A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
Velázquez, o astuto pascalino e o analista
É em função dessa cena posterior que eu proporia um novo título para As meninas. E seria, naturalmente, Quero ser Filipe IV.
Não chegarei a ponto de dizer que Velázquez urdiu deliberadamente essa construção. Mas sustento que é, apesar de tudo, o que ele nos faz ver nessa extraordinária “armadilha de olhares” que construiu.
Velázquez, o astuto pascaliano e o analista
O artista, na medida em que é ele que inventa o grande Sujeito, seria um assujeitado de um tipo absolutamente especial. É bem verdade que ele segura o espelho no qual se reflete o grande Sujeito, mas está constantemente retocando sua imagem, de tal maneira que o artista faz parte dessa raça rara dos astutos que são capazes de jogar com a servidão em que se encontram, sem ser enganado por ela. Como são eles que inventam e montam a grande peça, são igualmente eles os únicos que não podem acreditar nela, pois têm conhecimento da manipulação que preside à construção de um grande Sujeito a partir de um truque sonoro, caligráfico ou pictórico transfigurando um neotênio em grande Sujeito. Naturalmente, não é por uma disposição psicológica especial que eles se veem na posição cindida do astuto pascaliano, mas por um efeito de estrutura. Não só, já que não têm como acreditar na ficção que inventam, a ingenuidade que caracteriza os outros sujeitos lhes é poupada, mas sobretudo são eles os únicos que podem revelar o segredo. É nesse sentido que realmente merecem o qualificativo de astutos, pois, se precisam garantir o funcionamento daquilo que no teatro se chama de truque (ou seja, segundo o dicionário Robert, “a máquina ou o dispositivo cênico destinado a criar uma ilusão”), eles se veem na posição de poder desvendá-lo. É precisamente o que se costuma chamar de crítica. Posição extremamente prazerosa, que foi muito bem descrita por Louis Marin: “Que um belo dia (...), por um simples momento, um fraco, um assujeitado, por ser esperto e ardiloso, encontre meios de virar a força do poder contra o poder, de desviá-la contra ele, que intenso prazer então (...). Ele faz com que – pela habilidade artesanal, a arte dos meios e das breves maquinações – o poder, por sua própria força, se contradiga, se acuse (...). Esse narrador hábil e sutil contará histórias, e não mais a História (...), apanhará [o poder] em sua
própria armadilha pelo prazer que o poder sente nisso.”126
Não seria impossível, nesse sentido, como segura o espelho e arranja o retrato que nele se reflete, que o artista, no momento em que comenta o dispositivo, se veja na posição do analista, como imaginava Lacan. Resta saber até onde se sustenta essa relação: se é certo que o simples fato de virar uma carta cria um lugar onde algo da ordem do desejo e do objeto a possa se inscrever, não é certo que isso seja suficiente para instalar o analista na posição daquele que pode efetuar a crítica radical dos mecanismos de poder. Se estou convencido, com Lacan, de que o artista pode fazer as vezes de analista, não estou certo, em compensação, de que o analista possa ocupar o lugar eminentemente crítico do artista, empenhado não em desvendar um desejo singular, ainda que vinculado a um jogo complexo, mas à divulgação, ligada ao simples prazer do desenho ou das cores, dos mecanismos do poder.