A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu
2. Os nomes de deuses
Essa noção de construção discursiva é importante: não são entidades reais que os homens elegem como grande sujeito. Provavelmente é a própria intenção do político apresentar grandes Sujeitos parecendo ser entidades perfeitamente naturais. Mas não devemos jamais esquecer que essas instâncias são inteiramente produzidas por sujeitos com a necessidade de construir um grande Sujeito, o qual, por sua vez, os faz existir. O terceiro, centro dos sistemas simbólico-políticos, tem portanto, em todos os casos, estrutura de ficção, de ficção sustentada pelo conjunto dos falantes. Desse modo, não podemos separar o político de determinado número de mitos, relatos e produções artísticas destinados a sustentar essa ficção. As diferentes narrativas prescrevem o aspecto que convém conferir ao grande Sujeito para que dois interlocutores possam dedicar-se, mais ou menos pacificamente, a sua inesgotável vocação, falar, que sustenta todas as suas outras atividades.
2. Os nomes de deuses
Se quiséssemos fazer um balanço, global e sucintamente, poderíamos dizer que a História parece ser uma sucessão de submissões a grandes figuras colocadas no centro de configurações simbólico-políticas. E seria perfeitamente fácil estabelecer sua lista: o sujeito, o subjectum (em latim, aquele que “é submetido a”, “subordinado a”), foi, nas sociedades arcaicas, submetido ao Totem, e depois, no mundo grego, às forças da Physis cantada pelo mythos, para em seguida sê-lo à Polis e à força da Razão prometida pelo logos. Ele foi submetido ao Cosmos ou aos Espíritos em outros mundos. Foi submetido ao Deus único dos monoteísmos, em modalidades concorrentes – o cristianismo, a ideia judaica da Lei e a norma corânica. Foi submetido ao Rei na monarquia. Foi submetido ao Povo na República. Foi submetido à Raça nas ideologias raciais, numerosas, entre as quais o nazismo, promovendo o sujeito da raça ariana, foi uma forma particularmente virulenta. Foi submetido à Nação nos nacionalismos. Foi submetido ao Proletariado no comunismo.
Cabe notar que algumas dessas ficções diferentes foram às vezes aglutinadas em idiossincrasias locais. Por exemplo, certos cultos pagãos foram sincretizados nos monoteísmos ao longo da História (basta lembrar o cristianismo do Império Romano, que integrou uma série de santos pagãos, assim como o cristianismo sincrético dos
antigos países colonizados).38 Quanto à República, inicialmente ligada à emergência das cidades republicanas na Europa do Renascimento, assumiu a sucessão e não raro o lugar das monarquias, e acabou por se fundir com a Nação na edificação dos Estados-nação europeus. A Raça, por sua vez, muitas vezes encontrou a Nação, como no caso do nazismo, mas nem sempre, como no caso das diásporas. O Proletariado também encontrou a Nação, como demonstra o conceito soviético de “Pátria do socialismo”.
A História, naturalmente, são fatos e ações encadeados segundo uma necessidade que tratamos de trazer à luz. Mas não podemos esquecer que esses fatos e ações sempre remetem a ficções que tornam significantes alguns deles, ao mesmo tempo rejeitando outros na insignificância. Nesse sentido, a História é, para além da história dos fatos, a história das ficções que os neotênios precisaram, a cada vez, edificar com intenso apoio de construções, de realizações e mesmo de encenações extremamente exigentes: Versalhes como cena do grande Sujeito real e a Galeria dos Espelhos como teatro; o Proletariado e seus desfiles de massa, essas fotos oficiais constantemente retocadas, com os tribunais permanentes e as confissões fabricadas; as pompas trágicas de edificação do grande Sujeito ariano do nazismo etc. Nesse sentido, todas as sociedades são sociedades do espetáculo. Essa característica foi particularmente visível no século XX, no qual triunfaram as poderosas técnicas de reprodução de massa da televisão e do cinema – e foi assim que Debord identificou a sociedade como “sociedade do espetáculo”. Mas as técnicas narrativas e representacionais das épocas anteriores sem dúvida alguma também eram, em seu tempo, tão sensacionais e eficazes quanto as de Hollywood hoje em dia.
A História, assim, não pode ser separada das pequenas histórias apregoadas nas e pelas artes da narrativa e da representação. Assim, devemos pôr em dúvida a antiga separação prática e metódica proposta por Aristóteles entre a ficção dos “poetas”, por um lado, e,
por outro, a dos historiadores,39 de tal maneira podemos constatar que as realidades humanas se ordenam sempre ao redor de ficções sustentadas por todos os meios possíveis. Essas construções, por fictícias que sejam, nem por isso deixam de ordenar efeitos muito fortes no real.
De modo algum estou dizendo que todos esses conjuntos, com seus diferentes grandes d’homensticadores, sejam equivalentes, muito pelo contrário: em função do grande Sujeito eleito para o centro dos sistemas político-simbólicos, muda toda a vida econômica, política, intelectual, artística, técnica etc. Todas as coações sociais para o ser-si-mesmo e para o ser-conjunto mudam de um grande Sujeito a outro, mas o que se mantém constante é a submissão do pequeno ao grande Sujeito. Em toda parte, textos, dogmas, gramáticas e todo um campo de conhecimentos precisa ser desenvolvido para submeter o sujeito, vale dizer, para produzi-lo como tal, para reger suas maneiras – eminentemente diferentes aqui e ali – de trabalhar, falar, acreditar, pensar, habitar, comer, cantar, contar, amar, procriar, aliar-se, morrer etc. Cada grande Sujeito produz suas próprias normas do verdadeiro, do bem e do belo. Cada um possui uma forma de autoridade que lhe é própria. Não devemos jamais esquecer que o que chamamos de “educação” nunca é, a esse respeito, senão aquilo que foi institucionalmente estabelecido em função do tipo de submissão a ser induzida, e inclusive por ações sobre o corpo, para produzir sujeitos. A d’homensticação dos homens em nome dos grandes Sujeitos nunca cessou.