A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Dany-Robert Dufour · Capítulo 3 de 59

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A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Introdução

 

Gostaria de trazer ao campo da discussão filosófica atual uma questão da qual nossa modernidade e mais ainda nossa pós-modernidade julgam ter-se livrado definitivamente. Trata-se simplesmente da questão de Deus, de seus nomes, de suas vidas e de suas mortes. Para evitar qualquer mal-entendido, previno desde logo que me penso como um ateu, se não militante, pelo menos convicto. E se reconheço de bom grado que os caminhos de Deus são impenetráveis, é bom que se saiba que até hoje não senti nenhum sinal prenunciador de uma possível e próxima conversão. Feitas estas ressalvas, espero, com a possível clareza, afirmo no entanto que não podemos sem grande prejuízo ignorar a questão de Deus.

É bem verdade que os homens estão saindo da religião. Desde Maquiavel, desde Hobbes, eles não precisam mais de Deus para o funcionamento de suas sociedades. Desde Newton, não precisam mais postular Deus para que o universo físico se sustente. Desde Kant, não precisam mais admitir Deus para dispor de uma metafísica. Desde Darwin, não precisam mais de Deus para explicar o surgimento do homem. Desde Freud, não precisam mais de Deus para dar conta de seus sonhos e paixões. Desde Nietzsche, não precisam mais de Deus, simplesmente. E ainda assim – se tivesse coragem, eu o escreveria retomando o despudorado refrão de uma canção libertina francesa: “Deus pode estar morto, mas (que me perdoem) continua de pau duro...”

O sinal dessa espantosa vitalidade parece-me ser dado simplesmente pelo apego incondicional que tantos seres humanos do terceiro milênio ainda parecem manifestar em relação a Ele. Nada mais, com efeito, permite a um bom número de seres humanos vacinados, informados e escolarizados acreditar, e no entanto, em seu foro íntimo, não obstante os definitivos argumentos da razão, eles nem por isso deixam de persistir em suas crenças. Não me refiro apenas à fé do homem simples, não me refiro apenas aos atos simétricos e convergentes dos simplórios de nossa época, que, do presidente Bush dos Estados Unidos aos loucos por Alá, arrastam descaradamente o mundo a um caos obscurantista, cada um imaginando Deus do seu lado. Poderíamos evocar aqui uma infinidade de atos e práticas habituais da crença, mas me situo, neste contexto, além de toda e qualquer peripécia social ou histórica. Pretendo aqui falar apenas dessa disposição do espírito humano que necessariamente faz do homem um ser de religião. É dessa disposição antropológica, desse núcleo duro do religioso e apenas dele que gostaria de dar conta e que pretendo percorrer em todas as suas implicações: por que o homem se apresenta essencialmente como um iluminado?

Mas por que, me haverão de perguntar, querer provar o que já está estabelecido? Já não dispomos de suficientes “provas” da existência de Deus, acumuladas ao longo da história da filosofia? É verdade, mas o problema é que sou ateu e não posso me contentar com a invocação das discussões filosóficas passadas sobre as provas da existência de Deus, que conferiam um papel central ao que Pascal chamou de “o deus dos filósofos”. Não que eu duvide dessas provas ou pretenda questioná-las. No gênero, elas são perfeitas. Em última análise, com efeito, remetem aos poderes da razão acuada em seus últimos redutos, e nessa condição apresentam para mim o mais alto

interesse.1 Mas sem me satisfazer plenamente, pois não posso referir-me completamente a uma razão que se sustenta... até o momento da conclusão, quando deve necessariamente abdicar em favor de um princípio superior a ela. Como a obsessão do filósofo é, como se sabe, pensar por si mesmo, não posso aceitar reconhecer-me, no momento de concluir, como sujeito de um outro. Levo de certa maneira às últimas consequências a observação que Descartes já fizera à rainha Cristina da Suécia: “O livre-arbítrio (...) parece isentar-nos de lhe [a Deus] estar sujeitos” (carta de 20 de novembro de 1647). Em suma, estou perfeitamente disposto a considerar Deus com toda a seriedade necessária, mas isentando-me para sempre de lhe estar sujeito. Em tais condições, vejo-me na desconfortável posição de precisar tentar construir uma nova prova da existência de Deus que não apresente esse defeito aos meus olhos capital.

Concluo dessas considerações que cabe hoje em dia a um indivíduo como eu, ou seja, a um ateu convicto, quando se depara com a questão, fornecer uma nova e derradeira prova da existência de Deus, finalmente explicando a insaciável necessidade de crença dos homens. Mas será necessário, para ocupar esse lugar, adotar a postura do filósofo. Desde Sócrates, com efeito, o filósofo é o ser que aparenta viver como um estranho entre os homens, praticando o que Husserl chamava de epoché, a suspensão do julgamento a respeito, entre outras coisas, das crenças comuns. Ele se apresenta, portanto, como um viajante “ingênuo”, aquele que se espanta com tudo pelo caminho. Nada para ele pode ser normal ou natural. Tudo deve interrogá-lo, ele não aceita nada como evidente. A única coisa que quer saber é que não sabe. Em suma, se deve abster-se de crer, ele precisa admitir que se crê, para poder explicá-lo.

E para explicar que se crê, será necessário reabrir a frente filosófica das provas da existência de Deus, perfeitamente calma desde Kant. Existem, é verdade, trabalhos atuais de historiadores da filosofia e da teologia que se voltam para os campos antigos, outrora exuberantes, dessas provas, mas grosso modo, nos dois últimos séculos, prevalece uma absoluta calma nessa frente de sua construção ativa. Seria o caso, assim, de voltar a pôr mãos à obra para fornecer uma prova derradeira. Derradeira no sentido de que, depois dela, não se poderá ir mais longe na argumentação. Será o caso de concluir por Deus sem abdicar da razão, pelo contrário. Essa prova terá de se apresentar, em suma, como uma prova ateia de existência de Deus, a primeira do tipo e a última possível na ordem das provas. Quando a existência de Deus for provada por um pensamento rigorosamente ateu, teremos verdadeiramente dado, penso eu, o último passo possível no ciclo das provas.

Muito bem, mas qual o interesse? Estaríamos falando de uma dessas alegres elucubrações que permitem dedicar uma vida a uma ideia divertida e contraditória, um capricho, para impedir que essa vida resvale para o que Pascal chamava de futilidade dos “pequenos prazeres fedorentos”, com o possível risco, no entanto, de soçobrar na pura e simples idiotice de uma ideia fixa impossível de resolver? Seria um impulso, como escrevia Beckett em Compagnie, de “inventar quimeras para atenuar o próprio vazio”? Como já vimos disso, respondo: talvez. Não posso realmente excluir essa hipótese, bastante flaubertiana. Talvez eu esteja entrando para a tribo dos Bouvard e Pécuchet, tornando-me assim um desses novos conquistadores do inútil. Ou seja, talvez um idiota obstinado. São riscos efetivos em que incorre aquele que pretende pensar, mas, como quer que seja, insisto em considerar particularmente oportuno tentar apresentar uma nova prova da existência de Deus no exato momento em que o pensamento já não mais necessita disso. A coisa resume-se, em suma, em colocar diante do sábio uma questão de que ele julgava ter-se livrado definitivamente – fácil demais, talvez. Trata-se em suma de supor que a lenta extinção da busca das provas e nossa emancipação em relação a Deus não passam talvez de um longo erro histórico cujas consequências é bem possível que ainda não tenhamos acabado de pagar. É possível, com efeito, que não precisemos mais de Deus para sustentar um pensamento puro (era já a opinião de Kant), que dele tampouco precisemos mais como razão prática (apesar da posição de Kant), que no fim das contas todos os campos de pensamento possam suster-se sem a ideia de Deus. Mas nem por isto deixa de ser verdade que não resolvemos o problema da existência de Deus exatamente onde quero examiná-lo: na cabeça dos homens.

Sustento, em suma, a hipótese de que existe um hiato considerável entre a inteligência construída e a inteligência espontânea, e que uma parte do mal-estar atual de nossa civilização vem dessa divergência. Talvez nos tenhamos apressado demais a sair da religião e realizar o magnífico programa de autonomia que estabelecemos pelo menos desde o Renascimento, o qual, promovendo o humanismo, já anunciava claramente tais intenções. Por um lado, saímos por etapas, desde então, da dependência divina, mas por outro é possível que uma parte de nós mesmos ainda esteja apenas buscando Deus sem jamais poder encontrá-lo, pois nossa razão não pode mais consenti-lo. “Patife! Ele não existe!” Esta interjeição de Hamm em Fim de

partida, de Beckett,2 parece-me refletir particularmente bem o momento histórico extremamente complexo que vivemos. É um tempo de mal-estar e cisão: somos fatalmente levados a uma conclusão sem conseguir resolver-nos a adotá-la. É de certa forma uma solução filosófica possível para esse mal-estar que estou buscando.

Mas que se quer dizer exatamente com “existência” em “existência de Deus”? A questão da existência, do ponto de vista da diferença capital entre existência e essência, é como sabemos um problema filosófico dos mais árduos e fecundos. Cabe no mínimo, portanto, situar a acepção que dou ao termo. De fato, para resumir em poucas palavras, existere significa antes de mais nada ex aliquo sistere: “ser a partir de algo diferente” – o que não pode ser o caso de Deus, que é a partir dele mesmo. Existere também significa “ser realmente” – Deus seria assim o único ser a satisfazer essa exigência de existência real, pois para ele, e só para ele, a existência não se distingue da essência. Finalmente, existere pode (desde Heidegger) significar ek-sister, que remete a um “livrar-se de”, um “projetar-se para” – tornando-se o existir então propriedade de uma espécie

particular de ente, o homem, atirado na historicidade.3 Dizer “Deus existe”, portanto, é eminentemente equívoco, na medida em que a expressão pode assumir sentidos totalmente diferentes. O mínimo que posso fazer ao prometer apresentar uma nova prova da existência de Deus, assim, é situar a forma e o lugar dessa existência. Trata-se, por sinal, de uma necessidade com a qual se depararam todos os debates sobre a existência de Deus. Deus pode assim existir em todo o universo ou melhor ainda, como em Spinoza, como o próprio universo. Deus pode existir, como em Aristóteles e São Tomás, como origem do mundo. E Deus pode existir, como em Hegel, como fim último, como consumação derradeira da História. De minha parte, situo em outra parte o lugar onde busco provar a existência de Deus. No meu entender, é antes de mais nada nessa ínfima parte do universo que convém provar sua necessidade: na cabeça dos homens. De todos os homens. Pois incluo nesta proposição o ateu: ele teve necessariamente de se deparar com a questão de Deus para responder negativamente a ela. De certa forma, resolvo assim a espinhosa questão da residência de Deus, dizendo que basta que ele exista pelo menos aí (na cabeça dos homens) para que em seguida seja visto em toda parte onde se queira vê-lo – seja no rosto do outro, no instante anterior ao big bang ou mesmo os

famosos “trapos” de Madame Edwarda...4 Naturalmente, a partir do momento em que consideramos sua existência na cabeça dos homens, ficaremos surpresos ao constatar a considerável variação das formas que essa existência pode assumir. Não quero dizer com isto, entretanto, que todo homem tem o seu próprio Deus, ou mesmo que cria o seu Deus à sua própria imagem. Não sustento nenhuma tese relativista a esse respeito: espero demonstrar que a existência de Deus na cabeça dos homens é uma necessidade de estrutura. Como a humanidade procede de uma comunidade única, essa estrutura, idêntica, aplica-se a todo homem, mas nem por isso deixa de se expressar em formas eminentemente diferentes, estritamente submetidas aos tempos e lugares onde estes ou aqueles homens são projetados. Para resumir em poucas palavras, essas formas vão do Totem ao Proletariado, passando especialmente pela Physis dos gregos e o Deus dos monoteísmos.

Eis portanto o projeto que traço com este livro. No primeiro capítulo, intitulado “Pequenos ajustes entre espécies naturais e espécies sobrenaturais”, tratarei da construção de uma nova prova (ateia) da existência de Deus. Invocarei nesse sentido um dado antropológico preciso (a neotenia do homem), que deve permitir mostrar de que maneira a crença (em algum deus) pode ser analisada como um dado objetivo resultando da evolução da espécie humana. No capítulo dois, intitulado “O neotênio e seu duplo: os nomes de Deus”, examinarei diferentes formas, aspectos e residências atribuídas pelos homens ao divino. A partir do estudo de enunciados sagrados, de quadros de personagens gloriosos ou majestosos, de certos poemas hieráticos, de certas representações literárias do irrepresentável, observarei algumas maneiras eminentemente diferentes pelas quais essa disposição estrutural do espírito humano manifestou-se no tempo e no espaço. O capítulo três, intitulado “Iguais a Deus?”, buscará o enunciado de um novo sujeito filosófico que se define por formas outrora reservadas a Deus. O capítulo quatro tratará “Do possível inconveniente da morte de Deus”. De fato, se Deus é a suposição necessária do homem, a aniquilação dessa instância e o afastamento do homem de suas sujeições imemoriais terão provavelmente consequências inelutáveis (ontológicas, políticas, sociais e clínicas). O capítulo cinco, intitulado “Refazer o neotênio”, levantará a questão, considerável sob todos os aspectos, da provável saída próxima de nossa condição antropológica, vale dizer, do provável surgimento de uma pós-humanidade. Por isto é urgente esta narrativa de viagem ao país dos homens. Não se trata mais, para nós, de fixar a história das diferentes tribos antes que elas desapareçam para sempre. Hoje, é a história da estranha tribo humana em seu conjunto que devemos relatar, antes que seja tarde demais.

Notas

 

1 É o que bem demonstra toda a discussão conduzida por Bernard Sève. Cf. B. Sève, La

Question philosophique de l’existence de Dieu, Paris, PUF, 1994.

2 Samuel Beckett, Fin de partie, Paris, Minuit, 1957, p. 67.

3 Retomo aqui E. Gilson, L’être et l’essence, Paris, Vrin, 1972, cf. Introduction e Appendice I.

4 Refiro-me, é claro, ao romance de Georges Bataille Madame Edwarda (Paris, Pauvert,

1956), no qual Deus aparece ao narrador entre os dedos de uma prostituta que abre a última

cortina (seus “trapos”) encobrindo a verdade, e diz: “Está vendo? Eu sou DEUS...” O pequeno

desenho pouco conhecido de René Magritte sobre Madame Edwarda mostra perfeitamente

como são tecidas as relações de todo sujeito diante da “origem do mundo”: nós vivemos num

teatro em que o homúnculo vê do lado de fora a ideia fixa que traz dentro de si.