A Espetacular Vida de Stan Lee
12. A revolução no ar
Cuidado com os fanáticos! Muitas vezes, a cura
que pregam é mais mortal do que o mal que
denunciam!
— Narrador (Stan Lee) em X-Men n.° 16, de
janeiro de 1966
S tan Lee foi uma das peças criadoras da cultura pop da década de 1960. E, no entanto, para alguém responsável por alimentar grande parte da imaginação da época, Lee parecia tão intrigado quanto o público pelas disputas políticas e de ideais durante esse período tão tumultuado, que em 1968 lhe apresentaria grandes oportunidades e desafios desconcertantes.
Uma coisa que ele aprendeu depressa foi o poder da mídia de
massa — nos quadrinhos, é claro, mas principalmente no rádio.
Stanley Lieber adorava o rádio quando criança. Mais para o fim
da vida, falava com carinho dos programas de rádio que acendiam
sua imaginação. Programas como Chandu the Magician [Chandu, o Mágico] e The Charlie McCarthy Show [O show de Charlie
McCarthy] estavam entre seus favoritos. O alimento para sua
imaginação vinha também dos longas-metragens — especialmente
os estrelados por Errol Flynn — e os seriados matinais de sábado,
assim como as séries de livros infantis favoritas, como Bomba, the
Jungle Boy [Bomba, o garoto da selva] (“Bomba não pensa antes
de agir”) e Jimmie Dale, Alias The Gray Seal [Jimmie Dale, O Selo
Cinza]. Grande parte do Universo Marvel foi fundamentado na
imersão cultural e na análise da cultura pop da infância de Stan
durante sua pré-adolescência. [ 276 ]
Em meados da década de 1960, a televisão já assumira havia
muito a função do rádio na vida das crianças. Para o bem ou para
o mal, as histórias que entretinham os jovens vinham cada vez
mais da TV, com uma drástica redução do consumo de livros e
praticamente nada de rádio. Mas o rádio não estava morto, de
jeito nenhum. Na verdade, tornara-se o veículo das músicas
populares — mais recentemente, o rock and roll, um estilo que
começava a deixar de ser apenas moda e passava a assumir a
função de trilha sonora que unia os jovens de todas as classes em
uma única tribo.
Os ouvintes estavam começando a investir mais em rádios que,
além dos sinais AM já estabelecidos, também transmitiam por
sinal FM. Os proprietários das estações tiveram que ocupar essa
nova largura de banda, mais adequada para transmitir música
estéreo sem perda de qualidade, que era exatamente o que o
público queria — todos cada vez mais exigentes quanto à
qualidade do som reproduzido por seus elaborados aparelhos
estéreo. O rádio FM se tornou o meio para as pessoas ouvirem
música de todas as variedades com muita qualidade, fossem clássicas, jazz ou os mais novos hits psicodélicos. As quarenta
melhores músicas populares e folclóricas ainda tocavam bastante
na banda AM, assim como a nova moda dos programas com
participação dos ouvintes. Mas a onda do futuro para os
aficionados por música (e os anunciantes com voz suave que as
apresentavam) era a FM.
Em termos mais práticos, a duplicação (ainda que virtual) da
programação disponível para o rádio trazia a necessidade de
preencher aquele tempo. Então havia mais música, mais notícias,
mais boletins de trânsito — e, claro, mais conversa.
As estações de rádio que precisam preencher o tempo de
programação e prender a atenção dos ouvintes acrescentam
programas de entrevistas, geralmente com apresentadores cheios
de opiniões. E estavam atrás de convidados interessantes, com
personalidades extrovertidas e o dom da tagarelice, envolvidos
com assuntos sobre os quais as pessoas queriam ouvir, talvez até
com produtos que gostariam de comprar. Melhor ainda se esses
convidados morassem ou trabalhassem perto da estação de rádio,
para chegarem depressa e não precisarem de arranjos elaborados
ou caros para levá-los ao estúdio.
Era um paraíso já montado para Stan Lee, que trabalhava (e em
breve passaria a morar) no centro de Manhattan, perto de todas as
estações de rádio da área metropolitana de Nova York.
O rádio de Nova York no fim da década de 1960 apresentava
muito rock progressivo, notícias, as músicas do top 40, programas
universitários e talk shows com apresentadores de diversas áreas
da política. Uma estação notável era a WBAI, de esquerda.
Operando na pequena rede Pacifica, a WBAI tornou-se referência
da contracultura dos anos 1960 na região de Nova York. Foi praticamente a central de informações para quem planejava
protestar em Chicago, na Convenção Nacional dos Democratas de
agosto de 1968. Durante uma greve acalorada de professores, a
rádio transmitiu, em nome da liberdade de expressão, um poema
antissemita escrito por um estudante de ensino médio negro. A
transmissão levou a Meir Kahane’s Jewish Defense League [Liga
de Defesa Judaica de Meir Kahane] a ocupar a sede da estação em
protesto.
Mas, como centro de várias culturas alternativas, a WBAI
também era um lugar onde os fãs de mídias não tão respeitadas —
como os gibis — podiam hospedar programas de entrevistas livres
com os seus heróis — como, por exemplo, Stanley Martin Lieber,
que a essa altura já mudara de nome.
Lee, que não deixava passar uma chance de publicidade gratuita
— e que trabalhava muito perto da estação —, sabia que precisava
da exposição na mesma medida que a estação precisava preencher
o tempo no ar, sobretudo nas altas horas da noite e no início da
manhã. Por isso, aceitou ir para a WBAI. Mas não para os
programas políticos, nem os que debatiam o movimento negro ou
o feminista. Ele se apresentava nos programas de cultura hippie,
apresentados por iniciantes no rádio, todos muito surpresos por
conseguirem trazer em seus programas a voz dos quadrinhos que
tanto significava para eles.
Será que Lee se incomodou de aparecer em uma estação tão
presente na política radical? Será que ele ao menos sabia o que a
rádio representava? Seja qual for a resposta, o fato é que Lee
aparecia com frequência nos programas da WBAI. Em 1968, Neal
Conan, que viria a se tornar uma personalidade proeminente da
NPR, fez uma de suas primeiras entrevistas com Lee na WBAI. Um ano antes, um fã de ficção científica chamado Mike Hodel
entrevistara Lee e Kirby em seu próprio programa da WBAI.
No outro extremo do espectro político estavam apresentadores
de talk shows de Nova York, como Barry Farber. Sulista de fala
mansa, Farber era um conservador político com um amor pela
linguagem e um apreço por pessoas que, como Lee, faziam mágica
com as palavras e conseguiam preencher com conversas
agradáveis os longos trechos dos programas de entrevistas
noturnos — este na rádio WOR. Farber também gostava de um
bom debate, então adorava misturar entrevistados, para que
discutissem como preferissem, guiando a conversa com perguntas
e comentários, fazendo o papel de espectador preocupado e não
tão inocente assim.
E na divisão entre esses extremos, havia vários apresentadores
de rádio — incluindo os das estações universitárias de Nova York
— que também forneciam espaço para Stan Lee falar aos
estudantes, público cada vez mais na mira dos quadrinhos da
Marvel. Além de a empresa ter virado queridinha dos
universitários desde o início dessa nova era, as crianças que liam
quadrinhos em 1962 e 1963 também estavam se tornando
estudantes universitários, interessados em sexo, drogas, rock and
roll e política. O rádio teria um grande papel na manutenção e no
crescimento da conexão da Marvel com seu público.
* * *
A aparição de Lee e Kirby na rádio WBAI ocorreu durante um
período significativo no desenvolvimento da Marvel. No início de
1967, os números de vendas e de criação de originais da editora
eram excelentes. Produziam brinquedos, desenhos animados e
outras mercadorias dos personagens, e parecia inimaginável que a empresa se expandisse ainda mais. Afinal, o Homem-Aranha
podia ser popular, mas nunca chegaria à fama dos personagens de
Walt Disney, por exemplo.
Stan Lee acreditava que dois fatores tinham sido essenciais para
o sucesso da empresa nos seis anos desde a estreia de Quarteto
Fantástico, em 1961 — fatores que fora esperto o suficiente para
compreender e capitalizar. Lee queria ter certeza de que o mundo
— inclusive Martin Goodman e quaisquer compradores em
potencial da empresa — soubesse exatamente qual tinha sido sua
contribuição para o fenômeno que era a Marvel.
Um fator que Lee considerava essencial era que, por mais bem-
sucedida que a editora fosse, nunca poderiam parar de agir como
“uma pequena máquina que, com esforço, conseguiria conquistar
o mundo”. Lee julgava que seria suicídio comercial admitir — e
ainda por cima se gabar — que a proporção de vendas em relação
à quantidade de publicações ultrapassava de longe a da DC, seu
principal concorrente (embora a DC ainda estivesse reinando no
total de exemplares vendidos, já que publicava muito mais títulos
do que a Marvel). Claro, Goodman divulgava o sucesso da Marvel
em vários anúncios de revistas de comércio; a atitude fazia
sentido sob a perspectiva de negociação de taxas e vendas de
anúncios — e de definir o valor da empresa aos olhos de um
possível comprador. Mas com certeza seria imprudente para Lee,
ou qualquer outra pessoa além do dono da editora, fazer essas
declarações, não importava o contexto.
Então, em 3 de março de 1967, no programa da rádio WBAI de
Mike Hodel (encontrado nos arquivos sobre Lee na Universi dade
de Wyoming), quando a dupla criadora do Quarteto Fantástico fez
uma aparição conjunta, Lee expressou sua ideia de como achava que a empresa deveria se apresentar ao público — ao mesmo
tempo que empre gava seu bom e velho truque de permitir que os
leitores tivessem alguma noção das estratégia dos “bastidores”.
Quando Hodel sugeriu que Lee e Kirby retomassem uma conversa
que haviam tido antes de o programa ir ao ar, Stan declarou:
Eu não quero perder essa imagem que temos há anos de azarões, de
uma empresa pequena que conseguiu sobreviver e agora desafia os
grandes conglomerados. Considerando a forma como pensa o
público dos Estados Unidos, se formos reconhecidos como líderes, é
possível que passem a simpatizar com outra marca, então (…) eu
gostaria que pensassem em nós como aquela empresa pequena,
caseira e divertida que não é assim tão bem-sucedida, não tem
tanta fartura. Mas acho que Jack não concorda. [ 277 ]
Kirby com certeza não concordava. Ele respondeu de forma
intensa, dizendo que:
A Marvel tem um conteúdo superior a qualquer outra editora do
mercado, e eu, como leitor, gostaria de ler essas revistas. E, quando
crio uma história para a Marvel, sinto que sou um leitor. (…) E
sinto que, se estamos no topo das paradas, devemos assumir o topo,
anunciar que somos os maiores e que não nos arrependemos de ter
ultrapassado a concorrência.
Fazendo o possível para aplacar o estrelismo de Kirby, Lee
garantiu aos ouvintes que ele concordava com o artista, mas que:
O público costuma gostar mais de quem não está vencendo, e (…)
acho mais divertido para o leitor pensar que está consumindo algo
que é especial, meio que uma descoberta. (…) Mas assim que sentir
que todos conhecem a Marvel (…) ele pode tentar encontrar outra
coisa (…) que desperte sua afeição.
Em fevereiro de 1968, Lee articularia o que considerava o
segundo fator crucial que trouxera para a Marvel, algo talvez
ainda mais importante do que sua abordagem publicitária de
empresa não tão bem-sucedida. Em uma entrevista à estação de
rádio da Universidade Rutgers, de Nova Jersey (também
encontrada nos arquivos sobre Lee na Universidade de
Wyoming), ele opinou:
Criamos histórias muito bem-sucedidas com os leitores (…) [e] eu
sempre dizia a mim mesmo: “Bem, essa história não foi nada. Foi
só um herói encontrando um vilão e lutando contra ele.” (…) Mas
suspeito que foram as tramas menores, os pequenos desvios e
ferramentas de caracterização que (…) tornaram nossas revistas
um pouco melhores que as outras. (…) Porque é praticamente
sempre o mesmo enredo. [ 278 ]
“Sempre senti que o diálogo”, continuou, “é o mais importante
(…) o que dá realismo à história é fazer com que os personagens
conversem e reajam (…) como pessoas reais. Portanto, acho que
gastamos cerca de 99% do tempo nos diálogos. Não me importo de
reescrever a mesma frase dez vezes, se achar que não está boa”.
Em outras palavras, embora tenha admitido ao longo dos anos
que artistas como Kirby e Ditko tivessem forte envolvimento na
criação dos enredos das histórias que desenharam, Lee
considerava que sua contribuição era a parte mais importante, o fator que fazia da Marvel a Marvel: diálogos que só Stan Lee sabia
escrever, transformando enredos “praticamente iguais em todas
as edições” em contos que agarravam os leitores e prendiam sua
atenção. Por mais bonitas que fossem as artes, elas contavam
sempre a mesma velha história — até Lee trazer seu ponto de
vista exclusivo para o projeto.
E quem pode dizer que ele não estava certo? Pode-se
argumentar que, se os artistas eram o coração da Marvel, Stan Lee
era a alma — a voz literal e figurativa da empresa, o elemento que
unia os leitores aos quadrinhos. É uma eterna discussão, claro, que
até hoje causa comoção.
* * *
Com a passagem de 1968, o público norte-americano foi assolado
por diversas ondas de choque. Ainda não totalmente recuperada
do assassinato do presidente Kennedy, em 22 de novembro de
1963, a nação foi abalada por eventos que, hoje em dia, não temos
problema em compartimentalizar em caixas separadas: a Guerra
do Vietnã, o movimento pelos direitos civis, os assassinatos de
Robert Kennedy e de Martin Luther King. Mas, na época em que
tudo estava acontecendo, parecia que os golpes vinham um atrás
do outro, despedaçando o país.
E, em 5 de novembro de 1968, Richard Nixon foi eleito
presidente, derrotando Hubert H. Humphrey e encarnando o pior
pesadelo dos liberais de Nova York. Como Gloria Steinem
afirmou, em “Learning to Live with Nixon” [Aprendendo a viver
com Nixon], um artigo para a New York Magazine que saiu pouco
antes da eleição: “Estávamos de volta aos anos 1950. (…) Não era
uma época muito agradável no passado e, depois que chegamos tão perto de mudanças sociais essenciais, esse retrocesso, como
diria Bobby Kennedy, tornou-se inaceitável.”
Uma semana depois, em 12 de novembro, Stan Lee apareceu no
Barry Farber Show, junto com a dra. Hilde Mosse, psiquiatra e
educadora muito elogiada, muito próxima do dr. Fredric
Wertham, que dizimara a indústria dos quadrinhos nos anos 1950
com seus ataques, afastando dezenas de colegas e amigos de Lee
do trabalho e quase arruinando a carreira do próprio Lee. Mosse
vinha de uma família judia e alemã de editores, outrora
proeminente, que fora atacada por nazistas e forçada a fugir da
Alemanha em 1933. [ 279 ]
Farber colocou Lee e Mosse frente a frente, fazendo questão de
anunciar que “me interessei por esse debate porque fiquei me
perguntando como foi que sobrevivi aos filmes a que assisti na
primeira infância”. Ele também sabia muito bem o que atraía seus
ouvintes do rádio e que as controvérsias sobre os efeitos da
violência da mídia nas crianças tinham voltado às notícias. No
início daquele ano, o Congresso tinha realizado algumas
audiências sobre o tema.
Já se passara mais de uma década desde que Mosse e Wertham
tinham acabado com a indústria dos quadrinhos; mesmo que Lee
tivesse ajudado a recuperar parte da influência criativa e
comercial com a Marvel, a indústria nunca se recuperara
completamente do golpe do famoso livro Seduction of the
Innocent, que Wertham publicara em 1954. Durante as várias
horas em que os dois debateram (com Farber e os veteranos de
animação Dennis Marks e Barry Yellin acrescentando algumas
observações), era como se fosse 1954 outra vez. Para Lee, deve
ter sido ainda pior, com as memórias de 1957, quando foi forçado a demitir a maioria de seus artistas e escritores e ficou sozinho,
resistindo como “uma chama piloto humana”.
E talvez tenha lembrado uma época ainda anterior aos
participantes do debate. Em 1948, Mosse comparecera ao
simpósio de Psicopatologia das Revistas em Quadrinhos, de
Wertham, onde os gibis foram alvo de críticas violentas de
Wertham, Mosse e outros críticos sociais de destaque.
De sua parte, se Mosse não sabia exatamente quem era Stan Lee,
pelo menos admitiu no programa que lera os quadrinhos —
inclusive mencionando que o Homem-Aranha era um pouco mais
“inteligente” do que a média, e afirmando que o personagem
simbolizava tudo o que odiava na violenta cultura pop. Como
Leonard Rifas observou em seu artigo “Especially Dr. Hilde L.
Mosse: Wertham’s Research Collaborator” [Especial sobre a dra.
Hilde L. Mosse: colaboradora de pesquisa de Wertham]: “O
trabalho [de Mosse] com crianças e a pesquisa sobre mídia
infantil tinham a influência da perspectiva política que ela
desenvolveu enquanto assistia à ascensão dos nazistas ao poder.” [
280 ] E, de fato, isso ficou bem evidente durante o programa.
(Curiosamente, notas encontradas pela historiadora de
quadrinhos Carol Tilley nos arquivos de Wertham, na Biblioteca
do Congresso, mostram que ele ouvira o programa e anotara o
que considerara os principais argumentos dos participantes. Não
se sabe o que ele pretendia fazer acerca das anotações ou se
conversou com Mosse sobre sua participação no programa antes
ou depois de ele ir ao ar.) [ 281 ]
Para Lee, a questão claramente se tornara algo mais pessoal e
profundo do que uma simples oportunidade de promover a si
mesmo e a Marvel. Estavam em 1968, e ele não seria mais vítima de cruzadas contra os quadrinhos, não importava quão bem-
intencionadas pudessem ser. Mosse e Lee se enfrentaram no
programa de Farber, e cada um falou com convicção e o desejo de
divulgar suas respectivas causas, ambos muito educados, mas
relutando em chegar a um consenso. (O sotaque de Mosse, natural
da Alemanha, soava aos ouvintes norte-americanos como o modo
de falar dos nazistas de todos os filmes de Segunda Guerra a que
já tinham assistido, não importava se a psiquiatra tinha sido, ela
mesma, vítima genuína da opressão nazista. Esse modo de falar
deu um toque surreal ao debate.)
Lee via em Mosse a incorporação dos mesmos velhos
argumentos antiquadrinhos apresentados pelos mesmos velhos
argumentadores. O que talvez não seja uma surpresa é que, se
Mosse via em Stan um lembrete da filosofia nazista da “lei do mais
forte”, Lee — um judeu durante a Segunda Guerra Mundial —
também via algo parecido nela. Por exemplo, a certa altura, ele
relatou:
Sinto que isso tudo lembra um pouco a história de Hitler na
Tchecoslováquia. Acho que, no instante em que começamos a ceder
a esse tipo de coisa [censura], passamos a ter ainda mais
problemas. (…) A dra. Mosse ainda condena o que fazemos, mesmo
quando tentamos cumprir o Código [de quadrinhos].
Depois que Mosse, em um tom desdenhoso e condescendente,
argumentou em linhas mais gerais sobre como as crianças imitam
a violência da mídia, Lee reagiu:
Ouvi muito esse discurso nos últimos vinte anos. Ouvi os mesmos
argumentos e as mesmas respostas. O dr. Wertham e seus
seguidores (…) nunca mudaram seu ponto de vista. (…) Se tudo
fosse como vocês querem, o mundo não seria mais saudável (…) se
não houvesse gibis e programas de televisão (…) se tudo que
contém violência fosse tirado do ar, não acredito que o estado
mental do país melhoraria nem um pouquinho, porque (…) outras
coisas, muito mais graves, afetariam ainda mais as crianças, e não
haveria o alívio da fantasia.
“Meu maior medo”, prosseguiu ele, “são os benfeitores fanáticos.
Tenho muito medo disso. Tenho medo das pessoas que afirmam
saber o que é certo e errado para os meus filhos. Tenho medo das
pessoas que, quando escrevo uma história que acho divertida e
engraçada — e realmente me considero tão bom para julgar o nível
de diversão quanto qualquer outra pessoa, inclusive sei que não sou
um vilão —, afirmam ‘Isso é ruim porque estou dizendo que é’”.
Depois de um embate intenso sobre as crianças imitarem ou não
a violência da mídia e se a Bíblia ou a mitologia clássica eram
melhores ou piores do que os quadrinhos de super-heróis, Mosse
finalmente chegou ao ponto que parecia mais importante para ela:
O Homem-Aranha, o Super-Homem e o Batman são todos iguais.
Em uma análise psicológica, são exatamente o mesmo tipo de
personagem. Homens muito poderosos e cheios de músculos, heróis
que resolvem todos os problemas por meio da violência física ou de
armas. (…) A lei não existe, porque eles criam com as próprias
mãos a solução de qualquer conflito em que se vejam. São a antítese
da democracia, porque são o Super-Homem musculoso,
representam a adoração à violência e ao poder físico.
São exatamente — exatamente — o que qualquer um que
conheça um mínimo sobre o que o fascismo representa, o que o
nazismo representa… são o ideal que as pessoas tinham na era
Hitler.
E a discussão continuou, cada combatente pontuando pelo seu
lado. O calendário poderia ter sido de 1968, mas, para Lee e
Mosse, também era 1948, 1954 e 1957 — talvez até 1933. Se Barry
Farber queria um programa de excelência, certamente foi o que
teve naquela noite.
* * *
Lee talvez tenha chegado ao estúdio de Farber pensando que seria
apenas mais uma chance de divulgar seus quadrinhos e ser
adorado pelos fãs bajuladores que estariam ouvindo o programa.
Mas, ao longo da noite, ele largou a máscara de incentivador da
juventude e mirou em Mosse, cujo objetivo idealista — e, para ele,
inatingível — de um mundo livre de violência representava uma
ameaça. E não apenas a seu sustento, mas também aos princípios
— que, evidentemente, ambos compartilhavam — de liberdade de
expressão e de pensamento.
É pouco provável que Lee ou Mosse tenham se convencido de
qualquer coisa naquela noite, mas, para o bem ou para o mal, até o
fim do programa, Lee entrara muito mais no papel de porta-voz
da indústria. Era um papel autodesignado, mas ninguém mais
parecia querê-lo ou ser capaz de cumpri-lo.
Talvez ele estivesse lendo muitos gibis, acreditando demais na
veracidade das histórias que criava, mas, de alguma forma, Stan
Lee parecia estar se transformando, intencionalmente ou não, em
um homem com uma missão.