A Espetacular Vida de Stan Lee
9. A criação de personagens
A Disney comprou a Marvel Comics não porque
ela trouxe a maior metáfora das dificuldades
dos homossexuais na América, assim como da
luta dos imigrantes e das minorias — que é
realmente a base de toda a mensagem da
Marvel. A Disney comprou a Marvel por causa
do apelo ao público infantil, e isso foi obra de
Stan.
— Gerry Conway, escritor e editor da Marvel de
longa data [ 227 ]
A s histórias de origem dos super-heróis da Marvel têm uma semelhança muito reconfortante. A maioria, se não todos, os personagens da década de 1960 tinha seus poderes, de uma forma ou de outra, derivados da radiação — algo bem comum em uma época em que as escolas primárias realizavam testes de preparação para ataques nucleares com regularidade. Foi assim com as transformações do Quarteto Fantástico, do Hulk e do
Homem-Aranha. A radiação era fácil de usar no roteiro.
Uma leitura mais caridosa da origem dos heróis diria que eles
foram, intencionalmente ou não, unidos por uma mesma temática.
O que não seria uma interpretação errada. Todos foram criados
por um pequeno grupo de homens, durante um curto espaço de
tempo e em uma era específica — uma era obcecada com os
perigos da energia nuclear.
Outro ponto em comum nas origens dos personagens é que,
apesar de terem sido criados principalmente por Lee e Kirby —
com participações de Ditko, é claro, que se envolveu muito em
alguns heróis importantes (como o Homem-Aranha e o Doutor
Estranho) —, há pouco acordo sobre quem fez o quê
conceitualmente na criação dessas personalidades agora tão
clássicas. Claro que é fácil definir quem ficou com a
responsabilidade da narrativa visual. Além disso, as histórias dos
diretores sobre quem inventou o quê parecem variar de conto em
conto, e há suposições lógicas de pessoas que entraram em cena
relativamente pouco depois da criação dos personagens. Além
disso, também foi feito um interminável trabalho investigativo por
fãs e historiadores para tentar definir os créditos “verdadeiros”
das primeiras aventuras e histórias.
Mas, até onde sabemos, não havia gravadores operando quando
os personagens foram gerados. (Os artistas Gene Colan e Dick
Ayers desenharam quadrinhos — e Colan com Lee como roteirista
— em que gravavam suas reuniões de roteiro com Lee. John
Romita Sr. também mencionou que gravava as reuniões, mas tudo
isso veio muito depois da criação dos personagens.) De fato,
muitos dos personagens nem sequer eram considerados relevantes ou novos quando estreavam. Eram mistos de
personagens da mitologia ou da ficção clássica, alguns tinham sido
lidos nas obras de Shakespeare ou vistos naquela semana na TV,
talvez ouvidos no rádio décadas antes, ou vistos em uma sala de
cinema. Muitas vezes eram ecos de personagens publicados nos
quadrinhos de um concorrente (ou do próprio Goodman).
Em seu discurso de aceitação do Nobel de 2017, o cantor e
compositor Bob Dylan citou obras de música que tinham formado
suas sensibilidades. Ele então observou:
Eu tinha princípios, sensibilidades e uma visão bem informada do
mundo. E tive isso por um tempo. Aprendi tudo na escola primária.
Dom Quixote, Ivanhoé, Robinson Crusoé, As viagens de
Gulliver, Um conto de duas cidades, tudo isso, toda a leitura
típica da escola secundária proporciona uma maneira de encarar a
vida, uma compreensão da natureza humana e um padrão para
medir as coisas. (…) E os temas desses livros chegaram a muitas de
minhas músicas, consciente ou inconscientemente. [ 228 ]
“Leitura típica da escola”, mas, claro, filtrada pela sensibilidade
única de Dylan — o homem tinha o que chamamos de talento, às
vezes até ousando dizer que ele era gênio. Todos na sociedade são
rotineira e regularmente expostos a certas obras de ficção e
história, mas apenas alguns conseguem traduzir esse material de
maneiras inéditas.
Da mesma forma, Lee e Kirby pegaram esse material comum e
familiar e o transformaram em algo novo — assim como Lee e
Ditko, e Lee e seus outros colaboradores. Eles transformaram e
subverteram elementos culturais familiares em algo diferente. Foi
a necessidade mundana de cumprir prazos e ganhar a vida que os levou a criar uma mitologia moderna que, ao mesmo tempo que é
um “produto comercial”, também se tornou muito significativa
para diversas pessoas. Em uma entrevista de 2001 à Tripwire
Magazine, Will Eisner se referiu a Lee como “uma espécie de
mago”, que conseguiu tirar o melhor de seus artistas. [ 229 ] Mas é
igualmente verdade que os artistas também trouxeram à tona o
melhor de Stan Lee. Eles eram, de fato, as pessoas certas, no lugar
certo, na hora certa.
* * *
Em um período surpreendentemente curto depois da revista
Quarteto Fantástico n.º 1 (de novembro de 1961), surgiu todo o
panteão da Marvel, e, com poucas exceções, os novos personagens
foram recebidos com entusiasmo pelos leitores de quadrinhos. A
cada sucesso, Lee e Goodman decidiam que Lee e Kirby
precisavam criar mais heróis — e era o que faziam.
Os novos — ou repaginados — personagens apareceram na
seguinte ordem de publicação, após o Quarteto Fantástico:
O Incrível Hulk estreou em sua própria revista (de janeiro de
1962), em um híbrido de O médico e o monstro com o monstro de
Frankenstein. O cientista Bruce Banner é atingido pela radiação de
uma explosão de bomba gama e se torna uma máquina de
destruição com pele verde. A série O Incrível Hulk não foi um
grande sucesso e durou apenas seis edições, mas Lee confiou no
personagem: depois do cancelamento da série, Hulk apareceu nas
edições do Quarteto Fantástico e do Homem-Aranha, até que
enfim caiu nas graças do público, voltando a uma publicação que
dividia com o Homem-Formiga em Tales to Astonish [Histórias
impressionantes], a partir da edição n.º 60, de outubro de 1964.
O Thor apareceu pela primeira vez em Journey into Mystery n.º
83 [Explorando o mistério], com capa de agosto de 1962 (no
mesmo mês da estreia do Homem-Aranha em Amazing Fantasy
n.º 15). O enredo era de Lee, com roteiro de Lieber e desenhos (e
provavelmente ideias de roteiro) de Kirby. Donald Blake, o frágil e
deficiente médico norte-americano de férias na Escandinávia,
encontra uma vara de madeira encantada e retorcida que o
transforma no deus nórdico do trovão. Vale ressaltar que os
roteiros de Lieber em geral eram “completamente” baseados nos
curtos textos de Lee, de modo que o artista — geralmente Kirby —
trabalhava com uma história muito mais estruturada do que
quando colaborava diretamente com Lee.
Em Tales to Astonish n.º 27, no mesmo mês de estreia do Hulk
(janeiro de 1962), Henry Pym inventou uma fórmula química que
poderia reduzi-lo ao tamanho de formigas. Mas ele só vestiu uma
fantasia de super-herói e passou a ser conhecido como Homem-
Formiga na edição n.º 35, de setembro. Mais tarde, ganharia o
poder de se tornar gigante. Não demorou para que o Homem-
Formiga/Homem-Gigante se juntasse à socialite Janet Van Dyne,
a quem transforma na Vespa (seria uma piadinha irreverente dos
criadores judeus, Lee, Lieber e Kirby?).
E, embora tenha permanecido como integrante do Quarteto
Fantástico, o Tocha Humana, que adquirira seus poderes através
de um raio cósmico, também passou a ter uma série solo nas
páginas de Strange Tales, a partir da edição n.º 101, de outubro de
1962. Algumas de suas primeiras histórias foram roteirizadas pelo
cocriador do Super-Homem, Jerry Siegel, que (mais uma vez)
tinha sido expulso da DC. Mas a maioria foi escrita por Lee e
Lieber, com arte de Kirby e Ayers, às vezes apenas de Ayers.
Em Tales of Suspense n.º 39 [Contos de Suspense] (de março de
1963), o empresário Tony Stark é vítima de uma armadilha em
um campo de batalha no Vietnã, e o acidente danifica seu coração.
Mantido em cativeiro pelos vietcongues, Stark cria a primeira
armadura do Homem de Ferro. A história de origem é de Lee,
Lieber e Don Heck. O traje do Homem de Ferro foi desenhado
por Kirby e, um ano depois, modificado por Ditko. No mesmo
mês de estreia do Homem de Ferro, estreava também a revista do
Homem-Aranha, sete meses após sua primeira aparição no
Amazing Fantasy n.º 15.
O Doutor Estranho foi visto pela primeira vez em Strange Tales
n.º 110 (de julho de 1963). A arrogância tóxica do famoso
cirurgião Stephen Strange provoca um acidente de carro, que lhe
causa danos nos nervos e encerra sua carreira, mas o coloca no
caminho para se tornar Mestre das Artes Místicas. Assim como o
Homem-Aranha, o Doutor Estranho passa a vida lutando para se
redimir de seu comportamento egoísta. Criado por Ditko,
Estranho é uma mistura do recém-cancelado Doutor Druida, de
influências dos programas de rádio dos anos 1930 (assim como
Druida e o vilão do Quarteto Fantástico, o Doutor Destino), e dos
filmes favoritos da infância de Lee, Chandu, the Magician
[Chandu, o Mágico] e Horizonte perdido, com livro homônimo. A
ambivalência de Lee em relação ao Doutor Estranho foi exposta
em uma carta de 9 de janeiro de 1963 a Jerry Bails:
Bem, temos um novo personagem a caminho para figurar em
strange tales (é só uma história de cinco páginas para encher
espaço, chama-se ). Steve Ditko vai desenhar.
O tema é meio que magia negra. A primeira história não é nada
genial, mas talvez a gente possa desenvolver. Foi ideia de Steve, e
achei que seria bom dar uma chance ao personagem, mesmo tendo
que, mais uma vez, apressar demais a estreia. [ 230 ]
As palavras “foi ideia de Steve” não deixam claro se Lee estava se
referindo ao personagem, à origem do personagem, ao teor
místico da série, ao enredo da primeira história ou a alguma
combinação desses elementos. É evidente que Lee não estava
muito animado com a história — pelo menos no início —, e ele
também não pareceu preocupado em expressar suas reservas
sobre a nova história a um fã da imprensa. Embora Ditko fosse um
de seus artistas favoritos para trabalhar, a tensão no
relacionamento dos dois já parecia estar se desenvolvendo logo no
início dos trabalhos colaborativos para a era dos super-heróis da
Marvel. Isso foi confirmado em escritos posteriores de Ditko, nos
quais expressava profundo ressentimento em relação ao que ele
julgava ser a atitude de Lee quanto ao personagem e ao próprio
Ditko. Como ele escreveu:
“Nada genial” foi um comentário pejorativo, menosprezando minha
contribuição total e o valor da minha ideia.
O “talvez a gente possa desenvolver” só está ali para passar a
impressão de que Lee dividia os créditos do trabalho, porque
implica que Lee teria que fazer tudo sozinho para “desenvolver”
minha ideia. (…) Lee finge ceder espaço, mas menospreza minha
ideia e a retira de mim, de forma que, no fim das contas, ele é a
única mente criativa. [ 231 ]
Mas os novos heróis não terminaram com o Doutor Estranho.
Segundo Lee, para provar que a “fórmula” da Marvel poderia
funcionar em qualquer gênero, ele e Kirby criaram uma série de
quadrinhos que se passavam na Segunda Guerra: Sgt. Fury and His
Howling Commandos [Sargento Fury e seus subordinados
ululantes], cuja primeira edição, homônima, datava de maio de
1963. [ 232 ] (Alguns anos depois, Fury — então usando um tapa-
olho — se tornaria o novo líder do grupo secreto de espiões da
agência S.H.I.E.LD, uma criação de Lee e Kirby, que estrearia em
Strange Tales n.º 135, de agosto de 1965.)
Em X-Men n.º 1, de setembro de 1963, Charles Xavier reúne
uma equipe de jovens cujos poderes mutantes (geralmente
atribuídos a alguma exposição à radiação antes de seu
nascimento) fazem com que sejam odiados e temidos por todos,
apesar de se dedicarem a proteger o mundo. Os X-Men foram
criados por Lee e Kirby.
Os Vingadores n.º 1, também com capa de setembro de 1963,
reúne Thor, Homem de Ferro, Homem-Formiga, Vespa e (por
pouco tempo) o Hulk em uma única equipe. Lee e Kirby enfim
entregavam a Goodman o grupo de super-heróis que ele pedira —
que, assim como a Liga da Justiça, era composto apenas por
personagens de sucesso.
O jovem Matt Murdock tem seus sentidos aprimorados depois
de um encontro fatídico com material radioativo — o que não é
nenhuma surpresa. Quando adulto, depois de vingar o assassinato
do pai, Matt, que trabalha como advogado, inicia a carreira como
Demolidor, estreando na revista Demolidor n.º 1. A edição data de
abril de 1964, mas originalmente estava programada para
setembro de 1963. Quando o artista Bill Everett (criador do Príncipe Submarino e um dos pilares da Timely/Atlas nos anos
1950, que agora voltava à casa) teve problemas com o prazo
devido às exigências de seu trabalho como diretor de arte de uma
agência de publicidade, a série foi adiada, e Os Vingadores entrou
no lugar.
O Capitão América foi revivido em Os Vingadores n.º 4 (de
março de 1964), e logo obteria sua série solo em Tales of Suspense
(edição n.º 59, de novembro de 1964). O Príncipe Submarino
passou a aparecer em Tales to Astonish a partir da edição n.º 70,
de agosto de 1965. Super-heróis novos e antigos acabariam
assumindo quase todas as revistas de ficção científica e fantasia de
Goodman.
Mas a bola agora estava em campo, rolando com a força do
próprio momento, com as peças firmemente posicionadas para
criar o universo ficcional que vive até hoje em várias mídias. É
claro que, em 1964, não havia como ninguém saber disso. Com
exceção de Demolidor — que estava programada para estrear sete
meses mais cedo —, os novos personagens foram todos
introduzidos no Universo Marvel menos de dois anos depois da
estreia de Quarteto Fantástico. E, com a exceção do Doutor
Estranho e do Homem-Aranha, todos os personagens surgiram de
alguma combinação dos talentos de Stan Lee e Jack Kirby, com
contribuições de Larry Lieber — embora Larry nunca tenha
alegado ter concebido ou projetado qualquer um dos personagens.
(No entanto, foi ele quem nomeou Anthony Stark, Henry Pym e
Donald Blake.)
E tudo isso foi produzido enquanto a Marvel ainda lançava
revistas de faroeste, romance, humor e outros gêneros. Por
exemplo, no mesmo mês de 1963 em que Vingadores e X-Men estrearam, a Marvel também lançou títulos como Kid Colt Outlaw
n.º 112, Millie, the Model n.º 116, Modeling with Millie n.º 25
[Modelando com Millie], Patsy Walker — que mais tarde virou
Felina — n.º 109, Sgt. Fury n.º 3 e Two-Gun Kid n.º 65 [O garoto
das duas armas]. Além disso, os títulos de antologia que também
apresentavam super-heróis ainda estavam — e estariam por mais
algum tempo — cheios de histórias de fantasia e ficção científica.
* * *
Embora Lee tenha alegado não ler muitos dos quadrinhos das
outras empresas, exceto talvez para examiná-los e descobrir quem
estava desenhando (e chegou até a dizer em uma entrevista em
vídeo dos anos 1990 que “amava” os quadrinhos da EC), o fato é
que havia muita concorrência. Talvez não se publicassem tantos
quadrinhos no início dos anos 1960 como no auge das décadas de
1940 e 1950, mas ainda assim eram muitos. Alguns tipos de
quadrinhos eram onipresentes, publicados por pelo menos dez
empresas diferentes. E Goodman não foi o único editor a notar o
interesse renovado pelos super-heróis da DC Comics. Outras
editoras também entraram na dança, ainda mais quando os heróis
da Marvel começaram a ganhar espaço. E algumas empresas
tinham o maior prazer em imitar a estética da Marvel.
Uma amostragem aleatória de algumas das dezenas de
quadrinhos (muitos licenciados da TV e do cinema) que
competiam com a Marvel por atenção nas bancas de 1961 a 1965
incluía:
Da DC, o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha, além
de outras revistas de heróis da empresa, como Flash, Lanterna
Verde e Átomo. E, é claro, a Liga da Justiça da América.
Da Dell, havia Ricky Nelson, Bonanza, Leave It to Beaver [Deixa
com o Beaver], Tio Patinhas, Drácula e Os Beatles.
A Archie Publishing lançava quadrinhos da série Archie — que
hoje se tornou a franquia Riverdale —, bem como quadrinhos de
super-heróis como o Homem-Mosca e o Jaguar. A Archie ainda
viria a contratar o cocriador do Super-Homem, Jerry Siegel, para
repaginar seus heróis sob o selo “Mighty Comics”, que imitava a
Marvel, mas não parecia captar a essência do que fazia com que os
quadrinhos de Lee dessem tão certo.
A Gold Key lançava quadrinhos como Solar, Homem-Átomo,
Magnus Robot Fighter [Magnus, o lutador robô] e O Fantasma.
A American Comics Group lançava Forbidden Worlds [Mundos
proibidos], que trazia as histórias de Herbie, the Fat Fury [Herbie,
o gordo furioso], e Adventures into the Unknown [Aventuras no
desconhecido], que estrelava o super-herói conhecido como
Nemesis.
A Harvey Comics publicava os quadrinhos humorísticos Sad
Sack [Soldado inútil], Gasparzinho e Riquinho.
E a Charlton lançava nas bancas Teenage Hotrodders
[Adolescentes motorizados] e The Young Doctors [Os jovens
doutores] (capitalizando sobre a popularidade dos dramas
médicos para a TV, como o Dr. Kildare), além do Capitão Átomo,
desenhado por Ditko.
A onda cultural que envolvia os criadores de quadrinhos e seu
público na década de 1960, entre música, filmes, TV e o choque
aparentemente interminável dos noticiários noturnos e das
manchetes matinais, garantia um suprimento constante de
inspiração. O zeitgeist estava cheio até a borda com eventos que
mudavam depressa, todos protagonizados por uma grande variedade de personagens coloridos e controversos. Será que os
anos 1960 foram mais tumultuados do que as décadas anteriores
do século XX, que incluíram duas guerras mundiais, pelo menos
dois grandes genocídios, a Revolução Russa e a Grande
Depressão? Provavelmente não. Mas, ainda mantendo a
comparação, o imediatismo e a onipresença da mídia explodiram
nos anos 1960, uma marca bem evidente de que os tempos
estavam realmente mudando.
Uma breve lista de alguns dos muitos fenômenos culturais, reais
e fictícios, que integravam o mix de notícias com que a mídia
atacava e informava os norte-americanos — moldando as
sensibilidades da geração baby boomer, que já começava a definir
sua personali dade —, incluiria:
O assassinato de John F. Kennedy, presidente dos Estados
Unidos, e de seu irmão, Robert Kennedy; o assassinato de Martin
Luther King Jr.; o conjunto de medidas sociais conhecido como
Grande Sociedade; a guerra contra a pobreza; o movimento dos
direitos civis; os Beatles; Bob Dylan; O homem que matou o
facínora; Desafio à corrupção; os filmes de James Bond e a série de
TV O agente da U.N.C.L.E.; o gênero de faroeste, ainda em
bastante evidência, em especial o sucesso Rawhide; o torpedo da
Marinha estadunidense PT 109; A família Buscapé; Johnny Carson
assumindo o Tonight Show; Adeus, Columbus; O ano passado em
Marienbad; a pílula anticoncepcional; a Guerra do Vietnã; o muro
de Berlim; a crise dos mísseis de Cuba.
Tendo vivido ou não aquela época, você provavelmente tem sua
própria montagem mental dos anos 1960. Pode ter sido o que
você considera a era de ouro, ou alguma época detestável que
você prefere fingir que não existiu; ou, quem sabe, seja apenas uma era e um estado de espírito de que você já está cansado de
ouvir seus pais ou avós comentando, talvez uma época que
desejasse ter vivido, ou quem sabe você estava lá, mas sente que
perdeu as melhores partes.
Para muitas pessoas, as primeiras aventuras do Homem-Aranha,
doHulk, do Quarteto Fantástico, do Thor e dos outros heróis da
Marvel representam uma grande parcela do espírito dos anos
1960. Mesmo na época, publicações como a revista Esquire faziam
parecer que esses personagens eram parte integrante da
sociedade. Na edição de setembro de 1965, a Esquire nomeou o
Homem-Aranha e o Hulk como duas das “28 pessoas mais
relevantes” nos campi das universidades.
Percebido e levado a sério por ativistas e formadores de opinião
dos campi, astros do rock e diretores de cinema (apesar de ainda
não receberem a atenção dos executivos de Hollywood,
romancistas sérios e professores universitários), Stan Lee e seus
colaboradores tinham encontrado algo que ressoava a um público
muito maior que as crianças leitoras de quadrinhos e a pequena
porcentagem de adultos nostálgicos que tinham o interesse de
manter o hobby de quadrinhos que haviam iniciado durante a
infância, ainda na Segunda Guerra Mundial.
O livro de Jules Feiffer The Great Comic Book Heroes [Os
grandes heróis dos quadrinhos], de 1965, era voltado para adultos
interessados em uma interpretação madura daquilo que
alimentara suas fantasias de infância. Embora tenha encontrado
esse público, ele também alcançou o objetivo talvez imprevisto de
alimentar a imaginação e a sensação de fazer parte da história das
crianças boomers que liam a Marvel e os outros editores. Essas
crianças ficaram intrigadas com a narrativa de Feiffer sobre o que as empresas de quadrinhos — sobretudo a Marvel e a DC —
faziam antes de eles nascerem. Longe de confundir os leitores
modernos, trazendo à tona um passado enterrado, o livro os
intrigou e talvez tenha até os deixado ansiosos para saber mais
sobre os antecedentes não só dos personagens, mas também dos
criadores e das empresas por trás deles. Não queriam
simplesmente “ignorar o homem por trás da cortina”, queriam
saber tudo sobre essa pessoa que cria suas histórias favoritas!
Graças aos apuros em que a indústria dos quadrinhos caiu
durante a década de 1950, muitos dos criadores de quadrinhos na
década de 1960 ainda eram os mesmos da “Era de Ouro” dos anos
1940. Estranhamente, não havia muito incentivo para novatos na
indústria no fim dos anos 1950 e início dos anos 1960. Para os
veteranos — que se sentiam cada vez mais velhos, excluídos de
outros campos, condenados a criar seus trabalhos como
freelancers, ou presos a carreiras aparentemente sem futuro,
ainda que um tanto seguras, como a de Lee —, os anos 1960
deram vida nova ao mundo dos quadrinhos, ou pelo menos
trouxeram uma sensação de maior estabilidade no emprego.
Muitos dos editores, escritores e artistas da DC eram
remanescentes dos anos 1940. Os editores Julius Schwartz, Mort
Weisinger e Jack Schiff começaram suas carreiras na época. Os
artistas Gil Kane e Carmine Infantino também. Os editores da DC
tinham seus feudos de títulos e criadores e pareciam contentes em
governá-los, protegendo com unhas e dentes suas estrelas contra
“roubos” (embora, como freelancers, em teoria os artistas
poderiam trabalhar para quem quisessem), já que poderia haver
outros editores da própria DC — ou até de outras empresas — de
olho. Esses editores eram subordinados aos executivos Jack Liebowitz, Whitney Ellsworth ou Irwin Donenfeld, dependendo
da época e da questão a ser tratada.
Todos tinham — ou acreditavam ter — um emprego
razoavelmente seguro, portanto, não pareciam interessados em
sair da zona de conforto. Nos anos 1960, já perto dos cinquenta
anos, seguiam com o plano de produzir histórias curtas, com
roteiros bem delimitados, como faziam duas décadas antes. As
ambições que talvez tivessem para além da edição de quadrinhos
tinham sido atendidas de maneiras que não ameaçavam o status
quo. Weisinger tinha uma grande carreira de escritor freelancer,
trabalhando principalmente em artigos para revistas nacionais.
Robert Kanigher escreveu muitos quadrinhos para a DC, além de
editá-los. (Ele escreveu e editou Mulher-Maravilha durante duas
décadas, além de ser conhecido pelo roteiro da história do Flash
de 1956 que anunciava a expansão dos super-heróis da DC.)
Trabalhando dentro de uma estrutura burocrática tão arraigada,
nenhum desses editores tinha a relativa autonomia de Stan Lee —
nem a dádiva duvidosa de trabalhar para um parente, uma espada
de Dâmocles que não parava de roçar no que lhe restava de
cabelo, ameaçando, se não o emprego, pelo menos o
departamento que ele dirigia.
O curioso era que, na Marvel, com exceção de Kirby, muitos dos
artistas de Lee eram relativamente jovens, tinham iniciado a
carreira no final dos anos 1940 a meados da década de 1950,
embora ainda assumissem a liderança criativa dos “veteranos” Lee
e Kirby.
Ainda assim, não foi sem planejamento que uma inovação tão
dinâmica quanto a Marvel Comics surgiu nos escritórios de Stan
Lee e Martin Goodman, que trabalhavam com quadrinhos havia mais tempo do que a maioria dos funcionários da DC. E Kirby,
afinal, tinha trabalhado para a DC, então não é como se a outra
editora não tivesse a oportunidade de empregar suas habilidades e
seu gênio. Mas, mesmo assim, nada do que Kirby criou por lá fez
tanto sucesso quanto seu trabalho na Marvel.
Lee era cerca de sete anos mais novo do que a média de editores
da DC, mas tinha tanta ou mais experiência do que a maioria
deles. Talvez essa relativa juventude, combinada com a
experiência em milhares de quadrinhos de todos os tipos, tenha
sido crucial para que Lee pudesse misturar as tendências da época
com seus próprios talentos e habilidades — e de seus artistas.
Talvez Goodman, com uma combinação única de insight, tino para
os negócios e sensibilidade ao zeitgeist, também tenha sido
significativo. Como dupla no comando, não era um feito pequeno
que Lee e Goodman pudessem ter suas decisões reproduzidas
imediatamente. Eles conseguiam responder a qualquer mudança
no mercado ou no gosto do público, sem atrasos de memorandos,
reuniões e outras pendências burocráticas.
A Timely/Marvel — e, portanto, Stan Lee — também tinha a
experiência adquirida de ter sido extremamente bem-sucedida,
mesmo que não muito original, e depois perder tudo de repente,
mas sobreviver ao baque, mal a mal, e persistir como uma
empresa reduzida e maltratada e um editor traumatizado. Talvez
tenha sido isso que tornou a Marvel o lugar perfeito para criar
super-heróis traumatizados, personagens inerentemente
conscientes de que qualquer coisa pode ser perdida a qualquer
momento. O choque do fim dos anos 1950 tornou Lee sensível o
suficiente para captar as mudanças dos tempos em que — quando
presenteado com talentos como Kirby e Ditko — conseguia, junto com seus artistas, criar algo inovador, algo que os editores da DC,
com suas careiras confortáveis e consolidadas, não conseguiriam
fazer.
Importante também é que, embora no fim dos anos 1960 Lee
tentasse se apresentar como “descolado”, nos anos de formação da
Marvel ele teve a presença de espírito de criar para si uma
imagem pública que era uma versão de quem realmente era: um
pai quadrado e suburbano, mas que não se esquecera de como era
ser criança; um cara que ainda era capaz de se divertir e criar
diversão para os outros nas páginas dos quadrinhos. Lee tinha
noção do que era emocionante e interessante para as crianças,
mas também estava disposto a aprender com elas o que era
moderno e o que não conseguia intuir ou lembrar da própria
infância. Ele transmitia um entusiasmo que não parecia falso. E,
embora quisesse dedicar sua vida a projetos maiores, não parecia
querer se envolver em projetos melhores. Em outras palavras: ele
adorava trabalhar contando histórias junto com outras pessoas. É
claro que Lee ansiava por uma tela maior, com mais visibilidade e
chance de lucro. Mas realmente ficava empolgado com o básico de
sua profissão: inventar histórias e interagir com pessoas criativas
e interessantes.
Stan Lee era ao mesmo tempo tranquilo e impaciente,
ambicioso, mas prático demais para se afastar do que já conhecia.
Com uma história de vida que não faria feio para o elenco de uma
peça de Odets ou Chayefsky — o pai sem sorte, a mãe moribunda,
o irmão traumatizado —, mesmo que não conseguisse criar seu
Grande Romance Americano, poderia ao menos trazer para os
quadrinhos o que entendia de tragédia e fracasso e, ao que parece, conseguia expressar aquilo tudo de uma forma que também
tocasse seus leitores.
Claro que é aí que entra o fator talento. Lee e seus colaboradores
o tinham de sobra, e ele já praticava seu ofício havia mais de vinte
anos. Estava pronto para passar para outro patamar, se não com as
tirinhas, ao menos dentro do ambiente com o qual estava mais
familiarizado. Como disse ao repórter que assinou como “Peter
Parker”, na edição de 29 de março de 1966 do jornal
independente de Berkeley, The Daily Californian: “Eu levo isso
[meu trabalho] muito a sério. (…) Vinte anos atrás, eu não levei
tão a sério, e as publicações nunca eram tão boas. (…) Estão
melhores agora do que há um ano, e [na época] eram melhores do
que há cinco anos.” [ 233 ]
Seguindo essa linha de raciocínio, algo em Kirby e Ditko — e em
Larry Lieber — também já estava pronto para aquela guinada.
Mesmo sem perceber, estavam todos se preparando para a Marvel
havia vários anos. O trabalho que produziram com Lee, não
importa como foi a divisão de produção, era diferente e cativante.
Como observou Neal Adams, o inovador artista e escritor de
quadrinhos:
Tem o Homem-Aranha [por exemplo], que era um garoto esquisito
que recebe superpoderes (…) e seu próprio ego miserável permite
que seu tio Ben morra, então ele finalmente se transforma em
herói. Essas são novas diretrizes para os quadrinhos. Na DC
Comics, tudo o que tinham era basicamente mocinhos com rostos
perfeitos e dentes brilhantes, pessoas que já eram boas antes de
virarem heróis e que só continuaram no grupo dos mocinhos depois
de se tornarem heróis. [ 234 ]
Adams também acrescentou, sobre os heróis da Marvel:
Você pode dizer que são personagens desenvolvidos, com
personalidades fortes. Mas não: são mesmo maçãs podres. [Mas]
na DC, os personagens basicamente não tinham personalidade.
Eles não eram nada. [ 235 ]
Então, os heróis da Marvel começam falhos, geralmente por
arrogância — não eram perfeitos como os heróis da DC —, e eram
transformados por seus superpoderes. No entanto, suas falhas
básicas de caráter não desapareciam. Eles se tornavam heróis
superando essas falhas. É a clássica jornada do herói, que já foi
descrita por Joseph Campbell e muitos outros. Um indivíduo
cheio de falhas tenta superar suas deficiências, e o heroísmo do
personagem não está simplesmente em fazer o bem, mas também
— se não principalmente — em superar o desejo humano de fazer
coisas egoístas e maldosas, algo especialmente tentador para
alguém que adquire habilidades sobre-humanas. Os heróis da
Marvel eram tentados pela escuridão de uma maneira que os
super-heróis anteriores raramente tinham sido. As lutas contra
seus demônios internos os marcavam como imperfeitos — falhos,
danificados e, portanto, similares a nós — e duplamente heroicos,
por travarem batalhas internas e externas.
Já ouvimos isso tantas vezes que acabou virando um velho
clichê, mas, no início dos anos 1960, a ideia de “heróis com pés de
barro” era inovadora e emocionante para os quadrinhos. O herói
falho não era novidade na ficção, mas certamente era nos
quadrinhos. Os heróis da Marvel eram o equivalente em quadrinhos de Rick Blaine, de Bogart, em Casablanca, ou talvez de
Philip Marlowe, de Raymond Chandler: personagens cínicos,
idealistas, mas feridos pela vida ou pelo amor, agredidos pelas
circunstâncias. Charles Foster Kane, que tinha tudo, na verdade
não tinha nada. Montgomery Clift ou James Dean em
praticamente todos os papéis: atormentados por dentro e por fora,
tentados a fazer a coisa errada, mas compelidos, por alguma força
central de seu caráter, a fazer, no fim das contas, a coisa certa. E
fazer a coisa certa não apenas porque era o certo (como qualquer
super-herói faria), mas porque a ideia de lidar com a culpa depois
de não fazer o certo é insuportável. Não fazer o certo transforma
o herói em, bem, um vilão — e muitos dos vilões da Marvel não
tinham origens muito diferentes das de seus heróis. Só que o que
os vilões tiravam de seus traumas era muito diferente das lições
que os heróis aprendiam.
É claro que já houvera super-heróis “falhos”, mas não de uma
maneira que fizesse diferença para seu caráter, que tocasse o
público. O Super-Homem era vulnerável à kryptonita. O anel do
Lanterna Verde não funcionava em nada amarelo. E, sim, o Super-
Homem e o Batman tinham sobrevivido a grandes traumas, mas
isso não afetava grande parte de suas histórias nos anos 1960.
Nada parecia de fato perturbar esses personagens. “Sou o único
sobrevivente de um planeta que explodiu? Está bem. Tenho que
voltar para garantir que a Lois não descubra minha identidade
secreta. E tenho que esculpir uma chave de granito gigante para
meu refúgio secreto no Ártico. Não tenho tempo para ficar
pensando na vida.”
Por outro lado, os personagens da Marvel tinham falhas de
caráter — eles eram a própria encarnação das falhas, fraquezas e vulnerabilidades. A cartilha de diagnósticos de psiquiatria está
cheia de possíveis diagnósticos para cada um deles. Todos tinham
um passado trágico que de fato afetava suas vidas, que os faziam
refletir e os motivavam a seguir em frente. Os traumas que os
originavam eram temáticas integrais em todas as melhores
histórias. Muitos eram tão arrogantes que causavam as próprias
tragédias: Reed Richards levou os amigos ao espaço em um
foguete defeituoso; Stephen Strange operava apenas pessoas ricas;
Peter Parker recebeu seus poderes de aranha e imediatamente
tentou lucrar com eles; Thor é tão cheio de si que Odin o prende
no corpo de um mortal com deficiência. E a punição por essa
arrogância é sempre intensa, sempre provoca arrependimento
sem fim. Se eles pudessem voltar atrás e refazer tudo, salvar
alguém, fazer uma escolha melhor…
E não eram só os heróis da Marvel que tinham falhas dignas das
peças de Shakespeare, mas também, como já mencionamos, os
vilões! Os heróis eram heróis porque transcendiam as falhas e o
passado traumático. Se eles tinham conseguido, então você
também conseguiria! E, se alguns vilões como o Gavião Arqueiro,
a Feiticeira Escarlate e o Mercúrio podiam transcender seu
passado de crimes e se tornarem heróis, talvez houvesse
esperança para você também, não importa quantas vezes tenha
estragado tudo. Os vilões mais cruéis, como Doutor Destino,
Doutor Octopus e Toupeira, eram indivíduos defeituosos que
usavam seus poderes para se vingar do mundo, para enriquecer e
para abusar dos outros. Os heróis — depois de muita luta —
tinham ultrapassado essas respostas básicas às adversidades da
vida. Era isso que os tornava heróis. (Os vilões da Marvel, é claro,
também tinham um quê de nobreza trágica, o que os tornava atraentes e simpáticos, apesar das ações abomináveis. Essa
abordagem mais sofisticada dos “malvados” foi outro salto à frente
nos quadrinhos.)
Os mocinhos da Marvel, de fato, eram os heróis “gente como a
gente”. Não porque você talvez pudesse ser picado por uma
aranha radioativa ou sofrer com a explosão de uma bomba gama,
mas porque eles lidavam com os próprios fardos da mesma
maneira que você gostaria de lidar com os seus. Não queriam ter
que enfrentar os desafios diários, assim como você não quer
enfrentar os seus. Queriam desistir. Queriam culpar alguém por
seus problemas. E, de fato, às vezes faziam isso. Mas, a longo
prazo, tinham descoberto a coisa certa a fazer — e a fizeram!
Assim como você faz — ou tenta fazer. E, toda vez que resolviam
um problema ou superavam um desafio, outro surgia. Assim como
acontece na sua vida. Lee, Lieber, Kirby, Ditko e os outros tinha
acertado em cheio.
Mas no que exatamente tinham acertado?
* * *
Para descobrir isso, faremos uma breve pausa por aqui e
avançaremos a uma altitude mais elevada, em busca de uma visão
mais ampla.
Lee e a empresa não tinham simplesmente inventado
personagens visualmente atraentes com histórias interessantes. E
não tinham apenas se deparado com a ideia de que os
personagens existiriam em um universo compartilhado, para que
pudessem, quando apropriado, cruzar caminhos, como aliados ou
adversários. E não inventaram a ação extrema (embora
certamente tenham levado a alguns extremos).
O que eles inventaram — e é difícil não atribuir isso a Lee,
mesmo que ele apenas tenha percebido para onde o trem estava
indo enquanto já estava em movimento — foi um mundo fictício
cuja sensação era, assim como nos filmes modernos da Marvel, de
que tudo levava a algo, mesmo que, como na vida real, esse algo
nunca chegasse. Pode ter havido pausas periódicas disfarçadas de
final, mas, como a vida, as coisas continuavam. O que importava
era a jornada — e as transformações sofridas durante ela.
Na década de 1960, a DC Comics já tinha publicado centenas de
histórias do Super-Homem e seu elenco de apoio. E, no entanto,
havia pouca ou nenhuma progressão de personagem ou
desenvolvimento das várias situações naquele universo. O Super-
Homem que frustrava um assalto a banco em uma edição seria
muito parecido com o Super-Homem que frustrava um assalto a
banco dez anos depois. O que era ótimo, ainda mais presumindo
que o público mudava a cada dois ou três anos, então os leitores
dos dois assaltos a banco não saberiam nem se importariam que
as histórias fossem praticamente as mesmas. É legal de ver e ler o
Super-Homem parando bandidos armados.
Mas as histórias e os personagens da Marvel se desenvolviam ao
longo do tempo. Mudavam e cresciam de uma edição para a outra,
ano após ano. Lee e seus colaboradores estavam, pouco a pouco,
criando uma nova literatura. À medida que os personagens se
desenvolviam, tanto os leitores quanto os criadores passavam a
conhecê-los melhor. Embora não economizassem nas cenas de
ação, os criadores, junto com os leitores, foram conseguindo
conhecer mais dos personagens e de seu universo,
testemunharam uma amostra do que pessoas reais poderiam fazer
nessas situações se tivessem poderes sobre-humanos. Heróis, vilões e elencos de apoio desenvolveram personalidades mais
profundas e sutis, tornaram-se complexos de uma maneira mais
familiar para os leitores de prosa “séria” do que para os de
quadrinhos.
À medida que mais atenção se concentrava em por que os
personagens faziam o que faziam, as histórias da Marvel se
tornavam cada vez mais parecidas com a vida real — ou pelo
menos com a versão da vida real retratada por romancistas,
dramaturgos e roteiristas que tratavam do crescimento e do
desenvolvimento humano.
E, como as histórias em quadrinhos eram em série, os
personagens podiam se desenvolver de uma edição para a outra.
Isso ocorria em parte devido à simples necessidade de expandir as
ideias e pontos de roteiro para além das 12 ou vinte páginas de
quadrinhos. A necessidade se fazia em dois níveis. De preferência,
uma história poderia ser explorada durante várias edições sem
parecer que os criadores estavam apenas preenchendo espaço,
mas histórias contínuas, com ou sem enrolação, exigiam menos
ideias novas — o que era importante para uma equipe pequena
que precisava de toda a ajuda possível para manter os prazos. Mas
o alongamento dos roteiros fazia com que as histórias, as tramas e
— especialmente — os personagens pudessem ser desenvolvidos
como nunca. Romances poderiam começar, crescer, encontrar
dificuldades e depois florescer ou talvez terminar com um fim
dramático. Os vilões, assim como os heróis, podiam ter
motivações relativamente complexas para o que faziam.
Os artistas de Lee e da Marvel tiraram muito proveito dessas
possibilidades. E, conforme o faziam, a resposta que tinham com
o número de vendas e cartas dos leitores mostrava a aprovação dessa abordagem. Programas de TV e filmes dos anos 1960
também exibiam avanços semelhantes. Embora não faltassem
seriados bobos, também havia muitas séries de TV e filmes com
personagens densos. Programas como Dobie Gillis, Bonanza, The
Defenders e O Fugitivo demonstravam que as pessoas reagiam
positivamente ao entretenimento que as fazia pensar um pouco
mais. Desenhos animados como Alceu e Dentinho, Peabody e
Sherman e Dudley Certinho mostraram que até alguns programas
infantis haviam se tornado mais complexos. Esses programas —
de adultos e crianças — podem ser desfrutados em um nível mais
básico de enredos compreensíveis, mas também forneciam vários
níveis de humor e insight para os que estavam mais preparados
para o desafio. Mesmo aqueles que não sabiam que estavam diante
de um entretenimento mais denso de alguma forma entendiam
que o programa era mais do que parecia ser.
Da mesma forma, os quadrinhos da Marvel passaram de
aventuras simplistas e únicas, com talvez alguma lição de moral, a
tapeçarias maiores e mais complexas. Homem-Aranha e Quarteto
Fantástico ficavam mais sofisticadas a cada edição. A história “The
Brutal Betrayal of Ben Grimm” [A traição brutal de Ben Grimm]
na revista Quarteto Fantástico n.º 41, de agosto de 1965, mostrava
como ter se tornado o Coisa afetara Grimm. A série do Homem-
Aranha explorava passados secretos para personagens de apoio,
como Betty Brant, demonstrando que ela era muito mais do que
apenas a secretária de J. Jonah Jameson. Thor revelou sua
identidade secreta a seu interesse amoroso e a levou a Asgard para
conhecer o pai, Odin, governante dos deuses nórdicos, e exigir
que ela recebesse superpoderes — um desenvolvimento que
terminou em tragédia para todos os envolvidos.
Essas abordagens cheias de nuances e voltadas para o drama
psicológico nunca tinham sido retratadas em quadrinhos de
super-heróis. Esses elementos não foram incluídos por algum
cálculo a partir de pesquisas de mercado, e sim por um
entendimento instintivo do que comoveria o público. Foi quase
mágico.
Lee, Ditko e Kirby, todos proficientes em suas funções, tinham
enfim liberdade para exercitar a criatividade — descobrindo
habilidades que nem sabiam que tinham — e expandir os limites
das histórias em quadrinhos, mesmo que dentro dos limites do
gênero.
O que eles não fizeram foi estabelecer uma rotina para as
histórias. (Isso ainda viria a acontecer, mas levaria mais meia
década.) Praticamente todos os meses, algo novo em termos de
conteúdo ou estilo visual era introduzido nos quadrinhos da
Marvel. E, enquanto tudo isso acontecia nas histórias, Lee
desenvolvia e trançava o relacionamento da empresa com seus
leitores através das páginas de cartas, Bullpen Bulletins e até
mesmo nas notas de rodapé! Mesmo quando estava vendendo
coisas, era de uma maneira divertida e bem-humorada,
vinculando os leitores ainda mais à empresa — e à sua voz: Stan
Lee.
As histórias da Marvel e tudo sobre elas estavam evoluindo,
convidando os leitores a evoluir junto. Isso foi uma grande parte
do que tornou a Marvel tão irresistível para o público — que só
crescia mais e mais.
Portanto, o grande feito da marca não foi publicar uma boa
história, nem mesmo muitas, nem algum texto particularmente
comovente. Foi criar um fenômeno que, para muitos, mais do que correspondia às expectativas. Como poucas referências da cultura
popular — os Beatles, por exemplo, talvez os romances de Kurt
Vonnegut ou os filmes de Robert Altman —, a Marvel continuou
relevante por muito mais tempo do que a maioria dos fenômenos
da cultura pop da época.
Na primeira era de sucesso da Marvel, nos anos 1960, Stan Lee
conseguiu, depois de ajudar a criá-la, reconhecer, explorar e
manter, por uma década inteira, a primeira encarnação desse
fenômeno, e plantar as sementes para que ele se renovasse
regularmente.
* * *
Então, não importa quem “realmente” inventou a primeira leva de
personagens da Marvel, não importa como as histórias foram
desenvolvidas: o fato é que havia uma voz consistente e única —
talvez até onisciente — contando as histórias e, mais importante,
recebendo as pessoas no mundo da Marvel. Essa voz tinha um
nome no mundo real e nas páginas das revistas.
Esse nome era Stan Lee.
Era a voz que dizia — a partir da terceira edição — que Quarteto
Fantástico era “a melhor revista em quadrinhos do mundo!”
Era a voz que perguntava, na capa de O Espetacular Homem-
Aranha n.º 14: “Você não acha que o Duende Verde é meio fofo?
Ele não traz um sorriso no rosto? Bem, pode esquecer essa
alegria! Ele é o inimigo mais sinistro e perigoso que o Homem-
Aranha já enfrentou!”
Era a voz que introduzia a edição n.º 15 do mesmo título,
dizendo, logo na primeira página, dentro de uma seta gigante
apontando para o Homem-Aranha:
Se algum de vocês passou os últimos dois anos em outra galáxia,
fica aqui a explicação de que este é o Homem-Aranha (…) e esta
certamente é a aventura mais emocionante que já apresentamos
dele! (Desde a última!) Tem vilões, heróis, ação, uma mistura de
tudo… E é contado à maneira Marvel! Nem precisamos dizer mais!
É a voz que, na mesma edição, listava os créditos assim:
Escrito por S L (porque não podíamos pagar Mickey
Spillane)
Ilustrado por S D (porque Picasso estava fora da cidade)
Com letras de A S (porque o nome encaixa no espaço)
É a voz que, na capa da edição n.º 16, em que o Homem-Aranha
conhece o Demolidor, aconselha:
Aviso!! Se você não admitir que esta é uma das melhores edições
que já leu, a gente talvez nunca mais fale com você!
Essa voz onisciente, quebradora da quarta parede, amigável e
autodepreciativa era a voz da Marvel. Era escrita no plural do
editorial, usando o “nós” e retratada como a voz coletiva de Stan e
Jack, ou Stan e Steve, ou a voz de toda a equipe da Marvel. Às
vezes, era até reconhecida como a voz de Stan Lee.
Em respostas na página de cartas e em anúncios especiais, a voz
poderia dizer coisas como, por exemplo, em O Espetacular
Homem-Aranha n.º 20:
Uma coisa que a gente adora é o fã casual que escreve para exigir
que passemos mais alguns quadros para o Steve desenhar! O pobre
e querido Ditko faz cerca de vinte páginas do Homem-Aranha por
mês! Além de mais dez páginas do Doutor Estranho e dez páginas
do Hulk! E ainda arranja tempo para discutir com Stan por
algumas horas por semana!
(Foi um comentário espirituoso? Uma descrição precisa do
relacionamento de Lee e Ditko? Ambos?)
A voz também poderia dizer coisas como, por exemplo, no
Homem-Aranha n.º 21:
Ainda não vimos os esboços da edição n.º 22, mas Stan e Steve
andam rindo sozinhos e trocando elogios! Então eles devem ter algo
bem especial a caminho. Enfim, quando esses dois mergulham no
trabalho, não tem como ser ruim! Então viva perigosamente (…) e
apareça aqui de novo na próxima revista! Quem sabe? Talvez você
até goste!
Essa era uma maneira notavelmente inteligente de dizer que
eles — a essa altura, provavelmente apenas Ditko — ainda não
tinham desenhado a nova edição. Criava a ilusão de que alguém
que não Stan estava escrevendo sobre aqueles caras maravilhosos,
Stan e Steve — e que os dois eram grandes amigos, que gostavam
tanto do que produziam juntos que andavam por aí “trocando
elogios”. E, caramba, isso fazia mesmo a pessoa querer voltar na
edição seguinte para ver o que os dois inventariam!
E veja só este “anúncio especial” na página de cartas do Quarteto
Fantástico n.º 23:
Precisávamos de um nome para o vilão de X-MEN n.º 3, e Stan e
Jack estavam debatendo as opções quando um entregador de
sanduíches entrou e sugeriu, brincando: “Ele parece uma bolha
[blob, em inglês] enorme! Que tal chamar de Blob?” (…) Stan e
Jack se entreolharam e responderam: “Ora, por que não?”
Em um parágrafo, Lee passa de narrador da anedota para um dos
personagens, e estava justamente debatendo com Kirby, quando a
dupla Stan e Jack se mostrou disposta a seguir o conselho de um
trabalhador comum — e ainda por cima um “entregador de
sanduíches”. Essa história de fato aconteceu? Um entregador
conseguiu nomear um vilão? Stan e Jack estavam mesmo ali para
concordar que era o nome perfeito? (E, claro, quando é que o
editor, Stan, ou o chefe, Goodman, aprovaram essa decisão,
tomada pelo escritor e pelo artista?)
É a mesma voz que também pode se tornar bastante séria, como
na página de cartas de Quarteto Fantástico n.º 24, quando declara:
Muitos leitores dizem que não gostam de se referir às nossas
revistas como “quadrinhos” (…) mas temos que discordar! Nossa
intenção, aqui na Marvel, é produzir quadrinhos tão bem escritos e
bem desenhados que possam elevar essa mídia aos olhos do público!
Essa afirmação foi um passo importante. Naquela época em que
os quadrinhos ainda não podiam ser vistos como arte — e menos
de uma década depois do lançamento de Seduction of the Innocent,
de Wertham —, ninguém na indústria dos quadrinhos e poucos
fora dela pensavam nas revistas como algo além de artesanato — e um artesanato de nível bem inferior. Apenas Will Eisner já havia
se referido aos quadrinhos como arte, e isso tinha sido em 1941. [
236 ]
A declaração ousada de Lee foi seguida, mais abaixo na mesma
página de cartas, enquanto ele se despedia, com:
Até a próxima edição! E lembre-se: estamos trabalhando dia e noite
para oferecer a você o melhor em matéria de história e de arte —
para fazer com que você se dos quadrinhos que lê!
Imagine essa voz, nesta comunicação tão íntima, fazendo você
rir, contando histórias dos bastidores, criticando a própria edição
que você está lendo, promovendo a próxima, adicionando
piadinhas e trocadilhos desnecessários para a narrativa, porém
muito divertidos — estendendo seu tempo de leitura da história, e
também aumentando o valor do entretenimento —, e elogiando
você pela genialidade da simples escolha de ler aquela revista e, é
claro, de desfrutar (isso sem falar de comprar) a história! Imagine
ter essa experiência várias vezes por mês, em todos os quadrinhos
da Marvel! Seus pais, irmãos mais velhos e amigos que não
gostavam de quadrinhos podiam até zombar ou simplesmente não
entender o que aquelas revistas vistosas representavam para você.
Mas a voz da Marvel compreendia. A entidade Marvel
compreendia.
Stan Lee compreendia.
Stan Lee tinha se tornado, literal e figurativamente, a voz da
Marvel.
Como Spurgeon e Raphael observaram:
[A voz de Stan era] a mesma do tio maneiro que sabia das coisas.
Trazia mais uma camada de diversão aos títulos de super-heróis da
Marvel. (…) Os escritos exuberantes de Lee também o ajudavam a
transcender os papéis tradicionais de escritor e editor para se
tornar o anfitrião da Marvel. (…) Lee estava oferecendo “a melhor
revistinha do mundo”. [ 237 ]
E eles continuaram:
Mais do que qualquer personalidade da história dos quadrinhos,
Stan Lee maximizou cada oportunidade de estabelecer uma
conexão mais profunda entre o leitor e a revista, sendo ele próprio
um intermediário. [ 238 ]
De fato, ao promover os quadrinhos e personagens da Marvel,
Lee se apresentava como uma pessoa amigável, acolhedora e
encantadora — o que já era evidente nas cartas, memorandos e
editoriais da década de 1940 em diante. Ele construíra uma versão
aprimorada de si mesmo, e fez daquela a voz da Marvel Comics. E,
com isso, tornou-se, para os leitores, indistinguível da experiência
que era ler um quadrinho da Marvel.
É claro que — e não me canso de repetir — toda essa interação e
todo esse vínculo com os leitores não valeriam de muito se as
histórias em si não se mantivessem à altura a cada nova edição,
mês após mês. Eram todas excelentes? Claro que não. Mas muitas
eram, e outras tantas eram muito boas — e, inevitavelmente,
algumas poucas eram esquecíveis. E a voz estava sempre ali,
muitas vezes autodepreciativa (para que você não pensasse que
ela estava ficando muito cheia de si, apesar de se gabar com frequência), o que tornava difícil para o leitor ficar com raiva,
mesmo que a história tivesse afundado. Aqueles eram seus amigos
da redação, fazendo o possível para contar uma história cativante,
e, se não acertavam em cheio sempre, bem… até o Mickey Mantle
só acertava uma em cada três tacadas, nos campos de beisebol!
Aqueles eram seus amigos: Stan, Jack, Steve, Larry, Don, Dick,
Flo, Sol — e até o entregador de sanduíches. E estavam sempre
dando o melhor de si. Assim como você.
Ao ser perguntado, em 2017, “como descobriu que a melhor
maneira de promover a Marvel seria com alguma versão de ‘Stan’
como foco?”, Lee respondeu:
A ideia veio naturalmente. Eu não estava me perguntando: “Qual é
a melhor maneira de promover a Marvel?” Mas, como editor, era eu
quem escrevia pequenas mensagens aos leitores (…) e senti que era
muito importante manter o contato com os fãs e fazer com que
sentissem que nos conheciam, que pensassem que éramos um
bando de garotos bem divertidos, e assim por diante. Eu queria
tornar tudo muito agradável. E amava os fãs. Sem eles, não
tínhamos nada. [ 239 ]
Se o passo foi intencional ou “veio naturalmente”, o resultado é
que Stan Lee se tornou a encarnação viva da Marvel Comics. E
qualquer divulgação da Marvel também era uma divulgação de
Stan Lee.
Era apenas uma questão de tempo até que as repercussões
imprevistas dessa realidade fossem sentidas.