A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 13 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

12. A revolução no ar

Cuidado com os fanáticos! Muitas vezes, a cura

que pregam é mais mortal do que o mal que

denunciam!

— Narrador (Stan Lee) em X-Men n.° 16, de

janeiro de 1966

 

S tan Lee foi uma das peças criadoras da cultura pop da década de 1960. E, no entanto, para alguém responsável por alimentar grande parte da imaginação da época, Lee parecia tão intrigado quanto o público pelas disputas políticas e de ideais durante esse período tão tumultuado, que em 1968 lhe apresentaria grandes oportunidades e desafios desconcertantes.

Uma coisa que ele aprendeu depressa foi o poder da mídia de

massa — nos quadrinhos, é claro, mas principalmente no rádio.

Stanley Lieber adorava o rádio quando criança. Mais para o fim

da vida, falava com carinho dos programas de rádio que acendiam

sua imaginação. Programas como Chandu the Magician [Chandu, o Mágico] e The Charlie McCarthy Show [O show de Charlie

McCarthy] estavam entre seus favoritos. O alimento para sua

imaginação vinha também dos longas-metragens — especialmente

os estrelados por Errol Flynn — e os seriados matinais de sábado,

assim como as séries de livros infantis favoritas, como Bomba, the

Jungle Boy [Bomba, o garoto da selva] (“Bomba não pensa antes

de agir”) e Jimmie Dale, Alias The Gray Seal [Jimmie Dale, O Selo

Cinza]. Grande parte do Universo Marvel foi fundamentado na

imersão cultural e na análise da cultura pop da infância de Stan

durante sua pré-adolescência. [ 276 ]

Em meados da década de 1960, a televisão já assumira havia

muito a função do rádio na vida das crianças. Para o bem ou para

o mal, as histórias que entretinham os jovens vinham cada vez

mais da TV, com uma drástica redução do consumo de livros e

praticamente nada de rádio. Mas o rádio não estava morto, de

jeito nenhum. Na verdade, tornara-se o veículo das músicas

populares — mais recentemente, o rock and roll, um estilo que

começava a deixar de ser apenas moda e passava a assumir a

função de trilha sonora que unia os jovens de todas as classes em

uma única tribo.

Os ouvintes estavam começando a investir mais em rádios que,

além dos sinais AM já estabelecidos, também transmitiam por

sinal FM. Os proprietários das estações tiveram que ocupar essa

nova largura de banda, mais adequada para transmitir música

estéreo sem perda de qualidade, que era exatamente o que o

público queria — todos cada vez mais exigentes quanto à

qualidade do som reproduzido por seus elaborados aparelhos

estéreo. O rádio FM se tornou o meio para as pessoas ouvirem

música de todas as variedades com muita qualidade, fossem clássicas, jazz ou os mais novos hits psicodélicos. As quarenta

melhores músicas populares e folclóricas ainda tocavam bastante

na banda AM, assim como a nova moda dos programas com

participação dos ouvintes. Mas a onda do futuro para os

aficionados por música (e os anunciantes com voz suave que as

apresentavam) era a FM.

Em termos mais práticos, a duplicação (ainda que virtual) da

programação disponível para o rádio trazia a necessidade de

preencher aquele tempo. Então havia mais música, mais notícias,

mais boletins de trânsito — e, claro, mais conversa.

As estações de rádio que precisam preencher o tempo de

programação e prender a atenção dos ouvintes acrescentam

programas de entrevistas, geralmente com apresentadores cheios

de opiniões. E estavam atrás de convidados interessantes, com

personalidades extrovertidas e o dom da tagarelice, envolvidos

com assuntos sobre os quais as pessoas queriam ouvir, talvez até

com produtos que gostariam de comprar. Melhor ainda se esses

convidados morassem ou trabalhassem perto da estação de rádio,

para chegarem depressa e não precisarem de arranjos elaborados

ou caros para levá-los ao estúdio.

Era um paraíso já montado para Stan Lee, que trabalhava (e em

breve passaria a morar) no centro de Manhattan, perto de todas as

estações de rádio da área metropolitana de Nova York.

O rádio de Nova York no fim da década de 1960 apresentava

muito rock progressivo, notícias, as músicas do top 40, programas

universitários e talk shows com apresentadores de diversas áreas

da política. Uma estação notável era a WBAI, de esquerda.

Operando na pequena rede Pacifica, a WBAI tornou-se referência

da contracultura dos anos 1960 na região de Nova York. Foi praticamente a central de informações para quem planejava

protestar em Chicago, na Convenção Nacional dos Democratas de

agosto de 1968. Durante uma greve acalorada de professores, a

rádio transmitiu, em nome da liberdade de expressão, um poema

antissemita escrito por um estudante de ensino médio negro. A

transmissão levou a Meir Kahane’s Jewish Defense League [Liga

de Defesa Judaica de Meir Kahane] a ocupar a sede da estação em

protesto.

Mas, como centro de várias culturas alternativas, a WBAI

também era um lugar onde os fãs de mídias não tão respeitadas —

como os gibis — podiam hospedar programas de entrevistas livres

com os seus heróis — como, por exemplo, Stanley Martin Lieber,

que a essa altura já mudara de nome.

Lee, que não deixava passar uma chance de publicidade gratuita

— e que trabalhava muito perto da estação —, sabia que precisava

da exposição na mesma medida que a estação precisava preencher

o tempo no ar, sobretudo nas altas horas da noite e no início da

manhã. Por isso, aceitou ir para a WBAI. Mas não para os

programas políticos, nem os que debatiam o movimento negro ou

o feminista. Ele se apresentava nos programas de cultura hippie,

apresentados por iniciantes no rádio, todos muito surpresos por

conseguirem trazer em seus programas a voz dos quadrinhos que

tanto significava para eles.

Será que Lee se incomodou de aparecer em uma estação tão

presente na política radical? Será que ele ao menos sabia o que a

rádio representava? Seja qual for a resposta, o fato é que Lee

aparecia com frequência nos programas da WBAI. Em 1968, Neal

Conan, que viria a se tornar uma personalidade proeminente da

NPR, fez uma de suas primeiras entrevistas com Lee na WBAI. Um ano antes, um fã de ficção científica chamado Mike Hodel

entrevistara Lee e Kirby em seu próprio programa da WBAI.

No outro extremo do espectro político estavam apresentadores

de talk shows de Nova York, como Barry Farber. Sulista de fala

mansa, Farber era um conservador político com um amor pela

linguagem e um apreço por pessoas que, como Lee, faziam mágica

com as palavras e conseguiam preencher com conversas

agradáveis os longos trechos dos programas de entrevistas

noturnos — este na rádio WOR. Farber também gostava de um

bom debate, então adorava misturar entrevistados, para que

discutissem como preferissem, guiando a conversa com perguntas

e comentários, fazendo o papel de espectador preocupado e não

tão inocente assim.

E na divisão entre esses extremos, havia vários apresentadores

de rádio — incluindo os das estações universitárias de Nova York

— que também forneciam espaço para Stan Lee falar aos

estudantes, público cada vez mais na mira dos quadrinhos da

Marvel. Além de a empresa ter virado queridinha dos

universitários desde o início dessa nova era, as crianças que liam

quadrinhos em 1962 e 1963 também estavam se tornando

estudantes universitários, interessados em sexo, drogas, rock and

roll e política. O rádio teria um grande papel na manutenção e no

crescimento da conexão da Marvel com seu público.

* * *

A aparição de Lee e Kirby na rádio WBAI ocorreu durante um

período significativo no desenvolvimento da Marvel. No início de

1967, os números de vendas e de criação de originais da editora

eram excelentes. Produziam brinquedos, desenhos animados e

outras mercadorias dos personagens, e parecia inimaginável que a empresa se expandisse ainda mais. Afinal, o Homem-Aranha

podia ser popular, mas nunca chegaria à fama dos personagens de

Walt Disney, por exemplo.

Stan Lee acreditava que dois fatores tinham sido essenciais para

o sucesso da empresa nos seis anos desde a estreia de Quarteto

Fantástico, em 1961 — fatores que fora esperto o suficiente para

compreender e capitalizar. Lee queria ter certeza de que o mundo

— inclusive Martin Goodman e quaisquer compradores em

potencial da empresa — soubesse exatamente qual tinha sido sua

contribuição para o fenômeno que era a Marvel.

Um fator que Lee considerava essencial era que, por mais bem-

sucedida que a editora fosse, nunca poderiam parar de agir como

“uma pequena máquina que, com esforço, conseguiria conquistar

o mundo”. Lee julgava que seria suicídio comercial admitir — e

ainda por cima se gabar — que a proporção de vendas em relação

à quantidade de publicações ultrapassava de longe a da DC, seu

principal concorrente (embora a DC ainda estivesse reinando no

total de exemplares vendidos, já que publicava muito mais títulos

do que a Marvel). Claro, Goodman divulgava o sucesso da Marvel

em vários anúncios de revistas de comércio; a atitude fazia

sentido sob a perspectiva de negociação de taxas e vendas de

anúncios — e de definir o valor da empresa aos olhos de um

possível comprador. Mas com certeza seria imprudente para Lee,

ou qualquer outra pessoa além do dono da editora, fazer essas

declarações, não importava o contexto.

Então, em 3 de março de 1967, no programa da rádio WBAI de

Mike Hodel (encontrado nos arquivos sobre Lee na Universi dade

de Wyoming), quando a dupla criadora do Quarteto Fantástico fez

uma aparição conjunta, Lee expressou sua ideia de como achava que a empresa deveria se apresentar ao público — ao mesmo

tempo que empre gava seu bom e velho truque de permitir que os

leitores tivessem alguma noção das estratégia dos “bastidores”.

Quando Hodel sugeriu que Lee e Kirby retomassem uma conversa

que haviam tido antes de o programa ir ao ar, Stan declarou:

Eu não quero perder essa imagem que temos há anos de azarões, de

uma empresa pequena que conseguiu sobreviver e agora desafia os

grandes conglomerados. Considerando a forma como pensa o

público dos Estados Unidos, se formos reconhecidos como líderes, é

possível que passem a simpatizar com outra marca, então (…) eu

gostaria que pensassem em nós como aquela empresa pequena,

caseira e divertida que não é assim tão bem-sucedida, não tem

tanta fartura. Mas acho que Jack não concorda. [ 277 ]

 

Kirby com certeza não concordava. Ele respondeu de forma

intensa, dizendo que:

 

A Marvel tem um conteúdo superior a qualquer outra editora do

mercado, e eu, como leitor, gostaria de ler essas revistas. E, quando

crio uma história para a Marvel, sinto que sou um leitor. (…) E

sinto que, se estamos no topo das paradas, devemos assumir o topo,

anunciar que somos os maiores e que não nos arrependemos de ter

ultrapassado a concorrência.

 

Fazendo o possível para aplacar o estrelismo de Kirby, Lee

garantiu aos ouvintes que ele concordava com o artista, mas que:

 

O público costuma gostar mais de quem não está vencendo, e (…)

acho mais divertido para o leitor pensar que está consumindo algo

que é especial, meio que uma descoberta. (…) Mas assim que sentir

que todos conhecem a Marvel (…) ele pode tentar encontrar outra

coisa (…) que desperte sua afeição.

 

Em fevereiro de 1968, Lee articularia o que considerava o

segundo fator crucial que trouxera para a Marvel, algo talvez

ainda mais importante do que sua abordagem publicitária de

empresa não tão bem-sucedida. Em uma entrevista à estação de

rádio da Universidade Rutgers, de Nova Jersey (também

encontrada nos arquivos sobre Lee na Universidade de

Wyoming), ele opinou:

 

Criamos histórias muito bem-sucedidas com os leitores (…) [e] eu

sempre dizia a mim mesmo: “Bem, essa história não foi nada. Foi

só um herói encontrando um vilão e lutando contra ele.” (…) Mas

suspeito que foram as tramas menores, os pequenos desvios e

ferramentas de caracterização que (…) tornaram nossas revistas

um pouco melhores que as outras. (…) Porque é praticamente

sempre o mesmo enredo. [ 278 ]

“Sempre senti que o diálogo”, continuou, “é o mais importante

(…) o que dá realismo à história é fazer com que os personagens

conversem e reajam (…) como pessoas reais. Portanto, acho que

gastamos cerca de 99% do tempo nos diálogos. Não me importo de

reescrever a mesma frase dez vezes, se achar que não está boa”.

 

Em outras palavras, embora tenha admitido ao longo dos anos

que artistas como Kirby e Ditko tivessem forte envolvimento na

criação dos enredos das histórias que desenharam, Lee

considerava que sua contribuição era a parte mais importante, o fator que fazia da Marvel a Marvel: diálogos que só Stan Lee sabia

escrever, transformando enredos “praticamente iguais em todas

as edições” em contos que agarravam os leitores e prendiam sua

atenção. Por mais bonitas que fossem as artes, elas contavam

sempre a mesma velha história — até Lee trazer seu ponto de

vista exclusivo para o projeto.

E quem pode dizer que ele não estava certo? Pode-se

argumentar que, se os artistas eram o coração da Marvel, Stan Lee

era a alma — a voz literal e figurativa da empresa, o elemento que

unia os leitores aos quadrinhos. É uma eterna discussão, claro, que

até hoje causa comoção.

* * *

Com a passagem de 1968, o público norte-americano foi assolado

por diversas ondas de choque. Ainda não totalmente recuperada

do assassinato do presidente Kennedy, em 22 de novembro de

1963, a nação foi abalada por eventos que, hoje em dia, não temos

problema em compartimentalizar em caixas separadas: a Guerra

do Vietnã, o movimento pelos direitos civis, os assassinatos de

Robert Kennedy e de Martin Luther King. Mas, na época em que

tudo estava acontecendo, parecia que os golpes vinham um atrás

do outro, despedaçando o país.

E, em 5 de novembro de 1968, Richard Nixon foi eleito

presidente, derrotando Hubert H. Humphrey e encarnando o pior

pesadelo dos liberais de Nova York. Como Gloria Steinem

afirmou, em “Learning to Live with Nixon” [Aprendendo a viver

com Nixon], um artigo para a New York Magazine que saiu pouco

antes da eleição: “Estávamos de volta aos anos 1950. (…) Não era

uma época muito agradável no passado e, depois que chegamos tão perto de mudanças sociais essenciais, esse retrocesso, como

diria Bobby Kennedy, tornou-se inaceitável.”

Uma semana depois, em 12 de novembro, Stan Lee apareceu no

Barry Farber Show, junto com a dra. Hilde Mosse, psiquiatra e

educadora muito elogiada, muito próxima do dr. Fredric

Wertham, que dizimara a indústria dos quadrinhos nos anos 1950

com seus ataques, afastando dezenas de colegas e amigos de Lee

do trabalho e quase arruinando a carreira do próprio Lee. Mosse

vinha de uma família judia e alemã de editores, outrora

proeminente, que fora atacada por nazistas e forçada a fugir da

Alemanha em 1933. [ 279 ]

Farber colocou Lee e Mosse frente a frente, fazendo questão de

anunciar que “me interessei por esse debate porque fiquei me

perguntando como foi que sobrevivi aos filmes a que assisti na

primeira infância”. Ele também sabia muito bem o que atraía seus

ouvintes do rádio e que as controvérsias sobre os efeitos da

violência da mídia nas crianças tinham voltado às notícias. No

início daquele ano, o Congresso tinha realizado algumas

audiências sobre o tema.

Já se passara mais de uma década desde que Mosse e Wertham

tinham acabado com a indústria dos quadrinhos; mesmo que Lee

tivesse ajudado a recuperar parte da influência criativa e

comercial com a Marvel, a indústria nunca se recuperara

completamente do golpe do famoso livro Seduction of the

Innocent, que Wertham publicara em 1954. Durante as várias

horas em que os dois debateram (com Farber e os veteranos de

animação Dennis Marks e Barry Yellin acrescentando algumas

observações), era como se fosse 1954 outra vez. Para Lee, deve

ter sido ainda pior, com as memórias de 1957, quando foi forçado a demitir a maioria de seus artistas e escritores e ficou sozinho,

resistindo como “uma chama piloto humana”.

E talvez tenha lembrado uma época ainda anterior aos

participantes do debate. Em 1948, Mosse comparecera ao

simpósio de Psicopatologia das Revistas em Quadrinhos, de

Wertham, onde os gibis foram alvo de críticas violentas de

Wertham, Mosse e outros críticos sociais de destaque.

De sua parte, se Mosse não sabia exatamente quem era Stan Lee,

pelo menos admitiu no programa que lera os quadrinhos —

inclusive mencionando que o Homem-Aranha era um pouco mais

“inteligente” do que a média, e afirmando que o personagem

simbolizava tudo o que odiava na violenta cultura pop. Como

Leonard Rifas observou em seu artigo “Especially Dr. Hilde L.

Mosse: Wertham’s Research Collaborator” [Especial sobre a dra.

Hilde L. Mosse: colaboradora de pesquisa de Wertham]: “O

trabalho [de Mosse] com crianças e a pesquisa sobre mídia

infantil tinham a influência da perspectiva política que ela

desenvolveu enquanto assistia à ascensão dos nazistas ao poder.” [

280 ] E, de fato, isso ficou bem evidente durante o programa.

(Curiosamente, notas encontradas pela historiadora de

quadrinhos Carol Tilley nos arquivos de Wertham, na Biblioteca

do Congresso, mostram que ele ouvira o programa e anotara o

que considerara os principais argumentos dos participantes. Não

se sabe o que ele pretendia fazer acerca das anotações ou se

conversou com Mosse sobre sua participação no programa antes

ou depois de ele ir ao ar.) [ 281 ]

Para Lee, a questão claramente se tornara algo mais pessoal e

profundo do que uma simples oportunidade de promover a si

mesmo e a Marvel. Estavam em 1968, e ele não seria mais vítima de cruzadas contra os quadrinhos, não importava quão bem-

intencionadas pudessem ser. Mosse e Lee se enfrentaram no

programa de Farber, e cada um falou com convicção e o desejo de

divulgar suas respectivas causas, ambos muito educados, mas

relutando em chegar a um consenso. (O sotaque de Mosse, natural

da Alemanha, soava aos ouvintes norte-americanos como o modo

de falar dos nazistas de todos os filmes de Segunda Guerra a que

já tinham assistido, não importava se a psiquiatra tinha sido, ela

mesma, vítima genuína da opressão nazista. Esse modo de falar

deu um toque surreal ao debate.)

Lee via em Mosse a incorporação dos mesmos velhos

argumentos antiquadrinhos apresentados pelos mesmos velhos

argumentadores. O que talvez não seja uma surpresa é que, se

Mosse via em Stan um lembrete da filosofia nazista da “lei do mais

forte”, Lee — um judeu durante a Segunda Guerra Mundial —

também via algo parecido nela. Por exemplo, a certa altura, ele

relatou:

 

Sinto que isso tudo lembra um pouco a história de Hitler na

Tchecoslováquia. Acho que, no instante em que começamos a ceder

a esse tipo de coisa [censura], passamos a ter ainda mais

problemas. (…) A dra. Mosse ainda condena o que fazemos, mesmo

quando tentamos cumprir o Código [de quadrinhos].

 

Depois que Mosse, em um tom desdenhoso e condescendente,

argumentou em linhas mais gerais sobre como as crianças imitam

a violência da mídia, Lee reagiu:

Ouvi muito esse discurso nos últimos vinte anos. Ouvi os mesmos

argumentos e as mesmas respostas. O dr. Wertham e seus

seguidores (…) nunca mudaram seu ponto de vista. (…) Se tudo

fosse como vocês querem, o mundo não seria mais saudável (…) se

não houvesse gibis e programas de televisão (…) se tudo que

contém violência fosse tirado do ar, não acredito que o estado

mental do país melhoraria nem um pouquinho, porque (…) outras

coisas, muito mais graves, afetariam ainda mais as crianças, e não

haveria o alívio da fantasia.

“Meu maior medo”, prosseguiu ele, “são os benfeitores fanáticos.

Tenho muito medo disso. Tenho medo das pessoas que afirmam

saber o que é certo e errado para os meus filhos. Tenho medo das

pessoas que, quando escrevo uma história que acho divertida e

engraçada — e realmente me considero tão bom para julgar o nível

de diversão quanto qualquer outra pessoa, inclusive sei que não sou

um vilão —, afirmam ‘Isso é ruim porque estou dizendo que é’”.

Depois de um embate intenso sobre as crianças imitarem ou não

a violência da mídia e se a Bíblia ou a mitologia clássica eram

melhores ou piores do que os quadrinhos de super-heróis, Mosse

finalmente chegou ao ponto que parecia mais importante para ela:

 

O Homem-Aranha, o Super-Homem e o Batman são todos iguais.

Em uma análise psicológica, são exatamente o mesmo tipo de

personagem. Homens muito poderosos e cheios de músculos, heróis

que resolvem todos os problemas por meio da violência física ou de

armas. (…) A lei não existe, porque eles criam com as próprias

mãos a solução de qualquer conflito em que se vejam. São a antítese

da democracia, porque são o Super-Homem musculoso,

representam a adoração à violência e ao poder físico.

São exatamente — exatamente — o que qualquer um que

conheça um mínimo sobre o que o fascismo representa, o que o

nazismo representa… são o ideal que as pessoas tinham na era

Hitler.

 

E a discussão continuou, cada combatente pontuando pelo seu

lado. O calendário poderia ter sido de 1968, mas, para Lee e

Mosse, também era 1948, 1954 e 1957 — talvez até 1933. Se Barry

Farber queria um programa de excelência, certamente foi o que

teve naquela noite.

* * *

Lee talvez tenha chegado ao estúdio de Farber pensando que seria

apenas mais uma chance de divulgar seus quadrinhos e ser

adorado pelos fãs bajuladores que estariam ouvindo o programa.

Mas, ao longo da noite, ele largou a máscara de incentivador da

juventude e mirou em Mosse, cujo objetivo idealista — e, para ele,

inatingível — de um mundo livre de violência representava uma

ameaça. E não apenas a seu sustento, mas também aos princípios

— que, evidentemente, ambos compartilhavam — de liberdade de

expressão e de pensamento.

É pouco provável que Lee ou Mosse tenham se convencido de

qualquer coisa naquela noite, mas, para o bem ou para o mal, até o

fim do programa, Lee entrara muito mais no papel de porta-voz

da indústria. Era um papel autodesignado, mas ninguém mais

parecia querê-lo ou ser capaz de cumpri-lo.

Talvez ele estivesse lendo muitos gibis, acreditando demais na

veracidade das histórias que criava, mas, de alguma forma, Stan

Lee parecia estar se transformando, intencionalmente ou não, em

um homem com uma missão.