A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
Filosofar em tempos neotênicos
O que vem em seguida tem a ver com um outro capítulo do pensamento, pois doravante vai-se tratar de filosofar levando em conta uma formulação científica da neotenia.
Filosofar em tempos neotênicos
Já sabemos: basta que um Galileu veja de outra maneira a organização dos astros para que esse “desastre” logo suscite um Descartes, obrigado a refundar todo o exercício filosófico e a inventar um novo sujeito. Da mesma forma Newton em relação a Kant: como “desde Newton os cometas”, segundo Kant, “seguem trajetórias
geométricas”,26 colocou-se para este uma nova questão, a do ajuste da “lei moral” ao “céu estrelado” – será então o programa da segunda Crítica: a Crítica da razão prática. Provavelmente poderíamos demonstrar as mesmas implicações necessárias entre as teorias da relatividade e a invenção do sujeito freudiano. Toda grande descoberta científica suscita, em suma, um novo sujeito filosófico.
Ora, hoje em dia dispomos de um dado antropológico capital quanto à espécie humana, doravante bem estruturada e livre de seus
erros de juventude.27 Trata-se dessa teoria da neotenia à qual
dediquei há alguns anos um livrinho exploratório.28 Nele, eu tentava identificar algumas incidências derivadas de um primeiro exame dessa teoria antropológica no pensamento filosófico.
Pareceu-me então estranho que essa teoria não fosse mais aproveitada pelo pensamento filosófico e pelas ciências humanas, e que não se cuidasse dos remanejamentos a serem efetuados em todos os setores do pensamento a partir do momento em que fica claro que o homem é um neotênio, ou seja, um ser que perdeu sua primeira natureza, vendo-se obrigado a inventar uma outra.
Com efeito, de posse dessa teoria, é todo o nosso mundo humano, sua própria história, que deve ser reconsiderado. Não podemos mais conceber esse mundo como produzido apenas por um Homem apresentado como “eleito”, como “Rei” da criação. Pois o homem é um ser excluído da primeira natureza, a “verdadeira”, um ser inacabado que no fim das contas viu-se na posição de precisar, sob pena de desaparecer, inventar uma “outra”, a partir do zero. Em suma, como insinua Freud nos primeiros momentos da expressão científica da bela história neotênica, o homem é antes de mais nada um grande neurótico.
A teoria da neotenia obriga-nos portanto a encarar as grandes
questões humanas sob uma nova luz.29 Por grandes questões humanas, refiro-me à linguagem, ao espírito, ao psiquismo, ao corpo, à história, ao político, à criação estética e à fabricação protética (ou seja, à técnica). Trata-se, nada mais nada menos, de um novo sujeito que é preciso trazer à cena para manter juntas essas diferentes dimensões.
Isso significa fazer do neotênio um personagem conceitual novo,
lançando-o no palco do teatro da filosofia ocidental.30 Em suma, com o neotênio, deveria ser possível contar toda a História de outra maneira. Com ele, com efeito, a relação com o Ser, a relação com o Outro, a relação com os outros, a relação consigo mesmo... não podem mais ser vividas nem enunciadas da mesma maneira. Essa decisiva defasagem resulta da introdução no pensamento filosófico de um dado que ele nunca integrou sistematicamente, ainda que possamos encontrar sua presciência em vários momentos-chave de sua história. Trata-se, em suma, de induzir a filosofia atual a dar uma virada neodarwiniana para poder contar toda a História de outra maneira, não mais do ponto de vista do rei da criação, mas do ponto de vista de um ser excluído da primeira natureza e obrigado a inventar uma outra. No papel-título, o neotênio. Vou então revisitar todas as grandes questões humanas com esse novo personagem conceitual. O que deverá sacudir sensivelmente nossos antigos hábitos de pensamento.