A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Dany-Robert Dufour · Capítulo 57 de 59

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A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Prometeu desacorrentado

Não foi, portanto, a arte abstrata que corroeu a alteridade na arte, foi o olhar pós-moderno sobre a arte, associado à multiplicação de uma produção insignificante voltada para a simples inovação. O resultado dessa aliança é incontornável: a partir do momento em que a arte não remete mais a uma alteridade, estão dadas as condições

para que haja apenas uma psicologização da arte.15

Assim é que ouvimos as exortações democráticas querendo nos fazer crer que somos todos artistas, que basta querer para poder e que na representação está em jogo apenas uma afirmação de si. Hoje em dia, isto é inclusive ensinado em grande escala. O neotênio, desvinculado do Outro, bem que gostaria de acreditar que, tendo-se tornado relativos o verdadeiro, o bem e o belo, tudo agora se equivale. Infelizmente, o acesso a uma nova condição subjetiva finalmente liberada dos ídolos está longe de se apresentar automaticamente com a queda dos grandes Sujeitos. Seria antes esse o verdadeiro problema a resolver na pós-modernidade – e, por enquanto, ele é insolúvel.

 

Prometeu desacorrentado*

 

Provavelmente por ser muito difícil fundar um sujeito desvinculado das sujeições reais e simbólicas imemoriais é que alguns querem hoje refazer o sujeito, não em sua simbolicidade, mas em sua própria organicidade... O que era previsível: era fatal que o enfraquecimento do Outro relançasse os projetos prometeicos. Estes já não se apoiam agora em receitas mágicas de aprendiz de feiticeiro, mas na força do pensamento binário que vem sustentar toda a criação protética. A tendência não parou de se fortalecer desde o Renascimento. E, por sinal, é esse o motivo pelo qual espíritos bem-intencionados não se cansam de incriminar a ciência. Mas o que antes deveria ser considerado é a configuração de conjunto de segunda natureza envolvida nesse projeto difuso de recriação do neotênio. Com efeito, não é tanto um problema de ciência ultrapassando seus direitos (pois o curso da ciência é se superar constantemente) quanto de uma questão política (no sentido do destino da polis) que está em questão. Para que um tal projeto seja montado, com efeito, é necessário o encontro, eminentemente político, entre a ciência, a criação protética e narrativas sustentando esse objetivo.

Ora, esse encontro ocorre atualmente e relança em novas bases o projeto prometeico: os três atributos principais da segunda natureza – a representação (visual, narrativa e sonora), as gramáticas e o protético –, ligados desde o Renascimento, parecem ter-se interconectado de tal maneira no século XX que nos vemos novamente lançados num projeto, implícito, de recriação do neotênio. Em outras palavras, a configuração criada entre techné, mythos e logos é extremamente poderosa: as gramáticas e os relatos permitem, com efeito, a invenção de novas situações protéticas, e as criações protéticas realizadas induzem a produção de gramáticas sustentadas por narrativas que possam dar conta delas.

Senão, vejamos:

– O neotênio inventa hoje próteses sensoriais poderosas. A experiência da evidência, estar presente ante a si e aos outros, é com isto profundamente transformada: o homem vive doravante num ambiente em que pode dispersar-se instantaneamente pelos quatro cantos do universo, ao mesmo tempo que todos os fragmentos do mundo podem imediatamente projetar-se nele (televisão, telefone celular, internet...). O ausente pode tornar-se instantaneamente presente, e o presente, adquirir as marcas da ausência. Se o homem tem a seu alcance hoje a possibilidade de consistir no espaço e de subsistir no tempo pelo modo da telepresença, ele existe, então, numa nova temporalidade, uma espécie de presente dilatado, policrônico, e numa nova espacialidade ubiquitária. A consequência é que o homem habita hoje um mundo no qual a ilusão de uma realidade única perdeu notavelmente sua ascendência, em proveito de séries móveis de “mundos possíveis”, de terras virtuais nas quais é possível se instalar e mesmo pular de uma a outra, ou por outra, “zapear”. A evidência de um “aqui” e de um “agora” sempre problemáticos nos quais era possível se instalar caducou.

– O neotênio dispõe nas próteses de tecnologias de cálculo capazes de tratar em tempo real as quantidades desmedidas de informações, até o momento irreversível de decisão.

– O neotênio vive a hora da procriação assistida, que muda os referenciais geracionais habituais e modifica os ajustes até então necessários entre os homens e as mulheres. Além disso, cabe supor muito fortemente que experiências de clonagem humana já estejam em andamento ou venham a ser empreendidas.

– O neotênio cria próteses biotecnológicas. Como ele reconheceu as letras que compõem a escrita do vivente e se esforçou por ler a escrita de que é a expressão, ele começa a intervir no curso da evolução das espécies, para mudar seu destino, reinventá-las ou misturá-las umas às outras – o que se costuma chamar de “OGM”: os organismos geneticamente modificados.

Como definir essa intensa criação protética? Ainda teria ela a ver com a sublimação, como acontecia, por exemplo, com a criação estética? Esta, como sabemos, permite botar na conta de causas consideradas superiores pulsões que de outra maneira viriam obsedar o sujeito. Nesse sentido, criação estética e criação protética participam ambas do fenômeno sublimatório, que de certa forma vem a ser o coroamento do processo. Mas a criação estética é um ato destinado a permanecer no domínio ideal e imaginário, ao passo que a fabricação protética faz retorno nos lugares físicos, reais, nos quais eram estabelecidos os limites da omnipotência. Ela volta para trabalhar materialmente nos lugares dessa aceitação e assim deslocar seus limites.

Em todas essas atividades protéticas, trata-se de ampliar nossa maneira de habitar o tempo e o espaço, de sair dos limites estreitos da sucessão das gerações, dos limites da filiação a um dos dois sexos humanos (homem ou mulher), dos limites da inscrição de um indivíduo numa espécie, dos limites que definem cada uma das espécies – trata-se, em suma, de deslocar todos esses limites para criar uma Florença no real, povoada por seres de um novo tipo. O humanismo do Renascimento desemboca hoje num novo Renascimento em que a nova criação protética acarreta a criação estética.

Não é por acaso que certos artistas hoje tomam a iniciativa de ultrapassar aquilo que separava a criação estética da criação protética.

Orlan, por exemplo, dissidente da body art e pioneira da transformação corporal por intervenção cirúrgica, emprega a cirurgia plástica para transformar seu corpo. Desde 1990, ela sofreu grande número de intervenções cirúrgicas para modificar sua aparência. Ela define seu trabalho como “arte carnal” e afirma querer realizar em si mesma um autorretrato com “a tecnologia do seu tempo”. Para Orlan, “a vanguarda não está mais na arte; ela está na genética, está

na biologia”.16 Assim ela define a “Arte Carnal” num manifesto:

 

– Definição:

A Arte Carnal é um trabalho de autorretrato no sentido clássico, mas com

recursos tecnológicos do tempo do artista. Ela oscila entre desfiguração e refiguração. Inscreve-se na carne porque nossa época começa a oferecer esta

possibilidade. O corpo torna-se um “ready-made modificado”, pois deixou de ser o ready-made ideal que basta assinar.

– Distinção:

Ao contrário da “Body Art”, da qual se distingue, a Arte Carnal não deseja a

dor, não a busca como fonte de purificação, não a entende como Redenção. A Arte Carnal não se interessa pelo resultado plástico final, mas pela operação-cirúrgica-performance e pelo corpo modificado, transformado em lugar de debate público.

– Ateísmo:

Em suma, a Arte Carnal não é herdeira da tradição cristã, contra a qual luta!

Ela denuncia sua negação do “corpo-prazer” e desnuda seus pontos de desmoronamento frente à descoberta científica. A Arte Carnal tampouco é herdeira de uma hagiografia permeada de decapitações e outros mártires, ela antes acrescenta que retira, aumentando as faculdades em vez de reduzi-las, a Arte Carnal não se pretende automutiladora. A Arte Carnal transforma o corpo em língua e inverte o princípio cristão do verbo que se faz carne, em proveito da carne feita verbo; só a voz de Orlan permanecerá inalterada, a artista trabalha na representação. A Arte Carnal considera anacrônico ou ridículo o famoso “vais parir na dor”, como Artaud, ela quer acabar com o julgamento de Deus; podemos agora dispor da peridural e de diversos anestésicos, assim como dos analgésicos, viva a morfina! Abaixo a dor!

– Percepção:

De agora em diante posso ver meu próprio corpo aberto sem sofrer com isto.

Posso me ver até o fundo das entranhas, novo estádio do espelho. “Posso ver o coração do meu amante e seu desenho esplêndido nada tem a ver com os sentimentalismos simbólicos que costumam ser desenhados.” – Querida, adoro o teu baço, amo o teu fígado, adoro o teu pâncreas e a linha do teu fêmur me excita.

– Liberdade:

A Arte Carnal afirma a liberdade individual do artista, e nesse sentido também

luta contra os a priori, os diktats; por isto é que se inscreve no social, nos meios de comunicação (nos quais causa escândalo por sacudir as ideias feitas) e irá até o judiciário.

– Esclarecimento:

A Arte Carnal não é contra a cirurgia estética, mas contra os padrões que ela

veicula e que se inscrevem particularmente nas carnes femininas, mas também nas masculinas. A Arte Carnal é feminista, é necessário. A Arte Carnal se interessa pela cirurgia estética, mas também pelas técnicas de ponta da medicina e da biologia, que questionam o estatuto do corpo e levantam problemas éticos.

– Estilo:

A Arte Carnal ama o barroco e a paródia, o grotesco e os estilos desprezados,

pois a Arte Carnal se opõe às pressões sociais exercidas tanto no corpo humano

quanto no corpo das obras de arte. A Arte Carnal é antiformalista e anticonformista.

 

O trabalho de Stelarc, por sua vez, baseia-se na ideia central de que o corpo humano tornou-se antiquado, ou por outra, “biologicamente insatisfatório”. Desde a década de 1960, Stelarc criou um vasto campo de experimentações dedicado ao aperfeiçoamento físico do corpo humano por meios tecnológicos. Stelarc sugere que, como computadores, nossos corpos físicos devem ser constantemente melhorados para evoluir e se adaptar à cultura tecnológica que

criamos. Vale a pena citar um longo trecho do seu manifesto:17

 

Nós sempre fomos corpos protéticos (...). Se tememos tornar-nos cada vez mais automatizados e prolongados [por próteses], tememos então aquilo que sempre fomos e que já nos tornamos – zumbis e cyborgs (...). O corpo não é uma estrutura muito eficiente nem duradoura. Ele muitas vezes funciona mal e se cansa rapidamente; suas realizações são determinadas por sua idade. Ele é suscetível de doenças e está condenado cedo a uma morte certa. Seus parâmetros de sobrevivência são muito escassos – ele não pode sobreviver uma semana sem alimento, alguns dias sem água e alguns minutos sem oxigênio (...) Seu sistema imunológico hiperativo dificulta a substituição de órgãos que não funcionam mais (...). Não se trata mais de perpetuar a espécie humana. Não se trata mais de perpetuar a espécie humana por reprodução, mas de melhorar as relações macho-fêmea graças à interface homem-máquina. O corpo é antiquado. Estamos no fim da filosofia e da fisiologia humana. O pensamento humano precisa projetar-se no pós-humano. A tecnologia pode transformar a natureza da existência humana, igualando o potencial físico dos corpos e normalizando a sexualidade humana. Com a fertilização in vitro e a possibilidade de cuidar do feto de forma artificial, nenhum nascimento é mais tecnicamente necessário. E se o corpo pode ser remodelado em bases modulares que permitem a substituição das peças defeituosas, não haverá mais nenhuma razão técnica de morrer. A morte não autentifica a existência. É uma tragédia evolucionista fora de moda. O corpo precisa tornar-se imortal para se adaptar. Os sonhos utópicos tornam-se imperativos pós-evolucionistas. Nenhuma ideia faustiana nem nenhum temor de franskensteinização poderão se opor ao bricolage do corpo (...). A organização atual do corpo é inútil. Os futuros progressos ocorrerão graças a uma mudança de pele. Uma pele sintética será capaz de absorver o oxigênio diretamente por seus

poros, podendo transformar a luz em alimentos químicos. Então, poderemos remodelar radicalmente o corpo, eliminando muitos sistemas supérfluos e órgãos defeituosos. O corpo vazio seria um excelente hospedeiro dos componentes tecnológicos.

 

Em cinquenta anos, passamos do “corpo sem órgãos” de Artaud, que o poeta estava incumbido idealmente de reconstruir com forte ajuda de invocações glossolálicas, à fábrica real de um “corpo oco” pronto para receber componentes tecnológicos.

Quando não é a arte que se abre para a técnica, é a técnica que se oferece à arte. A “plastinação” é um bom exemplo disto. Trata-se de uma técnica desenvolvida em 1977 pelo professor Gunther von Hagens. As matérias e formas cuja produção é permitida pela plastinação pretendem hoje a condição de arte. Ela se apresenta como uma técnica altamente elaborada de mumificação ou embalsamamento dos corpos. E de fato permite conservar indefinidamente um cadáver, enrijecendo seus tecidos pela impregnação de substâncias plásticas (polímeros) que substituem a água e as gorduras dos tecidos. Esse método permite preservar da degradação qualquer órgão, seja sadio ou doente – coração, pulmões, intestinos, fígado e até corpos inteiros. Secos, imputrescíveis, sem cheiro e não tóxicos, esses corpos podem ser manipulados sem qualquer medida especial de higiene. “Eles devem ser tão belos e fascinantes que ninguém possa ficar chocado”, declarava o professor von Hagens. Tão belos e fascinantes que o professor transformou-se

em artista para expor centenas de corpos plastinados** numa exposição intitulada Körperwelten (“O mundo dos corpos”). Desde 1995, essa exposição já foi vista por milhões de pessoas na Alemanha, na Suíça, no Japão, na Bélgica e em outros países. Em Bruxelas, foi montada num lugar altamente simbólico, os antigos abatedouros da cidade. Nela, podiam ser vistos magníficos cânceres plastinados, fetos natimortos para sempre presos ao ventre de sua mãe, morta no parto, esfolados de crânio aberto jogando uma eterna partida de xadrez, cavalos ocos montados por cavaleiros lacerados e cortados... Os problemas implicados nesta exposição não passaram despercebidos ao psicanalista Charles Melman: “Essa exposição e seu sucesso popular deixam claro o quanto foi ultrapassado um novo limite, talvez sem que o soubéssemos (...). É apagada aqui a permanência de um lugar que é, em geral, um lugar de memória, um lugar sagrado, naturalmente, no qual o corpo humano transformado em cadáver é abrigado, ocultado. Aquilo que hoje constitui nossa exigência de transparência, nosso gosto pela luz, é com isto, aí, capaz de operar tranquilamente. Ou quase tranquilamente (...). A técnica desenvolvida por nosso ‘artista’ permite com toda impunidade, pelos melhores motivos, em plena cordialidade, um gozo escópico da morte, e, portanto, a superação daquilo que ontem era ao mesmo

tempo proibido e impossível.”18

Um artista como Matthew Barney (Estados Unidos) encena corpos fictícios às voltas com forças inquietantes. Na exposição apresentada no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris de 10 de outubro de 2002 a 5 de janeiro de 2003, Matthew Barney dava continuidade a um ciclo iniciado em 1994, descrevendo a evolução do corpo através das etapas biológicas, fisiológicas, geológicas e genealógicas, girando em torno das condições anatômicas da “ascensão” e da “degradação”. Ela tinha como título Cremater, do nome do músculo que, contraindo os testículos sob o efeito do frio ou do medo, protege os espermatozoides das variações de temperatura e assim garante a sobrevivência da espécie. Nela tinha grande espaço a questão da indeterminação sexual que caracteriza o embrião durante as seis semanas que se seguem à concepção, antes da formação de seus órgãos reprodutores. Os materiais usados pelo artista – híbridos feitos de lubrificantes, vaselina, cera, resina, plástico, silicone, vinil nacarado, tapioca modelada – davam a sensação de estar mergulhados em universos orgânicos próximos do líquido amniótico, da secreção genital, de estar circulando em mucosas de paredes tépidas. A exposição dava uma sensação de corrupção perturbadora, com cheiros de sala de operação, como se já estivesse ocorrendo uma intervenção crítica de objetivo estético.

 

Mas as fronteiras entre o artístico e o protético conhecem novas explorações. A chamada arte “biotech”, assim, está em constante

extensão.19 Essa arte fabrica hoje animais fluorescentes verdes,20

utiliza o DNA humano para produzir esculturas e poemas,21 faz

nascer asas nos porcos,22 realiza esculturas semivivas...23 Ela proclama que a arte não continuará sendo conceitual, mas tem vocação para se apropriar da vida para transformá-la – o que representa, para os artistas biotech mais avançados, uma oportunidade de questionar intensamente o público sobre o sentido dessas transformações.

As obras de que acabamos de tratar, assim como as de muitos outros artistas, tenderiam a demonstrar que uma parte da arte produzida na época pós-moderna continua, ao contrário de uma ideia muito disseminada, sob a égide da busca do sublime. Pelo menos é o que se aplicaria à criação que ainda não está sob o controle do mercado de arte, atento exclusivamente à pura e simples exibição de um novo que cabe ao espectador interpretar ao seu bel-prazer. Nas obras que acabamos de ver, o sentimento de se defrontar com o infinito, o ilimitado, o descomedido, perdura e continua a provocar afetos extremos, misturando exaltação e medo.

 

Se essa arte que assume o protético provoca tais afetos, é também porque defronta com a relação corolária: o momento em que o científico se sonha como artista. Com efeito, as fronteiras entre o protético e o estético tornam-se vagas. A arte viva transforma-se numa arte do vivente.

E, por sinal, a arte biotech não se limita à população dos bioartistas que se declaram como tal. Essa extensão dá testemunho da virada prometeica sofrida pela pós-modernidade. Citarei, a esse respeito, apenas o relato exemplar de um “bioinformaticista” que meteu na cabeça manipular o patrimônio genético das abelhas para fabricar “um animal que não existe na natureza: a abelha sem

veneno, de picada sem risco e quase indolor”.24 Ele fala de seu “projeto-abelhas” como de “uma paixão pessoal”. Entrega-se a ele, afirma, “como outros fazem música”. Instalou em seu jardim três colmeias de madeira branca cheias de abelhas, e no quarto da filha, um laboratório carregado de recipientes estanques cheios de DNA de abelhas, produtos químicos e culturas bacterianas vendidas livremente. Ele efetua suas manipulações genéticas sozinho, em casa, com toda liberdade, sem prestar contas a ninguém. Manda analisar suas amostras numa empresa local especializada na decifração do código genético: “Trata-se de uma operação automatizada perfeitamente banal, que custa apenas 25 dólares. Os resultados são enviados diretamente a meus computadores pela internet, e eu preciso apenas usar meus programas de bioinformática para interpretá-los.” Uma vez realizada, a manipulação terá custado ao todo menos de 500 dólares. Naturalmente, não é impossível que o vizinho desse artista “bioinformatizado” seja um outro “bioartista” que trabalha em sua garagem na criação de uma abelha com veneno de cobra...

A reportagem esclarece que, “na região de San Francisco, o debate sobre a ‘genética livre’ saiu do gueto dos especialistas, graças sobretudo à ação de vários movimentos culturais vanguardistas. Grupos de artistas plásticos, escultores e videastas, que se denominam ‘bioartistas’ ou ‘biopunks’ – em referência ao movimento cyberpunk, que também surgiu em San Francisco –, decidiram intervir à sua maneira. Eles promovem exposições pictóricas lúdicas ou provocadoras, conferências e mesmo intervenções nas escolas. Advertem a opinião contra as ações das empresas de biotecnologia, mas também se opõem aos tradicionalistas, religiosos ou laicos, que pretendem impedir o advento de um mundo novo, retrabalhado pelo gênio genético. Militam, por exemplo, pela legalização de todas as formas de manipulações genéticas ‘consensuais’, vale dizer, praticadas num adulto com seu consentimento ou em si mesmo”. Uma bioartista indica, a esse respeito, que a arte biotech chegou atualmente ao ponto a que havia chegado a informática há 35 anos, quando “Bill Gates e Steve Jobs faziam computadores na cozinha”. Eu mesma, acrescenta, “vendi duzentos kits para fazer crescer pele humana, movimentar asas de borboletas por um sistema elétrico ou criar

bactérias fluorescentes...”.25

“Bioinformaticista”, “bioartista, “biopunks”, “biohackers”, eis o caminho para o qual ruma atualmente a criação. Ele parece indicar que o artista pós-moderno não é apenas aquele que busca exumar o retrato do neotênio, mas também aquele que quer “refazer seu

retrato”.***

Deveríamos ter imaginado isso há muito tempo. A proposição de Leroi-Gourhan segundo a qual o objeto técnico, apesar de inorgânico, desenvolve-se segundo uma lógica semelhante à do ser vivo, essa observação extremamente penetrante deveria ter-nos deixado, como se diz, com “a pulga atrás da orelha”. De fato, que podemos visar, através dos congregados protéticos, senão a promover o retorno a nossas próprias determinações biológicas, vale dizer, a nossas limitações neotênicas, tanto mais que a partir de agora isto é possível? As próteses atuais são próteses parciais que se combinam para se congregar um dia numa prótese essencial, graças à qual sairemos dessa relegação no tempo, no espaço e na individuação. E, de fato, de que serviriam as realidades criadas se não fosse para fazer retorno no próprio real?

Resta, portanto, pensar os lugares e os momentos em que as grandes tecnologias atuais (da procriação assistida, da informática e da inteligência artificial, das próteses sensoriais, da biotecnologia genética...) se arriscam na ultrapassagem dos próprios limites que constituíam aquilo que ainda chamamos de “ordem simbólica”, sem

mais saber muito bem o que realmente a constitui.26

Nessas ultrapassagens, são gerados ao mesmo tempo novos “gozos” e novas formas de “sofrimento”. Proust, em Sodoma e Gomorra , dizia que “o progresso da civilização permite que cada um manifeste novos vícios”, o que permite entender que o mal-estar na civilização se renova na medida dos progressos. E, por sinal, eu já

indiquei em outra oportunidade**** que entre esses “novos vícios”, vale dizer, entre essas que não podemos deixar de chamar de novas perversões da civilização em sua fase pós-moderna, devemos contar as novas formas assumidas pelas duas principais (e mais antigas) denegações, a diferença sexual e a diferença geracional. Essas denegações se sustentam, naturalmente, na fabricação protética. Vale dizer, próteses químicas (hormônios ou outros), próteses sexuais por cirurgia plástica, mas também próteses sensoriais permitindo, por exemplo, a invenção de uma sexualidade pós-moderna, virtual, sem encontro de corpos, geradora de novos gozos e, naturalmente, de novos sofrimentos.

As próteses sensoriais (entre as quais, por exemplo, a internet), para nos limitarmos a esse aspecto, constituem, com efeito, um meio de acesso a novos gozos e também a novos sofrimentos, na medida em que utilizam a disposição do sujeito de jogar com (ou de ser jogado por) as categorias simbólicas do aqui (e, portanto, do alhures) e do agora (e, portanto, do antes e do depois) que o constituem. Com “gozo” quero dizer “vertigem” até a dessubjetivação, a que é proporcionada pelo fato de transportar um aqui sonoro ou visual para outro lugar, ou de trazer um outro lugar para aqui... Graças a essa dessubjetivação, eu posso “tornar-me”, como dizem os usuários da “sexualidade.com”, quem eu bem quiser: um homem, uma mulher, uma criança... O corpo pode ser modelado pelo simples desejo, e a técnica faz o resto. Essas tecnologias entregam ao sujeito novas dimensões lúdicas, talvez, mas sobretudo vertiginosas, na medida em que ele pode colocar em jogo, na acepção da palavra, os referenciais simbólicos em que é construída sua própria e extremamente problemática evidência (o eu, no cruzamento de um aqui e de um agora).

Mas essas alegrias e esses sofrimentos, a maior parte ainda por vir, são no fim das contas pouca coisa ao lado do “mais-gozo”, assim como da infelicidade total, ligados a uma ultrapassagem fatal das últimas barreiras constitutivas da ordem simbólica, no interior das quais o desejo humano, neotênico, permanece contido. Que poderia advir de uma atividade protética chegando a seu ponto de inversão, vale dizer, conseguindo fazer do próprio homem uma superprótese – a tentação de um gozo tanto mais intenso na medida em que essa infelicidade paroxística acabaria definitivamente com todas as outras formas de infelicidade e mal-estar da humanidade neotênica, pois desembocaria numa outra humanidade? Uma pós-humanidade! É esse ponto-limite que me parece ser explorado pela pintura de um Paul Rebeyrolle, em busca de uma sublime figuração da clonagem.

Há quem faça pouco dos temores acarretados pela atual desinibição simbólica do neotênio. E, de fato, não estão errados ao lembrar que a modernidade, saturada de grandes Sujeitos, de modo algum foi isenta de problemas trágicos: basta lembrar as terríveis matanças promovidas no século XX em nome dos ídolos então no zênite do Estado-Nação, da República, do Proletariado, ou da Raça...

Seria bom imaginar que a destruição do simulacro simbólico acarreta apenas um abrir os olhos doloroso, é verdade, mas salvador do sujeito passando subitamente do assujeitamento à autonomia. Entretanto, como a autonomia do neotênio frente ao grande Sujeito ainda é hoje um problema não resolvido, sua desinibição simbólica atual provavelmente não passa do primeiro tempo da sua libertação real. Em outras palavras, a ultrapassagem das barreiras simbólicas só pode com o tempo desembocar numa transformação da humanidade por ela mesma.

Com a referência à ultrapassagem fatal das barreiras simbólicas não me refiro, naturalmente, ao bricolage protético permanente, inteiramente coextensiva à atividade humana, mas ao passo além que seria tornado possível pela essencial prótese, permitindo ao homem sair de sua condição. Esse passo constituiria um ponto de não retorno quanto à constituição do universo simbólico: dar vida sozinho, escapar à filiação, reduzir a alteridade ao mesmo... Que pensar, por exemplo, de um processo de transmissão de vida que pudesse escapar à filiação e engendrar-se lateralmente? Não seria conseguir algo parecido com um ancestral/irmão no qual haveria uma realização por outros caminhos daquilo que o tabu do incesto, constitutivo, pelo que sabemos, de todo laço social, proibia – um

tecnoincesto?27

Existem aí questões de civilização cruciais e totalmente inéditas a serem discutidas. É, com efeito, a primeira vez na história dos seres vivos que uma criatura chega a ler a escrita de que é expressão. A saída do código genético natural desencadeada pela neotenia e a obrigação de escrever de maneira exógena todas as leis do mundo nos proporcionam atualmente as gramáticas que permitem a leitura do texto genético e, portanto, sua reescrita.

Chegamos, de fato, ao ponto em que a eficácia conquistada no estabelecimento de escritas artificiais binárias (cibernética, inteligência artificial...) permite dar conta da escrita natural do ser vivo. Chegamos também ao ponto em que o desenvolvimento da atividade protética permite promover uma interface dessas duas escritas para intervir na vida. O que o neotênio precisou desenvolver para tornar sua condição viável, da ordem da remediação protética destinada a suprir sua organicidade falha e da ordem do desenvolvimento de gramáticas lógicas binárias em todos os terrenos de atividade, essas duas dimensões acabaram por se encontrar para fazer retorno na organicidade específica da condição neotênica, da qual tudo partiu – a linguagem, a condição histórica e a submissão ao grande Sujeito. O neotênio está em processo de refazer o mundo vivo e de se refazer: esse corpo frágil que veio do fundo das eras provavelmente logo desaparecerá e um outro corpo poderá nascer.

A aventura epimeteo-prometeica do neotênio chega a uma virada decisiva: o falante está a ponto de levar a melhor sobre o vivente. E, com efeito, podemos perceber que transcorrem atualmente muitos debates, na era da pós-modernidade e do crepúsculo de deus, sobre os possíveis efeitos de retorno da segunda natureza sobre a primeira. A segunda natureza é doravante suscetível de remanejar a primeira, vale dizer, de agir sobre o real da diferença sexual, de diferença geracional, sobre as relações entre animalidade e humanidade, sobre a separação natural das espécies, sobre a morte... O que se revela, com essa falta do Outro, é que o antigo real, o real da primeira natureza, perde-se de vista. Podemos assim nos questionar sobre o que poderá vir a tornar-se um sistema simbólico que perdeu seu arrimo nesse real. O que o sujeito obrigado à autofundação perde, com efeito, é uma espécie de apoio em relação a esses astros que tinham o bom gosto de voltar sempre ao mesmo lugar para lhe fornecer alguns referenciais reais num mundo em que tudo se move: o dia/a noite, os pais/os filhos, os homens/as mulheres, os animais/os homens, a vida/a morte... Em suma, estamos vendo desfazer-se o ternário das categorias lacanianas do real, do imaginário e do simbólico. E de fato constatamos, como demonstrava Lacan com seu nó borromeano, que não é possível invalidar uma dessas categorias sem perder as três ao mesmo tempo. Ao se desfazer uma delas, tudo se desfaz.

Após a falha simbólica do Outro, um outro modo do real surge: ele está dando lugar ao que poderia ser chamado de “hiper-real”. O hiper-real seria um neorreal, caracterizando-se por obedecer ao dizer, seja esse dizer o dizer de um mundo possível da ciência ou o dizer imaginário de uma denegação do real. O falante, na época pós-moderna que obriga o sujeito à autofundação, tomou a dianteira do vivente e de suas determinações.

 

E, por sinal, me parece que Lacan, muito pouco tempo depois da invenção do seu ternário, contemplara a possibilidade de seu tempo de vida curto e de seu próximo desuso. No capítulo XXII do Seminário IV, A relação de objeto (1956-57), intitulado Ensaio a propósito de uma lógica de borracha, Lacan escrevia: “Faremos nas mulheres, dentro de uma centena de anos, filhos que serão os filhos diretos dos homens de gênio que vivem atualmente, e que até lá terão sido preciosamente conservados em pequenos potes. Alguma coisa nessa oportunidade foi cortada ao pai, e da forma mais radical – e também a palavra. A questão é saber por que via, de que modo, se haverá de inscrever no psiquismo da criança a fala do ancestral (...) enlatado. (...) Talvez convenha precisar a palavra natureza e acabaremos dando ênfase ao caráter profundamente artificial do que até agora era chamado de natureza. Em suma, talvez não sejamos nesse momento completamente inúteis como termo de referência. (...) A distinção entre imaginário, simbólico e real não bastará talvez para colocar os termos do problema, o qual, a partir do momento em que pode ser mobilizado na realidade, não me parece a ponto de ser resolvido.”