A fronteira
1: O Acela
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
— Claro — diz Ric. — Mas tem um problema no qual você não pensou.
O fentanil é um composto sintético?
— Sim.
— Então, qualquer um pode produzir. Ninguém precisa de plantações,
como é o caso da heroína. Basta um laboratório, algo que dá pra montar em qualquer lugar. E aí vai acontecer o mesmo que aconteceu com a metanfetamina: qualquer babaca com uns trocados e um kit de químico vai conseguir produzir na banheira de casa.
— Sem dúvida vamos lidar com imitações baratas — concorda Núñez.
— Mas será no máximo um inconveniente, à margem do mercado. Os contrabandistas não terão alcance de vendas a ponto de criar um problema sério.
Se você diz, pensa Ric.
Mas o cartel não terá como controlar isso em nível de varejo. Os varejistas não terão disciplina para limitar as doses e vão começar a matar a base de clientes. As pessoas vão começar a morrer, exatamente como aquele pobre coitado no galpão, e, quando começarem a morrer nos Estados Unidos, a coisa vai esquentar e chamar a atenção para cima da gente.
A caixa de Pandora foi aberta.
E os demônios escaparam.
O fentanil, pensa Ric, pode matar todos nós.
Staten Island, Nova York
Jacqui acorda passando mal.
Como em todas as manhãs.
É por isso que chamam de “dose para despertar”, pensa, rolando para fora da cama. Bem, não é exatamente uma cama, é um colchão inflável, no chão de uma van, mas acho que, se alguém dorme no lugar… em cima dele… é uma cama.
Afinal, substantivos são baseados em verbos. O que é meio que uma pena, porque seu apelido, Jacqui, a junkie (substantivo), se empresta com facilidade demais para a aliteração baseada no que ela faz, “se aplica”, e aplicar é um verbo.
Agora, tenta conter a vontade de vomitar.
Jacqui detesta vomitar. Precisa de uma dose para despertar.
Cutucando Travis, diz:
— Ei.
Não adiante, então repete:
— Ei.
Ele está apagado.
— Vou sair pra descolar um pico.
— Tá.
Preguiçoso, pensa. Vou descolar por você também. Ela veste um moletom velho da Universidade de Connecticut, põe o jeans e calça Nikes roxos que achou em um brechó.
Desliza a porta de correr e sai na manhã dominical de Staten Island.
Especificamente em Tottenville, na ponta sul da ilha, do outro lado do rio, de frente para Perth Amboy. A van está parada no estacionamento do Tottenville Commons, atrás do Walgreens, ao longo da Amboy Road, mas ela sabe que terão que tirar o veículo dali ainda pela manhã, antes que os caras da segurança os ponham para correr.
Jacqui caminha até a drogaria, ignora a cara feia da funcionária no caixa
e vai até o banheiro dos fundos, porque precisa muito fazer xixi. Depois lava as mãos, joga água no rosto e fica injuriada consigo mesma porque se esqueceu de trazer a escova de dente, e sua boca está com gosto de merda de ontem.
Combina bem com minha cara, pensa Jacqui. Ela está sem maquiagem, com o cabelo castanho e comprido sujo e
oleoso. Jacqui sabe que vai precisar encontrar um lugar para cuidar disso antes de ir trabalhar; mas, nesse momento, só ouve a voz da mãe dizendo: Você é uma menina tão bonita, Jacqueline, só precisa se cuidar.
É o que estou tentando fazer, mãe, pensa Jacqui, ao sair da loja e dar à
caixa um sorriso de “vá se foder”.
Vá se foder, piranha, quero ver você dar conta de morar em uma van. Algo que ela e Travis vêm tentando fazer, desde que a mãe dela botou
os dois para fora, já faz um bom tempo, uns três meses, quando voltou cedo do bar — milagre dos milagres — e encontrou os dois tomando pico.
Então eles se mudaram para a van de Travis, e agora vivem basicamente
como ciganos. Não como sem-teto, Jacqui insiste em ressaltar, porque uma van é um teto, mas eles são… qual é a palavra… peripatéticos. Sempre gostou da palavra “peripatético”. Gostaria que rimasse com alguma coisa bacana, para poder compor uma música, mas realmente não é o caso. Rima com “patético”, claro, mas Jacqui não quer se aventurar nessa possível letra — soa verdadeiro demais.
Nós somos, mesmo, meio patéticos, pensa.
Querem arranjar um apartamento, ou ao menos planejam arranjar um
apartamento, mas, até agora, todo o dinheiro que tinham — incluindo o dinheiro que serviria para um depósito caução — foi injetado.
Lá fora, no estacionamento, Jacqui começa os trabalhos pelo celular.
Liga para o vapor, Marco, mas cai direto na caixa postal. Ela deixa um recado curto:
— É a Jacqui. Quero falar com você. Me liga de volta. Quer mesmo descolar pelo celular, porque está começando a se sentir
verdadeiramente mal e não quer ter que entrar na van e ir até Princes Bay, ou longe para cacete, até Richmond, onde ficam os traficantes de rua.
É longe e arriscado demais, porque a polícia está fechando o cerco, indo atrás de traficantes dentro de casa. Ou, pior: você compra de algum traficante da pesada e é pego. E o que Jacqui realmente não quer, de jeito nenhum, é ser presa e ter que passar por uma desintoxicação em Rikers.
Está prestes a voltar para a van e dirigir até o estacionamento da Waldbaum, onde costuma descolar alguma coisa, quando seu celular toca. É Marco. E ele não está nada contente.
— É domingo de manhã.
— Eu sei, mas preciso de uma dose pra acordar.
— Você deveria ter guardado de ontem à noite.
— Eu sei, mãe.
— Do que você precisa? — pergunta Marco.
— Dois papelotes.
— Quer que eu saia daqui por vinte pratas?
Meu Deus, por que ele está criando caso? O nariz está começando a escorrer, e ela acha que vai vomitar.
— Estou passando mal, Marco.
— Está bem, onde você está?
— Walgreens, na Amboy.
— Eu estou no Micky D’s. Encontro você atrás da lavanderia. Sabe onde é?
Sim, ela sempre lava roupa lá. Bem, parando para pensar, nem sempre. Só quando a roupa fica bem nojenta.
— Aaah, sei. Claro.
— Meia hora — diz Marco.
— Para caminhar ao outro lado do estacionamento?
— Acabei de comprar comida.
— Ok. Eu vou aí.
— Dez minutos. Atrás da lavanderia.
— Traz um café pra mim — pede Jacqui. — Com leite e quatro saquinhos de açúcar.
— Sim, Lady Mary — responde Marco. — Quer um McMuffin?
— Só o café.
É o máximo que vai conseguir manter no estômago; nem pensar em comida gordurosa.
Jacqui atravessa o estacionamento e caminha até a avenida Page, depois segue até o próximo shopping, que tem uma CVS, um McDonald’s, um supermercado, uma loja de bebidas, um restaurante italiano e a lavanderia.
Ela caminha por trás da CVS e espera nos fundos da lavanderia. Cinco minutos depois, Marco encosta o Ford Taurus. Ele baixa o vidro e
entrega o café.
— Você veio de carro até o outro lado do estacionamento? — questiona
Jacqui. — E o aquecimento global, Marco? Já ouviu falar?
— Cadê o dinheiro? — pergunta ele. — E não vá me dizer que vai
arranjar; você está totalmente sem crédito.
— Eu tenho.
Jacqui olha em volta, depois dá uma nota de vinte para ele. Ele estende a mão até o console e passa dois papéis para ela. — E um dólar pelo café.
— Sério?
Marco está ficando meio mesquinho desde que começou a traficar. Às
vezes, ele esquece que é só mais um viciado vendendo para ter dinheiro para ficar chapado. Hoje em dia tem muita gente fazendo isso — todo traficante que Jacqui conhece é usuário. Ela enfia a mão no bolso, encontra uma nota de um dólar e dá para ele.
— Achei que você estivesse sendo um cavalheiro. — Não, eu sou feminista.
— Onde é que você vai estar mais tarde?
Marco estende o dedinho junto à boca e o polegar junto à orelha. — Me liga.
E sai com o carro.
Jacqui bota os papelotes no bolso e caminha de volta até a van. Travis está acordado.
— Descolei — anuncia Jacqui, pegando os papelotes. — Onde?
— Com o Marco.
— Ele é um babaca.
— Tá, então, da próxima vez vai você — retruca Jacqui. Foda-se essa porra desse preguiçoso, pensa. Ela ama Travis, mas, meu
Deus, ele sabe ser um pé no saco. E, falando em Nosso Salvador, Travis parece um pouco com Jesus — cabelo até os ombros e barba, tudo meio ruivo. E magro como Jesus — pelo menos como ele aparece em todas as imagens.
Jacqui encontra o fundo cortado de uma lata de refrigerante que usa para cozinhar, em vez de uma colher, e despeja a heroína dentro. Enche a seringa com água da garrafinha e esguicha na heroína, depois acende o isqueiro e segura embaixo da panelinha de lata até a mistura borbulhar. Tira o filtro de um cigarro e o mergulha na água, depois delicadamente pousa na mistura. Então põe a ponta da agulha no filtro e suga o líquido para dentro da seringa.
Ela pega um cinto fininho que guarda justamente para isso, enrosca em volta do braço esquerdo e aperta até uma veia saltar. Então, espeta a agulha na veia e puxa o injetor da seringa para puxar uma pequena bolha de ar, mexe um pouquinho a agulha, para aparecer um pouquinho de sangue.
Jacqui aperta o êmbolo.
Desamarra o cinto antes de tirar a agulha, e então…
Pôu.
Bateu.
Que lindo, que paz.
Jacqui recosta na lateral da van e olha para Travis, que acabou de se aplicar. Ele sorriem um para o outro, depois mergulham no mundo da heroína, tão vastamente superior ao mundo real.
O que não é tão difícil de superar.
Quando Jacqui era pequenininha, muito pequenininha, quando era uma garotinha, via seu paizinho em todos os homens que passavam na calçada, no ônibus, em todos os homens que entravam no restaurante onde sua mamãe trabalhava.
Aquele é meu paizinho? Aquele é meu paizinho? Aquele é meu paizinho?, perguntava à mãe, até a mãe se cansar e lhe que seu paizinho estava no céu, com Jesus, e Jacqui ficou imaginando por que Jesus ficava com ele e ela, não; não gostava muito de Jesus.
Quando era pequenina, ficava em seu quarto e olhava livros de desenhos e inventava histórias e contava as histórias a si mesma, principalmente quando sua mamãe achava que ela estava dormindo e trazia para casa homens que iam ao restaurante onde a mamãe trabalhava. Ela ficava deitada na cama e inventava histórias e cantava canções sobre quando Jacqui era pequenininha, quando era bem pequenininha, quando Jacqui era uma garotinha.
Ela não era tão pequenininha, tinha nove anos, quando a mamãe se casou com um dos homens do restaurante que trazia para casa, e ele disse a Jacqui que não era seu papai, mas seu padrasto, e ela respondeu que sabia disso, porque seu paizinho estava com Jesus, e ele riu e disse aham, talvez, se Jesus estiver segurando uma banqueta no bar em Bay Ridge.
Jacqui tinha onze anos da primeira vez que Barry perguntou se ela iria
crescer e virar uma piranha como a mãe, e lembra como ele falou bem devagar, como Horton Hears, e Jacqui andava pela casa murmurando Eu disse pra valer e vale o que eu disse. Barry é um babaca, cem por cento. Uma vez ele ouviu e deu um tapa no rosto dela, falando. Você pode não me amar, mas vai me respeitar, porra, e sua mãe ficou ali, sentada, à mesa da cozinha, sem fazer nada. Mas também, ela não fazia nada quando Barry batia nela e a xingou de piranha e de uma porra de uma bêbada, e Jacqui corria e se escondia em seu quarto, com vergonha por não fazer nada para impedi-lo. E, quando Barry saía para ir para o bar, Jacqui saía e perguntava à mãe por que ela precisava ficar com um homem que era malvado, e sua mãe respondia que um dia ela entenderia que uma mulher tem necessidades, fica solitária.
Jacqui não se sentia solitária, tinha seus livros. Ela se fechava em seu
quarto e lia. Leu todos os Harry Potter, e a ideia de que todos tinham sido escritos por uma mulher a fizeram ir até a biblioteca e encontrar Jane Austen, as Brontë, Mary Shelley e George Elliot, Virginia Woolf, Iris Murdoch e poemas de Sylvia Plath, e Jacqui decidiu que um dia deixaria Tottenville e se mudaria para a Inglaterra e se tornaria escritora e moraria em seu próprio quarto, onde não teria que abafar os sons de gritos e choro do lado de fora.
Começou a ouvir música — não aquela merda pop que suas poucas
amigas ouviam, mas uns bagulhos bons como Dead Weather, Broken Bells, Monsters of Folk, Dead by Sunrise, Skunk Anansie. Comprou um violão velho em uma loja de penhores, sentou-se em seu quarto e aprendeu os acordes (tanto em literatura como em música, Jacqui é autodidata), e começou a escrever músicas quando ainda era pequenininha (C), quando era pequenininha (F), quando Jacqui era uma garotinha (C).
Certa tarde, Jacqui estava tocando seu violão enquanto a mãe estava no
trabalho, e Barry entrou e tira o violão de suas mãos, dizendo. Esse será o nosso segredo, nosso segredinho e eu vou fazer você se sentir muito bem, e a deita na cama e deita em cima dela, e ela não conta à mãe não conta a ninguém, Esse será nosso segredo (D), nosso segredinho (G), eu vou fazer você se sentir muito bem (Em), mesmo quando a mãe diz Dá pra notar que você anda fazendo sexo, sua putinha. Quem é o menino, eu vou jogá-lo na cadeia e Barry continua entrando no quarto dela, até um dia, bem cedo, quando ela ouve a mãe gritando e corre e vê o Barry caído por cima da privada, e sua mãe grita Ligue para a emergência e Jacqui caminha lentamente até o quarto para pegar o telefone e canta Esse será nosso segredo (D), nosso segredinho (G), eu vou fazer você se sentir muito bem (Em), antes de apertar os números. Quando o socorro chega, Barry já morreu.
Por volta dessa época, Jacqui já está no Ensino Médio, fumando uns baseadinhos, bebendo uma cervejinha, um vinhozinho com os amigos, mas gosta mais de ficar em casa lendo ou tocando violão, descobre Patti Smith e Deborah Harry, até Janis Joplin, compõe músicas com letras sarcásticas. Esse será meu segredinho / Meu segredinho / Eu matei o meu padrasto / De um jeitinho passivo-agressivo / E isso me faz sentir bem / Tão bem e sua mãe diz que ela precisa arranjar um emprego para ajudar, então Jacqui vai trabalhar de barista numa Starbucks.
Jacqui tira boas notas na escola, quase pela raiva, pois detesta o Ensino Médio e tudo que tem a ver com ele, exceto a sala de estudos. Suas notas são boas a ponto de conseguir uma bolsa, mas não boas o bastante para Columbia ou NYU ou a Universidade de Boston, e não tem dinheiro para nenhuma faculdade que queira, e nunca vai morar na Inglaterra e ser uma escritora com seu próprio quarto, e a mãe quer que ela faça escola de estética, pois pode ganhar a vida cuidando da beleza, mas Jacqui ainda se agarra a um fiapo de sonho e se matricula na CUNY Staten Island, a Universidade da Cidade de Nova York.
O negócio começa com os comprimidos.
Ela é caloura, mora em casa com a mãe. É recesso de Natal, alguém lhe oferece um Oxy, e ela está um pouquinho bêbada e muito entediada, então pensa, ah, foda-se, e manda para dentro. E gosta. No dia seguinte, sai e compra mais, porque, se você não conseguir encontrar comprimidos em Tottenville, seu cão-guia provavelmente vai. Estão vendendo nas escolas, nas esquinas, nos bares, até as carrocinhas de sorvete estão vendendo essa merda.
Os comprimidos estão por todo lado — Oxy, Vicodin, Percocet —, todo mundo está vendendo ou comprando, ou ambos. Para Jacqui, tiram o nervosismo, a ansiedade de não ter a menor ideia do que fazer da porra da vida, de saber que nasceu em Tottenville e vai morar em Tottenville e morrer em Tottenville, trabalhando em empregos com salário mínimo, independente do diploma que consiga na CUNY. O nervosismo de guardar o segredo de seu padrasto a transformara em parque de diversão.
Os comprimidos a fazem se sentir bem, e ela não tem um problema com
drogas; o problema de Jacqui é dinheiro. No começo, quando só toma um pouquinho de Oxy, nos finais de semana, não é problema, nem quando é só um comprimido ao dia, mas agora são dois ou três, por trinta dólares cada.
Parte do dinheiro ela consegue com o salário do Starbucks, depois, um
pouco na bolsa da mãe. Às vezes nem precisa de dinheiro, se quiser transar com os caras que têm os comprimidos. Transar não é nada de mais, está acostumada a ficar lá, deitada, e deixar que o cara transe com ela, então é melhor que seja alguém capaz de fazê-la viajar, já que não vai conseguir fazê-la gozar.
Jacqui passa o segundo semestre da faculdade basicamente chapada,
depois, o verão inteiro, e, então, ela meio que para de ir às aulas. No terceiro ano, por conta da pouca frequência e de trabalhos incompletos, e apenas desiste do troço todo e o abandona.
Ela oscila entra trabalhar e ficar chapada e transar com os traficantes.
Até que conhece Travis.
Que a conduz à heroína.
Seria fácil culpá-lo — a mãe com certeza culpa —, mas na verdade não
foi culpa de Travis. Eles se conheceram em uma boate, um daqueles cafés de molambentos frequentados pelo pessoal neo-Kerouac que toca violão, e Travis tinha acabado de ser dispensado de seu emprego na construção civil — ele faz telhados — porque machucou as costas e realmente não conseguia trabalhar quando a licença médica terminou.
Essa é a história de Travis: ele começou a tomar Vike para a dor lombar,
prescrito por um médico, e nunca parou. Segundo a antiga teoria de que se um é bom, quinze são melhores, Travis começou a engolir os comprimidos como se fossem M&M’s.
Quando se conheceram, ambos estavam loucos, e foi como… PÔU.
Amor.
Transaram na traseira da van dele, e Jacqui gozou como nunca; ele tinha
um pau comprido e fino, como seu corpo comprido e fino, e a tocou em um lugar em que ela nunca fora tocada.
Depois disso, só havia Travis para ela, e ela para ele.
Gostavam da mesma arte, da mesma música, da mesma poesia. Compunham juntos, cantavam juntos, na St. George, para as pessoas que desciam da balsa. Estavam se divertindo muito, mas foi o dinheiro.
O dinheiro, o dinheiro.
E o fato de terem um vício juntos, também, um vício que custava até trezentos dólares por dia, o que era simplesmente insustentável.
Travis tinha a resposta.
— H — dissera. — Precisa de menos pra chapar e custa tipo seis ou sete paus um pico.
Em vez de trinta.
Mas Jacqui tinha medo de heroína.
— É a mesma merda — afirmara Travis. — São todos derivados de ópio, seja numa bola, ou em pó, é tudo fruto da papoula.
— Não quero ficar viciada — dissera Jacqui.
Travis riu.
— Tá maluca? Viciada você já é.
Tudo que ele falou era verdade, mas Jacqui argumentou que não queria usar uma agulha. Tranquilo, respondeu Travis, podemos simplesmente cheirar.
Ele cheirou primeiro.
E ficou muito chapado.
Parecia beatífico.
Então Jacqui cheirou, e foi tão, tão, tão bom. Melhor que qualquer coisa, até que descobriram como fumar o bagulho, que era ainda bem, bem, bem melhor.
Então, um dia, Travis disse:
— Porra, que se foda essa merda. Por que a gente está de sacanagem? É muito mais jogo injetar, e eu não vou deixar que a tripanofobia atrapalhe.
Tripanofobia, pensara Jacqui. Medo de agulhas.
Os dois adoravam as palavras.
Mas ela não achava que tinha uma fobia, achava que tinha um medo sensato — agulhas transmitem hepatite C, HIV e Deus sabe o que mais.
— Não se você for limpo, não se você for cuidadoso, se você for… meticuloso — argumentara Travis.
E no começo ele era, só usava agulhas novas que comprava de enfermeiras e dos caras que trabalhavam na farmácia. Antes de um pico, sempre desinfetava o braço com álcool, sempre fervia a heroína para eliminar qualquer bactéria.
E se chapava.
Ficava mais doido que com Oxy, mais do que quando cheirava ou
fumava, porque caía direto na corrente sanguínea, era doideira cerebral. Jacqui ficava com inveja, se sentia deixada para trás, amarrada à terra, enquanto ele voava para a lua. Até que, uma noite, ele ofereceu para aplicá-la, e ela deixou. Em vez do pau, ele enfiou a agulha e deu a ela mais prazer do que jamais dera.
Depois disso, ela sabia que nunca mais teria volta. Por isso, podem culpar Travis o quanto quiserem, mas Jacqui sabe que é
ela, está nela, o coração e a alma de uma viciada, porque ela adora aquilo, adora H, adora a onda, está literalmente em seu sangue.
— Você é inteligente demais para ficar fazendo isso — dizia a mãe. Não, eu sou inteligente demais para não fazer, pensava Jacqui. Quem
iria querer ficar nesse mundo, quando se tem uma alternativa?
— Você está se matando — dizia a mãe, choramingando. Não, mãe, eu estou vivendo.
— Isso é culpa daquele cretino nojento.
Eu o amo.
Amo a nossa vida.
Eu amo…
Já se passaram duas horas quando Jacqui olha o relógio e pensa: Que merda, eu vou me atrasar.
Ela sai da van e caminha até a CVS, porque gosta de variar. Entra no
banheiro, tranca a porta, pega o xampu na bolsa e lava o cabelo na pia. Seca com toalhas de papel, depois passa delineador e um pouquinho de rímel e troca de roupa, vestindo um jeans razoavelmente limpo e uma camisa polo ameixa, de mangas compridas, com seu nome gravado.
De volta à van, ela desperta Travis.
— Tenho que ir trabalhar.
— Está bem.
— Tenta descolar mais pra gente, está bem?
— Está bem.
Quer dizer, o quão difícil isso pode ser, Travis? É mais fácil encontrar H
em Staten Island do que maconha. Metade das pessoas que ela conhece faz uso.
— E muda a van de lugar — diz Jacqui.
— Pra onde? — pergunta Travis.
— Sei lá, só muda.
Ela sai e pega o ônibus para a Starbucks da avenida Page. Torce para que o gerente não a veja entrando cinco minutos atrasada, porque seria sua terceira vez, nas últimas duas semanas, e ela realmente precisa desse emprego.
Tem a conta da Verizon, dinheiro para gasolina, dinheiro para comida, e agora já usa cinquenta dólares por dia só para ficar bem, que dirá chapada.
É como um trem que vai ganhando velocidade.
Não tem paradas, e você não pode descer.
Keller sai do metrô na Dupont Circle suando em bicas.
O verão em Washington costuma ser quente, úmido e abafado. Camisas e flores murcham, as energias e ambições esmorecem, as tardes fulgurantes dão lugar às noites suarentas que trazem pouco alívio. Isso lembra Keller de que a capital da nação foi construída em cima de um pântano drenado, ressuscitando os boatos de que o velho George escolheu a locação para se salvar de um investimento imobiliário mal sucedido.
Tem sido um verão horrendo em todo o mundo.
Em junho, um grupo islâmico radical chamado ISIS surgiu na Síria e no Iraque com atrocidades igualáveis às dos cartéis mexicanos de drogas.
Em Veracruz, no México, 31 corpos foram exumados de uma cova em massa, em uma propriedade pertencente ao ex-prefeito.
O exército mexicano travou uma batalha armada com os Guerreros Unidos e matou 22 deles. Depois foi divulgada uma história de que os narcos haviam sido levados para um celeiro e executados.
Na era pós-Barrera, a violência no México apenas segue em frente, incessante.
Em julho, um grupo de trezentos manifestantes acenando bandeiras e empunhando cartazes, entoando “EUA, EUA!” e gritando “voltem para casa” cercou três ônibus cheios de imigrantes da América Central — muitos deles crianças —, na Califórnia e os forçou a regressar.
— Isso é a América? — perguntara Marisol, enquanto assistiam ao noticiário, na televisão.
Duas semanas depois, policiais da NYPD, em Staten Island, deram um
mata leão em um homem negro chamado Eric Garner, em um golpe letal. Garner estava vendendo cigarros ilegais.
Em agosto, um policial em Ferguson, Missouri, alvejou fatalmente um
afro-americano de dezoito anos, Michael Brown, dando o início a uma revolta violenta. Isso lembrou Keller dos longos verões inflamados dos anos 1960.
Mais adiante, naquele mês, o potencial candidato à presidência, John
Dennison — sem qualquer resquício de evidências, muito menos uma prova concreta — acusou o governo Obama de vender armamento para o ISIS.
— Ele é demente? — perguntara Marisol.
— Está jogando lama na parede pra ver se cola — dissera Keller. E fala por experiência própria, Dennison já tinha jogado lama nele
também. O pleito pelo naloxone provocara a barragem.
— Mas não é uma pena — dissera Dennison — que o chefe da Divisão
de Narcóticos seja suave com drogas? Fraco. Nada bom. E a esposa dele não é do México?
— Nisso ele está certo — dissera Marisol. — Eu sou do México. A mídia conservadora aproveitara a deixa, deitando e rolando. Keller ficara furioso por terem envolvido Marisol no assunto, mas não
emitira resposta. Dennison não vai ter como jogar tênis se eu não devolver a bola, pensara. Mas atraíra outro ataque ao declarar em resposta a uma pergunta feita pelo Huffington Post, que basicamente concordava com a revisão governamental das sentenças de penas máximas por crimes relativos a drogas.
PATÉTICO, tuitara Dennison, O CHEFE DA NARCÓTICOS QUER OS
TRAFICANTES DE DROGAS DE VOLTA À RUA. O FRACO DO OBAMA DEVERIA DIZER “VOCÊ ESTÁ DEMITIDO!”.
Que pelo jeito é um slogan do reality show de Dennison, na TV, ao qual
Keller nunca assistiu.
— Umas subcelebridades ficam em volta, executando tarefas pra ele —
explicara Mari —, e o que fizer o pior trabalho é demitido.
Keller nem sabe o que são subcelebridades, mas Mari sabe, tendo se
tornado descaradamente viciada em programas Como Real Housewives. Ela o informou que são donas de casa de verdade, de Orange County, Nova Jersey, Nova York, Beverly Hills, e o que fazem é sair para jantar, se embebedar e xingar umas às outras.
Ele ficou tentado a sugerir uma versão desse Real Housewives de Sinaloa, algumas das quais ele de fato conheceu, que saem para jantar, começam a discutir e metralham umas às outras, mas foi sábio e optou por deixar isso para lá — Marisol era muito protetora de suas doses de cultura pop americana.
Em termos sérios, seu empenho de conduzir a Narcóticos a um posição de diretrizes mais progressistas está encontrando resistência dentro da agência.
Keller entende.
Foi um dos primeiros a acreditar na tática da linha dura. Ele é linha dura, com os cartéis que trazem heroína, coca e metanfetamina para dentro do país. Mas também é realista. O que estamos fazendo não está adiantando, pensa. Era hora de tentar algo diferente, mas é difícil vender essa ideia para outras pessoas que também passaram a vida lutando essa guerra.
Denton Howard pega as afirmações de Keller como se fossem pedras e joga de volta nele. Assim como Keller, é um indicado político, e está fazendo lobby dentro e fora da Narcóticos, fazendo questão de que os potenciais apoiadores no Governo e na mídia saibam que ele discorda do chefe.
Isso se espalha por aí.
Dois dias depois, o jornal Politico veicula uma história sobre “partidarismo” dentro da Divisão de Narcóticos. Segundo a história, a agência está dividida entre o “partido Keller” e o “partido Howard”.
Não é nenhum segredo que os dois não se gostam, diz a matéria, mas a questão é mais filosófica que pessoal. Art Keller é mais liberal, quer ver um relaxamento nas leis antidrogas, redução de sentenças obrigatórias e mais foco direcionado ao tratamento, em lugar da proibição. Howard é linha dura pela proibição, um conservador a favor de “trancafiá-los e jogar fora a chave”.
Partidos vão se formando ao redor das duas posições, de acordo com a reportagem:
Mas é mais complicado que uma luta política bipolar. O que torna
tudo realmente interessante é o que pode ser chamado de “divisão de experiências”. Muitos dos veteranos, o pessoal da velha guarda que talvez apoiasse a posição mais dura de Howard, não o respeitam porque ele é um burocrata, um político que nunca trabalhou em campo, enquanto Keller é um agente veterano de campo, um ex-infiltrado que conhece o trabalho nas ruas. Por outro lado, parte do pessoal mais jovem, que talvez tivesse empatia pela posição mais liberal de Keller, tende a vê-lo mais como um dinossauro, um policial de rua com histórico de “atirar primeiro e perguntar depois”, que carece de habilidades administrativas e tende a gastar tempo demais com operações, em detrimento às diretrizes.
De qualquer forma, isso pode ser um ponto de disputa que não será
decidido nos corredores da Divisão de Narcóticos, mas na cabine de votação. Se os democratas ganharem as próximas eleições presidenciais, é quase certo que Keller mantenha seu posto, dispense Howard e expurgue seu partido. Se um candidato republicano assumir a Casa Branca, é quase certo que Keller saia porta afora e Howard assuma seu lugar.
Fiquem ligados.
Keller fala com o autor da matéria ao telefone. — Com quem você falou para escrever essa história? — Não posso revelar fontes.
— Sei como é — diz Keller. Marisol lhe ensinou que a mídia não é um
inimigo e que ele precisa ser simpático com os repórteres. — Mas eu sei que você não falou comigo.
— Eu tentei. Você não quis atender minha ligação. — Bem, isso foi um erro — diz Keller. Ou sabotagem, pensa. — Bem,
anote meu número, ok? Da próxima vez que quiser fazer uma matéria sobre a minha operação, pode me ligar diretamente.
— Há algo na história que queira corrigir ou comentar? — Bem, eu não atiro primeiro pra perguntar depois — diz. Isso foi o
Howard que disse, pensa, formulando a narrativa. — E não vou conduzir nenhum “expurgo”.
— Mas dispensaria Howard.
— Denton Howard é uma indicação política — afirma Keller. — Eu não
poderia demiti-lo nem se quisesse.
— Mas quer.
— Não.
— Posso citar o que está dizendo?
— Claro.
Deixe que o Howard pareça o babaca.
Keller desliga o telefone e vai até a recepção.
— Elise, eu recebi alguma ligação de um jornal chamado Político?
Keller trabalhou um bom tempo como infiltrado, portanto o leve traço de hesitação nos olhos dela já diz o que ele quer saber.
— Deixa pra lá — diz Keller. — Vou remanejar você.
— Por quê?
— Porque preciso de alguém em quem eu possa confiar. Libere a mesa até o fim do dia.
Não pode se dar ao luxo de ter alguém leal a Howard atendendo suas ligações.
Não com a Operação Agitador em curso.
Keller se mantém informado e em contato com a operação, seguindo um critério altamente seletivo de necessidade de informação, mantendo os dados de inteligência restritos a Blair, Hidalgo e a si próprio.
Pelo lado da NYPD, Mullen pôs o pescoço no toco de decapitação, tocando a operação de sua própria mesa, sem informar seus superiores ou ninguém mais na Divisão de Narcóticos, exceto um detetive — Bobby Cirello, o policial que os conduziu de carro pelo circuito da heroína, na cidade de Nova York.
Isso faz parte da estratégia “de cima para baixo/de baixo para cima”, que Keller e Mullen desenvolveram ao longo de discussões intensas. Cirello seria enviado para penetrar a conexão de heroína nova-iorquina em seu nível mais baixo, seguindo um caminho vertical. Simultaneamente, tentariam encontrar uma abertura no alto escalão do mundo financeiro para achar um elo entre os dois.
A Agitador é um caminho lento, levará meses, talvez anos. Keller e Mullen prometeram um ao outro que não fariam nenhuma prisão prematura, por mais tentador que fosse.
— Só vamos puxar a rede — dissera Mullen — quando tivermos todos os peixes.
Cirello já está na rua.
Encontrar um alvo no mundo financeiro vem tomando mais tempo.
Não podem colocar um policial infiltrado nessa esfera, porque descobrir
o viés do nível que desejam seria forçado e demorado demais.
O que significa encontrar um delator.
Horrível, mas é isso que estão buscando, uma vítima. Como quaisquer
predadores, estão vasculhando o rebanho para encontrar o vulnerável, o ferido, o fraco.
Não é diferente de encontrar um informante no mundo das drogas,
pensa Keller. Você está em busca de alguém que sucumbiu à fraqueza e está enrascado.
As vulnerabilidades sempre surgem nas mesmas categorias. Dinheiro, raiva, medo, drogas e sexo.
Dinheiro é o mais fácil. No mundo das drogas, alguém que recebeu um
bagulho fiado, depois tomou uma dura ou foi roubado. Deve muita grana e não tem como pagar. Dedura em troca de dinheiro ou de cobertura.
Raiva. Alguém não recebe o que queria, o acordo que queria, o respeito
que acha merecer. Ou alguém pega a esposa ou namorada de outra pessoa. Ou, pior, alguém mata o irmão ou amigo de alguém. O ofendido não tem poder para realizar sua vingança, então recorre à lei.
Medo. Alguém fica sabendo que está na lista, que sua cabeça está a
prêmio. A pessoa não tem a quem recorrer, a não ser a polícia. Mas não pode chegar de mãos abanando, porque a lei não dá proteção por bondade do coração. O sujeito precisa ir com alguma informação, tem que estar disposto a voltar com um grampo. E tem também o medo da prisão por um longo período — um dos maiores motivos para dedurar. Os federais usaram esse medo específico para estripar a máfia — a maioria dos caras não consegue encarar o medo de morrer em canno xadreza. Há poucos que encaram — Johnny Boy Cozzo, Rafael Caro — mas são raros.
Drogas. No crime organizado é geralmente óbvio que, se você usa
drogas, você morre. Os caras se tornam imprevisíveis demais, falantes demais, vulneráveis demais. As pessoas fazem maluquices, coisas sem nexo, quando estão chapadas ou bêbadas. Fazem jogadas estúpidas, se envolvem em brigas, batem de carro. E um usuário, então? Tudo que é preciso fazer para tirar informação de um sujeito desses é privá-lo da droga. O usuário fala.
E tem o sexo. Crimes passionais não são tão expressivos no mundo das
drogas, a menos que você tenha comido a mulher, a namorada ou a filha de alguém, ou se você for gay. Mas no mundo civil, o sexo é o campeão invicto das vulnerabilidades.
Homens que confessam às esposas que fraudaram o imposto de renda, que desviaram milhões, porra, até que mataram alguém, não admitem um caso escondido. Caras que fazem questão de que os amigos saibam que são pegadores, que têm namoradas, amantes, prostitutas, garotas de programa de alto nível, praticamente morreriam antes de deixar que esses mesmos amigos descobrissem que eles vestem a lingerie da namorada, usam a maquiagem das amantes, que as prostitutas e garotas de programa ganham um bônus se baterem neles, se urinarem em cima deles.
Quanto mais esquisito o sexo, mais vulnerável o alvo.
Dinheiro, raiva, medo, drogas e sexo.
O que você realmente procura é uma combinação desses elementos. Misture quaisquer dos cinco e terá um cara que logo será sua vítima.
Hugo Hidalgo pega um táxi da Penn Station até o hotel Four Seasons.
Ele passa a maior parte do tempo em Nova York, porque é o novo núcleo da heroína e porque, conforme as palavras atribuídas ao ladrão de bancos Willie Sutton, “É ali que está o dinheiro”.
Mullen aguarda por Hugo na sala de espera de uma suíte, na cobertura.
Um cara que Hidalgo julga ter trinta e poucos anos está sentado em uma das poltronas. O cabelo claro está penteado para trás, mas ligeiramente remexido, como se ele tivesse passado a mão pelos fios. Está de camisa branca cara e calça social preta, mas está descalço.
Seus cotovelos estão apoiados nos joelhos, o rosto nas mãos.
Hidalgo conhece bem a postura.
O sujeito foi flagrado.
Ele olha para Mullen.
— Chandler Claiborne — diz Mullen. — Este é o agente Hidalgo, da Narcóticos.
Claiborne não ergue os olhos, mas murmura:
— Olá.
— Como vai você? — pergunta Hidalgo.
— Ele já teve dias melhores — responde Mullen. — O sr. Claiborne alugou uma suíte aqui, trouxe uma acompanhante de mil dólares, um bocado de pó e, depois de ficar, digamos, “excessivamente empolgado”, desceu o cacete na mulher. Ela ligou para um detetive que conhece, que veio até o quarto, viu o pó e teve o bom senso de me ligar.
Claiborne enfim ergue os olhos. Vê Hidalgo e diz: — Você sabe quem eu sou? Sou um agente de consórcio, trabalho com o
Berkeley Group.
— Certo…
Claiborne suspira como se fosse um garoto de vinte anos tentando
ensinar os pais a usarem um aplicativo no iPhone.
— Um fundo de investimentos. Controlamos as carteiras de alguns dos
maiores projetos imobiliários do mundo, residenciais e comerciais, milhões de metros quadrados de propriedade de primeira linha.
Ele começa a citar nomes de prédios que Hidalgo conhece e uma porção
que ele nunca nem ouviu falar.
— O que eu acho que o sr. Claiborne está tentando dizer — intervém
Mullen — é que ele é uma pessoa importante, com contatos profissionais poderosos. Estou traduzindo isso de forma correta, sr. Claiborne?
— Bem, se fosse mentira, eu já estaria preso, não? Ele é um babaca presunçoso, pensa Hidalgo, e está acostumado a fazer
merda e se safar.
— O que faz um “agente de consórcio”?
Agora Claiborne está ficando à vontade.
— Como pode imaginar, essas propriedades custam centenas de
milhões, se não bilhões, para serem financiadas. Nenhum banco ou instituição de empréstimo irá arcar, sozinha, com o risco integral. Às vezes, é preciso até cinquenta concessores para montar o projeto. Isso é o consórcio. Eu sou a pessoa que monta esses consórcios.
— E como você é pago? — pergunta Hidalgo. — Tenho um salário. Uns sete dígitos, mas o dinheiro mesmo vem dos
bônus. Ano passado passou de 28 mi.
— Sendo mi o mesmo que milhões?
O salário de Hidalgo na Narcóticos é de 57 mil dólares por ano. — Isso. Olha, eu lamento, eu me deixei levar. Vou pagar o que ela
quiser, se for sensato. E, se eu fizer alguma contribuição ao fundo dos policiais, ou…
— Acho que ele está nos oferecendo um suborno — afirma Mullen. — Acho que está — concorda Hidalgo.
— Sabe, Chandler… — começa Muller. — posso chamar você de Chandler?
— Claro.
— Sabe, Chandler, desta vez, o dinheiro não vai adiantar. Grana não é a moeda no meu reino.
— E qual é a moeda no seu reino? — pergunta Claiborne.
Ele está confiante de que há algum tipo de moeda; porque sempre há.
— Esse idiota está de graça com a gente — diz Mullen. — Acho que não está acostumado a ouvir desaforo de um irlandês ou de um mexicano. Esse não é o jeito de conduzir a conversa, Chandler.
Claiborne diz:
— Se eu ligar para algumas pessoas….. posso fazer John Dennison atender ao celular particular neste minuto.
Mullen olha para Hidalgo.
— Ele pode fazer o John Dennison atender ao celular particular.
— Neste minuto — completa Hidalgo.
Mullen oferece o telefone.
— Ligue para ele. E vai acontecer o seguinte: vamos levar você diretamente até o Registro Central, vamos fichá-lo por posse de entorpecentes Classe Um, proposta indecorosa, agressão grave e tentativa de suborno. Seu advogado deve conseguir fiança para soltá-lo antes que seja transferido para a Rikers, mas nunca se sabe. De qualquer maneira, você poderá ler tudo a respeito no Post e no Daily News. O Times vai levar mais um dia para publicar, mas vão fazer uma matéria. Então, ligue.
Claiborne não pega o telefone.
— Quais são as minhas opções?
Claiborne tem tanta certeza de que tem opções, e isso irrita Hidalgo. Se ele fosse um Zé Ninguém, já estaria no centro da cidade. Ele sabe que tem opções — gente rica sempre tem opções, é assim que funciona.
— O agente Hidalgo é de Washington — explica Mullen. — Ele está muito interessado em saber o caminho que o dinheiro de drogas percorre até o sistema bancário. Assim como eu. Se puder nos ajudar com isso, nós talvez possamos nos dispor a evitar a prisão e a acusação.
Hidalgo achava que Claiborne já estava branco, mas ele fica mais branco ainda.
Branco como um fantasma.
Tinham chegado ao que interessa.
— Acho que prefiro correr o risco — retruca Claiborne. Hidalgo ouviu o que o ricaço não disse. Ele não disse Eu não sei nada
sobre dinheiro de drogas. Ele não disse Nós não fazemos isso. O que ele disse foi que prefere arriscar, o que significa que conhece, sim, gente que lida com dinheiro de bagulho, e essa gente o amedronta mais que a polícia.
— É mesmo? — pergunta Mullen. — Certo. Talvez o seu pessoal
endinheirado possa convencer a prostituta a retirar a acusação de agressão. Então, você vai contratar um advogado que cobra na casa dos sete dígitos, e, quem sabe, ele consiga manter você longe das grades pela acusação do pó. Porém, até lá será tarde demais, porque sua carreira vai estar fodida, seu casamento vai estar fodido e você vai estar fodido.
— Eu vou processar você por acusação caluniosa — afirma Claiborne.
— Vou destruir a sua carreira.
— Tenho uma má notícia para você — retruca Mullen. — Não me
importo com a minha carreira. Tem garotos morrendo no meu turno. Só me importo em parar com a circulação das drogas. Portanto, pode me processar. Eu tenho uma casa em Long Island, pode ficar… aliás, o telhado está com alguns vazamentos, ok? Aqui é transparência total.
Mullen dá risada, antes de prosseguir:
— E bem, agora, vai acontecer o seguinte: consigo trazer uma
promotora aqui em cima em cerca de meia hora. Ela pode pegar seu depoimento, uma confissão completa, e vai escrever um memorando de acordo com a colaboração, cujos detalhes você irá acertar com o agente Hidalgo. Ou ela pode acusá-lo de vez, e nós todos podemos ir para a delegacia juntos e dar início a essa guerra. Mas, filho, vou lhe dizer agora mesmo, e suplico para que acredite em mim: eu não sou um cara contra quem você quer travar uma guerra. Vou pilotar a última missão kamikaze direto para o seu navio. Portanto, você tem meia hora para pensar a respeito.
Hidalgo e Mullen saem para o corredor.
— Estou impressionado — diz Hidalgo.
— Ahhhh… É um discurso antigo, eu tenho anotado. — Você sabe o que estamos encarando?
Porque Claiborne não está inteiramente errado. Se sacanear essa gente
que controla bilhões de dólares, eles ferram você de volta. E um John Dennison pode fazer um grande estrago.
— Seu chefe disse que estava disposto a ir até o fim — lembra Mullen. — Se era papo furado, eu preciso saber agora, pra que poder dar uma coça nesse babaca.
— Vou ligar pra ele.
Mullen volta lá para dentro, para ficar de babá.
Hidalgo liga para Keller e conta tudo.
— Você tem certeza de que quer fazer isso?
Ah, sim.
Keller tem certeza.
É hora de começar a agitar as coisas.
Keller declara sua estratégia para o combate da epidemia de heroína diante do comitê de Ben O’Brien e faz um resumo. Começou descartando a chamada “estratégia do chefão”.
— Como vocês sabem — diz Keller —, fui um dos apoiadores da estratégia do chefão: o foco em prender ou eliminar os líderes de cartéis. Ela se assemelha à nossa estratégia da guerra ao terror. Em coordenação com os mariners mexicanos, fizemos um trabalho extraordinário, tirando os cabeças dos cartéis Golfo, Zeta e Sinaloa, junto com dúzias de outros chefes de plazas e outros membros de alto escalão. Infelizmente, não adiantou de nada.
Ele lhes conta que as exportações de maconha do México tiveram uma queda de quase quarenta por cento; porém fotos de satélite e outros dados da inteligência mostram que os membros de Sinaloa estão convertendo milhares de acres de plantações de maconha para o cultivo de papoulas.
— Você acabou de afirmar que decapitou os principais cartéis — diz um dos senadores.
— Exato. E qual foi o resultado? Um aumento na exportação de drogas para os Estados Unidos. Quando nos moldamos na guerra contra os terroristas, seguimos o modelo errado. Terroristas são relutantes em assumir os postos principais de seus companheiros mortos; mas os lucros do tráfico de drogas são tão imensos que tem sempre alguém disposto a se apresentar. Portanto, tudo o que fizemos foi criar vagas de emprego pelas quais vale a pena matar.
Ele explica que a outra grande estratégia de interdição — um esforço para impedir que as drogas cruzem a fronteira — também não funcionou. A agência estima que, na melhor das hipóteses, consigam apreender quinze por cento das drogas ilícitas que atravessam a fronteira, apesar de, no plano de negócios dos cartéis, perda projetada seja de trinta por cento.
— Por que não conseguimos ter mais êxito que isso? — pergunta um
senador.
— Porque seus predecessores aprovaram o NAFTA — diz Keller. —
Três quartos da droga chegam em trailers e caminhões em travessias legais em San Diego, Laredo, El Paso, as fronteiras comerciais mais movimentadas do mundo. Milhares de caminhões por dia, e, se revistássemos cada caminhão e carro minuciosamente, fecharíamos o comércio.
— Você nos explicou o que não funciona — diz O’Brien. — Então, o
que vai funcionar?
— Há cinquenta anos, nosso maior empenho tem sido conter o fluxo do
sul para o norte — diz Keller. — Minha ideia é reverter essa prioridade e focar em acabar com o fluxo de dinheiro do norte para o sul. Se o dinheiro deixar de fluir para o sul, a motivação para enviar drogas aqui para o norte vai diminuir. Não podemos destruir os cartéis no México, mas talvez possamos fazê-los definhar a partir dos Estados Unidos.
— Para mim, soa como se você estivesse se rendendo — diz um deles. — Ninguém está se rendendo — afirma Keller. É uma audiência fechada, mas quer manter isso nos termos mais
abrangentes possíveis. Ele com certeza não vai contar sobre a Operação Agitador; se você espirrar em DC, alguém em Wall Street diz “saúde”. Não que não confie nos senadores, mas é que não confia nos senadores. Um ano eleitoral vem despontando, dois dos caras que estão sentados de frente para ele montaram “comitês de análise preliminar” e Comitês de Ação Política em busca de contribuições para a campanha. E, assim como eu, eles vão onde está o dinheiro, pensa Keller.
Nova York.
Blair já lhe dera uma dica de que Denton Howard está de aconchego
com John Dennison.
— Eles jantaram juntos num dos clubes de golfe de Dennison, na
Flórida — dissera Blair.
Keller imagina que ele tenha sido o cardápio. Dennison, ainda flertando com a possibilidade de se candidatar, tuitou
CHEFE DA NARCÓTICOS QUER SOLTAR OS TRAFICANTES DE DROGAS! QUE DESGRAÇA !
Bem, pensa Keller, eu quero, sim, soltar alguns dos traficantes. Mas não precisa de Howard papeando fora do horário de aula. Depois da audiência, cerca O’Brien no corredor e avisa que quer Howard fora.
— Você não pode demiti-lo — diz O’Brien.
— Você pode.
— Não posso, não. Ele é o queridinho dos conservadores, e eu vou encarar uma revolta do pessoal de direita na próxima eleição. Não tenho como me eleger nas eleições gerais, se perder nas prévias. Você vai ter que se virar.
— Ele está me apunhalando pelas costas.
— Não brinca — diz O’Brien. — É o que fazemos nesta cidade. A melhor maneira de lidar com isso é obter resultados.
O homem está certo, pensa Keller.
Ele volta para o escritório e chama Hidalgo.
— Como estamos indo com Claiborne?
— Falou umas merdas. Que um corretor cheira pó, que outro fundo de investimento pega pesado em…
— Isso não basta — interrompe Keller. — Dê uma prensa nele.
— Farei isso.
A outra ponta da Operação Agitador, “de baixo para cima”, está indo bem — Cirello está escalando. Mas a ponta de “cima para baixo”… esse merdinha do Claiborne acha que pode enganá-los com migalhas.
Precisam dar um aperto nele, fazê-lo colaborar.
Chega de carona.
Ou paga a passagem, ou desce do ônibus.
Eles se encontram no Acela.
— O que acha que somos, Chandler, babacas? — pergunta Hidalgo. — Acha que pode simplesmente nos dar um perdido e seguir com sua vida?
— Eu estou tentando.
— Não está tentando com afinco.
— O que você quer que eu faça? — pergunta Chandler.
— Quero que nos dê alguma coisa útil. Nova York está de saco cheio da sua encenação. Vão formalizar a acusação.
— Não podem fazer isso — responde Claiborne. — Temos um acordo.
— Ao qual você não está fazendo jus.
— Tenho feito o possível.
— Conversa fiada — diz Hidalgo. — Você está brincando com a gente.
Você se acha bem mais esperto que um bando de policiais que compram seus ternos prontos, e provavelmente é. É tão esperto que vai achar seu caminho para uma cela. Vai adorar o serviço de quarto em Attica, seu filho da puta.
— Não, me dá uma chance.
— Você teve a sua chance. Acabou.
— Por favor.
Hidalgo finge pensar a respeito. Então, diz:
— Tudo bem, me deixe fazer uma ligação e ver o que consigo. Mas não
prometo nada.
Ele se levanta, sai do vagão e fica um tempo no vagão ao lado. Então,
volta e anuncia:
— Ganhei mais um pouquinho de tempo. Mas não é infinito. Ou você
nos dá alguma coisa de útil, ou vou deixar Nova York comer seu rabo.
Keller recebe uma ligação do almirante Orduña.
— Aquele garoto que você está procurando talvez tenha sido visto. — Onde?
— Em Guerrero — responde Orduña. — Faz algum sentido? — Não. Mas quando foi que algo sobre Chuy Barajos fez sentido? Ninguém tem certeza se é ele, conta Orduña, mas alguém de seu pessoal
em Guerrero estava observando um grupo de estudantes radicais em uma faculdade local e avistou um jovem circulando pela área. O rapaz combina com a descrição, e ele ouviu que um dos alunos o chamou de Jesús.
Pode ser qualquer um, pensa Keller. — Que faculdade?
Chuy nem terminou o Ensino Médio.
— Espere aí — diz Orduña, verificando suas anotações. — Ayotzinapa
Rural Teachers’ College.
— Nunca ouvi falar.
— Somos dois.
— Será que seu pessoal poderia…
— Já está chegando, cuate.
Keller encara a tela do computador.
Meu Deus, quais as chances…
A foto chega.
É um garoto baixo e magrinho, com um jeans rasgado, tênis e um boné preto. O cabelo está comprido e desgrenhado.
A foto está meio embaçada, mas não há dúvida.
É Chuy.