A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

Dany-Robert Dufour · Capítulo 24 de 59

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A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu

II. O neotênio e seu duplo: os nomes de Deus

 

Dei a esta parte o título de “O neotênio e seu duplo” a bem da compreensão de que, a essa altura, não posso mais falar do neotênio sem falar do par que ele forma com o Outro, o grande d’homensticador, o ser de suposta sobrenatureza que ele precisou inventar para sobreviver.

Gostaria também que fosse ouvido “... e seu duplo” – vale dizer,

ainda que distante, a voz de Artaud.1 Por quê? Porque existe um “teatro” e mesmo um estranho “teatro da crueldade” a ser explorado entre o neotênio e o Outro. A d’homensticação, como vimos, encena dois “personagens” improváveis, vale dizer, um animal perdido, decaído de sua esplêndida animalidade, e um ser supostamente “sobrenatural”. O que remete a um abismo de relações entre eles dois e, ao mesmo tempo, a uma soma de determinações impiedosas.

Das páginas anteriores, impõe-se, com efeito, uma conclusão cujo lugar devemos imediatamente reconhecer: o neotênio não pode pensar-se como sujeito sem se referir a um grande d’homensticador.

É, portanto, esse par, em todos os seus estados, que tentarei explorar.

Naturalmente, ele é permeado pelas relações natureza/cultura. Com a ressalva, entretanto, de que a palavra “cultura” parece-me aqui estereotipada. Já sabemos, com efeito, do que é composta a cultura: a língua, o patrimônio artístico, o pensamento... E sabendo-o demais, omitimos outra coisa: que a cultura é na realidade uma

“segunda natureza”,2 vale dizer, uma epinatureza que tenta suprir a falta de primeira natureza do neotênio.

Além disso, dizer “natureza” e “cultura” logo leva a crer em dois mundos separados, cada um com suas leis próprias. No mundo da natureza, são aplicadas as leis (orgânicas) do ser vivente, ao passo que no mundo da cultura são aplicadas as leis (simbólicas) do ser falante. Essa separação entre o vivente e o falante é reforçada na medida em que se atribui ao mundo do vivente o princípio da necessidade e ao mundo do falante o do desejo, insistindo muito nesse corte.

Não quero aqui contestar, é verdade, a diferença entre as leis da primeira natureza e as da segunda, mas apenas lembrar o que costuma ser esquecido: que esses dois mundos têm sua autonomia própria, mas estão em continuidade. Com efeito, o que se coloca como questão num mundo pode eventualmente receber uma resposta no outro. E, por sinal, é exatamente desse ponto de vista que se coloca a questão da necessidade do grande d’homensticador: ela nasce na primeira natureza, com os problemas de dominância nos hominianos, e como não pode encontrar uma solução aí, pelo fato da neotenia, de certa maneira se resolve na segunda natureza, com a invenção de um ser de sobrenatureza. É muito interessante, a esse respeito, lembrar-se de que Freud tocou de leve nessa questão em sua análise do papel da hipnose nos fenômenos de massa: “Existem nela [na hipnose] muitas coisas que devemos reconhecer místicas. Ela comporta um acréscimo de paralisia proveniente da relação de um ser superpoderoso com um ser impotente, em desamparo, o que de

certa forma faz a transição para a hipnose do terror dos animais.”3 Incrível precisão de Freud: falando do homem, ele evoca animais em desamparo para chegar, quando analisa a relação de um ser impotente com um ser superpoderoso, a uma forma mística... Com ele, não estamos longe da minha formulação: uma questão de primeira natureza como a da dominância pode receber sua resposta na segunda natureza. A isso eu acrescento duas observações: 1) que os neotênios amam com um amor extremamente poderoso (místico, efetivamente) as figuras de segunda natureza que criam; 2) que se trata de um amor a ser distinguido do amor de um sexo pelo outro, já que remete ao amor, eventualmente assimétrico, dos dois sexos pelo Outro.

Chego, assim, a este ponto: a domesticação do homem passa pela eleição ou a ereção, no centro dos sistemas simbólicos, de uma grande figura imaginária. Mas essa grande figura nada tem de fixo. Com efeito, estando a segunda natureza em permanente expansão, o neotênio vê-se constantemente obrigado a reinventar os deuses que sustêm seu mundo, sob pena de total esboroamento.

Embora sejam definidos no tempo pela eternidade ou a imortalidade, os deuses não param de mudar. “Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade/ Nem veio nem se foi: o Erro mudou”, escreve Fernando Pessoa num de seus poemas, acrescentando: “Um

novo Deus é só uma palavra.”4 Cada deus, embora sempre mais onisciente e onipotente que o anterior, permanece sujeito à historicidade e à regionalidade. Única certeza que se pode ter com um deus: sua figura, apresentável aqui e agora, não o será mais em outro lugar e mais tarde. Incontestavelmente, certos deuses são mais persistentes que outros, mas num tempo extremamente prolongado a única lei que se pode estabelecer em matéria de Deus é que seu aspecto deve estar de acordo com tudo que constitui o ambiente de segunda natureza que prevalece em dado momento, em dado lugar, logo, com as narrativas, as gramáticas, os objetos protéticos. A partir do momento em que um deus eterno ou imortal – substituto de dominante – não serve mais, os neotênios não hesitam em matá-lo, recriá-lo ou mudá-lo (ou seja, mudar de narrativa), ainda que ao preço de algumas guerras.