A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 25 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

Posfácio: últimas notas sobre Stan Lee

M eu pai não me considerava bem-sucedido, nem mesmo quando eu estava ganhando bem. Ele em geral se concentrava nas coisas dele. E acho que um pouco disso passou para mim. Eu sempre olhava para as pessoas que estavam se saindo melhor que eu e ficava querendo fazer o que elas faziam — gente como Steven Spielberg, ou um escritor como Harlan Ellison, ou

 

até mesmo o Hugh Hefner. Parte de mim sempre ficava achando que

eu ainda não tinha chegado lá.

— Stan Lee, em entrevista

para a Playboy, abril de 2014

 

Vou contar dois segredos.

O primeiro é:

Embora eu não devesse dizer, a verdade é que o que tornou os

quadrinhos da Marvel tão diferentes, mais do que os personagens

coloridos fazendo estripulias, as cenas de ação crua e o universo

unificado, foi que esses personagens eram infelizes, às vezes até

pessoas desagradáveis — e eram os heróis! Eram pessoas

problemáticas.

Um bom resumo — e muito usado pelos jornais — foi chamá-los

de neuróticos, de pessoas cheias de neuroses, que o

dictionary.com define, em inglês, como “um distúrbio de

personalidade relativamente leve, caracterizado por ansiedade ou

indecisão excessiva e certo grau de desajuste social ou

interpessoal”. Uma definição que cai como uma luva para os

super-heróis da Marvel.

Logo na revista Amazing Spider-Man n.º 4, publicada em 1963,

Lee faz um transeunte declarar que o Homem-Aranha “deve ser

um neurótico!”. Até a música-tema do desenho animado de 1966,

Marvel Super-Heróis, usava a palavra “neurótico” para descrever

um dos personagens (o Príncipe Submarino, caso você queira

saber, que foi descrito como “exótico e neurótico”). Não é uma

palavra muito usada nas músicas de desenhos animados para

crianças.

Dá para chamar essa exploração do estado psicológico dos

heróis de neurose, de ansiedade, de coisa de novela, ou ainda de

melancolia ou depressão. O crítico Greg Hunter chamou angústia.

Como ele escreveu para a revista The Comics Journal:

 

Se existe algo em comum entre Kirby e Ditko, além de terem vivido

algumas das mesmas circunstâncias históricas, deve ser a angústia

— o dom de transmiti-la, uma sintonia com os personagens que

sofrem desse mal. [ 499 ]

 

E o executivo de marketing David Sable (quando nós dois

tínhamos 12 anos, à época colegas de escola, fizemos uma visita

ao prédio da Marvel; chegamos até a recepção, onde fomos

barrados pela Fabulosa Flo Steinberg) observou que, lendo

quando criança:

Nós não sabíamos o que é a angústia, mas víamos isso na Marvel. [

500 ]

 

Stan Lee também tinha esse dom de retratar a angústia. Não me

atrevo a definir se ele era ou não “feliz”. Ele parecia gostar dessa

coisa toda de ser o Stan Lee, e parecia ser o tipo de pessoa que, no

geral, gostava da vida. E disse ao repórter David Hochman, em

2014: “Não sofri muitos momentos de angústia. (…) Tive uma

vida feliz.” [ 501 ]

Mas não acho possível escrever sobre esses personagens cheios

de angústias — ou melhor, neuroses — sem ter pelo menos um

pouco de contato com o lado triste da vida. Pelo menos nos

momentos em que estava criando, Lee precisava estar em contato

com a tristeza e o desespero. E acho que certamente conseguiu

acessar a parte dele, qualquer que fosse, que ressoasse com o

medo do fracasso que passou a carregar depois de encarar a vida

conturbada do próprio pai.

Lee conhecia bem o arrependimento e parecia não ter nenhum

medo de expressá-lo. Em Excelsior!, ele se mostra arrependido de

todo tipo de coisa, como não sair da indústria dos quadrinhos, não

enfrentar Martin Goodman, não ter sido mais próximo de Larry…

E disse em várias entrevistas, como as que deu a Ira Wolfman,

para o Circus, que queria ter tentado a sorte em Hollywood vinte

anos mais cedo.

O que ele conhecia de angústia e de tristeza pode ter vindo de

várias fontes: o pai problemático; as dificuldades da família com

dinheiro; a alternância de tédio e terror por trabalhar em um

mercado que seguia as tendências da moda; a alternância de terror

e tédio de trabalhar para Martin Goodman; o medo de que a esposa concordasse com o que ele pensava, que não era bom o

bastante para ela; o medo de que uma bomba atômica — ou talvez

até uma bomba gama — pudesse destruir tudo e todos que ele

amava.

E adivinhe só quem mais teve contato com essa angústia?

Eu.

* * *

Esse é o segundo segredo:

Stan Lee fez tudo o que fez apenas por mim.

Sim, claro que havia centenas, milhares, milhões de outras

pessoas lendo os mesmos quadrinhos. Mas, para mim, era como

se aqueles quadrinhos falassem diretamente comigo, como se

criassem um mundo para mim — coisa que um filme ou programa

de TV não conseguiam fazer. Ler uma história da Marvel era, ao

mesmo tempo, uma experiência individual e pessoal e uma

experiência compartilhada e comunitária.

Todos os leitores — pelo menos os que voltavam a cada edição

— sentiam que Stan Lee estava fazendo aquilo para eles. Apesar de

todas as contribuições para criar as histórias e os personagens,

que poderiam ter vindo de Kirby ou Ditko, a voz que se juntava a

nós, que nos cativava, era de Stan Lee. (Talvez por isso, as

participações especiais nos filmes não pareçam tão absurdas para

os leitores de quadrinhos. Nós sempre soubemos que ele estava

lá.) Algo naquela “bagagem emocional” que os personagens da

Marvel carregavam de um lado para o outro os conectava a nós.

Seja qual fosse a razão — e tenho certeza de que cada um tinha

seus próprios motivos, conscientes ou não —, aqueles super-

heróis neuróticos e o mundo em que habitavam, mas onde não se

encaixavam, eram muito cativantes.

Claro que a Marvel e aquela voz que a acompanhava não eram

para todos. Algumas pessoas preferiram ter outro tipo de

relacionamento com a ficção em quadrinhos — optando pela voz

da DC ou a da Dell, por exemplo. Das cinquenta crianças da

minha turma do ensino fundamental, talvez só quatro gostassem

tão intensamente de quadrinhos, ou no mínimo só essas estavam

dispostas a admitir. Portanto, apenas 8% estavam em sintonia com

a voz da Marvel. Eu não me lembro de ser excluído ou censurado

por ler quadrinhos; as pessoas reagiam mais com apatia do que

com escárnio. Mas, para esses 8%, a Marvel criou um mundo

incrível, um mundo que achávamos melhor que o da DC. (Gosto

de pensar que, mesmo com os filmes da Marvel tão populares, os

personagens ainda ressoam mais com esses 8%. Mas seria

mentira, claro.)

Os quadrinhos criados por Lee e seus colaboradores tiveram um

efeito profundo na minha vida. Eu tinha família, tinha amigos,

tinha vários interesses. Mas havia algo de especial naqueles

quadrinhos, algo que era muito como voltar para casa — só que

melhor. Lee conseguia incorporar alguns dos aspectos mais

agradáveis de um parente ou amigo, sem trazer o incômodo das

partes menos interessantes. Além do mais, ele sabia conversar

sobre os quadrinhos — falar tanto das histórias quanto sobre o

que acontecia nos bastidores —, e não havia nenhum outro adulto

que pudesse manter esse tipo de conversa. Lee de fato era um

avatar da empresa, e ele fazia os leitores — eu, em particular — se

sentirem especiais.

Embora eu tenha conhecido um pouco sua vida de adulto, de

profissional da indústria de quadrinhos, embora tenha tido

vislumbres da pessoa “de verdade” por trás da máscara (uma pessoa que, no geral, me tratou muito bem), realmente acho que a

melhor e mais verdadeira versão de Stan Lee — pelo menos para

alguém que não se encontrava em seu círculo pessoal íntimo —

estava nas histórias em quadrinhos, sobretudo nas páginas de

texto. Aquele Stan Lee era uma pessoa incrivelmente fascinante.

Nas histórias, ele e seus amigos — e nossos também — contavam

aventuras emocionantes, cheias de epifanias (sempre carregadas

de angústia). As páginas de cartas e os Bullpen Bulletins eram

envolventes, contavam a história interna dos personagens e dos

criadores, dando a sensação de que o leitor também estava ali, no

editorial que na verdade não existia.

Ele era melhor que um amigo ou parente. Ele era Stan Lee.

O Stan Lee dos quadrinhos da Marvel da década de 1960 era um

incrível companheiro imaginário dos leitores — uma presença tão

intensa que essa versão de Stan Lee foi transmitida através de

gerações, de pai para filho (o que teve ajuda de sua presença

onipresente com as participações especiais). Crianças de dez anos

dos anos 2000, acompanhando os pais ou avós nostálgicos aos

painéis de convenções de que Lee participava, faziam perguntas

que poderiam ter sido feitas por crianças de dez anos de 1963. (E

preciso acrescentar que Lee tratava as perguntas com muito

respeito e consideração, geralmente respondendo com uma ou

duas piadas.) A ideia daquele Stan Lee perfeito se perpetuou, e

ainda resiste após sua morte.

Claro que Stan Lee não era perfeito. Ele era um ser humano de

carne e osso que sobreviveu por mais de 75 anos como uma força

criativa e sensível e como executivo de mídia do alto escalão. Com

tudo o que ele fez por nós — cada um de nós individualmente,

desde que estivesse em sintonia com a voz da Marvel —, ninguém quer acreditar que Stan Lee não era o ideal (ou um super-herói, se

preferir), que ele não era a versão de si mesmo que queríamos

que fosse. Ninguém estava interessado no fato de que Stan Lee era

uma pessoa real, habitando em um mundo real, com um emprego

e falhas de verdade. Não queríamos saber que ele também tinha

pés de barro.

Eu costumava dizer que o “problema” de Stan Lee era que as

pessoas não o comparavam com outros editores de quadrinhos,

como Julius Schwartz, ou com outros produtores, como George

Lucas. Lee foi comparado ao Capitão América; não há como

vencer essa disputa.

Mas agora penso que o verdadeiro problema de Stan Lee, seu

maior desafio, era que as pessoas invariavelmente o comparavam

com… Stan Lee. Uma disputa ainda mais difícil.

Entenderam?