A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
A suposição
Tentarei portanto avançar mais nessa relação entre pequeno sujeito e grande Sujeito.
A suposição
Para entrar nessa relação, devemos considerar seus dois sentidos possíveis: de um para o outro e do outro para o um. Do pequeno sujeito para o grande Sujeito, devemos conceber uma relação de transferência na qual um (incompleto) remete ao outro aquilo que não pode resolver. E no movimento de retorno devemos entender que o pequeno sujeito se autoriza aquilo que imaginou, um grande Sujeito, para se colocar como sujeito desse grande Sujeito.
Trata-se assim de um estranho movimento – uma “volta
estranha”, diria Hofstadter16 – que devemos percorrer aqui, na medida em que esse duplo deslocamento significa que o que ainda não existe (o neotênio, inacabado) deve criar a instância (um ser de segunda natureza) graças à qual poderá reivindicar-se como sujeito do grande Sujeito.
Observo aqui que essa dupla disposição permite simplesmente subverter uma boa parte da metafísica ocidental – a que repousa na oposição extremamente binária, em seu modo operatório, entre seres contingentes cuja existência é ab alio, por outrem, e seres necessários, existindo a se, em si. Para a metafísica, só esse ser em si merece o nome de sujeito, como demonstra a seguinte passagem da Metafísica de Aristóteles: “O sujeito, portanto, é aquilo pelo qual todo o resto se afirma, e que por sua vez não é afirmado por uma outra coisa. Desse modo, é sua noção que devemos antes de mais nada fixar, considerando-se que, na opinião comum, é o sujeito primeiro de uma coisa que constitui verdadeiramente sua
substância.”17 Donde decorre a obsessão, usual na filosofia, de partir sempre desse sujeito primeiro para estabelecer sua noção. Ora, no que aqui exponho, esse sujeito primeiro – que chamo de grande Sujeito – não preexiste ao pequeno sujeito: eles se criam reciprocamente ao longo de um estranho movimento. De fato, é o ser ab alio que postula um ser a se, permitindo ao ser ab alio existir como sujeito do ser a se. Os dois seres estão, portanto, em relação profundamente intrincada.
Graças a Deus – já que estamos falando dEle –, não sou o iniciador de uma tal subversão, pois ela já começou há muito tempo. Ela remonta, com efeito, a um dos mais famosos pais da Igreja, Santo Agostinho, a quem se atribui, na passagem do século IV para o século V da nossa era, a criação do conceito de pessoa ou pequeno sujeito – que não existia na Antiguidade grega, como Jean-Pierre Vernant observou ao indicar que o “se conhecer” dos gregos passava antes de mais nada pelo fato de “ser visto e reconhecido” pelos outros (donde a importância decisiva, na cultura da Antiguidade
grega, do kléos, ou seja, da Glória e do renome).18 É muito provável que o aparecimento da figura do Cristo, reunindo intimamente duas naturezas – humana e divina – totalmente diferentes, tenha forçado o pensamento a enfrentar sob nova perspectiva a questão da relação do um com o Outro. Defrontando-se, nas Confissões, à questão “quem sou?” a partir dessa relação, Agostinho constrói um extraordinário dispositivo para responder a ela. E de fato consegue estabelecer que o um sem o Outro não existe e que o um precisa passar pelo Outro para se conhecer. Se em mim ele é apenas falta, vazio, quem melhor que o Outro para manifestar o que seria passível de nele revelar-se? Por isso é que eu preciso passar pelo Outro para me conhecer: “Demorei a te amar, Beleza tão antiga e tão nova, demorei a te amar! Ah, eis então: estavas dentro, e eu, fora, e te buscava fora, onde me precipitava, no belo ao contrário, sobre as belas coisas daqui de baixo, tuas obras. Estavas comigo sem que eu estivesse contigo, mantido longe de ti por elas, que, não estivessem em ti, não seriam. Tu chamaste, gritaste e rompeste minha surdez. Brilhaste em clarões e vívidas luzes e acabaste com minha cegueira. Exalaste teu bom cheiro, eu o respirei e me esfalfo junto a ti. Eu te provei: tenho fome e sede. Tu me tocaste: incendiei-me pela paz que
proporcionas.”19 Recuperando um termo antigo, Bruno Clément propõe chamar de “enarração” esse processo que determina a passagem pelo Outro para se conhecer: “O outro que eu comento é o desvio que faço para me alcançar, para coincidir comigo. A enarração, ela própria imaginária, e reivindicada como tal, não passa, assim, de um caso particular de um processo muito geral, universal, que faz do desvio (pelo outro, pela ficção) uma necessidade incontornável. Esse desconhecido de si que busca a si é a brecha que a enarração, pretendendo preenchê-la, trabalha por manter viva e
próxima.”20 Não surpreende que Bruno Clément tenha dedicado um estudo a Santo Agostinho, inventor no Ocidente desse procedimento que consiste, no desejo, em “conter a mim mesmo e ao Outro num único e mesmo discurso”. Desse modo, “a fala do Outro, escolhida por mim, retomada por mim, glosada por mim, volta a mim como algo que, tendo passado pelo Outro, vem antes de mais nada de
mim”.21 Como eu falto tanto a mim mesmo – e o conhecimento da neotenia só pode aumentar essa falta original –, só podemos nos conhecer indiretamente, passando pelo Outro. Bruno Clément parece-me ter percebido perfeitamente que 1º) a possível sacralização do Outro não impede que o movimento venha antes de tudo de mim e 2º) que os escritores que recorrem a esse método utilizam (e simultaneamente revelam) um processo universal, consistindo em passar pela ficção do Outro para ter acesso a si.
Mas o movimento é suficientemente estranho para que as questões se manifestem. E para começar esta: como inventar o que quer que seja quando não se existe? A meu ver, só a teoria da neotenia permite responder a algo que, de outra maneira, seria um autêntico quebra-cabeça. E, com efeito, a resposta torna-se fácil: onde eu não existo realmente é no bios, no mundo do que é vivente – a primeira natureza, já vimos, não é feita para o neotênio. Mas a partir do momento em que estamos envolvidos na re-presentação, nada impede de criar uma realidade de fala, vale dizer, de pura ficção. A natureza, como podemos observar no caso do lobo neotenizado e de todas as artes cinegéticas, pode ser surpreendida por ficções – logros e artifícios visuais e sonoros... Assim é que o pequeno sujeito, que não pode existir por si mesmo, será capaz, na ficção e através dela, de inventar a instância de que precisa para ter acesso, juntamente com seus congêneres, ao estado de sujeito. Um totem, ou qualquer outra efígie, poderá perfeitamente fazer figura de grande Sujeito para engrenar o neotênio no processo de subjetivação.
Nessa medida, é a suposição do grande Sujeito que me permite postular-me como sujeito. A suposição, nos dois sentidos da palavra, o sentido habitual (ação de postular uma pura hipótese não implicando qualquer julgamento e servindo apenas de ponto de partida para uma sequência) e o sentido etimológico (o que é “subposto”, vale dizer, “posto por baixo”), desempenha assim um papel decisivo nessa relação. O pequeno sujeito supõe (conjectura) o grande Sujeito, que põe sob ele o pequeno sujeito. Nesse sentido, o sujeito, o subjectum, o submisso, é tanto aquele que supõe quanto aquele que é subposto.