A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Dany-Robert Dufour · Capítulo 40 de 59

Páginas do PDF

A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

A edificação do grande Sujeito régio

 

O Estado, aquilo que reúne todos os súditos do Rei, parece assim atender a um desejo de autorrevelação régia que, a exemplo da autorrevelação divina, procede a partir do autoengendramento do Rei. Ao fim desse processo, o reino vem a ser identificado à pessoa do Rei. A famosa expressão “o Estado sou eu”, que não sabemos se foi efetivamente pronunciada pelo jovem Luís ao retornar de Vincennes, em 1655, em trajes de caça, para admoestar o Parlamento e deixar claro que não poderia mais discutir suas decisões, dá perfeitamente

conta, não obstante sua incerteza histórica, dessa identificação.91

Assim é que o Grande Século derivou de uma organização teatral de todo o espaço social ao redor do astro solar régio, suficientemente eficaz para drenar a maior parte das energias pulsionais, pondo-as a serviço da edificação desse grande Sujeito. Não vou insistir nessa encenação generalizada do grande Sujeito, notadamente pelas artes principais (teatro, dança, ópera, arquitetura), pois é bem conhecida e estudada. Basta mencionar os nomes de Molière, Lully, Racine, Le Brun, Mignard, Le Vau, Mansart, Le Nôtre como os homens que identificaram e elucidaram todos os problemas possíveis de encenação do novo grande Sujeito. E cada questão além disso podia ser pensada e debatida nas novas academias então criadas: a Academia de Pintura e Escultura (1664), a Academia de Ciências

(1666), a Academia de Arquitetura (1671).92

O erro a não ser cometido aqui, entretanto, seria tomar essa instauração do espetáculo do grande Sujeito como uma simples instrumentalização das artes pelo poder. Pois no fundo nunca sabemos quem instrumentaliza quem: as artes, ao enfrentar problemas de representação absolutamente novos, inventam soluções inéditas que permitem re-presentar um grande Sujeito que não existia antes dessas invenções visuais, sonoras e discursivas, ao passo que o grande Sujeito em troca protege as artes. É que, não existindo o grande Sujeito, é necessário constantemente produzi-lo para que ele produza, em troca, os súditos desse grande Sujeito. Por isto é que, nessa dupla implicação, as artes e o poder não podem deixar de estar constantemente remetendo um ao outro. A narrativa e o poder se fundem em narrativa do poder e em poder da narrativa. Da mesma forma, o poder da representação constantemente se permuta em representação do poder.

Sabemos, por sinal, o quanto Luís XIV foi capaz de contribuir, com seu gosto pelas artes e sua aptidão para a música e a dança,

para a encenação de sua régia pessoa.93 Assim é que se estabeleceu globalmente uma verdadeira liturgia profana dedicada ao grande Sujeito.

Essa captação não foi desenvolvida apenas nas artes principais, mas também nos relatos mais diversos. A todo momento funcionavam aquelas que Louis Marin denominou “armadilhas” próprias para captar os discursos de toda natureza e de toda

proveniência no discurso do poder absoluto.94 Louis Marin mostra de que maneira esse discurso procede de uma transposição do modelo teológico da Eucaristia (“este é meu corpo”) para o campo político, numa época em que a monarquia francesa está em marcha para o absolutismo. Assim como o pão remetia ao corpo do Cristo, os objetos designados pela história do rei remetem in fine ao corpo do Rei, fiador do próprio Reino. O modelo teológico da Eucaristia de certa forma foi adaptado para o campo político da monarquia absoluta, através do conceito de corpo do Rei. Tratou-se, em suma, de transpor a eficácia própria do relato teológico em proveito do relato monárquico, fazendo, como no momento do cânone da missa, recitar um relato, repetir um discurso e reproduzir uma lei.

Louis Marin pôde decifrar essa atividade não só em Versalhes, mas nas artes mais diversas. Em simples contos reescritos no fim do século XVII, por exemplo, no do Gato de botas, que pode ser lido como fábula da conquista do poder absoluto. Em fragmentos de história da França deixados por um Racine historiógrafo, nos quais aparece a transformação de um enunciado narrativo sobre o Rei em enunciado de verdade. Em fábulas, por exemplo, a de La Fontaine intitulada “O poder das fábulas”, em que entendemos o relato como o que oscila da representação do poder ao poder da representação. Em outros elementos menores de historiografia, nos quais o relato aparece como efeito de um poder que no entanto foi criado pelo relato. Num simples Diário de saúde do príncipe, no qual se vê que a esplendorosa imagem do Rei-Sol tem um reverso obscuro, um corpo infeliz, que terá de ser constantemente identificado no brilho do Monarca.

Naturalmente, esse retrato do Rei traçado em todas as artes não podia deixar de irritar os “Mestres de Port-Royal”, que, como observa Louis Marin, insistiram em afirmar em sua Lógica, até a quinta edição de 1683, certas proposições dizendo respeito particularmente à natureza do signo. Por exemplo, eles diriam como o enunciado “é César” (que vale, de maneira transparente, como “é o Rei”) só pode na verdade funcionar “em significação e em figura”, vale dizer, em sentido figurado, como signo remetendo a um objeto que pode por sua vez ser tomado como signo de outro objeto (entramos aqui no jogo das figuras). Ao passo que o enunciado “isto é meu corpo” dá lugar a duas operações conjuntas: uma operação semiótica através da qual um signo designa um objeto e uma operação de enunciação performativa que altera a natureza do que é designado, de tal maneira que somos levados a “tomar essas palavras no sentido de realidade”. O “isto é meu corpo” só pode, segundo Port-Royal, remeter ao corpo de Jesus Cristo: há pão no momento em que o Cristo diz “isto”, mas a partir do momento em que ele diz “é”, o pão se destrói em sua substância para tornar-se o corpo daquele que enuncia “isto é meu corpo”.

Segundo Port-Royal, além disso, não existe interseção possível entre os sujeitos e seu Deus, ainda sendo rei o intercessor. Assistimos aqui, portanto, a uma verdadeira concorrência entre grandes Sujeitos. O que está em jogo é a apropriação e a adaptação ou não do modelo eucarístico em proveito do grande Sujeito régio. Entre “é o Rei”, constantemente proclamado pelos relatos, e o “(isto) é meu corpo” do cânone da missa católica, Louis Marin observa uma “notável proximidade”, não menos que “uma notável distância”. “Entre os símbolos eucarísticos de Jesus Cristo e os signos políticos do Monarca, Port-Royal frisa uma contiguidade, mas traça uma intransponível fronteira, aquela cuja transgressão é ao mesmo tempo

heresia e sacrilégio.”95 De modo que encontramos aí dois regimes (políticos) diferentes, apesar de fundamentados no mesmo modelo semiótico de inspiração teológica.

Sabemos o preço que Port-Royal teve de pagar por ter traçado esse limite para o poder régio: a luta sem trégua de Luís XIV contra os jansenistas terminou com a destruição física da abadia de Port-Royal (1711).