A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Dany-Robert Dufour · Capítulo 30 de 59

Páginas do PDF

A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

A trindade enunciativa

Na época em que redigia esse trabalho, não imaginei que aquilo que escrevia sobre a relação com o terceiro termo, como relação com uma ausência tornada presente, devia ser mais bem certificado. É que, no nível semiótico, essa relação de dois copresentes com o terceiro ausente funcionava de maneira satisfatória na descrição de fenômenos extremamente complexos como os da subjetivação, da simbolização, da cultura e da narração. Mas hoje me parece que faltava, pura e simplesmente, o alicerce. Ele é extralinguístico: a tese semiótica de uma arquissocialidade trinitária deve ser ligada ao dado antropológico fundamental da neotenia. Essa arquissocialidade precisava, de fato, de “uma razão no real”. É através do próprio processo de hominização que o neotênio tem vocação para se colocar em grupo (pelo menos dois) para inventar a instância (o terceiro) que falta a cada um e a todos para ser sujeito.

 

A trindade enunciativa

 

“Quando se é um, se é dois, mas quando se é dois, se é imediatamente três” – eu tentara demonstrar em Os mistérios... que existia no interior de toda língua uma forma interna de aspecto trinitário que atribuía a cada um dos protagonistas do discurso seu devido lugar. Hoje eu diria que existe uma cena enunciativa trinitária em que todos os neotênios se encontram: a cena do discurso, sem o qual não haveria segunda natureza.

Vale lembrar que a enunciação não se refere ao que se diz (isso é o enunciado), mas ao lugar ocupado no discurso. Em toda alocução, é possível estar presente (de duas maneiras, sendo o alocutor ou o alocutado) ou ausente (sendo deslocutado).

Uma observação. A “presença” a que acabo de me referir não invalida minha tese sobre o presente que não é feito para o neotênio, destinado ao re-presente. Pois se trata aqui unicamente do presente linguístico que envolve apenas o simples fato de ser contemporâneo do próprio discurso, sem confirmar nenhuma outra equação, senão uma certa aderência do locutor a sua fala. Ora, já se trata aí de uma presença de segunda ordem, uma presença criada pelo “suplemento” da segunda natureza. A verdadeira presença, a presença imediata daquele que vive o acontecimento, não no suplemento do tomar a palavra, mas no acontecimento da primeira natureza, essa presença, para o neotênio, está definitivamente perdida. Esse presente de que dispomos como falantes é apenas linguístico, portanto, o que serve apenas para sentir ainda mais dolorosamente a perda do verdadeiro presente que poderíamos chamar de mais-que-presente – o que está fora da língua, além ou aquém do presente linguístico, implicando um encontro com o mundo. “Não posso descrever a infelicidade que toma conta do homem uma vez que tomou a palavra”, escrevia

Maurice Blanchot em L’Arrêt de mort.26 Entendo essa frase forte como significando a irremediável perda do mais-que-presente, manifestando-se ao mesmo tempo que o acesso ao presente linguístico. Em tais condições, não é impossível que, tendo começado tão mal, o melhor ainda seja perseverar. Ou seja, falar, continuar falando até calar, e escrever, ou seja, buscar através da atividade poética, quintessência da atividade linguística, para saber se, de tanto recorrer a artifícios e suplementos, não seríamos afinal capazes de atingir esse para-além da língua.

Devemos ao grande linguista Émile Benveniste a descrição dos fundamentos desse dispositivo enunciativo de três termos: alocutor,

alocutado e deslocutado.27 Em sua famosa análise, ele não menciona diretamente a forma trinitária desse sistema, mas é evidente que ela consta como pano de fundo. Na verdade, atribuo à abordagem

estruturalista em voga na época de seus trabalhos sobre os shifters28 e sobre as pessoas verbais (o pós-guerra) o silêncio de Benveniste sobre a forma trinitária da relação que ele revela. E de fato ele se limita a decompor essa relação indissociavelmente trinitária em duas relações binárias que passa a estudar de modo minucioso: a relação entre eu e tu, por um lado (“a correlação de subjetividade”), e, por outro, a relação entre eu-tu juntos e ele (“a correlação de personalidade”). Mas embora não encontremos qualquer menção da forma trinitária global da relação entre as três pessoas verbais, é evidente que Benveniste chega muito perto dela. Sem a sua eminente contribuição, meus próprios trabalhos sobre a forma trinitária e tudo aquilo que ela tenta introduzir como possível legibilidade dos campos culturais e simbólicos não teriam vindo à luz.

Em francês, esse triângulo das pessoas verbais enunciativas é facilmente figurado pelo sistema dos três pronomes pessoais: eu, tu e ele, no qual eu representa aquele que fala, tu, aquele a quem se fala, e ele, aquele de quem se fala. Em termos lógicos, portanto, existem

três e apenas três pronomes pessoais sujeitos.29 Esse conjunto compõe uma “estrutura” em três termos: nenhum deles pode ser definido sem que os dois outros sejam evocados. Nessa definição, qualquer um deles implica os dois outros, de tal maneira que são necessários globalmente três termos para definir aqui essa relação.

Se essa exposição parecia por demais abstrata, muito distante de toda experiência, terá sido provavelmente porque eu me expressei mal. Pois isso que aqui evoco tem a ver com nossa experiência mais espontânea e mais descontrolada da linguagem. Os três termos a que me refiro, com efeito, compõem uma trindade natural (como se diz

língua “natural”) imanente a nossa segunda natureza.30 Dizer eu, tu ou ele está relacionado, como menciona Benveniste, a um dado absolutamente “trivial”, vale dizer, partilhado por todos. Impossivel abrir a boca sem dizer eu a um tu a respeito de um ele. Mas nem por ser trivial esse dado deixa de ser, como logo esclarece Benveniste, “infinitamente importante”, na medida em que remete ao fato determinante da entrada na segunda natureza, na subjetividade e na simbolização.

Se esse conjunto eu, tu e ele é “infinitamente importante”, é por funcionar como um dispositivo no interior da língua que sempre inscreve os alocutários em seu lugar. Assim é que ele funciona como uma espécie de língua primeira, uma língua de acesso à língua. Em suma, a troca dos enunciados, infinita, passa por um prisma enunciativo fixo de três termos de uso comum.

Fale, diga o que quiser e você estará mobilizando esse sistema das três pessoas verbais que contém as articulações fundamentais de nosso espaço simbólico. Esse sistema permite uma imediata ordenação do discurso, na medida em que as categorias simbólicas fundamentais da presença e da ausência nele são articuladas. O eu que fala, com efeito, traz consigo a presença em si característica da consciência reflexiva, mas essa presença em si, tão frágil porque unicamente linguística, só pode experimentar-se numa relação com o outro, manifestando-se através de uma relação de copresença entre eu e tu. Essa copresença, por sua vez, só pode se estabelecer na medida em que os interlocutores tenham fixado juntos a ausência fora de seu campo, atribuindo-a ao ele. Nesse distanciamento é que se dá toda a atividade simbólica: a simbolização começa, de fato, a partir do momento em que é possível representar o que está ausente, ou seja, re-presentá-lo: torná-lo presente. Dizer ele é o mesmo que re-presentar, ou seja, presentificar o que está ausente.

Além do tempo com as dimensões da presença, da copresença e da ausência, é também o espaço que se vê inscrito na trivial trindade intralinguística, na medida em que a relação eu-tu postula um aqui em relação a um ele que está lá. Simbolizar é justamente isto: poder falar do ausente, poder trazer e re-presentar aqui o que está lá.

 

É

É verdade que os homens falam desde a noite dos tempos. E, ao que tudo indica, para se falar é preciso ser – pelo menos – dois. O que se costuma chamar de diálogo faz referência à força mínima da conversa, do colóquio face a face, vale dizer, o frente a frente durante o qual pelo menos dois interlocutores trocam palavras. É, portanto, uma banalidade dizer que basta que um falante encontre um outro falante para que os dois façam alternadamente alguns ruídos com a boca, através dos quais procuram dizer algo um ao outro e contar histórias. Mas nunca devemos esquecer que o tomar a palavra desses dois interlocutores pelo menos se insere num sistema interlocutório de três termos. Nesse conjunto, dois são copresentes um ao outro e o terceiro é um ausente que deve ser representado de um modo radical, não o da simples evocação, mas numa atividade que mobiliza um “fazer ver ao outro”.

Quando um sujeito fala, diz necessariamente eu a um tu a propósito de ele. Em suma, é nesse dispositivo trinitário que os pretendentes ao diálogo devem entrar se quiserem falar e ter acesso à segunda natureza. E o que se inscreve nesse triângulo é a compulsão, derivada da neotenia, de produzir um terceiro. A grande questão das discussões, das conversas, das alocuções, das narrações entre qualquer eu e qualquer tu é produzir, além de todos os ausentes re-presentados, o terceiro, o ele, essa instância de ficção que interessa tanto aos falantes. Em qualquer forma em que se apresente, sob qualquer nome que adote, existe sempre um terceiro mais ou menos distante, eventualmente em lugar nenhum e, no entanto, em toda parte, figurando assim o que seria a autoridade de um macho dominante se ele existisse. Existe, portanto, uma poièse própria do discurso, pois ele permite fabricar o que não existe: a epifania (no sentido grego de “aparição”) de um terceiro adequado. Eu poderia retomar a imagem de Rousseau, que escreve, na Carta a d’Alembert, “plante-se no meio de uma praça uma estaca coroada de flores, e se

terá uma festa”,31 acrescentando: “Reúna-se o povo, deixe-se que fale e se verá essa estaca transformar-se em Totem ou em Rei!”

Os pequenos sujeitos têm tudo a ganhar com essa designação do grande Sujeito. Pois ao presentificar o Outro, é também a sua presença que eles desempenham. Se o espaço simbólico não inscrevesse a ausência, essa ausência haveria de se representar como um problema real no campo da interlocução ao qual está votado o homem. E se a ausência se apresentasse assim, haveria de se manifestar no modo da irrupção, surgindo então apenas no campo de presença do homem, no campo interlocutório, para destruí-lo. Sem esse lugar terceiro, os homens retornariam à relação eu-tu que, reduzida a si mesma, haveria de se tornar o lugar de uma base rivalitária própria ao desdobramento de relações de amor-ódio e à devastação. Essa consideração sociogenética não deixa de responder a uma observação psicogenética fundamental assinalada por Lacan, que via na base “rivalitária e concorrencial” pela qual passa toda criança uma paranoia constitutiva essencial ao advento do sujeito...

desde que ele se livre dela.32 Acrescento apenas que se ele se livra, é para cair imediatamente na dependência do Outro. E, com efeito, existe apenas um preço modesto a pagar para que o neotênio ganhe essa forma de presença segunda que é o presente linguístico, sendo ela a alienação imediata ao Outro que ele acaba de criar.

Nenhum espaço de troca e simbolização é possível, assim, sem condenação da ausência a uma prisão domiciliar, indispensável ao

bom funcionamento do sistema simbólico das trocas.33 É necessário um ausente presente em toda parte para que as trocas simbólicas se sustentem. Na tradição, essa atribuição era celebrada particularmente nos e pelos ritos de sacrifício – a notável permanência do sacrifício através de todas as tradições indica, evidentemente, um efeito de estrutura. Assim é que o que é sacrificado, subtraído à vida, pode se revelar, num outro nível,

presente em toda parte.34 Observamos aqui a colisão, usual, do desaparecimento (físico) com a onipresença (simbólica). O morto, o sacrificado, estará em parte alguma e em toda parte.

Sacrificar, em suma, é criar origem, criar o grande Sujeito. Assim é que os neotênios, defrontando-se com o vazio abissal de sua origem, estão constantemente inventando uma origem fundadora possível para si mesmos. Estão, em suma, na origem da origem que se atribuem. Por isso é que o ele, nessa medida, é sempre o pai, aquele a quem devemos o nascimento. Em outras palavras, a referência do ele, uma vez estabelecida, ficará valendo como pai.

Naturalmente, o fato de estarem na origem de sua origem não pode ser do conhecimento dos neotênios, caso contrário estariam ocupando a posição de pai de si mesmos. Para os que descobrem a verdade, os estragos simbólicos são em geral consideráveis e irreparáveis. O desmoronamento da diferença de gerações provoca o desmoronamento do edifício frágil da subjetividade. Sabemos o que aconteceu a Nietzsche, que viu a própria transformação em todos os nomes da história, a Artaud, que se viu como seu filho, seu pai, sua

mãe, a Althusser, que quis ser o pai do pai...35

O ele deve assim figurar como pura origem possível da relação eu-tu. Estou lançando, em suma, a hipótese de que falar serve para criar o grande Sujeito. Com efeito, qualquer que seja o tipo de narrativa em jogo, é necessário que surja um tempo em que o ele pareça estar na origem da alocução. E para que isso aconteça existe apenas uma solução: que ele seja construído como sendo sua própria origem. No fim das contas, esse conjunto trinitário haveria de se apresentar da seguinte maneira, com uma volta autorreferencial sobre o ele. Lanço, assim, a hipótese de que todas as ocorrências do ele que as sociedades de neotênios se atribuíram ao longo da História apresentam um caráter sui-referencial ou unário que, enrolando a

origem sobre ela mesma, permite fazer as vezes de origem absoluta.36 Em outras palavras, só poderiam ocupar esse lugar as instâncias parecendo a elas mesmas ser sua própria origem – eis uma proposição capital que logo será necessário verificar cuidadosamente, com o reforço de exemplos históricos.