A Espetacular Vida de Stan Lee

Danny Fingeroth · Capítulo 21 de 28

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A Espetacular Vida de Stan Lee

20. No rastro do dinheiro

Você sente que está sendo passado para

 

trás?

— Bob Simon, correspondente do programa 60

Minutes II, para Stan Lee, em outubro de 2002

 

E m 1993, as coisas pareciam razoavelmente estáveis no mundo dos quadrinhos e no nicho da Marvel de Stan Lee, já com setenta anos. As revistas vendiam bem. As ações estavam em alta. O que havia para reclamar? Afinal, embora a Marvel não parecesse estar tão bem em Hollywood, era apenas questão de tempo até James Cameron

começar as filmagens de Homem-Aranha — só precisavam

resolver algumas questões contratuais chatinhas com alguns

outros detentores de direitos de propriedade intelectual. Além

disso, os personagens da Marvel estavam ou em breve estariam

aparecendo em várias séries animadas com as quais Lee estava

envolvido em maior ou menor grau.

Lee ainda parecia capaz de escrever o máximo de roteiros de

quadrinhos que seu cronograma permitia (sem mencionar a

tirinha de jornal do Homem-Aranha). Talvez não tivesse como os

quadrinhos continuarem vendendo daquela maneira por muito

mais tempo, mas, mesmo que as vendas caíssem pela metade,

ainda seriam de milhões e milhões a cada mês, e o mercado direto

era um mecanismo eficiente. A política de não devolução

significava que a empresa não perderia com vendas por atacado, e

as lojas de quadrinhos poderiam vender o excedente em

promoções. Todos estavam satisfeitos enquanto o fluxo do

mercado, de criadores a editores, de varejistas a consumidores,

permanecesse saudável.

Ronald Perelman certamente fizera valer o investimento de US$

82 milhões na Marvel. Além disso, estava comprando outras

editoras e empresas relacionadas aos quadrinhos, como

fabricantes de adesivos e de figurinhas colecionáveis. Estava

pagando caro, mas era tudo parte de um grande esquema. Só que

acabou não sendo o esquema que todos imaginavam.

* * *

Sempre inquieto — e sempre preocupado com a possibilidade de

desastre no mundo dos quadrinhos, não importava o quanto as

coisas parecessem boas —, Lee se mantinha, como sempre, aberto

a acordos paralelos.

O editor e empreendedor Byron Preiss era amigo de Lee havia

anos. Nascido em 1953 (o mesmo ano de Jan, a falecida filha dos

Lee), Preiss era um fã que acabara se tornando editor de livros e

que decidira não apenas conhecer seus ídolos de infância dos

quadrinhos e da ficção científica, mas também fazer negócios com alguns deles. Preiss entrara em projetos com Will Eisner, Jim

Steranko, Isaac Asimov e muitos outros.

Em 1993, trabalhou com Lee em dois projetos. Preiss comprara

a licença para publicar, pela editora Berkley Books, uma série de

romances e coletâneas de contos baseados nos personagens da

Marvel. Ele fez de Lee o editor titular da série de coletâneas — a

linha Ultimate (que gerou Ultimate Homem-Aranha, Ultimate

Surfista Prateado etc.) — para a qual Lee escreveria o prefácio e

parte da ficção.

Preiss também discutira com Lee sobre uma série de romances,

desconectados da Marvel, sob o título Stan Lee’s Riftworld. O

primeiro romance desse Riftworld foi lançado em 1993, seguido

por outros dois. Escritos pelo romancista veterano Bill McCay,

com ilustrações especiais de Dave Gibbons, artista de Watchmen,

a série Riftworld contava a história do editor de quadrinhos Harry

Sturdley, que dirigia uma empresa de gibis, a Fantasy Factory, e de

como ele lidou com uma série de acontecimentos desencadeados

a partir de seu encontro com super-heróis — e vilões — de

verdade, trazidos para a Terra através de uma fenda

interdimensional.

Preiss também começou uma série de quadrinhos com a

premissa de serem produzidos por escritores e artistas da Fantasy

Factory. Por fim, houve a produção de uma versão em quadrinhos

de Riftworld, editada pelo autor deste livro (que migrou da Marvel

para a Preiss em 1995), com roteiro de Lee e arte de Dan Jurgens,

famoso pelo trabalho em Super-Homem.

Com Avi Arad assumindo cada vez mais as funções de produtor

de cinema e de TV para seus projetos e com a linha de quadrinhos

futurísticos que ele criara repaginada como a Marvel 2099 — da qual ele só trabalhava em um título, Ravage —, Lee embarcou no

projeto de uma nova linha de quadrinhos, a Excelsior. Em seu

escritório em Los Angeles, contando com ajuda de colegas de

confiança na criação — como Roy Thomas e o artista Sal Buscema

(irmão de John) —, Lee voltara a editar uma linha de quadrinhos.

De acordo com Thomas, ele se envolvia em todos os aspectos das

revistas. [ 397 ] Era um revival dos anos 1960 —, fosse isso bom ou

ruim.

* * *

Mas, em 6 de fevereiro de 1994, veio outro lembrete dos anos

1960: Jack Kirby faleceu.

Segundo Lee, ele e Kirby tinham se reconciliado pouco antes da

morte do artista. Como ele contou:

 

Encontrei Jack em uma convenção de quadrinhos, então fui até ele,

que disse: “Stan, você não tem nada do que se envergonhar.” Ele

sorriu, e nós apertamos as mãos. Depois, cada um foi para seu

lado. [ 398 ]

 

Sobre o funeral de Kirby, segundo Raphael e Spurgeon:

 

Com o consentimento de Roz [Kirby], Stan Lee participou do

enterro de Jack Kirby. “Fiquei mais afastado”, conta Lee. “Não

queria que ninguém me visse (…) e começasse a falar sobre meu

relacionamento com Jack.” [ 399 ]

 

E, de acordo com Evanier:

Stan Lee ficou (…) sentado no fundo, quieto, durante os discursos,

depois partiu sem falar muito com ninguém. Roz queria abraçá-lo

bem na frente de todos, para mostrar que (…) não restava

nenhuma amargura. Mas Stan, rápido como sempre, foi embora

antes que ela pudesse sequer se aproximar. [ 400 ]

 

Raphael e Spurgeon observaram:

 

Uma ou duas semanas após o funeral, Evanier organizou uma

conversa por telefone entre Stan e Roz. Mais tarde, Lee foi

fundamental em garantir que a Marvel pagasse uma pensão

razoável para Roz. [ 401 ]

 

Como em muitos relacionamentos complicados, os problemas

entre Lee e Kirby não acabaram simplesmente porque um deles

tinha morrido. De fato, as coisas só se complicariam mais com o

passar dos anos.

* * *

O ano de 1994 trouxe a estreia de um programa de desenhos

animados exibido em diversas emissoras chamado Marvel Action

Hour [Hora de ação da Marvel]. Lee era produtor executivo e

fazia os roteiros e algumas dublagens. Marvel Action Hour contava

com desenhos animados do Homem de Ferro e do Quarteto

Fantástico. No verão daquele ano, Lee foi eleito para figurar no

Hall da Fama de Will Eisner, na Comic-Con de San Diego.

Nesse meio-tempo, alguns dos antigos contratos assinados pela

Marvel tinham voltado para assombrar os planos de filmes para o

cinema. Levaria mais oito anos para resolver os conflitos de direitos autorais do Homem-Aranha, que tinham sido cedidos.

Inclusive, o que foi lançado em 1994 foi o filme do Quarteto

Fantástico, uma produção barata e cafona do estúdio de Roger

Corman, feita apenas para manter os direitos em vigor, nunca

lançada oficialmente.

No campo das adaptações em live-action, Lee disse ao repórter

Frank Lovece, em 1994:

 

No passado, nós [a Marvel] éramos muito mais ingênuos em

relação aos filmes [e aos programas de TV]. Alguém nos procurava

dizendo: “Ei, queremos fazer um filme com um de seus

personagens”, e nós respondíamos: “Maravilha! Ah, que ótimo!”

Ficávamos lisonjeados e cedíamos os direitos, sem manter nenhum

controle sobre o que era feito. Mas, agora que crescemos, qualquer

filme que seja produzido… Eu tenho um parceiro, o Avi Arad (…)

um cara incrivelmente criativo, é um prazer trabalhar com ele… De

qualquer maneira, a partir de agora, para qualquer filme que seja

feito, Avi e eu somos coprodutores executivos, o que significa que a

empresa não pode simplesmente fazer o que quiser. Temos que

aprovar a história, o roteiro, o elenco… isso tudo. Portanto, agora a

coisa é completamente diferente. [ 402 ]

 

Lee também disse a Lovece que assinara um contrato vitalício

com a Marvel. Ele certamente tinha percorrido um longo caminho

desde que agira apenas como “chama piloto humana”, nos dias

sombrios da década de 1950 pós-Wertham.

* * *

Em meados de 1994, a enorme expansão do mercado dos

quadrinhos dos últimos anos começou a perder força depressa. A

Marvel, sofrendo o peso da instabilidade das inúmeras empresas

que adquirira havia pouco e com as maquinações financeiras da

organização de Perelman, sofria uma pressão sem precedentes

para maximizar os lucros. [ 403 ]

Talvez a decisão mais imprudente da empresa tenha sido a

compra do distribuidor de quadrinhos Heroes World, com a

intenção de torná-lo o único fornecedor de quadrinhos da Marvel.

Com o aumento repentino e maciço dos pedidos, a Heroes World

não conseguiu fazer o trabalho direito, e muitos varejistas ficaram

sem os quadrinhos que tinham pedido, o que por sua vez deixou

os consumidores sem as revistas, livres para gastar o dinheiro

com outras editoras ou com o que mais quisessem. Essa falha da

Heroes World desestabilizou um sistema de distribuição de

quadrinhos que já sofria com a superexpansão.

Com o mercado em crise e a Marvel com um incrível aumento

de gastos decorrente da compra de empresas supervalorizadas, o

alto nível da corporação estabeleceu uma demanda urgente para

cortar custos. A Marvel foi reestruturada. A equipe foi

reorganizada, revirada e seriamente reduzida com demissões em

massa. Como parte do pacote de corte de custos, a linha de

quadrinhos Excelsior foi interrompida e até hoje não chegou ao

conhecimento do público.

No início de 1995, me pareceu, na época, com base em

conversas pessoais com Stan e Joan Lee, que Lee sentia estar

sendo deixado de lado pela empresa, achando que a Marvel

poderia tentar renegar o tratamento generoso que dedicara a ele.

Joan Lee volta e meia ficava com medo de que o dono da Marvel, fosse quem fosse, pensasse em economizar um pouco demitindo

ou tratando mal seu marido. Quando os Lee contrataram

advogados agressivos para proteger seus interesses, deram a

entender que aquele parecia ser um dos momentos em que esses

temores de Joan afloravam.

Em maio daquele ano, eu já tinha me demitido de uma Marvel

caótica — o que não foi uma decisão fácil — para me tornar chefe

da linha Virtual Comics, de Byron Preiss, uma série de quadrinhos

projetados para serem consumidos na internet em expansão —

área em que Preiss era pioneiro —, pelo menos a princípio, com

possibilidade de um dia serem impressos. Naquele verão, na

Comic-Con de San Diego, além de promover a Marvel, Lee

também divulgou a versão em quadrinhos dos romances do

Riftworld, primeira leva de títulos da Virtual Comics.

Também em 1995 — depois de ostentar a barba, como se

estivesse de luto pela decadência da glória da Marvel —, Lee

apareceu no filme Barrados no shopping, de Kevin Smith.

Interpretou uma versão ficcional de si mesmo, e seu papel era

muito mais que apenas uma participação especial. No filme,

enquanto vagava sem rumo — e de alguma forma sem atrair

atenção — em um shopping de Nova Jersey, depois de uma sessão

de autógrafos em alguma loja, Lee cruzou com o protagonista da

história, Brodie, interpretado por Jason Lee (sem parentesco).

Vendo que Brodie estava angustiado com o término de um

relacionamento, “Stan Lee” deu início a um monólogo sobre um

amor ficcional perdido havia muito tempo, e terminou

aconselhando o jovem: “Faça um favor a si mesmo, Brodie. Não

espere. Porque nem todo o dinheiro, todas as mulheres ou mesmo todas as histórias em quadrinhos do mundo podem substituir uma

pessoa especial.”

* * *

A Marvel enfrentou uma forte turbulência financeira durante os

anos seguintes, culminando, em 1998, em uma batalha de

proporções sobre-humanas entre os investidores Carl Icahn e

Perelman. Antes disso, porém, em 23 de fevereiro de 1996, Chip

Goodman morreu inesperadamente de pneumonia, com apenas

55 anos. Lee diria, mais tarde, que “Chip, na verdade, era um cara

legal”. [ 404 ] O jovem Goodman teve uma carreira de sucesso

como editor de revistas de praticamente todos os assuntos, menos

histórias em quadrinhos.

No fim de 1996, Perelman levou a Marvel à falência, e a crença

geral era de que ele tinha feito isso tentando proteger a empresa

das garras de Icahn. A isso se seguiu um período surreal, em que,

dependendo de diversas decisões judiciais, o controle da empresa

mudou de mãos várias vezes, com diferentes equipes de

executivos entrando e saindo do comando, em uma dança das

cadeiras bizarra. [ 405 ]

Também naquele ano, a Marvel — que em 1994 dividira o

departamento editorial em setores relacionados a cada

personagem — restaurou o sistema de editor-chefe único,

contratando para o cargo Bob Harras, que tinha liderado a divisão

editorial dos X-Men. Harras fez o que pôde com a empresa ainda

se recuperando do caos financeiro.

Em 1997, depois de mais uma reestruturação e outra rodada de

demissões, a Marvel decidiu que realmente queria que Lee

representasse a empresa diante do mundo, e o departamento editorial trabalhou para que todos os quadrinhos de julho daquele

ano se encaixassem no “mês de flashback”, com histórias dos

personagens antes do início de suas carreiras de super-heróis.

Cada história teria a apresentação de uma versão cômica de Lee,

imaginada pelos escritores e artistas daquela revista. Inclusive,

Lee escreveu sua própria aparição na edição “Flashback” de X-

Men.

Depois de tantas tentativas de marginalizá-lo, a empresa — pelo

menos na divisão de quadrinhos —, quando se viu sob pressão,

compreendeu o valor de ter sua essência incorporada no rosto e

no nome mais famoso do meio. Gostando ou não, as identidades

da Marvel e de Stan Lee estavam intrinsecamente conectadas.

* * *

Em setembro de 1998, o tribunal de falências tomou a decisão

inesperada de conceder a propriedade da Marvel à empresa Toy

Biz, de Avi Arad e Isaac Perlmutter, que milagrosamente

conseguira vencer a disputa tanto contra Perelman quanto contra

Icahn. Os dois começaram o trabalho de resgatar a empresa do

estado de destruição em que caíra. Ainda assim, consta que

Perelman lucrou algo entre US$ 50 milhões e US$ 250 milhões

com a venda de suas ações da Marvel.

Parte da repercussão da falência da Marvel envolvia uma revisão

do contrato vitalício de Lee. A falência teve o efeito de anular

quaisquer contratos outrora firmados pela empresa, incluindo o

de Lee. Quando Perlmutter lhe ofereceu um contrato de dois anos

com um salário bastante reduzido, Lee se recusou a assinar, e seu

advogado entrou em ação. Como Sean Howe contou:

Sem contrato, Lee podia contestar a propriedade intelectual sobre

alguns dos personagens pelos quais a Marvel, em inúmeras ocasiões

ao longo de três décadas, o creditara como criador. E, mesmo que o

caso não fosse muito resistente à análise judicial, o dano à imagem

pública da Marvel seria devastador. [ 406 ]

 

Diante dessa realidade, a empresa negociou outro contrato

vitalício com Lee, garantindo — em troca de uma pequena fração

de seu tempo de trabalho semanal — um aumento anual de

salário, além de pensões para a esposa e para a filha caso Lee

falecesse antes delas.

A mudança mais significativa era que o contrato também

garantia a ele uma porcentagem dos lucros de qualquer filme ou

programa de TV da Marvel (o que, naquele momento, era uma

quantia insignificante), e também lhe concedia a liberdade de se

envolver em qualquer outro trabalho que escolhesse, incluindo

projetos que poderiam competir diretamente com a Marvel. [ 407 ]

Ali estava Lee, vinculado à Marvel pelo resto da vida, mas livre

para fazer o que quisesse. Era parte da empresa, mas ao mesmo

tempo não era.

E o que faria, então?

* * *

Apesar de toda essa agitação, e depois de décadas incapaz de

conquistar o sucesso no cinema, a Marvel finalmente conseguiu

uma bilheteria considerável com a adaptação de Blade, o caçador

de vampiros, que estreou em 21 de agosto de 1998, com foco em

um personagem coadjuvante de Drácula, uma série de quadrinhos

da mesma editora. (O filme Homens de preto — abreviado como MIB,acrônimo do original, Men in Black —, lançado no ano

anterior, tecnicamente também foi um sucesso da Marvel, já que

era de propriedade da Malibu Comics, que a Marvel comprara

vários anos antes. Mas o público não associava o MIB à Marvel,

portanto o sucesso não acrescentou peso à marca.)

Assim, não foi nem o Homem-Aranha nem os X-Men que

colocaram a Marvel no topo de Hollywood, e sim Blade,

interpretado por Wesley Snipes, um personagem do qual

ninguém, exceto os fãs mais dedicados, tinha ouvido falar. Foi o

sucesso de Blade que fundamentou as bases para os próximos

filmes de grande bilheteria, X-Men e Homem-Aranha.

Lee filmou uma participação especial em Blade, mas a cena não

foi incluída na versão final. Só que, a essa altura, Lee tinha uma

visão para o futuro que não incluía a Marvel como parte essencial.

Estava se aproveitando das cláusulas contratuais que lhe

permitiam entrar em projetos concorrentes da empresa. Ia entrar

no mercado por si mesmo.

Bem, mais ou menos.

Naquele ano, mesmo antes de a Marvel ser entregue à Toy Biz,

Lee, um parceiro de negócios chamado Peter Paul e mais algumas

pessoas tinham fundado uma empresa batizada de Stan Lee

Media. No papel, Lee era presidente. Paul trouxera uma lista

impressionante de nomes de Hollywood aos quais estava

associado por meio da American Spirit Foundation (ASF), que ele

administrava. A ASF tinha sido criada pelo ator Jimmy Stewart

com o propósito de investir em educação pública de qualidade.

Com Paul no comando, a empresa concedera prêmios anuais do

Spirit of America a figuras como Ronald Reagan, Gene

Roddenberry, Bob Hope… e Stan Lee.

Paul chamara Lee para se tornar presidente da ASF e chefiar o

comitê de Entertainers for Education [Celebridades em prol da

educação]. Paul o apresentou a figuras como Muhammad Ali, Bill

e Hillary Clinton e Tony Curtis; além disso, propôs a Lee a ideia

de abrir uma empresa de desenvolvimento de propriedade

intelectual que se concentrasse na internet, um ímã para

investimentos na época.

No entanto, Paul tinha um passado complicado, e inclusive

cumprira pena por um esquema envolvendo tentativa de fraude

ao governo cubano em mais de US$ 8 milhões. Ele alegou a Lee

que tinha sido injustamente incriminado (o verdadeiro culpado

variava) e que na verdade agora trabalhava como parte de um

plano secreto dos Estados Unidos para derrubar Fidel Castro.

Nunca houve provas para confirmar suas alegações. [ 408 ]

Lee optou por acreditar nas explicações de Paul, decidindo se

juntar àquele homem com quem só tivera experiências diretas

positivas. Aos 75 anos, apesar de mais ou menos deixado de lado

pela Marvel — mesmo ainda sendo a face da editora —, Lee

continuava cheio de energia e ambição. Ansiava pela satisfação de

criar uma nova empresa de entretenimento bem-sucedida, dessa

vez na vanguarda das novas tecnologias.

Embora não pudesse ser considerado especialista em tecnologia,

Lee foi um dos primeiros a adotar o e-mail — recebera uma conta

especial da AOL como parte de um empreendimento com a

Marvel —, e Byron Preiss lhe ensinara sobre as possibilidades da

internet. Stan Lee e Peter Paul tinham a mesma chance de sucesso

naquele empreendimento virtual que qualquer nova empresa. A

Stan Lee Media logo se tornou pública, e Lee e outros executivos ficaram multimilionários — apenas no papel, já que estavam

proibidos de vender suas ações da empresa por um longo período.

Para Lee, a SLM era uma chance de voltar às trincheiras,

passando os dias com equipes de pessoas criativas — a empresa

chegou a contratar 150 funcionários —, colaborando em novos

personagens e histórias. Ninguém lhe diria que estrelar ou narrar

um desenho ou quadrinho era “brega” ou “narcisista”, muito pelo

contrário. As ideias de Lee não eram apenas toleradas; eram

necessárias. Os principais produtos da empresa eram as criações

ou ideias aprovadas pelo famoso presidente. Como disse Evanier,

que trabalhou por um curto período para a Stan Lee Media: “Peter

jogou uma boia salva-vidas para Stan, que não estava pronto para

se aposentar discretamente.” [ 409 ]

De fato, de acordo com Evanier, Lee tinha pavor de se tornar

uma lembrança nostálgica, como alguns de seus contemporâneos.

Durante o período na Stan Lee Media, quando foi chamado para

se apresentar em um painel da “velha guarda” que Evanier estava

programado para moderar na Comic-Con de San Diego, Lee

respondeu: “Mark, participo do painel que quiser, desde que seja

sobre assuntos atuais. Não quero fazer nada sobre os velhos

tempos, não importa o quê. Eu sou um produtor ativo, ainda

produzo material, e é disso que quero falar.” [ 410 ]

Mais do que qualquer incursão no território da internet

organizado por Byron Preiss ou até pela própria Marvel, a SLM

deu a Lee a chance de permanecer relevante na nova mídia do

presente — e talvez até de se tornar incrivelmente rico. O editor

veterano da Marvel, Jim Salicrup, que trabalhou por um tempo na

SLM, relatou, sobre o envolvimento de Lee com os produtos da

empresa: “[Stan] estava totalmente envolvido! Era o seu nome na empresa — o que acho que ele não curtia muito —, e Stan queria

que tudo saísse da melhor forma possível.” [ 411 ]

Mas, apesar de todo o entusiasmo e a atenção que Lee dedicou à

empresa, a casa não demorou a cair. Evanier chegou a acreditar

que, à exceção de Stan, os outros executivos não se importavam

muito com os produtos lançados, que “o objetivo da empresa era

ser vendida (…) era se fazer parecer tão bem-sucedida que o

Yahoo!, a Amazon, a Sony ou alguma outra megacorporação a

compraria por uma quantia enorme de dinheiro”. [ 412 ]

Com ou sem a possibilidade de haver um comprador

importante, Paul começou a discretamente cometer vários tipos

de fraude com a empresa de capital aberto. A fraude foi

descoberta pelas autoridades, e Paul, depois de fugir para o Brasil,

acabou preso e deportado de volta aos Estados Unidos. [ 413 ]

A fortuna multimilionária que Lee tinha no papel desapareceu.

A empresa fechou as portas em meados de dezembro de 2000, e

Lee conseguiu evitar todas as acusações legais, mas foi forçado a

passar por outra demissão em massa de seus funcionários. Deve

ter sido como um revival das implosões da Timely de 1949 e 1957.

Há relatos de que ele chegou a desmaiar quando as demissões

foram anunciadas. [ 414 ]

Lee conseguiu emergir do fiasco relativamente incólume,

embora tenha jurado “nunca mais confiar cegamente em

ninguém”. [ 415 ]

* * *

Em 3 de novembro de 1998, faleceu Bob Kane, amigo de Lee e

cocriador do Batman. Lee disse sobre ele: “Era divertido. Eu me

divertia muito com ele.” [ 416 ] Apesar de amigos, os dois mantinham uma disputa jovial pela popularidade do Batman

contra a do Homem-Aranha. Lee também lembrou

posteriormente:

Tínhamos um certo acordo… Bob me disse, alguns anos antes de

morrer: “Sabe, Stan, a gente devia fazer um filme juntos. Dá para

imaginar uma criação de Bob Kane e Stan Lee?”

E eu respondi: “Sim, seria ótimo, uma criação de Stan Lee e Bob

Kane.”

Mas achei mesmo uma boa ideia, e disse: “Bem, então vamos

fazer alguma coisa.” E completei: “Sabe, tenho uma ideia para um

personagem que podemos usar.” E Bob retrucou: “Não, não! Não

me diga.” Quando perguntei por quê, ele respondeu: “Ah, é que tem

que ser uma colaboração, algo em que nós dois pensamos juntos.” E

eu perguntei: “E como vamos pensar em uma coisa ao mesmo

tempo?”

E nunca chegamos a fazer nada, porque Bob não queria usar uma

ideia minha, mas também nunca me contou nenhuma das ideias

dele, e era uma situação muito engraçada. Mas Bob sempre dizia:

“A gente devia fazer algo juntos.” [ 417 ]

 

Estranhamente, foi no funeral de Kane que Lee voltou a pensar

em Ditko. Evanier, que também estava lá, recontou os

acontecimentos, narrando uma cena digna de filme:

 

Stan amava Ditko. Estávamos no enterro de Bob Kane, e as únicas

pessoas dos quadrinhos que apareceram foram Stan, eu, Paul Smith

e Mike Barr. (…) Stan veio até mim antes do funeral, perguntando:

“Vou ter que falar. O que eu digo?” E dei algumas ideias do que ele

poderia dizer, e ele disse mesmo. Eu meio que escrevi o discurso

para ele.

Depois, estávamos de pé junto ao local da sepultura, e os

funcionários estavam com problemas [mecânicos] para abaixar o

caixão. (…) Ficamos ali, esperando, esperando e esperando. Até

que Stan se vira para mim, e… Juro que é verdade. Ele virou para

mim e disse: “Sabe, Steve Ditko foi o melhor arte-finalista que Jack

[Kirby] já teve.” E eu meio que o encarei sem entender por que

estávamos falando daquilo. E respondi: “Sim, ele fez um ótimo

trabalho.” E Lee disse: “Mas claro que não podíamos chamar Ditko

[para fazer a arte-final de Kirby regularmente]. Ele era um arte-

finalista muito valioso, porque era um grande artista.” Então, Lee

começou a contar o quanto adorava trabalhar com Ditko. E

arrematou: “Jack era mais criativo, era um artista melhor, mas eu

adorava trabalhar com Ditko. Nós dois trazíamos muito para a

história.”

Até aí, tudo bem. E Lee continuou: “Eu mal podia esperar para

escrever [um roteiro de] uma história do Ditko, até que a

oportunidade apareceu.” E eu respondi: “Bem (…) mas você deu o

roteiro das duas últimas histórias do Doutor Estranho que Ditko

desenhou para Roy Thomas e Denny O’Neil.” E Lee retrucou: “Ah,

não. Não entreguei. Eu jamais deixaria essa chance passar para

outro. Ditko era muito especial, eu jamais ia querer deixá-lo com

outro.” E eu tive que dizer: “Não, Stan, o diálogo das últimas

histórias do Doutor Estranho de Ditko foram feitos por Roy ou

Denny.” E Lee perguntou: “Sério?” Quando eu disse que sim, ele

retrucou: “Ah, vou ter que verificar isso, mas acho que você está

errado, porque eu adorava trabalhar com Ditko. Nada me fazia

mais feliz do que escrever os diálogos e roteiros das coisas dele.” E

Lee falou um pouco mais de Ditko. Fiquei me perguntando por que

estávamos falando de Steve, pelo amor de Deus! Bob Kane estava

morto bem ali na nossa frente.

Então, para continuar a conversa, comentei: “Ali para aquele lado

é onde enterraram o [comediante] Stan Laurel.” E Stan respondeu:

“Sério? Vamos dar uma olhada!” (…) E ele levou umas oito pessoas

para ver o túmulo de Stan Laurel. (…) E foi dizendo: “Nossa, esse

Stan Laurel era um cara incrível. Foi o homem mais engraçado que

já existiu.” E eu perguntei: “Não seria melhor voltarmos para o

Bob? Esperar até que ele esteja no chão?” Então voltamos e

esperamos. [ 418 ]

 

Embora nos enterros as pessoas possam dizer ou fazer coisas

estranhas para evitar confrontar a realidade da morte, Lee

claramente tinha muito carinho por Ditko. E, embora Ditko talvez

tivesse sentido algum afeto por Lee décadas antes, esse

sentimento parecia ter evaporado em 1999. A edição de 16 de

novembro da revista Time cobriu o funeral de Kane, incluindo o

discurso de Lee, creditado ao “criador do Homem-Aranha”. Ditko

respondeu com uma carta, impressa na edição de 7 de dezembro:

Assunto: o discurso no funeral de Bob Kane, criador do Batman,

feito por Stan Lee, a quem a revista descreveu como “criador do

Homem-Aranha”: a existência do Homem-Aranha dependia de

uma identidade visual concreta. Sua criação foi uma colaboração

entre o editor/escritor Stan Lee e o artista Steve Ditko.

 

Foi nesse ano que os longos ataques de Ditko a Lee começaram

a aparecer em várias revistas, publicadas pela editora Robin

Snyder. Em uma delas, Ditko mencionou a omissão da Time, apontando que “fui o único que requisitou um esclarecimento

impresso”. [ 419 ]

Algo mudara para Ditko. Ele não era mais a pessoa de sete anos

antes, que abraçara Stan Lee e se vira disposto a passar quase um

dia todo discutindo a possibilidade de realizar novos projetos com

ele.

De acordo com uma entrevista que deu para Jonathan Ross, no

documentário In Search of Steve Ditko, de 2007, Lee ligou para

Ditko depois que a carta da Time foi publicada. Ele descreveu a

conversa:

 

Steve disse: “Ter uma ideia não é nada, porque, até que se torne

uma coisa física, é apenas uma ideia.” E disse que precisou que ele

desenhasse o quadrinho e desse vida ao personagem, por assim

dizer, para torná-lo realmente tangível. Caso contrário, eu

continuaria só com uma ideia. E eu respondi a ele: “Bem, acho que

a pessoa que teve a ideia é o criador.” E Steve retrucou: “Não,

porque eu que desenhei.” Bem, de qualquer forma, Steve

definitivamente sentia que era o cocriador do Homem-Aranha. E

(…) depois que ele disse isso, vi que a questão significava muito

para ele. (…) Então respondi: “Tudo bem, Steve, vou dizer a todos

que você é o cocriador.” Mas ele não se deu por satisfeito. Então

enviei uma carta.

 

Como vimos, em uma carta aberta escrita no papel timbrado da

Stan Lee Media e datada de 18 de agosto de 1999, Lee escreveu

uma mensagem que incluía a frase:

 

Sempre considerei Steve Ditko o cocriador do Homem-Aranha.

E, como Lee contou a Ross: “Ditko logo apontou que considerar

significa ‘pensar, olhar com atenção, examinar’ e tudo o mais, e

que aquilo não era uma admissão, reivindicação ou afirmação de

que Steve Ditko é o cocriador do Homem-Aranha.

“E foi aí”, explicou Lee a Ross, “que eu desisti”.

* * *

Das cinzas da Stan Lee Media, Lee, seu advogado de longa data,

Arthur Lieberman, e seu colega Gill Champion formaram uma

nova empresa gerenciadora de propriedade intelectual, que

chamaram de POW! (acrônimo de Purveyors of Wonder

[Fornecedores de Maravilhas]) Entertainment. Sem nenhuma

intenção de expandir tão depressa — ou sequer na mesma escala

— quanto a SLM, a POW! foi projetada para ser o principal meio

pelo qual as ideias de Lee — que em geral apresentavam o próprio

Lee de alguma forma — seriam transmitidas ao público e

apresentadas a outras empresas. Isso incluiria conceitos de reality

shows como Who Wants to Be a Superhero? , Os Super-Humanos de

Stan Lee e o longa-metragem de animação Mosaico.

Lee ainda criava para a Marvel, fazendo trabalhos como a

tirinha do Homem-Aranha, é claro (que Larry Lieber desenhava

desde 1986), e, como sempre, atuando como a face amigável da

marca. Mas, em teoria e por contrato, era obrigado a não dedicar

mais de 10% de seu tempo à empresa.

No início dos anos 2000, o novo editor-chefe da Marvel, Joe

Quesada, e seu chefe, o editor Bill Jemas — que parecia se divertir

em lançar publicações controversas e dar declarações públicas

polêmicas (uma ótima maneira de obter publicidade gratuita para

uma empresa sem dinheiro) — estavam empenhados em colocar

os quadrinhos da Marvel nas manchetes e retomar a glória da reputação da empresa. Estavam tentando recuperar o lugar da

editora na corrida do mercado — como Lee tentara, décadas antes

— com a pouca margem que tinham para trabalhar. Essa tomada

de risco levou a conflitos com Arad, que liderava as iniciativas de

mídia da Marvel em Hollywood e queria que a empresa projetasse

um ar de estabilidade e seriedade.

Só que isso não era uma batalha de Stan Lee.

A realidade parecia ser que Lee teria uma participação

principalmente marginal e distante no futuro da Marvel, apesar do

contrato vitalício com a empresa.

Então, Lee tratou de se ocupar com a POW!, desenvolvendo

inúmeros projetos, muitos com empresas e celebridades

importantes — incluindo Ringo Starr, Arnold Schwarzenegger e

Pamela Anderson. Como a SLM, a POW! também era uma

empresa de capital aberto, embora as ações nunca tenham

atingido os números incríveis que a SLM experimentou por um

breve período.

E, em 2001, graças à inspiração de Michael Uslan, seu amigo e

produtor dos filmes do Batman, Lee escreveu uma série de

quadrinhos para a DC chamada Just Imagine Stan Lee Creating…A

premissa era simples, mas elegante: os personagens mais famosos

da DC reimaginados por Lee — que só escrevera quadrinhos para

a Marvel — junto com uma apresentação dos principais artistas de

quadrinhos. Nas edições norte-americanas, os títulos eram uma

combinação de “Imagine Stan Lee com [algum artista] criando

[algum personagem]”. Nas edições brasileiras, o título ficava

“Imagine: [algum personagem] de Stan Lee”. Os quadrinhos da

série levaram títulos como:

Just Imagine Stan Lee with Joe Kubert Creating Batman [no

Brasil, Imagine: Batman de Stan Lee]

Just Imagine Stan Lee with Jim Lee Creating Wonder Woman

[no Brasil, Imagine: Mulher-Maravilha de Stan Lee]

Just Imagine Stan Lee with John Buscema Creating Superman

[no Brasil, Imagine: o Superman de Stan Lee]

 

Como Uslan recordou em uma conversa comigo:

 

Eu disse a Stan: “E se eu levasse você para a DC Comics, para

trabalhar em um quadrinho reimaginando todos os super-heróis de

lá à sua maneira? Seria de seu interesse? E se eu conseguisse juntar

você aos melhores artistas que já viveram?”

Stan ficou extasiado com a ideia, e pude ver as engrenagens de

seu cérebro já girando. Ele disse: “Ah, a DC nunca aceitaria isso.” E

eu respondi: “Deixa comigo.” [ 420 ]

 

Outros nomes de artistas famosos envolvidos no projeto foram

Gene Colan, John Byrne, Terry Austin, M.W. Kaluta, John Severin,

Richard Corben, Dave Gibbons, Dick Giordano, Dan Jurgens e

Tom Palmer. Uslan escreveu histórias de backup para as revistas, e

Mike Carlin foi o editor da série.

Enquanto trabalhava em Just Imagine, Uslan teve uma

experiência que, até então, só tinha imaginado.

 

Nunca me esquecerei de quando estava no escritório de Stan, em

Los Angeles, e as obras de arte de [John] Buscema [para a

Imagine: Superman de Stan Lee] chegaram. (…) Stan estava

falando sobre (…) como Buscema era um artista incrível, [mas] que

não estava feliz com a interpretação do enredo em uma página ou

outra. Estava tentando explicar a Buscema o que queria, mas não

estava conseguindo se fazer entender.

 

Depois que a conversa com o artista terminou, Lee colocou um

pouco de papel vegetal sobre os quadros problemáticos e entregou

um lápis a Uslan. E o relato continua:

 

E Stan disse: “Desenhe.”

E ele se sentou em uma cadeira e fez uma pose, me explicando

como deveria ser o primeiro quadro. Depois fez outra pose, dizendo:

“Agora desenhe isso, dessa perspectiva” (…) E lá estava eu,

sentado, com Stan Lee todo esticado em uma pose, me dizendo para

desenhá-la. E eu pensava: “Minha nossa! Eu sou Jack Kirby! Não

acredito que estou nesta sala com meu ídolo, Stan Lee, e ele está

subindo nos móveis, me dizendo para desenhar isso ou aquilo.” Foi

um dos momentos mais mágicos da minha vida (…) e eu realmente

senti como se estivesse vivendo em primeira mão o lendário

processo criativo de Stan Lee como escritor, editor e gênio visual em

termos de sua narrativa. E, cara, não tem como ser melhor que

isso. [ 421 ]

 

A série Just Imagine, um projeto muito divulgado, colocou Lee

definitivamente nos olhos do público de quadrinhos, com um

projeto bacana que, em vez de relembrar os artistas que tinham

alguma rivalidade com ele, concentrava-se nos artistas — tanto

profissionais antigos e reverenciados quanto jovens estrelas da

moda — que ficavam mais do que satisfeitos em fazer parceria

com Lee. O projeto também serviu para mostrar à Marvel que Lee era mais do que capaz de competir com eles — e não só nos

projetos da POW! de que ninguém nunca ouvira falar, mas

também em quadrinhos de prestígio, em parceria com seus

maiores concorrentes: o Super-Homem, o Batman, a Mulher-

Maravilha e outros.

Embora continuasse determinado a não se aposentar, em 2002,

Lee finalmente dedicou um tempo para — junto do coautor

George Mair — escrever suas memórias, intituladas Excelsior!.

Com uma capa de Romita Sr., que desenhou Lee cercado por suas

criações da Marvel, o livro dá o ponto de vista de alguém que

passou por muitas coisas, positivas e negativas, e que fez as pazes

com a vida, com suas realizações e até mesmo com seus fracassos

— e que passara dos quadrinhos para o mundo mais amplo dos

contadores de histórias de Hollywood.

O livro não encarava o futuro como se estivesse se aproximando

de um fim, mas de um início:

 

As coisas andam mais empolgantes do que nunca. Estou fazendo

exatamente o que sempre gostei de fazer: criando personagens e

conceitos para entreter o público. Mas agora faço isso no maior

campo de jogo de todos. [ 422 ]

 

De fato, Lee viveu — e trabalhou — por mais uma década e

meia, e veio a se tornar mais conhecido e admirado do que nunca.

Por mais ocupado que estivesse com a ampla variedade de

projetos, a fama cresceu principalmente por causa de suas

participações especiais — os papéis pequenos, mas memoráveis,

em quase todos os filmes e programas de TV da Marvel. Mas essas

participações demoraram um pouco para engrenar.

Depois da estreia como jurado no filme para a TV de 1989, O

julgamento do Incrível Hulk, não houve muitos live-actions da

Marvel para Lee participar. Ele acabou cortado da versão final de

Blade, em 1998, e teve um papel muito curto e sem falas como

vendedor de cachorro-quente no filme dos X-Men de 2000. Até

que, por fim, no Homem-Aranha de 2002, que estreou em 3 de

maio, Lee tornou-se um herói, salvando uma garotinha de detritos

que caíam durante a batalha do Homem-Aranha com o Duende

Verde. Esses pequenos trechos eram apenas o começo de uma

carreira curiosa na telona, que traria Lee de volta ao seu sonho

original de ser ator.

* * *

Mas, também em 2002, entre as participações especiais, haveria —

como já se tornara padrão para Lee e a Marvel — uma

controvérsia sobre direitos autorais e pagamentos prestes a tomar

o centro do palco. Lee se envolveria outra vez nos dramas do

mundo real, e isso graças, estranhamente, ao crescente sucesso da

Marvel no mundo dos filmes.

Tanto os filmes dos X-Men quanto os do Homem-Aranha eram

campeões de bilheteria e estabeleceram as propriedades da

Marvel como donas de um potencial incrível, do qual ninguém

havia se dado conta antes. Só em 2003, foram lançados filmes

como Demolidor – O Homem sem Medo, Hulk e uma sequência

para o filme dos X-Men. A Marvel tinha o potencial de atingir

receitas que fariam o dinheiro de investimento na publicação

parecer irrisório.

Só que havia um problema.

O contrato de Lee de 1998, negociado a partir das ruínas da

empresa falida, garantia a ele 10% dos lucros da Marvel com o uso de seus personagens em filmes e programas de TV. E, como Lee

disse a um repórter do The Times of London, no mês seguinte à

estreia de Homem-Aranha: “Não ganhei um centavo com o

Homem-Aranha.”

No final de outubro de 2002, o famoso programa 60 Minutes II,

da CBS, informou que a Marvel, em violação ao contrato de 1998

— acordado quando ninguém esperava que os filmes da Marvel

vissem a luz do dia, muito menos que gerassem enormes receitas

—, ainda não pagara a Lee nada além de seu salário

reconhecidamente generoso, e que ele estava pensando em

processar a empresa.

“Você sente que está sendo passado para trás?”, perguntou o

correspondente Bob Simon.

“Não quero dizer isso”, respondeu Lee. “Afinal, ainda faço parte

da empresa. Amo o pessoal. Amo a empresa.” [ 423 ]

Ainda assim, em 12 de novembro, Lee abriu uma ação contra a

Marvel, citando a provisão em seu contrato que garantia

 

participação igual a 10% dos lucros obtidos pela Marvel durante

sua vida (…) dos rendimentos de quaisquer produções de televisão,

filme ou animação (…) utilizando personagens da Marvel.

 

A parte mencionada ainda afirmava que:

 

A Marvel computará, contabilizará e pagará sua participação

devida dos referidos lucros, se houver, pelo período anual que

termina em 31 de março, anualmente ao longo de sua vida, dentro

de um prazo razoável após o fim de cada período. [ 424 ]

A Marvel não tinha pagado nada das participações nos lucros

prometidas pelo contrato.

Stan Lee, o rosto da empresa, estava processando o local em que

trabalhava havia mais de sessenta anos.