A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Dany-Robert Dufour · Capítulo 38 de 59

Páginas do PDF

A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Ele Ele

 

Existe nos monoteísmos uma segunda solução para o problema da representação do ato que consiste em criar a si mesmo. É a solução de Deus no islã. De fato, uma das principais designações de Deus no islã é dada pela expressão huwa huwa. Huwa corresponde ao mesmo tempo à terceira pessoa do pronome pessoal e ao verbo de ligação que faz as vezes de verbo ser na língua árabe. Desse modo, literalmente, huwa huwa quer dizer Ele Ele ou Ele é Ele. Difícil deixar mais claro que o terceiro é unário, que participa de uma reiteração fundadora através da qual se autodesigna e se autoengendra. Essa reiteração é levada à perfeição pela caligrafia árabe, que reproduz a palavra huwa como se se refletisse num

espelho.75 Os exemplares dessa caligrafia nos quais os dois termos são entrelaçados espelhados são muito frequentes. Muitas vezes eles aparecem com destaque nas mesquitas, ornamentando o muro central, acima da cabeça do imã, frente aos fiéis em oração. Ela se apresenta como a transformação da caligrafia de “Ele” (huwa), ou

seja: , em caligrafia de “Ele e(é) Ele” (huwa huwa), entrelaçados

 

pelo espelho, ou seja:

Eis-nos, portanto, diante de um terceiro totalmente unário. Algo cujo alcance os filósofos árabes haviam perfeitamente avaliado, já que, segundo Fethi Benslama, pensaram fundamentalmente o Ser a partir de sua reiteração. Avicena, assim, escrevia que “o huwa huwa é a união de dois, que fazem dois numa posição”. E Al-Farabî

indicava que “o huwa huwa tem como sentido a unicidade e o ser”.76

Essa unicidade que se expressa na forma de uma dualidade remete a um traço antinômico, absolutamente característico da unaridade, que é muito explorado pelas tradições místicas. Já o encontramos a propósito da fórmula unária Ehyeh ascher ehyeh. Voltamos a encontrá-lo aqui com o caligrama huwa huwa. Mas com uma diferença. Havia dois tempos com o Ehyeh ascher ehyeh: o tempo de enunciação do próprio Ehyeh ascher ehyeh e depois o tempo de seu desenvolvimento em duas fórmulas simultâneas e opostas. Aqui, no caligrama divino, esses dois tempos passam a ser apenas um. O unário da fórmula “Ele é Ele” apresenta-se simultaneamente sob a forma de duas figuras opostas, como num espelho. A temporalidade é diferente (o que provavelmente não deixa de ter consequências), mas o sentido profundo é o mesmo: a ausência transforma-se em presença, o que se encobre se inverte naquilo que se mostra, o que se oculta reverte para o que se manifesta.

Essa lógica unária (se é que ainda podemos qualificar de lógica um modo que sai do domínio da binaridade) decorre do gesto perfeitamente usual, mas fundamentalmente paradoxal, da representação que permite tornar presente o que é ausente. A antinomia concentra-se, naturalmente, na terceira pessoa. Um trecho dos Escritos espirituais do emir Abd el-Kader (1808-83), o grande intelectual árabe-muçulmano, dignitário religioso e também chefe da resistência à colonização da Argélia, fornece a esse respeito preciosas indicações sobre o papel do huwa na manifestação do que está oculto: “Saiba que o pronome ‘Ele’ (Huwa) tem como função, segundo os princípios da organização da linguagem, representar o não manifesto (ghayb). Esse não manifesto pode eventualmente tornar-se manifesto em dado momento, num dado estado. Mas aqui o huwa representa a ocultação da Essência divina, que em caso algum pode manifestar-se a uma criatura qualquer ou em qualquer estado que seja, neste mundo ou no outro. Trata-se, portanto, do Não Manifesto absoluto, que transcende toda alusão (ishara) – pois só se pode indicar por uma alusão o que está situado em algum lugar – e que não pode ser designado por nenhuma expressão (ibara) que possa limitá-Lo, separá-Lo ou incluí-Lo. Apesar disso, toda alusão faz alusão apenas a Ele, toda designação O designa e Ele é ao mesmo

tempo o Não Manifesto e a Manifestação.”77

Creio que devemos ter em mente essa problemática tanto ao ler Benveniste sobre o papel da terceira pessoa em relação às duas primeiras (simplesmente porque Benveniste faz alusão diretamente

aos trabalhos dos gramáticos árabes sobre a terceira pessoa)78 quanto ao ler Kant sobre o sublime (Kant indica, assim, que “o que

chamamos de sublime (...) não pode ser representado)”.79

No Ehyeh ascher ehyeh como no huwa huwa, vemos que os neotênios afinal nada mais fizeram que transcendentalizar o ele em jogo em seus empreendimentos de representação. Revela-se também que esse ele corresponde ao ser – o que é assinalado aqui pela identidade da terceira pessoa e do verbo de ligação que faz as vezes de verbo ser no árabe.

O caligrama divino representa um huwa supreendido, por assim dizer, em pleno estádio do espelho, ou seja, em plena cena de autoengendramento. Com um “ele” assim representado em seu intenso desdobramento fundador, desta vez caligraficamente, a origem está, em suma, perfeitamente assegurada.

Por isso é que, se louvo Fethi Benslama por sua apresentação e suas análises dessa forma, não consigo acompanhá-lo quando afirma

que “o islã exclui Deus da lógica da paternidade”.80 Não se trata de uma indicação isolada em seu livro, mas de uma tese de fundo regularmente reiterada até a conclusão, pois é apresentada como “a questão mais decisiva para pensar a construção simbólica do islã”:

“o enigma islâmico do pai em sua não relação com Deus”.81 Ora, não vejo como a questão da origem poderia ser resolvida de maneira tão sublime sem que se seguisse qualquer consequência quanto ao pai e à paternidade. Esclareço que se me permito discutir com este grande analista do islã e sobre as formas de subjetivação a este ligadas, é porque aprendi muito com ele nesse terreno, chegando a pensar que esse ponto estava em contradição com sua própria tese.

E realmente penso que Fethi Benslama fornece pelo menos duas indicações que vão de encontro a sua avaliação. A primeira decorre do fato de que a paternidade está implicada na representação huwa huwa. Por sinal, o próprio Fethi Benslama o indica: “Como Deus é huwa huwa em si mesmo”, escreve, “o Homem-Pai torna-se um

huwa huwa por sua criança-filho.”82 Poderíamos dizer, assim, que é Pai aquele que imita a identidade de Deus através de seu filho. Mas isto não é tudo. Não só o Pai obtém de Deus sua posição frente a seu filho, mas o próprio Deus é concebível como o grande gerador.

Esse posicionamento de Deus frente à paternidade parece-me legível no próprio Corão. É verdade que o versículo 3 da sura 112 afirma que “Ele [Alá] não deu à luz nem foi dado à luz”, mas os versículos 71-72 da sura 38 nem por isso deixam de relatar esta fala de Deus aos Anjos: “Vou criar um ser humano de uma argila extraída de uma lama maleável. Depois de tê-la formado harmoniosamente e de ter insuflado nele o Meu espírito, prosternai-vos diante dele.” Se assim fica claro que Deus não pode ser sujeito a esse modo de geração particular que é o dos corpos, simplesmente porque sua transcendência absoluta o isenta de ser de alguma forma envolvido no ciclo da geração e da corrupção das carnes, nem por isso ele deixa de ser o seu criador, vale dizer, o autor de tudo e sobretudo o autor dos dias daqueles que, por sua vez, são apanhados na roda da geração. Parece-me, portanto, que se não podemos falar a seu respeito de paternidade no sentido trivial da palavra, devemos, no entanto, atribuir-lhe uma forma superior de paternidade, como quando falamos da paternidade de um artista em relação a sua obra, tanto mais que neste caso se trata da paternidade do artista divino em relação a todas as obras do mundo.

De que tipo de paternidade se trata então? Para sabê-lo, é necessário retomar o comentário de Fethi Benslama sobre uma hadîth (palavra do profeta), sem no entanto extrair, em minha opinião, todas as conclusões que se impõem, de tal maneira se baseia ele na tese da não relação entre o Deus do islã e a paternidade. Essa hadîth, muito conhecida e divulgada no islã, diz: “Eu era um tesouro oculto e quis ser conhecido. Criei então as criaturas, para ser conhecido por elas.” Estamos aqui numa característica que não é própria do islã, mas que se presta perfeitamente às mais variadas escapulidas místicas, sejam judaicas ou cristãs. Trata-se nada mais nada menos que da chamada teoria do “espelho sofiânico”, envolvendo um princípio estrutural idêntico ao que encontramos no huwa huwa islâmico. Essa teoria sofiânica foi muito trabalhada pelo

grande especialista do esoterismo ocidental Antoine Faivre,83 mas também encontramos princípios análogos num grande especialista do islã espiritual como Henri Corbin, em suas investigações sobre o “mundo imaginal” em geral e em particular sobre a obra de Sohraardi, o pensador xiita do século XII que concebia o Oriente

como um polo metafísico abrindo para o conhecimento do Todo.84

Segundo essa teoria própria de todas as teosofias, é ao sair do indizível que Deus se concebe como sujeito. Com efeito, Deus só pode conhecer a si mesmo opondo-se a Ele próprio. Assim é que Deus se exprime no homem, criado a sua imagem, e isso num movimento jamais concluído, infinito, de revelação a Ele próprio. O meio desse engendramento no qual se passa do Um, indizível e invisível, ao múltiplo visível do mundo não é outro senão o “espelho sofiânico”, esse olho da Sabedoria divina, que contém as imagens de todos os seres individuais. Ele também pode ser como o tzimtzum da Cabala, que corresponde ao momento em que a pluralidade emerge da unidade.

Toda a criação atende, assim, a um desejo de autorrevelação divina que em nada difere de um processo infinito de autoengendramento. De modo que não é diferente dizer que Deus se desdobra e dizer que ele gera o mundo para se conhecer. Em qualquer dos casos, ele é o grande gerador, o único pai putativo possível de todos os seres e de todos os homens. E, por sinal, é porque Deus se encontra ao se perder nos homens que o místico, em sentido inverso, pode perder-se ao se encontrar em Deus, segundo o chamado movimento do “puro amor” que chega à perda radical de si mesmo,

em outras palavras, o gozo.85 Ele se conhece em mim, mas eu me perco Nele na medida em que ele me gerou e na medida em que, através Dele, eu participo da criação.

Em tais condições, portanto, se ele não é o Pai, como não quer

Fethi Benslama que ele seja (“o Deus do islã está fora do pai”,86 escreve ele), então ele só pode ser o Sobrepai ou o Ur-Pai.

Essa caligrafia huwa huwa é um magnífico exemplo da maneira como os homens podem representar-se um grande Sujeito que seria por si mesmo sua própria origem para logo dele fazer o “muçulmano”, ou seja, o “submisso”, se traduzirmos literalmente o termo.