A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
Encenação do grande Sujeito
Nesse sentido, é bem possível que todos os combates para se libertar de uma servidão voluntária a um grande Sujeito consentida há tempo demais não passem no fim das contas de lutas para mudar de ficção. “Porque isso de destruir as ficções sociais”, escrevia Pessoa, “tanto pode ser para criar liberdade, ou preparar o caminho da liberdade, como para estabelecer outras ficções sociais diferentes,
igualmente más porque igualmente ficções.”42 E por que isso seria inelutável? Porque “no estado social presente não é possível um grupo de homens, por bem-intencionados que estejam todos, por preocupados que estejam todos só em combater as ficções sociais e em trabalhar pela liberdade, trabalharem juntos sem que espontaneamente criem entre si tirania, sem criar entre si uma tirania
nova, suplementar à das ficções sociais”.43 Para explicar essa característica, dispúnhamos apenas de uma psicologia fatalista e sumária do ser humano; a teoria da neotenia e da eleição necessária de um grande Sujeito indica em que medida se trata de um efeito de estrutura.
Encenação do grande Sujeito
É através da arte, em todas as suas formas, que o grande Sujeito vem a ser constantemente encenado. Esclareço imediatamente que esta proposição – a arte está fadada à representação do grande Sujeito – de forma alguma significa que a arte possa ser pensada como um lugar homogêneo. De fato, a partir do momento em que se sai dos grupos comunitários organizados em torno de seu totem, a partir do momento em que a História avança e as sociedades se abrem ou pelo menos se entreabrem, introduz-se em certos níveis do corpo social uma dose mais ou menos importante de “pluralismo dos valores” que faz com que coexistam, ao lado das finalidades determinadas
pelo grande Sujeito legítimo, modos e mundos possíveis.44 Esses mundos fazem parte do real do artista tanto quanto a versão do mundo autorizada pelo grande Sujeito. E, por sinal, sabemos o quanto os soberanos desconfiam em geral dos artistas, sempre suspeitos de querer servir a outras causas. E naturalmente eles têm razão, pois o artista é, entre todos, aquele que deixa falarem em si mesmo essas vozes múltiplas provenientes dos grandes Sujeitos passados, atuais, outros ou por vir, e que não para de trabalhar sua relação, eventualmente difícil e sempre singular, com todas essas figuras. Dizer que a arte está fadada à representação do grande Sujeito não implica, assim, nenhuma homogeneização artificial ou artificiosa da arte, muito pelo contrário, pois é precisamente sob esse aspecto que a diversidade é mais vasta.
Essa diversidade é constantemente reativada pela necessidade de permanente reconstrução da efígie do grande Sujeito para adaptá-lo às menores mudanças e fazer com que corresponda às trocas simbólicas que deve assegurar. À medida que a História avança, com efeito, o grande Sujeito não para de se deslegitimar, de tal maneira que é sempre necessário recomeçar a cantá-lo, a pintá-lo, a representá-lo. É preciso mobilizar incansavelmente todos os recursos artísticos de mediação – narrativas, cantos, músicas, poesia, pintura... – para conferir-lhe um aspecto conveniente, uma representação e mesmo uma irrepresentação (que nunca passa de uma das modalidades da representação), genealogias, um traje, uma
voz, ou seja, uma palavra e uma vocalidade, uma expressão...45
Representar o panteão dos deuses gregos não é pouca coisa: estamos às voltas com um grande Sujeito múltiplo, no qual as narrativas não cessam de se entrecruzar e se retomar reciprocamente, numa proliferação que poderia ser infinita se não tivéssemos deixado de invocar esse grande Sujeito. Ora, como indica Lévi-Strauss, o mito desenvolve-se enquanto é percebido como tal. Para além, ou seja, a partir do momento em que não se acredita mais no grande Sujeito apresentado pelas narrativas, é preciso recomeçar do zero para inventar um novo grande Sujeito.
Chegado o momento de representar o deus dos monoteísmos, será necessário mobilizar uma outra narrativa, enorme, totalizante, uma outra iconografia (quando foi autorizada) considerável, outras formas musicais permitindo ouvir a música das esferas, uma nova estatuária... A narrativa de Deus é assim um canteiro de obras em andamento há várias dezenas de séculos.
Cada um dos grandes Sujeitos da História mobiliza, assim, toda uma arte. De fato, sempre foi necessário encenar um grande Sujeito. De modo que todas as sociedades são, como já dissemos, sociedades do espetáculo – o que muda de uma para outra é apenas o tipo de espetáculo e seu objeto. A arte, em todas as suas dimensões (narrativas, poéticas, pictóricas, musicais...), é o que dá corpo ao grande Sujeito, o que permite configurar-lhe uma efígie apresentável. Nesse sentido, a arte é sempre a arte do grande Sujeito. É verdade que pode acontecer de um pequeno sujeito, “um submisso, por ser esperto e ardiloso”, como diz Louis Marin, referindo-se àquele que
consegue voltar a força do poder contra o poder,46 conseguir imprimir sua marca em algum lugar num retrato (como Masaccio nos afrescos da capela Brancacci em Florença, ou como Rembrandt se apresentando em seus autorretratos em todas as épocas da vida, em todas as posturas, como príncipe, burguês, artista, mas também mendigo, miserável, louco e até cego...), ou com mais certeza numa maneira de fazer, num estilo, numa assinatura. Mas não podemos esquecer que determinado estilo, por inimitável que seja, ou determinado retrato estão sempre a serviço de uma arte que supera o artesão de todos os modos. Mesmo no caso do artista, reconhecido e celebrado a partir do Renascimento por seu poder de criação
pessoal,47 sua arte é sempre posta a serviço de quem e daquilo que o supera. E, por sinal, o artista sempre dependeu, se não do próprio grande Sujeito, pelo menos de um mecenas, vale dizer, de um
É
representante autorizado do grande Sujeito. É ainda hoje o que se verifica, na medida em que o artista geralmente depende de uma maneira ou de outra, para sobreviver, do Estado, e assim seu toque, sua “marca”, seu estilo são sempre capitalizados pela instância que o emprega e que, por sua vez, trabalha em nome e pela glória do grande Sujeito.
Mas não devemos entender essa dependência no sentido de uma instrumentalização das artes: as artes – pelo menos as boas – não são as executantes servis das tarefas representacionais do grande Sujeito. Para começo de conversa, por serem o lugar por excelência onde não cessam de se trabalhar constantemente todas as relações possíveis, eventualmente conflituosas, com o grande Sujeito. Depois, porque sempre se vê o próprio artista por trás (ou dentro) do que ele mostra. De fato, ele nunca desaparece completamente por trás do grande Sujeito que representa, de tal maneira que, como dizia Feuerbach, “os templos erguidos em homenagem à religião o são, na verdade,
em homenagem à arquitetura”.48 Muito ao contrário de serem instrumentalizadas, as artes é que devem inventar o que não existe: uma maneira plausível de representar, vale dizer, de fazer com que se sustente este ou aquele grande Sujeito. A arte é, portanto, um lugar onde se pensa, com aquilo de que se dispõe, com conceitos, com imagens ou com sons, sobre os problemas, não raro insolúveis, de re-presentação do grande Sujeito. E o artista é, assim, aquele que desenvolve uma fabulação criadora para resolver problemas inusitados.
Por exemplo, é um grande problema representar deus. O artista poderá fazê-lo de várias maneiras: não o representando (cf. a solução das religiões mosaicas); antropomorfizando deus e ao mesmo tempo instalando-o num outro mundo, diferente do mundo do homem (o céu, o Olimpo...). Mas se for audacioso e quiser capturar o interesse de seu auditório e de seus espectadores, também poderá tentar representar... o infinito. Terá, então, de encontrar uma solução adequada. Como não dispõe do infinito para mostrar o infinito, caso
contrário seria ele próprio deus,49 o artista terá de encontrar uma solução que consista em mostrar o infinito no finito – pois na verdade sua matéria, qualquer que seja, tela ou bloco de pedra, é perfeitamente finita. Não é um problema fácil, mas existem algumas soluções. Ele pode, por exemplo, recorrer à figura do labirinto. O labirinto é, com efeito, a figura que melhor responde a essa questão delicada, na medida em que permite pôr o mais longo comprimento na menor superfície. E foi às vezes utilizado; os labirintos são comuns no século XIII, como na catedral de Amiens, na igreja de Saint-Quentin, na catedral de Chartres... Eles também estariam presentes em certas representações do ventre (divino) da Virgem: assim é que podemos ver em certas iluminuras da época bizantina o ventre da Virgem, perímetro finito, carregar Deus, o infinito, sendo mostrado na forma de um labirinto. Desse modo, o labirinto seria utilizado para figurar a infinitude (de Deus) no finito, por sinal depois de ter sido usado na mitologia grega para figurar a
correspondência do início com o fim.50 Em outros casos (por exemplo, na chamada Virgem de Wladimirskaya), encontraremos “uma arquitetura linear e repetitiva na qual se inscrevem ondas sucessivas que disseminam efeitos circulares e centrífugos do espaço ocupado”. Em outros ainda (por exemplo, na Virgem de Blachernes, denominada Virgem do oximoro por Marie-José Mondzain porque o interior e o exterior se invertem), o corpo materno é transformado em “ventre cósmico, [vale dizer] em figura do englobamento
ilimitado”.51
Poderíamos, assim, dizer que a arte é o que resolve um problema de representação do grande Sujeito, o que encontra e apresenta uma solução possível para um problema impossível.
Não surpreende, então, que sejamos levados a buscar exemplos no período bizantino, pois a crise do iconoclasmo bizantino representa o grande momento em que essa questão de uma política das imagens foi elaborada no Ocidente. Devemos a Marie-José Mondzain a exumação da meditação e dos textos de Nicéforo que remetem à impossibilidade de pensar e governar sem a imagem. A questão é saber de que maneira é possível fundar o mundo sobre a visibilidade, ou seja, sobre a visibilidade do grande Sujeito, Deus, a partir da convicção de sua invisibilidade. “Foi necessário”, escreve Marie-José Mondzain, “produzir um pensamento que pusesse em relação o visível e o invisível. Essa relação apoiou-se sobre a distinção entre a imagem e o ícone.” A imagem refere-se ao invisível, ela é mistério, eterna semelhança. O ícone é visível, é enigma, é temporal semelhança. A economia, ou seja, “a gestão e a administração das realidades temporais”, foi o conceito da viva articulação entre imagem e ícone. A grande questão é saber “quem será o senhor das imagens?”, vale dizer, “quem respeitará a imagem natural na imagem
artificial”.52
Entre os problemas de representação mais difíceis está a aseidade do grande Sujeito. Entendo por aseidade (de a se, em si) o caráter do ser que é por si mesmo, cuja existência não depende de um outro. Ou seja, um ser causa sui (que é sua própria causa). E é por sinal em virtude desse caráter que o grande Sujeito envolve sempre uma ontologia, pois ele figura como substância infinita em relação às substâncias finitas que são os homens. O único problema a resolver para dispor de um tal sujeito é encontrar um meio de representar sua fundação por si mesmo. Em suma, não há ontologia sem
“ontotautologia”.53 Mas como representar um grande Sujeito como sendo por si mesmo sua própria origem? Vou examinar várias ocorrências desse problema crucial, sem cuja resolução a instituição do grande d’homensticador não pode ter lugar.
Essa busca vai-me levar a postular as premissas de uma outra estética. De fato, muitas vezes nos limitamos a um pensamento estético binário subordinado às relações fundamentais que instituem a metafísica clássica, como corpo e espírito, ser e ente, aparência e verdade, forma e fundo, essência e estrutura... De modo algum eu contesto as estéticas derivadas dessas relações disjuntivas. Mas tenho a expectativa de novos efeitos de saber, saídos da introdução das racionalidades trinitária (inscrevendo a obra numa relação enunciativa de três termos) e unária (buscando a maneira como a sui-referência é construída na obra). Essas racionalidades, que anteriormente apresentei como fundadoras do universo simbólico de segunda natureza no qual vive o neotênio, serão portanto constantemente mobilizadas na analítica da d’homensticação à qual me entregarei agora.