirmava

que as revistinhas não lucravam tanto. O contador da Timely,

Maurice Coyne — que também era sócio da MLJ, empresa que

mais tarde se tornaria a Archie Comics —, informou aos dois que

os lucros estavam baixos porque Goodman deduzia as despesas de

toda a linha de quadrinhos das receitas de Capitão América. Talvez

Coyne tivesse esperança de que, revoltados com a enganação,

Simon e Kirby deixassem a Timely para trabalhar na MLJ. [ 67 ]

Quando soube disso, Simon entrou em contato com Jack

Liebowitz, presidente da National (também conhecida como DC

Comics, que publica o Super-Homem e o Batman), e estabeleceu

um acordo para que ele e Kirby fizessem trabalhos freelance para

a National enquanto ainda eram empregados da Timely. [ 68 ]

Simon deve ter imaginado que o único jeito de receber seu

dinheiro do Capitão América seria se não parasse de aparecer no

escritório. Ou, quem sabe, tenha pensado que os dois poderiam ter trabalhado em ambas as empresas, o que não era incomum no

ramo dos quadrinhos. De qualquer forma, seria apenas questão de

tempo até que seu trabalho, tão característico, aliado a um grande

impulso promocional, aparecesse nos títulos da DC, forçando

Goodman a confrontá-los.

Lee descobriu o que os chefes estavam fazendo, mas jurou que

manteria segredo. Mesmo assim, Goodman descobriu — o que era

inevitável. Dois de seus irmãos, assim como Rob Solomon,

confrontaram Simon e Kirby e os demitiram — mas ainda

insistiram para que ambos terminassem a edição de Capitão

América na qual estavam trabalhando, o volume n.º 10. Lee

sempre afirmou que não tinha entregado os dois, mas, segundo

Simon, Kirby tinha certeza de que Stanley contara tudo a

Goodman e ainda guardava rancor por isso. Por sua vez, Simon

acreditava que Lee tinha de fato mantido o segredo e que, no

mundo pequeno e cheio de fofocas dos quadrinhos, qualquer um

poderia ter denunciado os dois. [ 69 ] Além disso, quando o

trabalho da dupla para a DC chegasse às bancas — com seus

nomes em destaque —, o mundo todo ficaria sabendo de qualquer

maneira.

Goodman colocou o irmão, Abe, como editor temporário de

quadrinhos durante alguns meses, depois designou Stanley para o

trabalho até que encontrasse um “adulto de verdade”. [ 70 ] Lee

zombou dessa história até o fim da vida, alegando que Martin

ainda devia estar procurando esse tal adulto, porque nunca mais

colocou ninguém no cargo de editor — com uma exceção

intencional e temporária. [ 71 ] A primeira vez que Lee foi

creditado oficialmente como editor foi na Capitão América n.º 12,

publicado no início de janeiro de 1942.

Então, no fim de 1941, menos de um ano depois de ser

contratado por Simon, Stan Lee, com 18 anos, tornou-se editor de

uma linha de quadrinhos que tinha tudo para crescer. Com boa

parte do material da linha ainda sendo fornecido pela Funnies

Inc., o trabalho de Lee seria quase todo administrativo, não

criativo. (O que mudou com o tempo, conforme a Timely deixava

de encomendar material pronto e passava a editar internamente,

com criadores contratados pela própria marca.) Ainda assim, era

uma responsabilidade e tanto para um garoto. [ 72 ]

No entanto, além de não sucumbir à pressão, o jovem Lee

parecia prosperar naquele cenário. Talvez tenha sido porque a

indústria de quadrinhos também era muito nova, e ninguém sabia

muito bem o que podia ou não fazer. Al Jaffee, escritor e artista

que começara a fazer trabalho freelance para Lee naquele ano (e

que logo se tornaria parte do lendário “Usual Gang of Idiots”

[Grupo dos idiotas de sempre] da revista Mad), recordou: “A

verdade verdadeira é que Stan era e sempre foi, desde que o

conheci, no início de sua carreira, um malabarista. Ele estava

sempre com dez bolas no ar.” [ 73 ] Jaffee também disse que “o que

mais me impressionava no Stan era sua atitude de ‘deixa

comigo’”. [ 74 ]

Enquanto trabalhavam para aumentar os títulos de super-heróis

da Timely, Goodman e Lee também faziam quadrinhos

engraçados com animais, no estilo da Disney e de outros

desenhos animados populares da época. Lee escrevia muitas

dessas histórias, além de inúmeros contos de super-heróis, e

editava todas as revistas. Naquela época, o jovem enérgico não

parecia ter muita ajuda editorial — se é que tinha alguma.

Quando bateu à porta de Lee com o portfólio do trabalho que

fizera como ghost-writer para o artista Chad Grothkopf, que Lee já

contratava como freelancer, Jaffee recebeu a oferta de trabalhar

em uma história de comédia policial chamada Squat Car Squad.

Jaffee levou o roteiro para casa e improvisou bastante. Ele

quebrava a quarta, a quinta e qualquer outra parede que pudesse

quebrar, chegando até a desenhar a si mesmo e a Lee invadindo o

conto. Como Mary-Lou Weisman escreveu, na biografia Al Jaffee’s

Mad Life [Al Jaffee: Uma vida louca na Mad]:

 

Al inseriu uma caricatura de si mesmo na história (…) caindo de

cara na calçada, com uma onomatopeia enorme. Então foi além

(…) fez com que os personagens o culpassem por não seguir as

orientações de Stan Lee. “Era como se todos estivessem vivos: os

tiras, o artista, o editor… todos nós. Podíamos entrar e sair dos

painéis à vontade. Stan amou, e eu me diverti muito. Stan nunca

editou meu texto. Nunca determinou o que eu devia escrever.” [ 75 ]

 

Lee ficou tão impressionado que manteve Jaffee como escritor e

desenhista regular da Squat Car Squad. Um pouco depois, o editor

quis um novo personagem para uma HQ cômica, e Jaffee lembrou:

 

Criei o Silly Seal e, depois um tempo, Stan veio me perguntar: “Por

que não criamos um parceiro para Silly? Que tal um porco chamado

Ziggy?” Achei ótimo, então juntamos os dois, e Lee me deu

liberdade para escrever [e desenhar] aqueles dois. (…) A gente

nunca planejava as histórias. Não tem muito o que planejar quando

se está escrevendo Ziggy Pig and Silly Seal. [ 76 ]

E esse era o segredo para Lee conseguir conciliar tantos títulos

ao longo dos anos: embora não hesitasse em editar ou fazer

algumas mudanças, em geral preferia trabalhar com pessoas em

quem confiasse e a quem poderia simplesmente “deixar soltas”.

Naquela época, antes de haver tanta necessidade de continuidade

entre as histórias, a supervisão — sobretudo nos quadrinhos de

humor — era bem mais flexível.

Jaffee sugeriu a um colega de escola, o artista David Gantz, que

apresentasse seu trabalho para Lee. Gantz passou a trabalhar na

arte de quadrinhos humorísticos como Patsy Walker [que em

edições posteriores foi traduzido no Brasil como Felina] e o Super

Rabbit. Muitos anos depois, Gantz, em seu romance e livro de

memórias, Jews and the Graphic Novel [Os judeus na indústria de

quadrinhos], relembrou esse primeiro encontro com Lee.2 [ 77 ]O

artista o descreveu como “um rapaz esbelto com botas de caubói

que tentava tocar um flautim, mas sem sucesso”. Na cena, Lee o

conduzia de seu escritório até onde trabalhavam os desenhistas,

ainda tocando o instrumento. Gantz desenhou a si mesmo com

um balão de pensamento no qual se lia: “Eu me senti como uma

criança seguindo uma versão desafinada do flautista de Hamelin.”

Na história, Gantz desenhou Lee voando pelo escritório. (“Não

seria bom fechar a janela?” “Sim! Não queremos ser

responsabilizados caso ele se perca.”) Gantz também retratou Lee

interpretando as cenas das histórias com poses exageradas (“O

que eu quero é ação, AÇÃO, AÇÃO!”) — e muitos outros artistas o

veriam fazendo isso ao longo dos anos.

* * *

Allen Bellman, artista desde os primórdios da Timely, se lembra

da equipe trabalhando com super-heróis e aventura no fim de

1942, incluindo o nome dele e de muitos outros que se tornariam

famosos no mundo dos quadrinhos, como Mike Sekowsky, Frank

Giacoia, George Klein, Frank Carino e Chris Rule. Bellman

lembrou que “Stan era um chefe maravilhoso. Era bem-humorado,

mas muito rigoroso na edição. Queria a perfeição. Se você

desenhasse um copo na mesa em um dos quadros, não podia se

esquecer de desenhá-lo de novo no quadrinho seguinte”. [ 78 ]

Jim Mooney, que foi um dos principais artistas da Marvel e da

DC durante décadas, também se lembrou do Lee daquela época,

quando os dois trabalharam em uma tirinha humorística chamada

The Ginch and Claude Pennygrabber [O Trapalhão e Claude

Trambiqueiro]. Ele se lembrou de trabalhar na tirinha com Lee

empregando o que anos depois passou a ser conhecido como

“Método Marvel”, com ele e Lee desenvolvendo a história na

conversa. [ 79 ]

Mooney relatou seu primeiro encontro com Lee:

 

Cheguei lá, e na época eu era novo e meio arrogante, então Stan

perguntou o que eu fazia. Falei que desenhava, e ele perguntou:

“Mais o quê?” Eu disse que era arte-finalista, e ele perguntou: “E

mais o quê?” Falei que também era colorista, e ele perguntou: “Mais

alguma coisa?” Então respondi: “Sim, também sou letrista.” Aí Stan

perguntou: “Vai dizer que também imprime os quadrinhos?!”

 

Na mesma entrevista, Mooney observou:

Na Marvel, a sensação era de estar envolvido, de fazer parte da

história, especialmente quando eu estava desenhando os quadros ou

quando trabalhava no esboço dos roteiros que Stan passava (…)

porque a gente sempre podia contribuir. Sempre podia desenvolver

o roteiro do jeito que a gente queria. [ 80 ]

 

Enquanto escrevia um monte de histórias de super-heróis, Lee

também criou — junto com Chad Grothkopf (com quadros quase

todos de Jaffee) — The Imp [O Imp], que aparecia nos quadrinhos

do Capitão América. The Imp era uma tirinha cômica estrelada por

uma criatura travessa que só falava em rimas (assim como o

narrador de suas histórias). A tirinha exibia uma atmosfera jovial

e despreocupada, e, para quem lia, parecia que todos os

envolvidos estavam se divertindo bastante no processo de criação.

* * *

O mundo mudou de repente quando as forças japonesas atacaram

Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, fazendo com que os

Estados Unidos entrassem de vez na Segunda Guerra Mundial.

Lee se alistou e entrou no Exército em 9 de novembro de 1942.

Talvez antevendo o serviço militar, que o impossibilitaria de

trabalhar como escritor e roteirista — e de trazer renda extra para

os pais e o irmão, bem como para si próprio —, Lee intensificou o

trabalho freelance para a Timely, criando quadrinhos de humor e

aventura, incluindo algumas edições de Os Garotos, histórias de 45

páginas, consideradas bem longas para a época.

Além dos quadrinhos, ele também trabalhava em algumas

outras revistas, escrevendo pequenos textos humorísticos para a

Joker, a Stag e a Comedy. Também lançou duas histórias de ficção em prosa na edição de outubro de 1942 da revista Male Home

Companion, de Goodman, editada por Solomon. Uma das histórias

foi creditada a Stan Lee, a outra, a “Stanley Martin”.

Questionado sobre a decisão de se alistar, em vez de pedir

isenção do serviço ou esperar ser convocado, Lee recordou:

 

Acho que poderia ter conseguido a isenção, mas (…) era o tipo de

guerra em que quem não entrasse era um filho da puta. Era

importante demais para não lutarmos. (…)

Eu ia atravessar o oceano, e me ensinaram a fazer instalações

elétricas [para a comunicação via rádio] (…) e eu iria antes das

tropas, instalar a fiação, para que os batalhões pudessem se

comunicar entre si. (…) Achei que (…) seria fantástico. Que estaria

fazendo algo importante.

Mas, quando estava no píer, à espera do navio para a Europa (…)

alguém me cutucou e disse (…) “Precisamos de você aqui. Os

planos foram alterados.” Então, nunca fui mandado para o exterior.

Me levaram para Long Island, onde ficava a divisão de filmes de

treinamento, porque descobriram que eu trabalhava como escritor e

roteirista. [ 81 ]

 

Lee tinha contratado seu amigo, o animador Vince Fago, para

dirigir o departamento editorial da Timely durante sua ausência, o

que se provou uma boa jogada. Além de super-heróis, crescia a

tendência de quadrinhos parecidos ou baseados nos desenhos

animados de personagens humanos e animais caricatos, com pés

enormes, conhecido como bigfoot-style. Fago, que tinha

experiência justamente nesse tipo de personagem, era perfeito

para o cargo. E, o que era tão ou mais importante, não parecia querer que aquele fosse o emprego de sua vida. Como Michael

Vassallo colocou:

 

O forte de Fago eram os personagens de comédia, em especial as

trapalhadas de animais engraçados, que precisavam de progressões

frenéticas entre os quadros. Seu talento coincidia perfeitamente

com a expansão recente da Timely, que começava a fazer

quadrinhos humorísticos, lançando as revistas Comedy Comics,

Krazy Komics, Joker Comics e Terrytoons, este último com

personagens licenciados do estúdio de Paul Terry. [ 82 ]

 

Lee estava sempre ocupado com suas tarefas (sua função no

Exército — compartilhada com apenas oito outras pessoas,

incluindo o lendário romancista William Saroyan — era de

“roteirista”), mas, depois de sete meses, conseguiu retomar seu

trabalho de freelancer para a Timely e até mesmo levar uma vida

social. Depois do treinamento básico em Nova Jersey, foi

designado para trabalhar em material informativo e de

treinamento no Queens. Logo em seguida, ocupou postos

semelhantes na Universidade Duke, em Durham, na Carolina do

Norte, e em Indianápolis, em Indiana. Nesta última, ele se

lembrava de ter saído com várias mulheres. Uma delas, segundo

Lee:

 

Vivia em Indianápolis, e os pais eram muito ricos. (…) Fiquei muito

impressionado quando vi a casa em que ela morava. Ocupava uma

quadra inteira. Acho que o pai tinha sido um dos empreiteiros — ou

talvez o único — da represa Hoover, ou coisa assim. A garota era

muito legal, e eu gostava muito dela. Mas não foi uma história de

amor.

E teve outra por quem eu realmente era apaixonado. Ela

trabalhava na lavanderia do Exército. Era ela que recolhia as

roupas dos soldados e entregava para quem quer que fosse. Era

loira e bonita. Mas tinha um hábito horrível que eu não conseguia

suportar. Sempre que ficava irritada, saía resmungando: “Ora,

bolas! Ora, bolas!” E eu simplesmente não conseguia me imaginar

passando a vida inteira com alguém que falasse coisas como “Ora,

bolas!”.

Então tive outra namorada, essa era de verdade, até achei que

fôssemos nos casar quando eu saísse do Exército. Estava prestes a

sair, já com vinte e poucos anos, e descobri que ela só tinha 16.

Senti que aquilo não seria justo com a menina, então me afastei.

Mas foi com quem cheguei mais perto de me casar antes de

conhecer Joan. [ 83 ]

 

Quando não estava namorando, Lee escrevia roteiros para

filmes de treinamento e outros trabalhos informativos e

educacionais, inclusive para uma campanha de prevenção a

doenças venéreas, e ajudou a criar métodos para aumentar a

eficiência da equipe de folha de pagamento do Exército. Até

escreveu uma música de marcha engraçadinha para o pessoal da

equipe. Enquanto servia, depois do breve hiato já mencionado,

Lee também continuou com seus trabalhos de freelance para a

Timely — chegou até arriscar uma punição por “roubar” a própria

correspondência, quando viu, em certa ocasião, que o serviço de

correios da sua base estava fechado. [ 84 ]

Em retrospecto, Lee não achava que o tempo no Exército tinha

influenciado sua vida muito mais do que qualquer outra coisa que

tenha feito em seus vinte e poucos anos. “[Quando acabou], só

aconteceu de eu estar três anos mais velho”, disse. “A pessoa com

vinte e poucos anos envelhece três anos e muda de qualquer jeito,

não importa se foi do Exército ou não. (…) Cumpri meu tempo de

serviço, fiz o que tinha que fazer, voltei para casa e fui atrás de

uma garota para casar.” [ 85 ] Ainda assim, anos mais tarde, ele se

recordava orgulhosamente do tempo no Exército e tinha o prazer

de aceitar todas as honrarias das associações de veteranos.

Enquanto servia, Lee comprou seu primeiro carro, um

Plymouth usado de 1936, que acabou trocando por um Buick

preto conversível, também usado, com bancos de couro vermelho

e calotas brancas. Segundo ele, o carro glamoroso foi por conta da

vida amorosa intensa. [ 86 ]

Jim Mooney relembrou uma experiência que teve com Lee

durante esse período:

 

Trabalhamos juntos quando ele estava na Universidade Duke, na

Carolina do Norte. Fui até lá para fazermos um dos quadrinhos dos

Terrytoons juntos. O prazo era apertado, e Stan me arranjou um

lugar para trabalhar em um laboratório de patologia. Eu estava

cercado por frascos de formol com olhos e várias outras partes do

corpo. Era um bom incentivo para sair depressa. Acelerou muito

meu trabalho. [ 87 ]

 

Dispensado em 29 de setembro de 1945, Lee voltou a trabalhar

na Timely, que tinha crescido bastante e mudado para escritórios

no 14.º andar do Empire State Building. A operação agora incluía duas salas para os artistas — uma para super-heróis e outras

aventuras (os “ilustradores”), e outra para quadrinhos

humorísticos e histórias para adolescentes (os “animadores”). [ 88

] Além do time de desenhistas e arte-finalistas, Lee também

passou a chefiar uma equipe de editores, incluindo Al Jaffee e

Leon Lazarus.

Enquanto isso, escrevia inúmeras histórias, quase todas de

comédia. Inspirado pelo sucesso do filme A amiga da onça, sobre

uma jovem excêntrica, Lee começou a escrever quadrinhos como

Millie, the Model e Tessie, the Typist, chegando inclusive a fazer

uma adaptação em série e licenciada do próprio filme que serviu

de inspiração. (Ele e o artista Dan DeCarlo acabariam assumindo

as últimas edições das tirinhas nos jornais.) Direcionando grande

parte das histórias para o público feminino, a Timely começou a

testar super-heroínas, incluindo a Venus e The Blonde Phantom [A

loira fantasma]. Mas a era dos super-heróis estava chegando ao

fim, e nenhuma das duas heroínas durou muito.

* * *

Foi em 1946 que Lee conheceu e fez amizade com o artista Ken

Bald, que viria a consolidar uma bela carreira em tirinhas e em

propaganda. Como Bald recordou:

 

Conheci Stan Lee e nós dois nos demos muito bem, ficamos amigos

na hora. (…) Na época, ele era chamado de “garoto maravilha”. Era

bonito, alto e magro. Stan ficou impressionado quando descobriu

que eu era fuzileiro naval. Saíamos juntos com nossas garotas. Stan

me dava todos os trabalhos que eu queria, e somos amigos desde

então. (…) Stan sempre foi viciado em trabalho. Sempre nos

divertíamos muito. [ 89 ]

 

Bald lembrou um incidente especialmente engraçado:

 

Almoçávamos no Longchamps [um restaurante de Manhattan]

uma vez por semana. Certa vez, voltando do almoço, um pássaro

passou voando e prrrr! bem no ombro de Stan. Ele ergueu o punho

cerrado para o alto e gritou: “Mas para quem não é judeu você

canta!” Nossa, eu não conseguia parar de rir. Stan era assim,

sempre fazia piada de tudo. [ 90 ]

 

Os Lieber moravam na West 170th Street, em Washington

Heights, mas Lee, então com 22 anos, se mudou para um quarto

no Alamac Hotel, na esquina da Broadway com a 71st Street, em

Manhattan. Ele parecia levar uma vida despreocupada de solteiro,

embora um de seus encontros tenha sido um pouco diferente do

que esperava. Uma mulher muito atraente o surpreendeu

chamando-o, logo que se conheceram, para seu quarto, no mesmo

hotel.

 

Nós nos demos bem e acabamos virando bons amigos. Sei que nos

demos bem porque ela não quis pagamento. No fim das contas, era

uma dama muito cara que, falando com mais delicadeza, estava

procurando satisfazer os próprios negócios. [ 91 ]

 

Segundo Lee, os dois ficaram juntos “por muitos meses”. Por

sorte, parece que não se esquecera das aulas sobre prevenção de

doenças venéreas que apresentara no Exército.

* * *

Apesar de namorar bastante, Lee sentia que estava pronto para se

casar. Em dezembro de 1946, foi a uma festa da Morton Feldman

Company, empresa de seu primo. Morty o convidara para sua

soirée para conhecer uma “linda modelo ruiva” chamada Betty. [ 92

]

Mas foi Joan Clayton Boocock, uma modelo de chapéus, quem

atendeu a porta naquele dia. Lee se apaixonou na hora e percebeu

que aquela era a mulher por quem procurara a vida toda. Os dois

começaram a namorar, e ela logo concordou em se casar. Só havia

um problema: Joan já era casada. Era uma noiva da época da

guerra, as chamadas war brides, e se casara com um soldado

americano, Sanford Dorf Weiss, que estava servindo na

Inglaterra. [ 93 ]

Mas, como a revista People publicou, em 1979:

 

“Eu só conhecia [meu primeiro marido] fazia 24 horas quando

decidimos nos casar”, [Joan] disse. “Em muitos aspectos, foi um

casamento ótimo, mas, depois de um ano morando juntos, comecei

a achá-lo meio chato.” [ 94 ]

 

Mas, quando conheceu Lee, Joan o achou empolgante. “Ele

estava usando cachecol e um chapéu de aba larga maravilhoso, e

citou Omar Khayyam quando me levou para comer um

hambúrguer no Prexy’s”, contou. “Ele lembrava aquele inglês

bonito, o [ator britânico] Leslie Howard.” [ 95 ]

Joan teve que ir a Reno, como já havia planejado, onde

precisaria passar seis semanas até que o divórcio expresso entrasse em vigor. Mas, enquanto estava lá, enviou uma carta para

Lee que começava com: “Caro Jack.” Stan achou melhor ir vê-la

logo, para garantir que nada desse errado.

Por sorte, o relacionamento de Joan com o tal de Jack não

vingou. Assim que o divórcio foi finalizado, Lee insistiu que o juiz

os casasse ali mesmo. E foi exatamente o que aconteceu. Em 5 de

dezembro de 1947, Stan e Joan celebraram seu matrimônio. [ 96 ]

(Fato surreal é que, na revista My Own Romance n.º 24, em

1952, saiu uma história em quadrinhos chamada “Two Men Love

Joan” [Dois homens amam Joan]. Foi ilustrada por Al Hartley. O

historiador de quadrinhos Michael Vassallo acredita que o roteiro

tenha sido escrito por Stan ou por Joan. A história satirizava o

namoro e o casamento dos dois, numa estranha mistura de vida e

arte.) [ 97 ]

Segundo Larry Lieber, logo depois do casamento em Reno, Stan

e Joan também fizeram uma cerimônia para as famílias

(possivelmente oficiada por um rabino) na sala de estar dos

Lieber. [ 98 ] O casal se mudou para um apartamento de cobertura

com claraboia em um prédio baixo e pitoresco no estilo

brownstone, no número 15 da East 94th Street, em Manhattan.

Mas Celia, a mãe de Stan e Larry, que lutava contra um câncer

de estômago, faleceu menos de duas semanas depois, em 16 de

dezembro de 1947.

Lee relembrou o período:

 

Quando minha mãe morreu (…) decidimos nos mudar para uma

casa. Isso porque Larry, que na época tinha 15 anos e morava com

minha mãe, teve que vir morar conosco. [ 99 ]

Larry nunca achou que a mudança de Stan e Joan para o número

1048 da rua Broadway, em Woodmere, Long Island, tivesse

qualquer relação com ele, dizendo que a mudança para os

subúrbios era comum para jovens casais, e foi o que aconteceu

com o irmão e a cunhada. [ 100 ] Larry, que na verdade tinha 16

anos, não 15, e que estava morando com Rob Solomon e a esposa

— Sylvia, irmã de Martin Goodman — para não ter que

testemunhar o declínio progressivo da saúde da mãe, lembrou:

 

Eu não gostava muito da escola, então queria sair logo. Durante o

verão, estudei [fazendo cursos em casa] e me formei no ensino

médio [da escola George Washington] com 16 e pouco [em junho

de 1948]. Eu morava com a tia Mitzi e o tio Arthur Jeffries, no

Bronx [até a graduação]. (…) Depois que me formei, fui morar com

Stan e Joan. (…) Eu morei lá (...) por um ano e meio. [ 101 ]

 

Não se sabe bem por que Larry não foi morar com o pai depois

da morte de Celia. Larry tinha suas teorias: “Imagino que meu pai

não tenha me chamado para morar com ele porque sabia que não

nos daríamos muito bem. (…) Ele não me chamou, e ninguém da

família sequer sugeriu que eu fosse.” [ 102 ]

Sempre descrito como difícil, é provável que Jack Lieber não

estivesse disposto a cumprir o desafio de ser pai solteiro. Ele não

se casou outra vez. Embora fosse raro que Stan falasse sobre a

morte da mãe, o evento foi bem traumático para Larry, que na

época era adolescente. [ 103 ]

* * *

O relacionamento entre os irmãos sempre fora complicado, e só

piorou quando Stan se casou com Joan. Embora elogiasse Stan por

ser um bom chefe no tempo em que trabalharam juntos em

quadrinhos, ao longo dos anos Larry foi levando na memória

inúmeras dores psicológicas que havia sofrido nas mãos dos

Goodman, do irmão e da cunhada. Intencional ou não, o

tratamento que Larry recebia da família é no mínimo visto como

insensível, sobretudo porque os familiares sabiam como suas

emoções e seu sofrimento eram intensos.

Por exemplo, depois de se formar no ensino médio, ele fez o

trabalho de arte-finalista nas revistas humorísticas de Stan para a

Timely — o que rendia um bom dinheiro, ainda mais para um

adolescente. Ele lembrou que “claro que o trabalho era bom. Era

publicado. Stan nunca reclamou da qualidade”. Mas Lieber contou:

 

Eu estava feliz. Chegava a ganhar 110, 120 dólares por semana,

então aquilo amenizou um pouco a dor da perda da minha mãe.

(…) Só que, depois de um tempo (…) Stan disse: “Vou tirar você

dessa função. (…) Se ficar só como arte-finalista, nunca vai ser

desenhista.” [ 104 ]

 

As intenções de Lee podem ter sido boas, de querer que o irmão

concretizasse sua ambição de se tornar desenhista de quadrinhos,

mas ele não afastou Larry do cargo de arte-finalista e lhe deu

trabalho como desenhista — ou qualquer outro tipo de trabalho,

aliás. Larry ficou sem emprego, e passou um tempo fazendo paste-

ups, as montagens e colagens de páginas, no departamento de

produção da Magazine Management. Ele lembrou que foi

justamente por ter sido tirado do trabalho que saiu da casa de Stan e de Joan, em Woodmere, e se mudou para um quarto no hotel

Manhattan Towers, na Broadway com a 76th Street. [ 105 ]

Alguns anos depois, quando Larry voltou dos quatro anos de

serviço na Força Aérea durante e depois da Guerra da Coreia,

tendo passado um bom tempo em Okinawa, Stan, acreditando que

o irmão tinha o potencial para ser escritor profissional (“Li suas

cartas enquanto você estava fora”), ensinou Larry a escrever

roteiro de quadrinhos e até foi comprar uma máquina de escrever

com ele. Nos anos 1970, quando Larry escrevia e desenhava a

tirinha The Hulk para o jornal, Stan leu um pouco e elogiou o

irmão. “Bem, isso aqui é bom”, Larry lembrou-se de ouvir. “É

ainda mais dramático do que o Homem-Aranha [a tirinha de

jornal que Lee escrevia].” [ 106 ]

* * *

De acordo com a pesquisa de Michael Vassallo, Lee não fez

nenhum trabalho de roteiro relevante para os quadrinhos entre

1945 e 1947. Nesse período, ele dirigia uma série de revistas de

comics, além de supervisionar subeditores, incluindo Al Jaffee e

Al Sulman.

Além disso, Lee estava aquecendo seus músculos profissionais,

testando as águas do mundo da autopublicação. Sob a alcunha de

Famous Enterprise Inc., ele lançou um livro de cem páginas

chamado Secrets Behind the Comics [Segredos do mundo dos

quadrinhos]. Nele, descreveu-se como “editor-chefe e diretor de

arte da Timely Comics”, e, falando de si mesmo em terceira

pessoa, acrescentou: “Esteve no comando de mais revistas em

quadrinhos do que qualquer outro editor vivo.” Depois de listar

alguns de seus trabalhos, o livro continuava: “Então pode ter certeza de que Stan Lee sabe o que está escrevendo — e que o que

Stan Lee escreve é verdade!”

O livro de fato dava dicas úteis sobre como escrever, desenhar e

enviar quadrinhos para avaliação, além de mostrar a vida dos

bastidores de uma grande editora de maneira razoavelmente

precisa, embora um pouco simplificada. Foi ilustrado por colegas

de Lee, em especial Ken Bald, mas também Dave Berg (que, mais

tarde, viraria colaborador regular da revista Mad) e Morris Weiss.

O livro também continha a oferta de que, por um dólar, Lee daria

um parecer sobre sua história em quadrinhos. Não havia data de

validade para a oferta, e, décadas depois, os fãs volta e meia

enviavam suas amostras e um dinheirinho. Em 1972, um artista

chamado Russ Maheras enviou sua amostra junto com dois

dólares, para corrigir a inflação. Lee, à época ocupado com seus

inúmeros deveres de executivo, enviou um parecer mesmo assim.

[ 107 ]

Um aspecto inquietante do livro era a recontagem em

quadrinhos de como surgiu o Capitão América. Essa versão

creditava a ideia original do personagem ao editor da Timely,

Martin Goodman, que contratara criadores sem nome para

executá-la. A história não mencionava Joe Simon nem Jack Kirby.

Embora a biografia tenha sido autopublicada, fica parecendo que

Lee tentou reescrever a história a pedido de Goodman, ou que

simplesmente decidiu bajular o chefe. Claro que, com Simon e

Kirby afastados da Timely havia tanto tempo, surpreendente seria

se os dois fossem incluídos no livro. Mas trazer à tona as origens

do Capitão América parece ter sido uma escolha editorial

esquisita.

* * *

Lee parecia mesmo estar levando uma vida boa, considerando o

casamento recente e os inúmeros projetos dentro e fora do

escritório. Como Raphael e Spurgeon observaram, falando de Lee

quando ele voltou a escrever histórias em quadrinhos:

 

Por um breve período, Stan teve três secretárias sentadas à vista de

todo o escritório, a quem ditava histórias simultaneamente. “Eu era

bem arrogante, e acho que gostava de me exibir daquele jeito”,

lembra Lee. “Mas então me perguntei: ‘O que raios você está

fazendo? Seu exibido! Se fosse outra pessoa, você odiaria o cara!’

Então parei.” [ 108 ]

 

No mesmo ano em que publicou Secrets Behind the Comics,

1947, Lee apareceu na capa da edição de novembro da Writer’s

Digest posando com um cachimbo falso e exagerado no papel de

jovem escritor e editor de sucesso. A edição continha um artigo

de sua autoria, “There’s Money in Comics” [Quadrinhos dão

dinheiro], que chamaria a atenção do filósofo e crítico Marshall

McLuhan, fazendo-o escrever sobre o assunto em tons um tanto

condescendentes em seu livro de 1951, The Mechanical Bride:

Folklore of Industrial Man [Crochê mecânico: O folclore da era

industrial].

Em meados de 1948, Lee tinha voltado a escrever vários

quadrinhos, principalmente dos gêneros policial, romance,

western e humor. Também naquele ano, Lee quebrou muitos

paradigmas para as revistas de Goodman, tornando-se diretor

editorial da revista trimestral Film Album, com fotos de filmes

populares. Ele também editaria, nos anos 1950, a revista Focus,

que trazia artigos como “Murder at a Nudist Camp!” [Assassinato no acampamento nudista!] e “The Nazis Still Run Germany” [Os

nazistas ainda governam a Alemanha].

* * *

Naquela época, recém-casados e sem filhos, Stan e Joan passavam

o tempo com bons amigos, incluindo os Bald e os Mooney, e, ao

que parece, também com a família Goodman. Como Raphael e

Spurgeon observaram:

 

O filho mais velho de Martin Goodman, Iden, que morava a três

quilômetros dos Lee, lembra-se de sempre visitar a casa bucólica

em Long Island. “Eu me lembro que era um lugar muito agradável e

feliz”, disse, acrescentando que os Lee eram sempre “muito

generosos e acolhedores”. Iden aprendeu a dirigir na frente da casa

deles. [ 109 ]

 

Larry Lieber lembrou que os Lee passavam muito tempo

socializando com os Goodman, e que Stan e Joan se importavam

muito com a opinião de Jean e Martin a seu respeito. [ 110 ]

Quanto aos amigos de fora da família, Lee foi próximo a vida

toda de Ken Bald, as famílias reunindo-se com muita frequência.

Como Lee disse:

 

Ken Bald era meu melhor amigo. Ele e a esposa saíam comigo e

com Joan, e rodávamos a cidade toda. Saíamos para festejar sempre

que tínhamos tempo. Formavam um casal maravilhoso. A esposa

tinha sido atriz. E eu odiava Ken, porque era lindo demais. Não

queria ser visto com alguém assim tão bonito. Lembra de Tyrone

Power? Ele era igualzinho. (…)

[Ken] era ótimo. Ele sabia desenhar tudo. Tinha sido capitão ou

sargento da Marinha durante a Segunda Guerra Mundial, em Iwo

Jima. Quer dizer, era um cara de verdade, sabe, e sua esposa era

maravilhosa. Joan e eu adorávamos passar tempo com ele. [ 111 ]

 

A filha dos Bald, Victoria Dollon, disse sobre Stan e Joan:

 

Stan era o homem mais charmoso que já vi na vida. Ninguém

conseguia não gostar dele. Ele e a esposa, igualmente encantadora,

eram muito divertidos, sempre contando histórias sobre as coisas

da vida cotidiana, mas com um toque de humor incrível. O humor

de Stan era bastante físico, muitas vezes gesticulando e atuando

cada personagem, para dar um ar mais dramático. (…) Os dois

eram incrivelmente glamorosos e queridos. Joan em especial era

cativante. (…)

Meus pais também eram pessoas muito glamorosas, então era um

espetáculo sempre que os quatro se reuniam. Eram todos muito

bonitos e encantadores. Só me lembro de rir muito. (…) Stan amava

crianças e adorava nos divertir. Claro que o adorávamos também.

Acho que eu tinha dez ou 11 anos na época, uma idade muito

incômoda. Stan e Joan entraram na nossa garagem num incrível

Rolls-Royce prateado. Era inesquecível, de tão lindo. (…) E Joan

teve uma ideia genial: íamos todos dar uma volta de carro. Minha

mãe, meu pai, minha irmã mais nova e eu nos apertamos e fomos.

Morávamos num subúrbio muito comum, então o Rolls-Royce

passando pelas ruas foi um evento. Foi muito divertido, acenávamos

pelas janelas, e Stan ia tocando a buzina. Minha parte favorita foi

quando Joan, sempre cheia de traquinagens, sugeriu que

passássemos na frente das casas das crianças arrogantes da escola

e mostrássemos a língua para elas! Foi muito divertido se exibir

daquele jeito!

Stan não tinha artifícios. Era o mesmo em público ou na vida

privada: amoroso, charmoso, enérgico, divertido e muito especial.

Uma pessoa muito genuína.

Stan sempre alegou que era desajeitado demais, o que meu pai

adorava confirmar. Lembro-me de ele contando uma história

engraçada sobre como tropeçou na calçada de alguma rua em Nova

York. Ele caiu mesmo, chegou até a dar uma cambalhota, mas

terminou de pé. De acordo com Stan, todo mundo que estava vendo

bateu palmas, então ele se curvou em agradecimento, alegando que

tinha toda a intenção de fazer aquilo. Claro que ele representou a

cena toda, então foi ainda mais engraçado! [ 112 ]

 

Outro amigo próximo, Jim Mooney, contou sobre os Lee:

 

Saíamos para almoçar [quando estávamos solteiros] (…) Depois,

no início dos anos 1970, minha esposa [Carol] tinha uma loja de

antiguidades, e eu trabalhava lá. E a esposa de Stan, Joan, também

tinha uma loja dessas em Long Island, então a gente sempre se

reunia e conversava sobre o que comprar ou não — Stan morria de

tédio. [ 113 ]

 

E, sobre Mooney e a esposa, Lee falou:

 

Jim era um dos meus melhores amigos. Um cara simplesmente

maravilhoso (…) e tinha uma esposa linda, Carol. Os dois amavam

antiguidades. Ele ia com minha esposa pesquisar peças antigas.

(…) Eu não tinha o menor interesse em ficar analisando uma

maçaneta de porta velha. Mas os dois iam às exposições de

antiguidades perto do condado de Woodstock sempre que tinha

acabado de chover, e ficava tudo molhado, o chão cheio de poças.

Era horrível. E ele e Joan ficavam gritando: “Olha isso, olha aquilo!

Encontrei essa dobradiça de uma casa velha!” E eu ficava lá,

encharcado, pensando que ia matar o filho da mãe se ele não

voltasse logo para casa. [ 114 ]

 

O artista Gene Colan, que mais tarde ficou conhecido por seu

trabalho em Demolidor e outras grandes séries, começou a

trabalhar com Lee no final dos anos 1940. Colan lembrou de Lee:

 

Quando o vi pela primeira vez (…) Lee estava com uma touca que

tinha uma hélice no topo, e a janela estava aberta. Aquela coisa

ficava girando sem parar. Não pude acreditar. Sempre nos demos

muito bem. (…) Trabalhar com Stan era maravilhoso. Ele fazia

várias palhaçadas. (…) Era muito engraçado. Lembrava Jack

Lemmon. (…)

Lee é uma das pessoas mais legais que conheci nessa indústria.

Não ficava reclamando e não queria botar ninguém para baixo.

Não posso dizer o mesmo de outros editores. [ 115 ]

 

Outra figura notável que trabalhou para Lee no final dos anos

1940 foi Harvey Kurtzman, que criou a revista Mad na década de

1950. Kurtzman fez pequenas contribuições humorísticas para

Lee — especialmente 150 páginas de “Hey Look” que mostravam

bem seu senso de humor peculiar. A secretária de Lee, Adele

Hasan — que na época namorava Kurtzman, com quem se casaria

em 1946 —, falsificou os resultados de uma enquete de

popularidade entre os leitores para eleger “melhor participação

especial de comédia”. Graças aos artifícios dela, “Hey Look!” venceu, o que fez com que Lee passasse mais trabalho para

Kurtzman. [ 116 ]

Ao que parece, forjar os resultados da votação não gerou

nenhum mal-estar entre Lee e a secretária — se é que ele ficou

sabendo —, já que os artistas permaneceram amigos até a morte

de Kurtzman, em 1993. Há inclusive uma paródia ácida de

Goodman e sua revista em uma história chamada “The

Organization Man in the Grey Flannel Executive Suite” [O

Homem-Empresário vestido de flanela cinza], em seu Jungle Book,

uma versão do Livro da selva que Kurtzman lançou em 1959. Lee

não apareceu na sátira.

* * *

Em 1949, as coisas pareciam estar indo tão bem quanto se poderia

imaginar para Stan Lee. Ganhava bem, considerando o salário de

editor e de freelancer. Trabalhava com pessoas interessantes e

criativas em quadrinhos de sucesso, e alguns de seus trabalhos

eram publicados nas revistas de Goodman. E ainda estava

envolvido em projetos paralelos, como Secrets Behind the Comics.

Além disso, ele e Joan tinham se mudado para o subúrbio, um

lugar perfeito para um jovem casal que poderia estar pensando

em contribuir para a nova geração de bebês.

Claro que fanáticos antiquadrinhos, em particular o psiquiatra

Fredric Wertham, não estavam nada satisfeitos com o sucesso da

Timely e de outras editoras. Mas não representavam ameaça real.

Além disso, os editores tinham formado a Association of Comics

Magazine Publishers (ACMP) [Associação de Editores de Revistas

em Quadrinhos] em julho de 1948 para proteger a indústria

dessas pessoas equivocadas cheias de boas intenções. A Timely tinha até um consultor psiquiatra para rebater qualquer ataque

que os Wertham do mundo pudessem fazer.

E, no fim das contas, as coisas estavam assim: as vendas da

Timely tinham aumentado, em grande parte graças a Stan Lee e

seus talentosos escritores, artistas e editores. Seus empregos

pareciam seguros e perenes.

Por isso foi tão chocante quando Martin Goodman mandou Stan

Lee demitir todo mundo.