A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
A neotenia humana como grande narrativa subjacente do Ocidente moderno
No momento de enveredar por esse primeiro percurso, é preciso antes esclarecer que as teses da neotenia de modo algum se me afiguram uma “fantasia filosófica” ou um “mito científico” como os que podemos encontrar, por exemplo, em Rousseau, no seu Discurso sobre a desigualdade, com o mito do “estado natural”, ou em Freud, em Totem e tabu, com o mito da “horda primitiva”. Ambos sabiam que tinham inventado, no primeiro caso, “um estado que talvez jamais tivesse existido” (Rousseau, prefácio ao Discurso), e no outro, um “mito científico” (Freud, Totem e tabu). Uma ficção, portanto, mas da qual tinham precisado para dar prosseguimento a seus trabalhos. Como “a ciência” nada oferecia então de certo, eles tiveram de inventar, na mais perfeita “ilógica”, algo que desse fundamento, se não lógico, pelo menos mitológico a suas elaborações.
O caso não é igual para mim. De certa maneira tenho mais sorte que meus ilustres antecessores, pois “a ciência” – no caso, a antropologia neodarwiniana – fornece uma problemática circunstanciada que portanto não sou obrigado a inventar, devendo apenas integrá-la num novo campo de conceitos filosóficos que logo apresentarei. É verdade que se a neotenia não existisse teria sido necessário inventá-la, mas, como ela existe, limitei-me a retomar seus dados, que não só faziam sentido no campo filosófico em que me situo como podiam constituir a “terra firme” sobre a qual pousar os alicerces de uma nova filosofia.
Entretanto, houve um tempo, antes de Bolk e da década de 1920, em que a neotenia humana não existia como teoria científica defensável, e não deixa de ser notável constatar que pensadores ocidentais de grande envergadura tiveram então de simplesmente inventá-la para escorar seu pensamento. Quando nos damos conta de que estão entre esses nomes nada menos que os de Pico della Mirandola, Erasmo, Kant, Fichte, Feuerbach, Marx, Freud... temos o direito de supor que a neotenia foi objeto de um autêntico mito moderno subterrâneo antes de se estabelecer efetivamente como ciência na movida do darwinismo. O que poderá ser avaliado por estas indicações, que servirão, espero, para estabelecer alguns referenciais na construção de uma genealogia da neotenia que ainda nos falta.
Na verdade, tudo começa desde os fundamentos da filosofia, com a retomada platônica do mito grego de Prometeu. As fontes desse
mito remontam a Hesíodo.3 Esses dois trechos relatam a divisão que se dá entre os deuses e os homens depois que Zeus e os olimpianos tomam posse do poder celeste. O homem vai a partir daí distinguir-se dos deuses e, no mesmo movimento, dos animais. Temos em Hesíodo o Prometeu pyrophoros, portador de fogo. Prometeu é um antigo deus, um titã, que se revela protetor dos homens cedendo-lhes o fogo roubado aos novos deuses:
Mas o bravo filho de Jápeto [Prometeu] soube enganá-lo [a Zeus] e subtraiu, no vão de um bastão, a brilhante luz do fogo incansável; e Zeus, rugindo nas nuvens, foi profundamente mordido no coração e se irritou em sua alma (...). Imediatamente, no lugar do fogo, criou um mal, destinado aos humanos.
Hesíodo, Teogonia, v. 564-570.
Para castigá-lo, Zeus acorrenta o titã num monte do Cáucaso, onde seu fígado é interminavelmente devorado por uma águia, para em seguida atirá-lo nas profundezas dos infernos, o Tártaro. Prometeu também subtraíra uma caixa contendo os males que os deuses destinavam aos humanos, deixando-a com seu irmão, Epimeteu. Furioso, Zeus manda à Terra, então, Pandora, que desposa Epimeteu e... abre a caixa. Todos os males se abatem sobre a humanidade – exceto a esperança, que fica colada no fundo.
De Ésquilo, chegou a nós Prometeu acorrentado, único momento
restante de uma grande trilogia trágica. O poder cruel de Zeus4 e a
habilidade do titã5 são representados em Ésquilo mais ou menos da mesma maneira que em Hesíodo. Mas a questão da técnica assume um lugar especial. Com Ésquilo, o homem deixa suas antigas paisagens rurais e agrícolas para ocupar a cidade e habitá-la
mobilizando suas artes e suas técnicas:6 “Todas as artes dos mortais
vêm de Prometeu”, lemos em Ésquilo, Prometeu acorrentado.7 O titã é apresentado como inventor das ciências e artes, mas se mostra sobretudo, num longo discurso, como o maior opositor de Zeus, apresentado como um tirano.
É então que Platão retoma o mito, dando-lhe uma nova dimensão, especialmente ao refinar o papel atribuído a Epimeteu, a quem cabe a fabricação de todas as espécies. Ora, a criação dos homens é caracterizada por uma notável ideia neotênica avant la lettre, pois é um ser inacabado que vem a ser construído por Epimeteu, de tal maneira imperfeito que Prometeu precisa subtrair o fogo aos deuses para entregá-lo aos homens e assim compensar sua desastrosa deficiência constitutiva. Eis o trecho extraído de Platão, em
Protágoras ,8 do qual consta esse autêntico mito pré-neotênico; vale a pena citá-lo longamente:
Era o tempo em que os deuses já existiam, mas no qual as raças mortais ainda não existiam. Quando chegou o momento assinalado pelo destino para o nascimento destas, eis que os deuses as moldam no interior da terra com uma mistura de terra e fogo e todas as substâncias que podem ser combinadas ao fogo e à terra. No
momento de trazê-las à luz, os deuses ordenaram a Prometeu e Epimeteu que distribuíssem adequadamente entre elas todas as qualidades de que precisavam ser dotadas. Epimeteu pediu a Prometeu que deixasse aos seus cuidados a distribuição: “Quando ela estiver concluída, poderás inspecionar minha obra”, disse ele. Concedida a permissão, pôs-se então ao trabalho.
Nessa distribuição, ele dá a uns a força sem a velocidade; aos mais fracos,
atribui o privilégio da rapidez; a alguns concede armas; para os de natureza desarmada, inventa alguma outra qualidade que possa garantir sua salvação. Aos que reveste de pequenez, atribui a fuga alada ou a habitação subterrânea. Àqueles cujo tamanho aumenta estão por isto mesmo salvando. Em suma, entre todas as qualidades, ele mantém um equilíbrio. Nessas diversas invenções, preocupava-se em impedir que alguma raça desaparecesse.
Depois de adverti-los suficientemente contra as destruições recíprocas, ele
cuidou de defendê-los das intempéries que vêm de Zeus, revestindo-os de pelos cerrados e peles grossas, abrigos contra o frio, abrigos também contra o calor, e além disso, quando fossem dormir, de coberturas naturais e próprias a cada um. Calçou estes com tamancos, aqueles com couro maciço e desprovido de sangue. Em seguida, tratou de proporcionar a cada um alimento distinto, para estes a relva da terra, para aqueles os frutos das árvores, para outros ainda suas raízes; a alguns, atribuiu como alimento a carne dos outros. A estes últimos concedeu uma posteridade mais numerosa; suas vítimas tiveram como quinhão a fecundidade, salvação de sua espécie.
Ora, Epimeteu, cuja sabedoria era imperfeita, já havia gasto, sem dar-se conta,
todas as faculdades em favor dos animais, e ainda lhe faltava prover a espécie humana, pela qual, à falta de equipamento, não sabia que fazer. Nesse apuro, vem Prometeu inspecionar o trabalho. Ele vê todas as outras raças harmoniosamente equipadas, e o homem nu, sem calçados, sem cobertura, sem armas. E o dia marcado pelo destino havia chegado, no qual era preciso que o homem saísse da terra para mostrar-se à luz.
Diante dessa dificuldade, Prometeu, sem saber que meio de salvação encontrar
para o homem, decide-se a furtar a habilidade artística de Hefesto e Atena, assim como o fogo – pois sem o fogo era impossível que essa habilidade fosse adquirida por alguém ou tivesse alguma valia –, e depois, feito isto, presenteá-los ao homem.
Assim é que o homem entrou na posse das artes úteis à vida, mas a política lhe
escapou: ela estava, com efeito, junto a Zeus; acontece que Prometeu não tinha mais tempo para penetrar na Acrópole, que é a morada de Zeus; além disso, havia às portas de Zeus temíveis sentinelas. Mas ele pôde penetrar sem ser visto na oficina em que Hefesto e Atena praticavam juntos as artes que amam, de tal maneira que, tendo roubado ao mesmo tempo as artes do fogo que pertencem a Hefesto e as outras, que pertencem a Atena, pôde entregá-las ao homem. Assim é
que o homem se viu na posse de todos os recursos necessários à vida, e que Prometeu, segundo se diz, veio a ser acusado de roubo.
Como o homem participava do que era divino, foi ele desde logo o único dos
animais a honrar os deuses, e começou a construir altares e imagens divinas; em seguida, desenvolveu a arte de emitir sons e palavras articuladas, inventou as habitações, as roupas, os calçados, as cobertas, os alimentos que nascem da terra. Mas os humanos, assim dotados, viveram inicialmente dispersos, e não havia nenhuma cidade. De modo que eles eram destruídos pelos animais, sempre e em toda parte mais fortes que eles, e sua indústria capaz de alimentá-los continuava impotente para a guerra contra os animais; pois eles ainda não possuíam a arte política [ou seja, arte de administrar cidades], das quais a arte da guerra faz parte. Procuravam assim juntar-se e fundar cidades para se defender. Uma vez reunidos, todavia, atacavam-se reciprocamente, por não possuírem a arte política; de tal maneira que voltavam a se dispersar e a morrer.
É então que Zeus, preocupado com nossa espécie, ameaçada de
desaparecimento, envia Hermes para levar aos homens o pudor e a justiça, para que houvesse nas cidades harmonia e laços criadores de amizade.
Como se vê, o esquema neotênico está perfeitamente instalado, nem vou tecer comentários, de tal maneira o conteúdo é claro: todos os animais são providos de equipamentos pela natureza, o homem é desequipado. Ele teria morrido sem o voo de Prometeu... que não resolve tudo: os homens ainda dependem dos deuses no que diz respeito à arte política de se reunirem e se governarem – e logo veremos o quanto a indicação é pertinente. Os dois momentos fortes da dinâmica neotênica são identificados. Primeiro momento (epimeteico): o homem é inacabado. Segundo momento (prometeico): o homem se realiza . É essa dimensão política que proporciona uma medida, permitindo viver em harmonia, a esse homem presa da hubris – em outras palavras, da ausência de medida.
A retomada desse mito começa na Itália neoplatônica do Renascimento, particularmente em Florença. De Boccaccio, que a estuda longamente, a Marsilio Ficino e Pico della Mirandola, chegando a Giordano Bruno, esse mito vem a ser objeto de intensa reflexão. No resto da Europa, também desperta o interesse de Erasmo
e Bacon.9 Vem em seguida a se difundir amplamente ao longo de todo o período moderno, com uma de suas duas faces, a epimeteica (incompletude do homem) e a prometeica (realização do homem).
É provavelmente Pico della Mirandola que confere a esse mito, no fim do Quatrocentos, um estatuto absolutamente especial: o de fundador da modernidade. Esse mito, com efeito, inspira fortemente o discurso de Pico intitulado De hominis dignitate (“Discurso sobre a dignidade do homem”), constituindo, na última parte do Quatrocentos, uma verdadeira proclamação do advento de um mundo novo, o do humanismo, um humanismo que certamente permanece cristão, mas liberta o homem de uma submissão total a Deus. O texto de Pico, exemplarmente característico do Renascimento, estabelece uma distinção entre dois estados: enquanto os homens não têm nenhuma presciência de seu estado de incompletude, permanecem estritamente submetidos a Deus, mas a partir do momento em que têm acesso a uma forma de consciência desse estado, tendem a ganhar em livre-arbítrio.
Encontramos em Pico a ideia de um homem incompleto que, em
vez de se confiar cegamente a Deus, precisa completar-se.10 Não há aí qualquer ato de desafio a Deus – isto viria mais tarde –, mas certamente o projeto de uma nova aliança entre os homens e Deus. Antes desse passo, não havia realmente uma solução para permanecer cristão ao mesmo tempo afirmando a responsabilidade própria do homem na sua realização. Ora, Pico encontra a saída, enunciando que é precisamente isto que Deus queria. Segundo Pico, com efeito, querer realizar-se é algo que está exatamente no desígnio divino a respeito do homem. O homem deve tornar-se artesão de seu destino.
Para Pico, o homem é um microcosmo, composto de elementos tomados de empréstimo às três ordens de realidade. Essas três ordens de realidade são o mundo intelectual – o de Deus e dos anjos –, o mundo celeste – o dos corpos celestes – e finalmente o mundo
elementar ou sublunar – o dos seres terrestres.11 Na substância humana, esses elementos são o corpo, a alma e o espírito, tendo este último uma função de síntese unificadora entre os dois primeiros. O homem, incompleto, está à espera de realizar sua própria essência. Devido a seu não acabamento, ele ocupa portanto uma posição excepcional entre todas as criaturas: ele é livre, pois sua essência não lhe foi conferida pela providência divina nem pela força obscura da natureza. O homem é portanto o artesão de seu próprio destino. Não está mais submetido a um supradeterminismo cego. Muito pelo contrário, se Deus fez o homem incompleto, foi para que pudesse fazer uso de seu livre-arbítrio e de sua razão.
Essa ideia de Pico terá grande repercussão na época do Renascimento e muito além, pois constituirá o ato fundador de um novo mundo em processo de libertação da tutela absoluta de Deus. Aquilo que considero uma autêntica presciência da ideia neotênica está perfeitamente audível neste célebre fragmento de um texto de Pico, redigido em 1486, o Heptaplus, reproduzido na Oratio de hominis dignitate :
O Arquiteto Supremo escolheu o homem, criatura de uma natureza imprecisa, e, situando-o no centro do mundo, dirigiu-se a ele nestes termos: “Nós não te demos lugar preciso nem forma que te seja própria, nem função particular, Adão, para que, em função de teus desejos e de teu discernimento, possas tomar e possuir o lugar, a forma e as funções que desejares. A natureza de todas as outras coisas é limitada e contida no interior das leis que lhes prescrevemos. Tu, sem limites que o coajam, de acordo com a livre vontade que pusemos em tuas mãos, decidirás os próprios limites de tua natureza. Nós te colocamos no centro do mundo para que, daí, possas com mais facilidade observar as coisas. Nós não te criamos nem de céu, nem de terra; nem imortal, nem mortal, para que, por teu livre-arbítrio, como se fosses o criador de teu próprio molde, possas escolher modelar-te na forma que
preferires.12
Como escreveu Ernst Cassirer num estudo sobre Pico della
Mirandola,13 só uma era inspirada e profundamente impregnada de um novo ideal do homem podia gerar tais palavras. Ora, elas baseiam-se claramente na ideia pré-neotênica da “natureza imprecisa do homem”, que retoma explicitamente a ideia platônica de um homem criado sem “faculdades” nem “equipamentos”. A grande novidade, naturalmente, é que a não finição do homem não resulta mais de numerosos episódios da luta dos titãs e olimpianos, sendo atribuída ao “Arquiteto Supremo”. Esse enxerto platônico no monoteísmo efetuado por Pico acarreta nada menos que uma revolução: o livre-arbítrio está agora instalado no cristianismo.
Essa grande ideia seria chamada a se desdobrar de múltiplas maneiras ao longo da época moderna. Assim é que, desde o Renascimento, encontramos por trás das grandes narrativas de emancipação (do indivíduo, da sociedade) uma clara referência a essa ideia neotênica avant la lettre, como se isto constituísse a poderosa narrativa subterrânea subjacente aos mitos constitutivos do Ocidente moderno, do humanismo do Renascimento aos relatos de “esclarecimento” do Iluminismo e de emancipação do romantismo.
Naquilo que chegou a ser chamado de “filosofia do Renascimento francês”, foi possível demonstrar, seguindo um fio genealógico que vai do teólogo Raymond Sebond a Descartes, passando por Bovelles, Montaigne e Charron, o que esses pensadores deviam à ideia prometeica de realização do homem herdada do Renascimento italiano através de Pico della Mirandola e seu contemporâneo, o
neoplatônico Marsilo Ficino.14
Para permanecer na linhagem espiritual de Pico, poderíamos evocar o célebre comentário de Erasmo em seu Tratado da educação das crianças de 1529: “O homem não nasce homem, ele se faz homem.” Também aqui, este enunciado de forte presciência neotênica teria uma eficácia decisiva, pois voltaremos a encontrá-lo, gerando novas consequências, na filosofia kantiana da educação. Precisamente porque o homem nasce incompleto é que se coloca a questão de sua educação, oferecendo-se a notável possibilidade do advento de um
sujeito crítico, o da Aufklärung:15 “Um animal”, escreve, assim, Kant, “é por seu próprio instinto tudo que pode ser; uma razão estranha incumbiu-se antecipadamente por ele de todos os cuidados indispensáveis. Mas o homem precisa de sua própria razão. Ele não tem instinto e precisa traçar ele próprio seu plano de conduta. Entretanto, como não é imediatamente capaz disso, chegando ao mundo em estado selvagem, precisa da ajuda dos outros. A espécie humana é obrigada a extrair de si mesma, por seus próprios esforços, todas as qualidades naturais que pertencem à humanidade. Uma
geração faz a educação da outra.”16
Vamos encontrar essa ideia desenvolvida em outros textos de Kant, por exemplo, na Ideia de uma história universal do ponto de
vista cosmopolita [1784].17 Kant explica, na “terceira proposição”, que “a natureza parece ter-se comprazido [em relação ao homem] na maior economia, tendo medido muito de perto, com muita parcimônia, sua dotação animal”. De tal maneira que “[o homem] tudo deve extrair de si mesmo. A invenção dos meios para se alimentar, se abrigar, garantir sua segurança e sua defesa (para a qual a natureza não lhe deu nem os chifres do touro, nem as garras do leão, nem os caninos do cão, mas apenas as mãos), todos os divertimentos que podem tornar a vida agradável e mesmo sua inteligência e sua prudência e até a bondade da vontade, tudo isto teria de ser inteiramente de seu próprio labor”.
É uma autêntica teoria da neotenia avant la lettre que vemos enunciada em Kant. De fato, sua principal característica é perfeitamente identificada: diz respeito à diferença entre o animal e o homem. O animal é desde logo “tudo que pode ser”, vale dizer, está acabado, enquanto o homem “não tem instinto”. Ele chega ao mundo inacabado, carente de tudo de que todos os animais são dotados. Será necessário, assim, suprir essa falha da natureza, extraindo, através da educação, na cultura humana acumulada pelas gerações anteriores, para dar ao homem o que lhe permitirá realizar-se. Kant chega a ver nessa falta de equipamentos uma autêntica astúcia da natureza, constantemente incitando o homem a se superar para buscar um estado que lhe permita desenvolver todas as disposições potenciais da
humanidade.18
Esta concepção, que articula a existência da razão com a falta de primeira natureza no homem, é congruente com o fato de que, em Kant, como sabemos, Deus não é provado pelos argumentos ontológicos. É verdade que Kant consente em reconhecer em Deus uma causalidade anterior ao homem, mas essa anterioridade nada seria sem a necessidade moral de uma atividade crítica. A antiga metafísica dogmática é assim recusada em favor de uma nova, que repousa numa atividade em devir, numa finalidade nunca totalmente realizada, desenvolvendo-se na contradição e no conflito. Para Kant, é a única maneira de a razão, apanágio do Homem, estar à altura da causalidade garantida por Deus. De fato, a razão tem como única lei separar-se a partir do momento em que julga desvendar-se: “Naquilo que chamamos de alma, tudo se encontra num perpétuo fluxo, talvez com a exceção, se se fizer questão, do Ich, que só é tão simples
porque essa representação é desprovida de conteúdo.”19 Se esse Ich – esse “eu” – vem a ser finalmente desprovido de conteúdo, é fundamentalmente porque o homem “não tem instinto”, em outras palavras, por ser um neotênio, ao qual só pode caber a obrigação dessa atividade em processo chamada imaginação transcendental. No fundo do sujeito crítico kantiano, ou seja, no fundo do ideal do Iluminismo, vamos encontrar assim uma ideia pré-neotênica, de
forma epimeteo-prometeica,20 que sustém todo o edifício.
É exatamente esta ideia que vamos encontrar em Fichte, quando declara, em expressão lapidar e decisiva, que “cada animal é o que é;
só o homem, originariamente, não é absolutamente nada”.21 Mas em Fichte é precisamente porque o homem originariamente não é nada que o Ich não pode ser vazio, pois cabe a ele tudo suster. Para Fichte, com efeito, o fundamento de toda experiência é a atividade pura e espontânea do Ich, que pode apreender-se em sua verdade pela consciência, graças a suas intuições intelectuais. O Ich deve apreender-se em sua autoafirmação, indo inelutavelmente ao encontro do não-Ich e da alteridade – e entendemos por que Fichte muitas vezes foi considerado o pai do existencialismo. A consciência pode então ser pensada como esse encontro dinâmico do Ich com o não-Ich , no qual o Ich e o mundo se definem e se realizam reciprocamente. Lidamos aqui muito menos com um idealismo absoluto do que com uma dialética ligando o idealismo e o realismo, na qual o Ich é definido como unidade da consciência e do real.
Acontece que em 1799, ou seja, imediatamente depois da expressão da ideia pré-neotênica de que o homem, originariamente, nada é, e da afirmação da preeminência do Ich, Fichte é acusado de ateísmo. A acusação é suficientemente grave para que ele seja expulso de Iena e obrigado a se refugiar em Berlim, dali seguindo para Erlangen. Se Fichte é acusado de ateísmo, é por ter negado a existência de um Deus exterior à sua consciência, comparável a uma verdadeira coisa em si. Ora, para Fichte, Deus não é uma coisa, e assim é que ele voltaria a acusação de ateísmo contra seus adversários, criticando-os por celebrar, em vez do ideal, um ídolo, e de fundamentar a consciência numa coisa. Essa acusação é portanto uma confissão de fraqueza da parte dos guardiães do templo: como se o estabelecimento de uma figura forte do Ich implicasse o declínio da ontoteologia clássica. Neste sentido, Fichte constitui um marco importante entre a filosofia clássica (na qual o homem buscava a salvação no conhecimento de Deus) e a da época moderna (onde ele encontra essa salvação através do conhecimento e da realização de si no mundo).
O romantismo faria em seguida ampla utilização da ideia neotênica, particularmente em sua vertente prometeica. Na verdade, o tema de Prometeu, salvador e reconstrutor do homem, já havia aparecido no início do século XVII com o Prometeu de Francis Bacon. Já se podia ler nesse texto o tema do sábio aprendiz de feiticeiro disposto a transgredir as leis para alcançar seus objetivos. De fato, Prometeu constrói um ser com argila e elementos animais, mas é punido por sua falta de humildade religiosa, de tal maneira que Deus se vinga em toda a Terra. O Prometeu de Bacon anuncia o personagem de Fausto. Cabe notar que ele surge na mesma época que o Golem da lenda de Praga.
Goethe escreve, assim, um Prometeu a que se dedicaria por tanto tempo quanto ao Fausto: trinta anos. Nele, vincula os temas da revolta contra os deuses ao do indivíduo criador independente de toda força exterior. Depois dele, os românticos veriam nesse titã um rebelde indomável, um herói que luta pela liberdade de suas criaturas proclamando a inutilidade dos deuses, à qual contrapõe a força e a liberdade dos homens.
Na mesma época em que Mary Shelley escreve seu Frankenstein (ela apresentaria seu herói como “a modern Prometheus”), seu companheiro, Percy B. Shelley, escreve um Prometeu libertado impregnado de ateísmo. Nele, transforma Zeus em símbolo do arbítrio e do mal que tortura Prometeu, o qual esconde o segredo da hora e dos meios através dos quais será possível livrar-se finalmente dos deuses. Hércules liberta então Prometeu, que, enfrentando os deuses, torna-se o salvador do mundo. O mal representado pelos deuses é então abolido, e o reinado do bem e do amor tem início...
Durante o período romântico, são publicadas cento e setenta obras
inspiradas em Prometeu.22 O que bem diz a importância do tema, que se manifesta também na arte e está presente de maneira difusa em numerosas obras literárias (Balzac, por exemplo). Schlegel, Byron, Shelley, Hugo veem em Prometeu a imagem do poeta criador, mas incompreendido, rejeitado (cf. “O albatroz”, de Baudelaire). Prometeu e Satã são vistos como dois revoltados que talvez até não passem de um mesmo. Em meados do século XIX, é considerado um mártir, fundador da civilização, campeão da Revolta, da Ciência, da Razão. Em 1841, na conclusão do preâmbulo de sua tese sobre
Democracia e Epicuro,23 o jovem Marx, apresentando-se como um Aufklärer , voltaria a partir do próprio texto de Ésquilo para lançar um grito de guerra infinitamente mais devastador que a violenta profecia ateia de Shelley, já que arrastaria o Ocidente e mais adiante uma boa parte do planeta, no fim do século XIX e no século XX, a uma feroz luta corpo a corpo contra a tirania: “A filosofia”, escreve Marx, “toma a si a profissão de fé de Prometeu: ‘Numa palavra, eu odeio todos os deuses!’ (Ésquilo, Prometeu, v. 975). Ela opõe este lema a todos deuses do céu e da Terra, que não reconhecem a consciência humana como a divindade suprema... No calendário filosófico, Prometeu ocupa o primeiro lugar entre os santos e os mártires.”
Entre 1840 e 1900, são publicadas na França quarenta obras literárias inspiradas em Prometeu, e noventa na Europa. A isto devemos somar as indicações de Nietzsche, que, em O nascimento da tragédia , apresenta o mito de Prometeu como uma variante do mito de Dionísio. Melhor ainda, para Nietzsche, existem sob o nome de Dionísio heróis trágicos das aparências mais diversas: Édipo, Prometeu... Esses heróis, todos desmembrados, trazem em si a esperança de uma restauração da unidade perdida. Assemelham-se a Dionísio, que encobre, segundo Nietzsche, uma profundidade e uma falta de medida que só podem ser conhecidas na alegria e na dor, passando por autênticas provações. Nietzsche introduz, nesse sentido, o conceito de “sabedoria dionisíaca”. Ele toma como exemplo dessa sabedoria o crime de Prometeu, que desemboca no dom mais precioso. Assim, a tragédia procede da “sabedoria dionisíaca”, tendo a ver com uma civilização que ousa enfrentar a crueldade e a dureza da existência. Mas todo excesso é alvo de sanção: Prometeu é punido por seu excesso de amor aos homens.
Em 1899, o Prometeu mal acorrentado de Gide renova o mito de maneira inesperada. O herói se revolta, reivindica sua liberdade individual e se emancipa das regras que a tolhem. Depois de se apaixonar pelo Pássaro ao qual oferecia como alimento o próprio fígado (cf. o famoso “Eu não amo os homens; amo o que os devora”), ele o mata, come-o e conhece um riso que poderíamos dizer nietzschiano. Do animal sagrado, ou desse sagrado animal que tanto o havia consumido, ele preserva apenas as plumas, como se quisesse ornar-se com elas.
A última virada no processo de surgimento da ideia neotênica antes de sua expressão científica, na década de 1920, com Bolk, é muito interessante, pois corresponde ao momento freudiano da grande investigação sobre as forças obscuras da psique, para dar conta delas. De fato, é na exploração do campo da neurose que Freud encontra a ideia de neotenia. Encontramos no fim do texto intitulado Inibição, sintoma e angústia, publicado em 1926, ou seja, no mesmo ano da comunicação de Bolk, essa anotação abertamente neotênica: “Entre os fatores que participam da causação das neuroses (...), [cabe registrar] o estado de desamparo [Hilflosigkeit] e dependência longamente prolongada do filhote do homem. A existência intrauterina do homem parece relativamente encurtada em comparação com a da maioria dos animais; o filho do homem é
jogado no mundo mais inacabado que eles.”24
É bem verdade que o tema da neotenia enunciado nesse texto não é muito conciliável com a tese dita da “recapitulação da filogênese na ontogênese” formulada no fim do século XIX pelo maior adepto germânico de Darwin, o fisiologista Ernst Haeckel, e retomada em seus próprios termos por Freud. De acordo com essa tese, cada indivíduo revive ao longo de sua própria maturação as grandes etapas que marcaram a evolução da espécie à qual pertence. Essa tese da recapitulação, pressupondo que uma história de alguns milhões de anos possa ser recapitulada em alguns meses (lei da condensação), não é muito compatível com a tese da neotenia, na medida em que parte do princípio de que todo progresso resulta de uma soma que prolonga por uma nova etapa o desenvolvimento (a chamada lei da adição terminal). Ora, a neotenia não se apresenta inicialmente como uma nova etapa acrescentada ao desenvolvimento, mas como uma regressão em relação ao desenvolvimento germinal esperado. O que não impede que Freud, apesar de adepto da tese da recapitulação, atribua um lugar absolutamente central à neotenia, pois ela permite-lhe uma construção perfeitamente original do fato neurótico. À questão tratada nesse texto, “De onde vem a neurose?”, Freud responde, com efeito, identificando três fatores essenciais, entre os quais se destaca em primeiro lugar o fator biológico, o estado de desamparo e dependência do filhote do homem, explicitamente ligado a sua prematuração: “Esse fator biológico instaura portanto as primeiras situações de perigo e cria a necessidade de ser amado, que não mais deixará o ser humano.” A neotenia, afirma Freud de certa maneira, cria a necessidade de amor, que gera a neurose por sua vez.
É notável que o segundo fator de causação das neuroses identificado por Freud igualmente tenha a ver com a neotenia. Com efeito, Freud faz alusão ao desenvolvimento da sexualidade humana em duas etapas. “O segundo fator, filogenético, foi apenas inferido por nós; foi um fato notável do desenvolvimento da libido que nos levou a levantar essa hipótese. Constatamos que a vida sexual do ser humano não avança em seu desenvolvimento de maneira contínua desde o início da maturação, como a da maioria dos animais que lhe são próximos, mas conhece, após uma primeira floração precoce, até o quinto ano, uma interrupção energética, para ser retomada com a puberdade e se ligar ao início infantil.” É nesse momento de seu raciocínio que Freud levanta uma hipótese central sobre a filogênese do homem: “Consideramos que deve ter ocorrido no destino da espécie humana algo importante que deixou para trás essa interrupção do desenvolvimento sexual como precipitado histórico.” Vemos aí em ação o gênio de Freud, capaz de inferir do que lhe interessa, o desenvolvimento ontogenético do indivíduo em matéria de sexualidade, uma causa filogenética caracterizando a espécie, que ainda não havia sido realmente identificada pela ciência de sua época. Pois é de fato a neotenia do homem que obriga ao prolongamento da maternagem da criança e explica um desenvolvimento sexual tão retardado em relação ao dos outros mamíferos que chega a se realizar
em duas etapas.25 Eis portanto que o segundo fator de causação das neuroses está ligado à neotenia.
Quanto ao terceiro, é referido por Freud a “uma imperfeição do nosso aparelho psíquico”, dividido entre um eu e um isso. “O ego[eu] é obrigado a colocar-se na defensiva contra certas moções pulsionais provenientes do id[isso], a tratá-las como perigos.” A psique, em suma, sofre de uma dessincronização constitutiva entre uma parte que avança e quer e uma outra parte que não pode acompanhar. Logo veremos de que maneira a neotenia do homem modela um ser de vontade fraca, carente de presença, incapaz de habitar verdadeiramente o mundo. De qualquer maneira, o que chama a atenção é a incrível presciência de Freud quanto à neotenia humana. É como se, em 1926, ele já trabalhasse com uma teoria... que sequer foi ainda completamente formulada em termos científicos.
Depois dessa rápida genealogia da ideia de neotenia humana, não será muito necessário, espero, insistir em seu lugar no Ocidente moderno. Ela parece simplesmente decisiva. Está presente em todas as versões modernas do mito epimeteo-prometeico, ou seja, nas narrativas que relatam o inacabamento do homem e/ou exaltam sua realização. Encontra-se igualmente em poderosas fórmulas filosóficas com valor de teoremas. Essas proposições pontuam que o homem não nasce homem, mas se faz homem; que cada animal é o que é, ao passo que o homem, nada sendo, deve advir a si mesmo utilizando os meios da razão ou da técnica, ainda que se libertando de Deus. Em suma, fica evidente ao cabo desse primeiro percurso que essa ideia está na base de todas as grandes narrativas de emancipação do Ocidente moderno: busca da medida para esse ser sujeito à hubris, promoção do livre-arbítrio do homem, celebração da autonomia da razão, acesso ao sujeito transcendental, emancipação societária, salvação individual, libertação pela técnica, relatos do crepúsculo dos ídolos e da morte de Deus, exploração das profundezas da psique...