A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
III. Iguais a Deus?
Acabo de tentar identificar várias figuras do grande Sujeito. Todas elas foram poderosos d’homensticadores de neotênios. E, por sinal, não se caracterizam todas elas pelo próprio signo da potência, a imortalidade? Os deuses gregos da Physis eram, com efeito, imortais. O Deus dos monoteísmos era eterno. A teoria dos dois corpos do Rei, que funcionou até a época clássica, implicava um corpo de dignidade régia incorruptível e eterno. O Povo, como grande Sujeito revolucionário, pressupunha um Povo perpétuo perdurando sempre idêntico através da sucessão de gerações. O Proletariado era o futuro eterno e radioso do mundo... E todos esses grandes Sujeitos acabaram morrendo.
Todos mortos pelo pequeno sujeito. O único que pode afinal matar o grande Sujeito, ser de absoluto poder, é o neotênio: deixando de precisar dele, deixando de invocá-lo. Podemos dizer a respeito do grande Sujeito o que Lévi-Strauss dizia do mito: ele continua a viver enquanto se fala em seu nome. Mas a partir do momento em que se deixa de invocá-lo, ele morre. E, com efeito, enquanto o grande Sujeito é invocado, ele investe suas representações com o que Walter Benjamin designava com uma palavra muito forte que percorre toda a sua obra: a aura. A aura, derivada das estéticas do sublime, dá conta de uma “presença Outra” e atesta o “surgimento único de um
longínquo”.1 Quando os pequenos sujeitos não acreditam mais no grande Sujeito, deixando, como dizia Hegel, de se prosternar diante
de suas estátuas,2 a aura dessas representações muda de natureza: “A admiração que sentimos ante essas estátuas (...) torna-se então incapaz de nos fazer dobrar os joelhos.” Elas não preservam mais a menor marca do que foi, outrora, investido pela onipotência. Mas mudaram de lugar: estavam no centro do templo, e agora estão no museu.
Deuses imortais ou eternos morreram, assim, mas além disso também é possível que hoje o próprio conceito de “Deus” esteja morto.
Essa liquidação dos grandes Sujeitos não data de Nietzsche. Ela começou há muito tempo, pelo menos desde o humanismo do Renascimento. De fato, a instituição do livre-arbítrio do homem, notadamente por Pico della Mirandola, já introduzia, como vimos, uma outra relação com Deus. Descartes, por sinal, não se enganara a respeito ao escrever à rainha Cristina que “o livre-arbítrio é em si mesmo a coisa mais nobre que possa haver em nós, tanto mais que nos torna de certa maneira iguais a Deus e parece isentar-nos de estar sujeitos a ele ” (carta de 20 de novembro de 1647, o itálico é meu). Descartes, por sinal, não haveria de recomeçar todo o exercício filosófico com uma fórmula espelhada, “eu, logo eu”, que não se aplicava mais a Deus, mas ao próprio sujeito da filosofia, o cogito, definido pelo famoso “penso, logo existo”, exposto em 1637 na
quarta parte do Discurso do método?3
A Nietzsche cabe o mérito de ter feito a primeira constatação de morte com todas as formalidades. Na verdade, costuma-se ignorar que ele retomou por conta própria uma ideia há um século corrente na literatura alemã, ou seja, desde a Revolução Francesa. E, de fato, a morte de Deus fora proclamada do alto da tribuna da Convenção, especialmente a 6 de novembro de 1793 (17 brumário), por homens como Barère, Hébert, Chaumette, Léonard Bourdon e Anacharsis Cloots, que promoveram a promulgação do novo calendário republicano, com a eliminação de nomes de santos, igrejas, da religião e dos domingos como dias consagrados a Deus. Essa ideia ganharia em seguida o romantismo alemão. Jean Paul, num de seus romances, escrito em 1796, faz o Cristo dizer, abandonado na Cruz, que não existe Deus. Para Heine, Deus não só morreu como foi assassinado. Para Feuerbach, o homem teoricamente só podia ser ateu. Mas foi naturalmente Nietzsche que deu à ideia da morte de Deus considerável relevo em vários de seus textos, entre eles A gaia ciência . Nesta é encenado um insensato (vale dizer, um ser que diz a verdade sem sabê-lo) que começa a invectivar os passantes, com uma lanterna na mão, gritando: “Nós somos os assassinos de Deus” (aforismo 125).
Desde Nietzsche, o diagnóstico fatal muitas vezes tem sido repetido. Vou me limitar aqui a evocar a mais recente confirmação. Ela remonta a Jean-François Lyotard, indicando que havíamos
entrado numa época “pós-moderna”.4 J.-F. Lyotard referia-se, com isto, ao esgotamento e ao desaparecimento das grandes narrativas de legitimação, especialmente a narrativa religiosa e a narrativa política. Ora, essas narrativas não puderam esgotar-se sem que desaparecesse ao mesmo tempo o que estavam incumbidas de provar, de fazer existir para todos os neotênios, a saber, uma figura possível do grande Sujeito.
O golpe de misericórdia definitivo na existência possível das grandes narrativas e dos grandes Sujeitos correlativos parece-me que deveria ser datado de Auschwitz e Hiroxima. Depois de Auschwitz, catástrofe ocorrida no coração da região mais culta do mundo, a velha Europa, e depois de Hiroxima, ato de erradicação maciça e instantânea da espécie por si mesma, nada mais indica que se possa ainda invocar um grande Sujeito que viesse garantir a existência dos pequenos sujeitos. A partir do momento em que a atrocidade absoluta é possível, nada mais pode salvar-nos. Desde esses acontecimentos graves, estamos irremediavelmente entregues a nós mesmos.