A Espetacular Vida de Stan Lee
Posfácio: últimas notas sobre Stan Lee
M eu pai não me considerava bem-sucedido, nem mesmo quando eu estava ganhando bem. Ele em geral se concentrava nas coisas dele. E acho que um pouco disso passou para mim. Eu sempre olhava para as pessoas que estavam se saindo melhor que eu e ficava querendo fazer o que elas faziam — gente como Steven Spielberg, ou um escritor como Harlan Ellison, ou
até mesmo o Hugh Hefner. Parte de mim sempre ficava achando que
eu ainda não tinha chegado lá.
— Stan Lee, em entrevista
para a Playboy, abril de 2014
Vou contar dois segredos.
O primeiro é:
Embora eu não devesse dizer, a verdade é que o que tornou os
quadrinhos da Marvel tão diferentes, mais do que os personagens
coloridos fazendo estripulias, as cenas de ação crua e o universo
unificado, foi que esses personagens eram infelizes, às vezes até
pessoas desagradáveis — e eram os heróis! Eram pessoas
problemáticas.
Um bom resumo — e muito usado pelos jornais — foi chamá-los
de neuróticos, de pessoas cheias de neuroses, que o
dictionary.com define, em inglês, como “um distúrbio de
personalidade relativamente leve, caracterizado por ansiedade ou
indecisão excessiva e certo grau de desajuste social ou
interpessoal”. Uma definição que cai como uma luva para os
super-heróis da Marvel.
Logo na revista Amazing Spider-Man n.º 4, publicada em 1963,
Lee faz um transeunte declarar que o Homem-Aranha “deve ser
um neurótico!”. Até a música-tema do desenho animado de 1966,
Marvel Super-Heróis, usava a palavra “neurótico” para descrever
um dos personagens (o Príncipe Submarino, caso você queira
saber, que foi descrito como “exótico e neurótico”). Não é uma
palavra muito usada nas músicas de desenhos animados para
crianças.
Dá para chamar essa exploração do estado psicológico dos
heróis de neurose, de ansiedade, de coisa de novela, ou ainda de
melancolia ou depressão. O crítico Greg Hunter chamou angústia.
Como ele escreveu para a revista The Comics Journal:
Se existe algo em comum entre Kirby e Ditko, além de terem vivido
algumas das mesmas circunstâncias históricas, deve ser a angústia
— o dom de transmiti-la, uma sintonia com os personagens que
sofrem desse mal. [ 499 ]
E o executivo de marketing David Sable (quando nós dois
tínhamos 12 anos, à época colegas de escola, fizemos uma visita
ao prédio da Marvel; chegamos até a recepção, onde fomos
barrados pela Fabulosa Flo Steinberg) observou que, lendo
quando criança:
Nós não sabíamos o que é a angústia, mas víamos isso na Marvel. [
500 ]
Stan Lee também tinha esse dom de retratar a angústia. Não me
atrevo a definir se ele era ou não “feliz”. Ele parecia gostar dessa
coisa toda de ser o Stan Lee, e parecia ser o tipo de pessoa que, no
geral, gostava da vida. E disse ao repórter David Hochman, em
2014: “Não sofri muitos momentos de angústia. (…) Tive uma
vida feliz.” [ 501 ]
Mas não acho possível escrever sobre esses personagens cheios
de angústias — ou melhor, neuroses — sem ter pelo menos um
pouco de contato com o lado triste da vida. Pelo menos nos
momentos em que estava criando, Lee precisava estar em contato
com a tristeza e o desespero. E acho que certamente conseguiu
acessar a parte dele, qualquer que fosse, que ressoasse com o
medo do fracasso que passou a carregar depois de encarar a vida
conturbada do próprio pai.
Lee conhecia bem o arrependimento e parecia não ter nenhum
medo de expressá-lo. Em Excelsior!, ele se mostra arrependido de
todo tipo de coisa, como não sair da indústria dos quadrinhos, não
enfrentar Martin Goodman, não ter sido mais próximo de Larry…
E disse em várias entrevistas, como as que deu a Ira Wolfman,
para o Circus, que queria ter tentado a sorte em Hollywood vinte
anos mais cedo.
O que ele conhecia de angústia e de tristeza pode ter vindo de
várias fontes: o pai problemático; as dificuldades da família com
dinheiro; a alternância de tédio e terror por trabalhar em um
mercado que seguia as tendências da moda; a alternância de terror
e tédio de trabalhar para Martin Goodman; o medo de que a esposa concordasse com o que ele pensava, que não era bom o
bastante para ela; o medo de que uma bomba atômica — ou talvez
até uma bomba gama — pudesse destruir tudo e todos que ele
amava.
E adivinhe só quem mais teve contato com essa angústia?
Eu.
* * *
Esse é o segundo segredo:
Stan Lee fez tudo o que fez apenas por mim.
Sim, claro que havia centenas, milhares, milhões de outras
pessoas lendo os mesmos quadrinhos. Mas, para mim, era como
se aqueles quadrinhos falassem diretamente comigo, como se
criassem um mundo para mim — coisa que um filme ou programa
de TV não conseguiam fazer. Ler uma história da Marvel era, ao
mesmo tempo, uma experiência individual e pessoal e uma
experiência compartilhada e comunitária.
Todos os leitores — pelo menos os que voltavam a cada edição
— sentiam que Stan Lee estava fazendo aquilo para eles. Apesar de
todas as contribuições para criar as histórias e os personagens,
que poderiam ter vindo de Kirby ou Ditko, a voz que se juntava a
nós, que nos cativava, era de Stan Lee. (Talvez por isso, as
participações especiais nos filmes não pareçam tão absurdas para
os leitores de quadrinhos. Nós sempre soubemos que ele estava
lá.) Algo naquela “bagagem emocional” que os personagens da
Marvel carregavam de um lado para o outro os conectava a nós.
Seja qual fosse a razão — e tenho certeza de que cada um tinha
seus próprios motivos, conscientes ou não —, aqueles super-
heróis neuróticos e o mundo em que habitavam, mas onde não se
encaixavam, eram muito cativantes.
Claro que a Marvel e aquela voz que a acompanhava não eram
para todos. Algumas pessoas preferiram ter outro tipo de
relacionamento com a ficção em quadrinhos — optando pela voz
da DC ou a da Dell, por exemplo. Das cinquenta crianças da
minha turma do ensino fundamental, talvez só quatro gostassem
tão intensamente de quadrinhos, ou no mínimo só essas estavam
dispostas a admitir. Portanto, apenas 8% estavam em sintonia com
a voz da Marvel. Eu não me lembro de ser excluído ou censurado
por ler quadrinhos; as pessoas reagiam mais com apatia do que
com escárnio. Mas, para esses 8%, a Marvel criou um mundo
incrível, um mundo que achávamos melhor que o da DC. (Gosto
de pensar que, mesmo com os filmes da Marvel tão populares, os
personagens ainda ressoam mais com esses 8%. Mas seria
mentira, claro.)
Os quadrinhos criados por Lee e seus colaboradores tiveram um
efeito profundo na minha vida. Eu tinha família, tinha amigos,
tinha vários interesses. Mas havia algo de especial naqueles
quadrinhos, algo que era muito como voltar para casa — só que
melhor. Lee conseguia incorporar alguns dos aspectos mais
agradáveis de um parente ou amigo, sem trazer o incômodo das
partes menos interessantes. Além do mais, ele sabia conversar
sobre os quadrinhos — falar tanto das histórias quanto sobre o
que acontecia nos bastidores —, e não havia nenhum outro adulto
que pudesse manter esse tipo de conversa. Lee de fato era um
avatar da empresa, e ele fazia os leitores — eu, em particular — se
sentirem especiais.
Embora eu tenha conhecido um pouco sua vida de adulto, de
profissional da indústria de quadrinhos, embora tenha tido
vislumbres da pessoa “de verdade” por trás da máscara (uma pessoa que, no geral, me tratou muito bem), realmente acho que a
melhor e mais verdadeira versão de Stan Lee — pelo menos para
alguém que não se encontrava em seu círculo pessoal íntimo —
estava nas histórias em quadrinhos, sobretudo nas páginas de
texto. Aquele Stan Lee era uma pessoa incrivelmente fascinante.
Nas histórias, ele e seus amigos — e nossos também — contavam
aventuras emocionantes, cheias de epifanias (sempre carregadas
de angústia). As páginas de cartas e os Bullpen Bulletins eram
envolventes, contavam a história interna dos personagens e dos
criadores, dando a sensação de que o leitor também estava ali, no
editorial que na verdade não existia.
Ele era melhor que um amigo ou parente. Ele era Stan Lee.
O Stan Lee dos quadrinhos da Marvel da década de 1960 era um
incrível companheiro imaginário dos leitores — uma presença tão
intensa que essa versão de Stan Lee foi transmitida através de
gerações, de pai para filho (o que teve ajuda de sua presença
onipresente com as participações especiais). Crianças de dez anos
dos anos 2000, acompanhando os pais ou avós nostálgicos aos
painéis de convenções de que Lee participava, faziam perguntas
que poderiam ter sido feitas por crianças de dez anos de 1963. (E
preciso acrescentar que Lee tratava as perguntas com muito
respeito e consideração, geralmente respondendo com uma ou
duas piadas.) A ideia daquele Stan Lee perfeito se perpetuou, e
ainda resiste após sua morte.
Claro que Stan Lee não era perfeito. Ele era um ser humano de
carne e osso que sobreviveu por mais de 75 anos como uma força
criativa e sensível e como executivo de mídia do alto escalão. Com
tudo o que ele fez por nós — cada um de nós individualmente,
desde que estivesse em sintonia com a voz da Marvel —, ninguém quer acreditar que Stan Lee não era o ideal (ou um super-herói, se
preferir), que ele não era a versão de si mesmo que queríamos
que fosse. Ninguém estava interessado no fato de que Stan Lee era
uma pessoa real, habitando em um mundo real, com um emprego
e falhas de verdade. Não queríamos saber que ele também tinha
pés de barro.
Eu costumava dizer que o “problema” de Stan Lee era que as
pessoas não o comparavam com outros editores de quadrinhos,
como Julius Schwartz, ou com outros produtores, como George
Lucas. Lee foi comparado ao Capitão América; não há como
vencer essa disputa.
Mas agora penso que o verdadeiro problema de Stan Lee, seu
maior desafio, era que as pessoas invariavelmente o comparavam
com… Stan Lee. Uma disputa ainda mais difícil.
Entenderam?