A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Dany-Robert Dufour · Capítulo 50 de 59

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A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Benveniste: de “Ehyeh ascher ehyeh” a “é eu quem diz eu”

 

Benveniste teria confessado, na hora da morte, que só havia em sua

opinião dois grandes linguistas franceses, Artaud e Mallarmé.42 Os verdadeiros linguistas, assim, não seriam linguistas, mas poetas. O que, naturalmente, é verdade! Ninguém redefiniu mais a língua, a métrica e o poema que Mallarmé. Quanto a Artaud linguista, acabamos de ver que ele tinha explorado uma metamorfose capital, a que assistira à assunção de um novo sujeito falante, não mais sujeito a Deus e a todos os grandes Sujeitos. Estranho entendimento, assim, entre esses dois grandes contemporâneos: o mais razoável dos linguistas e o mais louco dos poetas. Mas essa conivência não é tão surpreendente quanto pode parecer: Benveniste também percebeu perfeitamente a aproximação dessa mutação decisiva na condição subjetiva. Naturalmente, ele não a explora como Artaud, percorrendo-a como semiólogo, mas acontece que também ele estabeleceu uma nova definição do sujeito falante. Benveniste efetivamente transfere para o próprio pequeno sujeito a definição outrora reservada a Deus – o que no fim das contas não é assim tão surpreendente, quando sabemos que Benveniste fez seus estudos na Escola Rabínica (a de Paris) antes de seguir os cursos do grande linguista Meillet e de se tornar ele próprio um dos mais importantes

linguistas do século XX.43 E foi de fato Benveniste, depois da Segunda Guerra Mundial, que definiu o sujeito falante com esta formulação: “é eu quem diz eu”. Ora, embora Benveniste em momento algum faça alusão a isso em sua obra, essa fórmula é decalcada da antiga definição divina, absolutamente unária, pela qual Deus, através de Moisés, se nomeava e se apresentava aos homens: o famoso “Ehyeh ascher ehyeh” do Êxodo III, 14, já visto aqui. Benveniste, em suma, atribuiu ao sujeito a definição autorreferencial

ou unária outrora atribuída ao grande Sujeito.44 Essa transferência de definição não poderia ter deixado de chamar a atenção, mas teria sido necessário que fosse percebida. E o fato é que é literalmente espantosa. Talvez demais, até, para ser realmente notada. E seria pouco afirmar que ainda não foram desdobradas todas as implicações filosóficas desse deslocamento capital.

Essa fórmula inédita, de uma simplicidade absolutamente bíblica, para definir o sujeito falante, “é eu quem diz eu”, parece bem elementar, mas não devemos nos fiar nisso. Observamos facilmente que se trata de uma fórmula de contornos autorreferenciais, vale dizer, de uma proposição na qual o predicado consiste em uma retomada do sujeito, na qual o eu vem a ser definido por ele mesmo.

Ao descobrir esse ponto de retorno, Benveniste descobriu o ponto de Arquimedes de uma nova linguística, a da palavra, vale dizer, o ponto de oscilação a partir do qual a língua se converte em discurso. Desde que esse ponto de enunciação do “eu” seja de fato assumido por um sujeito falante, assistimos a uma fantástica ordenação do discurso. O discurso, com efeito, se ordena a partir do momento em que um interlocutor assume designar-se por eu: o outro interlocutor torna-se instantaneamente um tu, e aquilo de que falam remete então a um ele. Graças a esse dispositivo trinitário essencial ao discurso, são fixados os referenciais espaciais e temporais a partir dos quais cessa toda confusão: “aqui” designa o lugar onde eu e tu falam, e “lá”, o lugar do mundo onde se situa o objeto de que falam; “agora” se indexa pela presente instância de discurso, permitindo ao mesmo tempo a designação do que lhe é contemporâneo, do que vem “antes” e do que vem “depois”.

Por um lado, esse dispositivo trinitário permite a comunicação intersubjetiva, e por outro autoriza o sujeito a usar por sua conta uma série de indicadores, eu, “aqui” e “agora”, graças aos quais os fundamentos da condição subjetiva são estabelecidos, pois ao usar o eu, ele se designa como sujeito falante e pode situar-se no tempo e no espaço a partir de sua própria alocução.

É provavelmente por encontrar esse ponto de ordenamento decisivo que Benveniste, num dos artigos que haveriam de pontuar os marcos dessa descoberta, recusa liminarmente a famosa expressão de Rimbaud que também remete ao eu: “Eu é um outro”, afirmando que “ela fornece a expressão típica do que é propriamente a ‘alienação’

mental, na qual o eu é desapossado de sua identidade constitutiva”.45

Assim é que Benveniste traz ao nível do pequeno sujeito o uso de um “eu” plenamente autorreferencial, que outrora era reservado, como demonstra a ocorrência bíblica, unicamente ao grande Sujeito. Estão, assim, assegurados os direitos semióticos de um novo sujeito, que não podemos deixar de chamar democrático, já que essa autonomia semiótica se abre e desemboca numa autonomia simbólica e jurídica.

Entendemos, então, por que Benveniste rejeita a formulação de Rimbaud. É bem possível que através dela ele entrevisse até onde sua própria formulação, postulando um eu definido por ele próprio, poderia ir: até uma efetiva pane de definição, com um eu no fim das contas faltando a si mesmo em sua própria definição e por este motivo aberto não à identidade discursiva, mas à alteridade radical. É essa perspectiva que Benveniste se sente no dever de rejeitar, proscrevendo sem cerimônia a formulação de Rimbaud. É necessário, sobretudo, que a fórmula da identidade absoluta postulada por Benveniste (eu é eu) não encontre seu próprio limite. Cabe, então, proscrever toda dúvida a respeito desse eu definido de maneira autorreferencial que poderia tornar-se outro. Será necessário apenas dizer que o eu deve corresponder a ele mesmo para que o discurso engrene. Depois de estar localizado em Deus e em seus avatares, eis um novo ponto de origem fixado, abrindo uma nova época.