A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
Falar, cantar – o adestramento dos corpos
Surge aí toda a dificuldade inerente à construção do grande Sujeito régio: ele nunca passa de um neotênio que desempenha o papel de grande Sujeito por delegação, sendo o Rei o representante de Deus na
Terra104 – segundo uma representação temporal que, por sinal, nunca deixou de provocar numerosos conflitos com as potências espirituais da representação divina figuradas aqui pelos jansenistas (e em outras épocas pelo papa).
Nessa concorrência dos grandes Sujeitos, o problema ainda é saber quem, no fim das contas, Deus ou o Rei, terá a voz preponderante. Como o Rei só se sustenta por referência a Deus, não pode naturalmente ter primazia sobre Deus. De modo que todo o problema que os adeptos da “teoria monárquica” terão de resolver é o de tornar aceitável a ideia de uma possível intercessão entre o fiel e Deus. Será necessário construir, como mostrou Philippe-Joseph Salazar, um “terceiro termo” entre a vox populi e a vox Dei: a vox
regis .105 Salazar examinou de que maneira os adeptos da “teoria monárquica” foram levados a construir esse terceiro termo, que ele apresenta como um “termo oculto, mediador”, mas que nunca passa de um “componente fugidio, imperceptível, evanescente”. A vox regis é o órgão da potência régia, e se autoriza pela vox Dei; a vox populi dedica-se, então, ao louvor, que indica a submissão sagrada (sem a qual essa vox populi deve perder-se na depravação). Por sinal, não devemos tomar exclusivamente no sentido figurado essa história de voz. Existe uma verdadeira política da voz. Michel Poizat mostrou perfeitamente a parte vocal e coral com que a liturgia profana do grande Sujeito régio teve de lidar, especialmente com Lully, grande
orquestrador do espetáculo lírico e coreográfico régio.106
Mas isso não é tudo: para que essa vox populi não se perca na depreciação, ainda será necessário domesticá-la. Em suma, para construir o lugar de onde esperam a salvação, os pequenos sujeitos devem submeter-se à instância extremamente modeladora que inventam. Construí-la implica, com efeito, uma rigorosa educação, e mesmo um autêntico adestramento. E de fato haveria domesticação da Corte pelo grande Sujeito régio e adestramento generalizado dos pequenos sujeitos. O que depende do aperfeiçoamento de formas muito precisas de contar, representar, pensar, fabular...
Pois não se trata apenas de fazer contar, de fazer ver, de fazer ouvir, de fazer entender até que finalmente se manifeste, nos pequenos sujeitos fascinados, o grande Sujeito em seu esplendor régio. Trata-se também de obter um adestramento dos corpos, de maneira a fazer com que adotem hábitos de vida, hábitos de mesa, hábitos de trabalho, hábitos de morrer, hábitos de amar, hábitos de pronunciar ou de cantar devidamente controlados. O controle político dos corpos vai muito mais longe e muito além de uma simples correção ortopédica. É preciso ir até as bases materiais do que é, juntamente com o neotenato, naturalmente dado a cada um, a vocalidade, a modulação sonora do ar expirado, base da linguagem articulada, para remodelar sua organização convencional de modo a fazer com que corresponda a novos intervalos significantes passíveis de serem compartilhados pela comunidade que se pretende instituir. A política da voz não remete apenas à encenação da vox regis, mas ao controle da vox populi. Será preciso que toda a maquinaria sonora do corpo, aquela que modula o ar expirado, “torne-se”, como diz Jean-François Lyotard, “a cavidade fonadora regulada de maneira
a respeitar os intervalos pertinentes”.107
E, com efeito, não devemos esquecer que falar, como primeira atividade de re-presentação, começa por determinada maneira de pôr sons na boca e articulá-los. E o mesmo quanto ao cantar, já que passa por um controle das alturas sonoras que mobilizam especificamente o corpo. Em suma, será necessário, se se quiser cantar a glória de um grande Sujeito, afinar previamente os corpos, como se faria com instrumentos musicais destinados a serem “sinfonizados”, em seus timbres e suas alturas.
Assim é que a encenação do grande Sujeito no século XVII, remeta ele ao grande Sujeito régio ou ao grande Sujeito divino, passou por um controle das maneiras de falar e cantar. Com o advento do grande Sujeito do absolutismo régio ou religioso, revelou-se a necessidade de imposição de uma disciplina sobre os corpos, para permitir que escapassem à atração divergente dos diferentes localismos feudais e regionais residuais. O século XVII representa, assim, um importante momento de criação e estabelecimento de gramáticas gerais que pretenderam regular as maneiras de significar, de falar e de pôr palavras na boca, vale dizer, de articular e cantar. Foi nesse contexto que Richelieu criou a Academia Francesa (1634) e Vaugelas publicou suas Observações sobre a língua francesa (1647), com a recomendação de criar um francês vinculado, segundo propõe, à “maneira de falar da parte mais sadia da Corte”. Já em 1650 consuma-se a separação entre a língua literária de origem aristocrática e as outras linguagens praticadas na França. O francês vivo, inventivo e impertinente de Rabelais e Montaigne é rejeitado como desviante. A hora é de centralização autoritária, baseada na fé monárquica ou divina, de repressão dos dialetos e adormecimento do latim. Em matéria de léxico, é total a ruptura com as tendências livres do século anterior, que só voltarão a surgir no século XVIII. A promoção da língua clássica traduz-se na proscrição de muitas palavras, como courtois ou forcennerie, acusadas – pelo próprio rei, segundo se diz – de ser “velho gaulês”. Começa a perseguição às
“palavras desonestas”, como convaincu ou consistoire,** por sua sonoridade cheia de ambiguidade (naturalmente, a ambiguidade que se quer depositar nelas). O ensino em francês começa a ser transmitido nas “pequenas escolas jansenistas” das quais sai a Gramática de Port-Royal (1660), cuja influência é considerável. Na Gramática geral e argumentada de Lancelot e Arnauld o objetivo é descobrir e formular os princípios a que obedecem todas as línguas. A gramática, acedendo ao nível dos princípios universais, pretende
atingir o nível das leis universais.108 Quanto à fala, é entendida como um simples decalque do pensamento lógico. Essa gramática não se pretende apenas normativa, assim, detalhando uma arte do “bem falar”, mas quer também expor os princípios que fundamentam essa arte. Em todas essas gramáticas, o corpo do grande Sujeito está presente em toda parte como fiador da função semiótica e da troca generalizada de signos. Paralelamente, são fixados os intervalos semânticos, e é nessa época que aparecem os primeiros dicionários modernos (repertórios de sinônimos, de homônimos, de neologismos etc.), de tal maneira que, para bem falar, será necessário, de agora em diante, consultá-los. Vem a público também o dicionário de Furetière (1690), no qual cada termo encontra seu sentido num sistema regulado de diferenças lexicais.
Paralelamente à codificação da gramática por Port-Royal, do léxico pelos dicionários e mesmo da fonética pelo silabário de Jean-Baptiste de La Salle, assiste-se ao estabelecimento dos intervalos fixos numa nova escala. No fim do século XVII, Werckmeister, por um ato de força que corresponde muito bem ao espírito de centralização do século, seja ele monárquico ou teocrático no sentido dos jansenistas ou da Reforma, inventa, com efeito, a escala temperada, através da qual as alturas são repartidas em doze semitons temperados, vale
dizer, iguais.109 Nessa nova escala, Werckmeister livra-se da característica das escalas anteriores (as escalas de Pitágoras e Zarlino), definida pela não coincidência das quintas justas e das oitavas justas, que conferia a cada uma dessas tonalidades possíveis “cores” diferentes. Essa não coincidência derivava do fato de os intervalos de quintas resultarem de uma repetição da relação 3, e os de oitavas, de uma repetição da relação 2. O conjunto não podia coexistir num sistema único, pois não existe potência de 3 igual a uma potência de 2, resultando a existência de modos irredutíveis uns aos outros. Foi por um autêntico ato de força que Werckmeister inventou a escala temperada. Ele repartiu a diferença entre as diferentes notas da escala, recorrendo à equação: doze quintas = sete oitavas. Assim, os modos específicos se perdem, em proveito de uma possibilidade de transposição generalizada. O imenso inconveniente seria que, em função desse temperamento, os intervalos, à exclusão da oitava, tornam-se todos “falsos” em relação às ressonâncias naturais (as quintas são por demais pequenas). Mas se se perde a cor particular dos antigos modos, absolutamente singulares e irredutíveis uns aos outros, ganha-se pelo fato de tudo se tornar passível de
transposição e intercambiável numa economia sonora geral.110
Com a escala temperada, em suma, o poder se insinua bem longe no interior dos corpos, até fazê-los cantar desafinado em relação às ressonâncias naturais, para que possam de certa maneira cantar “afinados” na nova economia geral, feita de intervalos regulados e controlados nos quais essa parte eminentemente sensível do corpo, a voz, deve absolutamente entrar. Trata-se, de certa maneira, como no caso do léxico, da pronúncia ou da gramática, de não permitir que as vozes se percam num gozo vocal ou verbal que, escapando ao intervalo e à troca regulada dos signos, dos significantes e dos sons,
não pudesse ser capitalizado pelo poder absoluto.111
Por sinal, esse controle político sobre os corpos seria perseguido pelo grande Sujeito que se seguiu: a República decorrente da Revolução Francesa declararia guerra ao patoá e às línguas locais. O que teria continuidade, no século XIX, pela instrução pública,
generalizando o francês em todo o território.112 O estabelecimento da troca generalizada de valores – inclusive valores semióticos (léxicos, fonéticos, sonoros...) – não deixaria de estar vinculado, naturalmente, ao desenvolvimento posterior do capitalismo, inteiramente coextensivo à transformação de todo valor de uso em valor de troca, ou seja, em mercadorias.