A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
A desumanidade do homem
Se o grande d’homensticador é um elemento estrutural político tão eficaz, é pelo fato de ser antes de mais nada um elemento da estrutura mental do neotênio. Em outras palavras, as realidades político-simbólicas criadas correspondem a uma necessidade psíquica. É dessa
fonte profunda que se alimenta a servidão voluntária do neotênio.96 Para dizer a verdade, só existe um Ser de sobrenatureza construído politicamente porque existe uma estrutura mental segundo a qual o neotênio só pode acreditar-se aqui, no presente, se um Outro estiver lá. Em outras palavras, o neotênio só pode acreditar em sua própria presença indiretamente, se estiver sujeitado ao Outro. Se não existe um Outro ao qual se referir, ele não pode pensar-se como sujeito.
A desumanidade do homem
Tentarei, assim, explorar as numerosas facetas (ontológicas, políticas, estéticas, psíquicas) dessa relação entre um homem que falta a ele mesmo e aquilo que o d’homenstica. Mas não poderei fazê-lo sem abrir espaço para uma questão das mais perturbadoras levantadas, a esse respeito, por Jean-François Lyotard. A questão diz respeito aos processos de d’homensticação em geral (socialização, educação, instrução, iniciação, adestramento etc.), e se nos interpela tanto é porque ela desestabiliza todas as nossas certezas quanto ao que constitui a humanidade do homem. Lyotard parte de considerações já bem conhecidas, na medida em que manifestam uma clara referência à neotenia do homem: “Se os seres humanos nascessem humanos, como os gatos nascem gatos (com diferença de algumas horas), não seria (...) possível educá-los. O fato de as crianças precisarem ser educadas é uma circunstância que decorre exclusivamente do fato de elas não serem todas conduzidas pela natureza, de não serem programadas. As instituições que constituem a cultura suprem essa
carência nativa.”97 Até aqui o raciocínio vem em linha direta (e quase no estilo) das teses kantianas – o que não chega a surpreender, quando conhecemos o “kantismo” de Lyotard. Mas Lyotard faz surgir aqui uma questão vertiginosa com a qual, para dizer a verdade, não deixaremos mais de lidar: “Que haveremos de chamar humano no homem, a miséria inicial de sua infância ou sua capacidade de
adquirir uma ‘segunda’ natureza?”98 E, com efeito, de duas, uma. Se dissermos que a humanidade do homem situa-se em seu desamparo original, teremos de concluir que o desumano deve situar-se nos processos de d’homensticação. E, por sinal, Lyotard observa que “toda educação é desumana, pois não existe sem coação e terror”. Mas se considerarmos que o humano se situa na d’homensticação, ou seja, na cultura, estaremos instalando no próprio homem um fundo abissal de selvageria – por sinal, é exatamente o que fazia Kant: “É preciso despojar o homem de sua selvageria (...), a disciplina permite
submeter o homem às leis da humanidade.”99
A inquietação de que pretendo dar conta aqui decorre da impossibilidade de decidir nessa questão capital. Não se trata, em minha opinião, de uma dessas antinomias da razão que levam ao desespero cético ou forçam a tomar partido de maneira dogmática. Trata-se, pelo contrário, de uma incerteza fecunda que, nessa qualidade, não deve ser decidida, para que o debate seja constantemente relançado. É melhor, em suma, não saber se o desumano situa-se na natureza do homem ou nas instituições de que ele se dota. E, com efeito, as duas convicções podem ser encontradas nos pensadores que trabalham com a neotenia – para ilustrar essas duas posições, bastaria citar os trabalhos pioneiros, no segundo terço do século XX, de Arnold Gehlen, por um lado, e, por outro, Georges Lapassade. De minha parte, tomarei o cuidado de repartir a suspeita de maneira equitativa. Por um lado, gostaria de acreditar que as instituições estão constantemente tirando o homem do impasse originário devido à sua condição neotênica, elevando-o à condição humana, mas por outro não posso deixar de constatar que essas instituições sempre funcionaram através da mobilização de todas as formas de coação – das mais ferozes às mais sutis. A única certeza possível, assim, é que nenhuma certeza a esse respeito é possível. De tal maneira que a análise deverá ser constantemente refeita: será necessário às vezes destruir as instituições e às vezes reconstruí-las. Sempre será possível dizer que é exatamente do que se incumbe a História. Mas ela não o faz sem longos adiamentos que quase sempre deixam os neotênios num estado de grande mal-estar, pois as formas da subjetivação e as formas da sujeição podem não corresponder em absoluto. Esta constante defasagem e esse mal-estar permanente devem ser atribuídos, naturalmente, ao estado fundamentalmente incerto do neotênio. Através deste estudo, em suma, julgo estar contribuindo, nas minhas modestas possibilidades, para a compreensão de certos aspectos ainda pouco explorados do que Freud chamava de “mal-estar na civilização”.
Esse mal-estar não deixa de ter relação com o fato de que uma condição de tal maneira incerta não pode deixar de gerar uma irredutível parte de loucura nos empreendimentos dos neotênios. Trata-se, no fim das contas, de uma loucura tão produtora quanto devastadora. É verdade que é esse fundamento indeterminado que torna o homem infinitamente disponível a todas as aberturas, mas também é ele que leva toda razão (ontológica, política, religiosa, ética ou estética), como conquista sobre a parte maldita do homem, a conservar em seu fundo uma dimensão de permanente desrazão.
De modo que é essa relação infinitamente rica, mas muito perturbadora, entre um homem que falta a ele mesmo e aquilo que o d’homenstica que tentaremos explorar, em todas as suas implicações. Notas
* Submarino da ficção Vinte mil léguas submarinas de Júlio Verne. (N. da R. T.)
** Verbo cuja tradução aproximada seria “se virar com os recursos que tem”, empregado
principalmente para atividades manuais de consertos, reparos ou invenções, adaptando
objetos ou elementos. (N. da R. T.)
1 Louis Bolk, Das Problem der Menschwerdung [1926], “La genèse de l’homme”, in
Arguments, 1960, trad. J.-C. Keppy (com uma apresentação de Louis Bolk por Georges
Lapassade), e “Le problème de la genèse humaine”, in Revue française de psychanalyse,
março-abril de 1961, nova tradução de F. Gantheret e G. Lapassade.
Parece que na verdade a primeira menção da ideia de neotenia humana remonta a um artigo
de Émile Devaux publicado cinco anos antes, falando do “infantilismo do homem” (agradeço
a Marc Levivier, que fez sua tese de doutorado comigo sobre a questão da neotenia, por me
ter chamado a atenção para essa informação). Cf. É. Devaux, “L’infantilisme de l’homme par
rapport aux anthropoïdes”, Revue générale des sciences pures et appliquées, tomo trigésimo
segundo, Paris, Gaston Doin, 1921. O artigo de Émile Devaux, médico-chefe das tropas
coloniais, é de excelente teor científico, sem alusão racial (ao contrário de um trecho do artigo
de Bolk). Pelo contrário, ele fala do “infantilismo do homem” como um “fato comum a todas
as raças humanas”. Parece, no entanto, que o antigo médico das tropas coloniais nem sempre
resistiu a particularizar “os pretos” (ver seu livro L’Espèce, l’instinct, l’homme, Paris, Le
François, 1933, p. 224-225).
2 Particularmente pelo grande biólogo e antropólogo S. J. Gould. De Gould, sobre a neotenia
do homem, cf. Darwin et les grandes énigmes de la vie [1977], Paris, Pygmalion, 1979 (cf.
caps. 7 e 8 sobre Bolk e a neotenia), e Le Pouce du Panda [1980], Paris, Grasset, 1982, e
principalmente Ontogeny and Phylogeny. Harvard University Press, 1977.
3 Hesíodo, cf. Teogonia, v. 507-617, e Os trabalhos e os dias, v. 42-105.
4 Ésquilo, Prometeu acorrentado, v. 32, 150, 324, 389, 403, 519, 526, 837, 939.
5 Ibidem, v. 110, 254, 447, 497, 506, 514.
6 Ver o notável artigo de Michelle Carrier, “D’un Prométhée oublié”, disponível em
<www.er.uqam.ca/nobel/mts123/carrier.html>.
7 Ésquilo, Prometeu acorrentado, v. 506.
8 Platão, Protagoras, 320c-321d (trad. A. Croiset, Paris, Les Belles-Lettres).
9 O leitor terá grande proveito na consulta do trabalho monumental de Raymond Trousson,
Le Thème de Promethée dans la littérature européenne, Genebra, Droz, 2001 (terceira edição
corrigida de um trabalho publicado em 1964).
10 Esse encontro das tradições platônica e judaico-cristã era tanto mais concebível na
medida em que o tema da incompletude também está presente na tradição patrística.
(Agradeço a André Wénin, eminente biblista, por ter chamado minha atenção para esta
questão. Ver André Wénin, Pas seulement de pain... Violence et alliance dans la Bible, Paris, É
Éditions du Cerf, 1998, cf. “L’humain inachevé”, p. 26-38.) A título de exemplo, este trecho do
Peri Archôn (Tratado dos Princípios) de Orígenes (185-254) não deixa de evocar o discurso de
Pico: “O homem recebeu em sua primeira criação a dignidade da imagem, mas a perfeição da
semelhança é reservada para o fim: a saber, que ele mesmo deve adquiri-la por seus próprios
esforços” (III, 6, 1) (citado por Marie Balmary, La Divine Origine, Paris, Grasset, Le Livre de
Poche, 1998, p. 103). Haveria no homem, portanto, duas dignidades: a que é conferida pela
imagem divina recebida como doação primordial e a dignidade específica do homem chamado
a se completar, a se realizar, à qual Pico dá ênfase. Devemos observar aqui que a conexão
entre a tradição platônica e a exegese da Bíblia, iniciada pelos Pais da Igreja e realizada no
Renascimento por Pico, passa por essa questão da incompletude do homem, que, assim,
adquire relevo especial em nossa cultura.
11 Essa ideia dos três mundos é herdada da tradição neoplatônica e dos escritos do pseudo-
Dionísio, chamado Dionísio, o Areopagita (século V-VI).
12 Marguerite Yourcenar, que escolheu esse texto como epígrafe de A obra em negro, traduz
assim este trecho: “Eu não te dei rosto nem lugar que te seja próprio, nem nenhum dom que te
seja particular, Adão, para que venhas a querer, conquistar e possuir por ti mesmo o teu rosto,
o teu lugar e os teus dons. A natureza abarca outras espécies em leis por mim estabelecidas.
Mas tu, que não sofres de nenhum limite, por teu próprio arbítrio, em cujas mãos te coloquei,
define-te a ti mesmo. Eu te coloquei no meio do mundo para que possas melhor contemplar o
que o mundo contém. Não te fiz celeste, nem terrestre, nem mortal, nem imortal para que, por
ti mesmo e livremente, à maneira de um bom pintor ou de um escultor hábil, concluas tua
própria forma.” Em outras traduções, a última linha, retomando uma célebre passagem das
Enéadas de Plotino, é traduzida assim: “para que (...) esculpas tua própria estátua.”
13 E. Cassirer, “La filosophia di Pico della Mirandola e il suo posto nella storia universile
delle idee”, in P. O. Kristeller, Dall’umanesimo all’illuminismo, Florença, La Nuova Italia,
1967.
14 Remeto nessa questão aos trabalhos de Emmanuel Faye, Philosophie et perfection de
l’homme, de la Renaissance à Descartes, Paris, Vrin, 1998.
15 Permito-me remeter às passagens que dediquei a Kant e à educação em D.-R. Dufour, A
arte de reduzir as cabeças – sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro:
Companhia de Freud, 2007, cap. 2.
16 E. Kant, Traité de pédagogie [1776-1787], Paris, Hachette, 1981. Essa ideia já era
encontrada em Rousseau: “Nós nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos
de tudo, precisamos de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de discernimento. Tudo
aquilo que não temos no nascimento e de que precisamos quando grandes nos é dado pela
educação” (cf. o início de Emílio, 1762).
17 Disponível em <www.uqac.uquebec.ca/.../livres/kant-emmanuel>.
18 E. Kant, Traité de pédagogie, na “oitava proposição”, fala de um “plano oculto da
natureza” conduzindo à criação “um Estado cosmopolita universal” (ein allgemeiner
weltürgerlicher Zustand).
19 E. Kant, Critique de la raison pure, trad. Tremesaygues e Pacaud, Paris, PUF, 1971, p. 308.
20 Prefiro dizer “mito epimeteo-prometeico”, em vez de simplesmente “mito de Prometeu”,
para não deixar de levar em conta as suas duas vertentes.
21 J. G. Fichte, Fondement du droit naturel [1796], trad. Alain Renaut, Paris, PUF, 1984, p.
85.
22 Ver R. Trousson, Le Thème de Prométhée dans la littérature européenne, op. cit.
23 K. Marx, Différence de la philosophie de la nature chez Démocrite et Épicure (tese de
1841), Paris, Nizet, 1970.
24 S. Freud, Inhibition, symptôme et angoisse [1926], Paris, PUF, 1993.
25 Volto ao tema nas páginas 45 e 68.
26 Notas de Kant em seu exemplar das Observações sobre o belo e o sublime (trad. Kempf,
Paris, Vrin, p. 66).
27 Refiro-me às afirmações de Bolk sobre uma “superioridade” da “raça nórdica” em
relação à “raça negra”, por ele “explicada” por seu grau superior de neotenização... (cf. em
“La genèse de l’homme” a parte intitulada “Les races humaines et la fœtalisation”).
Naturalmente, só depois de escoimadas desse pesado fardo é que as teses de Bolk tornam-se
dignas de interesse. Esse trabalho foi empreendido por S. J. Gould, Darwin et les grandes
énigmes de la vie [1977], op. cit., cap. 27: “Racisme et récapitulation”, no qual Gould volta a
colocar “de pé” essas teses.
28 D.-R. Dufour, Lettres sur la nature humaine, à l’usage des survivants, Paris, Calmann-
Lévy, 1999.
29 E de fato, desde sua formulação por Bolk, a neotenia nunca deixou de interessar os
filósofos e pesquisadores mais diferentes: Lacan (década de 1930), Gehlen (anos 1930-50),
Lapassade (anos 1960), Agamben e Lyotard (anos 1980)...
30 Tomo aqui o conceito de “personagem conceitual” de empréstimo a Deleuze. Para ele,
personagem conceitual designa “uma presença intrínseca ao pensamento, uma condição de
possibilidade do próprio pensamento, em suma, uma categoria viva, uma vivência
transcendental, um elemento constituinte do pensamento”. Cf. Gilles Deleuze, “Les conditions
de la question: qu’est-ce que la philosophie?”, in Chimères, nº 8, maio de 1990. Problemática
retomada em Qu’est-ce que la philosophie?, Paris, Minuit, 1991.
31 Em português, “O problema da gênese humana”, op. cit.
32 No capítulo 6 de A origem das espécies, Darwin observara que “alguns animais estão
aptos a se reproduzir numa idade muito precoce, antes mesmo de terem adquirido suas
características adultas completas”.
33 Julio Cortázar, As armas secretas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
34 Cf. D.-R. Dufour, Lettres sur la nature humaine, op. cit., cap. I: “Lettre sur les néotènes,
les axolotls e les Vénus de Botero.”
35 Obrigado à amiga psicanalista que conheceu Cortázar por me ter dado essa informação.
36 Sobre a contração craniofacial, ver, por exemplo, o texto de Anne Dambricourt-Malassé,
“Paysages mentaux des racines évolutives humaines”, disponível em
<sapiensweb.free.fr/articles/2-damb.htm>.
37 Ver sobre essas questões: J. Chaline, Une famille peu ordinaire – Du singe à l’homme,
Paris, Le Seuil, 1994, e seu artigo na Encyclopedia Universalis, “L’origine de l’homme”.
38 Sobre o aparelho fonador dos hominídeos, ver J. T. Laitman, “L’origine du langage
articulé”, La Recherche, nº 17, 1986, e P. Lieberman, “L’évolution du langage humain”, La
Recherche, nº 6, 1975.
39 V. Novarina, Discours aux animaux, POL, Paris, 1987.
40 H. Michaux, Poteaux d’angle, Paris, Gallimard, 1981, p. 58-59.
41 Esses “segundos tigre” lembram os comportamentos “instantâneos” descritos por Alain
Berthoz, especialista em neurofisiologia da ação. Tais comportamentos podem remeter à
escolha do bom gesto nas atividades físicas extremas (esqui, tênis, pilotagem de avião de
caça...) ou da boa decisão nas atividades mentais. Cf. Alain Berthoz, Le Sens du mouvement,
Paris, Odile Jacob, 1997, e La Décision, Paris, Odile Jacob, 2002.
42 J. Lacan, “Radiophonie”, in Scilicet, nº 2-3, Paris, 1970, p. 74.
43 Retomo a etimologia de “presente”, prae-sens, “ser adiante, na ponta”.
44 B. Pascal, Pensées (ed. de 1670), Paris, Flammarion, 1926, p. 221.
45 Cf. o Dictionnaire historique de la langue française de Alain Rey, Paris, Le Robert, 1992-
1998.
Também está ligada a essa raiz indo-europeia a diké grega, envolvendo as decisões de justiça,
na qual as forças da Phusis “falam”, emitindo seu julgamento numa situação ordálica.
46 Nessa questão, ver Pascal Quignard, La Haine de la musique, Paris, Calmann-Lévy,
1996.
47 Pascal Quignard, La Haine de la musique, op. cit.
48 Ferdinand de Saussure, Cours de linguistique générale.
49 O “índice”, em Peirce, é um signo que mantém uma relação “existencial”, uma “conexão
real” com seu objeto. Cf. Charles S. Peirce, Écrits sur le signe, Paris, Le Seuil, 1978, p. 153 ss.
50 Para essa citação e as seguintes, ver Michel de Certeau, “Utopies vocales: glossolalies”, in
Traverses, nº 20, Paris, 1980, p. 26-37.
51 Quintiliano, Institution oratoire, ed. e trad. J. Cousin, Paris, Les Belles-Lettres, 1975, cf.
livro VIII. 3.
52 A ideia de uma gramática universal subjacente a todas as línguas e inscrita geneticamente
é tomada de empréstimo, naturalmente, a Chomsky. Sobre suas modalidades de existência no
cérebro, ver os trabalhos do psicolinguista Steven Pinker, L’Instinct du langage [1994], Paris,
Odile Jacob, 1999.
53 Tem-se falado ultimamente da incapacidade dos autistas de ativar as áreas cerebrais
específicas do reconhecimento da voz humana. Cf. Informação para a imprensa do INSERM
(Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica), datada de 19 de agosto de 2004.
54 O que não pressupõe necessariamente o chamado sistema do patriarcado, pois é muito
diferente passar pelo pai para ter acesso ao simbólico e organizar um sistema social de
celebração e dominação do pai.
55 C. Soler, L’Inconscient à ciel ouvert de la pychose, Toulouse, PUM, 2002, cf. “L’expérience
énigmatique du psychotique de Schreber à Joyce”, p. 98-99.
56 J.-P. Lebrun, “La forclusion de la rencontre”, revista Essaim, Paris, primavera de 2004.
57 C. Soler, L’Inconscient à ciel ouvert de la psychose, op. cit., p. 99. Cabe notar que a
“letra” (que vale exclusivamente por si mesma) corresponde em Lacan a esse fora-do-sentido
que pode ser observado na psicose, ao passo que o “significante” (tomado num sistema de
diferenças) remete a um sentido fugidio, incessantemente buscado na neurose.
58 A esse respeito, ver o texto de Giorgio Agamben sobre a neotenia, Idée de la prose, trad.
Gérard Massé, Paris, Christian Bourgois, 1998, cf. capítulo “Idée de l’enfance”.
59 Sobre essas questões, ver o decisivo trabalho de Sylvain Auroux, La Révolution
technologique de la grammatisation, Liège, Mardaga, 1994, e os trabalhos publicados sob sua
orientação sob o título de Histoire des idées linguistiques I, II e III, Liège, Mardaga, 1989,
1992 e 2000.
60 Cabe notar que essas gramáticas podem ser usadas para unificar e, portanto, controlar
politicamente as atividades a que se referem. O que não passou despercebido aos gramáticos:
“A língua sempre foi companheira do poder”, escrevia, em carta à rainha Isabel, Nebrija,
autor da primeira gramática do castelhano (1492). Por outro lado, foi por ter sido escrito
graças a letras (gramas), e em seguida descrito por um gramático, que o francês pôde ser
ensinado, aprendido, difundido e que veio a se tornar a língua do Estado (cf. o decreto de
Villers-Cotterêts de 1539), um Estado que precisava da escrita para existir. Ver a esse respeito
Sylvain Auroux, La Révolution technologique de la grammatisation, op. cit., p. 93-94.
61 Ver o artigo de Joan Rivière, “La féminité en tant que mascarade”, in Féminité
Mascarade, com estudos psicanalíticos reunidos por M.-Ch. Hamon, Paris, Le Seuil, 1994, e o
comentário de Lacan no livro V de seu Seminário, Les Formations de l’inconscient, Paris, Le
Seuil, 1998, p. 251.
62 Relação obtida mediante o cálculo do número de neurônios incumbidos da assimilação
das entradas e da elaboração das saídas em relação ao número de neurônios diretamente
envolvidos nas entradas e saídas. Sobre essas questões, ver André Bourguignon, Histoire
naturelle de l’homme I, Paris, PUF, 1994, p. 64 ss., “Le couplage dedans-dehors”, p. 198 e ss.,
e “L’ouverture et la fermeture du SNC de l’homme”.
63 A. Leroi-Gourhan, Le Geste et la Parole I, Technique et langage, Paris, Albin Michel,
1964.
64 Essa tecnicidade originária do homem é que é analisada por Bernard Stiegler em La
Technique et le Temps I – La faute d’Épiméthée, Paris, Galilée, 1994 (os tomos II e III já
saíram). Dez anos depois desse trabalho fundamental, Stiegler observaria, sem chegar a
desenvolver a ideia, que a “proteticidade” do homem é produto de sua “neotenia” (cf. De la
misère symbolique, Paris, Galilée, 2004, p. 34).
65 Nesse sentido, “os objetos técnicos” são de fato, como dizia o filósofo da técnica Gilbert
Simondon, “mediadores entre a natureza e o homem”. Cf. G. Simondon, Du monde
d’existence des objets techniques, Paris, Aubier, 1969.
66 A. Leroi-Gourhan, L’Homme et la Matière, Paris, Albin Michel, 1943.
67 Ver J.-P. Vernant, “Remarques sur les formes et les limites de la pensée technique chez les
Grecs”, in Mythe et Pensée chez les Grecs, Paris, Maspero, 1965.
68 Gilbert Simondon, Du monde d’existence des objets techniques, op. cit.
69 Ver os trabalhos de Machines, Texte et Savoirs, grupo de pesquisas do Departamento de
Estudos Literários da UQAM (Universidade do Quebec em Montreal), em
<www.er.uqam.ca/nobel/mts123/mts.html>.
70 Cf. p. 24-26.
71 Aristóteles, Política, I, 2, 1253a (o itálico é meu).
72 Sobre esses elementos de etologia, ver Denis Buican, Éthologie comparée, Paris,
Hachette, 1995.
73 Os cães e os lobos têm os mesmos genes e “alelos” diferentes, vale dizer, vários estados
possíveis para um mesmo gene – é possível que os cães tenham formado alelos específicos que
nunca são encontrados no lobo. Sobre a domesticação e a neotenização do lobo, ver Robert
Wayne, “Cranial morphology of domestic and wild canids”, Evolution, nº 40, e S. Gould,
Comme les huit doigts de la main – Réflexions sur l’histoire naturelle, Paris, Le Seuil, 1996, cf.
cap. 27: “La biologie du chien et le polyèdre de Galton.”
74 Dedico esse pequeno exercício a Marcel Gauchet. Depois de ler o artigo no qual ele
postula um possível “núcleo antropológico da religiosidade” e se questiona sobre o que, “na
constituição do homem, faz dele um ser de religião” (Marcel Gauchet, “Essai de psychologie
contemporaine”, in Le Débat, nº 100, verão de 1998, Paris, Gallimard, p. 205, reproduzido em
La Démocratie contre elle-même, Paris, Gallimard, 2002), eu lhe disse que para confirmar sua
tese seria necessário construir uma nova prova, uma prova “ateia” da existência de Deus, e
que um dia eu haveria de tentá-lo. Chegou, portanto, esse dia.
75 Para uma discussão aprofundada sobre as provas da existência de Deus, podemos remeter
ao excelente Bernard Sève, La Question philosophique de l’existence de Dieu, op. cit., e a
Stéphane-Marie Barbellion, Les “Preuves” de l’existence de Dieu, Paris, Le Cerf, 1999.
76 Kant critica as provas clássicas já em 1763, em “L’Unique Fondement possible d’une
démonstration de Dieu”, in Pensées successives sur la théodicée et la religion (trad.
Festugière), Paris, 1967.
77 L. Feuerbach, L’Essence du christianisme [1841], Paris, Maspero, 1968.
78 Essa citação e as seguintes são extraídas de S. Kierkegaard, Le Concept d’angoisse, Paris,
Gallimard, 1977.
79 Entre meus preferidos, o argumento 24, assim enunciado:
1. Existe um site da Web que argumenta com sucesso a existência de Deus.
2. Eis a URL.
3. Logo, Deus existe.
Ou o argumento 318:
1. A não existência existe.
2. Logo, ainda que Deus seja não existente, Deus existe.
3. Logo, Deus existe.
80 Jorge L. Borges, L’Auteur et autres textes, Paris, Gallimard, 1965, “Argumentum
ornithologicum”.
81 F. Nietzsche, Le Crépuscule des idoles [1888], Paris, Gallimard, 1974, p. 12.
82 Op. cit.
83 Ch. Darwin, L’Origine des espèces au moyen de la sélection naturelle ou la Lutte pour
l’existence dans la nature, trad. J.-J. Moulinié, publicação digital da Biblioteca Nacional da
França da ed. de Paris, C. Reinwald, 1873, cap. 6.
84 O que já havia sido pressentido por Aristóteles, quando dizia que “a arte ou bem imita a
natureza ou bem a completa naquilo que ela não podia realizar” (Física, VIII, 199ª 5-7). Da
mesma forma, ele falava da mimésis como aquilo que permite “a fabricação real do irreal”
(Poética, XXV).
85 F. Nietzsche, Le Gai Savoir, Paris, 10|18, 1973, p. 341.
86 A. Schopenhauer, Le monde comme volonté et comme représentation [1819], trad. A.
Burdeau, Paris, PUF, 1966, p. 859.
87 B. Spinoza, Traité théologico-politique, Paris, Garnier-Flammarion, 1965, cf. cap. III, 2.
88 L. Feuerbach, L’Essence du christianisme [1841], op. cit. p. 249 ss.
89 P. Sloterdijk, Règles pour le parc humain, Paris, Mille et Une Nuits, 2000. As citações que
se seguem são extraídas desse livrinho.
90 P. Sloterdijk, Essai d’intoxication volontaire, Paris, Calmann-Lévy, 1999.
91 Ver a esse respeito P. Sloterdijk, La Domestication de l’Être, Paris, Mille et Une Nuits,
2000.
92 Kant, Critique de la raison pure, op. cit., p. 425.
93 P. Sloterdijk, La Domestication de l’Être, op. cit. Para essa citação e as seguintes, cf. p. 62
a 65. Vejo apenas uma explicação para essa ideia de que o homem é produto de uma
domesticação sem domesticador. Para Sloterdijk, é o hábitat protetor que produz 1) a
infantilização do homem (ou seja, sua neotenia) e, daí, 2) sua contínua autoformatação. Para
mim, é, pelo contrário, a neotenia constitutiva do homem que explica o surgimento desse
hábitat, que se torna, assim, pensável como uma espécie de teatro onde são novamente re-
presentadas as cenas reais de que o neotênio foi excluído. Esse teatro estaria, portanto, no
próprio princípio do que chamei de re-presentação.
94 Nem mesmo com muito esforço, jamais seria possível compatibilizar as teses de
Heidegger sobre o animal (derivadas dos Conceitos fundamentais da metafísica de 1929-30)
com as teses da neotenia, como Sloterdijk tenta fazer em La Domestication de l’Être (op. cit.,
p. 29). Com efeito, a partir do momento em que definimos o animal como ser “pobre em
mundo” e o homem como “ser vindo ao mundo”, já não nos encontramos mais na neotenia
humana. Para essa teoria, se existe um ser pobre em mundo é antes de mais nada o homem –
pois a prematuração faz dele um ser malvindo ao mundo, e mesmo decaído de sua natureza,
para sempre impossibilitado de viver o menor “segundo tigre”, para retomar a bela imagem
de Michaux, já vista aqui.
As teses de Heidegger sobre o animal foram discutidas por Giorgio Agamben em Le Langage
et la Mort [1982] (Paris, Christian Bourgois, 1991 e 1997), cf. “Sixième journée”, p. 100 ss., e
o magnífico texto que encerra o livro: “La fin de la pensée”, p. 191 ss.
95 Cf. o último capítulo.
96 Ver parte II, 2, 2, “La servitude volontaire” [A servidão voluntária].
97 J.-F. Lyotard, L’Inhumain, Paris, Galilée, 1988, p. 11.
98 Ibidem, p. 12.
99 E. Kant, Traité de pédagogie [1776-1787], op. cit.