A fronteira
LIVRO 4: Cerimônia de posse
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
— Eu não vou levar droga pra dentro de uma prisão federal —
respondeu Cirello.
— Não é droga — disse Darnell. — Esse cara não usa droga. São alguns
livros e um pouco de pão de banana.
— Pão de banana?
— O homem gosta de pão de banana. Tem problema, pra você? — Foi você que fez?
— Por que a surpresa? — perguntou Darnell. — É um trajeto de três
horas dirigindo, de Vegas a Victorville. Eu já coloquei seu nome na lista de visitantes.
O jato vai a oitocentos quilômetros por hora, e é um voo de cinco horas.
Cirello se acomoda com um Bloody Mary e reflete.
Os últimos meses foram uma loucura.
Primeiro, ele esteve em uma suíte de hotel com construtores bilionários,
ligados ao próximo potencial presidente. Agora, está em um jatinho particular, voando para Las Vegas, com alguns milhões de dólares a seus pés. Eles escolheram Vegas porque um jogador como Cirello iria lá, embora ele tenha a sensação de que o fornecedor não é baseado em Vegas, mas em algum lugar próximo, de fácil acesso.
O fornecedor não quer que o entregador saiba onde fica sua base. Cirello tem suas instruções.
No aeroporto, pegue um táxi, não um Uber, disse Darnell. Pague em
dinheiro. Faça check-in no Mandalay Bay, carregue suas malas, nada de ajudante. Fique no quarto e nada de chamar piranhas, porque seria bem ruim se uma delas saísse do quarto com uma das malas, enquanto você estivesse mijando. Apenas relaxe e assista um pouco de TV. Alguém vai lhe ligar.
Depois que você entregar o dinheiro, fique lá por um ou dois dias, e pode jogar. Ganhando ou perdendo, não importa. Pode transar, se quiser. Vá assistir ao Blue Man Group. Não seja evidente, mas nem sorrateiro. Seja apenas um policial em uma folguinha em Vegas.
Volte para casa em um voo comercial.
— Comercial? — questionou Cirello.
— Na volta pra casa, não importa o que a segurança do aeroporto vai achar na sua mala — disse Darnell. — O que foi? Já está mal acostumado? Está pensando que é o Jay-Z, não pode voar comercial?
— Tudo bem, mas é primeira classe, certo?
— Econômica.
— Ora, vamos.
— Se você ganhar uma grana, peça um upgrade — disse Darnell. — Do contrário, não tem motivo pra um policial voar de primeira classe. Policial é tudo pão duro. Olha os seus sapatos.
— O que tem de errado com meus sapatos?
— Se você não sabe…
Cirello pega no sono durante o voo. Acorda, faz um sanduíche de rosbife, abre uma cerveja e fica assistindo um pouco de DIRECTV.
A viagem está estressando ainda mais seu relacionamento com Libby.
— Se você puder esperar até domingo — disse ela —, eu poderia ir com você. Não temos apresentação domingo e segunda.
— Precisa ser sábado, gata.
— Está bem — disse ela. — Eu poderia encontrar você no domingo. Eu gostaria de conhecer Vegas.
— Eu tenho que fazer isso sozinho, Lib.
— Então, é trabalho — concluiu ela.
— Você sabe que não posso falar a respeito.
— Que trabalho faz um policial de Nova York em Las Vegas?
— O tipo de trabalho sobre o qual ele não pode falar — disse Cirello. — Jesus, me dá uma folga, pode ser?
— Ah, Bobby, eu vou dar toda a folga que você quiser.
O que significa, Cirello agora pensa, que ela vai me dispensar. Foi a maneira que ela usou para dizer que não está com o anzol na minha boca. Quer nadar, pode ir.
Algumas horas depois, ele está em Vegas.
Pega um táxi, faz o check-in e vai para o quarto.
Belo quarto, com vista para a Strip.
Seria legal sair por aí, mas ele precisa ficar e esperar o telefone tocar.
Sabe que vai levar um tempo, porque o fornecedor vai fazer sua inspeção. Vai querer ter certeza de que Cirello veio sozinho, de que os quartos em volta não estão abarrotados com federais, ou policiais de Vegas, vai ficar de olho em todo mundo que entra e sai do lobby do hotel.
Então, ele fica quieto.
Pega uma coca e um Toblerone, no frigobar, liga a televisão e encontra
um jogo de futebol universitário.
Jogo apertado, USC versus UCLA.
Faltando cinco minutos para terminar o último tempo, o telefone toca.
Eddie Ruiz acredita firmemente em ser multitarefas.
Combina de pegar o dinheiro em Vegas para poder pegar a 15, por duas
horas, e ver a família em St. George.
Deixar uma grana com Teresa e mantê-la calminha. Uma pomadinha no
ressentimento levemente infeccionado por estar presa em Utah. Ver as crianças, ouvi-las reclamando, levar todo mundo para jantar em algum shopping, depois pegar de novo a estrada de volta a Dago, para apaziguar a outra família.
Além disso, ele não queria que o entregador soubesse que ele mora em
San Diego.
O cara não precisa saber disso ainda, talvez nunca. E Eddie também gosta de Vegas.
Quem não gosta?
Se você tem dinheiro, e Eddie tem dinheiro, Las Vegas é o céu. Ele
chega alguns dias antes. Pega uma suíte no Wynn, entra no Eros.com e agenda uma loura inacreditável chamada Nicole, a quem leva para jantar no Carnevino, para comer um filé riserva, que ficou maturando por oito meses e é cobrado por centímetro.
Ele não sabe como Nicole é cobrada, mas vale cada dólar, quando eles
voltam para a suíte, e ele lhe dá mais mil dólares de gorjeta quando ela vai embora. Tem uma boa noite de sono, liga lá para baixo, pede uma massagem e, relaxado, desce e torra quarenta mil no vinte-e-um. Nessa noite, ele vai ao Mizumi, com uma garota asiática chamada Michelle, e depois dorme até Osvaldo ligar e dizer que seu dinheiro chegou.
Eddie toma um banho, pede o café da manhã e um bule de café, e quando ele termina a refeição, Osvaldo já verificou tudo, e o transportador, na verdade um policial, está sozinho e limpeza.
— Então, pega meu dinheiro — diz Eddie.
A campainha toca.
Cirello levanta, vai até a porta e olha pelo olho mágico. Vê um jovem hispânico em pé sozinho, e abre uma fresta da porta
— Cirello? — o cara pergunta.
— Sim.
Cirello abre a porta.
O cara entra e olha em volta.
— Tudo bem se eu verificar o banheiro?
Cirello gesticula Fique à vontade. O cara entra no banheiro e volta parecendo satisfeito por eles estarem sozinhos.
— Você tem algo pra mim.
— Eu preciso ouvir uma sequência numérica.
— 5-8-3-1-0-9-7.
— Bingo. — Cirello vai até o armário, pega as duas malas e as coloca no chão, perto dos pés do cara. — Vou precisar de um recibo.
— Hã?
— Brincadeira.
— Tá — diz o cara, sem achar muito engraçado. — Meu chefe mandou amor e respeito ao seu.
— Igualmente a ele — diz Cirello, embora Darnell não tenha falado nada disso.
O cara pega as malas.
— Prazer em conhecer você.
— Você também.
Cirello abre a porta e o cara sai.
Simples assim.
Faz sentido, pensa Cirello. Um cara saindo de um hotel com duas malas vai chamar zero atenção.
Hidalgo está em alerta para as malas, não para o cara.
Sentado no bar do lobby, ele vê o cara sair do elevador com as malas nas mãos e fala ao microfone em sua lapela.
— Saindo agora, homem hispânico, 1,70 m, camisa pólo rosa, calça de
sarja.
— Já vi.
A mulher lá fora, Erica, é deslumbrante a ponto de ser uma garota de
show de Vegas, só que é uma policial civil da LVPD. Keller tinha ligado pedindo um reforço do departamento local, pois não está envolvendo ninguém da Divisão de Narcóticos nisso, exceto Hidalgo.
Hidalgo até a convidaria para sair, mas isso é trabalho e ele está saindo
com a garota lá em DC. De qualquer maneira, Erica tem vista para o cara e ela é boa. Em segundos, ela manda uma foto dele aguardando o manobrista trazer seu carro.
Hidalgo manda a foto para Keller.
Então, ele escuta quando ela passa o modelo e a placa do carro alugado
do cara. Dois caras da narcóticos da LVPD aguardam em um carro para segui-lo.
Hidalgo pede outra cerveja e espera. Agora, isso é tudo o que ele pode
fazer. Então, Erica liga.
— Eles estão atrás dele.
Ele ouve quando ela relata as informações dos dois policiais da
narcóticos. O alvo está seguindo ao norte, pela Las Vegas Boulevard, a “Strip”, passa pelo Luxor, o Tropicana, o MGM Grand. Então, passa o Caesars Palace, o Mirage e o Treasure Island. Ele cruza a avenida Sands e vira, entrando no Wynn, desce do carro, pega as malas, joga a chave para o manobrista e entra.
Eddie, vestindo um roupão branco atoalhado, abre a porta para Osvaldo entrar. Ele olha as malas.
— Como é o cara?
— Pinta de policial.
— Nervoso?
— Ele fez uma piada boba.
— Sobre o quê? — pergunta Eddie.
— Precisar de um recibo.
— Na verdade, até que é engraçado — diz Eddie. — Ele abre uma mala,
tira um pacote de notas e entrega a Osvaldo.
Osvaldo vai embora.
Eddie não conta o dinheiro — Darnell é um negociante bom demais para entregar dinheiro a menos.
Eddie volta para a cama para tirar um cochilo.
Devo estar ficando velho, pensa ele.
Estou cansado de tanto trepar.
Hidalgo fica sabendo que o cara deixou o Wynn sem as malas.
— Vá até lá — ele diz a Erica. — Dispense seus caras e fique observando o local. Eu estou a caminho.
Ele liga para Keller.
— O cara que foi encontrar Cirello é provavelmente um empregado. Ele foi até o Wynn e deixou o dinheiro. Já temos uma identificação?
— Ainda não — diz Keller.
Hidalgo se apressa até o Wynn. Erica está em seu carro, na rua que vai da Strip até o hotel.
— Há outra saída? — pergunta ele.
— De carro, só essa.
Keller liga.
— Temos um nome: Osvaldo Curiel. Salvadorenho, ex-integrante das forças especiais. Trabalhou para Diego Tapia e depois para Eddie Ruiz.
— Chefe, Eddie Ruiz estava em Victorville, não foi?
— Na mesma época que Darius Darnell.
— Jesus Cristo.
— Fique em cima dele, Hugo.
— Pode deixar. — Ele vira para Erica. — Você consegue olhar o registro de hóspedes?
— Sem mandado?
— Sem nenhum papel.
Ela pensa por um segundo.
— Os hotéis geralmente são acessíveis para a gente. Vou tentar. O que devo procurar?
— Um Eddie Ruiz — diz Hidalgo. — Embora seja bem improvável que ele tenha se registrado assim. Mas se você vir alguma versão engraçadinha do nome…
Ele sabe que Ruiz deve estar com identidade falsa e cartões de crédito idem. Mas, às vezes, esses caras não gostam de ficar muito distantes de seus nomes ou iniciais.
Hidalgo aguarda.
Keller envia a foto mais recente de Ruiz, de sua admissão em
Victorville.
Já faz 45 minutos que Erica entrou. Quando volta ao carro, ela diz: — Não tem nenhum Eddie Ruiz.
— Achei que não.
— Mas… não, provavelmente, não é nada.
— Fala.
— Ruiz não foi um figurão do futebol americano, durante o Ensino
Médio, no Texas? — pergunta ela. — Um zagueiro?
— É, acho que sim.
— Tinha um “L.R. Jordan” registrado, se hospedou numa suíte duas
noites atrás — diz Erica. — Ele vem detonando o cartão AmEx.
Hidalgo começa a procurar no Google.
— Eu já fiz isso — diz Erica. — Lee Roy Jordan foi um famoso
zagueiro do Dallas Cowboys.
— Você pegou o…
— Quarto 1410 — responde Erica. — Se ele ligar pra recepção e pedir
alguma coisa, eles vão me avisar.
Hidalgo fica encarando ela.
— Nossa, você é boa nisso.
— Não fale pra mim, eu já sei — diz ela. — Diga ao meu chefe. — Deixa comigo.
Eles ficam sentados por uma hora e meia. Então, ela recebe uma
mensagem de texto.
— O sr. Jordan acabou de ligar pedindo um cheeseburguer com fritas. — Você já trabalhou servindo? — Erica pergunta a Hidalgo. — Não. E você?
— Fiz toda a faculdade trabalhando no Hooters — conta ela —, o que é
suficiente pra enjoar de homem, pelo resto da vida.
— Enjoou?
— Não.
— Você acha que eles a deixariam…
— Quando um hotel desta cidade precisa de um policial, precisa de um
policial — diz Erica. — Às vezes, eles não querem que isso apareça registrado, e se nós podemos ajudá-los nisso, nós ajudamos. Portanto, sim, acho que eles me deixariam subir.
Ela volta em 45 minutos.
— É seu garoto, Ruiz.
— Ele deu em cima de você?
— Hugo… é Hugo, não é?
Hidalgo fica arrasado.
— É.
— Todos eles dão em cima de mim. — Ela entrega a ele o tíquete do estacionamento. — E eu lhe arranjei isto. O carro não é alugado. Ele veio pra cá dirigindo.
— Erica…
— Hugo, vá fazer o que tiver que fazer — diz ela. — Mas me deixe fora disso. Eu já infringi um bocado de leis por hoje. Estarei no lobby, se precisar de mim.
Hidalgo liga para Keller.
Keller atende à ligação e ouve:
— O fornecedor de Darnell é Eddie Ruiz.
A melhor armadilha, pensa Keller, é aquela de sua autoria.
Fui eu que armei essa para mim, e não há saída.
Não há saída boa.
Se eu fizer a acusação contra Lerner e o resto, isso vai arrastar Ruiz para o bolo e se eu derrubar Ruiz, ele me leva junto.
Mas, se eu não fizer isso, o cartel pode comprar o governo dos EUA. Não é apenas uma questão de influência, de ter um “ouvido” no governo — isso já é bem ruim —, mas é uma questão de chantagem. O cartel pode brandir uma espada de Dâmocles virtual em cima da cabeça do governo, e pode usá-la a qualquer momento.
Faz todo o sentido, pensa ele, que essas pessoas leais somente ao dinheiro acabem se encontrando.
A merda busca seu próprio nível.
Então, agora temos um cartel no México e outro aqui, e eles estão se unindo.
Formando um único cartel.
A decisão inteligente é se afastar disso. Porra, você nem precisa se afastar, eles vão dispensá-lo. Vá, pegue sua aposentadoria, aceite um emprego como consultor, viva sua vida.
Você merece isso.
Leia livros, viaje com Mari, beba um bocado de vinho, vá assistir ao pôr
do sol com ela.
A alternativa é terminar a vida atrás das grades. E que diferença isso faz? Você vai impedir que esse negócio avance e
haverá outros. Vai encerrar essa fonte de drogas e apenas surgirão outras. Você vai se sacrificar por absolutamente nada.
Uma coisa é viver sua vida por algum propósito, outra coisa é entregá-la
por nada. Eu estou saindo, pensa ele. Em algumas semanas, no máximo alguns meses. Mas dediquei a porra da vida inteira à luta contra as drogas.
Ernie deu a vida por esse ideal.
Depois disso tudo, nem ferrando eu vou deixar um bando de traficantes
e traidores roubarem meu país.
Não foi o melhor hambúrguer que Eddie já comeu, mas puta merda, foi a melhor garçonete, uma garota negra tão gata que Eddie quis até ligar para Darius e contar. Agora entendi, irmão, agora entendi, entendi tudo. Da próxima vez que ele vier a Vegas, uma mulher afro estará em seu cardápio. Ele liga lá para baixo para pegarem seu carro, guarda suas tralhas e pega as malas cheias de dinheiro.
Vinte minutos depois, ele está na 15, rumo ao norte, seguindo para St.
George e para sua porção de drama doméstico.
Keller acompanha o trajeto de Ruiz lá de Washington.
A pequena luz do dispositivo rastreador que Hidalgo instalou embaixo
do para-choque traseiro — totalmente ilegal, sem mandado — segue piscando no mapa, na interestadual 15.
Keller tem que rir.
Eddie está seguindo até Utah para ver a família. Mas as ramificações não têm nada de engraçado, pensa Keller. Agora temos uma ligação direta entre a heroína batizada com fentanil,
em Nova York, Darius Darnell e Eddie Ruiz. E há uma ligação financeira entre Darnell, Ruiz, a Terra Company, o Berkeley Group, Lerner e Echeverría.
Echeverría liga os pontos ao pessoal do alto escalão no governo e no
mercado financeiro mexicanos.
Lerner faz o mesmo nos EUA.
De alguma forma, tudo isso aponta para Tristeza.
E Eddie Ruiz, pensa ele, aponta para você.
Cirello segue pela 15 em sentido contrário, ao sul e oeste, rumo à Califórnia.
Ele ficou no Mandalay, deixou cinco mil jogando dados, depois alugou um carro e foi embora. Quando se mora em Nova York, não se dirige toda essa distância, mas ele descobre que gosta. O deserto é supostamente monótono, mas ele nunca o tinha visto, portanto, aprecia.
A estrada segue direto até Victorville e ele se hospeda em um Comfort Inn.
Os motéis nos arredores de grandes cadeias tendem a ser locais tristes. A maioria dos hóspedes são familiares de presos ou defensores com clientes que já perderam, portanto, ninguém ali está muito feliz. No estacionamento, as crianças descem dos carros com olhos inchados pelo choro, as mulheres parecem exaustas, os advogados surgem com maletas cheias de apelações sem esperança.
Há uma piscina onde as crianças ficam, enquanto as mães sentam em volta e comparam os casos. Os advogados vão aos bares próximos ou pegam a estrada direto até LA e tentam se esquecer do dia em Victorville — que apelidaram, inevitavelmente, de Vila do Fracasso.
Se o motel é deprimente, é a Disneylândia se comparado à cadeia.
A prisão é um dos lugares mais tristes da face da Terra, pensa Cirello, ao entrar de carro na Penitenciária Federal de Victorville. Não são só as paredes e as espirais de arame farpado — Cirello sempre se espanta com a semelhança entre as prisões e qualquer galpão que se vê nas ruas secundárias do Queens, do Brooklyn ou do Bronx. Também servem para armazenar coisas. É palpável a sensação de desespero, desperdício, perda e dor.
Prisões são palácios da dor.
Se as paredes pudessem falar, elas uivariam.
Cirello não é nenhum liberal de coração ardente. Ele botou muitos caras na cadeia e fica contente que o lugar da maioria seja ali. Como a maior parte dos policiais, ele conhece as vítimas do crime e a dor que elas sentem, já viu isso em primeira mão nas ruas, nas salas de emergência, nos necrotérios. Ele conhece pessoas que carregam as cicatrizes de surras, as mulheres que convivem com seus estupros. Ele já foi incumbido de ir até as famílias das vítimas e dizer-lhes que seus entes queridos nunca mais voltarão para casa.
É muita dor.
Não, Cirello tem pouca compaixão pelos babacas que sofrem atrás
desses muros, mas ele sabe…
Alguns deles não deveriam estar ali.
Não são só os inocentes, os casos em que o sistema errou, é o sistema
em si. Como um policial da narcóticos, ele já conduziu muitos transgressores por drogas até a cadeia, e foda-se a maioria deles, eles vendiam a morte por dinheiro.
Mas há os outros.
Os viciados que vendem para bancar o próprio vício, os fracassados que
foram pegos repassando uma pequena quantidade de maconha, os idiotas que invadiram uma drogaria procurando comprimidos, ou os idiotas ainda maiores, que assaltaram um posto de gasolina para comprar metanfetamina.
Ora, se eles alvejaram alguém, feriram ou mataram uma pessoa para
obter dinheiro para drogas, eles que apodreçam ali dentro, é onde eles têm que ficar. Mas e quanto aos crimes sem violência? Lotar as cadeias com tolos que não feriram ninguém, exceto eles mesmos?
Qual é o sentido?
Apenas aumentar o nível geral da dor?
Cirello está na lista de visitantes aprovados para Jackson, mas, em vez
disso, ele usa seu distintivo dourado de Nova York, para que os guardas logo saibam que ele não é advogado — os guardas correcionais detestam advogados — e sim um policial que precisa de uma sala de entrevista para conversar com um detento.
— Você trouxe presentes? — pergunta o guarda. — Eu preciso que esse cara fale comigo — diz Cirello. — Tem
problema?
— Nós vamos precisar revistar tudo.
— Claro.
Eles lhe arranjam uma sala.
Alguns minutos depois, trazem Arthur Jackson, com algemas nos
punhos e tornozelos.
Cirello deu uma olhada na ficha de Jackson. O cara está cumprindo três
penas perpétuas por uma encrenca de crack, no Arkansas.
Uma perpétua já não bastava?, pensa Cirello. O que o cara fez de tão ruim para ter que cumprir três vezes isso no palácio da dor? Eu prendi assassinos que voltaram apara as ruas em cinco anos. E Jackson não parece um assassino. Ele parece mais um líder do culto em alguma paróquia do interior.
Jackson senta e sorri.
— Obrigado por vir.
— Sem problemas.
— Como vai Darius?
— É, vai bem.
— Ele está se comportando? — pergunta Jackson. — Nada de drogas?
— Está comportado.
— Que bom — diz Jackson. — Ele conseguiu um emprego?
Algo perverso na alma de Cirello quer responder Sim, na indústria farmacêutica, mas ele diz:
— Ele está trabalhando com drywall. Está indo bem. Ele me pediu para lhe trazer estas coisas.
Jackson parece profundamente satisfeito. Dois dos livros são sobre estratégias de xadrez, outro é uma análise sobre o Livro de Mateus.
— E pão de banana? Darius costumava fazer pão de banana aqui!
— Não brinca?
— Sério — diz Jackson. — Bem, obrigado por ter esse trabalho.
— Qualquer coisa por Darius.
— Como você o conheceu? — pergunta Jackson.
— Ele fez uma parede de drywall no meu apartamento — responde Cirello. — Nós ficamos amigos. Quando eu falei que viria perto daqui, ele me pediu para dar uma passada.
— Darius fazendo amizade com um policial. — Jackson sacode a cabeça. — Quem diria!
— Eu vou trazer outro pacote, da próxima vez que vier.
— Bacana — diz Jackson —, mas eu não estarei aqui.
Como é que é?
— Sr. Jackson, eu pensei…
Jackson sorri.
— Eu vou receber uma atenuação presidencial.
— O presidente atenuou sua pena?
— Ainda não — diz Jackson. — Mas vai atenuar.
Cirello ouve um som em seu peito que deve ser seu coração partindo.
Ele não conhece o presidente, mas está certo de que Barack Obama nunca ouviu falar em Arthur Jackson. Ele teve oito anos para atenuar a pena de Jackson. Uma criança saberia que isso não vai acontecer. Arthur Jackson vai passar o resto da vida — e as outras duas — bem aqui, nesta prisão.
Ele ainda não morreu, mas já está enterrado.
— Sei o que você está pensando — diz Jackson. — Mas eu tenho fé.
Sem fé, sr. Cirello, não temos nada nesta vida. Nem na próxima.
Cirello levanta.
— Foi ótimo conhecê-lo.
— O prazer foi meu — diz Jackson. — Embora, por favor, não se
ofenda, eu espere não vê-lo de novo.
— Eu também espero, sr. Jackson.
Cirello já rodou cinquenta quilômetros na estrada, em direção a Vegas,
quando subitamente começa a esmurrar o painel do carro. Quando chega de volta à cidade, ele fica razoavelmente bêbado, joga mais dez mil nos dados e pega um voo para Nova York.
Ele não faz upgrade.
Eddie Ruiz sente-se tão feliz por estar de volta à estrada que dá vontade de descer do carro e beijar o asfalto.
“Pé no saco” nem de longe descreve Teresa e a família de St. George.
Eles eram amor de prisão. Não que Eddie tivesse sido enrabado na cadeia, mas ele ouviu o suficiente para saber que era bem parecido com ter que aturar a esposa e os filhos.
— Eu não cuido de você? — perguntou Eddie, durante uma das várias
brigas com Teresa. — Eu não sou provedor? Acabei de lhe dar duzentos mil!
— A gente nunca te vê! — disse ela. — E estamos em Utah! — Há lugares piores.
— Diga um!
Eddie podia dizer dois, Florence e Victorville, mas ele achou que uma
referência aos seus anos na prisão talvez não fosse o melhor caminho. — Eu prometo: assim que estiver com as coisas organizadas, vou mandar buscar vocês, vamos todos morar na Califórnia.
— Onde, na Califórnia? — perguntou Teresa. — Não num buraco
qualquer.
— Não. La Jolla.
Eddie estava inventando essa merda conforme dava na telha.
Angela queria um carro.
E não era qualquer carro. Uma BMW.
— Você tem quinze anos — disse Eddie.
— Em breve, vou tirar minha habilitação.
Certo. A garotada de Utah tira habilitação quando tem, tipo, onze anos. Mas uma BMW? Sem chance, porra.
— Eu talvez compre um Camry usado.
— Porra nenhuma!
— Ei!
— Eu tenho cara de quê, pai? — perguntou Angela. — Alguma mórmon lourinha de trancinhas noiva do próprio primo?
Eddie não soube o que responder.
Ele tampouco sabia o que dizer a Eddie Jr.
Eddie não se lembrava de tê-lo deixado cair de cabeça no chão, nem de deixá-lo comer lascas de tinta, nada assim… mas que garoto imbecil. E lerdo que nem uma poltrona reclinável. Só que a poltrona se mexe, quando alguém aciona o botão.
Eddie Jr., não.
Supino é sua posição permanente.
Portanto, Eddie está feliz por dirigir de volta a San Diego.
Ele pensou em parar em Vegas para pegar uma negra, mas concluiu que era arriscado demais, com três milhões no porta-malas. Ele simplesmente ligou pro Osvaldo, informou sua localização e o garoto já seguia atrás dele, fazendo a segurança.
Osvaldo fica vigiando enquanto Eddie encosta na Primm, dá uma mijada, volta para o carro e segue direto até San Diego.
Mas não de volta para Priscilla.
Eddie teve o suficiente de drama familiar, por um bom tempo.
Então, ele vai para seu canto, em Solana Beach.
Eddie alugou um lugar bem no burburinho, de frente para a praia. É um apartamentinho de um quarto, mas a vidraça do chão ao teto oferece o que o corretor chamou de “vista da água”, pois dá para ver as ondas quebrando na areia e o marzão se estendendo à sua frente.
A cozinha é minúscula, mas Eddie não liga, ele não vai cozinhar muito, mesmo. Um lugar, a duas quadras, serve um café da manhã bem decente com burrito, e há bons restaurantes para todo lado, em Solana Beach e em Del Mar.
E estúdios de ioga.
Não importa onde você está, 360° à sua volta tem um monte de gatas e
mamães gostosas rebolando com suas calças Lululemon, indo para a aula de ioga, com aquelas bundas empinadas de tanto fazer a pose “do cachorro olhando para baixo”.
Eddie está feliz ali.
E anônimo.
Ele alugou o local com outro nome, pagou doze mil em dinheiro, por
três meses de aluguel, e ninguém fez uma única pergunta. A preocupação californiana só com o próprio umbigo funciona bem se você estiver tentando desaparecer, pois ninguém ali dá a mínima para ninguém.
É perfeito.
Eddie sente-se seguro ali.
Ele está pensando em fazer umas aulas de surf.
Hidalgo assente educadamente para Eddie.
Um daqueles estranhos cumprimentos de homem. Eles estão sentados na área externa de uma cafeteria em Solana Beach,
onde Eddie está devorando um burrito.
Hidalgo volta a olhar seu telefone.
Não é trouxa de se estender no contato com Ruiz. Agora, eles sabem onde ele mora, em um daqueles apartamentos que o
dono ausente aluga aos turistas por períodos semanais ou mensais, quando não está usando. Uma população com alta rotatividade; as pessoas entram e saem o tempo todo, ninguém chama atenção. Uma garagem subterrânea onde Ruiz estaciona seu Porsche.
Eles poderiam prender Eddie neste momento; ele está de posse de três
milhões de dólares em espécie, que eles poderiam rastrear diretamente de volta a Darius Darnell. Mesmo que não conseguissem ligar Eddie aos carregamentos de heroína, isso o colocaria em transgressão direta do acordo de sua sentença. Eles poderiam trancá-lo por uns trinta anos.
Sob essa ameaça, poderiam apertar Eddie para entregar sua fonte
mexicana. Ruiz tem um histórico de delator, portanto, não seria tão difícil fazê-lo falar agora.
Mas Keller descartou essa ideia.
— Se prendermos Eddie, nós temos Eddie — disse o chefe. — Se ele nos der sua fonte mexicana, nós podemos ou não pegá-la. Eu quero tudo: Eddie, sua fonte, os banqueiros, os empreiteiros, todo mundo. Se não conseguirmos isso, o que estamos fazendo?
Eu não sei, chefe, pensa Hidalgo, mas sei que estamos correndo contra o tempo nesse jogo. Isso não é futebol, não é beisebol, ninguém garanta que teremos nossa vez no arremesso antes que o novo cara entre e soe o apito. Temos que fazer nossa jogada agora.
Mas ele entende. Há sentido no argumento de Keller.
A expedição do mandado é outra história.
Hidalgo quer grampear a casa de Eddie.
Se transformarem o lugar em um grande estúdio de gravação, eles talvez consigam ouvir Eddie Maluco ao telefone, falando com seu pessoal ao sul da fronteira. Eles ouviriam todo tipo de troço útil. É, seria melhor ter um mandado, mas por que Keller não o arranja com o mesmo juiz federal que deu o mandado do The Pierre? Eles têm muito mais necessidade agora do que naquela reunião com os grandes banqueiros.
Só que o chefe não quer.
— É arriscado demais.
Qual é o risco? Hidalgo se pergunta. Que possa vazar? Que a oposição dentro da Divisão de Narcóticos fique sabendo? Ou que isso chegue a nossos colegas banqueiros e eles encerrem o negócio? Mas, se esse fosse o caso, o juiz já os teria pegado.
Então, por que Keller não quer?
Ele quer “pensar a respeito”.
Hidalgo até se arriscou a levar o assunto a outro nível. Tipo, tudo bem, chefe, se você não quer pedir um mandado, vamos fazer na surdina. Ele até se propôs a correr o risco de invadir a casa de Eddie para pôr a escuta; ele mesmo ficaria monitorando. Porra, eles botaram o rastreamento no carro na raça, qual é a diferença?
Keller mais uma vez disse não. Ou, pelo menos, ele disse “ainda não”.
Mais uma vez, ele queria pensar a respeito.
O que há para pensar?
Keller não é exatamente um cara que segue a cartilha. As histórias sobre ele são verdadeiras lendas e essas histórias não são sobre sua obediência aos procedimentos apropriados.
Então, será que ele simplesmente perdeu sua ousadia? Seu ímpeto?
Ou…
Do que ele está com medo?
É preocupante. Hidalgo sabe que Keller e Ruiz são dos velhos tempos,
que Ruiz era uma fonte dele, lá no México, que Eddie entregou Diego Tapia e, como recompensa, Keller intermediou o acordo de sua sentença.
Então, será que ele continua protegendo Eddie? Se estiver, por quê?
Hidalgo faz questão de não erguer os olhos do celular, quando vê Eddie
levantar, jogar a embalagem do burrito no cesto de lixo e ir embora.
Aonde você vai, seu filho da puta?
Ao banco.
Bem, bancos, no plural.
Primeiro Eddie dirige duas horas, até o leste de Calexico, uma cidade
cujo nome já diz tudo: é bem na fronteira da Califórnia com o México. Há quatro bancos pequenos na cidade, e ele usa os bancos pequenos porque eles precisam de dinheiro e o governo não presta tanta atenção neles.
Eddie já sabe quais bancos são bom negócio.
Ou seja, quais bancos aceitarão múltiplos depósitos de 9.500, em
espécie, em alguns dias, da mesma pessoa, sem preencher o tal formulário de atividade suspeita. Abaixo de dez mil fica a critério do banco, mas, por lei, se receberem depósitos suspeitos, mesmo abaixo de dez mil, eles devem preencher o documento.
Alguns bancos são menos desconfiados que outros. Eddie não vai ao Wells Fargo.
Grande demais, supervisão demais.
Ele escolhe dois bancos menores e deposita 9.500 em cada um. Depois, volta pelo oeste, parando em cidadezinhas como El Centro,
Brawley, Borrego Springs, Julian e Ramona, fazendo depósitos em cada uma delas, como Johnny Moneyseed. Então, ele vai para os subúrbios, Poway, Rancho Bernardo, e cidades pequenas, como Escondido e Alpine. De volta à área metropolitana de San Diego, ele passa pela periferia e vai aos bancos de El Cajon, National City e Chula Vista.
Ele leva vários dias, mas quando termina, já dispensou um milhão. Os outros dois ele entrega a Osvaldo para levar de carro até o México e
dar para Caro.
Eddie vai entrar no consórcio.
Ele é um orgulhoso investidor do Park Tower.
Vegas, benzinho.
Uma suíte no Four Seasons.
Cirello se instala e espera pelo transportador de Ruiz.
É engraçado a que uma pessoa se acostuma, e com que rapidez, pensa ele, olhando pela janela, para a Strip, lá embaixo. Jatinhos particulares, suítes de hotel, serviço de quarto, bebida de primeira no bar… agora é tudo normal, o negócio habitual, o que ele espera.
Só que as coisas vão mudar.
Se ele puder fazer a grande jogada.
O próximo degrau da escada. Primeiro, foi DeStefano, depois, Andrea, depois, Cozzo. Então, ele subiu até Darnell.
O próximo.
A campainha toca.
É Osvaldo.
— Está com meu pacote?
— Entre.
Osvaldo parece hesitante.
— Nós precisamos conversar — diz Cirello.
— Você vai terminar comigo? — pergunta Osvaldo, mas entra. — O que é?
— Preciso me encontrar com seu parceiro — diz Cirello.
Ele entrega as malas.
— Algum problema?
— Todo problema é uma oportunidade, certo? — pergunta Cirello. Ele fala o que Mullen lhe mandou dizer. — Sabe, tenho passado a bola para um cara da Narcóticos. Agora, o cara está ficando meio apreensivo e quer uma fatia maior. Essa é a notícia ruim. A notícia boa é que ele está com umas ideias.
— Que tipo de ideia? — pergunta Osvaldo.
— Expandir o negócio.
— Eu levo isso ao meu parceiro — diz Osvaldo.
— Não, eu levo isso ao seu parceiro — responde Cirello. Ele sabe que a hora é agora, ou vai ou racha. Ou eles embarcam, ou não. Se não entrarem, eles vão chiar para Darnell e eu volto ao serviço na One Police. Ele não tem certeza do que quer que aconteça. — O negócio é o seguinte: eu não conheço vocês. Só sei que posso estar entregando dinheiro vivo a um cana, e eu posso dançar, pegar de trinta anos a perpétua. Meu parceiro na Divisão de Narcóticos tem a mesma preocupação. Nós precisamos saber com quem estamos lidando aqui.
— Pergunte a Darnell.
— Darnell não tem nada a ver com isso.
— É o dinheiro dele que está nessas malas.
— Não, é o dinheiro do seu parceiro que está nas malas — diz Cirello.
— E eu preciso saber que ele existe, e depois preciso olhar nos olhos dele.
— E isso vai ajudar em quê?
— Eu saberei — diz Cirello. — E vou apresentar a seu chefe uma
oportunidade que, acredite, ele não vai querer perder.
Osvaldo pensa e fala:
— Eu vou perguntar.
— Vou esperar.
Por duas longas horas.
Então, o celular toca.
— Cinco minutos. Lobby. Você senta no bar.
Cirello desce e senta no bar. Deixa quem quiser olhá-lo que olhe, para
ter certeza de que ele está sozinho. Talvez eles estejam ao telefone com Darnell e, nesse caso, ele está fodido. Seu celular toca.
— Alugue um carro. Agora. Vá até o Speedway e estacione. Que pé no saco, pensa Cirello.
Mas ele vai até a recepção, aluga um Camaro e segue ao norte, pela 15,
até o Speedway de Las Vegas, onde no imenso estacionamento. Talvez haja uns vinte outros veículos espalhados pelas vagas. Cirello sabe que eles estão dentro de um daqueles veículos, observando-o.
Ele fica ali sentado durante vinte minutos. Está prestes a ir embora —
eles que se fodam — quando um Mustang Shelby encosta a seu lado.
Eddie Ruiz está ao volante.
— Entre.
Cirello desce do Camaro e entra no Shelby. Se eles forem apagá-lo, será
agora. Mas não há ninguém no banco traseiro.
Ruiz se aproxima para revistá-lo.
Sente a arma, mas nada de grampo.
Porque Cirello não está com escuta.
— Com qual arma você está? — pergunta Ruiz.
— Uma Sig 9.
— Eu gosto da Glock — diz Ruiz. — Não tem o problema da trava.
— Eu gosto da trava.
— Você queria olhar nos meus olhos — afirma Ruiz. — Pode olhar.
Cirello olha.
— Então, agora já me viu — diz Eddie. — O que você quer?
— Fazer negócios.
— Nós estamos fazendo negócio.
— Você e Darnell que estão fazendo negócio — responde Cirello. — Eu sou apenas um mensageiro.
— Eu sei quem você é — diz Eddie. — Darius sabe que você quer fazer um acordo separado?
— Não, a menos que você tenha dito a ele — diz Cirello.
— O que acontece em Vegas…
— Então, você está interessado.
— Vamos nos divertir um pouco.
Eddie alugou um tempo na pista de corrida. Cinquenta pratas cada volta, e daí? Eles colocam os capacetes e toda aquela merda feliz, entram na pista e Eddie pisa no acelerador. Chega a 120, 140, 160, eles passam por uma curva inclinada e Cirello acha que vai vomitar.
Na volta seguinte, Eddie chega a 190. Ele está berrando, uivando, dando aqueles urros texanos, e Cirello imagina como será se espatifar na parede, sair girando no ar, cair em uma bola de fogo.
Eles entram na reta, Eddie berra acima do ruído do motor:
— Fala!
— O federal com quem eu trabalho! — diz Cirello. — Ele quer sentar com você!
— Esse cara tem nome?
— Vá encontrá-lo e você saberá!
A curva vem depressa demais. Eddie cala a boca e se concentra — até ele está com um pouquinho de medo. O carro derrapa um pouquinho, mas Eddie não pisa no freio, ele pisa no acelerador dentro da curva, deixa o carro seguir.
O estômago de Cirello está na boca.
Duzentos e dez, duzentos e vinte, duzentos e quarenta…
Vem a próxima porra de curva. Jesus Cristo.
— Tá com medo? — pergunta Eddie.
— Sim!
Eddie ri.
Acelera.
Duzentos e cinquenta, duzentos e sessenta entrando na curva seguinte.
Cirello está bem certo de que vai morrer. O carro voa pela curva e chega ao outro lado. Na reta, Eddie grita:
— Dizem que esse troço chega a 320!
— Você já fez isso?
— Não!
Que ótimo, pensa Cirello.
— Dá pra parar de sacanagem e vamos ao que interessa? — Esse é só o nosso primeiro encontro! — diz Eddie. — Não vá me
forçando a um ménage, logo de cara! Além disso, a vida é curta, cara. Você tem que se divertir enquanto pode. Não está se divertindo?
Não, pensa Cirello.
— Se você não vai conhecer o cara, eu estou fora! É muito arriscado tê-
lo como inimigo.
— Você está me ameaçando?
— Só estou lhe dizendo como são as coisas!
— Eu posso comprar outro policial de Nova York! — afirma Eddie. — Quer indicações?!
Eddie começa a diminuir ao chegar a 290, tira o pé do acelerador, entra
nos boxes.
— Essa foi uma onda. Puta merda. Quer dizer, quando você era
pequeno, nunca pensou em andar num carro de luxo, a trezentos por hora, numa pista particular?
— Nunca me ocorreu, não.
— Está certo, eu vou encontrar seu parceiro — diz Eddie. — Mas é bom
que valha a porra do meu tempo.
Nobu Hotel, no Caesars Palace.
Osvaldo abre a porta para que eles entrem. Revista os dois — armas,
tudo bem, grampos, não.
Uma suíte, claro.
É maior que o apartamento de Cirello. Um bar, óbvio, uma “sala de
mídia” com uma televisão LED tela plana, até uma mesa de sinuca. Cirello sabe que Ruiz mandou vasculhar tudo, de trás para a frente, e nem ele nem Hidalgo estão com escuta.
Seria arriscado demais, sem necessidade.
Ele só espera que Hidalgo seja tão bom quanto quem ele representa. O cara até que foi bem no serviço de apagar o outro, lá em Nova York, mas trabalhar como infiltrado é outra parada. Hidalgo é inteligente e durão, sem dúvida, mas essa é uma jogada e tanto.
Mas Hidalgo está à altura de seu personagem, com um terno Armani cinza que custou mais do que seu salário permite. Camisa branca de alfaiataria aberta, mocassins Gucci. Um jovem lobo em ascensão. Está na cartilha que Keller deu a eles — Ruiz presta muita atenção em roupas. Hoje ele está com sua camisa pólo que é sua marca registrada — em tom azul celeste — e calças de sarja.
Hidalgo já entra no papel, de cara.
É bem intrépido.
— Eu também vou revistá-los — anuncia Hidalgo. — Vocês dois.
Poderia ter bichado a reunião ali mesmo, mas Eddie sorri e ergue os braços. Hidalgo faz a revista em busca de um grampo, faz o mesmo em Osvaldo. Então, ele pega um detector e anda ao redor do ambiente.
— Eu já fiz isso — diz Osvaldo.
— Você fez pra você — responde Hidalgo. — Eu estou fazendo pra mim.
Ele não acha nada.
— Feliz agora? — pergunta Eddie. — Sente-se, tome um drinque.
Osvaldo os serve — uma cerveja Dos Equis para Cirello, uma vodca com tônica para Hidalgo. Eddie toma um chá gelado e Osvaldo não bebe.
— Eddie — diz Cirello —, este é o agente Fuentes.
— Tony — diz Hidalgo.
Keller criou uma identidade completa para ele. Se alguém verificar, vão encontrar sua ficha na Divisão de Narcóticos. Entrou pelo departamento de polícia de Fort Worth, ingressou na Narcóticos, fez trabalhos como infiltrado na Califórnia, depois no escritório de Seattle, e veio para a Central.
Carreira meteórica.
Divorciado, sem filhos.
Mora em um condomínio em Silver Springs.
— Olá, Tony — diz Eddie. — Você é mexicano?
— México-americano.
— Um camarada pocho.
— Eu sei quem você é — afirma Hidalgo.
— É o preço da fama — diz Eddie. — Olhe, se você quer mais dinheiro,
deveria estar falando com Darnell, não comigo.
— Darnell é trabalhador de campo — diz Hidalgo. — Eu quero lidar
com o dono da plantação.
Ele é corajoso, pensa Cirello.
Eddie olha para Cirello.
— Você disse a Darnell que ele é um catador de algodão? — Provavelmente omiti isso — diz Cirello. — Deixe-me colocar isso
de outra forma. Eu sou um cara de Nova York, eu posso lhe dar Nova York. Fuentes está na sede da Divisão de Narcóticos, no Departamento de Inteligência. Ele vê tudo.
— Você está me atiçando pra ter aumento? — Eddie pergunta a Hidalgo.
— Certo, de quanto está falando? Dê-me um número.
— Eu não quero um empregador — diz Hidalgo. — Quero um sócio. — Então, compre uma filial de fast food.
Força, pensa Cirello. Você tem que forçar agora, ou vai perdê-lo. — Você está vendo da maneira errada — diz Hidalgo. — Estou?
— Sim — insiste Hidalgo. — Neste momento, você tem um canal de
escoamento para seu produto — Darius Darnell. Isso lhe dá determinados mercados em Nova York, e se for tudo o que você quer, tudo bem, nós vamos tomar um drinque e eu vou encontrar alguém mais ambicioso, sem ressentimentos. Mas você está com todos os seus ovos em um cesto preto, e é um cestinho. Se qualquer coisa acontecer com Darnell, você está fora do negócio. Enquanto isso, sua concorrência ao sul da fronteira está entrando em Nova York de maneiras mais expressivas, trabalhando com os hispânicos. É só uma questão de tempo, até que eles tirem Darnell do mercado. Então, mais uma vez, você está fora do negócio.
— E como você vai impedir isso?
— Como foi que Adán Barrera chegou ao topo? — pergunta Hidalgo. —
Você sabe, você estava lá.
— Por que você não me diz, mesmo assim?
Cirello vê que Eddie está começando a ficar zangado.
— O governo o ajudou a matar seus concorrentes — diz Hidalgo. — O restante não tinha opção, a não ser ir com ele. Com meu acesso, nós podemos fazer o mesmo por você, aqui nos EUA.
Uma porra de um silêncio mortal.
— Não pense apenas na defensiva — diz Hidalgo. — Não pense só “esse federal pode me dizer se estou ou não sendo investigado”. Pense na ofensiva “Esse federal pode manobrar as operações da Narcóticos contra meus concorrentes”. Isso também pode funcionar em outro sentido: você obtém informação sobre seus concorrentes, você nos dá e nós podemos agir. Exatamente como foi com Barrera.
— Como posso saber que você tem esse tipo de alçada?
— Olhe os jornais amanhã — diz Hidalgo. — Porque hoje à noite, a Divisão de Narcóticos vai fazer uma batida no moinho de heroína de Núñez, lá no Bronx, e vai pegar quinze quilos. É meu presente para você, como prova de conceito.
Eddie olha para Cirello.
— Você foderia seu garoto Darnell dessa maneira?
— Ninguém está falando em foder Darnell — diz Cirello. — Nós estamos falando em expandir. Ele pode pegar o bonde com você, essa escolha é sua. Mas não pode saber sobre Fuentes.
— Por que não?
— Porque ele é um ex-presidiário negro — responde Hidalgo. — Eu não posso confiar nele. Eddie, se você quer ser uma equipe de mercado pequeno, está tudo bem. Eu entendo. Se o dinheiro está bom, é uma vida boa, de tempos em tempos você disputa o jogo pela final. Mas se quiser ser os Yankees, os Dodgers, Os Cubs… nós podemos ajudá-lo a chegar lá. Podemos colocá-lo em Washington, Baltimore, Chicago, Los Angeles.
— Até Vegas, se for o caso — diz Cirello.
— Nós podemos ajudá-lo a deslocar seu dinheiro — afirma Hidalgo. — Dizer-lhe quais bancos são seguros, quais empréstimos, quais consórcios… Podemos até apresentar pessoas.
Cirello vê Ruiz pensando.
Ruiz é um sobrevivente.
Ele saiu de uma pequena gangue, em Laredo, e se tornou o maior pistoleiro do cartel Sinaloa.
Depois trabalhou com Diego Tapia.
E o delatou, quando era uma questão de salvar a própria pele.
A lealdade de Eddie Ruiz é a Eddie Ruiz.
— E o que vocês levam por tudo isso? — pergunta Eddie. — Pontos — diz Hidalgo. — Eu como, quando você come. — Quanto você quer do meu jantar?
— Minha mãe sempre me disse “Coma igual a um cavalo, não que nem
um porco”. Portanto, cinco por cento.
— Você está maluco, porra.
— Então, me faça uma contraproposta.
— Dois.
— Obrigado pelo drinque — diz Hidalgo. Ele olha para Cirello tipo,
vamos nessa. — Eu não saio da cama por dois.
— Consegue pôr seu despertador por três?
— Talvez, quatro.
— Três e meio — diz Eddie. — Se você se provar, se fizer o que alega
que pode fazer.
— Eu farei — diz Hidalgo — e assista aos noticiários de amanhã. Sem
querer ofender, mas é você o tomador de decisão, Eddie? Ou eu preciso falar com mais alguém?
— Eu preciso explicar isso a algumas pessoas. — Ficarei na cidade este fim de semana — diz Hidalgo. — Você pode
me contatar através de Cirello. Ele será o intermediário, o homem da mala.
— Eu farei contato.
Hidalgo prossegue à conclusão.
— Eddie, nós realmente podemos fazer alguma coisa. Eddie lança outro viés.
— Por quê? Fora o dinheiro, por que você está fazendo isso? Hidalgo é veloz.
— Porque estou farto de lutar uma guerra que nunca vou ganhar — diz
ele. — Porque estou farto de ver as pessoas enriquecendo. E porque vocês vão começar a soltar o dedo brigando pelo território, e eu não quero ver isto aqui se transformar no México. Então, nós escolhemos logo um vencedor e ficamos em paz.
O cenário mexicano.
O Pax Sinaloa.
Agora, coisa do passado.
— E vão simplesmente nos deixar vender nosso produto? — pergunta Eddie.
— Viciados são viciados — diz Hidalgo. — Eles vão procurar em algum lugar. Eles que se fodam. Eu quero as ruas seguras para as pessoas que não estão injetando veneno nos braços.
— Eu farei contato — repete Eddie.
— Fico no aguardo.
— Vocês precisam de reservas, ou algo assim? — pergunta Eddie. — Posso conseguir uma mesa no Nobu, pra vocês.
Hidalgo ri.
— Nós provavelmente não devemos ser vistos jantando no Nobu.
— Estamos mais pro Denny’s — complementa Cirello.
— Entendi — falei Eddie. — Mas, quer dizer, se quiserem umas mulheres, e tal, o Osvaldo pode providenciar. Choncha de classe, por minha conta.
— Eu agradeço — diz Hidalgo —, mas gosto de caçar, sabe o que eu quero dizer? E Vegas é um ambiente generoso em alvos.
Eddie olha para Cirello.
— Eu vou jogar — diz Cirello.
— Ozzie, dê umas fichas pra esses caras, deixe que eles joguem por nossa conta.
Osvaldo dá a eles algumas fichas.
Eles descem, Hidalgo respira fundo.
— Jesus Cristo.
— Você foi ótimo, cara — diz Cirello. — Impressionou bem.
— Você achou? — pergunta Hidalgo. — Acha que vendemos?
— Eu acho que sim, mas quem pode saber? — diz Cirello. — Ele agora vai telefonar, passar isso acima. Depois, nós veremos. Enquanto isso…
Hidalgo sai para ligar para Keller.
Cirello vai para a mesa de vinte-e-um.
Joga com o dinheiro do cartel.
Keller aguarda a ligação.
Já arrependido por ter mandado Hugo.
Cem coisas podem dar errado, a menor delas é que Ruiz pode rejeitar a proposta, farejando uma armadilha. Ruiz pode levar Hugo para o deserto, meter uma bala em sua cabeça e outra na de Cirello. Não, ele não faria isso, ele é inteligente demais. Ainda assim…
O cenário ruim é horripilante.
Mas, o lado bom…
Uma chance de virar o cartel do avesso.
O telefone finalmente toca.
— Já saiu?
— É, eu estou bem.
— E…?
— Acho que ele mordeu — diz Hidalgo. — Ele vai passar acima. — Ele disse com quem precisa falar?
Porque seja quem for, essa é a pessoa que manda nas coisas. O
verdadeiro contato de Echeverría e do consórcio.
— Não — responde Hidalgo — e eu não quis forçar. — Foi a atitude certa — diz Keller. — Você tem certeza de que está
bem?
— Eu estou ótimo.
Ele soa pilhado, pensa Keller. Depois de uma onda de adrenalina. — Está bem. Fique tranquilo, vá para o quarto. Eddie leva 45 minutos para decidir levar isso ao nível acima. O número
para onde ele liga é em Sinaloa e o telefonema dura quase uma hora. O pessoal de Orduña está monitorando para Keller — a torre de celular mais próxima fica perto da casa de Rafael Caro, em Culiacán.
Rafael Caro, pensa Keller.
O velho se torna novo outra vez. O passado volta. Siga as drogas, siga o dinheiro.
Caro está ligado a Ruiz e Darnell.
Caro está ligado a Damien Tapia, que está ligado a Ruiz e Darnell. Damien Tapia deslocou heroína com Caro.
Foi Caro quem deu a ordem para matar os estudantes de Tristeza. Caro liga Echeverría a Claiborne e Lerner.
Na verdade, Caro a Lerner.
Certo.
Keller vai derrubar todo o esquema.
Em cima de si mesmo, se for necessário.