A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
Obrigação de falar e obrigação de escrever
Salvo em caso de loucura, é portanto uma verdadeira obrigação de falar e de buscar sentido, em princípio, que cabe ao neotênio. Se não falasse, ele não inventaria a segunda natureza de que precisa para viver, ficando totalmente subtraído do mundo. E basta ver os neotênios que não falam (os que designei como autistas) para entender o que esse afastamento do mundo significa: eles não estão na primeira nem na segunda natureza, de tal maneira que sozinhos, sem outros neotênios mais dotados que eles (bravos neuróticos), que os acolham e protejam, não poderiam sobreviver.
Mas essa obrigação simbólica de falar não é a única que se impõe ao neotênio. Também pesa sobre ele a obrigação de escrever. Quando se diz que o neotênio saiu da primeira natureza, é preciso entender que o neotênio saiu da prescrição do código que deveria conduzi-lo a uma forma finita, adulta. Mas o que é o código? Sabemos desde 1953, ano da descoberta por Watson e Crick da estrutura em dupla hélice do DNA, que o código se apresenta sob a forma de uma escrita natural de quatro letras correspondendo aos quatro nucleotídeos (guanina, adenina, timina e citosina) que encontramos no germe de todo ser vivo. Nenhum ser pode emancipar-se do código que traz em si. Nenhum, exceto o neotênio: ele é o único ser que não realiza completamente as possibilidades contidas no germe.
Evidentemente, essa retirada da estrita determinação do código acabou, durante o longo processo de hominização, por se fixar e se perenizar, de tal maneira que o neotênio “acabado”, se assim posso me expressar, vale dizer, fixado como tal, dispõe de um neocódigo que deixa vaga a questão decisiva que teria de resolver: a finalização, a especialização, o lugar no ecossistema. Neste sentido, o neotênio é um ser perfeitamente sartriano: não sabe o que está fazendo aqui.
É um ser que escapou à estrita determinação genética, ou seja, à ditadura do código de seus antepassados animais. Mas devemos entender que, ao escapar à fatalidade do código, ele acabou caindo sob uma outra fatalidade. Jogado constantemente à frente daquilo que não era previsto, ele se viu obrigado a escrever, do lado de fora, a lei que não traz mais dentro de si. Pelo fato de ter escapado à escrita endógena, o neotênio encontra-se diante da necessidade de inventar uma escrita exógena que inscreva no exterior a lei que não está mais
escrita nele.58 Acontece que essa escrita exógena, ao contrário da escrita endógena finita, é literalmente infinita: o neotênio vê-se obrigado a registrar em forma de escrita a quantidade infinita de situações em que se vê jogado.
É, portanto, submetido a uma injunção para escrever a Lei, injunção que não pode deixá-lo tranquilo, que se encontra o neotênio a partir do momento em que escapou à primeira lei.
Além da obrigação de falar, o neotênio está assim obrigado a escrever. E, com efeito, desde sempre ele escreve. Na forma de desenho parietal, de pinturas rupestres ou de toda forma de protoescrita, escritas ideográficas e pictográficas, escritas silábicas, escritas fonéticas e, agora, escritas digitais.
Ele deve escrever fora tudo que não está dentro. Numa memória exterior infinita, ele deve simplesmente escrever a lei do mundo.
Quem diz escrita diz congregados de gramma, vale dizer, de letras ligadas por relações declaradas de oposição, composição, grandeza e implicação. É portanto em gramáticas que se dá a lei do mundo.
O estranho é que os neotênios podem utilizar gramáticas sem sabê-lo. O fato de essas gramáticas poderem ficar implícitas por muito tempo não os impede de funcionar de maneira eficaz nas diferentes práticas sociais, até o dia em que um neotênio mais avisado que os outros seja capaz de decifrar essas gramáticas e revelar aos congêneres o que lhes estava dissimulado. Três exemplos:
– Os inúmeros relatos que os neotênios constantemente fazem uns aos outros são, por sua vez, gerados a partir de algoritmos gramaticais. Mas foi necessário esperar Lévi-Strauss, vale dizer, até meados do século XX, para saber que os mitos eram compostos de mitemas, transmitidos ao longo da narração, mas ao mesmo tempo mantendo-se implícitos.
– Da mesma forma, os cantos, com a música que os sustenta, são compostos de acordo com regras gramaticais harmônicas – escalas, modos e cadências – que só começaram a ser decifradas, explicitadas e escritas no período decisivo entre o arcaísmo e o classicismo grego, depois de Pitágoras.
– O movimento de “gramatização”, vale dizer, o fato de a gramática de uma língua ser anotada, efetuou-se a partir de três grandes revoluções. Numa primeira etapa, a gramática no Ocidente é constituída durante a Antiguidade latina (cf. as gramáticas de Donato e Prisciano). Numa segunda etapa, a partir do Renascimento, a gramática do latim serviu de padrão geral com base no qual podiam ser pensadas as outras gramáticas. A partir do momento em que a Europa explorou o planeta (fim do século XV), todas as línguas do mundo foram progressivamente gramatizadas. Outras civilizações tinham gramatizado anteriormente as línguas (os indianos, os árabes), mas elas haviam permanecido confinadas em sua área cultural. Finalmente, passados cerca de cinquenta anos, estamos engajados numa terceira revolução tecnolinguística: a automatização
do tratamento da linguagem humana.59
Essas gramáticas nunca são dadas de uma vez por todas, pois a exploração do mundo por elas facultada e dos mundos que elas criam nunca está acabada. Sempre é possível aperfeiçoar uma gramática, até transformá-la numa ciência. Às vezes uma gramática que satisfez os neotênios ao longo de várias gerações vem a ser subitamente descartada em proveito de uma nova, mais poderosa, mais rica, mais completa, mais econômica. Por exemplo, o sistema Platão-Aristóteles-Ptolomeu, que vê na Terra o centro fixo do universo, prevaleceria durante quase dois mil anos, da Antiguidade grega ao Renascimento, para desmoronar em menos de um século a partir de 1543, ano de publicação do De evolutionibus orbium coelestium de Copérnico, estabelecendo os princípios de uma gramática mais poderosa, baseada no heliocentrismo, que integra outros fatos de observação inexplicáveis no sistema anterior.