A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
Quinto órgão do corpo neotênico: a mão
Além do cérebro, do sexo, da voz e da pele, o neotênio tem um quinto órgão muito específico: a mão. Leroi-Gourhan mostrou perfeitamente de que maneira, no neotênio, obrigado à dinâmica postura de pé, a mão chegara a se libertar, particularmente de suas
funções de apoio na caminhada.63 Nesse sentido, ela já assume apenas uma função de equilíbrio, assegurando a estabilidade vertical. E, por sinal, essa função pode ser amplificada, como na dança, quando os braços servem para o equilíbrio dinâmico de um corpo projetado em todas as direções pelas pernas. Nessa arte, a emoção surge quando parece que as mãos se agarram ao ar para que o dançarino deixe de pousar os pés no solo, levando a crer que pode assim libertar-se da gravidade. Numa palavra, é pela graça dos braços que o corpo pode por um momento tornar-se imponderável. À parte essa função de equilíbrio necessária à dinâmica postura de pé, essa mão livre de apoio pode especializar-se na preensão. E, por sinal, se libertou tanto mais na medida em que se manteve em posição secundária na distribuição das funções de comunicação ligadas à linguagem, pois, como já vimos, é a voz, e portanto o canal boca/orelha, que, salvo em caso de falha do aparelho audiovocal (ou seja, exceto em caso de surdez), tornou-se predominante sobre o outro canal possível, o canal mão/olho. Essa perda de função mudaria o destino da mão. Era preciso, com efeito, que essa mão não se destinasse mais a nada de preciso, para que pudesse começar a fazer tudo e qualquer coisa. Era uma condição para que o neotênio pudesse projetá-la nas mais diversas direções à sua frente, incumbindo-a de uma quantidade de tarefas imperiosas para ele, que habita tão mal o presente. Ele a destinaria a intervir constantemente na ordem hostil das coisas para restabelecer certas possibilidades de subsistir no presente e tentar ajustar sua presença enfraquecida no mundo.